Elefante Blanco – Elefante Branco


Eu tenho uma quedinha pelo Ricardo Darín. Na verdade, é uma queda considerável. Ao ponto de, quando vejo o nome dele em uma produção, tento assistí-la, não importa a história. No caso de Elefante Blanco, além de Darín, me chamou a atenção o filme ser dirigido por Pablo Trapero, diretor que me conquistou com Carancho (comentado aqui). Mas o filme não me convenceu, no final. Sim, a Argentina também tem problemas sociais como o Brasil, ainda que as favelas e comunidades criadas em locais irregulares não tenham ganho a mídia tanto quanto as made in Rio de Janeiro. Certo também que a Igreja tem um trabalho social importante. Mas o foco nestas duas realidades e o estilo de Darín e de Trapero não são suficiente para salvarem uma história que se revela longa demais e pouco interessante.

A HISTÓRIA: O padre Julián (Ricardo Darín) faz um exame complexo e delicado. Em outra parte, um homem se esconde na mata enquanto vários outros tentam encontrá-lo à noite. O padre Nicolás (Jérémie Renier) se esgueira enquanto escuta pessoas serem mortas porque não apontam para que lado ele fugiu.  Não demora muito para que Julián busque a Nicolás, resgatado após a morte de todos do vilarejo. A ideia de Julián é que Nicolás possa ajudá-lo a cuidar da comunidade formada ao redor de um elefante branco deixado pelo governo argentino. Pelos cálculos da Igreja, que tem um projeto social ali, há pelo menos 30 mil pessoas vivendo próximas ao projeto abandonado do maior hospital da América Latina lançado em 1937. Enquanto tentam erguer moradias mais dignas para aquelas pessoas,  padres, assistentes sociais e voluntários devem lidar com uma realidade violenta criada pelo tráfico de drogas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elefante Blanco): O diretor e roteirista Pablo Trapero tem um estilo de cinema interessante. Ele gosta de tratar assuntos complexos da realidade argentina, buscando uma forma de fazer “cinema social”. Relembrando o neo realismo italiano – guardadas todas as proporções de diferenças históricas e de realidades diferentes, mas ambos buscavam os “marginalizados” e beber da dureza de algumas realidades.

Trapero gosta desta abordagem. Não assisti ao premiado Leonera, mas assistindo a Carancho se percebe esta identidade como algo determinante para o diretor. Essa verve realística e seu estilo de dirigir e de escrever que incorpora o jeito de falar, de agir e a velocidade da vida cotidiana funcionaram bem em Carancho. Mas em Elefante Blanco o discurso não funcionou tão bem.

Primeiro porque não há esperança em parte alguma. A realidade é ruim e nada sinaliza para uma melhora do quadro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o protagonista está doente e tem tudo para ter uma morte súbida a qualquer minuto. Pressentindo isso, ele busca um “pupilo” para deixar em seu lugar. Esta promessa, contudo, está em dúvidas sobre o que fará da vida. Problema clássico quando o mestre tenta encontrar segurança na busca por “passar o bastão”. Como se não bastasse este ponto clássico, essa troca de “poder” entre heróis é buscada em meio a uma realidade caótica em que transbordam exemplos ruins – de gangues rivais aliciando jovens e empregados insatisfeitos com falta de pagamento – e onde falta mais ações heróicas.

Certo que a realidade é complicada. E o filme de Trapero mostra que este tipo de dificuldade em encontrar saídas para realidades violentas e contaminadas pelo tráfico de drogas não é algo que acontece apenas com o Brasil e a Colômbia, na América Latina. A Argentina, tão culta e que passou por tantos problemas econômicos nas últimas duas décadas, também tem as suas favelas e projetos sociais conturbados. Mas além desta constatação, o que nos sobra?

A importância da Igreja naquela realidade mostrada pelo filme é evidente. O trabalho dos personagens de Darín e Renier me fizeram lembrar muito a corrente da Teologia da Libertação, que mergulhou na realidade brasileira. E claro, de várias outras correntes da Igreja que, igualmente, buscam desenvolver no contato com as pessoas que mais precisam a verdadeira vocação do cristão. Só que isso não bastou para Trapero, e os roteiristas que ajudaram o diretor a escrever esta história, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre.

