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Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.

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Seeking Justice – O Pacto

Nos últimos anos o ator Nicolas Cage vem demonstrando um gosto um tanto estragado para a escolha de papéis no cinema. Não foi um, mas vários filmes duvidáveis que o ator ganhador de um Oscar escolheu para protagonizar. Seeking Justice faz parte deste grupo de produções de baixa qualidade. O argumento principal é difícil de engolir, mas o principal é a execução da história e os buracos deixados aqui e ali.

A HISTÓRIA: Um homem pergunta para outro se ele está desperdiçando o seu tempo. Uma câmera grava a conversa. O homem que está sendo focado pela câmera diz que se “eles” souberem da conversa, vão matá-lo. O outro pergunta para ele como funciona. O homem que está sendo gravado diz que aquilo está errado e se levanta. Ameaça ir embora, mas o outro segura a sua mão e diz que ele está fazendo a coisa certa. Daí pergunta o que significa a frase “o coelho faminto pula”. Depois, o homem nervoso caminha até o carro. Antes de ir embora, ele é impulsionado por outro veículo e cai do estacionamento elevado sobre outro carro. Corta. Cenas de festa urbana. Em um bar, o casal Will Gerard (Nicolas Cage) e Laura (January Jones), cercado de amigos, celebra mais um ano de união. Mais tarde, ela será agredida em um assalto, e Will toma uma decisão arriscada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Seeking Justice): Este filme tenta reinventar uma fórmula batida. Aquela da linda mulher, casada, feliz, que é violentada e agredida em um assalto, o que provoca indignação e vontade de vingança no marido. Ao invés dele sair armado por aí atrás do bandido, desta vez ele ganha uma outra alternativa.

A ideia de mostrar uma outra solução para o problema, mas ainda explorando o desejo de vingança de um cidadão comum, não é ruim. A falha de Seeking Justice é a execução. O roteiro de Robert Tannen, desenvolvido a partir de uma estória criada por ele e por Todd Hickey, é muito ruim. Difícil de engolir, desde o início. E os atores, que parecem não ter engolido aquelas linhas e falas do roteiro, também não ajudam. Todos estão mal, mas especialmente Cage.

Para a história desse filme convencer, para começo de conversa, o personagem de Cage deveria parecer muito mais desesperado e indignado do que aparece aqui. Talvez um outro ator, em seu lugar, nos convenceria melhor. Depois, o homem que faz a oferta infame deveria aparecer de outro jeito, vocês não acham?

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Um cara engravatado sentar na sala de espera de um hospital e contar aquela lorota de “um grupo de justiceiros urbanos que não pede nada mais que um favor futuro simples como retribuição” não parece se encaixar no mundo real. Agora, pense diferente: se esse mesmo sujeito, talvez um pouco menos bem vestido, com uma cara de vilão um pouco melhor montada, chegasse no marido indignado que saiu do hospital e está em uma esquina próxima, escura, fumando, não convenceria melhor?

Não digo que o filme deveria ter exatamente esta dinâmica, mas acho que seria uma de várias alternativas para tornar aquele “convite” um pouco mais aceitável. A oferta já é meio ridícula, pelo menos da forma com que ela é feita. Afinal, quem pode garantir que aquele sujeito estranho, o Simon (Guy Pearce) iria eliminar o criminoso certo? E mesmo que ele conseguisse, que tipo de retribuição ele poderia exigir depois? Certamente nada leve e nem simples, correto? Só alguém muito “perturbado” e fora da própria normalidade para aceitar aquela proposta. E não parecia ser esse o estado do protagonista.

Mas ok, vamos engolir que ele estivesse desequilibrado e que quisesse uma vingança “fácil” – desculpem, mas a “gota d’água” para ele decidir isso, aquele tapa involuntário da desacordada Laura, só comprova o caminho ridículo seguido pela produção. A principal “charada” da produção é esclarecida logo em seguida. Quem mata o vilão é, claramente, um sujeito comum que foi colocado naquela enrascada. Evidente que o mesmo será exigido de nosso “herói”. O resto também é previsível: quando obrigam ele a fazer o mesmo, eliminar outro “criminoso”, ele resiste, tendo a família ameaçada. Clássico. Óbvio. Chato.

