Le Capital – Capital – O Capital


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Filmes panfletários sempre são interessantes. Primeiro, porque eles tem uma ideia muito clara do que querem defender. E isso, por si só, e porque nem todo filme tem esta característica como qualidade, faz esta produções valerem uma conferida. Há algumas defesas que caem em argumentos simplórios, o que faz o filme ficar interessante porque ele se torna cômico. Mas há outros, como este Le Capital, que se caracterizam pela fina ironia, pela maturidade do diretor e pelo soco no estômago com a realidade retratada. Costa-Gavras em ótima forma.

A HISTÓRIA: Uma bola de golfe e o movimento de levantar o taco antes de dar o golpe. Essa sequência faz Jack Marmande (Daniel Mesguich) cair no chão com muitas dores. O presidente do banco Phenix escondia um câncer nos testículos, mas acaba tendo a doença revelada para os acionistas. Ele indica o executivo Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) para lhe substituir como presidente e, apesar das resistências do comitê gestor do Phenix, consegue colocar o sucessor no cargo. O substituto conhece bem o cenário, e percebe que está sendo colocado no cargo por um tempo limitado. Por ter esta noção, ele começa a se cercar de garantias para tirar o melhor proveito possível da situação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler apenas quem já assistiu a Le Capital): O protagonista deste filme funciona com a seguinte lógica: se você vai ser explorado, explore e contra-ataque primeiro. Marc Tourneuil sabe como a máquina trabalha, tem claro que será usado e que há muito dinheiro em jogo. Por isso mesmo, ele resolve não apenas tirar o melhor proveito possível da situação, como também se arma de todas as formas contra os seus inimigos.

Le Capital mostra a selva de pedra dos grandes bancos por dentro. E o protagonista não poderia ser melhor para exemplificar a ambição desmedida da qual apenas ouvimos falar. Essa ambição, aliás, fica evidente logo nos primeiros minutos do filme, com um roteiro que está repleto de artimanhas e alguma ironia. Um belo trabalho dos roteiristas Karim Boukercha, Jean-Claude Grumberg e do diretor Costa-Gavras que para escrever o texto deste filme se inspiraram na obra de Stéphane Osmont.

Quem diria que um filme sobre o ambiente corporativo de um grande banco e seus acionistas renderia uma produção com tanta tensão e ironia? Tourneuil se arma logo no início contratando um investigador chamado Jean Rameur (Philippe Duclos) que deve ficar atento a todos os personagens que cercam ao novo presidente do Phenix. As informações privilegiadas que ele consegue para o protagonista acabam sendo fundamentais para as decisões que ele toma.

Fascinado pelo poder que o dinheiro pode trazer, Tourneuil parece alimentar o próprio ego e a ambição de conseguir tudo o que deseja enquanto a história avança. Ele é o símbolo daquele ambiente corporativo onde os homens e mulheres não tem escrúpulos para ganhar muito dinheiro. Mas claro que há gente competente no meio. Como Maud Baron (Céline Sallette), especialista nos mercados do Japão e do restante da Ásia na sucursal do banco em Londres.

Ela lembra para o protagonista um pouco de como era a fase anterior da vida dele, quando Tourneuil dava aulas e escrevia livros que não tinham o dinheiro como o principal combustível. A mulher dele, Diane (Natacha Régnier) ainda lembra desta vertente do marido, mas também é capaz de perceber a evolução dele para esta nova fase de extremo pragmatismo. Ele pensa que se o sistema funciona daquela forma, explorando pessoas e sem se importar quem perde para que alguns ganhem muito, ele deve tirar a sua parcela de ganho também. Se você não pode destruí-los, junte-se a eles, ele deve pensar antes de dormir.

E é este protagonista que Le Capital acompanha do primeiro ao último minuto. Um sujeito discreto até que ganha poder. A ponto de Marmande e o grupo de Antoine de Suze (Bernard Le Coq) acreditarem que ele será uma ótima marionete. Mas logo na primeira reunião com o comitê gestor Tourneuil demonstra como não tem vontade alguma de ser um testa de ferro sem voz. Marmande tenta voltar atrás, mas é muito tarde. Afinal, os mercados são muito suscetíveis a más notícias e a rumores, e uma segunda mudança em pouco tempo seria muito ruim para o banco.