Os quatro também precisaram tocar em outra dificuldade de um dos dogmas da Igreja: a castidade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nicolás sucumbe aos encantos da charmosa, determinada e linda Luciana (a sempre excelente Martina Gusman). E o discurso que os realizadores parecem nos deixar, no final das contas, é que tipo de homem pode ser santo? Aquele que se mantém fiel a todos os dogmas da Igreja e, desta forma, fica mais isolado da realidade (como nos retiros nos quais Nicolás se coloca de tempos em tempos) ou aquele que se “contamina” com os problemas do mundo e tenta participar das soluções para eles? Aliás, o homem mais santo seria aquele que consegue estes dois feitos? Manter-se “isolado” dos pecados, sem sucumbir às tentações, enquanto mergulha nos ambientes cheios de mazelas e tentações?

Apenas este último parágrafo renderia um texto inteiro. Mas como eu disse antes, quando comentava outros filmes que tratam sobre fé e religião, não é esta a proposta deste site. Aqui falamos de cinema. E voltando a ele, Elefante Blanco traz uma realidade complicada e homens que buscam permanecer santos (sejam eles homens ou mulheres) tentando fazer o melhor que eles podem naquele contexto.

Não é comum um filme ter esta abordagem. Por isso mesmo ele tem boas intenções, pena que a ideia não funcione muito bem no cinema. Porque o discurso cansa, e a falta de surpresa na história diminui o envolvimento que esta produção poderia ter junto ao público. Também prejudica a história não sabermos mais sobre os personagens principais. Sobre os seus passados, o que lhes trouxe até aquele ponto.

A falta de profundidade sobre os personagens em um filme centrado em três pessoas dificulta a compaixão de quem assiste e a capacidade do espectador colocar-se no lugar de qualquer um dos personagens. Uma pena. Porque histórias carregadas de humanidade, como esta, só funcionam bem quando esta “mágica” acontece.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor. Talvez um 6. Mas é difícil dar uma nota muito baixa para uma história que tem Ricardo Darín como protagonista. Também gosto muito da Martina Gusman, ainda que o seu papel, nesta produção, seja tão “ligeiro” e sem profundidade. Unidimensional, pode-se dizer.

Jérémie Renier é carismático, tem um sorriso lindo, é bonito e tem uma boa sintonia com Martina Gusman, especialmente nas cenas “provocantes”, mas, infelizmente, ele não convence no papel. É de doer as cenas em que ele demonstra estar “arrependido por ter sobrevivido”, dizendo sentir-se culpado de ter causado a morte de tantas pessoas e não ter morrido também. Aliás, boa parte da fraqueza do filme está neste personagem, que deveria ser o mais complexo da trama, mas que encontra um ator sem força para levar o papel ao máximo que ele poderia ir.

A trilha de sonora é uma das melhores qualidades de Elefante Blanco. Bela seleção feita por Michael Nyman. Me fez descobrir, por exemplo, a interessantíssima música Las Cosas que No se Tocan, de Pity Álvarez interpretada por Intoxicados.

Elefante Blanco estreou em maio, na Argentina. Depois, no mesmo mês, participou do Festival de Cannes. Em setembro e outubro, dos festivais de Hamburgo e Warsaw. Nesta trajetória, só foi indicado para um prêmio, no Um Certo Olhar, de Cannes. Mas não levou ele para casa – perdeu para Después de Lucía, uma co-produção México e França.

Para quem gosta de saber onde as produções foram rodadas, Elefante Blanco foi filmado em Buenos Aires, com cenas externas, mais precisamente, na Praça Guemes.

Pablo Trapero tem 14 filmes no currículo como diretor. Faz parte desta lista três curtas, um documentário, uma série de TV e um segmento no longa Stories on Human Rights, de 2008, codirigido por vários nomes. A parceria com Martina Gusman iniciou em 2006 com o filme Nacido y Criado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Uma nota boa que, tenho certeza, foi bastante provocada pelo fascínio de Darín, Gusman e Trapero – mais do que pelo resultado do filme propriamente. No site Rotten Tomatoes, até o momento, há apenas duas críticas citadas. Ambas positivas.