Dilemas morais? Quem dera. Qualquer dúvida neste filme não dura mais que cinco segundos. O protagonista não é atormentado o suficiente pela decisão ruim. Os bandidos, então, são todos desalmados. Ninguém tem dúvidas, ou dor na consciência. Um sintoma do próprio filme, que não explora em momento algum o “anjinho” e o “diabinho” que todos nós temos. Seeking Justice está muito mais preocupado em destilar cenas de ação, colocar os atores correndo de um lado para o outro no clássico jogo gato-e-rato. E só.

Mesmo o “trauma” de Laura dura pouco – e parece ser feito de isopor. Certo que ela reforça a segurança da casa. Também busca a “segurança” de um spray de pimenta e de uma arma. Mas realmente “sentimos” o seu drama, a sua dor? Não por mais que alguns segundos. E esse é o filme. Um compêndio de lugares-comum que passam rapidamente pela frente das câmeras do diretor Roger Donaldson.

Não há muito tempo para sentimento ou dúvida alguma. O que importa são as cenas de ação e a correria. Eis um clássico exemplo de filme sem sabor que parece ter sido criado especificamente para faturar dinheiro. Nada mais. Não faz pensar, não emociona, nem provoca nenhum sentimento que dure mais que alguns segundos. Entra facilmente para a lista de produções dispensáveis.

A essência do filme, como eu comentei antes, é previsível. Mulher bem casada que é violentada desperta no marido um desejo de vingança antes impensável. Ele embarca em uma proposta indecorosa e depois é obrigado a pagar na mesma moeda. Resiste, mas não o suficiente. E quando se rebela, é perseguido pelo bandido-mor. Até uma das “surpresas” da produção era previsível. Desde que Simon faz a proposta para Will no hospital, fiquei pensando: “ok, e quem garante que ele não terá que matar, no futuro, alguém ‘inocente’?”. Pois, não deu outra…

E com a morte de Leon Walczak/Alan Marsh (Jason Davis), surge a primeira grande falha da produção. Afinal, por que Simon não cumpriu a palavra e desativou as duas câmeras que flagrariam o “ataque” de Will? Alguém pode argumentar que ele queria ter a comprovação de que a sua nova marionete iria cumprir o prometido. Mas havia outras maneiras de fazer isso, muito mais seguras.

Há quem possa argumentar que ele queria mesmo que a polícia achasse uma das gravações e que Will fosse ferrado com a gravação. Mas qual a lógica disto? Sendo preso, ele provavelmente falaria do “grupo de extermínio”. E ainda que há integrantes da “máfia” por todas as partes, inclusive na polícia, para que fazer ele ser preso e eliminado depois, na prisão, por um dos comparsas? Não havia outras formas mais simples e práticas e menos sujeitas a problemas? Desculpa, mas nenhuma explicação lógica parece surgir daí.

Depois de toda essa trapalhada do vilão do filme, surge a primeira real surpresa da história. O envolvimento do amigo de Will no grupo. Problema que essa surpresa termina de forma patética no final do filme. Aliás, que final… igualmente difícil de engolir e, ao mesmo tempo, previsível. Esse compêndio de falhas faz o filme ser difícil de ser assistido. Não sei vocês, mas fiquei grande parte do tempo pensando: “Com tanto filme bom para assistir ainda, por que eu fui perder o meu tempo com este?”. O fato de Nicolas Cage estar na produção foi um dos fatores. Eu ainda insisto na tentativa de vê-lo em uma boa produção. Um dia devo acertar…

