360


As boas e velhas encruzilhadas. Aquelas mesmas que, muitas vezes, não nos damos conta que estamos cruzando. 360, dirigido por Fernando Meirelles, é mais um destes filmes cheios de histórias que filosofa sobre a vida. Não é o melhor deles, mas tem estilo. O diretor brasileiro pegou um grande time de atores e soube tirar proveito deles, utilizando recursos bacanas que um diretor tem para contar uma história – especialmente no que se refere a edição. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Papel de parede barato. Uma bela mulher se coloca à frente dele e arruma o cabelo. Parece um pouco nervosa. Ela olha fixo para a frente, e Rocco (Johannes Krisch) diz que está bem, e que pode dar para ela alguma bebida para que ela relaxe afinal, aquela é uma sessão de fotografias importante. Com aquelas fotos, Mirka (Lucia Siposová) vai conseguir trabalho e fazer um dinheiro impossível em sua realidade. A cidade é Viena, onde homens de negócio pagam bem para prostitutas de luxo. Ali começa a série de histórias de 360, que passa ainda pela Bratislava (Eslováquia), Paris, Londres, Colorado e Phoenix (EUA).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a 360): A sensação de “eu já vi esse filme antes” demora um pouco para acontecer. Na verdade, o espectador que já tem uma boa bagagem de filmes começa a ter essa impressão quando vamos para Londres e nos aproximamos do casal de brasileiros Rui (Juliano Cazarré) e Laura (Maria Flor) e do caso que Rui tem com Rose (Rachel Weisz). Até ali, estamos imersos na fascinante história de Mirka, que utiliza o codinome Blanka, interpretada por Lucia Siposová, um dos pontos fortes de 360.

O filme começa muito bem, obrigado. Os diálogos e a narrativa que introduzem a história de Mirka e de sua irmã Anna (Gabriela Marcinkova) são perfeitos. A forma de conduzir do diretor, também. O “problema” de Mirka/Blanka está lançado, e já é conhecido. Mulher pobre, sem muitas chances de ganhar a vida, vira prostituta de luxo. Com todos os riscos e pesos que isso pode significar. De forma curiosa, a irmã Anna, a quem Mirka parece querer proteger, lhe acompanha os passos. Vai vendo, desde cedo, um pouco de como é a vida – ainda que, ao invés de desencantar-se logo de cara, ela prefira sonhar abraçada a vários livros.

Da sofisticada Viena, passamos para a complicada Bratislava, cidade da Eslováquia que fica a 79 quilômetros – ou 50 minutos de carro da capital austríaca. Após os diálogos iniciais, a música entra em cena de forma predominante, um dos trunfos da produção. E a partir da Eslováquia, outro elemento conhecido e que já virou clássico de diretores como Steven Soderbergh (vide os filmes Ocean’s Eleven, entre outros), também embala a produção: a edição fluida que divide a tela em mais de um ambiente com acontecimentos simultâneos.

Este trecho inicial, que conta a história das irmãs eslovacas, é o melhor da produção. Isso não quer dizer que 360 não tenha bons momentos depois, mas a partir da metade do minuto 17, quando passamos para as outras histórias, começando pela obstinação de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) por Valentina (Dinara Drukarova) em Paris, é inevitável não lembrar de outros filmes com múltiplas histórias que se cruzam.

E é na comparação que 360 perde pontos. Afinal, após 1h44min desta produção, ficamos com um grande “e daí?” na cabeça. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande mensagem desta produção, deixada na reprodução da imagem que passa no painel da fachada de um prédio em Viena, é que a vida segue? De que, volta e meia, quando escolhemos um caminho de uma de várias encruzilhadas que encontramos na vida, estamos abrindo as portas para a felicidade ou para um verdadeiro desastre? Sim, isso tudo é verdade. Mas outras produções que precederam 360 já trataram estas mesmas temáticas de forma mais interessante, com histórias bacanas do início ao fim.

Mas não é isso que acontece com 360. Por mais que eu goste do Anthony Hopkins e que tenha achado boas as participações dos brasileiros Juliano Cazarré e Maria Flor, achei muito fraca a história dos três. A parte mais interssante do trio envolve o contato de Laura com Tyler (Ben Foster). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mais uma vez Foster mostrou porque é um dos grandes nomes de sua geração. Ele exprime com precisão toda a tensão e esforço de seu personagem para controlar a si mesmo e não cometer mais uma loucura. A interpretação dele, junto com Maria Flor, é a mais tensa da produção, e a que deixa melhor a mensagem de “enquanto você se lança em uma direção, é preciso estar preparado para os riscos”.

