The Autopsy of Jane Doe – A Autópsia


Pensa em um filme sinistro. Agora, multiplica esse tom sinistro algumas vezes. Este é um bom termômetro de The Autopsy of Jane Doe, um filme praticamente todo ambientado em um necrotério. Os detalhes de mais de uma autópsia (mas especialmente de uma) são mostrados nesta produção, assim como alguns outros corpos que não chegam a ser “destrinchados”. Então se você não tem problema com cenas fortes e um pequeno par de sustos, este pode ser um bom filme para você.

A HISTÓRIA: Em uma casa comum na cidade de Grantham, na Virgínia, legistas e policiais examinam um cenário variado de crimes. Pouco a pouco vamos vendo cada um dos corpos. De um casal de idosos, chegamos no segundo andar ao corpo de uma mulher negra. O xerife Burke (Michael McElhatton) olha todas as vítimas e, pela janela do segundo andar, vê que uma equipe de televisão chegou. Neste momento ele é chamado para descer para o porão. Lá ele vê um outro corpo, semi enterrado. Ela é a única da casa que não tem relação com a família e nem identidade, por isso ela é chamada pela equipe como Jane Doe (nome para Desconhecida, “interpretada” por Olwen Catherine Kelly).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Autopsy of Jane Doe): Sim, eu já assisti a vários filmes de terror e de suspense. Então ver corpos sendo cortados e destrinchados não é algo totalmente novo. Ainda assim, admito que este The Autopsy of Jane Doe me impactou. Como um filme que tem como protagonistas pai e filho habituados a autópsias deve fazer, é claro.

Honestamente, gostei muito da narrativa desta produção. O diretor André Ovredal e os roteiristas Ian B. Goldberg e Richard Naing não perdem tempo. O que sempre é algo positivo para qualquer produção, especialmente para uma de terror e suspense. A narrativa é muito bem construída. Logo de cara somos apresentados a uma cena com diversas mortes. Na sequência, começamos a nos “familiarizar” com os protagonistas desta história, Tommy (Brian Cox) e o filho Austin (Emile Hirsch).

Praticamente o filme inteiro é focado nos dois e ambientado no local de trabalho deles, a funerária/necrotério da família. Tommy e Austin tem uma relação interessante e que ajuda a dar “caldo” para a produção além da trama envolvendo a tal Jane Doe. Ovredal tem que ser bom para fazer um filme com quase uma hora e meia de duração que é quase todo ambientado no sótão de uma residência.

Este é o típico filme em que você está esperando sempre levar um belo de um susto. Admito que eu levei apenas um, de verdade, e depois fiquei “gato escaldado” para me preparar para as ciladas seguinte. O susto que fez os meus batimentos cardíacos acelerarem um pouco foi quando Emma (Ophelia Lovibond) aparece pelas costas de Austin e dá um susto no namorado. Aquela “aparição” eu não estava esperando. O restante dos “sustos” até dá para ficar preparado psicologicamente e “anulá-los”, digamos assim.

Então The Autopsy of Jane Doe, ao menos para mim, não foi um filme de muitos sustos. Mas não acho que isso seja um problema. Como há muitas e muitas cenas de gente morta e, especialmente, detalhes mórbidos sobre como as pessoas morreram e/ou foram feridas, esta tensão é o que acaba contando para o espectador. Além disso, o roteiro da dupla Goldberg e Naing prende a atenção naturalmente.

Muito bem escrito, o texto deles convence pelas explicações “científicas” envolvendo a tal autópsia que dá título à produção. De forma inteligente, eles nos colocam ao lado de Tommy e Austin. Junto com os protagonistas, vamos conhecendo os detalhes da autópsia de Jane Doe e as possibilidades do que aconteceu com ela. Algo que eu achei fundamental para este filme dar certo foi a narrativa ir crescendo pouco a pouco sem que o espectador perca as cenas iniciais.

