À Margem do Lixo


Orgulhosos de seus trabalhos, organizados e militantes. À Margem do Lixo mostra uma ótica diferente dos catadores de materiais recicláveis de São Paulo. Sem narrador – o que reforça ainda mais a ótica dos realizadores – ou dados que revelem a importância daquele coletivo, o filme segue uma linha purista de documentário. Daquelas que conhecemos muito bem: o diretor e o roteirista assumem uma verdade e a perseguem até o final. Um filme interessante, que mostra parte da realidade. Como todo documentário, aliás.

A HISTÓRIA: Barracões. Um catador percorre o caminho entre eles, com o seu carrinho, enquanto um trem passa próximo. Depois, um catador corre e pasa por baixo de uma ponte, mas tem que parar para deixar o trem passar. Corta. A câmera agora mostra catadores com seus carrinhos cheios andando em meio ao trânsito de São Paulo. Eles se arriscam, mas seguem puxando quantidades incríveis de papelão e de outros produtos recicláveis. Faça chuva, faça sol. Para alguns motoristas, eles são apenas empecilhos, estorvos no trânsito já naturalmente complicado. Eles aparecem também caminhando por calçadas. Pouco a pouco, começando pelo catador conhecido como Bispo, o documentário vai contando a história destas pessoas, homens e mulheres, com um filme totalmente narrado por eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme À Margem do Lixo): Uma realidade pode ser contada de muitas e muitas maneiras. Ainda que qualquer documentário registre o que acontece da forma mais verdadeira possível, sem artifícios, ele se torna apenas um documento de parte de uma realidade mais ampla.

À Margem do Lixo é um filme panfletário. E isso não é ruim. Claramente esta produção defende a categoria dos catadores de lixo, primeiro mostrando a dureza de seu trabalho. Depois, a dignidade daquelas pessoas e o orgulho que elas sentem pelo que fazem. Finalmente, enfoca a organização e as discussões deles como grupos em busca de condições mais dignas.

Entre um argumento e outro, a produção também descola o “trabalho humano” dos catadores daquele “trabalho de máquinas” do processamento daquele material recolhido pelos heróis desta história. De um lado, gente em busca de dignidade. De outro, indústrias sem trabalhadores. Fica evidente a defesa dos realizadores de que há algo errado nestes extremos. De que falta um pouco de equilíbro na equação, e de repartir mais aquelas “riquezas”. O dinheiro parece ser feito por máquinas, em um lirismo mecânico descolado do fim humanitário de todo aquele processo, que deveria ser o de dar oportunidades, comida e estudo para pessoas batalhadoras.

O diretor Evaldo Mocarzel, responsável pelo roteiro junto com Willem Dias, faz escolhas interessante. Constrói o seu discurso de forma programática, começando pelo sacrifício dos catadores de materiais recicláveis – e que eles mesmos reconhecem que a maioria das pessoas chama de lixo – e chegando até a mobilização deles com a lógica industrial. Um dos líderes de uma das cooperativas faz um discurso com alta carga política e ideológica, encerrando a produção com uma reflexão interessante.

Afinal, o único caminho possível, já que todos nós integramos um sistema baseado no capitalismo, na livre concorrência, na globalização e tudo o mais que vem na rasteira disso, é seguir a mesma lógica? Adequar-se para sobreviver? Certamente não dá para nadar sozinho contra a maré. Mas encontrar alternativas sem repetir as mesmas fórmulas de exploração e de desumanização parece ser mais legítimo, especialmente para coletivos muitas vezes marginalizados, do que seguir repetindo velhas fórmulas.

Mocarzel e os diretores de fotografia Gustavo Hadba e André Lavenère fazem um grande trabalho na captação do cotidiano daqueles trabalhadores. Eles focam a realidade de alguns deles, tentando aprofundar em suas visões de mundo. Pena que muito do documentário fique restrito apenas ao trabalho. Fora a história da mulher que leva e busca a filha da escola todos os dias, antes e depois do trabalho como catadora, os demais tem pouco da vida pessoal mostrada pela produção.

Claramente À Margem do Lixo não está preocupado em resgatar as histórias de vida e o cotidiano daquelas pessoas de uma maneira mais ampla. Claro que é um acerto da produção colocá-los para comentar as suas próprias cenas. Ao invés de termos um narrador “onipresente”, dos roteiristas chamarem alguém para falar sobre aquela realidade e aquelas cenas, assistimos aos “atores” que vivem na pele aquele cotidiano falando sobre ele. Bacana.

Só que senti falta de conhecer mais sobre eles. Além do momento da narração. De saber o que eles fazem antes de pegarem o carrinho ou o caminhão para catar os materiais por São Paulo. E o que eles fazem depois? Descontado o caso da mulher com a filha, que também tem a intimidade pouco mostrada, do restante sabemos quase nada. Desta forma, o documentário não se aprofunda naquelas pessoas que, muitas vezes, nem são identificadas. Essa é uma carência da produção.

Por outro lado, ela deixa evidente a vontade de mostrar como as cooperativas funcionam. Logo após a história do Bispo, que emociona por revelar em detalhes a força que ele tem que fazer, seus sacrifícios e o orgulho que ele sente do que faz, assistimos às primeiras cenas das reuniões de lideranças das cooperativas.

Essas discussões permeiam todo o filme, assim como cada etapa da produção é cortada por imagens de máquinas processando todo aquele material. Belo trabalho, nestas sequências, tanto do diretor quanto do editor, Willem Dias. Eles fazem a “trilha sonora” destas sequências com os barulhos das máquinas – sob a batuta dos músicos Thiago Cury e Marcus Siqueira.

