Hereditary – Hereditário

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Um filme, para ser sinistro, precisa apresentar alguns predicados. Primeiro, começar daquela forma bacana, quase pueril, e depois dar uma bela guinada na história. Depois, ter algumas atitudes bem estranhas dos seus protagonistas ou personagens secundários. Finalmente, deve ter alguns elementos sobrenaturais ou do tipo “incontroláveis”, do gênero que impede que qualquer atitude racional possa colocar um freio. Tudo isso encontramos em Hereditary, um dos filmes mais sinistros que eu assisti nos últimos tempos. Mas apesar de ter todos esses elementos e ser um bocado impactante, esse filme carece um pouco de originalidade. Vejamos o porquê.

A HISTÓRIA: Começa com um texto sobre a morte de Ellen Taper Leigh, que morreu aos 78 anos depois de passar por um longo período doente. A morte dela ocorreu na casa de sua filha, Annie, no dia 3 de abril de 2018. Amada esposa do falecido Martin Leigh, mãe devota de Annie Leigh Graham e do falecido Charles Leigh. Avó de Peter Graham e Charlie Graham. Sogra do Dr. Steven Graham. Todos sentirão sua falta. O corpo dela será velado na sexta-feira, das 10h às 12h, na Funerária Kingstone. Do funeral, o corpo seguirá no sábado, às 10h, para o enterro no Cemitério Spring Blossom.

Por uma janela, vemos a uma casa da árvore. Dentro da residência, diversas maquetes, inclusive uma que mostra um quarto simples, com cama e armário. Conforme a câmera se aproxima, vemos a jovem na cama. Entra pela porta o pai de Peter (Alex Wolff), Steve (Gabriel Byrne), que chama o jovem para o funeral da avó. Em seguida, Steve procura Charlie (Milly Shapiro) na casa da árvore, e chama a garota também para o carro, onde Annie (Toni Collette) está esperando a família para ir para o velório da mãe. Esse fato é apenas o começo de uma série de acontecimentos na vida da família Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hereditary): Cheguei até esse filme porque ele foi citado por diferentes listas de “melhores filmes de 2018 até agora” feitas por críticos americanos. Assisti a essa produção, claro, desconfiando que se tratava de um filme de suspense/terror, mas eu não tinha mais nenhuma expectativa além dessa.

No início, achei interessante aquela pegada um tanto psicológica envolvendo Annie e o seu trabalho de criar “pequenos mundos”. Ela tinha que enfrentar a perda da mãe ao mesmo tempo em que precisava lidar com uma série de problemas familiares. Primeiro, os seus filhos, que não eram exatamente muito apegados ou comunicativos com ela. Depois, por ser sonâmbula e, aparentemente, um pouco inconstante, a própria Annie sentia que o marido e os filhos pareciam não confiar muito nela.

Temos, assim, um cenário com várias possibilidades de conflitos e de problemas. A tensão e a tristeza estão no ar mas, apesar disso, Annie e sua família parecem normais. Nada demais. Quando Hereditary começa, o roteiro do diretor Ari Aster nos situa em um momento importante, que é o luto vivenciado por Annie e pelos seus filhos com a morte de Ellen. O fato de Annie viver utilizando a imagem dela e das pessoas da sua família nas maquetes é o que dá os primeiros arrepios, mas nada demais.

O primeiro sinal realmente sinistro acontece quando um pássaro morre do lado de fora da classe de Charlie e a garota vai, discretamente, até lá para cortar a cabeça do animal e a leva para casa. A questão da perda de cabeças será uma constante nesse filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Há diversas cenas um pouco “estranhas” pinceladas aqui e ali – especialmente algumas “aparições”, mas tudo caminha com certa naturalidade até que Charlie acompanha a contragosto o irmão Peter para uma festa. O acidente em que Charlie literalmente é degolada marca um “antes” e um “depois” nesta produção.

