Tully

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Ser mãe é uma tarefa complicada. Claro que todas as noites insones, as mudanças no corpo, as preocupações e a correria maior do dia a dia são compensadas pelo amor recebido pelos filhos. Mas nada disso apaga a dureza e o desafio da jornada. Acredito que Tully seja um dos melhores – senão o melhor – filme que eu já assisti sobre a maternidade. Uma história interessante e que faz pensar sobre como as mães são cobradas atualmente. Mais um belo trabalho da roteirista Diablo Cody – e do restante da equipe que faz parte desta produção.

A HISTÓRIA: Pela escada que dá acesso a um quarto, Marlo (Charlize Theron) desce com cuidado. Ela está grávida, e caminha com cuidado para o quarto do filho, Jonah (Asher Miles Fallica), um garoto que exige cuidados especiais. Marlo coloca uma música, pega uma escova e começa a escovar os braços e as costas do menino. Quando chega a hora das crianças irem para a escola, a mãe lembra Sarah (Lia Frankland) que ela não deve esquecer a sua bombinha. Na escola, Marlo fica sabendo que provavelmente terá que escolher outro local para o filho estudar. Os desafios dessa mãe estão apenas começando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tully): Eita que o tempo está passando muito rápido! Assisti esse filme há algumas semanas, então peço perdão pelo atraso nessa publicação. Mas é que logo depois saí de férias por 15 dias – folga esta que está terminando, que pena! -, e aí me dediquei a outros afazeres. Desculpem a demora.

Apesar do tempo transcorrido desde que eu vi esse filme e de ter assistido a duas produções depois – já comecei a escrever sobre elas também, logo vocês verão as críticas por aqui -, me lembro bem da produção dirigida por Jason Reitman e com roteiro da sempre interessante Diablo Cody.

A roteirista natural de Chicago e com 40 anos recém completados – ela faz aniversário no dia 14 de junho – tem 14 trabalhos no currículo e um Oscar. Ela ganhou o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por Juno (filme comentado por aqui) e que é uma das produções mais interessantes sobre a adolescência “atual” (e sobre maternidade também).

Então Tully já começa com a ótima qualidade de ter o roteiro escrito por Diablo Cody. Como é típico de seu trabalho, encontramos nesse filme diálogos interessantes e ágeis e uma preocupação em manter o foco da história nas pessoas e nas suas relações. Cody não tem papas na língua e procura mostrar uma história que reflita os tempos atuais – sem muito lirismo e com muita franqueza.

E é exatamente isso que vemos em cena. Esqueça a maternidade vista de maneira idealizada ou “pueril”. Cody coloca o dedo na ferida na parte “hardcore” da maternidade – especialmente no caso de mulheres que tem mais de um filho. A protagonista deste filme, muito bem interpretada por Charlize Theron, está justamente na fase da terceira gravidez. Ela está com um barrigão enorme, muito trabalho dentro de casa e ainda a responsabilidade de dar conta de dois filhos – sendo um deles um bocado “problemático” e/ou com necessidades especiais.

A rapadura é doce, mas não é mole não. E é sobre isso Tully. Sobre como uma mulher, linda e que já está deixando a beleza da juventude para trás, deve se desdobrar e se reinventar para conseguir dar conta de um casamento e de três filhos. Nesse contexto, surge a ideia de Craig (Mark Duplass), irmão descolado – e não muito “querido” – de Marlo. Ele é pai de duas crianças mas parece muito tranquilo sobre isso – assim como a esposa dele, Elyse (Elaine Tan).

Toda essa “tranquilidade” de Craig e de Elyse parecem irritar um pouco Marlo e Drew (Ron Livingston), que parece terem que ralar muito mais do que o irmão “endinheirado” dela. Mas é Craig quem acaba oferecendo um presente interessante – e um pouco inusitado – para a irmã: um tipo de babá noturna que pode ajudá-la a dormir e a relaxar. E ela está precisando muito, muito relaxar – como ninguém poderia sequer imaginar.

