Grand Piano – Toque de Mestre


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Toda a dramaticidade de um concerto de música clássica e de uma trama de ameaça de morte. Grand Piano parte de uma boa e interessante premissa, mas tropeça nos detalhes e na interpretação pouco convincente dos protagonistas. O início do filme tem bons momentos, mas isso é tudo. Assista preferencialmente se gostar muito dos atores ou do diretor. Porque há suspenses melhores no mercado.

A HISTÓRIA: Aplausos nos créditos iniciais. Depois, entra o som da orquestra. Nas imagens, detalhes de um piano. Após os créditos iniciais, começa a história com uma equipe de funcionários de uma empresa de mudanças entrando em uma mansão cheia de objetos antigos. O local parece abandonado há algum tempo. Um dos supervisores aponta o local em que está o piano que será transportado e avisa que o grupo de funcionários tem 20 minutos para agir.

Com pressa de sair dali, os homens derrubam uma fotografia. Nela aparecem o pianista Tom Selznick (Elijah Wood) e seu mestre, o magnata da música Patrick Godureaux. Aquele piano, transportado com todo o cuidado, será uma peça fundamental do concerto que marca o retorno de Selznick para os palcos após uma ausência de cinco anos. Mas o espetáculo terá uma dramaticidade que o músico jamais poderia esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Grand Piano): Interessante como uma boa ideia pode render um enredo apenas interessante, mas sem atingir o resultado que se esperava no início. Este é o caso deste Grand Piano.

O filme, que começa devagar, rapidamente abraça o suspense e o drama do protagonista quando o concerto que marca o retorno dele para os palcos ganha corpo. Mas o problema reside na continuidade das ideias iniciais, da provocação que é feita para o espectador que aguarda ansioso o próximo passo do “herói” e do “bandido”.

Antes de falar mais do final, vou retornar um pouco na história de Grand Piano. Uma qualidade fundamental desta produção é misturar a música clássica com o risco eminente de morte. Não há estilo musical criado pela humanidade melhor para representar o risco e a emoção “à flor da pele” do que a música clássica. Ela historicamente sempre embalou os maiores suspenses, dramas e amores, e por isso mesmo a sua escolha foi perfeita para Grand Piano.

Além disso, devo dizer, não deixa de ser corajoso fazer um filme, atualmente, que valorize tanto este estilo de música. Não apenas porque estamos nos habituando a ouvir muito lixo na música, mas principalmente porque 99% das pessoas consideram a música clássica algo ultrapassado, chato, e ignoram que ela não é apenas fundamental para o cinema, mas para a própria música em diferentes gêneros.

A música em Grand Piano não é apenas uma peça fundamental na trama – afinal, o centro das atenções está em um jovem talento da música e no piano histórico que ele está tocando -, mas também a grande condutora do suspense. Apenas na parte inicial do filme isso não ocorre. Nos primeiros 20 minutos da produção, o roteiro de Damien Chazelle nos apresenta não apenas os personagens centrais da produção – exceto os bandidos -, como também explica os interesses e relações que estão em jogo naquele “mise-en-scène”.

Nesta primeira parte da trama, percebemos toda a apreensão e aflição do personagem de Tom Selznick através dos grandes olhos de Elijah Wood. Algo que este ator sabe expressar é, sem dúvida, o medo e a aflição. 🙂 De acordo com o texto de Chazelle, acompanhamos o drama quando ele está prestes do ápice. Depois de vermos ao deslocamento do piano que será um dos astros da noite, assistimos o medo e a insegurança de Selznick quando ele chega em Chicago.

Todo este drama acontece porque o músico, considerado o mais brilhante de sua geração, está há cinco anos sem tocar para o público. Esta ausência se explica porque na última tentativa dele de tocar Selznick travou. Envergonhado, ele desistiu da música até que, no tempo presente do filme, ele retorna para os palcos por insistência da mulher, Emma (Kerry Bishé), considerada uma das melhores e mais bem sucedidas atrizes de sua geração.

O casal é interessante, ainda que pouco crível. Nas raras cenas em que ficam juntos, Tom e Emma não parecem ter a química que deveriam – ou mesmo parece ser muito lógico aquela mulher linda e talentosa dividir a vida com um sujeito tão cheio de inseguranças. Certo que alguém pode argumentar que aquele era apenas um momento complicado para Tom e que ele poderia ser muito mais seguro e atraente fora daquela situação. Verdade. Assim como é verdade que o amor é algo muitas vezes sem lógica. 😉

O drama parece estar posto quando Selznick está prestes a enfrentar o palco. Para alimentar a tensão, no caminho para o espetáculo Selznick não apenas fica sabendo de Emma que não vai encontrar a mulher antes do concerto (o que poderia ter sido um consolo/conforto), como também passa por uma entrevista desastrosa com uma tal Marjorie. Ela entrevista Emma e, em seguida, coloca Tom contra a parede.

