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Carnage – Deus da Carnificina

Todos são muito civilizados. Até que cada um começa a ser contratariado. Esta não é a história apenas dos personagens principais do ótimo Carnage. Mas de cada um de nós. Como lidamos com o contrário, com o diverso, com a quebra de nossas certezas, diz muito sobre quem somos. Este filme de atores, que ganha força pelo ótimo roteiro e pelo trabalho dos protagonistas, expõe as fragilidades, contradições e a violência domada pela sociedade que, volta e meia, vem à tona quando as pessoas perdem o controle e as barreiras da civilização. Altamente recomendado se você não tem problemas com um filme rodado, totalmente, em um ambiente, e que abre mão das cenas de ação para apostar em uma outra forma de cinema.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças conversa e brinca em um parque. Enquanto alguns meninos jogam bola uns para os outros, outros começam a caminhar, até que um garoto parece desagradar aos demais. Ele é empurrado, e também empurra. O garoto parece levar um galho antigo em uma das mãos, e o utiliza para bater em um desafeto, no rosto. Na saída, ele responde a outros garotos e derruba uma bicicleta. Corta. Uma mulher escreve, no computador, uma declaração sobre o que aconteceu. Ela é Penelope Longstreet (Jodie Foster), mãe do garoto que foi golpeado, e chamou os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz) para uma espécie de “acordo amigável”. O que começa bem vai se transformando conforme Penelope e o marido, Michael (John C. Reilly) vão interagindo com Nancy e Alan.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carnage): Eis um filme fascinante, que mostra como grandes atores interpretando um roteiro impecável podem entreter tanto ou mais que milhões investidos em efeitos especiais. Uma ode a ótimos intérpretes que retratam a ironia da nossa civilização, que gasta tanta energia para educar-se e ascender socialmente, mas que segue rastejando em sentimentos e reações de cólera e que nos lembram aos animais mais irracionais.

O diretor e roteirista Roman Polanski faz mais um grande trabalho aqui. Talvez, um dos melhores de sua carreira. Produção universal, e que não deverá perder valor com o tempo. Carnage é um roteiro do diretor, que contou com o trabalho do tradutor Michael Katims para reproduzir todas as peculariedades da peça Le Dieu du Carnage, escrita por Yasmina Reza. Imagino que no teatro, com grandes atores, este texto também provoque um grande impacto.

Muito bom ver Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, grandes atores que já demonstraram, em mais de uma ocasião, os seus respectivos talentos, reunidos em um mesmo jogo de cena. A mudança que ocorre dentro daquelas quatro paredes da casa dos Longstreet, inicialmente “tão corretos”, “tão civilizados” e, especialmente, a alteração das expressões e dos comportamentos do casal vivido por Foster e Reilly é de arrepiar. E lembra a transformação que tantas outras pessoas passam em diferentes situações.

Há quem se transforme quando está em grupo – como na abertura do filme, quando vários garotos enfrentam um outro, que está sozinho, mas “armado”. Há quem mude quando sobe de posto, ganha poder e dinheiro. E há também os que se transformam na intimidade de seus lares, assumindo uma postura dominante e repressiva na família enquanto na rua esta pessoa utiliza a máscar do “bom/boa cidadão/ã”.

Mas as situações mais frequentes, talvez, sejam aquelas que envolvem a alteração da personalidade quando a pessoa é contrariada. Como diria um certo sábio, infelizmente há muitas certezas para poucas dúvidas neste mundo. E quanto mais as pessoas guardam as suas convicções e não dão espaço para a contrariedade, mais elas deixam aberta a porta para o confronto, a discórdia, a cólera e a violência.

Eis apenas algumas das reflexões que Carnage nos propicia. Mas há muitas outras, que podem ser retiradas desta história saborosa. Como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também demonstra como alta erudição – no caso de Penelope – ou alta posição social – especialmente no caso de Alan – não significam, necessariamente, boas maneiras, generosidade, altruísmo ou senso comum.

O mais irônico – e interessante – é a forma como o filme sugere que, no final, somos todos bárbaros. Uma fina crítica de Polanski para esse esforço medíocre da sociedade em ser civilizada e dar as costas para o “Deus da Carnificina” que parece acompanhar-nos desde as cavernas. Interessante que a perda de tempo com este “Deus”, que significa a ânsia de devorar o outro, essencialmente, e pela destruição, no fim das contas, segue nos cercando. Em ambientes corporativos, nas redações, nas universidades, nas escolas, em diversos ambientes em que há gente que prefere “rezar” e fazer promessas para este “Deus” do que para o outro, mais conhecido, que representa justamente o contrário – amor, doação, comprometimento, etc.

Interessante a sutileza do texto e do jogo de cena. Desde as leves ironias da “supercivilizada” Penelope, desde o início, e seu desejo de aparentar alguém comprometido com a casa e os visitantes – ao comprar, por exemplo, um buquê de tulipas importadas que custa US$ 20 – até o desejo incontido de Alan em dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, porque as crianças não tem a noção de civilização e todos os compromissos que surgem daí como os adultos. No que, francamente, em parte, ele está certo. Quem não se lembra de quando era criança ou pré-adolescente de como não enxergava todas as sutilezas das relações de poder e as demais como agora, já adulto? O que não justifica, nunca, claro, atos de violência. Mas é de se pensar.

E falando em pensar… outra questão bem levantada por Carnage é que tipo de ensinamentos os pais estão repassando para os filhos atualmente. Que tipo de lógica torta ou de valores corretos estão sendo transmitidos? Preocupante o ambiente das duas famílias retratadas e que refletem muitas outras mundo afora. Interessante também como cada linha de diálogo e expressão dos atores demonstra pré-julgamentos que uns tens dos outros e suas reprovações contidas. Um belo retrato desta necessidade que muitos tem – a maioria mas, acredito, não a totalidade – de estar sempre julgando e hierarquizando aos demais.

E impressionante a forma com que um casal fica medindo o outro, tentando ver quem está mais “ferrado” para, desta forma, sentir-se melhor com os próprios problemas. O descontrole vai crescendo, até que todos lavam as suas próprias roupas sujas. Uma catarse que pode ser lida, quase, como terapia. E no final, a cereja no bolo: a sugestão que os jovens problemáticos resolveram seus problemas de forma muito mais simples do que os seus pais.

Mas para não dizer que tudo é perfeito em Carnage, há algumas situações um bocado irreais que acabam atrapalhando todo aquele “excesso de realidade”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como, por exemplo, os pais do garoto agressor, que estavam loucos para sair dali o mais rápido possível, terem aceitado tomar café e água e, depois, terem comido bolo e se enredado, cada vez mais, em um embate verborrágico com o outro casal.

