L’art d’Aimer – The Art of Love – A Arte de Amar


Dois elementos essenciais da vida, o amor e a música, embalam L’art d’Aimer. Um filme simples, direto, singelo e com algumas ideias bem interessantes. Alguém pode dizer que ele não tem nenhuma grande inovação. Porque utiliza recursos já explorados por outros filmes, faz deles uma colcha de retalhos, e apenas isso. Mas quando essas referências são utilizadas com inteligência, há bom roteiro, ótimos atores, ritmo adequado e tudo funciona bem, qual é o problema? E é isso o que acontece com L’art d’Aimer.

A HISTÓRIA: Música clássica a um bom volume. Seguida da frase “sem música, não há amor”. Esse é o espírito do filme, que segue com um narrador explicando como, sempre que alguém se apaixona, uma música especial “toca” essa pessoa. Cores e músicas se sucedem, porque para ninguém a melodia se assemelha. O narrador comenta que para cada pessoa a música é diferente e que ela pode aparecer de forma inesperada. Em seguida, alguns dos personagens desta produção aparecem em cena. Começando por Vanessa (Élodie Navarre), que ouviu a música ao ajudar William (Gaspard Ulliel) com um problema. Depois, outra melodia acompanha a Zóe (Pascale Arbillot), Emmanuelle (Ariane Ascaride) e Paul (Philippe Magnan), chegando até o impaciente Laurent (Stanislas Merhar). A partir da última história, saimos da introdução do narrador e partimos para um mergulho nos contos emocionados, engraçados e interessantes de diversos perfis de amantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a L’art d’Aimer): Depois de alguns filmes “pesados” e cheios de conceitos, nada como encontrar uma produção despretensiosa pela frente. Admito que eu gosto de filmes que seguem o conceito de “colcha de retalhos” de histórias. E quando essa colcha trata de amor e de música, sou suspeita demais para falar sobre ela. 🙂

Quem me conhece um pouco sabe que sou uma viciada em música. Estou escutando as mais diferentes canções e melodias o tempo todo. Sou destas que alguém fala uma palavra e, volta e meia, relaciono ela com uma música. Nem preciso dizer que uma das frases que eu mais gosto do grande Friedrich Nietzsche é “Sem música, a vida seria um erro”. Da mesma forma, acho que a mesma vida só tem sentido tendo o amor como principal medida e argumento. Sem amor… a vida também seria um grande erro.

E L’art d’Aimer trata de ambos. Em histórias muito diferentes, mas que dão um bom esboço de todos os nossos erros, acertos e caminhos escolhidos na busca pelo amor. Alguém pode dizer que o filme é bacana, mas que faltou acrescentar outras formas de amor. De fato, L’art d’Aimer é um filme que segue a linha tradicional. Não tem casais homo, bi ou suas variações. Mas também vejam as músicas escolhidas… todas seguem o clássico. É um filme tradicional, sim, mas nem por isso menos interessante.

Achei curiosa a escolha do diretor, roteirista e ator Emmanuel Mouret de começar a série de histórias com o “impaciente” Laurent. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Afinal, ele exemplifica justamente a frustração do indivíduo em não conseguir ouvir a música. E, no final, o inesperado encontro de sua “canção individual” independente de uma mulher, de um par. Algo belo, e profundo, que poderia estar colocado mais no final da produção.

A escolha para esta ser a primeira história, contudo, me parece justamente mais uma forma de Mouret romper previsões. Afinal, ele já começou jogando com as nossas capacidades sensoriais mais evidentes – as visuais e auditivas – com o uso de cores e música logo no início da produção. Por que não utilizar a história mais triste e subversiva logo no começo?

Depois, o filme segue com histórias engraçadas, de flertes, encontros e desencontros, e ao menos uma emocionante e provocativa. Afinal, a vida, embalada pela música e o amor, tem muitas variantes. Como a trilha escolhida para esta produção, há momentos de suavidade e de ritmo acelerado. Tons mais introspectivos e outros momentos de pura catarse. L’art d’Aimer não chega a ter uma catarse, mas chega perto. E os dois momentos que eu achei mais intensos são conceituais, e não fisicos. O que é algo interessante, para um filme que trata de amor.

Esqueça Hollywood. Se esta produção tivesse sido rodada por um estúdio de lá, certamente a força da produção seriam os contatos físicos, as cenas eróticas e provocantes. Nesta produção francesa o cortejo, a sugestão e a dúvida que leva à angústia viram protagonistas, junto com algumas boas doses de humor.

Se começamos com um homem lindo, cortejado, mas que não consegue nunca ouvir uma sinfonia inteira, apenas partes dela em diferentes corpos e relações, na sequência somos apresentados a outra história de alguém com dificuldades em apreciar uma boa música/amor. Isabelle (a ótima Julie Depardieu) está há um ano sem sexo e começa a sonhar com alternativas para o seu drama. A forma acidental com que ela chega a uma resposta é fascinante, e nos apresenta um grande outro trabalho, o de Laurent Stocker como Boris.

