Kon-Tiki – Expedição Kon Tiki


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O mundo é feito por pessoas obstinadas. De quem tem foco, ajusta o campo da visão e segue em frente. O filme norueguês Kon-Tiki conta a história de um homem obstinado, o explorador Thor Heyerdahl e a primeira grande aventura coordenada por ele. Um filme interessante pelas belas imagens, pelo roteiro e pelo trabalho dos atores, que trilham um caminho original e que foge do tom épico clássico dos filmes de Hollywood.

A HISTÓRIA: Céu azul e um cenário terrestre repleto de neve em Larvik, cidade da Noruega, em 1920. Aos poucos, uma fila de pessoas vai se aproximando da câmera. À frente do grupo, o jovem Thor Heyerdahl (Kasper Ameberg Johnsen quando ele tinha seis anos de idade, Pal Sverre Hagenquando adulto) que, obstinado por resgatar uma serra, se aventura sobre dois blocos de gelo. O grupo de crianças que lhe acompanha pede para que ele não se aventure, mas ele não escuta a ninguém. Depois de cair na água, ele é resgatado por Erik Hesselberg (Edward Kling quando ele tinha sete anos de idade, Odd Magnus Williamson quando adulto). Mais tarde, aquele mesmo olhar obstinado de Thor é lançado em direção à Liv (Agnes Kittelsen), com quem ele vai viver uma experiência interessante e que vai mudar a vida deles em Fatu Hiva, a ilha mais ao leste do arquipélago das Marquesas, na Polinésia Francesa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kon-Tiki): A primeira característica marcante desta produção é a preocupação visual do filme. Belas imagens perpassam a visão do espectador do primeiro até o último minuto de Kon-Tiki. Outra característica que fica evidente logo no início é a aposta dos diretores Joachim Ronning e Espen Sandberg no trabalho dos atores que, diferente de tantos filmes de Hollywood, não tem um excesso de diálogos para proferir.

Pelo contrário. Outro ponto interessante desta produção é que ela é muito mais contemplativa e cheia de momentos de deslumbramento e de ação do que de discursos emocionados ou frases “feitas para a posteridade”. E que bom que é assim. Não há espaço, no roteiro de Petter Skavlan, que teve a consultoria de Allan Scott, para frases heroicas, mas para reações humanas bastante legítimas.

Uma lição interessante de Kon-Tiki é que não importa o quanto algo que você acredita seja considerado loucura. Se você foi feito para perseguir determinado caminho, a tua realização só será plena se você seguir aquilo que acredita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta é a postura do protagonista Thor, que sabe muito bem tudo o que ele está arriscando ao tentar comprovar a sua teoria, considerada totalmente equivocada pelos colegas cientistas da época – e até hoje – de que a Polinésia Francesa foi colonizada pelo Leste. Ou, em outras palavras, que os primeiros habitantes daquelas ilhas teriam saído do Peru, e não da Ásia.

É fascinante como ele persegue o sonho de comprovar a teoria que ele desenvolveu por 10 anos. Ao perceber a resistência da comunidade científica, Thor percebeu que a sua única saída seria percorrer, ele próprio, cerca de 8 mil quilômetros em uma balsa, tal qual teriam feito os peruanos 1,5 mil anos antes. Para alguns, essa ideia era suicida. Para outros, como os homens que lhe acompanharam, seria uma oportunidade de fazer história.

Sem homens e mulheres corajosos deste jeito, a Humanidade não evoluiria. E alguém pode perguntar: “ok, mas o que esta experiência mudou a civilização?” Certamente pouco, ou quase nada, é verdade. Mas este espírito aventureiro e idealista é o que faz muita gente seguir adiante e dedicar boa parte da vida para ajudar a ciência a avançar, as pessoas a saberem mais do que hoje sobre o seu passado, sobre as origens das civilizações e, com este conhecimento, aprender a melhor forma de evoluir.

