Seeking Justice – O Pacto


Nos últimos anos o ator Nicolas Cage vem demonstrando um gosto um tanto estragado para a escolha de papéis no cinema. Não foi um, mas vários filmes duvidáveis que o ator ganhador de um Oscar escolheu para protagonizar. Seeking Justice faz parte deste grupo de produções de baixa qualidade. O argumento principal é difícil de engolir, mas o principal é a execução da história e os buracos deixados aqui e ali.

A HISTÓRIA: Um homem pergunta para outro se ele está desperdiçando o seu tempo. Uma câmera grava a conversa. O homem que está sendo focado pela câmera diz que se “eles” souberem da conversa, vão matá-lo. O outro pergunta para ele como funciona. O homem que está sendo gravado diz que aquilo está errado e se levanta. Ameaça ir embora, mas o outro segura a sua mão e diz que ele está fazendo a coisa certa. Daí pergunta o que significa a frase “o coelho faminto pula”. Depois, o homem nervoso caminha até o carro. Antes de ir embora, ele é impulsionado por outro veículo e cai do estacionamento elevado sobre outro carro. Corta. Cenas de festa urbana. Em um bar, o casal Will Gerard (Nicolas Cage) e Laura (January Jones), cercado de amigos, celebra mais um ano de união. Mais tarde, ela será agredida em um assalto, e Will toma uma decisão arriscada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Seeking Justice): Este filme tenta reinventar uma fórmula batida. Aquela da linda mulher, casada, feliz, que é violentada e agredida em um assalto, o que provoca indignação e vontade de vingança no marido. Ao invés dele sair armado por aí atrás do bandido, desta vez ele ganha uma outra alternativa.

A ideia de mostrar uma outra solução para o problema, mas ainda explorando o desejo de vingança de um cidadão comum, não é ruim. A falha de Seeking Justice é a execução. O roteiro de Robert Tannen, desenvolvido a partir de uma estória criada por ele e por Todd Hickey, é muito ruim. Difícil de engolir, desde o início. E os atores, que parecem não ter engolido aquelas linhas e falas do roteiro, também não ajudam. Todos estão mal, mas especialmente Cage.

Para a história desse filme convencer, para começo de conversa, o personagem de Cage deveria parecer muito mais desesperado e indignado do que aparece aqui. Talvez um outro ator, em seu lugar, nos convenceria melhor. Depois, o homem que faz a oferta infame deveria aparecer de outro jeito, vocês não acham?

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Um cara engravatado sentar na sala de espera de um hospital e contar aquela lorota de “um grupo de justiceiros urbanos que não pede nada mais que um favor futuro simples como retribuição” não parece se encaixar no mundo real. Agora, pense diferente: se esse mesmo sujeito, talvez um pouco menos bem vestido, com uma cara de vilão um pouco melhor montada, chegasse no marido indignado que saiu do hospital e está em uma esquina próxima, escura, fumando, não convenceria melhor?

Não digo que o filme deveria ter exatamente esta dinâmica, mas acho que seria uma de várias alternativas para tornar aquele “convite” um pouco mais aceitável. A oferta já é meio ridícula, pelo menos da forma com que ela é feita. Afinal, quem pode garantir que aquele sujeito estranho, o Simon (Guy Pearce) iria eliminar o criminoso certo? E mesmo que ele conseguisse, que tipo de retribuição ele poderia exigir depois? Certamente nada leve e nem simples, correto? Só alguém muito “perturbado” e fora da própria normalidade para aceitar aquela proposta. E não parecia ser esse o estado do protagonista.

Mas ok, vamos engolir que ele estivesse desequilibrado e que quisesse uma vingança “fácil” – desculpem, mas a “gota d’água” para ele decidir isso, aquele tapa involuntário da desacordada Laura, só comprova o caminho ridículo seguido pela produção. A principal “charada” da produção é esclarecida logo em seguida. Quem mata o vilão é, claramente, um sujeito comum que foi colocado naquela enrascada. Evidente que o mesmo será exigido de nosso “herói”. O resto também é previsível: quando obrigam ele a fazer o mesmo, eliminar outro “criminoso”, ele resiste, tendo a família ameaçada. Clássico. Óbvio. Chato.

Dilemas morais? Quem dera. Qualquer dúvida neste filme não dura mais que cinco segundos. O protagonista não é atormentado o suficiente pela decisão ruim. Os bandidos, então, são todos desalmados. Ninguém tem dúvidas, ou dor na consciência. Um sintoma do próprio filme, que não explora em momento algum o “anjinho” e o “diabinho” que todos nós temos. Seeking Justice está muito mais preocupado em destilar cenas de ação, colocar os atores correndo de um lado para o outro no clássico jogo gato-e-rato. E só.