Inicialmente, como tantas mães que vestem a roupa de “super mãe” (aquela ideia antiga de que as “mães de verdade” devem sofrer e dar conta de tudo sozinhas), Marlo resiste à essa ideia. Afinal, onde já se viu entregar a filha recém nascida para os cuidados de uma “desconhecida”? Mas depois de algum tempo ela cede à tentação e acaba topando. E aí que ela conhece a Tully (Mackenzie Davis).

A partir daí, o filme se desenrola em uma relação interessante, provocante e um tanto “apimentada” – cheia de entrelinhas – entre Marlo, Tully e até o marido da protagonista, Drew. Tudo flui de maneira interessante e sugestiva, envolvendo o espectador em relações que algumas vezes parecem um tanto estranhas, mas que não vemos a hora do novelo se desenrolar. E ele se desenrola com uma certa “surpresa”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dificilmente Diablo Cody escreve um roteiro sem alguma surpresa aqui e ali. E, novamente, ela nos apresenta isso em Tully. No fim das contas, esse filme se revela uma bela reflexão sobre o amadurecimento de uma mãe e sobre como uma mulher pode se dar conta de que viveu várias vidas dentro de uma mesma vida. Sim, é maravilhoso ter um marido e filhos, mas também é inevitável, algumas vezes, olhar para trás e não ter saudade sobre um tempo em que tudo era mais “fácil” e mais libertário.

A vida tem diversas fases e etapas. Cada uma delas com as suas dificuldades, riquezas, alegrias e aprendizados. Para viver bem e não “enlouquecer” é preciso ver a beleza de cada fase e não querer voltar ou avançar demais no tempo. O único tempo que existe, de fato, é o presente, já disseram. E isso é bem verdade. No mais, passado e futuro valem para reminiscências, para um e outro soluço e para sonhar. Mas nunca para viver.

Tully nos fala um pouco sobre isso. Sobre as dificuldades da amizade e sobre as diversas vidas de uma mulher. Ter filhos é maravilhoso, mas também exige muito de uma mulher – mais do que do homem que vira pai. Por isso mesmo, é preciso ter mais compaixão e paciência com as mães, especialmente com as que tem vários filhos “pequenos”. A vida é dura para elas, e não é difícil de imaginar como elas gostariam de sair correndo ou de fugir às vezes.

Claro que, como todo dia ruim na vida de qualquer pessoa, esses dias de “desespero” ou de vontade intensa de fugir passam. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas próximas podem se dar conta dessa aflição e ajudar – mesmo que demorem um pouco, como é o caso do marido de Marlo. O importante é saber que tudo passa – o que é bom e o que é ruim – e que cada fase da vida deve ser aproveitada ao máximo. De tudo podemos tirar aprendizado, se assim desejarmos.

Assim, Tully nos fala sobre a vida mesma. Sobre as nossas escolhas, sobre os prazeres e dores colhidos a partir dos caminhos trilhados. A vida é bela, é nosso maior presente, mas também é dura em diversos momentos. Tully nos ensina que é possível vencer a tudo isso, seja com amor, seja com alguma dose de loucura. O importante mesmo é buscarmos fazer sempre o melhor e, dentro do possível, olhar com atenção para quem está do lado. Isso e um pouco de sorte pode fazer toda a diferença.

Além de apresentar uma pegada bastante “humana”, o que eu gostei nesse filme foi da “surpresa” envolvendo a relação entre Marlo e Tully. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Perto da “revelação”, eu achava que podia estar rolando um interesse de Tully por Marlo, por isso o desejo dela de não “cuidar” mais de Marlo e de sua família. Mas quando sabemos que Tully era Marlo jovem, tudo faz sentido. No fim das contas, Marlo estava se desdobrando em duas – algo muito real para mães naquela situação – e acaba meio que “pirando” por causa disso.