Da parte técnica do filme, pouco a destacar. Achei a direção de Trapero muito “tradicional”, sem ousadia ou um trabalho de edição interessante. O mesmo sobre a direção de fotografia, que garante apenas imagens utilizáveis, por assim dizer, mas nada além da média.

Elefante Blanco é uma co-produção da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: A trilha sonora e a ideia original de Elefante Blanco é o que esta produção tem de melhor. Pena que nem sempre uma ideia original resulte em um bom filme. E este é o caso. Elefante Blanco nasce com uma premissa bacana, de apresentar uma face da Argentina pouco conhecida e de mostrar que a complexidade da vida não permite leituras preto e branco, como muitos gostam de fazer acreditar. Mesmo homens que buscam fazer o bem e seguir o caminho da santidade apresentam fraquezas e caem em suas imperfeições. E há realidades de degradação e de vulnerabilidade das pessoas difícil de mudar. Porque todos tem pressa, com razão, mas há muita gente que prefere que estas realidades não mudem. A intenção de Elefante Blanco é boa, há ótimos atores em cena, mas o filme acaba sendo arrastado demais, previsível e mesmo quando surpreende, não é para deixar um gosto de “quero mais”, mas o desejo que tudo termine logo. Não funciona, infelizmente. Mas vale uma nota 7, especialmente por Darín, que sempre faz um trabalho de excelência.

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5 comentários em “Elefante Blanco – Elefante Branco

    1. Oi Rafa!

      hehehehehehe. De fato esta produção é meio fraquinha… ainda que os atores, e o Darín incluído, tenham se saído muito bem. Mas o roteiro compromete a entrega final.

      Bacana te ver sempre por aqui. Espero que sigas me “visitando” e que comentes mais vezes sobre o que achaste dos filmes que vais assistindo.

      Um abraço e um beijo e até a próxima!

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  1. Pensei que o cinema brasileiro fosse bom em apresentar questões que envolvem as favelas, mas a Argentina deu um banho. Gostei muito filme, pois conseguiu abordar vários temas em um só lugar. Tudo ali é um Elefante Branco. Nota 8,5

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    1. Olá Lucimar!

      Primeiramente, obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Seja bem-vinda por aqui.

      Bacana o filme, não é mesmo? E sim, os argentinos sabem falar de favelas… na verdade, eles sabem falar de tudo. hehehehe

      Para mim, o cinema dos “hermanos” é mais amadurecido que o nosso, no geral, e já há algum tempo. Normalmente vale conferir as produções vindas dali.

      Tens razão ao afirmar que tudo ali é um elefante branco. E fico feliz que tenhas gostado tanto da produção. Darín dá um banho – como sempre.

      Obrigada, mais uma vez, por tua visita, e volte mais vezes.

      Abraços e inté!

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  2. Olha, o direito de gostar ou não de uma obra, é algo que deve ser respeitado. E olha: acho que a crítica desenvolve sua posição de um modo compreensível. No entanto, deixo eu aqui a minha visão para que — quem sabe, a autora possa também se permitir à outras formas de enxergar a coisa. Depois de inúmeros problemas, só pude ver o filme este ano. Pessoas ! o filme não é uma narrativa convencional ! não é para ter “surpresas” ! sim ! o filme é uma tragédia mesmo ! e nitidamente, com um propósito de mostrar que tal tragédia desenvolvida, não é exclusividade dos “hermanos”, mas sim, de toda a América Latina. E é isso o que o filme fala: não mudou nada depois de “trocentos” anos , nas idas e vindas de diversas formas de regimes governamentais. Temos uma crítica muito audaz em que é demonstrada a “indestrutível” relação do “Alto Clero” com o “Alto Escalão Governamental”, pessoas paupérrimas reféns da polícia despreparada e nociva e reféns do narcotráfico, em um local onde nada, nada acontece — inclusive e infelizmente, nada de bom e “surpreendente”. É isso ! o filme é para que todos vejam e se sintam mal em uma zona periférica, onde há décadas, uma chuva causa os mesmos estragos, onde tem gente que não pode comprar algo para o café, onde há drogas, onde projetos sociais nascem e vão para o buraco, onde jovens se matam abruptamente e onde as pessoas que tentam se manifestar contra as injustiças, são implacavelmente reprimidas das piores formas.

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