The Favourite – A Favorita

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Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

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La La Land – La La Land: Cantando Estações

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Hollywood ama a “fábrica de sonhos” chamada Hollywood. O cinema também ama ser cinema. Neste contexto de autorreferência, de certa nostalgia e de homenagem ao jazz é que surge La La Land, um filme perfeito para Hollywood (se) premiar. Assisti à produção no cinema, em uma das sessões de pré-estreia, e foi algo divertido. O filme é envolvente e muito bem feito. Mas é o melhor filme do ano? Para o meu gosto, não.

A HISTÓRIA: Começa com uma fila gigantesca de veículos parados no trânsito de Los Angeles. Cada veículo tem uma ou duas pessoas e cada automóvel é um pequeno mundo envolto em uma música diferente. Em um destes veículos, Sebastian (Ryan Gosling) ouve repetidas vezes a uma composição no piano. No carro da frente, Mia (Emma Stone) tenta lembrar as linhas que ela precisará falar logo mais em uma nova audição. O filme começa no Inverno.

De repente, Sebastian buzina indignado porque Mia não avançou na fila. Os dois trocam xingamentos e olhares irados, mas seguem no trânsito. Na cafeteria dentro dos estúdios Warner em que trabalha, Mia fica fascinada por uma das estrelas do estúdio, mas logo é lembrada pelo celular sobre o horário da audição. Ela vai para lá, mas não dá certo. Ainda assim, ela não desiste de seu sonho de ser atriz, e em breve vai conhecer Sebastian que também sonha, mas em ter um bar de jazz.

VOLTANDO PARA A CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La La Land): Vou ser sincera com vocês. Eu espera muito mais de La La Land. Seja pela coleção de prêmios que ele já ostenta e por ser o favoritíssimo para o Oscar, seja pelo filme anterior que eu vi do roteirista e diretor Damien Chazelle.

O início, os primeiros minutos de La La Land, para mim já foram um tanto frustrantes. Afinal, tudo que você não espera em pleno 2017 é ver um filme “clássico” do estilo musical. Não. Você espera um filme que renove o gênero, que introduza novas ideias. E aí, logo nos primeiros minutos de La La Land, somos apresentados para uma sequência óbvia e requintada de pessoas paradas no trânsito e que resolvem sair de seus carros para cantar e fazer uma coreografia “moderna” e que mostra diversidade da Los Angeles atual. Sério? Sério mesmo? Pensei isso quando assisti à cena.

Mas daí eu pensei: “Calma, tem muito para acontecer no filme ainda. Ele pode te surpreender”. Com uma certa ironia aqui e ali e, claro, demonstrando o seu grande talento estético e de ritmo, Chazelle apresenta um filme que tem diversos acertos e que tem a assinatura do realizador. Ainda assim e apesar da exuberância, das cenas lindas e das coreografias que nos fazem lembrar dos grandes, gigantes Ginger Rogers e Fred Astaire (se você não assistiu a nenhum filme deles, vá atrás agora mesmo!), La La Land parece uma grande homenagem ao cinema e ponto.

Há um compêndio de referências de Hollywood neste filme e, principalmente, a mensagem que vale sempre correr atrás de seus sonhos. Ok, a mensagem é bacana, mas não é nada inovadora. E mesmo a forma de seguir esta linha de raciocínio não é nova. Temos grandes momentos, o filme é lindo e nos remete a grandes episódios do que já foi Hollywood, mas como a própria protagonista fala, em determinado momento, ele me parece um tanto saudosista demais.

Entendo as razões que fizeram a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood dar todos os prêmios possíveis no Globo de Ouro para La La Land. Afinal, além da mensagem de “nunca desista dos seus sonhos”, qual é o grande tema desta produção? Hollywood e a sua fábrica de sonhos. O filme mostra toda a “fauna” que gira em torno dos estúdios de cinema de Los Angeles, todas as pessoas que pensam em um dia viver da arte e o que elas fazem para chegar lá.

Em uma época em que um presidente como Donald Trump está assumindo a presidência dos Estados Unidos e em que muitos artistas e imigrantes (muitos artistas são de fora do país) se sentem “ressabiados” ou com medo do que ele poderá fazer no cargo, La La Land lembra a todos sobre a importância/necessidade da “fábrica dos sonhos” de Hollywood. Além disso, e basta ver o histórico das premiações de cinema nos Estados Unidos, o cinema adora premiar a si mesmo.

Quanto a isso não há problemas, é algo legítimo. Mas em anos anteriores filmes do mesmo gênero que La La Land, como Moulin Rouge e The Artist (comentado neste link), renovaram os musicais cada um a sua maneira. The Artista, em especial, que também fazia uma homenagem escancarada para a “fábrica de sonhos” do cinema, foi ainda mais ousado que La La Land por resgatar um tipo de filme ainda mais esquecido, o do cinema mudo.

Com tudo isso eu não quero dizer que La La Land não seja divertido, que não faça a plateia rir ou se envolver. Não, ele consegue tudo isso. Há sequências realmente lindas e sacadas idem. Ryan Gosling faz um bom trabalho, mas é Emma Stone quem surpreende. A atriz é o melhor do filme, junto com algumas sequências belíssimas da produção.

Emma Stone tem em La La Land o filme da sua vida até aqui. Ela está linda, comovente e, principalmente, esbanja muito carisma. Mais que Gosling, que mantém o seu padrão de bom intérprete, mas que já fez filmes melhores. Além da sintonia entre os dois, o filme acerta no ritmo e no visual, além da edição que já virou marca registrada de Chazelle.

O roteiro… bem, o roteiro! Ele foi escrito para as pessoas que adoram uma boa história água-com-açúcar. Mas não surpreende em momento algum. A divisão da histórias em estações não é nada nova. A linha temporal de “garota conhece rapaz, os dois antipatizam no início mas depois se apaixonam” não poderia ser mais lugar-comum.

Assim como é bastante previsível o “perrengue” que os dois passam por boa parte da produção, a insistência de ambos, uma certa desistência dela e, finalmente, o sucesso para aqueles que persistiram. Até o desfecho para o casal não é mais surpreendente, após tantos filmes em que o “mocinho e a mocinha” não terminaram juntos. Enfim, absolutamente nada de novo no roteiro de Chazelle. Claro, há uma ou outra boa sacada aqui e ali, mas isso não deveria garantir o Oscar para ninguém. É pouco.

Ainda assim, é preciso uma justificativa para a nota abaixo. Afinal, ela não é baixa. Acho que Chazelle se sai bem, por um bom período do filme, em revisitar uma série de lugares-comum de forma envolvente. Com uma boa dinâmica de câmera e de edição, ele prende a atenção dos espectadores com uma história simples, deixando o trabalho mais difícil para os intérpretes que, claro, conseguem ter uma bela sintonia.