Bela sacada de Cody para demonstrar não apenas como uma mãe de três filhos realmente pode perder os sentidos se não tiver o apoio mais adequado como também foi um recurso interessante para mostrar como a “mãezona Marlo” poderia, finalmente, com um bocado de boa vontade, fazer as pazes com a sua versão mais jovem. Bastante cobrada – inclusive pela vaidade -, a mãe que deixa a leveza da juventude para trás não precisa fazer isso com amargura. Basta saber que cada fase tem a sua graça e que ser mãe de três filhos também é algo incrível. Belo filme.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A grande qualidade desse filme, para mim, é o roteiro de Diablo Cody. Por todas as razões que eu comentei antes. Mas vale resumir por aqui também: o texto humano, cheio de diálogos interessantes – e uma “pimenta” aqui e ali – e que equilibra bem humor e drama, o foco na história dos personagens e em suas relações. Esse é o ponto forte de Tully. Mas é preciso dizer também que outro destaque da produção é o trabalho de Charlize Theron. Mais uma vez a atriz procura um papel de “gente como a gente” e faz uma entrega impecável.

Ainda que Charlize Theron seja o grande destaque desta produção, existe uma turma de “coadjuvantes” que fazem uma entrega condizente com os seus personagens – o que ajuda o filme a manter o alto nível. Nesse sentido, vale destacar, em especial, o trabalho interessante e o carisma de Mackenzie Davis como Tully. Além dela, vale citar o bom trabalho – mas nada acima da média – de Mark Duplass como o irmão de Marlo, Craig; Ron Livingston como o marido da protagonista, Drew; Elaine Tan como Elyse, mulher de Craig; Lia Frankland muito bem como Sarah, filha mais velha do casal Marlo e Drew; e Asher Miles Fallica como o “desafiador” Jonah, segundo filho do casal.

Entre os aspectos técnicos do filme, uma salva de palmas especial para a trilha sonora interessantíssima – e escolhida a dedo – de Rob Simonsen. O diretor Jason Reitman faz um bom trabalho, acompanhando sempre de perto os atores e valorizando também os seus “habitats”, mas não achei a sua direção realmente impactante – ou inovadora. Mas ele está bem. Também vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Eric Steelberg; a ótima edição de Stefan Grube; o design de produção de Anastasia Masaro; a direção de arte de Craig Humphries e de Maki Takenouchi; a decoração de set de Louise Roper e de Karin Wiesel; e os figurinos de Aieisha Li.

Tully estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participou, ainda, de outros cinco festivais de cinema, todos nos Estados Unidos. Nessa trajetória, o filme foi indicado a apenas um prêmio, mas não saiu vencedor.

Agora, algumas curiosidades sobre Tully. A atriz Charlize Theron ganhou 22,7 quilos – ou 50 libras – para fazer o papel principal desta produção. Para engordar dessa maneira, ela fez uma dieta de “junk food”, o que incluiu muitos “burger’s” com tudo dentro, milkshakes e alimentos processados. Para “manter o peso” conquistado, a atriz também se habituou a comer macarrão com queijo na madrugada. A atriz disse que o filho mais novo dela achou que ela estava grávida por causa da mudança no seu corpo. Após fazer Tully, a atriz demorou um ano e meio para voltar para a forma antiga. Isso que é vontade de “entrar” no papel, hein?

O sacrifício de Charlize Theron acabou cobrando um preço alto da atriz. Segundo as notas da produção, pela primeira vez Charlize Theron sofreu depressão enquanto participava dessa produção – um pouco por causa do ganho de peso e da pressão para perder ele depois que o filme fosse rodado.

O filme rendeu uma certa discussão – e polêmica – por tratar do tema da depressão pós-parto. Alguns acham que isso não ficou tão claro, assim como os tratamentos disponíveis para o problema, enquanto outros consideraram que o filme acerta ao não deixar o tema claro – já que a depressão pós-parto muitas vezes não é diagnosticada. Da minha parte, acho que o filme vai além desse tema. Não vejo que o foco seja só a depressão pós-parto, mas outras questões envolvendo a maternidade e que vão além desta “condição” momentânea.