Então alguém pode dizer: “Mas se fosse assim, tudo tão lógico e racional, não teríamos um filme, porque o casal não voltaria para o apartamento do outro tantas vezes”. De fato, não teríamos filme. O que seria péssimo, claro. Mas talvez a forma com que o “convencimento” foi feito poderia ter sido outra do que o oferecimento de uma simples xícara de expresso. Além do mais, uma vez, tudo bem. Mas duas? Se bem que, da segunda vez, o reticente Alan já estava querendo embarcar em uma sessão de desmascarar aquela Penelope tão perfeita… As razões para os retornos eu ahcei o único porém desta produção.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, minhas desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Eu assisti a Carnage há quatro ou três semanas mas, só agora, consegui sentar para escrever estas linhas. A verdade é que entrei, mais uma vez, naquela fase de muito trabalho… mas prometo tentar, a partir de agora, atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.

Outra leve ironia de Polanski foi colocar um de seus filhos, Elvis Polanski, no “papel” de Zachary Cowan, o garoto agressor da história. O próprio Polanski tem uma história bastante controversa. Nascido na França, ele fugiu dos guetos de um campo de concentração, foi para os Estados Unidos, perdeu a mulher Sharon Tate, que estava grávida, assassinada por Charles Manson e “família” e, mais tarde, foi acusado e condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos. Para não ser preso, ele fugiu dos Estados Unidos e voltou a morar na França, até que, em 2009, foi preso em Zurique.

Polanski ficou em prisão domiciliar, na Suíça, até que uma decisão da Justiça optou para que ele não fosse extraditado para os Estados Unidos.

E uma curiosidade sobre esta produção: a exemplo de Rope, de Alfred Hitchcock, Carnage também foi totalmente rodado em tempo real, de forma contínua e sem cortes. Diferente do clássico do mestre do suspense, Carnage só tem algumas cenas, as iniciais e finais, que transcorrem fora de um único ambiente – o apartamento e o corredor de acesso a ele.

Agora, uma curiosidade difícil de perceber: Polanski, a exemplo de Hitchcock, faz uma “ponta” no filme como o vizinho que olha pela porta entreaberta para ver o que está acontecendo no corredor, já que os atores estão falando alto. Curioso, no mínimo. O que reforça, também, como Carnage é uma homenagem de Polanski a Hitchcock.

A trilha sonora de Carnage está presente no início e no final. E mesmo que pouco presente, nela é possível ver o trabalho dinâmico e dramático do ótimo Alexandre Desplat.

Além da trilha sonora, importante destacar o belo trabalho do diretor de fotografia Pawel Edelman, que deu o tom exato para cada momento do filme – no parque e na casa – e a decoração de set de Franckie Diago. Precisos.

Carnage foi totalmente rodado na França, em dois estúdios, e na cidade de Paris – as cenas externas.

Este filme estreou no Festival de Veneza em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais. No Festival de Veneza, ele recebeu o Pequeno Leão de Ouro. Foi indicado, ainda, aos Globos de Ouro de Melhor Performance de Atriz em um Filme de Comédia ou Musical para Jodie Foster e Kate Winslet. Além daquele prêmio de Veneza, ele recebeu outros três: Melhor Elenco pela avaliação do prêmio da Boston Society of Film Critics; Melhor Roteiro Adaptado no prêmio do Cinema Writers Circle, da Espanha; e Melhor Roteiro Adaptado no prêmio César, da França.

Uma pena, mas este filme mal conseguiu pagar-se. Carnage teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais que isso nas bilheterias globais. Nos Estados Unidos, ele foi mal: conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. No restante dos países, mais US$ 25 milhões. No total, cerca de US$ 27,6 milhões, até o momento. Pouco. Mas dá para entender, pelo estilo de fime – não é o grande público que busca algo deste gênero. Infelizmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. É uma boa nota, para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram na mesma linha, dedicando 188 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,8.

Carnage é uma co-produção da França, Alemanha, Polônia e Espanha.

CONCLUSÃO: Este não é o primeiro filme que se passa em um único ambiente. Mas, sem dúvida, é um dos melhores. Diferente do clássico de Hitchcock, que aposta na tensão criada por um crime, Carnage investe na tensão do embate de argumentos e psicológico entre pessoas com olhares muito diferentes sobre boas maneiras. A própria civilização está em jogo naquela casa de pessoas, aparentemente, tão equilibradas e “compreensivas”. Pouco a pouco os quatro personagens vão mostrando as suas armas, ironias, hipocrisias. Quem descuidar e começar a preocupar-se mais em avaliar a pessoa próxima do que a si mesma, vai cair no embate. Na crítica, no confronto, na violência controlada por muitos anos de educação. Há muitas camadas de leitura deste filme. Só isso já o torna um artigo raro. Mais um excelente trabalho de Roman Polanski. E uma oportunidade única de ver ótimas interpretações de quatro grandes atores.

SUGESTÕES DE LEITORES: Demorei tanto para escrever sobre Carnage que o Mangabeira, um dos mais estimados leitores deste blog, foi mais rápido. 🙂 Mangabeira, tenho que citar a tua indicação, é claro. Tinha assistido ao filme antes de comentares, mas como não escrevi… está valendo a tua sugestão. O que é bacana, porque reforça ainda mais, para quem não assistiu, de que não sou a única que aprovou a produção. Muito obrigada, por mais esta dica. Como podes ver, eu também tinha adorado ao filme. Inteligente, irônico, com ótimas atuações e roteiro inspirador. Abraços e obrigada por sempre voltar aqui!

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A Dangerous Method – Um Método Perigoso

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios. Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. A Dangerous Method surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dangerous Method): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que A Dangerous Method nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. A Dangerous Method tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

A Dangerous Method humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam.

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas A Dangerous Method torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein. Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar. Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de A Dangerous Method manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada. Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, A Dangerous Method foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em A Dangerous Method. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

A Dangerous Method estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em A Dangerous Method, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: First Class e Shame.

A Dangerous Method teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para A Dangerous Method. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme. Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. A Dangerous Method não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho. A Dangerous Method acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.

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My Week with Marilyn – Sete Dias com Marilyn

Você que, como eu, tem uma paixão contagiante pelo cinema, já se imaginou acompanhando os bastidores de filmagem de uma produção com alguns dos grandes astros de sua época? Agora, imagine ter feito isso na era das grandes estrelas, ter visto e convivido de perto com Marilyn Monroe, por exemplo. My Week with Marilyn torna este sonho realidade. Nos aproxima de uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. Conhecemos um pouco da intimidade da diva, sua fragilidade, talento e carisma. E é de cair o queixo a interpretação de Michelle Williams para o papel. Perfeita, para dizer o mínimo.