Além de tudo que eu já comentei, talvez a parte realmente interessante de La La Land é como o filme mostra a diferença entre a vida de sonhos e a vida real. Lá pelas tantas as cobranças e as palavras duras aparecem entre os protagonistas, e eles não sabem lidar muito bem com elas. Para mim, em termos de roteiro, o melhor momento da produção é quando Mia fica desiludida com a estreia de sua peça e decide voltar por um tempo, ao menos, para a casa dos pais.

Como ela mesma reflete, nem todo mundo dá certo. E talvez eu tivesse gostado mais de La La Land se ao menos um dos dois tivesse seguido um caminho que não fosse o do sonho. Afinal, esta é a realidade. Ok, o grande público vai para o cinema para ver o sonho. E por isso, talvez, La La Land tenha dado tão certo. O filme apresenta o que o público quer, sem fazer nada ousado no caminho.

Quando a produção confronta sonho com realidade, ela ganha pontos e chega a esboçar um final interessante. Depois, na sequência durante o piano no Seb’s ele volta a ousar ao mostrar um final que não seria previsível e que até poderia ser inovador. Mas no fim das contas, sempre, Chazelle acaba optando pelo óbvio e pelo que o grande público vai entender e gostar. Com isso ele está papando todos os prêmios. Bacana para ele. Mas não necessariamente para o cinema e a sua evolução.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho que dizer. Emma Stone rouba a cena. A atriz está maravilhosa em seu papel. Relembra à todas as grandes atrizes do cinema no auge de Hollywood. Dos filmes que eu assisti com ela, La La Land é o seu melhor trabalho. Ryan Gosling é lindo e gostamos de tudo que ele faz, mas acho que aqui ele está charmoso e serve de um bom par para Emma Stone, mas nada além disso. Gostei mais dele em Drive (comentado por aqui), por exemplo.

Mesmo que o filme tenha ficado aquém do que eu esperava, algo tenho que admitir: há sequências realmente incríveis na produção. Gostei, em especial, das coreografias e das cenas dos protagonistas dançando no morro após a festa em que eles se reencontram e ela pede a música I Ran; da dança no Griffith Observatory, quando bailam em um “céu de estrelas”; claro, da bela cena em que os dois atores cantam a principal música da produção, “City of Stars”; e, finalmente, gostei da sequência de “outro final” que sai da imaginação de Sebastian (ou dos dois).

A homenagem mais clara e escancarada é para o cinema e a própria Hollywood. Mas Chazelle também deixa muito clara a sua homenagem para a música, especialmente o jazz. A exemplo do que ele já tinha feito no seu filme anterior, o interessante Whiplash.

Um acerto do filme, assim como de outras produções recentes, é de apostar as fichas em poucos personagens. A história de La La Land gira em torno de Mia e de Sebastian, e isso é bom, especialmente porque se trata de uma “história de amor”. Mas há outros atores ótimos que fazem papéis menores – alguns, praticamente pontas. Me chamou a atenção, em especial, a fina ironia do papel de J.K. Simmons como Bill, o dono do restaurante que obrigada Sebastian a tocar apenas músicas natalinas – nada mais contrastante e irônico com o papel dele em Whiplash.

Além dele, há outros atores que merecem ser citados: Rosemarie DeWitt como Laura, irmão de Sebastian; Callie Hernandes como Tracy, Jessica Rothe como Alexis e Sonoya Mizuno como Caitlin, as três amigas com quem Mia divide um apartamento na parte inicial da produção; Claudine Claudio como Karen, chefe de Mia na cafeteria; Olivia Hamilton em uma super ponta como Bree, a mulher que não quer comer glúten; Finn Wittrock como Greg, o namorado de Mia na parte inicial do filme; John Legend em um papel até com certa relevância como Keith, amigo de Sebastian e que “abre a cabeça” dele sobre o “novo” jazz; e, claro, Tom Everett Scott como David, a “surpresa” no final da produção.

Tecnicamente falando, La La Land é muito, muito bem feito. Mas a história, convenhamos, é meio “bobinha”. Ou simplificada ao máximo para agradar ao grande público. Para mim, ficou faltando. Da parte técnica do filme, contudo, inevitável elogiar o excelente trabalho do diretor de fotografia Linus Sandgren, do editor Tom Cross e da trilha sonora de Justin Hurwitz. São, sem dúvida, os pontos altos da produção, assim como Emma Stone.

Outros aspectos que merecem elogios: o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Austin Gorg; a decoração de set de Sandy Reynolds-Wasco; os figurinos de Mary Zophres; o departamento de maquiagem com 15 profissionais afiados; os 29 profissionais envolvidos com o departamento de arte; e, claro, os 64 profissionais envolvidos no departamento musical, um elemento fundamental para a produção.

La La Land estreou no Festival de Cinema de Veneza no final de agosto de 2016. Depois, o filme passou por outros 19 festivais e eventos. Um caminho interessante para um filme tão comercial e de Hollywood. Nesta trajetória o filme ganhou impressionantes 132 prêmios e foi indicado a outros 183. Entre os prêmios que recebeu estão sete Globos de Ouro.

Como a produção mesmo sugere, La La Land foi totalmente rodado na Califórnia, especialmente em Los Angeles, em locais como o Santa Monica Blvd (bar Seb’s), EstWest Studios, Magnolia Blvd (local do “Van Beek Tapas and Tunes”), nos estúdios da Warner Bros., no Beverly Boulevard (quando Mia deixa os amigos no restaurante e sai andando pela rua), no Rialto Theatre (que faz as vezes de cinema Rialto), no Hermosa Beach Pier (na praia Hermosa, quando Sebastian começa a cantar “City of Stars” sozinho ainda), Griffith Observatory e Watts Towers – pontos turísticos de Los Angeles, entre outros pontos da cidade que abriga os estúdios de cinema de Hollywood.

Em certo momento do filme, Sebastian pergunta quem é o “Bogart” de Mia, em uma clara alusão ao filme Casablanca – veja se ainda não assistiu. Ora, a própria história de La La Land, que deixa no ar algo do gênero “sempre teremos Paris”, mas sem que eles tenham tido, faz uma clara alusão ao filme com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

Além disso, claro, La La Land tem muitas e muitas referências a outros filmes, sendo as mais evidentes as alusões à Singin’ in the Rain, The Bad Wagon, Top Hat, An American in Paris, The Umbrellas of Cherbourg, Swing Time, The Young Girls of Rochefort, e a homenagem com direito a trecho e tudo de Rebel Without a Cause. Com isso, o filme acaba sendo ainda mais nostálgico, porque faz as pessoas que já assistiram aos clássicos a ter ainda mais saudade deles. 😉

La La Land é um filme que não custou muito, especialmente se levarmos em conta a complexidade dos detalhes da produção. O filme teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos ele fez quase US$ 63,7 milhões e, nos outros países em que já estreou, outros US$ 34,7 milhões. No total, até agora, fez cerca de US$ 98,4 milhões. Com toda a visibilidade do Globo de Ouro e, logo mais, das indicações ao Oscar, certamente este filme vai obter um belo lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Outra Emma, a Watson, recusou o papel de Mia por causa dos conflitos de agenda que La La Land acabou tendo com Beaty and the Beast, dirigido por Bill Condon. Por sua vez, Ryan Gosling recusou o papel de Beast no filme de Condon porque preferiu o filme de Chazelle. Está claro quem acertou na escolha, não?