Tully faturou, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais de US$ 9,2 milhões nos Estados Unidos. Um resultado bom para um filme alternativo, mas não muito expressiva para uma produção com os nomes envolvidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Tully, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 189 críticas positivas e 29 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,7. No site Metacritic o filme ostenta um metascore de 75, fruto de 46 críticas positivas e seis medianas. Ou seja, o filme se saiu muito bem segundo a crítica do público e da crítica.

Tully é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme atende a uma votação feita por aqui há tempos.

CONCLUSÃO: Um roteiro envolvente, bem ao estilo “A Vida Como Ela É”, que nos faz pensar e que nos presenteia com ótimos diálogos e atuações coerentes. Tudo parece funcionar em um compasso quase perfeito neste Tully. Uma produção bastante honesta sobre a maternidade, todos os seus desafios e aprendizados. O ideal é assistir a esse filme se deliciando com ele mas também refletindo sobre o que estamos vendo.

Quantas mães, muito cobradas por si mesmas e pelos outros, vivem por aí “à beira de um ataque de nervos”? Vale pensarmos sobre isso e sermos mais solidários. Mesmo que for apenas para deixá-las desabafar ou ajudar aqui e ali com pequenos gestos. Belo filme, com uma mensagem bem bacana e um bocado de reflexões deixadas no ar. Acima da média.

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The Conjuring – Invocação do Mal

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Manifestações sobrenaturais sempre dão pano pras mangas dos roteiristas de Hollywood e de outras latitudes do cinema mundial. Algumas produções acabam repetindo apenas as velhas fórmulas. Outras, como este The Conjuring, conseguem fazer um bom resgate do gênero, avançar um pouco na narrativa, criar tensão e provocar sustos de verdade no espectador. E os fãs do gênero precisam de algo mais? Qualidade visual e interpretações coerentes ajudam a embalar o espectador neste filme que cumpre o seu papel.

A HISTÓRIA: Três amigos contam uma história assustadora para Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga). As garotas falam sobre o medo crescente despertado por uma boneca que começou a aterrorizá-las. Debbie (Morganna Bridgers) explica como a boneca começou a agir sozinha, e de que eles se certificaram que não poderia ser uma “pegadinha” feita por alguém com acesso ao apartamento. A outra amiga, Camilla (Amy Tipton) falou com uma médium que disse que uma menina de sete anos, chamada Annabelle Hagen, teria morrido no apartamento, e que ela ficou apegada à boneca. Camilla diz que eles deixaram a menina morta possuir o brinquedo. Mas a situação piorou. Um dia as amigas chegaram em casa e viram boa parte do apartamento destruído. Debbie joga a boneca fora, mas elas não se livram do problema. Ed diz que pode ajudá-los a se livrar do espírito do mal que utiliza a boneca como um canal de entrada no mundo real. Mas esta é apenas a introdução do filme. Um dos piores casos que Ed e Lorraine encontraram pela frente, o da família Perron, acaba sendo o verdadeiro foco desta produção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Conjuring): Gostei muito da proposta deste filme. The Conjuring mergulha em uma história ambientada nos Estados Unidos nos anos 1970 para trazer à tona um estilo de filme que ficou consagrado por produções clássicas como The Exorcist e Poltergeist. A ambientação deste filme é um de seus pontos fortes, juntamente com uma boa escolha de elenco.

O diretor James Wan é um especialista no gênero. Ele estreou na direção no ano 2000 com Stygian, que eu não assisti. Mas ficaria mundialmente famoso pouco tempo depois, quando lançou o emblemático Saw, em 2004, que iniciou uma grife de terror que já fez história no cinema. Depois, viriam ainda outros dois filmes de terror e um outro de ação antes de The Conjuring.

