The Conjuring – Invocação do Mal


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Manifestações sobrenaturais sempre dão pano pras mangas dos roteiristas de Hollywood e de outras latitudes do cinema mundial. Algumas produções acabam repetindo apenas as velhas fórmulas. Outras, como este The Conjuring, conseguem fazer um bom resgate do gênero, avançar um pouco na narrativa, criar tensão e provocar sustos de verdade no espectador. E os fãs do gênero precisam de algo mais? Qualidade visual e interpretações coerentes ajudam a embalar o espectador neste filme que cumpre o seu papel.

A HISTÓRIA: Três amigos contam uma história assustadora para Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga). As garotas falam sobre o medo crescente despertado por uma boneca que começou a aterrorizá-las. Debbie (Morganna Bridgers) explica como a boneca começou a agir sozinha, e de que eles se certificaram que não poderia ser uma “pegadinha” feita por alguém com acesso ao apartamento. A outra amiga, Camilla (Amy Tipton) falou com uma médium que disse que uma menina de sete anos, chamada Annabelle Hagen, teria morrido no apartamento, e que ela ficou apegada à boneca. Camilla diz que eles deixaram a menina morta possuir o brinquedo. Mas a situação piorou. Um dia as amigas chegaram em casa e viram boa parte do apartamento destruído. Debbie joga a boneca fora, mas elas não se livram do problema. Ed diz que pode ajudá-los a se livrar do espírito do mal que utiliza a boneca como um canal de entrada no mundo real. Mas esta é apenas a introdução do filme. Um dos piores casos que Ed e Lorraine encontraram pela frente, o da família Perron, acaba sendo o verdadeiro foco desta produção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Conjuring): Gostei muito da proposta deste filme. The Conjuring mergulha em uma história ambientada nos Estados Unidos nos anos 1970 para trazer à tona um estilo de filme que ficou consagrado por produções clássicas como The Exorcist e Poltergeist. A ambientação deste filme é um de seus pontos fortes, juntamente com uma boa escolha de elenco.

O diretor James Wan é um especialista no gênero. Ele estreou na direção no ano 2000 com Stygian, que eu não assisti. Mas ficaria mundialmente famoso pouco tempo depois, quando lançou o emblemático Saw, em 2004, que iniciou uma grife de terror que já fez história no cinema. Depois, viriam ainda outros dois filmes de terror e um outro de ação antes de The Conjuring.

Nesta nova produção, Wan preferiu não ousar muito na direção. Ele optou por manter a câmera firme e focada em sustos clássicos, procurando em alguns momentos um ritmo fluente – como na ótima sequência inicial de entrada da família Perron na casa nova – e, em outros, aproximação com os atores e os recantos mais obscuros da casa amaldiçoada. A ambientação nos anos 1970 ajuda o filme a ter um charme diferenciado e, ao mesmo tempo, a resgatar os melhores momentos de filmes do gênero. Sem contar que ajuda muito nesta produção a ideia de que o que o espectador está vendo tem ligação com fatos reais – este argumento ajuda sempre a tornar a experiência do filme mais impactante.

O roteiro dos irmãos gêmeos Carey Hayes e Chad Hayes, que também tem uma larga experiência em filmes de terror e de suspense, segue o bê-á-bá dos clássicos do gênero, mas com alguns detalhes que tornam a produção saborosa – além de previsível. O primeiro toque interessante é que The Conjuring começa sinalizando a “cenoura para o coelho”. Em outras palavras, o filme introduz uma história macabra para dar o “gostinho” da tensão para o espectador.

E vejo que, propositalmente, os roteiristas e o diretor começam com quase uma “paródia”. Sim, porque sabemos a importância que alguns bonecos tem em filmes do gênero. Saw já havia, antes, retomado a força de figuras como Chucky, do clássico Child’s Play, de 1988 – e que também renderia uma sequência de filmes. Mas a boneca de The Conjuring, ainda que bastante sinistra, não mete medo em ninguém inicialmente. E a narrativa das amigas Debbie e Camilla parece quase uma comédia. Como os filmes do gênero recomendam, é preciso um pouco de “leveza” e até de humor para preparar o espírito do espectador. Aliviar a tensão antes que os sustos comecem.