É neste momento que ouvimos falar, pela primeira vez, de La Cinquette, uma “obra que não pode ser reproduzida” e que teria ajudado Selznick a travar da última vez. Prestes a subir no palco, Selznick vê que a partitura de La Cinquette faz parte do programa, mas ele a tira dali. O drama está posto, mas ele vai ficar ainda pior quando o protagonista começar a tocar a primeira peça.

Uma nada discreta cor vermelha se destaca em meio às partituras, e nesta primeira sequência de fatos temos o melhor do filme. Cada nova instrução escrita no papel é acompanhada de uma ação importante de Selznick e da expectativa de desastre – que se resume a ele travar e/ou desistir do concerto – por parte de Emma e do restante do público.

A música clássica tocada pela orquestra do maestro Norman Reisinger (Don McManus) e pelo piano de Selznick e a competente edição de José Luis Romeu dão o tom do suspense. Pela primeira vez Selznick esboça não apenas a sua insegurança, mas também uma certa determinação em entender o que está acontecendo e buscar sobreviver – além de salvar Emma.

A ameaça é real, e o músico percebe isso quando tem a luz vermelha de uma arma de longo alcance apontada para ele. Agora, um detalhe, entre muitos outros, que torna a história pouco crível: em certo momento esta luz vermelha chega a deslizar pela partitura que está à frente de Selznick. O atirador está em um camarote no ponto alto do teatro, do lado oposto ao do músico. Impossível aquela luz do alvo deslizar pelo papel que estava posicionado em posição perpendicular.

Essa primeira parte, de ameça “muda”, sem dúvida é a melhor do filme. Porque na sequência Selznick vai até o camarim – um ato muito “excêntrico” para um músico que tinha apenas acabado o primeiro ato do espetáculo – e daí as ameaças passam a ser verbais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, elas funcionam. Mas depois começam a ficar muito repetitivas. Afinal, o vilão resume grande parte de suas ameaças a “vou estourar os miolos de Emma”. Chazelle deveria saber que repetição no cinema sem novos temperos nunca funciona – especialmente em um suspense, quando se espera que novos fatos sempre alimentem a tensão.

O problema nesta segunda fase do suspense de Grand Piano é que nem sempre a troca de diálogos é interessante. Além de repetitiva, em muitos momentos, parece que falta um pouco de inspiração para Chazelle – diferente da música, que é ótima do início ao fim. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o problema no roteiro começa mesmo quando Selznick tira o celular do bolso e começa a interagir com o amigo Wayne (Allen Leech). Se até então o vilão da história estava atento a cada mínimo movimento de tom, de verdade mesmo que o roteirista achou que iríamos engolir que ele não notaria aqueles movimentos estranhos do músico mexendo no celular?

Os personagens de Wayne e Ashley (Tamsin Egerton), aliás, são os piores da trama. Não apenas não entendemos muito bem a relação deles com o casal Selznick – seriam amigos? parentes? – como também não fica clara a função deles para a trama. Quer dizer, em certo momento isso fica claro… eles estão ali para morrer de maneira fácil, sem grande suspense. Eis mais um problema no roteiro.

Depois, a razão de toda aquela tensão é explicada. E aí surge outro elemento para encorpar o suspense: Selznick deve tirar de “ouvido” a dificílima La Cinquette. A razão? A partitura que o vilão colocou para Selznick foi destruída e ninguém tinha uma segunda cópia por ali (quanta distração deste bandido!).

Depois de relembrar La Cinquette, Selznick volta para o piano e, finalmente, fica sabendo porque deve tocar esta obra. O mistério está desvendado. E daí para o final, o filme apenas abaixa a tensão e o suspense. Perde fôlego nos 18 minutos finais. É muito tempo para isso acontecer. E o final… sem surpresas ou impacto. Quase brochante.

Apesar do roteiro deste filme ser o seu ponto fraco, a direção de Eugenio Mira é ótima. Ele não apenas escolhe os planos certos, valorizando o teatro, o piano, a orquestra e os atores principais, como também joga com diferentes ângulos e com uma dinâmica de câmera precisa. Em diversos momentos ele me fez lembrar o mestre Alfred Hitchcock. Pena que a história de Grand Piano não soube manter a qualidade inicial.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos de vocês vão discordar de mim, mas não posso me eximir de fazer este comentário. Para mim, um dos problemas de Grand Piano é ter um ator apenas regular no papel principal. O melhor da expressividade de Elijah Wood são os seus olhos azuis “saltados”. Além deles, sobra pouco para a interpretação do ator. Talvez a testa franzida em diversos momentos. E só. Mas o papel de Selznick pedia um pouco mais de expressividade do que isso. E como grande parte da trama está centrada nele, temos um problema em cena.