A HISTÓRIA: O filme começa nos contando que, em 1956, no auge de sua carreira, Marilyn Monroe (Michelle Williams) viajou para a Inglaterra para fazer um filme com Sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Chegando lá, ela conheceu um jovem chamado Colin Clark (Eddie Redmayne), que escreveu um diário sobre os bastidores das filmagens. E o filme é a história real sobre o que aconteceu. No breu, ela aparece do lado direito da tela. Quando o holofote acende sobre ela, a diva se vira. E dá um show. Começa aí a história da experiência de Marilyn Monroe na Inglaterra, contada por Clark. Através daquele jovem fascinado pelo cinema, acompanhamos os bastidores da filmagem de The Prince and the Showgirl, e nos aproximamos de alguns dos grandes astros daquela época. Com destaque, é claro, para a complexidade da personalidade de Marilyn e das pessoas que a cercavam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Week with Marilyn): Impressionante. Ficamos fascinados com Michelle Williams como Marilyn Monroe. Da mesma forma com que o personagem de Colin Clark, embasbacado com aquela sequência inicial do filme que está sendo exibida em uma sala de cinema repleta de homens igualmente babões. Ela faz um trabalho impecável e marcante. Algumas vezes, a ponto do espectador ser até capaz de esquecer da Marilyn original, e acreditar que esta assistindo à diva na telona outra vez.

Até assistir a esse filme, eu não sabia que se tratava de uma história real, baseada nos escritos de um admirador que teve a oportunidade de conviver com Marilyn por um período. Interessante a forma com que esta história real foi contada. Bom trabalho do roteirista Adrian Hodges, baseado nos livros My Week with Marilyn e The Prince, the Showgirl and Me, escritos por Clark. Ele acerta em começar com Marilyn na telona do cinema e, a partir daí, abraçar a ótica do narrador desta história. A empatia é criada rapidamente, e isso é fundamental para o espectador continuar interessado no filme.

Além disso, claro, o diretor Simon Curtis acerta ao apostar no trabalho de seus atores. Ele evidencia não apenas Michelle Williams e Kenneth Branagh, mas o “narrador” Eddie Redmayne e todos os demais intérpretes selecionados à dedo para esta produção. E o elenco, aliás, é exemplar. Julia Ormond interpreta à diva Vivien Leigh, mulher de Laurence Olivier; Emma Watson interpreta à Lucy, que trabalha nos estúdios e atrai o protagonista; Dougray Scott interpreta a Arthur Miller, marido de Marilyn; Dominic Cooper a Milton Greene, fotógrafo e amigo pessoal de Marilyn; Judi Dench, fantástica, interpreta a Sybill Thorndike; e Zoë Wanamaker à Paula Strasberg, que não desgruda de Marilyn. Todos estes tem relevância para a história e aparecem muito bem em cena.

Eis um filme de atores. Com grandes interpretações. Como não poderia deixar de ser. Até porque esta é uma produção que conta sobre os bastidores de um filme. Então os acertos, erros, exageros, o talento e, porque não, o ego dos atores está em evidência. Interessante como My Week with Marilyn mostra astros como Monroe e Laurence Olivier de perto, com todas as suas fraquezas e talento.

Diferente de outras produções sobre bastidores do cinema, que tentam “preservar” os astros, esta tem o compromisso com a verdade, porque foi baseada nos livros de Clark. Apesar dele ter se tornado diretor de documentários mais tarde, ele nunca teve o compromisso com a preservação da intimidade das estrelas com que teve o prazer de cruzar o caminho. Por isso assistimos um filme raro, que revela na mesma proporção as qualidades e os defeitos dos astros focados pela produção.

Marilyn aparece como uma atriz que tinha problemas em embarcar em uma personagem. O filme se passa em um momento da carreira da diva em que ela tinha embarcado com tudo no “método” de interpretação visceral de Lee Strasberg. Tanto que ela aparece sempre acompanhada por Paula Strasberg no filme, com quem ele foi casado até 1966, quando ela morreu de câncer.

Interessante, aliás, o “choque” entre duas formas muito diferentes de encarar o trabalho do ator no cinema. Enquanto Marilyn, ao lado de Paula, defendia uma interpretação que partisse do “íntimo” do ator, que exigisse que ele embarcasse no personagem após entendê-lo e “vivenciá-lo”, Sir Laurence Olivier achava tudo isso uma bobeira. Ele sabia, aliás, que The Prince and the Showgirl seria apenas mais um filme “pastelão”, uma história de amor escrachada, com uma boa dose de humor, pensada para faturar bastante e agradar ao público.

Ele estava preocupado em cumprir o horário de filmagens proposto, e fazer o melhor trabalho em mais um produto da indústria. Marilyn não, ela não se encaixava nos horários e não encontrava o tom da personagem. E ainda assim, o próprio Olivier admitiria, ela se saiu muito melhor que ele.

E eis uma das qualidades de My Week with Marilyn: o filme consegue mostrar todo aquele magnetismo e presença de cena da atriz. Não é uma tarefa fácil. Até porque, para muita gente, nunca houve uma atriz como Marilyn. Ainda assim, a atriz Michelle Williams vence o desafio de interpretar mulher tão inigualável com louvores.

Mas o filme não mostra apenas as qualidades da loira platinada mais famosa de Hollywood. Simon Curtis mostra com dedicação, e sem deixar o filme piegas, a fragilidade de Marilyn Monroe. Fica evidente a dependência dela de medicamentos para dormir, por exemplo, e também por elogios das pessoas que a cercavam. Ela tinha uma grande necessidade de sentir-se amada, o filme deixa a entender, assim como de sentir-se segura. Parecia estar sempre pedindo aprovação. Isso acontecendo na vida íntima de Marilyn, ela conseguia esbanjar confiança e sensualidade na frente das câmeras e do públicos que a perseguia por onde ela fosse.

Apesar desta aparente alta carência, Marilyn também sabia muito bem o efeito que tinha no público, especialmente nos homens. Interessante como My Week with Marilyn consegue, ao mesmo tempo, mostrar os bastidores de um filme estrelado por grandes atores e atrizes e explorar tanto a intimidade da protagonista.

Já ficou famosa a cena em que ela, acompanhada de Colin Clark no ex-colégio de seu novo queridinho, pergunta para ele se aquele é o momento de Marilyn – a personagem – entrar em cena. Ela sabia interpretá-la muito bem, entrou no papel com afinco – talvez utilizando o método de Strasberg. E algumas vezes entrava em crise ao confrontar os seus desejos reais com aqueles que deveriam ser da “personagem”.

My Week with Marilyn tem um ótimo ritmo e um roteiro muito bem escrito, que equilibra os bastidores do cinema com os dramas pessoais dos personagens principais desta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas, claro, são difíceis de acreditar, como aquelas em que Marilyn parece um verdadeiro desastre nas filmagens. Mas são compreensíveis, por exemplo, as sequências dela com Clark, já que ele parecia a única pessoa autêntica e confiável naquele cenário de estrelas muito centradas em si mesmas. Importante lembrar que este filme é baseado em fatos reais e não, necessariamente, um retrato fidedigno do que realmente aconteceu. Um pouco de fantasia deve fazer parte da história – seria compreensível Clark ter aumentado alguns “contos”. 🙂

Apesar de ter um ritmo adequado e a duração exata, My Week with Marilyn só não é perfeito porque deixa um gosto de “quero mais”. Talvez ele pudesse ter um pouco mais de tempo e aprofundar-se naquelas pessoas que circulavam ao redor da diva. Quem não acompanha um pouco os bastidores do cinema pode ficar um pouco perdido e não fazer as ligações necessárias entre Marilyn e Paula Strasberg, por exemplo, ou entre Olivier e Vivien Leigh, entre outros.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O método de interpretação para atores de Lee Strasberg fez história. Ele fundou, em 1947, o famoso e respeitado Actors Studio, para a formação de intérpretes. E foi um nome fundamental para os tempos áureos de nomes como James Dean, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Paul Newman, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando, entre outros. Todos seus alunos. Mas o trabalho dele também rendeu polêmica, especialmente pela proximidade da família Strasberg de Marilyn. A atriz deixou grande parte de sua herança para eles.

