Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2019 Movie Oscar 2019 Votações no blog

Vice

Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

Categorias
Cinema Cinema espanhol Crítica de filme Filme premiado Movie

Grand Piano – Toque de Mestre

grandpiano3

Toda a dramaticidade de um concerto de música clássica e de uma trama de ameaça de morte. Grand Piano parte de uma boa e interessante premissa, mas tropeça nos detalhes e na interpretação pouco convincente dos protagonistas. O início do filme tem bons momentos, mas isso é tudo. Assista preferencialmente se gostar muito dos atores ou do diretor. Porque há suspenses melhores no mercado.

A HISTÓRIA: Aplausos nos créditos iniciais. Depois, entra o som da orquestra. Nas imagens, detalhes de um piano. Após os créditos iniciais, começa a história com uma equipe de funcionários de uma empresa de mudanças entrando em uma mansão cheia de objetos antigos. O local parece abandonado há algum tempo. Um dos supervisores aponta o local em que está o piano que será transportado e avisa que o grupo de funcionários tem 20 minutos para agir.

Com pressa de sair dali, os homens derrubam uma fotografia. Nela aparecem o pianista Tom Selznick (Elijah Wood) e seu mestre, o magnata da música Patrick Godureaux. Aquele piano, transportado com todo o cuidado, será uma peça fundamental do concerto que marca o retorno de Selznick para os palcos após uma ausência de cinco anos. Mas o espetáculo terá uma dramaticidade que o músico jamais poderia esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Grand Piano): Interessante como uma boa ideia pode render um enredo apenas interessante, mas sem atingir o resultado que se esperava no início. Este é o caso deste Grand Piano.

O filme, que começa devagar, rapidamente abraça o suspense e o drama do protagonista quando o concerto que marca o retorno dele para os palcos ganha corpo. Mas o problema reside na continuidade das ideias iniciais, da provocação que é feita para o espectador que aguarda ansioso o próximo passo do “herói” e do “bandido”.

Antes de falar mais do final, vou retornar um pouco na história de Grand Piano. Uma qualidade fundamental desta produção é misturar a música clássica com o risco eminente de morte. Não há estilo musical criado pela humanidade melhor para representar o risco e a emoção “à flor da pele” do que a música clássica. Ela historicamente sempre embalou os maiores suspenses, dramas e amores, e por isso mesmo a sua escolha foi perfeita para Grand Piano.

Além disso, devo dizer, não deixa de ser corajoso fazer um filme, atualmente, que valorize tanto este estilo de música. Não apenas porque estamos nos habituando a ouvir muito lixo na música, mas principalmente porque 99% das pessoas consideram a música clássica algo ultrapassado, chato, e ignoram que ela não é apenas fundamental para o cinema, mas para a própria música em diferentes gêneros.

A música em Grand Piano não é apenas uma peça fundamental na trama – afinal, o centro das atenções está em um jovem talento da música e no piano histórico que ele está tocando -, mas também a grande condutora do suspense. Apenas na parte inicial do filme isso não ocorre. Nos primeiros 20 minutos da produção, o roteiro de Damien Chazelle nos apresenta não apenas os personagens centrais da produção – exceto os bandidos -, como também explica os interesses e relações que estão em jogo naquele “mise-en-scène”.

Nesta primeira parte da trama, percebemos toda a apreensão e aflição do personagem de Tom Selznick através dos grandes olhos de Elijah Wood. Algo que este ator sabe expressar é, sem dúvida, o medo e a aflição. 🙂 De acordo com o texto de Chazelle, acompanhamos o drama quando ele está prestes do ápice. Depois de vermos ao deslocamento do piano que será um dos astros da noite, assistimos o medo e a insegurança de Selznick quando ele chega em Chicago.

Todo este drama acontece porque o músico, considerado o mais brilhante de sua geração, está há cinco anos sem tocar para o público. Esta ausência se explica porque na última tentativa dele de tocar Selznick travou. Envergonhado, ele desistiu da música até que, no tempo presente do filme, ele retorna para os palcos por insistência da mulher, Emma (Kerry Bishé), considerada uma das melhores e mais bem sucedidas atrizes de sua geração.

O casal é interessante, ainda que pouco crível. Nas raras cenas em que ficam juntos, Tom e Emma não parecem ter a química que deveriam – ou mesmo parece ser muito lógico aquela mulher linda e talentosa dividir a vida com um sujeito tão cheio de inseguranças. Certo que alguém pode argumentar que aquele era apenas um momento complicado para Tom e que ele poderia ser muito mais seguro e atraente fora daquela situação. Verdade. Assim como é verdade que o amor é algo muitas vezes sem lógica. 😉

O drama parece estar posto quando Selznick está prestes a enfrentar o palco. Para alimentar a tensão, no caminho para o espetáculo Selznick não apenas fica sabendo de Emma que não vai encontrar a mulher antes do concerto (o que poderia ter sido um consolo/conforto), como também passa por uma entrevista desastrosa com uma tal Marjorie. Ela entrevista Emma e, em seguida, coloca Tom contra a parede.