Mesmo o “trauma” de Laura dura pouco – e parece ser feito de isopor. Certo que ela reforça a segurança da casa. Também busca a “segurança” de um spray de pimenta e de uma arma. Mas realmente “sentimos” o seu drama, a sua dor? Não por mais que alguns segundos. E esse é o filme. Um compêndio de lugares-comum que passam rapidamente pela frente das câmeras do diretor Roger Donaldson.

Não há muito tempo para sentimento ou dúvida alguma. O que importa são as cenas de ação e a correria. Eis um clássico exemplo de filme sem sabor que parece ter sido criado especificamente para faturar dinheiro. Nada mais. Não faz pensar, não emociona, nem provoca nenhum sentimento que dure mais que alguns segundos. Entra facilmente para a lista de produções dispensáveis.

A essência do filme, como eu comentei antes, é previsível. Mulher bem casada que é violentada desperta no marido um desejo de vingança antes impensável. Ele embarca em uma proposta indecorosa e depois é obrigado a pagar na mesma moeda. Resiste, mas não o suficiente. E quando se rebela, é perseguido pelo bandido-mor. Até uma das “surpresas” da produção era previsível. Desde que Simon faz a proposta para Will no hospital, fiquei pensando: “ok, e quem garante que ele não terá que matar, no futuro, alguém ‘inocente’?”. Pois, não deu outra…

E com a morte de Leon Walczak/Alan Marsh (Jason Davis), surge a primeira grande falha da produção. Afinal, por que Simon não cumpriu a palavra e desativou as duas câmeras que flagrariam o “ataque” de Will? Alguém pode argumentar que ele queria ter a comprovação de que a sua nova marionete iria cumprir o prometido. Mas havia outras maneiras de fazer isso, muito mais seguras.

Há quem possa argumentar que ele queria mesmo que a polícia achasse uma das gravações e que Will fosse ferrado com a gravação. Mas qual a lógica disto? Sendo preso, ele provavelmente falaria do “grupo de extermínio”. E ainda que há integrantes da “máfia” por todas as partes, inclusive na polícia, para que fazer ele ser preso e eliminado depois, na prisão, por um dos comparsas? Não havia outras formas mais simples e práticas e menos sujeitas a problemas? Desculpa, mas nenhuma explicação lógica parece surgir daí.

Depois de toda essa trapalhada do vilão do filme, surge a primeira real surpresa da história. O envolvimento do amigo de Will no grupo. Problema que essa surpresa termina de forma patética no final do filme. Aliás, que final… igualmente difícil de engolir e, ao mesmo tempo, previsível. Esse compêndio de falhas faz o filme ser difícil de ser assistido. Não sei vocês, mas fiquei grande parte do tempo pensando: “Com tanto filme bom para assistir ainda, por que eu fui perder o meu tempo com este?”. O fato de Nicolas Cage estar na produção foi um dos fatores. Eu ainda insisto na tentativa de vê-lo em uma boa produção. Um dia devo acertar…

NOTA: 3,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas me chamou a atenção como em uma das primeiras cenas do filme Nicolas Cage aparece cercado de atores conhecidos em séries de TV dos Estados Unidos. Para começar, o protagonista Will Gerard é casado com a personagem de January Jones, conhecida como Betty Francis da série Mad Men. Depois, ele tem como amigo o personagem de Harold Perrineau, famoso como Michael Dawson da série Lost. E para fechar a lista, eles são amigos da personagem interpretada por Jennifer Carpenter, famosa como Debra Morgan, da série Dexter. Com tantos atores famosos de séries de TV, fiquei esperando uma invasão de outros personagens destas séries no filme. 🙂

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de IronE Singleton como Scar, um dos vilões da história. Quem acompanha as principais séries de TV dos Estados Unidos vai lembrar dele em The Walking Dead. Ele interpreta T-Dog na série cheia de zumbis. Há ainda Xander Berkeley, da série Nikita, interpretando o tenente Durgan; e Cullen Moss, da série One Tree Hill, como Jones. Mais três atores famosos em séries… até parece que pensaram neste filme como desculpa para engordar um pouco mais o orçamento destes atores conhecidos na TV, não? hehehehehe

Seeking Justice estreou no início de setembro na Itália. Até o momento o filme não participou de nenhum festival. O que apenas reforça a minha sensação de que ele foi feito para lucrar e não para agradar.

