The Rum Diary – Diário de Um Jornalista Bêbado


Diz a lenda que todo jornalista que se preze tem que ser bom de copo. Em outras palavras, deve beber bem – ou fumar, pelo menos, porque algum vício básico o jornalista deve ter. The Rum Diary resgata esta lenda e se aprofunda nela através da história do jornalista Paul Kemp, interpretado por Johnny Depp. Quem acompanha a carreira do ator verá muitos pontos em comum entre The Rum Diary e o ótimo Fear and Loathing in Las Vegas, de 1998, dirigido por Terry Gilliam. Algo explica essa lembrança evidente: The Rum Diary é inspirado no livro de Hunter S. Thompson, o mesmo autor da obra que inspirou Gilliam. O problema deste novo filme de Depp é que ele não é melhor que o filme de Gilliam. Só mesmo os jornalistas para se identificarem com esta produção e achá-la (talvez) interessante acima da média.

A HISTÓRIA: Um avião de acrobacias vermelho percorre o céu de Porto Rico, em 1960. Ele carrega uma faixa que dá as boas vindas para a Union Carbide. O jornalista Paul Kemp (Johnny Depp) acorda com o barulho do avião no hotel em que está hospedado, recebe o café da manhã e sai para falar com o editor chefe do jornal San Juan Star, Edward J. Lotterman (Richard Jenkins). Mesmo não causando uma boa impressão, Kemp é contratado. Sua primeira missão é escrever o horóscopo diário do jornal. Pouco a pouco, ele vai adentrando na realidade de Porto Rico, mesmo sem falar espanhol, e é convocado pelo consultor de relações públicas Hal Sanderson (Aaron Eckhart), a emprestar o seu talento literário para um projeto de convencimento social de grupos imobiliários poderosos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Rum Diary): Não tenho dúvidas que este filme afetará os seus distintos públicos de maneiras muito diferentes. Terá um impacto para os jornalistas, especialmente os da “velha guarda”. E terá um efeito muito mais suave para os que não vivem os prazeres e agruras desta profissão.

The Rum Diary, como o nome sugere, mostra a rotina de pessoas habituadas a beber muito. De entornar copos e copos – de cerveja e, principalmente, de rum. Afinal, estamos falando de Porto Rico, um país que é considerado um “Estado livre associado”, ou seja, não é totalmente independente e nem mesmo uma parte integral dos Estados Unidos (em outras palavras, não é um dos estados dos EUA).

A história conta que Porto Rico foi conquistado pela Espanha em 1493. Em 1898, o país foi cedido para os Estados Unidos. Cem anos depois, um referendo decidiu que Porto Rico seguiria no meio do caminho entre ser independente e fazer parte integralmente dos Estados Unidos. Desde 1917, quem nasce no país é considerado cidadão estadunidense. Mas pelo fato de Porto Rico não fazer parte da União de estados do país, seus cidadãos não podem votar para presidente, mas podem ajudar a eleger os vencedores das eleições primárias. Confuso, não?

Pois The Rum Diary mostra esta confusão entre uma identidade própria de Porto Rico e sua forte dependencia dos Estados Unidos – ao ponto do país ser visto como um reduto de férias para os aposentados da classe média dos EUA.

Predomina no país, segundo este texto, uma forte presença bélica estadunidense – com sete bases militares, no total. E, desde os anos 1960, muitas empresas multinacionais começaram a investir no país estabelecendo indústrias farmacêuticas, de eletrônicos, têxteis, petroquímicas e, recentemente, de biotecnologia. Em paralelo a estes investimentos, intensificaram-se as apostas no mercado imobiliário.

Neste cenário que se desenvolve a história de The Rum Diary. Além de abordar a rotina de um grupo de jornalistas – mais precisamente, de um trio -, que adora beber e observar o cotidiano para contá-lo nas páginas de um jornal, o filme trata da dependência de Porto Rico em relação aos Estados Unidos, e de como os interesses financeiros ditam as regras de um ambiente em que predomina a desigualdade social, a falta de oportunidades e de recursos próprios de um país.

Os jornalistas vão gostar e aplaudir alguns diálogos, especialmente entre os personagens de Kemp e Lotterman. A ironia relacionada com a profissão começa com o editor chefe do jornal colocando a nova promessa da empresa para escrever o horóscopo diário. Depois, Lotterman diz que está procurando alguém com entusiasmo, com energia, “sangue novo” que aporte qualidade para o jornal.

O problema é que ele não está interessado em quem faça isso com faro jornalístico. Porque o que importa, de verdade, é que a pessoa escreva apenas o lado “agradável” de Porto Rico, ressaltando temas que sejam de interesse do estadunidense médio, que sonha em gastar o dinheiro que economizou a vida toda para desfrutar uma pequena parte da realidade vivenciada por pessoas que tiveram êxito e sucesso.