Mas é uma questão de tempo e de oportunidade para ele dançar. De Suze não vê a hora para que isso aconteça. Mas do outro lado da balança, e em um importante duelo por dinheiro e poder, está o grupo de acionistas minoritários representado por Dittmar Rigule (Gabriel Byrne), dos Estados Unidos. Eles vem em Tourneuil, que trabalhou durante cinco anos com o Goldman Sachs, em Nova York, uma chance de reverter a balança a favor deles.

Nas entrelinhas do roteiro está também a clássica disputa de “maneiras de enxergar o mundo” dos francese e dos norte-americanos. E daí vem uma das finas ironias de Le Capital. Por mais que os franceses digam que o pessoal dos Estados Unidos só se importa com dinheiro e está se lixando para as pessoas, os empregos e o social, no fim das contas todos são iguais. Certo que os dirigentes franceses querem que sejam demitidas cerca de 7 mil a 8 mil pessoas, no lugar das 10 mil que o povo dos EUA está pedindo. Mas existe, realmente, uma grande diferença?

Afinal, o banco não estava falindo. Tourneuil lima 11 mil pessoas para que as ações valorizem e os acionistas ganhem ainda mais. Quanto mais estas pessoas ganham, o presidente do banco também se forra. Esta lógica predominou no mercado bancário dos Estados Unidos antes da crise desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers em 2008. E a mesma lógica funciona com outras grandes empresas. Os executivos ganham um ótimo salário, mas este ganho é multiplicado pelos famosos bônus por resultados. E eles costumam ser obtidos a custa dos empregos de muita gente.

Este não é um filme que vai deixar você satisfeito. Isso porque é impossível concordar com esse sistema aí. Por outro lado, é importante ver a um cineasta como Costa-Gavras ainda colocando o dedo na ferida. Se você não pode mudar a realidade que está aí, você pode pelo menos criticá-la e marcar postura contra ela fazendo um filme ácido e cheio de ironia, não é mesmo?

Da minha parte, acho qualquer banco – não importa se público ou privado – uma fonte de desconfiança. Afinal, vocês já viram algum banco perder dinheiro? Nunca, não é mesmo? E se eles ganham tanto, é as custas de muita gente. Alguns bancos, claro, tem uma governança melhor que outros. Mas a realidade explorada em Le Capital é muito verdadeira. Que o digam as denúncias de negócios milionários ou bilionários que tiveram informações privilegiadas como elementos-chave para o êxito de alguns figurões. E acredito que apenas em uma parte pequena dos casos que acontecem o problema vem à tona. Em muitos outros, como revela este filme, um acordo impede que a denúncia floresça.

Agora, interessante como o personagem de Tourneuil plasma o sujeito fascinado pelo poder clássico. Ele vai cada vez mais longe e não pensa em parar. E a cada passo, em cada jogada, ele atua tirando proveito das pessoas. Não interessa o que elas pensam, mas o que elas podem lhe dar. A única relação do filme que ele não parece querer explorar tanto é a que desenvolve com Maud.

Inicialmente ele pareceu fascinado pela beleza dela. E achei que a razão de “dar corda” para a especialista era apenas uma maneira de levá-la para a cama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas no final das contas, não é isso o que ele faz. Não acredito que é porque ele é um honrado, mas simplesmente porque não quer seguir com aquela ideia – pelo menos não por enquanto. Por outro lado, pegar Nassim (Liya Kebede) vira uma questão de honra para o homem poderoso que só atrai aquela mulher por causa da posição que tem – e ele sabe disso.