Certo que a família de Annie parecia meio disfuncional. Ela tinha uma certa dificuldade de ser próxima dos filhos – como ela própria, aparentemente, não tinha conseguido ser próxima da própria mãe. Ainda que Peter estivesse um tanto “chapado”, a reação dele de ir para casa, deitar-se na cama e não dizer nada sobre o que tinha acontecido com a irmão é mais do que fora do comum. É muito, muito estranha. Mas todos naquela casa pareciam ter reações estranhas que envolviam mentir e esconder fatos uns dos outros.

Vejamos. Annie mente para o marido dizendo que ia ao cinema quando, na verdade, ela estava procurando um grupo de apoio para pessoas que estavam em luto. Steve não disse para a esposa que o túmulo da mãe dela tinha sido violado. Peter e Charlie também pouco compartilhavam de suas vidas – eles pareciam viver fechados em si mesmos. Então as pessoas, por si mesmas, já pareciam um tanto estranhas e descoladas.

Mas, volto a dizer, apesar deste cenário, a reação de Peter era digna de chamar um psicólogo para trabalhar com o garoto. Só que nada disso é feito. No lugar de procurar ajuda para o filho, Annie fica amargurada e guarda uma grande raiva e indignação dentro de si. Depois da segunda perda na família, ela acaba se aproximando ainda mais de Joan (Ann Dowd), uma mulher que ela conheceu no grupo de apoio para pessoas que estão em luto.

E aí que o filme começa a ficar um tanto óbvio e, ao mesmo tempo, cada vez mais sinistro e com algumas “forçadas de barra”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A parte do lugar-comum e da obviedade é a forma com que Joan convence Annie de que ela poderá voltar a falar com a filha. Retomamos o velho jogo do copo e, em seguida, o papel e caneta para o “espírito” da garota se comunicar com a mãe.

Mas, depois, descobrimos que nada daquilo é verdadeiro. Joan não é a pessoa que diz ser e tudo faz parte de um plano elaborado de “possessão”, mas não de Annie, e sim de Peter. O que achei mais curioso dessa história é todos da família terem que morrer de forma violenta para que a tal possessão de Peter fosse concretizada no final. Então a parte de Joan convencer Annie com “sessões espíritas” é a parte óbvia do filme.

A parte um tanto “forçada” para o meu gosto, é como os adultos Steve e Annie agem frente a situações cada vez mais sinistras e um tanto macabras. Quando descobre o corpo da sogra no sótão, Steve não faz o que qualquer pessoa normal faria e chama a polícia. Não, ele confronta a esposa achando que ela fez aquilo. Antes, ele já tinha agido com certa “naturalidade” com o comportamento estranho do filho com a morte da irmão. E agora isso?

Por mais que Steve quisesse proteger as pessoas da família, acho muito estranho para um médico – ou psiquiatra? – agir daquela maneira. Além disso, ele embarca na ideia maluca da mulher de querer queimar o caderno de desenhos feitos pela filha morta. As próprias ações de Annie não fazem muito sentido. Ora, se ela quer salvar a família, a melhor saída seria realmente se “autodestruir” jogando aqueles desenhos no fogo? E se, na cabeça de Annie, essa era a melhor saída, por que pedir para que Steve presencie a cena? Não faria mais sentido ela fazer isso sozinha?

Alguém desesperado, mas com o mínimo de sanidade, não tentaria tirar a família daquela casa, chamar a polícia para denunciar o corpo da mãe e as atitudes de Joan? Certo que filmes de suspense e de terror geralmente não tem muita preocupação em parecerem lógicos, mas acho que esse Hereditary se esforça muito para ser macabro e para nos apresentar mortes estranhas e sinistras e tem pouco contato com reações que poderíamos esperar de personagens com algum pé na realidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de suspense/terror que tenham esse “fundinho” ao menos de realidade. Acho que quando tratamos de ações e reações mais realistas, mais o terror parece se aproximar do espectador. No caso de Hereditary, o filme impacta pelas cenas das morte sinistras, assim como pelo resgate de algo por si só assustador, que são os grupos de fanáticos satanistas. Mas fora esse detalhe, esse filme me pareceu forçar um pouco a barra da história com diversas cenas de “alucinações” e um bocado de descontrole da protagonista.