Verdade que, se observarmos esta e outras experiências de Thor, ele mudou pouco as versões históricas predominantes. Ele comprovar que os Tiki poderiam ter viajado do Peru até a Polinésia com uma balsa amarrada por cordas não comprova, de maneira irrefutável, que isso aconteceu. Apenas demonstra a viabilidade da teoria.

Mas independente da eficácia do trabalho de Thor, o impressionante é a sua obstinação. Seguindo o que eu falava antes, quando o protagonista decidiu apostar em sua grande aventura, ele sabia o que estava arriscando. Primeiro, a própria vida. Depois, a família que havia construído com Liv. Outra mensagem bacana de Kon-Tiki é que o mais importante, no final da conta, é o respeito que devemos ter com quem somos e com a vocação daquele que amamos. Abandonar o egoísmo e permitir que as pessoas desenvolvam as suas próprias capacidades e vocações ao máximo é a maior demonstração de amor e de respeito á vida possível.

Este filme nos leva a estas reflexões. E também nos permite contemplar algumas imagens maravilhosas, além de demonstrar que é importante duvidar. Afinal, quando pensarmos que sabemos tudo, não podemos estar mais equivocados. E o mesmo vale para a ciência. Nada mais bacana que a evolução do conhecimento, com a mudança e a quebra de “paradigmas”. Assim evoluímos.

Além destes aspectos, me chamou muito a atenção a calma, a tranquilidade e a postura pacífica de Thor. Ele olha com atenção a cada pessoa que conhece, não importa se ela é uma parceira de aventura ou um “nativo” de uma ilha qualquer. Na adversidade e enquanto todos temiam pelo sucesso da viagem, ele mantinha a calma e, aparentemente, uma certeza irrefreável de que tudo daria certo porque assim tinha que ser. Essa fé é contagiante.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do estilo de direção da dupla Ronning e Sandberg. Além dos motivos citados anteriormente, destaco a preocupação deles em manter a câmera sempre próxima dos atores e da ação. Vemos os detalhes constantemente. A edição precisa de Per-Erik Eriksen e Martin Stoltztambém ajudam o filme a ter o ritmo adequado, equilibrando o mergulho nas reações dos personagens e nas características de personagem de cada um deles e, ao mesmo tempo, na ação da aventura que eles empreendem.

Além do belo trabalho dos diretores, é importante destacar o excelente e preciso trabalho do diretor de fotografia Geir Hartly Andreassen. Ele consegue manter a qualidade visual do filme nos momentos mais diferentes, incluindo as sempre delicadas cenas noturnas. A trilha sonora de Johan Söderqvist não rouba a cena em momento algum, mas é importante para alguns momentos da produção.

Além dos atores que interpretam a Thor e Erik quando adultos, ganham destaque nesta produção Anders Baasmo Christiansen, que interpreta a Herman Watzinger, que deixa o trabalho como vendedor de frigoríficos para embarcar no projeto ambicioso do explorador norueguês; Jakob Oftebro como Torstein Raaby, um “herói de guerra” convocado para trabalhar com a rádio da missão; Tobias Santelmann como Knut Haugland, que também lutou na guerra e é especialista em operar rádios; e Gustaf Skarsgard como o etnógrafo Bengt Danielsson. Este foi o grupo de corajosos que fez aquela viagem a bordo do Kon-Tiki.

Dos atores citados anteriormente, sem dúvida Christiansen tem um protagonismo maior, depois de Hagen. Williamson aparece bem menos, mas tem carisma. E Santelmann se destaca por algumas sequências marcantes. Mesmo aparecendo pouco, a veterana Agnes Kittelsen rouba a cena sempre que aparece. Muito boa!