Segundo o compositor Justin Hurwitz, todas as músicas tocadas no piano no filme foram gravadas primeiramente pelo pianista Randy Kerber na fase de pré-produção de La La Land e, depois, o ator Ryan Gosling passou duas horas por dia, durante seis dias de cada semana, tendo aulas de piano para saber as músicas de cor. Quando as filmagens começaram, Gosling foi capaz de tocar todas as músicas sem que fosse necessário usar um “dublê” de mãos ou efeitos especiais intercalando com um pianista.

Uma das cenas de audição em que o diretor de elenco interrompe o desempenho de Mia para atender a um telefonema é inspirado em um dos testes que Ryan Gosling fez em sua carreira.

John Legend, que é cantor e pianista, teve que aprender a tocar guitarra para fazer o seu papel em La La Land.

Inicialmente, Miles Teller, estrela de Whiplash, foi cotado para fazer o papel de Sebastian. Mas, depois, ele acabou sendo substituído por Ryan Gosling.

La La Land foi rodado ao longo de oito semanas durante o Verão de 2015.

Esta produção teria uma forte ligação com a vida real de Emma Stone, porque a exemplo da personagem de Mia, Emma Stone também deixou a escola e se mudou para Los Angeles aos 15 anos de idade para tentar a carreira de atriz.

Emma Stone dá um show não apenas de interpretação, mas também cantando. E ela cantou “ao vivo” no filme, quando Chazelle começou a gravar a cena em que ela interpreta a canção “Audition (The Fools Who Dream)”, perto do filme. Que é linda, aliás. O diretor e o compositor Justin Hurwitz decidiram que ela iria escolher o momento em que ela pararia de falar os seus diálogos e começar a cantar e, por isso, não fizeram uma gravação prévia da música. Foi feito na hora.

Como comentei antes, La La Land levou nada menos que sete prêmios no Globo de Ouro 2017. É um recorde para a premiação – nenhum filme levou tantos prêmios em uma única edição do prêmio – e significou algo impressionante como o filme ganhar nas sete categorias em que concorreu. Ele foi premiado como Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Ryan Gosling, Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Emma Stone, Melhor Diretor para Damien Chazelle, Melhor Roteiro para Damien Chazelle, Melhor Canção Original para “City of Stars” (composta por Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul) e Melhor Trilha Sonora para Justin Hurwitz.

A produção venceu outros 125 prêmios além destes sete do Globo de Ouro. Desta lista imensa, destaque para os 19 prêmios que La La Land recebeu como Melhor Filme e que foram dados por associações de críticos, para 19 prêmios como Melhor Diretor para Damien Chazelle, para 19 prêmios como Melhor Fotografia, para sete prêmios como Melhor Edição e para 14 prêmios como Melhor Trilha Sonora. Além disso, Emma Stone ganhou seis prêmios como Melhor Atriz.

La La Land é o quarto filme no currículo do diretor Damien Chazelle. Antes ele fez Guy and Madeline on a Park Bench, sua estreia na direção em 2009; o curta Whiplash, em 2013, e o longa Whiplash, filme que deu visibilidade para ele, em 2014 (e que foi comentado por aqui). O próximo filme dirigido por ele e atualmente em fase de pré-produção é First Man, que será estrelado por Ryan Gosling e que contará a história do astronauta Neil Armstrong. Ou seja, tem grande potencial de ser outro sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,8 para La La Land, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 258 críticas positivas e 20 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Para mim estas avaliações são sintomáticas. A nota alta no IMDb revela o gosto do grande público, enquanto o nível de aprovação dos críticos demonstra que sob uma análise mais criteriosa o filme não é tão brilhante assim.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Quando eu vi La La Land ganhando tudo no Globo de Ouro eu pensei: “É preciso ter coragem para fazer um musical hoje em dia”. E a expectativa era assistir ao filme no cinema e me deliciar com ele. De fato, é um filme divertido. Bem conduzido, bem feito, um espetáculo para os olhos. E só. Ele não inova o gênero, não surpreende, não é inesquecível.

Apenas para ficar nas comparações óbvias, ele é menos inovador que Mouling Rouge ou The Artist. Foi e será muito premiado não porque mereça, mas porque Hollywood precisa, neste momento mais do que nunca, se autoafirmar. Dá para entender, mas nem por isso o resultado é justo. Há filmes melhores nesta temporada. Boa parte deles não será premiada, e isso faz parte do jogo da indústria cinematográfica.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: La La Land tem tudo para ser o filme mais indicado deste ano na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e, possivelmente, sair da noite do Oscar como o filme mais premiado. Mas, ainda que ele tenha papado tudo no Globo de Ouro, é preciso lembrar que há algumas diferenças entre as duas premiações mais visíveis de Hollywood.

As grandes diferenças estão em dois pontos fundamentais: quem vota em cada uma destas premiações e o fato do Globo de Ouro dividir os principais prêmios entre Drama e Musical ou Comédia. O perfil de quem vota no Globo de Ouro costuma ser mais “liberal” do que os votantes da Academia, sem contar que as visões sobre o cinema nem sempre coincidem entre quem comenta sobre os filmes (a imprensa, o Globo de Ouro) e as pessoas que fazem a indústria acontecer (votantes da Academia).

Além disso, musicais e comédias que acabam sendo valorizados no Globo de Ouro podem ser praticamente esnobados no Oscar porque, fora a categoria Melhor Filme, que abriga até 10 indicados, nas demais categorias podem concorrer até cinco filmes. Nem sempre há comédias ou musicais com qualidades para chegar até lá.

Mas, claro, La La Land é uma outra história. Não apenas pelas premiações no Globo de Ouro, mas pelas demais premiações e pelo sucesso nos cinemas. Então, calculo por baixo, La La Land deve ser indicado a pelo menos 11 categorias, podendo chegar a 13. As que eu acho que ele deve disputar são: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção e Melhor Figurino. Se quiserem “arrasar com o filme”, podem ainda indica-lo a Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Destes prêmios, quais ele deve levar para casa? Me parece quase certo que o filme vai emplacar em Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original, tendo grandes chances também em Melhor Diretor, Melhor Edição e Melhor Atriz. Se ele for papando quase todos os prêmios, deve levar também Melhor Filme. Assim, teria, pelo menos, sete estatuetas.