No total, são sete personagens que vão nos contando essa história através de seus exemplos. Conscientes, eles sabem como ninguém por que dificuldades passaram e, mais que isso, o que falta ser feito para que o trabalho deles, importante para a sociedade, seja mais valorizado. Há frases e discursos muito sábios neste filme, assim como outros um pouco datados – como aqueles que tratam de problemas pontuais que os grupos estão vivendo na cidade de São Paulo, sem a possibilidade de se encontrarem com o prefeito, e com o risco de ver os seus trabalhos privatizados e executados por grandes empresas.

Mesmo com os problemas citados anteriormente, À Margem do Lixo é um documentário importante, que dá voz para pessoas que tem o que falar. Emociona, ao evidenciar a luta deles, e provoca reflexão em vários sentidos. Por exemplo, em uma crítica recorrente de alguns daqueles catadores de que eles não devem ser tratados como “coitadinhos” e serem conduzidos por entidades – ONGs ou grupos associados à igrejas. Mas que eles querem ter apenas a oportunidade de trabalhar dignamente, com respeito. Cada vez mais conscientes e mobilizados, aqueles grupos parecem preparados para brigarem por melhores condições.

Se este documentário ajudar para que estas pessoas deixem de ser “invisíveis” nas ruas, calçadas e demais espaços urbanos, ele já terá feito o seu papel. Começando pelos motoristas, que devem esquecer um pouco a pressa e entender que a rua é feita para todos. Especialmente para quem está trabalhando. Belo trabalho, com uma lógica bem definida e que constrói bem a sua narração a partir destas convicções. Para ficar melhor, faltou uma aprofundada maior na vida daquelas pessoas, dar nome para eles – não é porque a sociedade os ignora que os realizadores também precisam torná-los “sem identidade” – e mostrar alguns números que contextualizariam este tipo de trabalho.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor que essa. Talvez um 8, ou 7,8. Mas por ser tão cheio de boas intenções, resolvi melhorar um pouco o conceito que eu daria para a produção. Evaldo Mocarzel merece ter o trabalho acompanhado. E as pessoas retratadas neste filme, ter suas vidas retratadas e difundidas.

Falando em divulgação, vale comentar como cheguei a este filme. Uma cópia dele foi enviada para a redação do Diário Catarinense, onde eu trabalho. E como estou contribuindo como crítica de cinema para o jornal, passaram ele para mim. À Margem do Lixo faz parte de um projeto muito bacana, chamado Cine Mais Cultura. Através dele, o filme será distribuído, a partir deste mês e até maio, a 1109 cineclubes de quase 700 cidades de todos os estados do país.

De acordo com o material que acompanha o filme, participarão desta distribuição os filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes, entidade da sociedade civil que representa os cineclubes brasileiros, e contemplados do Programa Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura, uma ação que disponibiliza por meio de editais equipamentos de projeção digital, obras brasileiras do catálogo da Programadora Brasil e oficina de capacitação cineclubista, atendendo prioritariamente periferias de grandes centros urbanos e municípios em vulnerabilidade social. Muito bacana!

À Margem do Lixo integra uma tetralogia que foi iniciada pela produção À Margem da Imagem, de 2003, que “discute a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão social mais absoluta”, seguida de À Margem do Concreto, de 2005, que trata dos sem-teto de São Paulo. Ainda falta a produção que irá fechar este ciclo.

No material de divulgação deste filme, o diretor Evaldo Mocarzel explicou desta forma esta produção: “O documentário tenta focalizar a indústria da reciclagem a partir do catador. O Brasil é líder mundial da reciclagem de alumínio. 87% do alumínio produzido é reciclado. A lucratividade desta indústria é sustentada de muitas maneiras pela economia informal e pela miséria destes catadores”.

Jornalista, Mocarzel enfatizou a diferença entre uma reportagem e um documentário: “No documentário, você pode fazer uma imersão em um tema e não tem que ouvir todos os lados. Se eu colocasse um dono de fábrica (de reciclagem de materiais), eu estaria criando uma armadilha ética condenável. Eu queria um filme que falasse sobre o trabalho. Eu queria um cinema de propaganda da luta e da militância”. Sem dúvida alguma ele conseguiu fazer isso. Gostar ou não é uma tarefa para o espectador.

Lançado em novembro de 2008 no Festival de Brasília, À Margem do Lixo estreou em poucos cinemas do país, em circuito comercial, três anos depois, em novembro do ano passado. Agora, chega até os cineclubes, como comentei antes.

Segundo o site IMDb, À Margem do Lixo teria custado cerca de R$ 500 mil para ser produzido. Praticamente desconhecido, ele não foi avaliado pelo site e nem por qualquer crítico linkado no Rotten Tomatoes.

Até o momento, À Margem do Lixo ganhou cinco prêmios. No 41º Festival de Brasília, entregue em 2008, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o de Melhor Filme pelo Júri Popular, o Prêmio Aquisição TV Brasil e o de Melhor Fotografia. No 12º Festival Internacional de Cine de Derechos Humanos, promovido na Argentina, recebeu o prêmio de Melhor Documentário.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, que evidencia os rostos e as vozes de gente importante e normalmente esquecida pelas câmeras. Ainda assim, À Margem do Lixo peca por não se aprofundar. Faltaram dados, ou um pouco mais de contexto sobre a importância daqueles homens e mulheres. Algo que fizesse este filme chegar ao nível de outras produções que ganham projeção mundial. Com isso não quero dizer que o diretor deveria abrir mão de sua argumentação – pelo contrário. Mas sair do simples registro da realidade – ainda que feito de uma forma maravilhosa e bela – para dimensionar com informações o que aquelas pessoas estavam dizendo, tornaria o filme mais interessante. Da forma com que ficou, é apenas mais um documentário sem grande projeção. Um documento histórico, mas que não transcende o nosso tempo.

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