Os atores fazem um belo trabalho, mas achei um tanto forçada a interpretação tanto de Toni Collette, que faz uma Annie um bocado histérica, quanto de Alex Wolff, que também faz um garoto fora do “compasso” e um tanto “amedrontado” demais para um jovem da sua idade.

Na verdade, me parece, que o mais racional da família, Steve, deveria ter tido outra atitude em relação às perdas que eles tiveram. A passividade dele e a forma com que Annie ignora a história da própria família são de assustar – e acabam desencadeando boa parte da loucura que vemos em cena. Ah sim, outro ponto que me parece meio sem sentido: beleza que a mãe de Annie queria que o neto Peter fosse o novo “hospedeiro” do seu demônio do coração, mas para que, para realizar isso, ela precisava liquidar com toda a família? Outro ponto um tanto forçado.

Um filme assustador, em muitos momentos, mas que em outros nos cansa um pouco com aquele recurso de “figuras sinistras correndo a qualquer momento na frente da tela”. Hereditary tem bons atores – especialmente Toni Collette em grande momento – e uma crescente de terror que muitas vezes funciona mas que, aqui, me pareceu um bocado forçado. O final, de qualquer forma, na casa da árvore, é bastante impactante. Apenas por aquela cena, o filme merece aplausos pela coragem de Ari Aster. Mas a história em si… deixa um pouco a desejar.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curiosas diversas escolhas do roteirista e diretor Ari Aster. Ele tem um estilo muito próprio em focar a atenção nos detalhes, seja dos cenários em miniatura, seja nas interpretações dos atores. A escalada sinistra que ele faz no roteiro também é para poucos. Procurei saber mais sobre o diretor e vi que Hereditary é o primeiro longa feito por ele. Antes, Aster dirigiu a sete curtas, apenas.

Para quem gostou do estilo de Ari Aster, a boa notícia é que ele já está filmando o seu próximo longa: Mindsommar, um outro filme de terror. Veremos o que ele nos apresenta da próxima vez. Mindsommar deve ser lançado em 2019.

O destaque desta produção, apesar de alguns rompantes histéricos, sem dúvida alguma é a atriz Toni Collette. Ela rouba a cena toda a vez em que aparece. Carismática e cheia de nuances em sua interpretação, ela é fascinante. Além dela, estão bem Alex Wolff como Peter, um garoto que parece querer a aprovação da mãe na mesma medida em que teme o que ela pode fazer; Gabriel Byrne como Steve, o estereótipo de marido calado e de bom pai; Milly Shapiro como Charlie, uma menina também um tanto “introspectiva” demais e a primeira vítima da avó; Mallory Bechtel bem em uma ponta como Bridget, a garota do colégio de quem Peter gosta; e Ann Dowd muito bem como Joan, um mulher aparentemente comum que se revela uma maluca de primeira linha.

Há diversos outros atores em cena, mas quase todos em papéis tão secundários e pouco relevantes para a história que eu nem acho que faz falta citá-los por aqui.

Entre os aspectos técnicos desta produção, o destaque vai para a direção cuidadosa e atenta para os detalhes de Ari Aster. Ele também sabe fazer a história assumir um “crescente” de tensão importante, ainda que o roteiro dele não seja tão brilhante por recorrer a diversos lugares-comuns e a um ou dois pontos um tanto “forçados”. Além do trabalho de Aster, vale destacar a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski; a edição de Lucian Johnston e Jennifer Lame; a trilha sonora feita para assustar e criar tensão assinada por Colin Stetson; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Richard T. Olson; a decoração de set de Brian Lives; os figurinos de Olga Mill; a maquiagem perfeita feita por 14 profissionais; e os efeitos visuais realizados por outros 19 profissionais.