Agora, o curioso é que este filme não trata apenas de amor e música. Mas de questões filosóficas também. Como a busca por um sentido na vida por parte de Amèlie (Judith Godrèche), uma mulher belíssima, que “tem tudo”, mas que busca no altruísmo o sentido que ela não encontra em outra parte. A parte mais cômica fica com mais um trabalho excelente de François Cluzet. Ele interpreta a Achille, um homem de meia idade solteiro e louco por começar um romance. E que encontra na inconstante, indecisa e insegura nova vizinha (Frédérique Bel) um novo e fascinante desafio.

Além de pessoas solteiras buscando as suas próprias músicas amorosas, L’art d’Aimer acerta o tom ao abordar a história de dois casais. Como não poderia deixar de ser, o desafio dele está na fidelidade. No desejo fora do casamento e de como, nestes momentos de música em possível descompasso, um casal pode atuar juntos para encontrar o tom novamente. Muito singela e bacana a história do casal maduro Emmanuelle e Paul. Mas, sem dúvida, os melhores desencontros e lições que as tentativas de equilibrar liberdade com comprometimento e dedicação podem nos dar estão na história do jovem casal Vanessa e William. Eis o cerne do romance. Lindos.

Assim como este filme, cheio de prelúdios, notas altas e baixas. E que de forma muito despretensiosa, embala os românticos e os cínicos por histórias interessantes, com alma, poesia e algum charme. Há alguns momentos bobos, espalhados aqui e ali, como a atitude um tanto “infantil” de Isabelle e Boris lá pelas tantas, quando as respectivas “máscaras” caíram. Mas que, na vida, também não agiu de maneira besta quando estava apaixonado(a)? L’art d’Aimer flui com suas histórias diversificadas, nos faz rir, nos emocionar e lembrar de nossas próprias músicas. Cumpre, assim, seu papel com louvor. E a nota só não é melhor porque senti a falta de algumas notas nesta sinfonia. Um pouco mais de variação, e a experiência da história e da própria música ir além do clássico.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os recursos utilizados neste filme, como frases de tempos em tempos, assim como músicas, para marcar a levada da história e apresentar os personagens não são novos. Ainda assim, funcionam bem. O roteiro é inteligente, e aposta, de forma acertada, nos diálogos. Consequentemente, a direção de Emmanuel Mouret foca nos personagens, na interpretação dos atores, mas com o cuidado também de buscar sempre belas paisagens e lugares.

A aura de “arte” está espalhada por todo o filme. Não apenas pela música, mas pelas citações literárias e pelas galerias de artes e lugares que os personagens vão visitando no decorrer da história.

Filme de qualidade como este consegue concentrar alguns dos grandes atores da atualidade na França. Bom ficarmos atentos a eles e acompanhar as suas novas apostas.

Na parte técnica desta produção, destaque para a direção de fotografia “luminosa” de Laurent Desmet e para a edição bem feita e cuidadosa de Martial Salomon. Ele, junto com Mouret, é o responsável pelo bom ritmo da produção.

L’art d’Aimer estreou em agosto do ano passado no Festival de Locarno. Depois, o filme participou de outros seis festivais, incluindo os de Hamburgo e Londres, além de um par de eventos de pouca relevência. Nesta trajetória, ele ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, onde foi indicado ao prêmio de melhor filme no Grande Prêmio das Américas, ao qual ele não levou.

O diretor e roteirista Emmanuel Mouret interpreta a Louis em L’art d’Aimer. Louis é o homem que flerta com a compromissada Vanessa. Está apaixonado por ela, e a convida para uma noite de amor, antes que ele se vá para… o Brasil. 🙂 Papel bobo, quase uma ponta, mas que coloca tempero na história.

Aos 42 anos, Mouret tem 10 filme no currículo como ator, oito produções como diretor e apenas três como roteirista. Até agora, o cinema dele não foi muuuuito expressivo. Mas vale acompanhá-lo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para L’art d’Aimer. Uma nota justa, se o filme for visto com frieza. Mas não foi o meu caso, o que eu deixei evidente antes. Por tratar de temas que eu gosto e, especialmente, porque eu esperava um filme para quebrar a “seriedade” da sequência anterior, dei uma nota bem melhor que esta. E se não fosse por estes elementos, e sim por uma análise “fria” da produção, talvez eu lhe desse um 7,5. 🙂 Por enquanto, não há críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, provocante, leve, delicioso. Que trata de formas diferentes o amor, até porque ele, como as matizes das cores e a própria música, esta última tão protagonista nesta produção quanto os seus atores, é rico em variações, tonalidades e composições. Alguém pode comentar que nem todas as variações deste sentimento, tão fundamental, foram retratadas nesta produção. De fato, L’art d’Aimer segue uma linha tradicional, clássica, inclusive nas formas de quebrar a narrativa. Pausadas, como em um compasso musical. Se você está buscando uma colcha de retalhos de histórias bacanas, algumas delas que nos fazem refletir sobre nossas próprias escolhas e “vícios” amorosos, eis uma boa pedida.

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