Explico. Conforme a “magia” vai acontecendo com pai e filho, não é difícil lembrar da cena dos mortos que abriu a produção. Todos estavam dentro de casa, aparentemente não houve nenhuma invasão e, ainda assim, todos estavam mortos. Ora, se todos morreram, foi porque uns mataram os outros e/ou se mataram. Como uma policial bem pondera, parece que eles estavam tentando fugir. Conforme as cenas sinistras e um tanto “sobrenaturais” vão acontecendo ao redor da autópsia de Jane Doe, lembramos daqueles fatos iniciais.

Como temos um produto de sucesso chamado The Walking Dead no imaginário, pensar em “mortos-vivos” perseguindo alguém atualmente não é mais tão assustador. Verdade que não sabemos exatamente o ano em que esta história está acontecendo, mas aparentemente matar um “morto-vivo” não é tão complicado assim.

Isso é o que muitos de nós pensamos, assim como isso parece passar pela cabeça de Tommy. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí está uma boa pegada desta produção. A grande explicação sobre Jane Doe torna tudo pior. A bruxa “enlouquece”/manipula as pessoas que ela quer destruir. Eles acabam vendo o que não está acontecendo e, sem se darem conta, acabam atacando uns aos outros. É assim que eles são mortos. Ninguém realmente está sendo perseguido por “mortos-vivos”, mas por uma magia da qual eles não tem como escapar.

Ou seja, o terror de The Autopsy of Jane Doe é o pior possível. Porque quando existe um Mal contra o qual podemos lutar ou combater, tudo certo. Mas quando esse Mal nos engana, nos ilude e nos faz errar de maneira fatal, não há como correr ou se defender. A narrativa crescente e o “grand finale” do filme são muito interessantes porque convencem. No final, faz sentido o porquê do corpo de Jane Doe estar perfeito do lado externo. Ela sempre estará perfeita, ainda que tenha “muito trabalho” para ser feito até se vingar de tudo pelo qual passou.

Aliás, essa talvez seja uma dúvida que fique para muitas pessoas. Afinal, qual é a “moral” da história ou qual é a “missão” de Jane Doe? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Tommy descobre bem na reta final da produção (e da própria vida dele), Jane Doe está “viajando” em busca de vingança. Ela foi bastante torturada e passou por agressões incríveis antes de morrer e, aparentemente, está migrando para o “Sul” para fazer as pessoas passarem pelo que ela passou. Pelo roteiro, conclui que ela está buscando os “herdeiros” de seus algozes. Pessoas como Tommy e Austin são mortas no processo, apenas, assim como tantas outras até que ela encontre a sua vingança final.

Esta é uma forma de encarar a história, mas certamente existem outras interpretações que também podem estar corretas. De qualquer forma, achei interessante como os realizadores resgataram um tipo de personagem histórico que desperta sempre tanta polêmica e interesse para torná-lo algo contemporâneo e assustador de uma forma totalmente diferente. Foram criativos e realizaram muito bem esta produção. Claro que para isso Ovredal contou com dois atores ótimos, Brian Cox e Emile Hirsch. Sem dúvida eles tem grande parte do mérito deste filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino dos filmes de terror/suspense, a trilha sonora de Danny Bensi e de Saunder Jurriaans, assim como o departamento de som com 10 profissionais são dois personagens à parte. Em cada momento de tensão e nas cenas em que o “bicho pega”, estes profissionais dão um show. Os sustos (ou tentativas de assustar) desta produção não seriam os mesmos sem a trilha sonora e os efeitos sonoros. Grande trabalho.

Da parte técnica do filme, gostei e destaco também a direção de fotografia de Roman Osin; o departamento de maquiagem que faz um trabalho difícil e fundamental (profissional, sem nada parecer fake) composto por Bella Cruickshank, Alex Harper, Jemma Harwood, Ailsa Lawson, Kristyan Mallett, Victoria Money e Lisa Pemberton; os efeitos especiais de Sophie Bramley, Neil Jenkins, Scott McIntyre e Eddy Popplewell; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais. Muito boa também a edição de Peter Gvozdas e de Patrick Larsgaard e o design de produção de Matt Gant.