Hereditary estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, do South by Southwest Film Festival e do Haifa Film Festival. No Brasil, o filme estreou em junho de 2018. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros nove. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Toni Collette no International Online Cinema Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: segundo Alex Wolf, Hereditary poderia ter, facilmente, três horas de duração por todas as cenas que foram rodadas para essa produção. Para ficar mais condensado, os realizadores resolveram cortar diversas cenas de diálogos familiares.

Hereditary foi rodado em 32 dias.

Muitas pessoas do elenco e da produção encaram Hereditary muito mais como um drama familiar do que como um filme de terror. Sim, até certo ponto do filme, eu concordo. Mas depois… essa produção se torna totalmente um filme de terror.

Ari Aster tem 10 roteiros já escritos que ele espera rodar ao longo de sua carreira. Isso que eu chamo de um sujeito organizado e com uma bela programação pela frente. 😉

Agora, uma curiosidade que ajudou a tirar uma dúvida que eu tinha sobre Hereditary. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O demônio invocado nesta produção seria um anjo herege que, apesar de poder tomar formas femininas é, essencialmente, masculino. Além de ocupar o corpo da mãe de Annie, antes dela morrer, ele também possuiu Charlie antes de finalmente se apoderar de Peter. Então sim, sempre que ouvimos Charlie “estralando” a língua, fazendo um som típico com a boca, é porque o demônio está por ali. Tive a impressão que a menina tinha sido “possuída” primeiro, mas tire essa dúvida ao ler essa nota da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 255 críticas positivas e 32 críticas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – elevada se levarmos em conta o padrão do site. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 87 para esta produção, fruto de 46 críticas positivas, duas medianas e uma negativa. Com esta avaliação positiva, Hereditary ganhou o selo de “você precisa ver” do Metascore.

De acordo com o site Box Office Mojo, Hereditary fez US$ 44,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 35,3 milhões em outros mercados em que o filme estreou. No total, essa produção ultrapassou um pouco os US$ 79,3 milhões. Um belo resultado para uma estreia de um diretor no mercado do terror. Ainda mais que, segundo o site IMDb, Hereditary teria custado cerca de US$ 10 milhões. Ou seja, o filme deu um belo lucro. Um sinal positivo para Ari Aster seguir a sua trajetória.

Hereditary é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog – e na qual vocês pediam mais filmes made in USA. 😉

CONCLUSÃO: Se você está procurando um novo filme de terror “clássico”, essa é uma boa pedida. Hereditary resgata parte do manual do terror para nos apresentar uma história matematicamente dividida e feita para levar você da calmaria para a aflição – ou algo parecido com isso. Com belas interpretações e um enredo com alguns furos, Hereditary é forte por não ter muitos filtros sobre o que veremos na tela. Sinistro, ele apresenta um par de cenas bastante fortes. Está entre os filmes do gênero mais impactantes dos últimos tempos, ainda que ele não tenha as sacadas ou a inteligência de outras produções recentes, como Get Out (comentado por aqui). Mas Hereditary é bom, sem ser imperdível. Recomendado, realmente, para quem gosta do gênero e não tem problemas com gritos. 😉

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Le Capital – Capital – O Capital

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Filmes panfletários sempre são interessantes. Primeiro, porque eles tem uma ideia muito clara do que querem defender. E isso, por si só, e porque nem todo filme tem esta característica como qualidade, faz esta produções valerem uma conferida. Há algumas defesas que caem em argumentos simplórios, o que faz o filme ficar interessante porque ele se torna cômico. Mas há outros, como este Le Capital, que se caracterizam pela fina ironia, pela maturidade do diretor e pelo soco no estômago com a realidade retratada. Costa-Gavras em ótima forma.

