Tesis sobre un Homicidio – Tese sobre um Homicídio


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O cinema argentino dificilmente entrega um produto ruim. E um sinônimo de qualidade deste cinema é o ator Ricardo Darín. Gosto de assisti-lo em cena porque, além do talento evidente, ele é um intérprete que claramente se entrega em cada papel. E em Tesis sobre un Homicidio ele segue esta regra, abraçando um personagem cheio de controvérsia. Um filme interessante, especialmente pela conclusão final, mas com alguns exageros no caminho que acabam prejudicando a produção.

A HISTÓRIA: Uma moeda rola pelo chão em uma visão desfocada. O cenário tem garrafa vazia deitada, muitos papéis e livros no chão. A mão enfaixada, a cara amassada, e o cenário desolador revelam que Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) não passa por um bom momento. Deitado no sofá, ele levanta com dificuldade. Corta. Em um ringue, Roberto treina boxe. Na saída, conversa com um colega sobre a tarefa de lecionar e, pouco tempo depois, inicia uma nova turma de pós-graduação. Ali, ele reencontra o filho de um casal de amigos que há muito tempo não vê, Gonzalo Ruiz Cordera (Alberto Ammann). Em pouco tempo, os dois vão se aproximar e se estranhar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Tesis sobre un Homicidio): O primeiro elemento que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora exagerada de Sergio Moure. Pensei que ela poderia começar forte daquela forma mas que, conforme a história se desenrolasse, o trabalho entraria em uma sintonia melhor com a produção. Mas não foi isso que aconteceu. A trilha começa e termina pelo menos um tom acima do desejado. Primeiro ponto que joga contra a perfeição neste filme.

O segundo elemento que me chamou a atenção foi a ótima direção de fotografia de Rolo Pulpeiro e a direção estilosa de Hernán Goldfrid. Esta dupla criou uma identidade interessante para o filme desde o princípio. Um clima de mistério, mas com qualidade nas inúmeras cenas escuras, que é muito importante para a história. Depois, o principal desta produção: a interpretação precisa e envolvente de Ricardo Darín.

Ele é o melhor de Tesis sobre un Homicidio, não tenho dúvidas. Pouco a pouco o personagem principal desta história vai mergulhando em sua própria tese sobre o crime que ocorre em frente à universidade onde dá aula. Bebendo e fumando cada vez mais, Roberto está próximo de perder o controle. Mas sua teoria parece bem construída o que, evidentemente, levanta ainda mais dúvidas. Afinal, ele está chegando perto da verdade ou apenas ficando obcecado com a culpabilidade de um sujeito jovem, bonito, e com quem ele parece rivalizar?

Da minha parte, quanto mais crescia a teoria de Roberto sobre Gonzalo ser o culpado pela morte de uma das irmãs Di Natale, mais eu me convencia que aquela não deveria ser a verdade. Isso porque o mistério acabaria muito rápido. E não deu outra. O roteiro de Patricio Vega, baseado no livro de Diego Paszkowski, não fecha a questão, no final do filme, mas praticamente mata a charada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a maioria dos espectadores deve ter suspeitado antes, Roberto estava exagerando as cores de sua teoria para comprovar que estava certo, ignorando as dúvidas e se agarrando a detalhes que poderiam ser facilmente refutados. Ainda que uma das cenas finais mostre o “fim” da adaga procurada, vejo aquela imagem como mais uma alucinação de Roberto. A imaginação dele falando mais alto.

Tesis sobre un Homicidio tem um bom ritmo, e não deixa a peteca cair em nenhum momento. A trilha sonora exagerada incomoda um pouco, mas os outros elementos técnicos, especialmente a direção segura de Goldfrid, equilibram a balança para o lado positivo. Uma pena que o roteiro tenha algumas falhas importantes. Para começar, não fica muito claro porque Roberto se interessa tanto pela morte de Di Natale. De fato ele está tão interessado pelo crime porque ele ocorreu perto dele, na frente da janela de sua sala de aula? Duvido muito que ele se interessaria pela morte de um rapaz no mesmo local.

Pouco a pouco outras leituras vão surgindo no horizonte para este abrupto interesse de Roberto por Di Natale. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em mais de uma ocasião, quando perguntam para o professor se ele conhecia a garota morta, ele não tem segurança para dizer que não. Depois, quando conclui que o assassino procurou a sua vítima porque ela era parecida com a mãe, uma morena com cabelos muito curtos, surge a primeira resposta para esta dúvida de Roberto se ele conhecia ou não a garota. Inconscientemente, parece, ele reconheceu o antigo caso naquela garota vitimada perto dele.