Após esta introdução bem planejada, achei interessante como o filme mergulha na apresentação dos personagens principais, explorando notícias de jornais e “vídeos” que simulam gravações originais feitas pelo casal Ed e Lorraine Warren. Em seguida, conhecemos a história do casal Carolyn (Lili Taylor) e Roger Perron (Ron Livingston). Eles, como tantos outros que estrelam filmes do gênero, acabam se “apegando” a uma casa gigantesca e com história obscura que eles desconhecem porque se enfiam em uma dívida da qual eles não podem se desvencilhar.

Para tornar o drama mais “pesado”, os Perron tem cinco filhas: Andrea (Shanley Caswell), Nancy (Hayley McFarland), Christine (Joey King), Cindy (Mackenzie Foy) e April (Kyla Deaver). Como todos sabem, as crianças são o alvo preferencial das entidades malévolas. A filha caçula da casa, April, será a primeira a ser “acessada” na família. Mas não será a única. O “sonambulismo” de Cindy, as “puxadas de perna” sofridas por Christine e os hematomas de Carolyn são, sem dúvida, os toques mais assustadores da influência da força sinistra da casa contra os entes da família. Adicione-se a esse quadro os elementos “clássicos” de locais mal-assombrados: relógios que param nos mesmos horários, portas que não param de bater, rangidos, frio intenso, morte de animais… sim, nada fica faltando nesta produção.

Mesmo resgatando tantos elementos clássicos, The Conjuring não parece uma cópia de algo já feito. O roteiro dos irmãos Hayes e, principalmente, a direção segura de Wang, juntamente com a boa interpretação dos atores, que são muito convincentes, acabam sendo fundamentais para que os sustos ocorram nos momentos exatos. E sem “pegadinhas” – como os odiados “gatos” sendo jogados na frente da câmera.

Da parte técnica do filme, achei fundamental e muito boa a trilha sonora de Joseph Bishara. Ele garantiu a inserção de algumas músicas bem interessantes, como Time of Season, de The Zombies; Sleep Walk, de Bette Anne Steele; e In the Room Where You Sleep, de Dead Man’s Bones. Muito boa também a direção de fotografia de John R. Leonetti, que garante a qualidade da produção em muitos momentos de escuridão, além de imprimir uma tonalidade em todas as cenas que recorda os filmes da época em que a história é ambientada. Destaco outros elementos técnicos importantes logo abaixo.

Fazia algum tempo que eu queria assistir a um filme de terror/suspense de qualidade. Acho que esta expectativa, junto com a qualidade técnica de The Conjuring e as ótimas lembranças dos melhores filmes do gênero que ele desperta fizeram com que eu gostasse tanto desta produção. De fato, ela desperta muitos momentos de tensão. E eles são mais importantes que os sustos fáceis. O resultado deste conjunto de fatores está na avaliação abaixo. E alguém pode me perguntar: “ok, se você gostou tanto deste filme, por que não dar para ele um 10?”. Pois então, o filme de fato é muito bom, bem acabado, envolvente, mas acho que faltou um pouco de ousadia para Wan na direção. Ele poderia ter ousado um pouco mais, sem perder a “fidelidade” aos fatos reais.