Nesta nova produção, Wan preferiu não ousar muito na direção. Ele optou por manter a câmera firme e focada em sustos clássicos, procurando em alguns momentos um ritmo fluente – como na ótima sequência inicial de entrada da família Perron na casa nova – e, em outros, aproximação com os atores e os recantos mais obscuros da casa amaldiçoada. A ambientação nos anos 1970 ajuda o filme a ter um charme diferenciado e, ao mesmo tempo, a resgatar os melhores momentos de filmes do gênero. Sem contar que ajuda muito nesta produção a ideia de que o que o espectador está vendo tem ligação com fatos reais – este argumento ajuda sempre a tornar a experiência do filme mais impactante.

O roteiro dos irmãos gêmeos Carey Hayes e Chad Hayes, que também tem uma larga experiência em filmes de terror e de suspense, segue o bê-á-bá dos clássicos do gênero, mas com alguns detalhes que tornam a produção saborosa – além de previsível. O primeiro toque interessante é que The Conjuring começa sinalizando a “cenoura para o coelho”. Em outras palavras, o filme introduz uma história macabra para dar o “gostinho” da tensão para o espectador.

E vejo que, propositalmente, os roteiristas e o diretor começam com quase uma “paródia”. Sim, porque sabemos a importância que alguns bonecos tem em filmes do gênero. Saw já havia, antes, retomado a força de figuras como Chucky, do clássico Child’s Play, de 1988 – e que também renderia uma sequência de filmes. Mas a boneca de The Conjuring, ainda que bastante sinistra, não mete medo em ninguém inicialmente. E a narrativa das amigas Debbie e Camilla parece quase uma comédia. Como os filmes do gênero recomendam, é preciso um pouco de “leveza” e até de humor para preparar o espírito do espectador. Aliviar a tensão antes que os sustos comecem.

Após esta introdução bem planejada, achei interessante como o filme mergulha na apresentação dos personagens principais, explorando notícias de jornais e “vídeos” que simulam gravações originais feitas pelo casal Ed e Lorraine Warren. Em seguida, conhecemos a história do casal Carolyn (Lili Taylor) e Roger Perron (Ron Livingston). Eles, como tantos outros que estrelam filmes do gênero, acabam se “apegando” a uma casa gigantesca e com história obscura que eles desconhecem porque se enfiam em uma dívida da qual eles não podem se desvencilhar.

Para tornar o drama mais “pesado”, os Perron tem cinco filhas: Andrea (Shanley Caswell), Nancy (Hayley McFarland), Christine (Joey King), Cindy (Mackenzie Foy) e April (Kyla Deaver). Como todos sabem, as crianças são o alvo preferencial das entidades malévolas. A filha caçula da casa, April, será a primeira a ser “acessada” na família. Mas não será a única. O “sonambulismo” de Cindy, as “puxadas de perna” sofridas por Christine e os hematomas de Carolyn são, sem dúvida, os toques mais assustadores da influência da força sinistra da casa contra os entes da família. Adicione-se a esse quadro os elementos “clássicos” de locais mal-assombrados: relógios que param nos mesmos horários, portas que não param de bater, rangidos, frio intenso, morte de animais… sim, nada fica faltando nesta produção.

Mesmo resgatando tantos elementos clássicos, The Conjuring não parece uma cópia de algo já feito. O roteiro dos irmãos Hayes e, principalmente, a direção segura de Wang, juntamente com a boa interpretação dos atores, que são muito convincentes, acabam sendo fundamentais para que os sustos ocorram nos momentos exatos. E sem “pegadinhas” – como os odiados “gatos” sendo jogados na frente da câmera.