A HISTÓRIA: Uma bola de golfe e o movimento de levantar o taco antes de dar o golpe. Essa sequência faz Jack Marmande (Daniel Mesguich) cair no chão com muitas dores. O presidente do banco Phenix escondia um câncer nos testículos, mas acaba tendo a doença revelada para os acionistas. Ele indica o executivo Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) para lhe substituir como presidente e, apesar das resistências do comitê gestor do Phenix, consegue colocar o sucessor no cargo. O substituto conhece bem o cenário, e percebe que está sendo colocado no cargo por um tempo limitado. Por ter esta noção, ele começa a se cercar de garantias para tirar o melhor proveito possível da situação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler apenas quem já assistiu a Le Capital): O protagonista deste filme funciona com a seguinte lógica: se você vai ser explorado, explore e contra-ataque primeiro. Marc Tourneuil sabe como a máquina trabalha, tem claro que será usado e que há muito dinheiro em jogo. Por isso mesmo, ele resolve não apenas tirar o melhor proveito possível da situação, como também se arma de todas as formas contra os seus inimigos.

Le Capital mostra a selva de pedra dos grandes bancos por dentro. E o protagonista não poderia ser melhor para exemplificar a ambição desmedida da qual apenas ouvimos falar. Essa ambição, aliás, fica evidente logo nos primeiros minutos do filme, com um roteiro que está repleto de artimanhas e alguma ironia. Um belo trabalho dos roteiristas Karim Boukercha, Jean-Claude Grumberg e do diretor Costa-Gavras que para escrever o texto deste filme se inspiraram na obra de Stéphane Osmont.

Quem diria que um filme sobre o ambiente corporativo de um grande banco e seus acionistas renderia uma produção com tanta tensão e ironia? Tourneuil se arma logo no início contratando um investigador chamado Jean Rameur (Philippe Duclos) que deve ficar atento a todos os personagens que cercam ao novo presidente do Phenix. As informações privilegiadas que ele consegue para o protagonista acabam sendo fundamentais para as decisões que ele toma.

Fascinado pelo poder que o dinheiro pode trazer, Tourneuil parece alimentar o próprio ego e a ambição de conseguir tudo o que deseja enquanto a história avança. Ele é o símbolo daquele ambiente corporativo onde os homens e mulheres não tem escrúpulos para ganhar muito dinheiro. Mas claro que há gente competente no meio. Como Maud Baron (Céline Sallette), especialista nos mercados do Japão e do restante da Ásia na sucursal do banco em Londres.

Ela lembra para o protagonista um pouco de como era a fase anterior da vida dele, quando Tourneuil dava aulas e escrevia livros que não tinham o dinheiro como o principal combustível. A mulher dele, Diane (Natacha Régnier) ainda lembra desta vertente do marido, mas também é capaz de perceber a evolução dele para esta nova fase de extremo pragmatismo. Ele pensa que se o sistema funciona daquela forma, explorando pessoas e sem se importar quem perde para que alguns ganhem muito, ele deve tirar a sua parcela de ganho também. Se você não pode destruí-los, junte-se a eles, ele deve pensar antes de dormir.

E é este protagonista que Le Capital acompanha do primeiro ao último minuto. Um sujeito discreto até que ganha poder. A ponto de Marmande e o grupo de Antoine de Suze (Bernard Le Coq) acreditarem que ele será uma ótima marionete. Mas logo na primeira reunião com o comitê gestor Tourneuil demonstra como não tem vontade alguma de ser um testa de ferro sem voz. Marmande tenta voltar atrás, mas é muito tarde. Afinal, os mercados são muito suscetíveis a más notícias e a rumores, e uma segunda mudança em pouco tempo seria muito ruim para o banco.

Mas é uma questão de tempo e de oportunidade para ele dançar. De Suze não vê a hora para que isso aconteça. Mas do outro lado da balança, e em um importante duelo por dinheiro e poder, está o grupo de acionistas minoritários representado por Dittmar Rigule (Gabriel Byrne), dos Estados Unidos. Eles vem em Tourneuil, que trabalhou durante cinco anos com o Goldman Sachs, em Nova York, uma chance de reverter a balança a favor deles.