Norma Jeane Mortenson atuou em 33 filmes, incluindo o incompleto Something’s Got To Give, de 1962, dirigido por George Cukor e que tinha Dean Martin e Cyd Charisse no elenco. O filme nunca foi terminado porque Marilyn morreu no dia 5 de agosto de 1962, quando ele estava sendo filmado. Aliás, este ano completa cinco décadas da morte da atriz. E várias homenagens, como exposições fotográficas, já começaram a ser feitas em memória da diva.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre Lee Strasberg, neste texto da Wikipédia, em inglês, há várias informações interessante sobre o ícone da escola de interpretação. E neste outro, há mais informações sobre o “método” ensinado por ele.

Tudo em My Week with Marilyn funciona bem. Mas merece destaque a deliciosa trilha sonora, assinada por Conrad Pope, fundamental para dar leveza e ritmo para a produção, e a excepcional direção de fotografia de Ben Smithard. Ele consegue reforçar a ideia de “volta ao passado” com uso de lentes que destacam cores terrais, sépia e românticas durante toda a produção. Um belo trabalho. Muito boa também a edição de Adam Recht.

Uma curiosidade interessante desta produção: Kenneth Branagh interpreta a Laurence Olivier, ator que, como Branagh, atuou ou dirigiu três produções baseadas em obras de William Shakespeare. A saber: Othello, Hamlet e Henry V.

Emma Watson me surpreendeu neste filme. Se ela seguir com esta levada, poderá superar a personagem de Hermione Granger dos filmes de Harry Potter com certa facilidade. Ela mostrou talento e carisma na produção. Conseguiu um feito difícil: aparecer quase tão bem nas cenas quanto Michelle Wiliams como Marilyn. Também gostei muito do trabalho de Eddie Redmayne, que já havia feito um trabalho excelente em Savage Grace. Esse garoto vai longe, especialmente se continuar escolhendo bem os seus papéis.

Outra curiosidade da produção: as reconstituições de cenas de The Prince and the Showgirl foram rodadas no mesmo estúdio onde o original foi filmado.

Michelle Williams ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Comédia ou Musical este ano por seu trabalho neste filme. Marilyn Monroe recebeu o mesmo prêmio em 1960 por seu trabalho em Some Like It Hot. Por outro lado, Williams foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, algo que Monroe nunca conseguiu.

My Week with Marilyn teria custado 6,4 milhões de libras. No Reino Unido, até o dia 5 de fevereiro, a produção havia arrecadado quase 3,1 milhões de libras. Nos Estados Unidos, onde Monroe fez a sua carreira, a produção foi muito melhor, arrecadando quase US$ 10,46 milhões até o dia 8 de janeiro.

Esta produção estreou no Festival de Nova York no dia 9 de outubro de 2011 e, depois, passou por outros seis festivais. Nesta trajetória, ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 31, além de concorrer em duas categorias do Oscar. Doze dos 14 prêmios que o filme recebeu foram para Michelle Williams. Merecidíssimo, devo dizer. Os outros premiados foram o ator Kenneth Branagh, como melhor ator coadjuvante segundo o London Critics Circle Film Awards, e o elenco da produção vencedor do prêmio Capri, de Hollywood.

Buscando ser o mais fiel possível com a realidade retratada na história, My Week with Marilyn foi totalmente rodado no Reino Unido. Entre outras cidades, foram feitas cenas em Londres, Hatfield, Saltwood e Windsor.

Marilyn Monroe estreou nos cinemas emprestando a sua voz para a personagem de uma telefonista no filme The Shocking Miss Pilgrim, quando ela tinha 21 anos. No mesmo ano, em 1947, ela fez a primeira aparição em um filme de Hollywood em uma ponta em Dangerous Years. No ano seguinte, ela faria o primeiro papel de destaque em Ladies of the Chorus. E a partir daí, o resto é história. Em 15 anos de carreira, ela participou de 33 produções – sendo uma delas inacabada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. Uma boa avaliação, para os padrões do site. Mas os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 130 críticas positivas e 25 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,2 – esta sim, igual a do IMDb.

My Week with Marilyn foi indicado ao Oscar de Melhor Atriz, para Michelle Williams, e para Melhor Ator Coadjuvante, para Kenneth Branagh. Não levou nenhum dos dois, porque os vencedores deste ano, nestas duas categorias, foram Meryl Streep e Christopher Plummer, respectivamente. Mas ao assistir a My Week with Marilyn e The Help, percebi como a categoria de melhor atriz foi muito concorrida este ano. Mais do que as de ator e de atores coadjuvantes.

Este filme foi co-produzido pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

CONCLUSÃO: Simplesmente fantástica. Michelle Williams mergulha de uma maneira na interpretação de Marilyn Monroe que, algumas vezes, não conseguimos distinguir a imagem de uma ou de outra. Uma pena que o Oscar deste ano não pudesse ser entregue para mais de uma atriz. Porque Williams merecia a estatueta tanto quanto Meryl Streep. Ela é a alma de My Week with Marilyn. Mas também impressiona o elenco formidável que aceitou aparecer nesta produção. Não há desempenhos ruins em cena. E o roteiro, narrado sob a ótica de um grande admirador da Sétima Arte que batalha por um espaço nos bastidores de uma grande filmagem, nos aproxima daquela história. Provoca empatia, ao ponto de sermos envolvidos naquele enredo como se nós mesmos estivéssemos na pele do protagonista. O roteiro é inteligente, os atores ótimos, e a direção de Simon Curtis acerta no tom, focando sempre os melhores ângulos de cada cena e valorizando o trabalho dos atores. Um recorte interessante sobre um momento específico da diva, que merecia esta aproximação em um filme sem grandes pretensões. E que, por isso mesmo, se mostra tão interessante.

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Shame

Duas pessoas com problemas. Graves, sem uma solução fácil. Mas a dificuldade para a solução está, justamente, na forma desapegada de vivermos atualmente. Shame permanece focado na história de dois indivíduos mas, através deles, o filme reflete sobre a hiper sexualidade de uma geração sem amarras, com pouca capacidade para se comprometer, mas que busca constantemente o prazer. Ainda que interessante e com duas grandes atuações, Shame é um filme um tanto repetitivo e bastante erótico. Bem feito, mas lhe falta um pouco de inventividade.