Como eu comentei antes, o trabalho de Brian Cox e de Emile Hirsch é fundamental para o sucesso deste filme. Os dois convencem em seus respectivos papéis, especialmente em convencer a audiência sobre a intimidade e o afeto que unem os personagens principais de pai e filho. Mas, além deles, há também coadjuvantes que fazem um bom trabalho. Destaco, neste sentido, o bom trabalho de Ophelia Lovibond como Emma e o de Michael McElhatton como o sheriff Burke. Ainda tem destaque no filme o gato Sydney, que “interpreta” Stanley.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O diretor norueguês André Ovredal ficou inspirado em fazer um filme de terror depois que ele assistiu a The Conjuring (a crítica sobre ele você encontra aqui). Logo depois de assistir ao filme, Ovredal ligou para o agente dele e pediu que ele encontrasse um bom filme de terror para ele dirigir. Um mês depois desta conversa, o agente de Ovredal lhe apresentou o roteiro de The Autopsy of Jane Doe, e o diretor topou o projeto. Realmente o roteiro mereceu sair do papel.

Inicialmente, o ator Martin Sheen iria interpretar Tommy. Mas por causa de conflitos de agenda, ele teve que deixar o projeto. Não sei como ele teria se saído no papel, mas gostei muito do trabalho de Brian Cox na produção.

Achei interessante o comentário que Stephen King fez sobre o filme: “The Autopsy of Jane Doe é um terror visceral que pode rivalizar com Alien e com o Cronenberg em início de carreira. Assista, mas não sozinho”. Eu assisti ao filme sozinha, e por isso achei ele tão interessante/impactante. Realmente o filme tem “pegada” e estilo.

A música que toca em diversos momentos do filme fala sobre os Flinstones. O nome da canção é “Let the Sunshine In”, interpretada pelos Pebbles.

Duas outras curiosidades interessantes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena favorita do filme para o diretor foi a do elevador em que Brian Cox e Emile Hirsch falam sobre a morte da esposa de Tommy e mãe de Austin. “Eu apenas coloquei a câmera e nós assistimos a uma performance fantástica de Brian Cox e de Emile Hirsch”, comentou André Ovredal. E a cena que o diretor mais teve orgulho de fazer foi a da descoberta das inscrições sob a pele de Jane Doe. Realmente as duas sequências são alguns dos grandes momentos da produção.

Este é apenas o quinto filme dirigido por André Ovredal. Antes ele dirigiu a dois curtas e aos longas Future Murder, que marcou a estreia dele na direção no ano 2000, e Trolljegeren, de 2010. Foi por este segundo filme que ele foi reconhecido com 10 prêmios.

The Autopsy of Jane Doe foi totalmente rodado em Londres. O filme é uma coprodução do Reino Unido e dos Estados Unidos – por causa deste segundo país este texto entra para a lista dos que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Esta produção ganhou cinco prêmios e foi indicada a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme de Terror no Austin Fantastic Fest; para dois prêmios como Melhor Filme no Fantastic Fest; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Monster Fest; e para o Prêmio Especial do Júri no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 críticas positivas e 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 6,8. Este é um raro empate entre as opiniões de público e crítica. Só achei as notas um tanto baixas. Ou eu que fiquei entusiasmada demais com o que eu vi, não sei…

CONCLUSÃO: A história de The Autopsy of Jane Doe é simples, se pararmos para pensar. Mas isso não impede que a experiência seja bastante interessante – e assustadora. Aliás, há tempos eu não assistia a um filme que me deixasse realmente “impactada” em alguns momentos, seja pelo que vai aparecendo em cena, seja pelo que fica sugerido pela história. Com um roteiro interessante e algumas boas sacadas, The Autopsy of Jane Doe é um dos melhores filmes do gênero que eu vi nos últimos tempos. Se você gosta de filme de terror pra valer, provavelmente vai gostar desta produção.

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