É neste momento que ouvimos falar, pela primeira vez, de La Cinquette, uma “obra que não pode ser reproduzida” e que teria ajudado Selznick a travar da última vez. Prestes a subir no palco, Selznick vê que a partitura de La Cinquette faz parte do programa, mas ele a tira dali. O drama está posto, mas ele vai ficar ainda pior quando o protagonista começar a tocar a primeira peça.

Uma nada discreta cor vermelha se destaca em meio às partituras, e nesta primeira sequência de fatos temos o melhor do filme. Cada nova instrução escrita no papel é acompanhada de uma ação importante de Selznick e da expectativa de desastre – que se resume a ele travar e/ou desistir do concerto – por parte de Emma e do restante do público.

A música clássica tocada pela orquestra do maestro Norman Reisinger (Don McManus) e pelo piano de Selznick e a competente edição de José Luis Romeu dão o tom do suspense. Pela primeira vez Selznick esboça não apenas a sua insegurança, mas também uma certa determinação em entender o que está acontecendo e buscar sobreviver – além de salvar Emma.

A ameaça é real, e o músico percebe isso quando tem a luz vermelha de uma arma de longo alcance apontada para ele. Agora, um detalhe, entre muitos outros, que torna a história pouco crível: em certo momento esta luz vermelha chega a deslizar pela partitura que está à frente de Selznick. O atirador está em um camarote no ponto alto do teatro, do lado oposto ao do músico. Impossível aquela luz do alvo deslizar pelo papel que estava posicionado em posição perpendicular.

Essa primeira parte, de ameça “muda”, sem dúvida é a melhor do filme. Porque na sequência Selznick vai até o camarim – um ato muito “excêntrico” para um músico que tinha apenas acabado o primeiro ato do espetáculo – e daí as ameaças passam a ser verbais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, elas funcionam. Mas depois começam a ficar muito repetitivas. Afinal, o vilão resume grande parte de suas ameaças a “vou estourar os miolos de Emma”. Chazelle deveria saber que repetição no cinema sem novos temperos nunca funciona – especialmente em um suspense, quando se espera que novos fatos sempre alimentem a tensão.

O problema nesta segunda fase do suspense de Grand Piano é que nem sempre a troca de diálogos é interessante. Além de repetitiva, em muitos momentos, parece que falta um pouco de inspiração para Chazelle – diferente da música, que é ótima do início ao fim. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o problema no roteiro começa mesmo quando Selznick tira o celular do bolso e começa a interagir com o amigo Wayne (Allen Leech). Se até então o vilão da história estava atento a cada mínimo movimento de tom, de verdade mesmo que o roteirista achou que iríamos engolir que ele não notaria aqueles movimentos estranhos do músico mexendo no celular?

Os personagens de Wayne e Ashley (Tamsin Egerton), aliás, são os piores da trama. Não apenas não entendemos muito bem a relação deles com o casal Selznick – seriam amigos? parentes? – como também não fica clara a função deles para a trama. Quer dizer, em certo momento isso fica claro… eles estão ali para morrer de maneira fácil, sem grande suspense. Eis mais um problema no roteiro.

Depois, a razão de toda aquela tensão é explicada. E aí surge outro elemento para encorpar o suspense: Selznick deve tirar de “ouvido” a dificílima La Cinquette. A razão? A partitura que o vilão colocou para Selznick foi destruída e ninguém tinha uma segunda cópia por ali (quanta distração deste bandido!).

Depois de relembrar La Cinquette, Selznick volta para o piano e, finalmente, fica sabendo porque deve tocar esta obra. O mistério está desvendado. E daí para o final, o filme apenas abaixa a tensão e o suspense. Perde fôlego nos 18 minutos finais. É muito tempo para isso acontecer. E o final… sem surpresas ou impacto. Quase brochante.

Apesar do roteiro deste filme ser o seu ponto fraco, a direção de Eugenio Mira é ótima. Ele não apenas escolhe os planos certos, valorizando o teatro, o piano, a orquestra e os atores principais, como também joga com diferentes ângulos e com uma dinâmica de câmera precisa. Em diversos momentos ele me fez lembrar o mestre Alfred Hitchcock. Pena que a história de Grand Piano não soube manter a qualidade inicial.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos de vocês vão discordar de mim, mas não posso me eximir de fazer este comentário. Para mim, um dos problemas de Grand Piano é ter um ator apenas regular no papel principal. O melhor da expressividade de Elijah Wood são os seus olhos azuis “saltados”. Além deles, sobra pouco para a interpretação do ator. Talvez a testa franzida em diversos momentos. E só. Mas o papel de Selznick pedia um pouco mais de expressividade do que isso. E como grande parte da trama está centrada nele, temos um problema em cena.