A HISTÓRIA: Um homem está acordado e olha para o alto enquanto está deitado nu na cama, com o lençol tapando metade de seu corpo. Ele se levanta. Depois, aparece na estação do metrô. Dentro de um vagão, ele observa os passageiros, até fixar o olhar em uma jovem bonita. Corta. Em outra ocasião, logo após gozar ao lado de uma mulher qualquer, ele sai nu pela casa e ouve uma mensagem na secretária eletrônica. Uma mulher pede para ele atender o telefone. A garota no metrô começa a ficar constrangida com o olhar fixo dele. O homem, em outra ocasião, recebe uma garota de programa em casa. Segue a sequência anterior, da gravação, e descobrimos que o nome deste homem é Brandon (Michael Fassbender). Vamos acompanhá-lo no trabalho e em suas variadas cenas de conquista e sexo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Shame): Logo de cara, nós sabemos que aquele homem tem algum problema. E a música que o acompanha, de permanente “suspense” apenas aumenta a expectativa para que algo de muito errado aconteça. O bom é que esta expectativa não termina em um lugar-comum fácil, como de que ele é um psicopata, assassino de prostitutas, ou um maluco deste gênero.

Pelo contrário. O personagem de Brandon Sullivan assusta pelo tanto que ele é um “sujeito comum”. Não sei vocês, mas eu fiquei o tempo todo pensando sobre a quantidade de homens solteiros que fazem o mesmo que ele. Que estão pensando o tempo todo em sexo e cuidando de sentir prazer o máximo de tempo possível. Não é ruim, é claro, sentir prazer. Mas buscá-lo daquela forma, simplesmente, sem nenhum apego ou risco de compromisso, é sinal de doença. E grave.

Impressionante como o protagonista de Shame não tem apego por nada. Ele vai para o trabalho, mas não gosta do que faz. Ou não se interessa o suficiente pela profissão – do contrário, não chegaria constantemente atrasado. Não tem relacionamentos verdadeiros. Sai com o chefe, David Fisher (James Badge Dale), que vê em Brandon a isca perfeita para despertar o interesse de mulheres interessantes. Pega mulheres à torto e direito, mas não se encontra com elas mais do que uma noite.

No início, fiquei impressionada com o apetite dele por sexo. Parece que ele pensa o tempo inteiro no prazer que uma transa pode proporcionar. A dúvida, e ela é plantada de maneira eficaz desde a sequência inicial do metrô, é se ele chega a ser perigoso na ânsia de saciar a própria necessidade por prazer. Pessoalmente, fiquei o tempo todo esperando ele fazer uma grande besteira. Estuprar uma mulher, ou algo pior. Bela sacada dos roteiristas Steve McQueen e Abi Morgan plantar esta dúvida logo no início do filme.

Shame segue em bom ritmo. Não demora muito para a personagem de Sissy (Carey Mulligan) invadir a rotina do protagonista. E ela desestabiliza aquela rotina “segura” e previsível dele que parece se resumir a chegar no trabalho atrasado, sair com o chefe para caçar e terminar a noite sempre com uma mulher diferente. Sissy é um risco para essa “segurança” vazia de Brandon. Ela grita, e de forma insistente, por atenção e carinho. Tenta resgatar laços, manter uma relação. Tudo que ele parece incapaz de conseguir.

Além disso, e percebi isso só quando assisti ao trailer do filme, depois que eu já tinha assistido a Shame, Brandon fica tão perturbado com a presença da irmã porque ele não consegue lidar com a ideia dos homens tratando ela da mesma forma com que ele trata todas as mulheres que ele encontra. Ou seja: ele não suporta pensar em Sissy como apenas um corpo que pode ser usado e jogado fora depois por qualquer homem – especialmente os que ele conhece. Ele fica perturbado com isso, e acaba repensando seus próprios atos. Interessante.

Este filme, por tudo isso, é um retrato do lado cínico e sem capacidade de comprometer-se que caracteriza parte das pessoas do nosso tempo. Todos muito ocupados em ter vidas vazias, sem maiores significados ou relações pessoais. Brandon sofre e vive uma rotina autodestrutiva, regada a sexo, bebidas, noitadas e alguma carreira de cocaína. Sissy sente-se frágil, sugere constantemente estar doente e acaba voltando, de forma recorrente, à tentativa do suicídio.

Os dois são lindos, inteligentes, tem oportunidades na vida. Ele, um ótimo trabalho – ainda que nunca fique evidente o que ele faça, mas ele está em uma empresa que parece ter futuro. Ela, com uma voz maravilhosa, pode virar uma estrela da noite cantando. Mas nenhum dos dois irmãos parece ser capaz de dar certo, de ser feliz. Sissy percebe isso e pede ajuda para o irmão tentando, ao resgatar o laço deles, ajudá-lo também. Não sabemos se isso dará certo. E pouco importa. O retrato, a crítica e a reflexão sobre este tipo de “enfermidade social” já estão feitos. E essa é a principal qualidade de Shame.

Pena que nem tudo seja perfeito nesta produção. Depois dos roteirista acertarem com o elemento de suspense e tensão e em não demorar muito para introduzir a ótima Carey Mulligan na produção, as boas ideias parecem ter quase evaporado. As cenas de sexo do protagonista se repetem, ficando cada vez mais estimulantes, é verdade. O drama da irmã dele também fica mais intenso, mas ela aparece menos do que deveria. O problema é que as situações se repetem além do desejado. O filme perde um pouco da força, ainda que a trilha sonora cheia de tensão tente deixar o espectador sempre neste estado de alerta.

Ainda que o filme não termine com uma conclusão óbvia, eu vi naquele olhar do ótimo ator Michael Fassbender na última cena no metrô uma diferença. Ele pareceu, finalmente, entender que não poderia seguir com aquela vida sem comprometimento. Talvez ele consiga mudar. Talvez não. Mas o olhar não parece mais ser o mesmo.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um grande trabalho do diretor Steve McQueen, que também assina o roteiro da produção ao lado de Abi Morgan. Ele acerta ao acompanhar de perto o protagonista e contar, através de seu olhar, os vícios de uma geração obcecada pelo prazer. Essa busca, com a Aids por aí, ainda incurável, é apenas mais uma forma de tentar acabar com a própria vida. E quem está imerso neste consumo desenfreado por sexo, parece incapaz de perceber que exagera na dose, que sua busca tornou-se uma enfermidade. Shame mostra isso, e um rápido lapso de consciência do protagonista quando ele joga sua imensa “coleção” fora.

Gostei do trabalho do diretor de fotografia Sean Bobbitt. Ele usa lentes que fazem a produção ter um ar frio permanente. As roupas escolhidas por David C. Robinson para o figurino da produção reforçam esse clima. Já a trilha sonora, fundamental para a produção e assinada por Harry Escott, cumpre bem o seu papel. No início. Depois, o filme perde o momento de mudar de tom. Gostei quando a música clássica entra em cena. Mas aquele ritmo de “filme de suspense” quase permanente chega a irritar um pouco.

Da parte técnica do filme, vale comentar ainda o bom trabalho do editor Joe Walker.