Mas há uma outra leitura mais psicológica para essa obsessão de Roberto para desvendar o crime. A verdade é que Gonzalo insiste em se aproximar de seu ídolo desde o início – o que é um pouco estranho, mas compreensível. Roberto parece ficar um pouco incomodado com isso e, logo em seguida, reage ao aluno como ele sendo um rival. Isso mesmo. Bonito, jovem e inteligente, Gonzalo parece ser um problema para o professor que acredita que o aluno pode estar lhe superando. E logo no início deste filme percebemos que Roberto tem um ego considerável, além de vestir a pele de galanteador.

Há como pano de fundo nesta produção, portanto, um choque entre gerações. E a derrocada de um sujeito que chegou à meia idade sem a vida que ele gostaria – talvez. Roberto tem prestígio, mas quando começa a exagerar a dose na investigação, logo tem as suas ações vistas com receio pelas pessoas que o cercam. E daí outro problema do roteiro. Apesar de um caso antigo em que ele se equivocou ser lembrado em mais de uma ocasião, não sabemos o que Roberto fez de errado no “caso da torre”. E vejo isso como uma falha no texto – afinal, para que citar este caso mais de uma vez e não explicá-lo? Qual é o propósito que ajuda o filme?

Além da obsessão de Roberto por Gonzalo que, para mim, passa pela competição entre eles como “machos dominantes”, chama a atenção a postura de Laura Di Natale (Calu Rivero) mais no final da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Impressiona quando ela corta o cabelo como a irmã morta, mimetizando-a. Não me pareceu que Gonzalo teria incitado a garota a fazer isso – afinal, eles mal se conheciam. Então por que ela cortou o cabelo daquela forma? Antes, Laura tinha iniciado o mesmo curso que a irmã. Curioso como algumas pessoas repetem os atos e modos de uma pessoa que elas perderam – seria uma forma de tornar a ausência “menor”?

Para mim, a conclusão desta produção acaba sendo o melhor do filme – junto com a interpretação de Darín. Qualquer tese pode ser refutada. Porque o “investigador” está propenso a encontrar, observar e analisar os elementos que servem para reforçar a sua teoria, ignorando outros elementos que podem enfraquecê-la. No fim das contas, Gonzalo está certo. De que não há forma de sabermos que tese é correta. Aparentemente Roberto estava errado sobre Gonzalo. Mas o filme deixa uma pequena lacuna para a dúvida. O que é sempre válido.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tesis sobre un Homicidio tem um ritmo interessante, é bem conduzido, mas poderia ser melhor. Especialmente o roteiro, que não deixa a dúvida pairar tanto no ar quanto deveria. Sem contar pelo menos um ponto não explicado na história. Essas são as razões principais para a nota acima.

Ricardo Darín está ótimo neste filme. Como sempre, aliás. Mas aqui ele tem um jovem ator competente para duelar. Alberto Ammann, que já tinha mostrado competência em Celda 211 (comentado aqui) e em Lope (neste texto no blog), faz um duelo à altura de Darín. Se o roteiro fosse melhor, deixando mais espaço para ele fazer um papel dúbio, tenho certeza que Ammann teria se saído ainda melhor. Eis um nome bom para ser acompanhado – assim como Darín.

O filme passa grande parte do tempo concentrado no protagonista. Além dele, do personagem de Ammann e o de Calu Rivero, há alguns coadjuvantes importantes. Vale citar o bom trabalho de Mara Bestelli como Mónica, ex-mulher de Roberto e psicóloga que opina durante a produção; Arturo Puig como Alfredo Hernández, policial responsável pela investigação da morte de Di Natale e marido de Mónica; Antonio Ugo como Mario Passalaqua, delegado que repassa as informações preliminares do caso para Roberto; e José Luis Mazza como Robles, que faz a autópsia da vítima.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição feita por Pablo Barbieri Carrera.

Tesis sobre un Homicidio estreou em janeiro deste ano na Argentina. Até o momento, a produção participou de apenas dois festivais: o de Miami e o de filmes policiais de Beaune, na França.

Esta produção foi totalmente rodada em Buenos Aires.

Este filme é apenas o segundo na filmografia de Hernán Goldfrid. Antes ele havia dirigido Música en Espera, lançado em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Tesis sobre un Homicidio. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão de avaliações do site.