Da parte técnica do filme, achei fundamental e muito boa a trilha sonora de Joseph Bishara. Ele garantiu a inserção de algumas músicas bem interessantes, como Time of Season, de The Zombies; Sleep Walk, de Bette Anne Steele; e In the Room Where You Sleep, de Dead Man’s Bones. Muito boa também a direção de fotografia de John R. Leonetti, que garante a qualidade da produção em muitos momentos de escuridão, além de imprimir uma tonalidade em todas as cenas que recorda os filmes da época em que a história é ambientada. Destaco outros elementos técnicos importantes logo abaixo.

Fazia algum tempo que eu queria assistir a um filme de terror/suspense de qualidade. Acho que esta expectativa, junto com a qualidade técnica de The Conjuring e as ótimas lembranças dos melhores filmes do gênero que ele desperta fizeram com que eu gostasse tanto desta produção. De fato, ela desperta muitos momentos de tensão. E eles são mais importantes que os sustos fáceis. O resultado deste conjunto de fatores está na avaliação abaixo. E alguém pode me perguntar: “ok, se você gostou tanto deste filme, por que não dar para ele um 10?”. Pois então, o filme de fato é muito bom, bem acabado, envolvente, mas acho que faltou um pouco de ousadia para Wan na direção. Ele poderia ter ousado um pouco mais, sem perder a “fidelidade” aos fatos reais.

Agora, algo que este filme me fez pensar: por que as histórias sobre fenômenos paranormais e exorcismos deixaram de circular? Sim, porque The Conjuring vai resgatar uma história da década de 1970, mesmo período que inspirou os clássicos do gênero. Nos anos 1990 e 2000, não ouvimos mais falar de padres expulsando espíritos malévolos de casas ou pessoas. O que mudou neste período? O Mal desapareceu ou a solução para ele está sendo outra? Independente da resposta, os casos antigos continuam rendendo bons filmes e alimentando a criatividade do cinema.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção é bem acabada nos detalhes. Além dos pontos técnicos citados anteriormente, há outros profissionais que valem ser citados porque eles são fundamentais no trabalho de transportar o espectador para o tempo do roteiro. Importante citar a edição bem feita de Kirk M. Morri, assim como os figurinos de Kristin M. Burke, a direção de arte de Geoffrey S. Grimsman, o design de produção de Julie Berghoff e a decoração de set de Sophie Neudorfer.

Gostei muito do elenco de The Conjuring. Ele funciona bem, sem que nenhum ator pareça desconfortável em seu papel. Um bom trabalho de elenco feito pela dupla Anne McCarthy e Kellie Roy. Dos atores em cena, muito bom ver Vera Farmiga em um papel “sensitivo” – quando ela tem espaço para mostrar a sensibilidade que tem como intérprete. Também senti firmeza em Patrick Wilson que, inclusive, consegue provocar empatia. E Lili Taylor, que já havia levado alguns sustos em The Haunting, parece que foi feita para produções do gênero. 🙂

The Conjuring teria custado US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o último dia 9 de setembro, pouco mais de US$ 135,2 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, nos outros mercados em que o filme estreou, ele teria arrecadado mais US$ 124,5 milhões. Ou seja, um completo sucesso de bilheterias.

Mas não é apenas no faturamento que o filme se saiu bem. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Uma bela avaliação para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 141 textos positivos e 22 negativos para The Conjuring, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,2.

The Conjuring estreou em junho deste ano no Festival Internacional de Cinema Fantástico de Madri, na Espanha. Depois, ele participou dos festivais de Edimburgo e no Fantasia Film Festival. Mas, até o momento, não ganhou nenhum prêmio.

Esta produção, 100% Estados Unidos, foi rodada na Carolina do Norte.

Agora, algumas curiosidades sobre The Conjuring: o filme recebeu a consultoria de Lorraine Warren, que está com 85 anos, e de Andrea Perron – a filha mais velha do casal que comprou a casa amaldiçoada. Elas procuraram garantir o máximo de verossimilhança da história mostrada na produção com o que a família Perron viveu durante 10 anos na residência.