Como tantos e tantos homens por aí, David não se importa de sair à noite para caçar mulheres com um anel que mostra que ele é casado no dedo. Acho errado, com certeza. Mas pelo menos ele deixa claro, para quem quiser ver – e se importar – qual é o seu estado civil. Mais honesto que outros homens que fazem o mesmo, mas tirando o anel do dedo.

Existe pelo menos uma questão dúbia nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas fiquei permanentemente na dúvida se Brandon e Sissy teriam tido alguma relação incestuosa anteriormente. Porque percebe-se que ele fica muito incomodado com a presença da irmã, e fiquei na dúvida se seria apenas porque ela estava quebrando a rotina dele – o que não é pouca coisa, concordo – ou se eles teriam alguma relação complicada e, quem sabe, sexual no histórico. Acho que esta questão não fica esclarecida, mas há uma certa sugestão no ar. Assim como não fica claro se Sissy estaria realmente com algum problema mais grave, como alguma doença, ou se ela estava apenas em mais uma fase de baixa estima gravemente baixa. São pontos sem resposta única e que fazem o filme ser ainda mais complexo e interessante.

Shame é, claramente, uma produção focada no trabalho de um ator. Se fosse um texto, seria uma narrativa em primeira pessoa. No caso, a ótima é do personagem de Brandon, por isso Michael Fassbender se destaca. Mas há espaço para pelo menos uma outra ótima atuação. No caso, do oposto do protagonista, encarnado pela personagem de Carey Mulligan. Maravilhosa. A versão dela de New York, New York é incrível. Uma das melhores que já ouvi.

Mas na produção, claro, há espaço para alguns coadjuvantes. Além do já citado James Badge Dale, que interpreta o cafajeste chefe de Brandon, vale citar o trabalho de Nicole Beharie como Marianne. Ainda que o diálogo dela com o protagonista pareça um pouco premeditado no restaurante, ela toca na ferida dele. E ajuda Brandon, em outro momento, a perceber que tem um problema sério a ser tratado. Ela está muito bem, ainda que não apareça muito.

Muitos filmes competentes são de baixo orçamento. Shame é mais um exemplo disto. Esta produção teria custado aproximadamente US$ 6,5 milhões. Para vocês terem uma ideia, The Descendants, que não tem nenhum grande efeito especial e pode ser considerado um bocado “cru”, custou mais de três vezes isto – ou US$ 20 milhões.

Mas sem tanto apelo e nenhuma indicação ao Oscar, Shame não se saiu bem nas bilheterias dos Estados Unidos. Até o dia 26 de fevereiro ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 3,8 milhões nas terras do Tio Sam. No restante dos países onde estreou, ele conseguiu pouco mais de US$ 9 milhões. Ufa, ainda bem! Pelo menos ele se pagou e conseguiu algum lucro. Mesmo que o público estadunidense não tenha ajudado muito para isso.

Shame estreou em setembro no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros 10 festivais, incluindo os de Toronto, San Sebastian e Londres. Nesta jornada, ele conquistou 21 prêmios e outras 41 indicações. Números importantes. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios FIPRESCI e CinemAwenire como Melhor Filme no Festival de Veneza, onde o ator Michel Fassbender foi premiado ainda como Melhor Ator no Volpi Cup. Destaque também para o prêmio de Melhor Ator recebido por Fassbender no British Independent Film Awards e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Carey Mulligan no Hollywood Film Festival.

Esta produção foi ignorada pelo Oscar, mas teve Michael Fassbender indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator – ele perdeu a estatueta para George Clooney, por The Descendants.

Curiosidades sobre o filme: ele foi rodado em apenas 25 dias; a cena em que Carey Mulligan canta foi rodada em tempo real, com a atriz realmente soltando a voz e com os dois atores que aparecem em cena presenciando, pela primeira vez, o desempenho dela como cantora. Outras curiosidades sobre esta cena: ela foi rodada as três horas da manhã e teve três câmeras focando os atores individualmente – para que fossem captadas as suas reações em detalhes (ou seja, Fassbender realmente chorou com a performance).

E mais uma: Fassbinder disse que realmente urinou na cena em que ele aparece fazendo isso – e que aquela sequência foi rodada três vezes, com ele repetindo a “performance” em cada uma. Para finalizar, o hotel onde Fassbender transa com Amy Hargreaves na frente da janela, o Manhattan’s The Standard, inaugurado em 2009 próximo do parque High Line, é conhecido por várias cenas similares, de clientes que transam na janela podendo ser assistidos por pedestres que passam abaixo.

Shame foi totalmente rodado em Nova York, mas é uma produção 100% inglesa.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme, dando para ele a nota 7,9. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes chegaram bem perto desta avaliação, dedicando 140 críticas positivas e 36 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,4.

Carey Mulligan, mais uma vez, mostra um ótimo gosto na escolha de seus papéis. E ela brilha. Vejo que ela terá cada vez mais destaque no cinema e será uma questão de tempo para aparecer no Oscar como indicada outra vez.

Este é o segundo longa do diretor londrino Steve McQueen. Antes, ele dirigiu Hunger, muito elogiado – e que eu ainda não vi, mas está na minha lista. Antes destes, ele fez apenas o curta Exodus. Atualmente, ele trabalha na pré-produção de Twelve Years a Slave, estrelado novamente por Michael Fassbender e ainda com Brad Pitt. Ele vale ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Duas pessoas estão gritando por ajuda, ainda que sejam incapazes de verbalizar com clareza os seus próprios desesperos. A vida passa, o tempo corre, e quando os dois percebem, estão sozinhos. Ele, não fica nenhuma noite desacompanhado. Ela, procura abrigo na casa dele e atenção cantando delicadamente. Os dois são bons sedutores, mas não conseguem emocionar-se. Apenas gozam. Shame fala de sexo, prazer, solidão e desespero. Não é um filme fácil, mas também não é simples o cenário em que vivemos. Eis um retrato interessante de dois adultos belos, com muitas razões para serem valorizados, mas que se depreciam a cada dia. A história é ótima, mas só peca um pouco pela falta de ritmo. Algumas repetições também poderiam ter sido evitadas. E é bom que você esteja preparado para um semi-pornô. Ainda que o sexo não seja explícito, há muitas e reiteradas cenas do gênero. Mas todas elas se justificam é claro. Belo trabalho do diretor e dos dois atores principais. Este trio merece ser acompanhado.