A parte irritante da produção, além dela lembrar demais a Fear and Loathing in Las Vegas, é a forma com que o protagonista é “fisgado” por Chenault (Amber Heard). Muito previsível e recorrente aquela forma de apresentação da personagem e de fascínio em relação a ela. Sabemos em que lugar aquilo vai dar, desde o princípio. E a falta de novidades neste filme é o seu principal problema.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Brigas de galo, bebida com altíssimo teor alcóolico, dinheiro comprando praias que deveriam ser públicas, ilhas que são de domínio militar sendo negociadas por baixo dos panos com grandes corporações imobiliárias. The Rum Diary toda em temas diversos, mas nada que torne a história realmente fascinante. Jornalistas bêbados e o carisma de Johnny Depp parecem ser o grande chamariz da produção. Nada inovador.

As paisagens, quando elas são exploradas, são lindas. E contrastam, propositalmente, com a sujeira e a decadência das casas, rinhas de galo, bairros e ruas da periferia da cidade enfocada.

A trilha sonora é uma das qualidades desta produção. Um trabalho excelente, diversificado e envolvente de Christopher Young.

O diretor e roteirista Bruce Robinson faz um bom trabalho, inspirado no livro de Hunter S. Thompson. O escritor e jornalista ficou conhecido pela obra Medo e Delírio em Las Vegas. Ele segue o estilo de jornalismo gonzo, no qual não existe separação entre autor e personagem, ficção e não-ficção. Uma prova disso é que Hunter mudou-se para Porto Rico em 1960, tal qual o personagem de The Rum Diary. A diferença é que ele foi para lá para trabalhar em uma revista esportiva. Mais informações sobre ele neste link.

Mas Robinson acerta mais na direção do que no texto, que acaba sendo bem previsível e que não ultrapassa o grau de “curioso”. Mantendo a câmera normalmente próxima do protagonista e dos demais personagens, ele produz um filme muito dependente do trabalho dos atores, que estão bem, mas não fazem nada excepcional, e desperdiça a oportunidade de focar mais o ambiente e suas distintas matizes.

Outros da equipe técnica que fazem um bom trabalho: o diretor de fotografia Dariusz Wolski, a editora Carol Littleton, o designer de produção Chris Seagers e a figurinista Colleen Atwood.

Do elenco, além de Johnny Depp, que aparece como um eco dele próprio do filme de Terry Gilliam, merecem destaque Aaron Eckhart, o sedutor e enigmático Sanderson; Michael Rispoli como o fotógrafo Bob Sala, que vira o melhor amigo do protagonista; Richard Jenkins, dando um show como Lotterman; Giovanni Ribisi como o sempre “over” Moberg e Bill Smitrovich como Art Zimburger, ex-fuzileiro naval e contato de Sanderson para fazer um grande empreendimento imobiliário.

The Rum Diary estrou em outubro de 2011 em uma premiere em Los Angeles. Uma semana depois, o filme entrou em cartaz na Rússia e nos festivais Gent, na Bélgica, e Austin, nos EUA.

Esta produção, rodada nas cidades de San Juan e Vega Baja, em Porto Rico, não custou barato: US$ 45 milhões. E arrecadou, até agora, muito pouco, cerca de US$ 13,1 milhões nos Estados Unidos.

Mesmo faltando originalidade para o filme, ele tem elementos para virar “cult” em algumas rodas – especialmente de jornalistas. Mesmo sem fazer muito sucesso entre a crítica, ele conseguiu um prêmio até o momento: o de trabalho excepcional de Amber Heard conferido pelo Hollywood Film Festival.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais duros com a produção, dedicando exatas 77 críticas negativas e 77 positivas para The Rum Diary – o que lhe garante uma aprovação de 50% e uma nota média de 5,6.

CONCLUSÃO: Os jornalistas vão gostar. Especialmente os mais velhos, que tem as suas próprias histórias de bebedeiras para contar. Mas os jovens da profissão, que não fazem mais o perfil de jornalistas beberrões ou fumantes, vão dar menos importância para The Rum Diary, assim como a maioria do público. Esta é uma produção interessante, que mostra como os desejso de quem tem dinheiro predominam em diversas realidades – especialmente em países menos desenvolvidos. Também trata dos bastidores de um jornal, e de parte da realidade de Porto Rico nos anos 1960. Tem um bom resgate de época, e atuações condizentes, mas lembra demais ao filme de Terry Gilliam – e é mais fraco que o original também estrelado por Johnny Depp. Vale como passatempo, mas não é indispensável.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s