Como a história mesmo sugere, o filme foi totalmente rodado na cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos – quase uma personagem dentro da produção.

Da parte técnica desta produção, nenhum trabalho merece grande menção. Ainda assim, não é totalmente desprezível a trilha sonora bem elaborada por J. Peter Robinson e a edição de Jay Cassidy. Ambas feitas com competência.

Olhando para a filmografia do diretor Roger Donaldson, não é difícil perceber que ele caminha pelos corredores de Hollywood sendo procurado para projetos de baixa expressão artística e feitos quase que exclusivamente para dar lucro para os estúdios. Entre outras produções, ele foi responsável pelos filmes com forte caráter comercial The Getaway, Species, Dante’s Peak, Thirteen Days e The Bank Job – esse último, provavelmente, o melhor dele até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Seeking Justice. Achei boa demais. Foram generosos. Os críticos que tiveram seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros na avaliação, dedicando 15 críticas negativas e apenas seis positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 29% e uma nota média de 4,2. Eu tinha dado uma nota até pior que o 3,7 acima… tinha pensado em 3,5, mas resolvi aumentá-la porque, pensando bem, merece um pouco de crédito a tentativa deles pensarem em um filme de vingança de outro jeito. Ainda que a ideia tenha sido disperdiçada, a boa intenção não pode ser totalmente ignorada.

Olhando para a filmografia do Nicolas Cage, cheguei a uma conclusão: ele tem trabalhado muito. Ao invés de fazer tantos filmes, nos últimos anos, talvez tivesse sido mais inteligente escolher melhor onde apostar as fichas. Vejamos: em 2011, o ator estrelou cinco filmes. Destes, apenas Seeking Justice conseguiu uma nota acima de 6 pela avaliação dos usuários do IMDb. Jesus! Não assisti a nenhum outro, mas imagino a qualidade deles só pela nota do site… Em 2010, ele estrelou outros dois – inclusive Kick-Ass, que achei legalzinho. Em 2009, foram outros quatro, três deles com nota na faixa do 6 e um com nota 5 no IMDb. Destes, assisti a The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, o último com o ator no qual eu achei que ele foi bem. Meio complicado, não?

Sobre a bilheteria do filme… ainda não há informações de como ele tem se saído nos mercados em que já estreou nos cinemas.

CONCLUSÃO: Eis um filme difícil de assistir até o final. Não porque ele seja complexo, muito pelo contrário. O final é previsível, e ainda que exista pelo menos uma surpresa legítima na história, o restante do enredo é bastante furado. Nicolas Cage parece sofrer com a produção. E ainda que ele se esforce, aqui e ali, correndo para um lado, tentando emplacar um choro legítimo em outro momento, ele não convence. Assim como o roteiro, com algumas graves falhas de condução. Totalmente dispensável. Se você tiver pelo menos uma outra opção razoável para ver no lugar de Seeking Justice, não tema. Provavelmente será a melhor escolha optar pela outra produção.

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4 comentários em “Seeking Justice – O Pacto

  1. Depois de agradáveis surpresas como ‘O sol de cada manhã’ e ‘Adaptação’, Cage vai contra a tendência natural do que a maioria dos atores buscam. Ele busca o retrocesso e parece gostar cada vez mais disso. Ele e sua astronômica e insaciável conta bancária.

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    1. Oi Mangabeira!

      Pois é, pobre Nicolas Cage! 🙂

      Claro que fui irônica. Ele não é pobre. Pelo menos não na conta bancária, como bem observaste.
      Mas acho uma pena essas escolhas ruins dele. Honestamente, eu acho que ele poderia fazer um trabalho muito melhor, se tivesse vontade de esforçar-se um pouquinho mais.

      Mas enfim, cada ator com a sua sina, não é mesmo? E Cage têm escolhido uma sina de filmes ruins e bombardeio de críticas igualmente ruins.

      Bom te encontrar aqui, mais uma vez. Abraços e inté!

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  2. Discordo totalmente da análise, o filme é um pouco previsível, mas pegar no pé até da forma com o qual o Simon aborda o Will no hospital é exagerado, eu gostei do filme.

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  3. Nada a ver.Tão falando mal do filme mas o filme é excelente.Um filme bem organizado,tudo bem que tem um erro aqui e ali,mas não é porque quem escreveu a crítica não gostou que tem que sair esculhambando o filme e muito menos o ator.Pelamor né?

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