Um problema de Le Capital é o excesso de personagens. Claro que poucos acabam tendo protagonismo. Por isso mesmo, é preciso ficar muito atento a cada um deles. Especialmente por causa do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se você descuidar, não vai lembrar de Théo Craillon (Eric Naggar), que aparece pouco depois de meia hora de filme. Ele é o sujeito que explica para o protagonista como fazer a pequena fortuna que ele vai ganhar “tirar umas férias” e depois voltar lavadinha em folha. No final, ele e o detetive Rameur dão o golpe em Tourneuil. O presidente do banco, que não parecia confiar em ninguém, acabou confiando demais em dois homens contratados por um bom dinheiro – mas que tiveram acesso a uma quantia ainda maior. Resultado: se deu mal.

Fora esse excesso de personagens, muitos deles que aparecem apenas uma ou duas vezes, e a densidade natural de uma produção que pretende mergulhar no mundo das corporações financeira, Le Capital tem ritmo, um ótimo roteiro e um final perfeito. Afinal, aquele paralelo entre as crianças e jovens que brincavam com as gerigonças fabricadas na Indonésia e em tantos outros países com mão de obra barata e o entusiasmo propositalmente exagerado dos executivos do Phenix com a notícia sobre o futuro do banco não poderia ter sido mais preciso.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei fã do ator Gad Elmaleh. Ele faz um trabalho seguro e preciso neste filme. E seu papel não era, exatamente, fácil. Ele poderia cair em um lugar-comum, com trejeitos forçados, mas não. Uma bela descoberta para mim.

Além de Elmaleh, ganha destaque nesta produção o trabalho do veterano Gabriel Byrne, que também está muito bem. Os demais, fazem um bom trabalho, mas nada além da média.

Como comentei antes, este filme tem um certo excesso de personagens. O que é até compreensível, levando em conta o ambiente que ele foca. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Hippolyte Girardot como Raphaël Sieg, braço direito de Tourneuil, amigo do executivo há 15 anos, e que está louco para ocupar o cargo dele assim que Tourneuil cair da posição; Olga Grumberg como Claude Marmande, filha do até então presidente do Phenix e uma das executivas do banco; Christophe Kourotchkine como Alfred, considerado um “gênio financeiro com boca grande” por Tourneuil; Yann Sundberg como Boris Bretch, o mais jovem integrante do comitê do banco, tem “mais ambição que talento” segundo o novo presidente; Bruno Ricci como Tino Notti, amigo de Nassim; e Jean-Marie Frin como o tio Bruno, que confronta o sobrinho Tourneuil em um encontro familiar. Há muitos outros atores que aparecem em cena, mas quase todos com menos relevância para a história.

A direção do experiente Costa-Gavras é firme e precisa. O roteiro que ele escreveu com os outros colaboradores tem um bom ritmo, profundidade e um bocado de ironia crítica. Só achei um pouco dispensável o recurso das cenas em que o protagonista se “descontrola em sua imaginação”, reagindo de forma tempestiva, bem diferente do que ele acaba fazendo de fato. Recurso bastante desgastado já, assim como a conversa do ator com a câmera – mas esta, pelo menos, se encaixa melhor na história. De qualquer forma, este é mais um belo trabalho deste grande diretor.

Falando na parte técnica do filme, merece destaque a trilha sonora moderna que é capitaneada por Anne-Sophie Versnaeyen. Ela aparece nas horas certas e dá ritmo para algumas sequências importantes do filme. Também muito bom e preciso o trabalho dos editores Yannick Kergoat e Yorgos Lamprinos.

Achei muito boa a sacada de Craillon com Brunissage. E fui obrigada a voltar para rever os países que ele cita na sequência. Vale citar os paraísos fiscais que contribuem para esse processo de lavagem de dinheiro – e, consequentemente, com algumas das safadezas do mundo: Bahamas, Rússia, Ucrânia, Niue, Ilhas Cayman, Sarawak, Suíça, Aruba, Guatemala e Egito.

Depois da crise de 2008, as regras do mercado financeiro e do sistema bancário nos Estados Unidos mudou um bocado. Ainda assim, o sistema não é tão seguro quanto deveria. Neste texto é possível relembrar um pouco do que aconteceu para o caso do Lehman Brothers acontecer.