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War Horse – Cavalo de Guerra

O céu se parece muito, pode até que seja o mesmo de Gone with the Wind. Mas a história… quanta diferença daquela de um dos maiores clássicos do cinema! War Horse é um filme que resgata aquele céu, apesar de ser ambientado em outra época, em outra local e com um foco muito diferente. O novo filme de Steven Spielberg tem um belo visual, uma trilha sonora poderosa e uma “atuação” de um cavalo poucas vezes vista no cinema. E isso é quase tudo. Spielberg já fez filmes melhores, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: O sol nasceu há pouco, e a câmera percorre campos verdejantes no amanhecer. A luz vai iluminando as propriedades cada vez com mais força, até que chegamos a três homens que cuidam de um cavalo, enquanto Albert Narracott (Jeremy Irvine) observa tudo ajoelhado atrás de um portão. O garoto está fascinado. Os homens acalmam a égua, que acabou de ter um cavalo. O potro se levanta. O tempo passa, ele cresce e corre com a mãe pela propriedade, sendo observado por Albert. Mais tarde, os cavalos serão vendidos, e o pai do rapaz, o veterano de guerra e agricultor Ted (Peter Mullan), pagará caro pelo potro crescido. A partir daí, o filme acompanha a amizade entre o cavalo e Albert.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já leu a War Horse): As maiores qualidades deste filme ficam evidentes logo de cara. Para começar, a trilha sonora do veterano premiado John Williams. Sem o virtuosismo do trabalho dele e sua “malemolência” em brincar com algumas cenas – especialmente quando Ted Narracott aparece -, o filme não seria o mesmo. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia do grande parceiro de Spielberg, Janusz Kaminski. Os dois trabalham juntos desde 1993, quando Kaminski respondeu pela fotografia de Schindler’s List – um dos pontos fortes da produção vencedora de sete Oscar’s.

Não demora muito também para aparecer o terceiro elemento fundamental desta produção: o personagem do cavalo Joey. Digo o personagem porque, o cavalo, propriamente, fica difícil de identificar. Segundo as notas de produção de War Horse, foram utilizados, no total, 14 cavalos para “interpretar” a Joey. Mesmo tantos cavalos tendo aparecido em cena, o que se “destacou” na interpretação se chama Finder, e foi o mesmo que apareceu no filme Seabiscuit.

A vantagem de War Horse é que ele apresenta logo as suas “armas”. Porque o restante do filme é bastante óbvio e sem surpresas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém duvidou, por um segundo que fosse, que Joey não reencontraria Albert? E que o cavalo não participaria de pelo menos uma cena espetacular, no melhor estilo de Dances with Wolves? Aliás, vocês lembram daquela cena emblemática da cavalgada? A diferença é que, desta vez, o que assistimos é um cavalo solitário, desesperado, que tenta simbolizar toda a necessidade de sobrevivência selvagem plasmada em cada centímetro das trincheiras e campos de batalha da guerra que for. Aquela cena é de “cortar o coração”, claro, porque o espectador vê aquele desespero e sabe que o animal está sofrendo. A brutalidade da cena, mais uma vez, simboliza o absurdo da própria guerra.

O curioso é que, como ocorre na vida real, os inimigos se comovem e se unem por causa de um animal. Vocês já viram como as pessoas se solidarizam e unem as forças quando é para defender um animal machucado ou abandonado? Impressiona. Com isso, não estou criticando a ação. Pelo contrário, acho válida. Mas só gostaria de ver a mesma convicção e paixão para defender a causa dos animais feridos e abandonados para agarrar outras causas igualmente válidas. Só acho irônico quando encontro pessoas tão apaixonadas pela causa dos animais, mas incapazes de estender a mal para uma outra pessoa, ou mesmo de ter paciência com o pai, a mãe, ou algum parente mais velho e que já não tem mais a mesma memória, ou a mesma saúde de outrora. Mas bueno, não é sobre isso que fala o filme, então voltemos a ele…

Sabemos que o reencontro vai acontecer. A surpresa fica com o que vai rechear o filme entre uma situação – a da venda de Joey no início da guerra – e a outra (o prometido reencontro). A maioria das situações são previsíveis, o que torna o roteiro de Lee Hall e Richard Curtis um tanto fraco – abaixo da força necessária para realmente criar tensão ou interesse permanente no espectador.

Baseado no livro de Michael Morpurgo, o roteiro busca mostrar as várias “facetas” de uma guerra. Enfoca o front do conflito (na primeira sequência, do ataque inglês aos alemães, quando os cavalos são utilizados como montaria), os “bastidores” da guerra (do lado alemão, com os cavalos sendo utilizados para puxar armamentos pesados) e nos “arredores” da luta armada (no descanso que os animais tem ao serem cuidados por uma garotinha órfã).

Estes momentos diferentes do filme tentam ampliar o drama humano da guerra. Mostram diferenças de tratamento e de postura. War Horse deixa claro que os vilões são os alemães, que parecem ser insensíveis e encarar os cavalos apenas como peças descartáveis. Os ingleses, por outro lado, parecem ter apego aos bichos – ainda que o “sensível” capitão Nicholls (Tom Hiddleston) e o “mais durão” major Jamie Stewart (Benedict Cumberbatch, protagonista da ótima série inglesa Sherlock) utilizem os cavalos em uma disputa juvenil, para ver quem pode mais. Os únicos mais “sensatos” parecem ser os franceses Emilie (Celine Buckens), que encontra e cuida dos cavalos, e o avó dela (Niels Arestrup).

A história começa e se desenvolve, por quase metade do filme, em terras inglesas antes da 1ª Guerra Mundial eclodir. Naquele cenário e ambiente, o espectador é apresentado a um tema que foi importante naquele clássico que eu citei lá no início, Gone with the Wind: a desigualdade social.

Spielber explora, nesta primeira parte do filme, as dificuldades vividas pela família Narracott, permanentemente ameaçada de ter que deixar as terras alugadas do rico Lyons (David Thewlis). Nesta primeira parte, a mãe do protagonista, Rose (a ótima Emily Watson), tenta mostrar para o filho que o pai dele não é apenas um bêbado, mas também um homem honrado que voltou atormentado da guerra da África. O filho acaba aprendendo a lição, mas muito tempo mais tarde, quando vive na própria pele as dificuldades e absurdos de uma guerra.

A outra metade do filme é ambientada em terrenos de conflito, no embate entre ingleses e alemães na França, entre 1914 e 1918. Daí surge aquela preocupação do roteiro em mostrar diversas facetas da guerra. Pena que nenhuma das facetas mostrada desperte uma grande novidade, interesse ou emocione. Apenas o trecho com Emilie parece um pouco mais interessante, por causa do carisma da atriz Celine Buckens e do ator Niels Arestrup.

E ainda que o filme mostre alguns momentos “difíceis”, como a morte dos irmãos, os ataques questionáveis de ingleses e alemães, a brutalidade e ineficácia do avanço de algumas tropas e, principalmente, a crueldade com os cavalos, tudo parece “bonito” demais. Cenas muito plásticas, bem conduzidas, e pouco eficazes no sentido de revoltar pela brutalidade das situações. Apenas as sequências com os cavalos me pareceram na medida certa.

Depois do filme perder a força com o “recheio” narrativo, voltamos para um “grand finale”, muito bem dirigido e bonito pela direção de fotografia. Os atores fazem um bom trabalho, mas o destaque fica, realmente, com os cavalos. A nota abaixo é uma homenagem a eles, muito mais que uma avaliação justa para a produção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: War Horse e Hugo são as duas mega produções que conseguiram um espaço na lista dos nove indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano. Hugo é superior a War Horse, não apenas porque Martin Scorsese conseguiu inovar, pensando um filme que explorasse muito bem os efeitos 3D do cinema atual, mas também porque Spielberg não saiu do tradicional. Nada que ele apresenta aqui já não foi apresentado por ele mesmo em filmes anteriores ou por outros cineastas. Tanto é verdade que Spielberg não foi lembrado na categoria Melhor Diretor, mas Scorsese sim.