Da minha parte, para o meu gosto, ele não merecia levar o prêmio principal. Preciso ainda assistir a Moonlight e Manchester by the Sea, além de outros fortes concorrentes. Mas, só por ter assistido a Fences (comentado por aqui), posso dizer que eu acho o filme estrelado por Denzel Washington e Viola Davis mais merecedor do Oscar de Melhor Filme. Certo que Fences não chega nem perto da exuberância visual de La La Land, mas acho as interpretações e o roteiro do filme melhor. Enfim, são gostos… Veremos qual será o da Academia neste ano.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

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Há tempos isso não acontecia comigo. Assistir a um filme e demorar para chegar a conclusão se eu havia gostado do que tinha assistido e, em caso positivo, do quanto. Birdman fez isso comigo não apenas por ser um filme incômodo, muito crítico ao mainstream, mas também porque ele é belo em sua rispidez crítica. Apesar destes elementos, fiquei em dúvida porque me lembrei de outras produções que fizeram o mesmo, e não consegui ver toda aquela inventividade esperada em Birdman. Ainda assim, ficou claro que este é o filme mais ousado do Oscar 2015. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi corajosa em indicá-lo a tantos prêmios.

A HISTÓRIA: Um corpo celeste queima ao dar entrada na órbita da Terra. Corta. Dentro de um camarim, Riggan (Michael Keaton) levita enquanto pensa em como ele foi chegar ali. Reggan considera o lugar horrível, e está pensando nisso quando escuta o aviso do Skype. Do outro lado da câmera, Sam (Emma Stone), filha dele, pede ajuda do pai sobre as flores certas que ela deve comprar. Ele pede alquemila, ou outra que cheire bem, menos rosas. Ela diz que odeia aquele emprego, e desliga. Reggan se olha no espelho, e é chamado para o ensaio da peça de teatro que ele está dirigindo e protagonizando. Um dos atores, Ralph (Jeremy Shamos), sofre um acidente e precisa ser substituído. A partir daí, acompanhamos o desafio de Reggan em realizar o sonho de fazer algo sério em sua carreira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Birdman): Esta produção começa muito bem. O título do filme é promissor, assim como o começo dele com o texto de Late Fragment, de Raymond Carver, e a sequência de imagens icônicas antes de Michael Keaton começar a dar o seu showzinho particular.

Não há dúvidas que o roteiro escrito pelo diretor Alejandro González Iñarritu ao lado de Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo é o que o filme tem de melhor. Junto com a própria condução fluída de Iñarritu e o equilíbrio perfeito que ele consegue entre a valorização do trabalho dos atores e o foco constante no entorno em que eles estão imersos.

Ainda assim, o principal problema do filme também é o roteiro do quarteto e a sua preocupação em não apenas falar dos bastidores da vida de quem vive entre a arte do teatro e a indústria do cinema, mas também sobre a natureza das aspirações que move a cada indivíduo em cena – ou na plateia. Digo isso porque depois daquele começo tão promissor, somos imersos em um enredo de constante quebra de braços entre egos diferentes e suas motivações.

Para quem é ou foi ator Birdman deve ser uma ironia constante. Não duvido, apesar de nunca ter sido profissional desta área, mas apenas uma interessada e uma jornalista que já acompanhou de perto diversos atores e diretores de teatro, que muito do que vemos em cena acontece na vida real. A insegurança perto de uma estreia, o estresse por fazer sucesso e a libido extremada com constantes mudanças de parceiros sexuais fazem parte do jogo.

O problema, conforme o filme vai avançando, é que Birdman vai se tornando muito afeito a quem vive esta realidade. O grande público, aquele mesmo que gosta de acompanhar determinados atores e diretores mas que, dificilmente, vive em disputa tão acirrada de egos, sente-se pouco tocado pelos bastidores da coxia. Para nossa sorte, contudo, Birdman vai muito além deste cenário e ambiente.

Com bastante ironia e autocrítica para o próprio cinemão dos Estados Unidos, muito lucrativo em sequências algumas vezes infinitas de filmes com heróis em quadrinhos como protagonistas, pouco a pouco Birdman vai entrando na avaliação da própria vida feita por um ator que um dia já teve sucesso, mas que agora só pensa em voltar à cena para ganhar algum respeito. Separado de Sylvia (Amy Ryan), sentindo-se culpado pela filha ter se tornado uma viciada – afinal, ele sempre é acusado de ter sido um pai ausente – e há muito tempo sem fazer um papel de sucesso, o protagonista de Birdman quer renascer das cinzas.

Pena que nem todos nasceram para serem uma Fênix. Mas Riggan se esforça. O problema é que ele encontra um jovem talento, muito badalado por público e crítica, para duelar com ele em sucesso, prestígio e em cena. Mike (Edward Norton) aparece em cena para substituir o desfalque Ralph e parece a salvação da lavoura. Logo que o nome dele é anunciado, a procura pela peça de Riggan ganha novo impulso nas bilheterias.

O que pareceria algo positivo logo se mostra complicado porque Mike encarna o ator-estrela, aquela figura “indomável” que sente que é mais verdadeiro sobre um palco do que na vida real. Ele tem rompantes dos mais variados, o que chega a ser cômico. Mas o efeito para Riggan é devastador. Ele está cansado de tudo aquilo, e ao perceber uma versão mais jovem de si mesmo, talvez, ele avança ainda mais na autocrítica.

O problema de Birdman, para mim, nasce justamente desta clássica oposição entre o “ator em decadência” e o “jovem talento em ascensão”. Ainda que sejam filmes muito diferentes, ao detectar esta característica em Birdman, para mim foi impossível não lembrar do excepcional All About Eve, clássico de 1950 dirigido por Joseph L. Mankiewicz e com um show de interpretação de Bette Davis. A atriz veterana, na interpretação de sua vida, teve em Anne Baxter uma dobradinha perfeita.

Há 65 anos atrás Mankiewicz tratou como um gênio a questão do ego, da disputa pelo holofote, pelo poder e pela aprovação no mainstream. Agora, Iñarritu nos apresenta algo similar, mas com uma linguagem renovada, novos ícones para serem combatidos e pouco mais que isso. É pouco, muito pouco. Ser ácido com a busca do artista e também com o crítico que aparece como uma “estrela frustrada” e amargurada é fácil. Difícil é fazer um clássico para a posteridade como All About Eve.