Além de Elijah Wood, ganha um pouco de destaque o trabalho de Kerry Bishé. A atriz, diferente de Wood, encarna muito bem o papel da profissional de sucesso no cinema e que procura ajudar o marido a voltar ao estrelato. Bishé lembra musas do cinema, em especial uma das preferidas de Alfred Hitchcock (algo me diz que não é coincidência): Grace Kelly.

Além de linda, Bishé mostra o estilo de interpretação necessário e justo para Emma. Outra figura que aparece só no final, mas que ajuda a manter certo suspense na produção, é John Cusack como o vilão Clem. Cusack… coitado. Há muito tempo eu não vejo ele convencendo no papel que for. Aqui, novamente, o ator entrega um estereótipo do personagem, em uma interpretação carregada demais.

Entre os coadjuvantes, gostei do trabalho de Don McManus como o maestro – ele encarna não apenas o profissionalismo que aquele posição exige, mas também um bocado de simpatia e de empatia com Selznick. Alex Winter fecha a lista de figuras centrais em uma interpretação condizente com a de “assistente” de vilão. E o competente Allen Leech, mais conhecido como o Tom Branson da série Downton Abbey, acaba sendo eclipsado em um papel bobo e ralo – a exemplo da parceira de cena na maior parte do tempo, Tamsin Egerton.

Agora, uma pequena ponderação sobre o argumento central de Grand Piano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Será mesmo que esperar pelo aguardado concerto que marcou o retorno de Selznick aos palcos seria a melhor oportunidade para Clem conseguir acessar a chave que lhe daria a fortuna do falecido Godureaux? Não teria sido mais fácil sequestrar Selznick e levá-lo até o casarão abandonado onde estava o piano? Certo que fácil não seria, mas acho que o plano que acabo de comentar seria menos suscetível a problemas do que o de fazer isso no teatro cheio. Tentar forçar Selznick após o concerto seria complicado porque o piano tinha os seus seguranças “particulares” – gente ligada ao seguro do instrumento, aparentemente.

Da parte técnica do filme, além da acertada e competente direção de Eugenio Mira, gostei muito da trilha sonora de Víctor Reyes, da já citada excepcional edição de José Luis Romeu, do design de produção de Javier Alvariño e da edição de som da equipe de Francisco Elías Toro Ramírez.

Logo nos créditos iniciais me chamou a atenção que a maior parte dos recursos deste filme veio da Espanha. Interessante ver como esta produção espanhola nasceu com uma pegada internacional. Não apenas pela escolha do local para a história – Chicago – mas, especialmente, pelos nomes envolvidos no elenco. Por trás das câmeras estão muitos nomes espanhóis, inclusive o diretor Mira, natural de Alicante. O roteirista, contudo, é norte-americano e tem apenas 29 anos de idade.

Grand Piano estreou em setembro de 2013 no Austin Fantastic Fest. Depois, o filme participou ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele recebeu dois prêmios e foi indicado a outros nove. Grand Piano faturou os prêmios de Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora conferidos pelo Cinema Writers Circle da Espanha.

Não há quase informação alguma sobre a grana que circula por Grand Piano. Não encontrei informações sobre o custo da produção e, no site Box Office Mojo, consta apenas US$ 9,89 mil de bilheteria nos Estados Unidos – o filme estreou no dia 7 de março por lá. Até o momento, pois, fica impossível saber se o filme está se saindo bem ou não.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Grand Piano teve cenas feitas em Las Palmas de Gran Canaria, localizada na parte nordeste da Gran Canária, na Espanha; em Barcelona e em Chicago.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para Grand Piano. Uma avaliação condizente com o padrão do site, na minha opinião. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% – e uma nota média 6,8. Alguns críticos, como Stephen Holden do New York Times e Robert Abele do Los Angeles Times, destacam o fato de Grand Piano ser um filme B – ou seja, de baixo orçamento e que se caracteriza por exagerar nos tons de forma proposital. Ambos disseram que o filme diverte, apesar de não inovar.

CONCLUSÃO: Música clássica e clima de suspense sempre combinam. Grand Piano sabe explorar isso muito bem ao escolher uma trilha sonora vigorosa e alguns momentos de tensão. O problema é que a premissa inicial, que poderia render um bom curta-metragem, não sustenta um longa – mesmo que ele tenha apenas 1h30min de duração. Após a tensão inicial, o suspense de Grand Piano fica repetitivo e um tanto previsível. Há diversas sequências pouco críveis, e um final que chega a ser brochante. Mas para quem não tinha grandes expectativas para este filme, como era o meu caso, até que a experiência não foi um desastre. Vale como puro passatempo. Mas, como eu disse no início desta crítica, há outros filmes do gênero melhores no mercado.

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5 comentários em “Grand Piano – Toque de Mestre

  1. Faltou um detalhe na produção do filme. Um detalhe: um pianista que não usa os pedais do piano. O tempo todo nas execuções das musicas o ator não foi instruído a usa-los, afinal eles que ajudam a dar expressão ás peças musicais.

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