Para quem gosta de saber sobre a locação dos filmes, Le Capital foi rodado em Londres, no Reino Unido; em Miami e em Nova York, nos Estados Unidos; e também em Paris, na França. Ou seja, todos os locais que aparecem no roteiro. Costa-Gavras segue a moda antiga de fazer filmes, realmente. Ele vai onde a história determina, sem economizar ou escolher locações em estúdios ou outros locais que possam se passar pelos outros e trazem economia de orçamento.

Aliás, não consegui encontrar informações sobre o custo deste filme, nem mesmo o desempenho dele nas bilheterias. Uma pena. Mas uma razão para isto é que Le Capital não estreou, ainda, no circuito comercial dos Estados Unidos ou mesmo em muitos outros países. Ele estreou, na verdade, apenas na França, Bélgica, Espanha, Grécia, Portugal, Polônia e Hungria.

Le Capital estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2012. Depois, o filme passou por outros quatro festivais, incluindo os de San Sebastián e de Los Angeles. Nesta trajetória, ele ganhou um prêmio e foi indicado a outro no festival de San Sebastián, na Espanha. O que recebeu foi o Prêmio Solidariedade dado pela Associação de Correspondentes Doadores de Sangue Guipuzcoan. Nada muito relevante.

Fiquei curiosa sobre o livro que inspirou o filme. Descobri, neste site francês, que Le Capital, do escritor Stéphane Osmont, foi lançado em fevereiro de 2004. Ou seja, antes da crise do Lehman Brothers e de tudo que veio depois. Segundo o resumo do livro, com 589 páginas, Tourneuillerie é ganancioso, mesquinho, sádico, obcecado sexualmente e cínico, e orbita pela elite econômica de Paris, Londres, Nova York, Davos e Tóquio, cruzando com figuras como Hugh Grant, Richard Branson, Kate Moss, Silvio Berlusconi, Bill Gates, Gwyneth Paltrow, Rainha Rania da Jordânia, Hillary Clinton, entre outros. Parece interessante.

Segundo o site da Amazon, Stéphane Osmont é um pseudônimo de um escritor que estudou filosofia, trabalhou no Ministério das Finanças francês e, depois, ingressou no setor privado para assessorar grandes empresas. Conhece de perto o ambiente que retrata em Le Capital.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para Le Capital. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes ainda não acordaram para o filme – provavelmente porque ele não estreou ainda no circuito comercial norte-americano. Há, no site, duas críticas, apenas. Uma com três estrelas, de cinco possíveis, e a outra com duas. Nada muito animador.

O grego Costa-Gavras é um grande nome do cinema que segue ativo aos 80 anos completados em fevereiro deste ano. Ele estreou na direção em 1958, quando lançou o primeiro curta-metragem. O primeiro longa viria em 1965. Até hoje, Costa-Gavras dirigiu 22 produções, incluindo aquele primeiro curta, com destaque para o clássico supremo Z, de 1969; L’Aveu, de 1970; État de Siège, de 1972; e Missing, de 1982. Mais recentemente, ele se destacou por Mad City, de 1997, e Amen., de 2002. Um diretor que ficou até cinco anos sem filmar.

Le Capital é um filme 100% francês.

CONCLUSÃO: O mundo financeiro é um verdadeiro desastre. E todos sabemos disso. Os bancos ganham muito dinheiro a custas de muita gente e, desde que o mundo virou uma grande ciranda, os capitais circulam com um apetite sem par. E também sem endereço. A crise desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers em 2008 reflete até hoje, e uma parte dos bastidores de cobiça, briga por poder e pelo dinheiro é retratada neste ótimo filme do diretor Costa-Gavras. Interessante como o ambiente cheio de armadilhas é mostrado deste o início e até o final sem pudores.

Um roteiro bem escrito e a condução segura do diretor garante a atenção o tempo inteiro apesar do tema ser denso. Prova de que o bom cinema, especialmente o autoral, não precisa ser chato, ou arrastado. No fim das contas, não há redenção. Mas seria demais pedirmos que sim. Afinal, aquela realidade que Le Capital retrata e critica parece não ter cura. Pelo menos não pelas próximas gerações. E não sei se um dia terá. Infelizmente. Mas o filme sim, este é muito bom. E nos redime um pouco.

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