Mas para não dizer que não falei de flores, vou citar o único aspecto que, para mim, faz o filme ser um pouco salvo. Ou, pelo menos, ser merecedor da nota abaixo. Se toda a discussão sobre a disputa entre egos na arte – ou na tentativa de arte – já é velha conhecida do cinema, o que Birdman traz de interessante é a forma com que o protagonista conversa com o próprio ego e referências a dois símbolos muito interessantes: o mito de Ícaro e a noção de super homem de Nietzsche.

No primeiro caso, o mito de Ícaro, vale citar um pouco da história do personagem segundo a mitologia grega. Antes de falar de Ícaro, interessante comentar feitos do pai dele, Dédalo, que era um grande arquiteto, artista e inventor. Certa vez, a irmã de Dédalo colocou o filho, Perdix, para aprender o ofício com o irmão. Mas o rapaz começou a se sair tão bem que, com inveja, Dédalo aproveitou uma ocasião em que eles estavam no alto de uma torre para empurrar o rapaz de lá. Atena, deusa que favorece o engenho, viu a cena e alterou o destino de Dédalo, fazendo com que ele se transformasse em um pássaro durante a queda.

Em certo momento, Dédalo foi chamado para prestar serviços para o rei Minos, de Creta – incluindo o Palácio de Minos. Ele também construiu o labirinto onde o rei aprisionou o seus inimigos e o temido Minotauro. Lá pelas tantas, Dédalo ajudou a princesa Ariadne a libertar Teseu e, por esta traição, ele foi aprisionado junto com o filho Ícaro no labirinto.

Como escapar a pé do labirinto era muito complicado e o caminho do mar também era controlado pelo rei, Dédalo pensou na alternativa de escapar com o filho pelo ar. Foi aí que ele construiu asas gigantes com galhos de vime e cera, orientando o filho de como fazer para voar e alertando que ele deveria ficar longe do sol. Apesar da advertência, Ícaro ficou empolgado com a sensação de liberdade do voo e subiu cada vez mais alto, até ter as asas destruída, cair no mar e morrer.

Contei essa história de Dédalo e de Ícaro porque é evidente o paralelo com Birdman. Primeiro, porque a inveja fez Dédalo matar a Perdix que, no fim das contas, na queda, virou um pássaro. Depois, que Ícaro foi absorvido pela sensação de liberdade e descuidou da própria segurança. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A visão otimista da história de Birdman pode nos levar por este lado. Riggan também sentiu inveja e, fascinado pela liberdade, no que ela significava o fim de todos os problemas, preocupações e culpas, ele também se lançou no espaço. Iñarritu sugere que, no ato, ele virou um pássaro. Forma poética, é claro.

Outra forma de encarar Birdman é observar a produção dentro do conceito de Nietzsche do super homem. Para mim, não foi à toa aquela cena de um meteoro chegando na terra, ou mesmo os diálogos que Riggan escuta e que seriam de seu próprio ego – plasmado no sucesso que ele viveu como Homem-Pássaro. Aquela cena do meteoro me fez lembrar o personagem do Super-Homem. Mas o que Nietzsche defende como super homem era o modelo ideal para elevar a humanidade, segundo o qual não são todos os indivíduos que vão evoluir, mas apenas os mais dotados e fortes.

Existiria, assim, o homem superior. Aquele que se elevaria acima da mediocridade e que teria uma existência baseada no esforço e na educação, sem contaminar-se com o amor que, no fim das contas, apenas impede o bom senso e o melhoramento constante do indivíduo. O ego de Riggan, que lá pelas tantas se materializa na figura do personagem que ele viveu do Birdman, defende exatamente isso. De que ele é um ser superior e que ele deve voar acima da mediocridade dos outros seres.

Mas o problema de Riggan, para mim, é que ele buscava, a exemplo do que afirmam as frases iniciais de Raymond Carver, apenas o amor. Seja ele prático, em uma vida feliz com a mulher e a filha, seja ele figurado no aplauso das audiências e nas ótimas avaliações dos críticos. No fim das contas ele queria ser aprovado, reconhecido, amado por todos.

Não conseguiu, assim, coincidir estas aspirações com o modelo de super homem de Nietzsche, e que o seu próprio ego defendia. No fim, ele só encontrou a alternativa da fuga. Do salto. De uma admiração impossível de admirar da liberdade dos pássaros.

A reflexão é boa, a sensação de incômodo permanece, mas ainda assim o filme não me convenceu de todo. Talvez porque eu não acredito que o mundo e a realidade sejam tão sem esperanças, tão cínicos, tão sem horizonte. Pessoalmente, e meu julgamento é composto também de meus gostos pessoais, prefiro outro tipo de filme e de reflexão.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento desta produção que chama a atenção é o trabalho do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. Ele faz a escolha cuidadosa de cada enquadramento de cada sequência, aproveitando muito os corredores e bastidores do teatro para aprofundar-se nas angústia e no habitat do protagonista e dos demais personagens. Outro elemento que logo ganha protagonismo é a trilha sonora de Antonio Sanchez, bem ao estilo de música acidental que, espalhada aqui e ali na produção, cria ainda mais o clima de realismo, sofisticação e angústia.

Vale também destacar, dentro dos aspectos técnicos do filme, a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a edição de Douglas Crise e Stephen Mirrione; o design de produção de Kevin Thompson e a decoração de set de George DeTitta Jr.

Ainda que centrado em poucos personagens, este filme tem um bom número de atores de peso em papéis secundários. Claro que quem rouba a cena e carrega a produção nas costas é Michael Keaton. Há tempos não vemos o ator em um desempenho tão bom. Mas ele tem ao seu lado uma grata surpresa: Emma Stone em uma interpretação de gente grande. A garota rouba a cena em muitos momentos. Edward Norton e Naomi Watts, ela interpretando a atriz Lesley, para mim, apenas fazem um papel mediano. Nada muito além do que estamos acostumados a ver.

Outra intérprete que tem presença marcante toda vez que aparece em cena é Amy Ryan. Ela está muito bem – ainda que apareça pouco. Zach Galifianakis também está bem no papel de Jake, empresário de Riggan. Para fechar o grupo de atores que ganha mais evidência no filme está Andrea Riseborough que se sai bem como Laura, a outra atriz em cena no teatro e que é namorada do protagonista.