Agora, algo que este filme me fez pensar: por que as histórias sobre fenômenos paranormais e exorcismos deixaram de circular? Sim, porque The Conjuring vai resgatar uma história da década de 1970, mesmo período que inspirou os clássicos do gênero. Nos anos 1990 e 2000, não ouvimos mais falar de padres expulsando espíritos malévolos de casas ou pessoas. O que mudou neste período? O Mal desapareceu ou a solução para ele está sendo outra? Independente da resposta, os casos antigos continuam rendendo bons filmes e alimentando a criatividade do cinema.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção é bem acabada nos detalhes. Além dos pontos técnicos citados anteriormente, há outros profissionais que valem ser citados porque eles são fundamentais no trabalho de transportar o espectador para o tempo do roteiro. Importante citar a edição bem feita de Kirk M. Morri, assim como os figurinos de Kristin M. Burke, a direção de arte de Geoffrey S. Grimsman, o design de produção de Julie Berghoff e a decoração de set de Sophie Neudorfer.

Gostei muito do elenco de The Conjuring. Ele funciona bem, sem que nenhum ator pareça desconfortável em seu papel. Um bom trabalho de elenco feito pela dupla Anne McCarthy e Kellie Roy. Dos atores em cena, muito bom ver Vera Farmiga em um papel “sensitivo” – quando ela tem espaço para mostrar a sensibilidade que tem como intérprete. Também senti firmeza em Patrick Wilson que, inclusive, consegue provocar empatia. E Lili Taylor, que já havia levado alguns sustos em The Haunting, parece que foi feita para produções do gênero. 🙂

The Conjuring teria custado US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o último dia 9 de setembro, pouco mais de US$ 135,2 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, nos outros mercados em que o filme estreou, ele teria arrecadado mais US$ 124,5 milhões. Ou seja, um completo sucesso de bilheterias.

Mas não é apenas no faturamento que o filme se saiu bem. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 141 textos positivos e 22 negativos para The Conjuring, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,2.

The Conjuring estreou em junho deste ano no Festival Internacional de Cinema Fantástico de Madri, na Espanha. Depois, ele participou dos festivais de Edimburgo e no Fantasia Film Festival. Mas, até o momento, não ganhou nenhum prêmio.

Esta produção, 100% Estados Unidos, foi rodada na Carolina do Norte.

Agora, algumas curiosidades sobre The Conjuring: o filme recebeu a consultoria de Lorraine Warren, que está com 85 anos, e de Andrea Perron – a filha mais velha do casal que comprou a casa amaldiçoada. Elas procuraram garantir o máximo de verossimilhança da história mostrada na produção com o que a família Perron viveu durante 10 anos na residência.

Ed e Lorraine teriam investigado os fatos que aconteceram com a família Perron entre os anos de 1973 e 1974. Andrea Perron, por sua vez, teria narrado os acontecimentos no livro House of Darkness, House of Light.

Segundo as notas de produção de The Conjuring, oito gerações de famílias teriam vivido e morrido na residência onde os Perron foram morar entre os anos 1960 e 1970. De acordo com Andrea Perron, os espíritos dos mortos não teriam deixado a casa. Ela resgatou a história de dois suicídios, uma morte por envenenamento, o estupro e o assassinato de uma garota de 11 anos, dois afogamentos, e a morte de quatro homens que morreram congelados.

Há 20 anos começou a ser planejado um filme sobre a história dos Perron. O primeiro contato foi feito pelo próprio Ed Warren, que mostrou uma gravação que ele havia feito com Carolyn Perron para o produtor Tony DeRosa-Grund – um dos nomes responsáveis por The Conjuring.

O filme tem uma ponta histórica. Lorraine Warren é a velhinha que aparece na primeira fila quando a câmera começa a se aproximar da personagem de Carolyn durante a apresentação do casal de especialistas em fenômenos paranormais quando o filme está quase na metade.

A verdadeira Bathsheba Sherman foi acusada de bruxaria e por ter matado uma criança mas, após ser considerada inocente por um tribunal, ela morreu de causas naturais em 1885 e foi enterrada – e não enforcada – em Harrisville.