NOTA: 3,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas me chamou a atenção como em uma das primeiras cenas do filme Nicolas Cage aparece cercado de atores conhecidos em séries de TV dos Estados Unidos. Para começar, o protagonista Will Gerard é casado com a personagem de January Jones, conhecida como Betty Francis da série Mad Men. Depois, ele tem como amigo o personagem de Harold Perrineau, famoso como Michael Dawson da série Lost. E para fechar a lista, eles são amigos da personagem interpretada por Jennifer Carpenter, famosa como Debra Morgan, da série Dexter. Com tantos atores famosos de séries de TV, fiquei esperando uma invasão de outros personagens destas séries no filme. 🙂

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de IronE Singleton como Scar, um dos vilões da história. Quem acompanha as principais séries de TV dos Estados Unidos vai lembrar dele em The Walking Dead. Ele interpreta T-Dog na série cheia de zumbis. Há ainda Xander Berkeley, da série Nikita, interpretando o tenente Durgan; e Cullen Moss, da série One Tree Hill, como Jones. Mais três atores famosos em séries… até parece que pensaram neste filme como desculpa para engordar um pouco mais o orçamento destes atores conhecidos na TV, não? hehehehehe

Seeking Justice estreou no início de setembro na Itália. Até o momento o filme não participou de nenhum festival. O que apenas reforça a minha sensação de que ele foi feito para lucrar e não para agradar.

Como a história mesmo sugere, o filme foi totalmente rodado na cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos – quase uma personagem dentro da produção.

Da parte técnica desta produção, nenhum trabalho merece grande menção. Ainda assim, não é totalmente desprezível a trilha sonora bem elaborada por J. Peter Robinson e a edição de Jay Cassidy. Ambas feitas com competência.

Olhando para a filmografia do diretor Roger Donaldson, não é difícil perceber que ele caminha pelos corredores de Hollywood sendo procurado para projetos de baixa expressão artística e feitos quase que exclusivamente para dar lucro para os estúdios. Entre outras produções, ele foi responsável pelos filmes com forte caráter comercial The Getaway, Species, Dante’s Peak, Thirteen Days e The Bank Job – esse último, provavelmente, o melhor dele até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Seeking Justice. Achei boa demais. Foram generosos. Os críticos que tiveram seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros na avaliação, dedicando 15 críticas negativas e apenas seis positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 29% e uma nota média de 4,2. Eu tinha dado uma nota até pior que o 3,7 acima… tinha pensado em 3,5, mas resolvi aumentá-la porque, pensando bem, merece um pouco de crédito a tentativa deles pensarem em um filme de vingança de outro jeito. Ainda que a ideia tenha sido disperdiçada, a boa intenção não pode ser totalmente ignorada.

Olhando para a filmografia do Nicolas Cage, cheguei a uma conclusão: ele tem trabalhado muito. Ao invés de fazer tantos filmes, nos últimos anos, talvez tivesse sido mais inteligente escolher melhor onde apostar as fichas. Vejamos: em 2011, o ator estrelou cinco filmes. Destes, apenas Seeking Justice conseguiu uma nota acima de 6 pela avaliação dos usuários do IMDb. Jesus! Não assisti a nenhum outro, mas imagino a qualidade deles só pela nota do site… Em 2010, ele estrelou outros dois – inclusive Kick-Ass, que achei legalzinho. Em 2009, foram outros quatro, três deles com nota na faixa do 6 e um com nota 5 no IMDb. Destes, assisti a The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans, o último com o ator no qual eu achei que ele foi bem. Meio complicado, não?

Sobre a bilheteria do filme… ainda não há informações de como ele tem se saído nos mercados em que já estreou nos cinemas.

CONCLUSÃO: Eis um filme difícil de assistir até o final. Não porque ele seja complexo, muito pelo contrário. O final é previsível, e ainda que exista pelo menos uma surpresa legítima na história, o restante do enredo é bastante furado. Nicolas Cage parece sofrer com a produção. E ainda que ele se esforce, aqui e ali, correndo para um lado, tentando emplacar um choro legítimo em outro momento, ele não convence. Assim como o roteiro, com algumas graves falhas de condução. Totalmente dispensável. Se você tiver pelo menos uma outra opção razoável para ver no lugar de Seeking Justice, não tema. Provavelmente será a melhor escolha optar pela outra produção.