Birdman estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. De lá para cá, a produção participou de outros 22 festivais, incluindo os de Telluride, Zurique, Londres, Viena, Estocolmo, Mar del Plata e Dubai. Nesta trajetória, Birdman conquistou impressionantes 119 prêmios e 148 indicações – incluindo nove indicações ao Oscar. Estes números são realmente impressionantes.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Globos de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Michael Keaton e o de Melhor Roteiro; o de Melhor Ator para Keaton no Prêmio Gotham; o de melhor Diretor de Fotografia do ano para Emmanuel Lubezki no Prêmio de Cinema de Hollwyood; o de Melhor Ator para Keaton, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton e por figurar no Top Ten de 2014 segundo a National Board of Review; e quatro prêmios secundários no Festival de Cinema de Veneza. A maioria dos prêmios recebidos pelo filme até agora foi conferida por associações de críticos de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Birdman teria custado cerca de US$ 18 milhões. Para os padrões de Hollywood, uma produção de baixo orçamento. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos o filme somou pouco mais de US$ 28,7 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, ele soma outros US$ 13,4 milhões. Está começando a dar lucro, pois. Mas com tantas indicações ao Oscar, é tendência que fora dos Estados Unidos, em especial, ele comece a arrecadar mais dinheiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Birdman foi totalmente filmado em Nova York, como a história mesmo sugere.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com o ator Michael Keaton, Birdman foi o filme mais desafiador que ele já fez. Ele comentou também que o personagem de Riggan é o mais diferente, na comparação consigo mesmo, que ele alguma vez interpretou.

Na entrevista que Riggan dá no camarim para a imprensa que está divulgando a peça dele, o ator comenta que não interpreta a Birdman desde 1992. Foi este ano quando, na vida real, foi lançado Batman Returns, no qual Keaton interpreta ao personagem-título.

Este filme todo foi rodado em menos de um mês. De fato, não era preciso mais que isso – até pela dinâmica da história. Boa parte da produção foi rodada dentro do St. James Theatre na Broadway.

Os atores tiveram que se esforçar para encaixar nos longos takes de filmagens de Iñarritu. Do elenco, Emma Stone foi a que protagonizou o maior número de erros e Zach Galifianakis foi o que errou menos.

Da mesma forma com que o personagem de Keaton é uma certa paródia da trajetória do ator, que protagonizou na carreira um Batman, o personagem de Edward Norton brinca com a reputação dele de ser muito ríspido e difícil de lidar no trabalho.

O tapete que vemos em mais de uma cena nos corredores dos bastidores do teatro é o mesmo que foi usado no clássico de Stanley Kubrick The Shining.

O título complementar do filme, “The Unexpected Virtue of Ignorance”, faz referência ao título do artigo que a crítica Tabitha (Lindsay Duncan) teria escrito elogiando a peça e o desempenho de Riggan.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção. O que é uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 232 textos positivos e apenas 19 negativos para Birdman, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,5.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Canadá.

CONCLUSÃO: O roteiro de Birdman atira para quase todos os lados no terreno da cultura pop dos Estados Unidos. Tipo de críticas que outros filmes menos “sérios” já haviam feito. Mas fora esta camada superficial, o filme de Alejandro González Iñarritu vai mais fundo na fogueira das vaidades e na disputa de egos do cinema e do teatro. Como outros filmes fizeram isso antes, não há muita novidades neste aspecto. O único ponto que esta produção avança é no mal estar que ela provoca, em uma que outra risada que desperta e no questionamento sobre o mito de Ícaro e o conceito de super homem de Nietzsche. É um filme corajoso, mas menos inventivo do que eu esperava. E, sem dúvida, não é o melhor filme do ano passado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Birdman foi o filme que recebeu o maior número de indicações na premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood junto com The Grand Budapest Hotel. Os dois foram indicados em nove categorias. Não deixa de ser surpreendente esse número de indicações justamente para estas duas produção, já que tanto Birdman quanto The Grand Budapest Hotel são um bocado alternativas. Especialmente a primeira.

Birdman concorre nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator para Michael Keaton, Melhor Direção para Alejandro G. Iñarritu, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Após assistir a esta produção, tenho sérias dúvidas sobre que estatuetas ela poderá levar para casa. Em cada uma destas categorias, para mim, ela tem concorrentes de peso e que levam vantagem pela qualidade. Ou seja, pelo meu critério, Birdman poderá sair de mãos vazias do Oscar. Vejamos.

Na disputa de Melhor Filme, considero Boyhood favorito. Michael Keaton mereceria um Oscar pelo excelente trabalho nesta produção, mas acho muito difícil ele ganhar do favoritíssimo Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Melhor Direção, acredito, irá para Richard Linklater – mas Wes Anderson pode surpreender nesta categoria. Melhor Roteiro Original pode ser uma opção para Birdman, ainda que o meu voto iria para Boyhood.

Esta produção ganhar em Melhor Fotografia seria uma verdadeira zebra. Ida leva franca vantagem, e mesmo Unbroken e The Grand Budapest Hotel são melhores que Birdman nesta categoria. Emma Stone tem praticamente chance alguma – Patricia Arquette deve levar a estatueta para casa.

Edward Norton sempre merece um Oscar, mas o meu voto iria para Ethan Hawke – pelo menos até agora, preciso ainda ver a outros três trabalhos. Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som são duas categorias em que o filme corre por fora, tendo outros fortes candidatos como favoritos – a exemplo de American Sniper, Interstellar e Unbroken. Resumindo, não seria uma total surpresa o recordista de indicações sair de mãos vazias. Mas acredito em uma ou duas estatuetas, mesmo que o gosto do espectador possa preferir outro dos indicados como ganhador.

The Help – Histórias Cruzadas

Surpreendente. Admito que se este filme não tivesse sido indicado a tantas estatuetas do Oscar e ganho tantos prêmios pelas atuações de suas atrizes, eu dificilmente o teria assistido agora. E The Help merece esta chance de ser visto. Ele conta uma história conhecida, mas sob uma ótica totalmente nova. Por isso a surpresa. E, claro, pelo ótimo trabalho do elenco da produção. O roteiro também é ótimo, junto com a direção de Tate Taylor.

A HISTÓRIA: Alguém escreve à lápis em um caderno comum. A empregada doméstica Aibileen Clark (Viola Davis) começa a contar a própria história, dizendo que nasceu em 1911 em uma fazenda. Ela diz que sempre soube que seria uma empregada, porque a mãe tinha sido uma e a avó, uma escrava doméstica. Skeeter Phelan (Emma Stone) pergunta se Aibileen já sonhou em ser outra coisa, e a mulher assente com a cabeça. Quando ela pergunta sobre o que a empregada sente ao cuidar de crianças brancas enquanto as suas, negras, estão sendo cuidadas por outra pessoa, Aibileen lança o olhar para um retrato na parede. E aí começa a ser contada a história dela, e de várias outras empregadas domésticas que vivem e trabalham em Jackson, uma cidade do Mississippi onde vigora a segregação racial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Help): Histórias bem contadas sempre são fascinantes. Bons textos, com interpretações inspiradas, fazem toda a diferença no cinema. O diretor pode até não fazer um trabalho inovador, inspirado. Pode filmar fazendo o bê-à-bá. Tudo bem. Mas se o roteiro não for bom e os atores não fizerem um trabalho condizente com ele, não há como remediar. The Help, para a sorte dos espectadores, tem ótimas histórias para contar, de um tempo onde as aparências contavam muito e quando a ignorância predominava, e com um plus de interpretações que faz a diferença.