Além de Elijah Wood, ganha um pouco de destaque o trabalho de Kerry Bishé. A atriz, diferente de Wood, encarna muito bem o papel da profissional de sucesso no cinema e que procura ajudar o marido a voltar ao estrelato. Bishé lembra musas do cinema, em especial uma das preferidas de Alfred Hitchcock (algo me diz que não é coincidência): Grace Kelly.

Além de linda, Bishé mostra o estilo de interpretação necessário e justo para Emma. Outra figura que aparece só no final, mas que ajuda a manter certo suspense na produção, é John Cusack como o vilão Clem. Cusack… coitado. Há muito tempo eu não vejo ele convencendo no papel que for. Aqui, novamente, o ator entrega um estereótipo do personagem, em uma interpretação carregada demais.

Entre os coadjuvantes, gostei do trabalho de Don McManus como o maestro – ele encarna não apenas o profissionalismo que aquele posição exige, mas também um bocado de simpatia e de empatia com Selznick. Alex Winter fecha a lista de figuras centrais em uma interpretação condizente com a de “assistente” de vilão. E o competente Allen Leech, mais conhecido como o Tom Branson da série Downton Abbey, acaba sendo eclipsado em um papel bobo e ralo – a exemplo da parceira de cena na maior parte do tempo, Tamsin Egerton.

Agora, uma pequena ponderação sobre o argumento central de Grand Piano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Será mesmo que esperar pelo aguardado concerto que marcou o retorno de Selznick aos palcos seria a melhor oportunidade para Clem conseguir acessar a chave que lhe daria a fortuna do falecido Godureaux? Não teria sido mais fácil sequestrar Selznick e levá-lo até o casarão abandonado onde estava o piano? Certo que fácil não seria, mas acho que o plano que acabo de comentar seria menos suscetível a problemas do que o de fazer isso no teatro cheio. Tentar forçar Selznick após o concerto seria complicado porque o piano tinha os seus seguranças “particulares” – gente ligada ao seguro do instrumento, aparentemente.

Da parte técnica do filme, além da acertada e competente direção de Eugenio Mira, gostei muito da trilha sonora de Víctor Reyes, da já citada excepcional edição de José Luis Romeu, do design de produção de Javier Alvariño e da edição de som da equipe de Francisco Elías Toro Ramírez.

Logo nos créditos iniciais me chamou a atenção que a maior parte dos recursos deste filme veio da Espanha. Interessante ver como esta produção espanhola nasceu com uma pegada internacional. Não apenas pela escolha do local para a história – Chicago – mas, especialmente, pelos nomes envolvidos no elenco. Por trás das câmeras estão muitos nomes espanhóis, inclusive o diretor Mira, natural de Alicante. O roteirista, contudo, é norte-americano e tem apenas 29 anos de idade.

Grand Piano estreou em setembro de 2013 no Austin Fantastic Fest. Depois, o filme participou ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele recebeu dois prêmios e foi indicado a outros nove. Grand Piano faturou os prêmios de Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora conferidos pelo Cinema Writers Circle da Espanha.

Não há quase informação alguma sobre a grana que circula por Grand Piano. Não encontrei informações sobre o custo da produção e, no site Box Office Mojo, consta apenas US$ 9,89 mil de bilheteria nos Estados Unidos – o filme estreou no dia 7 de março por lá. Até o momento, pois, fica impossível saber se o filme está se saindo bem ou não.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Grand Piano teve cenas feitas em Las Palmas de Gran Canaria, localizada na parte nordeste da Gran Canária, na Espanha; em Barcelona e em Chicago.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para Grand Piano. Uma avaliação condizente com o padrão do site, na minha opinião. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% – e uma nota média 6,8. Alguns críticos, como Stephen Holden do New York Times e Robert Abele do Los Angeles Times, destacam o fato de Grand Piano ser um filme B – ou seja, de baixo orçamento e que se caracteriza por exagerar nos tons de forma proposital. Ambos disseram que o filme diverte, apesar de não inovar.

CONCLUSÃO: Música clássica e clima de suspense sempre combinam. Grand Piano sabe explorar isso muito bem ao escolher uma trilha sonora vigorosa e alguns momentos de tensão. O problema é que a premissa inicial, que poderia render um bom curta-metragem, não sustenta um longa – mesmo que ele tenha apenas 1h30min de duração. Após a tensão inicial, o suspense de Grand Piano fica repetitivo e um tanto previsível. Há diversas sequências pouco críveis, e um final que chega a ser brochante. Mas para quem não tinha grandes expectativas para este filme, como era o meu caso, até que a experiência não foi um desastre. Vale como puro passatempo. Mas, como eu disse no início desta crítica, há outros filmes do gênero melhores no mercado.