Porque nesta busca que todos os personagens de 360 parecem fazer para viverem melhor, para serem felizes, há “muitos riscos na esquina”. E estes riscos são muito, muito reais. Quem garante que a pessoa que você conhecer neste noite, em um bar ou clube, não é um psicopata ou uma louca? O que pode acontecer com você se parar na esquina errada na volta da “balada”? Ou quando está abrindo o portão de casa? Essa tensão mostrada no contato entre Laura e Tyler – e até antes, quando ela se aproxima de Anthony Hopkins, para quem não consigo olhar sem imaginar o Dr. Hannibal – e, posteriormente, no encontro entre “Blanka” e o patrão (Mark Ivanir) de Sergei (Vladimir Vdovichenkov), é um dos acertos desta produção.

Algo para contrabalancear com as histórias fracas entre casais em crise, como Rui e Laura e, principalmente – e eis o grande desperdício desta produção – Michael Day (Jude Law) e Rose. Muito espaço para eles, que não demonstraram química alguma. Ainda assim, claro, há uma razão para o roteirista Peter Morgan, que se inspirou na peça Reigen, do mestre Arthur Schnitzler, ter colocado eles ali.

Faz parte da reflexão deste filme as escolhas que Laura, Michael e Rose tomaram. Romper uma relação ou manter um casamento são escolhas fundamentais, que ajudam a definir o resto das nossas vidas. Decidir permanecer ou partir altera tudo. Mesmo que estas sejam verdades universais, perto do perigo de aproximações como as que Laura e Anna fazem, assim como as histórias delas e mesmo da pouco explorada relação entre o dentista e Valentina, ou mesmo da história de Sergei, estas decisões de casais que seguem ou que se rompem revela-se menos interessante.

Além de certas escolhas serem fundamentais, e de muitos perigosos rondarem estes momentos – sem que percebamos algo -, 360 trata de algo fundamental: de como alguns contatos imprevistos podem tornar-se fundamentais na nossa vida. Como uma frase, um bilhete, um abraço colocado na hora certa, podem ser os elementos que nos faltavam para que tudo se encaixe. Para que a vida faça sentido, e para que fique claro o passo que deve ser dado em seguida. São encontros como entre os personagens de Hopkins e Maria Flor, entre outros, que mudam tudo. Algumas vezes para melhor, porque fazem todo o sentido. Outras vezes para pior, porque nos “estraga a vida”. E a beleza de 360, e da vida mesma, é que nunca conseguimos prever ou evitar esses contatos. Eles simplesmente acontecem.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fernando Meirelles mostra, mais uma vez, que pode fazer qualquer projeto muito bem. Seja um “encomendado”, como é o caso deste, seja um que ele assuma desde o princípio, incluído o roteiro. Junto com Walter Salles, sem dúvida, é o grande diretor brasileiro da atualidade.

360 tem um elenco primoroso. Todos fazem bem os seus papéis, mas alguns se destacam mais que os outros. Tiro o chapéu para Lucia Siposová, que rouba a cena toda vez que aparece e, mesmo com papéis menores, para Gabriela Marcinkova e Vladimir Vdovichenkov. Sem dúvida alguma, o melhor núcleo da produção. Também merecem uma reverência os sempre competentes Jamel Debbouze e Ben Foster.

Da série, “que desperdício”, destaque para o ótimo ator alemão Moritz Bleibtreu que, aqui, faz quase uma ponta. Poucas cenas e alguns diálogos – além do troféu de personagem mais sacana da produção. Jude Law e Rachel Weisz cumprem os seus papéis, sem destaque. E o melhor momento de Anthony Hopkins é seu “desabafo” em um grupo de apoio. Não é o seu melhor desempenho.

Mesmo em papéis micro, os geniais Johannes Krisch e Dinara Drukarova brilham. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela, em especial, na sequência em que sua vontade é totalmente aniquilada pelo dentista. Ah, se as pessoas soubessem ler os sinais… e se fossem mais valentes, corajosas… Tantas histórias de amor não se perderiam no vazio, causando sofrimentos desnecessários.

Merece uma menção, também, a ponta de Marianne Jean-Baptiste como Fran, a profissional que ajuda Tyler a ficar na linha.

A trilha sonora de 360 é um dos pontos fortes do filme. Belo trabalho que carece de crédito – não encontrei o responsável pela seleção musical e nem a lista completa de canções que faz parte da histórias. Apenas que uma delas, Helium Reprise, é interpretada por Mike Patton e Mark Orton.