Tesis sobre un Homicidio é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme policia e de suspense precisa ter bons atores e um ótimo roteiro, correto? Tesis sobre un Homicidio tem o primeiro, mas patina um pouco no segundo. Quem já assistiu a várias produções do gêneros fica bem desconfiado(a) com esta história, porque ela parece “coerente” demais para um estilo de filme que sempre procura surpreender o espectador. E, no fim das contas, Tesis sobre un Homicidio acaba não surpreendendo. Cumpre o seu papel, com alguns exageros no meio, como a trilha sonora, mas não reinventa nada. Um passatempo competente, ainda que não consiga trazer nenhuma renovação para o gênero. Mas tem o Darín, que sempre é um prazer assistir.

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8 comentários em “Tesis sobre un Homicidio – Tese sobre um Homicídio

  1. Acabei de ver o filme e a minha revolta com o final foi tão grande que corri para a internet para ler alguma crítica, acabei caindo nessa aqui. Não notei a questão da trilha sonora, mas realmente senti que faltou uma explicação para aquele caso da torre. Talvez o propósito de citá-lo foi apenas mostrar que o Roberto já tinha vacilado antes, ou seja, ele não era um cara tão fodástico assim. Concordo com o autor dessa crítica, ver o Darín é sempre um prazer. Eu me apaixonei perdidamente por ele quando vi “O segredo dos teus olhos”!

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  2. Final aberto é uma coisa.Não ter um bom final é outra bem diferente.Apesar das atuações serem brilhantes é um filme menor.É mal costurado e deixa a desejar.Um teste de DNA descartado???? E o porquê da suspeita?? A mãe traíra o pai??? No papel havia:mulheres como essa devem morrer. Traíra com o advogado,agora professor??? E o rapaz é filho do advogado e agora quer punir o pai??

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  3. Terminei de ver o filme agora e fiquei com uma série de dúvidas, por isso vim procurar alguma crítica na internet que ao menos tentasse elucidá-las… também fiquei um pouco frustrada com o final, mas achei o filme bom e inteligente. A questão da trilha sonora não me incomodou, e concordo que há algumas questões sem resposta que poderiam ter sido mais aprofundadas (esse caso da torre que não fica claro o que aconteceu, qual era o significado do bilhete encontrado com o corpo, pq a guria cortou o cabelo, etc). Faltou o roteiro se ater a estes pequenos “detalhes”, que, como o Darin fala em uma das aulas, é o que faz toda a diferença numa investigação.

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  4. O “x” da questão é o teste de DNA do rapaz. O pai desconfiava que o filho não era dele. Abre caminho para supor que o galanteador personagem do Darín traçou a mãe do garoto, o que explica a sua obsessão pelo pai. Talvez uma vingança por aquilo que ele fez com o pai não biológico. Já o caso da torre que é mencionado por duas vezes, não é dificil descobrir, pois na sequência da farmácia quando ele pega o formol a seringa e as luvas, e o valor não dá os 67 pesos, ele corre os olhos pela gôndola de produtos e encontra a bala de menta, mas antes

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  5. Penso que o filme é sobre o modo inconsistente no qual julgamos e montamos o quadro de um culpado a partir da combinação aleatória de provas… talvez se o filme tivesse começado de trás para frente, até um determinado ponto da trama, Roberto Bermúdez seria o principal suspeito. O próprio lançamento de detalhes sem explicação detalhada atua para confundir nossas conexões, assim também nos faz sentir como investigadores frustrados. Em suma, é um filme sobre a frustração ao ego que busca fundamentar suas razões em mera arbitrariedade, e a busca da segurança apenas de acordo com a lei (como aquela história da borboleta pisoteada contada pelo Gonzalo). Penso que o sumiço da Tese sobre um Homicídio por Gonzalo ter sumido da casa de Roberto poderia ser um documento que poderia servir como prova… mas posso ter suposto a partir de uma nova arbitrariedade.

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  6. Assisti este filme ontem e para mim o assassino é o próprio Roberto. Basta ver que o crime foi cometido com a adaga que ele ganhara pouco antes, ele é que era obcecado com a mãe de Gonzalo (achava que poderia ser o pai dele). Foi ele quem jogou a adaga no fogo. O colar de borboleta usado no crime foi por ele recuperado. Todos os momentos que ele pensava no crime era porque ele o tinha cometido. Por fim, além de outros detalhes, a letra da carta deixada quando mataram Valeria é igual a dele quando escreveu “detalhes” na lousa.

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