Ed e Lorraine teriam investigado os fatos que aconteceram com a família Perron entre os anos de 1973 e 1974. Andrea Perron, por sua vez, teria narrado os acontecimentos no livro House of Darkness, House of Light.

Segundo as notas de produção de The Conjuring, oito gerações de famílias teriam vivido e morrido na residência onde os Perron foram morar entre os anos 1960 e 1970. De acordo com Andrea Perron, os espíritos dos mortos não teriam deixado a casa. Ela resgatou a história de dois suicídios, uma morte por envenenamento, o estupro e o assassinato de uma garota de 11 anos, dois afogamentos, e a morte de quatro homens que morreram congelados.

Há 20 anos começou a ser planejado um filme sobre a história dos Perron. O primeiro contato foi feito pelo próprio Ed Warren, que mostrou uma gravação que ele havia feito com Carolyn Perron para o produtor Tony DeRosa-Grund – um dos nomes responsáveis por The Conjuring.

O filme tem uma ponta histórica. Lorraine Warren é a velhinha que aparece na primeira fila quando a câmera começa a se aproximar da personagem de Carolyn durante a apresentação do casal de especialistas em fenômenos paranormais quando o filme está quase na metade.

A verdadeira Bathsheba Sherman foi acusada de bruxaria e por ter matado uma criança mas, após ser considerada inocente por um tribunal, ela morreu de causas naturais em 1885 e foi enterrada – e não enforcada – em Harrisville.

O casal Ed e Lorraine Warren fundaram em 1952 a Sociedade de Investigação Psíquica da Nova Inglaterra (do original New England Society for Psychic Research). Eles também abriram o Museu do Ocultismo, lançaram vários livros sobre fenômenos paranormais e dizem ter investigado cerca de 10 mil (sim, vocês leram 10 mil!) ocorrências do gênero durante a carreira. Eles ficaram conhecidos por terem sido os primeiros a pisar na casa de Amityville onde, em novembro de 1974, Ronald DeFeo matou os pais e os quatro irmãos. Mais informações sobre eles na página oficial dos Warren e neste site que fala sobre fenômenos paranormais. Esta página da Wikipedia traz algumas informações básicas sobre eles.

O sucesso de The Conjuring fez com que os produtores anunciassem a continuação do filme. Segundo as informações iniciais do site IMDb, até agora estão confirmados apenas os roteiristas Carey e Chad Hayes para a produção.

Esse é mais um filme dos Estados Unidos que eu comento após os leitores deste blog terem votado no país para que eu fizesse uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Você quer levar sustos sem que para isso um gato seja jogado na frente da câmera do diretor? Pois bem, The Conjuring é boa opção para que você consiga viver momentos de tensão. Há tempos eu não assistia a um filme sobre exorcismo e manifestações sobrenaturais que não parecesse ser uma livre adaptação de Poltergeist ou The Exorcist, os clássicos do gênero. The Conjuring não reinventa a roda, ou mostra uma grande ousadia em contar uma história do gênero. Pelo contrário. O novo filme de James Wan acerta em mexer com a imaginação das pessoas tentando ser o mais “realista” possível, mergulhando nos anos 1970 em uma produção que conta com a grife “baseado em fatos reais”.

E aí, mais pano pra manga dos interessados no assunto que, como eu, certamente vão atrás de saber mais sobre este caso e as pessoas mostradas na produção. Envolvente, bem dirigido, com ótima ambientação de época, efeitos especiais e atores em sintonia, The Conjuring só deixa a dever um pouco na direção. Wan poderia ter sido mais ousado. Faltou pouco para esta produção ser perfeita. De qualquer forma, é um belo exemplar do gênero. Se você gosta do assunto, vale assistir – se estiveres com o coração em dia, é claro. E tendo uma certeza: de que você vai ficar pensando nas cenas desta produção por um bom tempo depois do filme ter terminado. Bons sonhos! 🙂