360 estreou em setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros dois festivais, o de Londres e o de Munique. Nesta trajetória, foi indicado a apenas um prêmio, o de melhor filme em Londres. Mas, até o momento, não recebeu a nenhum prêmio.

Segundo o site Box Office Mojo, 360 teria arrecadado, nas bilheterias dos EUA, quase US$ 70 mil. Sim, mil dólares e não milhões… é que o filme estreou em poucas salas – começou com duas, passou para 11 no dia 12 de agosto e, na semana seguinte, já baixou para oito salas nos Estados Unidos. Por mais que tenha um grande elenco em cartaz, assim o filme não vai conseguir ter um bom desempenho.

360 não se saiu bem nas avaliações de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para a produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 49 críticas negativas e apenas 12 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 20% e uma nota média de 4,4.

Esta é uma produção entre Reino Unido, Áustria, França e Brasil.

Caros leitores, quem leu este texto logo depois que eu o publiquei, na tarde do domingo dia 26/08, deve ter estranhado que eu não citei aspectos técnicos da produção. Por puro esquecimento. Mas lá vai a correção: além dos nomes citados, quero destacar a ótima direção de fotografia de Adriano Goldman e, principalmente, a edição precisa e que deixa o filme bastante fluente de Daniel Rezende.

CONCLUSÃO: Determinadas escolhas definem uma vida. E, muitas vezes quando elas são tomadas, a pessoa que decidiu um caminho entre dois ou vários não se dá conta da importância daquela escolha. Por um lado, isso é triste. Porque seria importante sabermos quando uma decisão é fundamental. Depois dificilmente dá para voltar atrás. Por outro lado, talvez essa falta de clareza sobre as bifurcações dos caminhos da vida seja a graça própria que ela tem. Esta incerteza e falta de sinais sobre os momentos fundamentais seja o que torna a vida imprevista – e surpreendente. 360 dá um giro em diversas cidades de alguns países para focar as escolhas de gente muito diferente. Todas, incrivelmente, de certa forma ligadas. A premissa não é nova, e outros filmes (como Magnolia, em um universo menor) fizeram essa reflexão melhor. Mas o filme de Meirelles tem um elenco muito bom, e o mérito de contar as histórias de forma interessante. Não é um filme que pesa, ainda que algumas histórias sejam menos interessantes. A sorte do espectador é que as que começam e terminam o filme são as melhores da produção. Daí que os gostinhos de “e daí?” e “eu já vi esse filme antes” se tornam mesmo intensos. Esta não é uma produção que vai marcar a sua vida. Mas pode fazer você pensar sobre caminhos escolhidos. O que comprova que, mesmo requentada, ela não é de todo descartável.

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5 comentários em “360

    1. Oi Marcio!

      Vixe, passou um tempo e não lembro deste filme em detalhes. Tive até que reler parte da minha crítica para lembrar mais dele. O que, convenhamos, nunca é um bom sinal. 🙂 Porque se o filme fosse bom mesmo, eu ainda lembraria bem dele.

      Pois então, Meirelles sempre fez um belo trabalho como diretor. Ele entende bem o próprio ofício e, por isso, não consegue entregar algo mal feito. Mas daí a 360 ser um filme bom… ele é, realmente, mediano. E concordo contigo que ninguém sofre ao assisti-lo. hehehehe

      Obrigada por mais esta visita. E volte sempre! Abraços e inté.

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  1. he he…fato! não dá mais pra separar Hopkins de Hannibal ou vice versa. Achei extremamente bem produzido tecnicamente (aos olhos de um leigo, claro) o que prova que Meireles vai se solidificando cada vez mais no mercado cinematográfico.
    Tive a oportunidade de ouvi-lo falando do filme no programa da Trip FM e ele contou algumas particularidades do filme, onde por exemplo a Maria Flor teve uma espécie de crise de choro depois de gravar com Hopkins, porque este teria sido de uma gentileza paternal com ela e tal. Muito legal!

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    1. Olá, meu bom Mangabeira!

      Então, como eu comentei antes, Meirelles é um cara muito bom tecnicamente. Ele manja do negócio de fazer filmes. Não tenho dúvida disto.

      Também acho o filme bem acabado tecnicamente. Mas vejo que lhe falta um tanto de “espírito”, de alma, por assim dizer. Tanto que, ao responder a estes recados agora, tive dificuldade de lembrar do filme… sinal de que ele não me marcou nem um pouco. E isso é um mal sinal.

      De qualquer forma, foi uma experiência legal para o diretor em Hollywood. E isso é o que importa.

      Obrigada por mais esta visita. Gosto da tua presença por aqui.

      Abraços e inté!

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