Todos os atores deste filme fazem um bom trabalho. Destaque para Jeremy Irvine, que está muito bem como o protagonista. Ele consegue expressar a emoção, a inocência e a maturidade do personagem de forma convincente. Depois, os veteranos Peter Mullan e Emily Watson fazem uma boa dobradinha. Niels Arestrup se destaca, mesmo em um papel relativamente pequeno, assim como a garota Celine Buckens, bastante carismática.

Além deles e dos demais citados, vale comentar o trabalho de coadjuvantes como Toby Kebbell, o soldado que encontra Joey; David Kross como Gunther, o irmão mais velho de Michael (Leonard Carow) e que resolve fugir com os cavalos; e Matt Milne como Andrew Easton, amigo de Albert.

Mesmo que o filme seja bastante previsível, algo temos que admitir: War Horse é uma bela reconstituição de época. Um trabalho ótimo e que movimentou milhares de figurantes. Na parte técnica do filme, e que lhe garantiu a qualidade que ele tem de reconstituição de época estão os ótimos trabalhos de Rick Carter no design de produção; a direção de arte da equipe de Andrew Ackland-Snow; a decoração de set de Lee Sandales e os figurinos de Joanna Johnston.

Esta nova produção de Spielberg foi exibida pela primeira vez em uma premiere em Nova York no dia 4 de dezembro. No dia 25 do mesmo mês ela entrou em cartaz nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival.

Ainda assim, War Horse ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 33, além de concorrer este ano a seis Oscar’s. Entre os prêmios que ganhou, destaque para o de filme do ano no AFI Awards; e os de melhor fotografia segundo a escolha da crítica do prêmio da Broadcast Film Critics Association e o Satellite Awards.

War Horse, pelas características da produção comentadas anteriormente, custou uma pequena fortuna: US$ 66 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até 19 de fevereiro, pouco mais de US$ 78,7 milhões. No restante do mundo, a bilheteria somada até 21 de fevereiro chegou perto de US$ 133,5 milhões. Somadas, as bilheterias ultrapassam os US$ 200 milhões. Nada mal. E a garantia de que o filme pode ser considerado um sucesso – ainda que nenhum “arrasa-quarteirão”.

E uma curiosidade sobre o filme: ele foi totalmente rodado na Inglaterra. Mas especificamente em Devon, Surrey, Wiltshire e Bedfordshire. Foram rodadas cenas também no estúdio Twickenham, em Middlesex.

Esta produção foi baseada nos dois livros com nome similar publicados no Reino Unido em 1982 e de autoria de Michael Morpurgo, escritor de literatura infantil que recebeu, em 1999, o título M.B.E. (membro da Ordem do Império Britânico, em uma tradução livre).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção. Nada mal, levando em conta que eles costumam ser bastante rígidos nas avaliações. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicaram 150 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 7.

Há um detalhe na produção que não faz diferença para a história mas que, mesmo assim, me incomodou um bocado: todos falarem inglês. Não seria muito mais lógico os alemães, quando falam entre si, falarem alemão e os franceses o francês? Claro que Spielberg preferiu simplificar as coisas e deixar todo mundo falando inglês para cair “melhor” no gosto do público que mais lhe interessava, o norte-americano. Ainda assim, achei uma falha.

O ator Jeremy Irvine, que antes deste filme só tinha trabalhado como ator na série Life Bites, estreada em 2009, vai começar a aparecer mais para o grande público. Depois de War Horse, ele atuou em Now Is Good, pronto mas ainda inédito; Great Expectations, em pós-produção, e The Railway Man, em fase de pré-produção.

Se existesse um Oscar para o cavalo mais sofredor do cinema, teríamos uma disputa boa entre os animais de War Horse e A Torinói Ló, filme húngaro que contou com recursos também da França, Alemanhã, Suíça e Estados Unidos. Eu votaria no de War Horse. 🙂

CONCLUSÃO: Steven Spielberg começou a carreira inovando e, entre os anos 1974 e 1998, ficou conhecido por destilar algumas obras-primas do cinema moderno. Mas de lá para cá, o diretor parece ter perdido aquela força inicial. War Horse, seu último filme, mostra isto. Ao invés de inovar, de ajudar o cinema a reinventar-se, Spielberg repete fórmulas para fazer um filme comovente, mas que não passa disso. Ele não apresenta novas ideias na forma e nem no conteúdo. Praticamente qualquer diretor mediano poderia chegar ao mesmo resultado. O filme trata de amizade, de aprendizado, de reconhecimento dos valores que importam, da mesma forma com que aborda a miséria e o preço alto exigido por uma guerra – neste caso, a 1ª Guerra Mundial. Mas poderia ser qualquer guerra… O melhor da produção é o cavalo “protagonista”, a trilha sonora e a direção de fotografia. Mas nada que faça alguém perder o sono ou sonhar além da conta. Algo básico. Muito distante dos melhores tempos de Spielberg.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: War Horse está concorrendo em seis categorias nesta edição da maior premiação de Hollywood. Ele disputa como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Como Melhor Filme ele não tem chances. Seria uma grande zebra ele levar a melhor frente a The Artist, Hugo ou The Descendants. Em Direção de Fotografia ele já tem alguma chance. Ainda que a disputa este ano seja acirrada… Kaminski terá que desbancar Emmanuel Lubezki, de The Tree of Life; Robert Richardson, de Hugo; e Guillaume Schiffman de The Artist. Difícil acertar nesta categoria, mas acho que Kaminski pode levar a melhor.

Em Melhor Direção de Arte a briga também será boa, especialmente porque estão no páreo The Artist, Hugo e Midnight in Paris. Outra vez difícil apontar o ganhador, mas acho que Midnight in Paris pode levar. Em Melhor Trilha Sonora, outra vez trabalhos excepcionais, de feras e veteranos. No páreo, junto com War Horse, estão The Artist e Hugo. Aqui eu votaria em The Artist.

Para fechar, as categorias de som. Em Edição de Som, vejo a vida de War Horse bastante difícil, porque ele concorre com Drive, Hugo, Transformers: Dark of the Moon e The Girl with the Dragon Tattoo. Destes, acredito que tenham mais chances Hugo, Drive e Transformers, nesta ordem. Em Mixagem de Som, outra batalha forte, com quase todos os indicados anteriores, exceto por The Artist, que sai de cena para deixar espaço para Moneyball. Difícil dizer o vencedor, mas talvez seja Hugo.

Se os palpites confirmarem, War Horse pode ganhar apenas o Oscar de Melhor Fotografia. Ou sair da premiação de mãos abanando – o que também não seria uma surpresa. Especialmente porque ele foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro e não levou em nenhuma delas.