O problema do filme é o que o roteiro, ainda que bem escrito, é simplório em muitos pontos. O diretor Tate Taylor adaptou o romance de Kathryn Stockett para a telona. Não li a obra, mas imagino que ele jogou para o cinema a mesma lógica do livro. E ela incomoda um pouco por duas razões: por estigmatizar as mocinhas e as bandida e pela preocupação da história chocar e, em seguida, suavizar o problema com a mesma intensidade.

Mas antes de falar mais destes deslizes, vou abordar as qualidades da produção. Porque The Help tem muitas. Primeiro, a interpretação impecável de Viola Davis. Cada vez que a atriz entra em cena, ela dá uma aula de como repassar para a telona a profundidade de emoções de uma personagem. Ela convence quando sorri e ensina mais uma menina de quem cuida. Faz o mesmo quando conta suas próprias histórias, ou emociona-se lembrando do filho. Além dela, outras grandes atrizes seguram o interesse na história, com destaque para Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer e Jessica Chastain. E os coadjuvantes também fazem um coro interessante para as ótimas interpretações.

A segunda qualidade da produção é tornar atrativas narrativas de histórias que nem sempre contam com flashbacks. Esse resgate do papel fundamental dos contadores de história, que nos estimulam a ficarmos sentados enquanto viajamos com eles para outros dramas e prazeres humanos, é um dos pontos fortes de The Help. E as histórias das empregadas domésticas negras subjugadas, até então escondidas, se tornam especialmente interessantes pelo ineditismo.

Ando assistindo à muitas séries de TV, e este filme me fez lembrar da premiada e elogiada – com razões – Downton Abbey. É como se o filme destrinchasse as relações de poder e os bastidores entre empregadas negras e suas patroas brancas e ricas da mesma forma – só que com menos profundidade, é claro – com que Downton Abbey destrincha as mesmas relações na sociedade inglesa.

O filme equilibra bem o humor e o drama e, ainda que o desenrolar seja bastante previsível, no meio do caminho temos algumas boas surpresas e sacadas do roteiro. A direção de Taylor não surpreende, mas pelo menos não atrapalha. O diretor acertou ao focar a câmera sempre valorizando o trabalho dos atores – que são, sem dúvida, os grandes responsáveis pela produção manter o interesse do público do início até o final. História de gente sempre atrai, especialmente quando trata de relações conflitantes e que são próximas de quem assiste – de uma forma ou de outra o preconceito racial e/ou com minorias ainda permanece, em contextos diversos.

A grande sacada da história é o filme dar voz para quem nunca tinha tido chance de expressar-se. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta questão me afetou, em especial, porque, afinal, como jornalista, sempre buscamos uma forma de, uma hora ou em outra, dar voz para essas pessoas excluídas e/ou esquecidas. Bacana ver uma personagem como a de Skeeter Phelan fazendo isso, e a repercussão importante que o seu trabalho teve. Neste sentido, The Help é um filme diferenciado, porque ele trilha caminhos antes não explorados. Outras produções já trataram de segregação racial, mas nunca tomando este ponto de vista – de empregadas e suas patroas – de bastidores familiares como tema central.

Mas nem tudo são qualidades. Agora sim, falarei mais do que me incomodou nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ainda que os atores desta produção façam um ótimo trabalho, eles estão baseados em personagens simplistas. Vejamos: será que apenas uma garota sem marido e que deseja ser independente, trilhando o caminho do jornalismo, poderia se incomodar o suficientemente para contribuir para uma mudança naquele cenário de injustiças? E será que apenas outra garota, isolada das demais, poderia também ser tão receptiva a uma empregada negra, a ponto de tratá-la como uma semelhante? Nenhuma mulher branca, casada e com filhos que fizesse parte daquela sociedade poderia, por sua própria conta e risco, se dar conta que aquela exclusão com base na raça era absurda? Curioso que há nuances de mudança na história, e esses indicativos aparecem, justamente, em mulheres mais velhas – como as mães de Skeeter e de Hilly.

Outra fonte de incômodo – ainda que esta reflexão surja depois do filme terminar, muito mais do que durante a exibição da história que, de tão envolvente, provoca pouca reflexão – é a preocupação da história em equilibrar, quase que matematicamente, o drama com a comédia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Será que é preciso realmente assoprar sempre depois de bater? The Help preocupa-se demais em chocar e suavizar ao mesmo tempo. Você espera sempre que algo pesado vá acontecer porque, de fato, episódios muito pesados aconteceram naquele cenário e tempo histórico. Mas a maior violência, a morte de um homem pelas costas, não é mostrada. The Help não deixa de ser um filme duro, mas essa dureza fica restrita apenas às histórias, às palavras e sentimentos. Fora as interpretações estonteantes, The Help parece pouco realista. Claro que ele não precisa ser realista, porque é um filme – antes que alguém diga o óbvio. Ainda assim, todo esse glacê na história faz com que ela não seja perfeita ou exemplar. O bom é que as atrizes estão tão bem que o sentimento que temos, no final, é de que acabamos de ver a um grande filme.

NOTA: 9,4 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um filme de atrizes. Os homens aparecem pouco em The Help e, quando aparecem, estão sempre dando base para o destaque de uma intérprete. Os únicos atores que tem algum destaque são o galã Chris Lowell, que assume a pele do estranhíssimo Stuart Whitworth, que corteja a “solterona” Skeeter Phelan; e Mike Vogel como Johnny Foote, o bom partido que escolheu uma mulher menos óbvia, a engraçada Celia. Vogel tem apenas uma grande sequência de diálogo na produção mas, quando diz as suas falas, se sai muito melhor que o colega Lowell – sem sal, na minha opinião, pelo menos neste filme.

Vários outros filmes trataram da segregação racial nos Estados Unidos, especialmente no Sul do país, onde ela ressistiu muito mais tempo à ceder. Provavelmente o mais famoso deles seja Mississippi Burning, o ótimo filme de Alan Parker, que já pode ser considerado um clássico. Vale também dar uma conferida em Malcolm X, filme estrelado por Denzel Washington e que trata do controvertido líder negro.

Pesquisando para citar aqui alguns textos importantes e interessantes sobre a questão racial no Sul dos Estados Unidos, encontrei uma frase do escritor William Falkner a respeito de seu estado natal, o Mississippi, que eu acho relevante: “eis um lugar onde o passado nunca morre”. O racismo mostrado no filme não terminou. E não apenas no Sul dos Estados Unidos, mas em tantas outras partes, e transvestido de formas muito diversas – e, geralmente, não verbalizadas.