O casal Ed e Lorraine Warren fundaram em 1952 a Sociedade de Investigação Psíquica da Nova Inglaterra (do original New England Society for Psychic Research). Eles também abriram o Museu do Ocultismo, lançaram vários livros sobre fenômenos paranormais e dizem ter investigado cerca de 10 mil (sim, vocês leram 10 mil!) ocorrências do gênero durante a carreira. Eles ficaram conhecidos por terem sido os primeiros a pisar na casa de Amityville onde, em novembro de 1974, Ronald DeFeo matou os pais e os quatro irmãos. Mais informações sobre eles na página oficial dos Warren e neste site que fala sobre fenômenos paranormais. Esta página da Wikipedia traz algumas informações básicas sobre eles.

O sucesso de The Conjuring fez com que os produtores anunciassem a continuação do filme. Segundo as informações iniciais do site IMDb, até agora estão confirmados apenas os roteiristas Carey e Chad Hayes para a produção.

Esse é mais um filme dos Estados Unidos que eu comento após os leitores deste blog terem votado no país para que eu fizesse uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Você quer levar sustos sem que para isso um gato seja jogado na frente da câmera do diretor? Pois bem, The Conjuring é boa opção para que você consiga viver momentos de tensão. Há tempos eu não assistia a um filme sobre exorcismo e manifestações sobrenaturais que não parecesse ser uma livre adaptação de Poltergeist ou The Exorcist, os clássicos do gênero. The Conjuring não reinventa a roda, ou mostra uma grande ousadia em contar uma história do gênero. Pelo contrário. O novo filme de James Wan acerta em mexer com a imaginação das pessoas tentando ser o mais “realista” possível, mergulhando nos anos 1970 em uma produção que conta com a grife “baseado em fatos reais”.

E aí, mais pano pra manga dos interessados no assunto que, como eu, certamente vão atrás de saber mais sobre este caso e as pessoas mostradas na produção. Envolvente, bem dirigido, com ótima ambientação de época, efeitos especiais e atores em sintonia, The Conjuring só deixa a dever um pouco na direção. Wan poderia ter sido mais ousado. Faltou pouco para esta produção ser perfeita. De qualquer forma, é um belo exemplar do gênero. Se você gosta do assunto, vale assistir – se estiveres com o coração em dia, é claro. E tendo uma certeza: de que você vai ficar pensando nas cenas desta produção por um bom tempo depois do filme ter terminado. Bons sonhos! 🙂

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4 comentários em “The Conjuring – Invocação do Mal

  1. Bela crítica, filme excelente. Estou aguardando o próximo Insidious… vamos ver se o James Wan vai conseguir manter a pegada. Mas que ele se sobressai em muito aos outros diretores do gênero, disso não há dúvida.

    Destaque para a surpreendente interpretação de Joey King na sequencia em que vê alguem dentro do quarto. A garota mostrou muita sincronia com a tensão que a cena exige.

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  2. James Wan e o pessoal por trás da direção e produção pertence a nova safra de talentosos ‘horror movies’ como os recentes Insidious, Paranormal Activity e a franquia de Saw. Não fora mera coincidência também as referências de tensão presente nos clássicos Hitchcock, Kubrik e também Stephen King, além de óbviamente tentar superar The Exorcist e The Exorcism of Emily Rose – que por alguns momentos se consegue – especialmente na fase de possessão com uma atuação mais dinâmica entre o casal Warren e Lili Taylor, colocando Linda Blair e Jennifer Carpenter no chinelo. O filme é um sucesso e vai agradar quem curte o gênero, pois acertou talvez pela habilidade de conduzir as cenas sem os esperados clichês de terror que decepcionaram por exemplo no fiasco remake de Evil Dead.
    Confiram a história real de The Conjuring no link: http://www.assombrado.com.br/2013/09/harrisville-historia-real-do-filme.html?m=1

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  3. Excelente resenha, não tive oportunidade de ler na época que fez. Ótimos detalhes da produção que eu não tinha conhecimento, mas sua opinião casa 100% com a minha. Estou redigindo neste momento uma crítica para meu blog em dose dupla, com o primeiro e segundo filme, e me ajudou por demais ler sua crítica.

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