Nas entrelinhas do roteiro está também a clássica disputa de “maneiras de enxergar o mundo” dos francese e dos norte-americanos. E daí vem uma das finas ironias de Le Capital. Por mais que os franceses digam que o pessoal dos Estados Unidos só se importa com dinheiro e está se lixando para as pessoas, os empregos e o social, no fim das contas todos são iguais. Certo que os dirigentes franceses querem que sejam demitidas cerca de 7 mil a 8 mil pessoas, no lugar das 10 mil que o povo dos EUA está pedindo. Mas existe, realmente, uma grande diferença?

Afinal, o banco não estava falindo. Tourneuil lima 11 mil pessoas para que as ações valorizem e os acionistas ganhem ainda mais. Quanto mais estas pessoas ganham, o presidente do banco também se forra. Esta lógica predominou no mercado bancário dos Estados Unidos antes da crise desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers em 2008. E a mesma lógica funciona com outras grandes empresas. Os executivos ganham um ótimo salário, mas este ganho é multiplicado pelos famosos bônus por resultados. E eles costumam ser obtidos a custa dos empregos de muita gente.

Este não é um filme que vai deixar você satisfeito. Isso porque é impossível concordar com esse sistema aí. Por outro lado, é importante ver a um cineasta como Costa-Gavras ainda colocando o dedo na ferida. Se você não pode mudar a realidade que está aí, você pode pelo menos criticá-la e marcar postura contra ela fazendo um filme ácido e cheio de ironia, não é mesmo?

Da minha parte, acho qualquer banco – não importa se público ou privado – uma fonte de desconfiança. Afinal, vocês já viram algum banco perder dinheiro? Nunca, não é mesmo? E se eles ganham tanto, é as custas de muita gente. Alguns bancos, claro, tem uma governança melhor que outros. Mas a realidade explorada em Le Capital é muito verdadeira. Que o digam as denúncias de negócios milionários ou bilionários que tiveram informações privilegiadas como elementos-chave para o êxito de alguns figurões. E acredito que apenas em uma parte pequena dos casos que acontecem o problema vem à tona. Em muitos outros, como revela este filme, um acordo impede que a denúncia floresça.

Agora, interessante como o personagem de Tourneuil plasma o sujeito fascinado pelo poder clássico. Ele vai cada vez mais longe e não pensa em parar. E a cada passo, em cada jogada, ele atua tirando proveito das pessoas. Não interessa o que elas pensam, mas o que elas podem lhe dar. A única relação do filme que ele não parece querer explorar tanto é a que desenvolve com Maud.

Inicialmente ele pareceu fascinado pela beleza dela. E achei que a razão de “dar corda” para a especialista era apenas uma maneira de levá-la para a cama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas no final das contas, não é isso o que ele faz. Não acredito que é porque ele é um honrado, mas simplesmente porque não quer seguir com aquela ideia – pelo menos não por enquanto. Por outro lado, pegar Nassim (Liya Kebede) vira uma questão de honra para o homem poderoso que só atrai aquela mulher por causa da posição que tem – e ele sabe disso.

Um problema de Le Capital é o excesso de personagens. Claro que poucos acabam tendo protagonismo. Por isso mesmo, é preciso ficar muito atento a cada um deles. Especialmente por causa do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se você descuidar, não vai lembrar de Théo Craillon (Eric Naggar), que aparece pouco depois de meia hora de filme. Ele é o sujeito que explica para o protagonista como fazer a pequena fortuna que ele vai ganhar “tirar umas férias” e depois voltar lavadinha em folha. No final, ele e o detetive Rameur dão o golpe em Tourneuil. O presidente do banco, que não parecia confiar em ninguém, acabou confiando demais em dois homens contratados por um bom dinheiro – mas que tiveram acesso a uma quantia ainda maior. Resultado: se deu mal.