Tenho alguns textos para indicar àqueles que ficaram interessados por este tema da segregação racial. Para começar, indico este, publicado em um especial do portal UOL de Joaquim Nabuco. O texto traz o depoimento de Barbara Carter, uma professora de uma universidade dos Estados Unidos para mulheres negras que viveu a discriminação legalizada naquele país. No final, há a citação de que ainda existiriam, nos Estados Unidos, 762 grupos racistas. Um dos principais, claro, é a Ku Klux Klan. Aqui, um texto que explica o surgimento e o desenvolvimento deste grupo. Para fechar, recomendo este texto, que mostra avanços e retrocessos na discussão da segregação racial nos Estados Unidos, e este outro, sobre o movimento dos direitos civis naquele país.

Além das atrizes já citadas, e que dão um banho, é preciso citar outras que engrossam o time do filme – e mesmo que não façam um trabalho brilhante, elas ajudam a esta história ser contada: Ahna O’Reilly como Elizabeth Leefolt, a patroa de Aibileen; Anna Camp como Jolene French, uma das amigas de Hilly; Cicely Tyson como Constantine Jefferson, a empregada negra que ajudou a criar a Skeeter; e Aunjanue Ellis como Yule Mae Davis, a empregada que entra para substituir Minny na casa de Hilly.

Duas atrizes que fazem papéis secundários, são veteranas e dão um show são Allison Janney como Charlotte Phelan, mãe de Skeeter, e Sissy Spacek como Missus Walters, mãe de Hilly. As duas, mesmo sendo de gerações mais antigas e, teoricamente, mais resistentes às mudanças, são as que revelam uma aceitação maior das mulheres negras como iguais – ou quase isso – do que as gerações mais jovens. Talvez porque elas já sejam capazes de reconhecer tudo que aquelas mulheres fizeram por elas e pelas demais, cuidando de seus filhos e famílias por muito tempo.

O filme é bem acabado. Além da direção que privilegia as interpretações feita por Tate Taylor, vale citar a envolvente trilha sonora do veterano premiado Thomas Newman, a direção de fotografia “aconchegante” e “de época” de Stephen Goldblatt, e a edição precisa de Hughes Winborne. Por ser um filme ambientado nos anos 1960, vale comentar o bom trabalho dos figurinos feito por Sharen Davis, a direção de arte de Curt Beech e o design de produção de Mark Ricker. Sem eles, não teríamos sido transportados com tanta fidelidade para aqueles anos.

The Help é um sucesso de público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 169,6 milhões. Mesmo que ele não sair com muitas estatuetas do Oscar, para o qual ele foi indicado quatro vezes – e tem chance de ganhar, no máximo, três estatuetas -, The Help já pode ser considerado um sucesso.

Este filme estreou nos Estados Unidos e no Canadá no dia 10 de agosto de 2011. De lá para cá, ele participou de seis festivais – sem dúvida, The Help é uma produção muito mais com cara de comercial do que de festivais. Mesmo não participando de muitos festivais, este filme embolsou, até o momento, 29 prêmios – e foi indicado a outros 64, incluindo os quatro do Oscar. Dos prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer; para o prêmio de melhor elenco conferido pelo National Board of Review; e para os prêmios para o elenco e de interpretações impactantes para Viola Davis e Octavia Spencer do prêmio Screen Actors Guild (que representa a categoria dos atores em Hollywood).

Uma curiosidade sobre os bastidores deste filme: as atrizes Emma Stone e Bryce Dallas Howard viveram a personagem de Gwen Stacy em filmes do Homem-Aranha. Outro fato curioso: o livro de Kathryn Stockett, no qual The Help é baseado, foi rejeitado 60 vezes antes de encontrar alguém que acreditasse em seu potencial e decidisse publicá-lo. E algo fundamental para este filme ter sido realizado: o diretor, Tate Taylor, é amigo de infância de Kathryn Stockett.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para The Help. Não está mal, mas está abaixo de outros concorrentes importantes deste filme no próximo Oscar. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais exigentes: publicaram 149 críticas positivas e 47 negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 76% – e uma nota média de 7.

The Help é uma co-produção dos Estados Unidos, da Índia e dos Emirados Árabes – curioso.

Vale lembrar que este é apenas o terceiro filme dirigido por Tate Taylor. Ator com 18 filmes no currículo, ele estreou atrás das câmeras em um curta, em 2003, e cinco anos depois, em 2008, dirigiu o primeiro longa, Pretty Ugly People. Com o sucesso de The Help, ele deve seguir nesta seara.

CONCLUSÃO: Um filme recheado de histórias interessantes narradas com uma ótica diferenciada sobre a segregação racial e a diferença de classes nos Estados Unidos. The Help é destas produções que busca o equilíbrio constante entre o drama e a comédia, com várias pitadas inusitadas e interpretações exemplares. As atrizes deste filme surpreendem pela dedicação e pela força de suas interpretações – não é por acaso que três delas foram indicadas ao Oscar e ao Globo de Ouro. E que duas estejam sendo apontadas como favoritas para levar uma estatueta dourada para casa no próximo dia 26. É um filme bem escrito, mas que falha ao suavizar a própria história, dividindo as pessoas claramente entre “boas” e “más” – quando sabemos que esta divisão é bem mais difícil de ser feita. Ainda assim, The Help é envolvente e deve cair no gosto popular, mais do que outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano.

ATUALIZAÇÃO NO DIA 14/04: Olhando para trás, acho que fui um pouco “bondosa” demais com o filme dando, inicialmente, a nota 9,4 para ele. Um 9 me parece mais justo.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Help foi indicado em quatro categorias do Oscar. Por repetir duas indicações em uma mesma categoria, a de melhor atriz coadjuvante, ele pode receber, na melhor das hipóteses, apenas três estatuetas. Mas deverá ficar com menos que isso. Ele não tem chance como melhor filme – pelo menos não tendo The Artist e The Descendants como concorrentes.

Levará, sem dúvida, na categoria de melhor atriz coadjuvante – provavelmente a ganhadora será Octavia Spencer, ainda que Jessica Chastain tenha se firmado como um dos grandes nomes do ano passado. Viola Davis, para a minha surpresa, está liderando muitas bolsas de apostas para a premiação. Caso ela consiga vencer das favoritas Meryl Streep e Michelle Williams, não será uma injustiça.

Viola Davis é uma das grandes responsáveis pelo êxito de The Help. Além do mais, para muitas pessoas, a Academia tem uma dívida com ela, desde que não a premiou pela interpretação estonteante – ainda que muito curta – de Doubt. Ela merece, pois. Agora é esperar para ver se ela conseguirá desbancar as favoritas e garantir o segundo de três Oscars possíveis para The Help.