Os diretores de Kon-Tiki são amigos de infância e começaram, juntos, a produzir curtas-metragens com uma câmera amadora do pai de Joachim Ronning. Em 1992, os dois entraram na escola de cinema de Estocolmo e lançaram o primeiro curta oficialmente cinco anos depois. Nos anos 2000, eles dirigiram três longas: BandidasMax Manus (comentado por aqui no blog) e, o mais recente, este Kon-Tiki. A projeção deles com os dois últimos títulos fizeram a dupla ser confirmada na direção de Pirates of the Caribbean 5. Sem dúvida alguma eles são uma boa promessa da Noruega.

Kon-Tiki foi indicado ao Oscar 2013 como Melhor Filme Estrangeiro. Mas ele não teve chances frente a Amour (comentado aqui no blog). Na comparação dos dois filmes, não tenho dúvidas que a Academia fez a escolha certa. Da mesma forma que eu acho que foi merecida a chegada de Kon-Tiki na reta final da premiação.

Falando em prêmios, Kon-Tiki ganhou como melhor Design de Produção no Amanda Awards, entregue na Noruega, que reconheceu o trabalho de Karl Júlíusson; recebeu o prêmio da audiência do Festival Internacional de Cinema Norueguês; e o prêmio Diretores para Acompanhar do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e nove negativas para Kon-Tiki, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Fiquei curiosa para assistir ao documentário homônimo, Kon-Tiki, dirigido por Thor Heyerdahl durante a expedição em 1947, lançado em 1950 e que recebeu o Oscar de Melhor Documentário no ano seguinte. O filme tem 77 minutos e deve ser interessante.

Uma pequena observação sobre um detalhe do filme: volta e meia, observo o famoso “merchandising” em produções de diferentes portes, especialmente os blockbusters de Hollywood. Aqui e ali, aparecem sem qualquer inocência marcas de produtos dos mais variados. Mas isso não é tão comum fora de Hollywood ou em filmes “alternativos”. Uma prova que esta produção tem uma visão de mercado, além de tudo, é aquele luminoso caprichado da Pepsi que aparece lá pelas tantas no filme. Nada discreto. 🙂

Kon-Tiki estreou no festival de cinema norueguês em agosto de 2012. Depois, o filme passou por outros 10 festivais.

Esta produção custou US$ 16,6 milhões, uma quantia significativa – especialmente para o cinema norueguês. Nos Estados Unidos, até o dia 4 de agosto deste ano, o filme tinha arrecadado pouco mais de US$ 1,5 milhão. Mas no restante dos mercados, ele já acumulou quase US$ 22,8 milhões. Ou seja, não deu prejuízo.

Este filme foi rodado em diversas partes – não é por acaso que ele teve um custo considerável. Entre os locais que receberam a equipe de produção estão as Maldívias, a Noruega, a Tailândia, a Bulgária, Nova York e a Suécia.

Kon-Tiki é uma co-produção da Noruega com o Reino Unido, a Dinamarca, a Alemanha e a Suécia.

CONCLUSÃO: Eu gosto, volta e meia, de assistir a filmes de países menos evidentes na cinematografia mundial. Escapar um pouco de Hollywood sempre faz bem – ainda que eu admire e aprecie muito os filmes made in USA. Não é sempre que a Noruega nos apresenta filmes com relevância internacional. Por isso é bacana assistir a produções como Kon-Tiki, bem trabalhadas nos detalhes técnicos e com um estilo de narrativa mais realista e sem preocupação de frases históricas como seria esperado em filmes do gênero.

Esta produção funciona bem do início a fim, incentivando o espectador a acompanhar as dificuldades e os prazeres de um grupo de aventureiros. Acreditar em algo e seguir esta crença é fundamental, nos ensina esta produção. Assim como ela versa sobre a importância de um indivíduo em conhecer a si próprio e respeitar a sua natureza, adaptando-a para aquilo que achar relevante. Filme bem acabado, lindo visualmente e com um estilo realista e épico, Kon-Tiki também ganha pontos por resgatar uma história menos conhecida do grande público. Vale ser visto e apreciado.

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