Fora esse excesso de personagens, muitos deles que aparecem apenas uma ou duas vezes, e a densidade natural de uma produção que pretende mergulhar no mundo das corporações financeira, Le Capital tem ritmo, um ótimo roteiro e um final perfeito. Afinal, aquele paralelo entre as crianças e jovens que brincavam com as gerigonças fabricadas na Indonésia e em tantos outros países com mão de obra barata e o entusiasmo propositalmente exagerado dos executivos do Phenix com a notícia sobre o futuro do banco não poderia ter sido mais preciso.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei fã do ator Gad Elmaleh. Ele faz um trabalho seguro e preciso neste filme. E seu papel não era, exatamente, fácil. Ele poderia cair em um lugar-comum, com trejeitos forçados, mas não. Uma bela descoberta para mim.

Além de Elmaleh, ganha destaque nesta produção o trabalho do veterano Gabriel Byrne, que também está muito bem. Os demais, fazem um bom trabalho, mas nada além da média.

Como comentei antes, este filme tem um certo excesso de personagens. O que é até compreensível, levando em conta o ambiente que ele foca. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Hippolyte Girardot como Raphaël Sieg, braço direito de Tourneuil, amigo do executivo há 15 anos, e que está louco para ocupar o cargo dele assim que Tourneuil cair da posição; Olga Grumberg como Claude Marmande, filha do até então presidente do Phenix e uma das executivas do banco; Christophe Kourotchkine como Alfred, considerado um “gênio financeiro com boca grande” por Tourneuil; Yann Sundberg como Boris Bretch, o mais jovem integrante do comitê do banco, tem “mais ambição que talento” segundo o novo presidente; Bruno Ricci como Tino Notti, amigo de Nassim; e Jean-Marie Frin como o tio Bruno, que confronta o sobrinho Tourneuil em um encontro familiar. Há muitos outros atores que aparecem em cena, mas quase todos com menos relevância para a história.

A direção do experiente Costa-Gavras é firme e precisa. O roteiro que ele escreveu com os outros colaboradores tem um bom ritmo, profundidade e um bocado de ironia crítica. Só achei um pouco dispensável o recurso das cenas em que o protagonista se “descontrola em sua imaginação”, reagindo de forma tempestiva, bem diferente do que ele acaba fazendo de fato. Recurso bastante desgastado já, assim como a conversa do ator com a câmera – mas esta, pelo menos, se encaixa melhor na história. De qualquer forma, este é mais um belo trabalho deste grande diretor.

Falando na parte técnica do filme, merece destaque a trilha sonora moderna que é capitaneada por Anne-Sophie Versnaeyen. Ela aparece nas horas certas e dá ritmo para algumas sequências importantes do filme. Também muito bom e preciso o trabalho dos editores Yannick Kergoat e Yorgos Lamprinos.

Achei muito boa a sacada de Craillon com Brunissage. E fui obrigada a voltar para rever os países que ele cita na sequência. Vale citar os paraísos fiscais que contribuem para esse processo de lavagem de dinheiro – e, consequentemente, com algumas das safadezas do mundo: Bahamas, Rússia, Ucrânia, Niue, Ilhas Cayman, Sarawak, Suíça, Aruba, Guatemala e Egito.

Depois da crise de 2008, as regras do mercado financeiro e do sistema bancário nos Estados Unidos mudou um bocado. Ainda assim, o sistema não é tão seguro quanto deveria. Neste texto é possível relembrar um pouco do que aconteceu para o caso do Lehman Brothers acontecer.

Para quem gosta de saber sobre a locação dos filmes, Le Capital foi rodado em Londres, no Reino Unido; em Miami e em Nova York, nos Estados Unidos; e também em Paris, na França. Ou seja, todos os locais que aparecem no roteiro. Costa-Gavras segue a moda antiga de fazer filmes, realmente. Ele vai onde a história determina, sem economizar ou escolher locações em estúdios ou outros locais que possam se passar pelos outros e trazem economia de orçamento.

Aliás, não consegui encontrar informações sobre o custo deste filme, nem mesmo o desempenho dele nas bilheterias. Uma pena. Mas uma razão para isto é que Le Capital não estreou, ainda, no circuito comercial dos Estados Unidos ou mesmo em muitos outros países. Ele estreou, na verdade, apenas na França, Bélgica, Espanha, Grécia, Portugal, Polônia e Hungria.

Le Capital estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2012. Depois, o filme passou por outros quatro festivais, incluindo os de San Sebastián e de Los Angeles. Nesta trajetória, ele ganhou um prêmio e foi indicado a outro no festival de San Sebastián, na Espanha. O que recebeu foi o Prêmio Solidariedade dado pela Associação de Correspondentes Doadores de Sangue Guipuzcoan. Nada muito relevante.

Fiquei curiosa sobre o livro que inspirou o filme. Descobri, neste site francês, que Le Capital, do escritor Stéphane Osmont, foi lançado em fevereiro de 2004. Ou seja, antes da crise do Lehman Brothers e de tudo que veio depois. Segundo o resumo do livro, com 589 páginas, Tourneuillerie é ganancioso, mesquinho, sádico, obcecado sexualmente e cínico, e orbita pela elite econômica de Paris, Londres, Nova York, Davos e Tóquio, cruzando com figuras como Hugh Grant, Richard Branson, Kate Moss, Silvio Berlusconi, Bill Gates, Gwyneth Paltrow, Rainha Rania da Jordânia, Hillary Clinton, entre outros. Parece interessante.

Segundo o site da Amazon, Stéphane Osmont é um pseudônimo de um escritor que estudou filosofia, trabalhou no Ministério das Finanças francês e, depois, ingressou no setor privado para assessorar grandes empresas. Conhece de perto o ambiente que retrata em Le Capital.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para Le Capital. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes ainda não acordaram para o filme – provavelmente porque ele não estreou ainda no circuito comercial norte-americano. Há, no site, duas críticas, apenas. Uma com três estrelas, de cinco possíveis, e a outra com duas. Nada muito animador.

O grego Costa-Gavras é um grande nome do cinema que segue ativo aos 80 anos completados em fevereiro deste ano. Ele estreou na direção em 1958, quando lançou o primeiro curta-metragem. O primeiro longa viria em 1965. Até hoje, Costa-Gavras dirigiu 22 produções, incluindo aquele primeiro curta, com destaque para o clássico supremo Z, de 1969; L’Aveu, de 1970; État de Siège, de 1972; e Missing, de 1982. Mais recentemente, ele se destacou por Mad City, de 1997, e Amen., de 2002. Um diretor que ficou até cinco anos sem filmar.

Le Capital é um filme 100% francês.

CONCLUSÃO: O mundo financeiro é um verdadeiro desastre. E todos sabemos disso. Os bancos ganham muito dinheiro a custas de muita gente e, desde que o mundo virou uma grande ciranda, os capitais circulam com um apetite sem par. E também sem endereço. A crise desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers em 2008 reflete até hoje, e uma parte dos bastidores de cobiça, briga por poder e pelo dinheiro é retratada neste ótimo filme do diretor Costa-Gavras. Interessante como o ambiente cheio de armadilhas é mostrado deste o início e até o final sem pudores.

Um roteiro bem escrito e a condução segura do diretor garante a atenção o tempo inteiro apesar do tema ser denso. Prova de que o bom cinema, especialmente o autoral, não precisa ser chato, ou arrastado. No fim das contas, não há redenção. Mas seria demais pedirmos que sim. Afinal, aquela realidade que Le Capital retrata e critica parece não ter cura. Pelo menos não pelas próximas gerações. E não sei se um dia terá. Infelizmente. Mas o filme sim, este é muito bom. E nos redime um pouco.