Split – Fragmentado


Um suspense psicológico com requintes de terror e algumas ideias bastante interessantes. M. Night Shyamalan apresenta em Split um de seus bons trabalhos. Com algumas inevitáveis homenagens a filmes do gênero, mas cuidando também em inovar, esta produção é recomendada para quem gosta de um bom suspense psicológico. James McAvoy dá um show de interpretação e, sem dúvida, é um dos pontos fortes do filme, assim como aquelas ideias interessantes que comentei inicialmente. Está no grupo de filmes de qualidade do diretor.

A HISTÓRIA: Em um aniversário, enquanto o grupo de adolescentes festeja, uma garota está deslocada, parecendo que está em seu próprio mundo. No final da festa, a aniversariante Claire Benoit (Haley Lu Richardson) explica para o pai (Neal Huff) que ela teve que convidar a todos, inclusive a “esquisitona” e geralmente deslocada Casey Cooke (Anya Taylor-Joy). O pai de Claire, a aniversariante e uma de suas melhores amigas, Marcia (Jessica Sula), estão esperando para ver se alguém busca Casey. Como a garota não consegue “o socorro” dela, o pai de Claire oferece uma carona. No estacionamento as garotas entram no carro enquanto o pai de Claire coloca os presentes no porta-malas. Neste momento ele é acertado por um homem que entra no carro e rapta as três garotas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Split): Eu não gosto de assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los, mas como nem sempre a gente escolhe o que ver antes de um filme no cinema, assisti a contragosto o trailer de Split. Então eu já sabia qual era a “levada” do filme antes de assisti-lo. Sabia das múltiplas identidades e do sequestro das meninas pela figura interpretada pelo sempre competente James McAvoy.

Então sim, eu já sabia de alguns dos principais fatos desta produção antes de assisti-la. E isso não foi tão ruim ao ponto de acabar com todas as surpresas da produção ou torná-la menos interessante. M. Night Shyamalan volta a mostrar uma boa forma em Split, um filme bem conduzido, com inteligência e com algumas ideias bem interessantes, como comentei no início desta produção.

A primeira ideia interessante (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) é que diferentes personalidades que uma pessoa pode ter podem apresentar aspectos físicos diferentes. Este não é o primeiro filme e provavelmente não será o último a tratar de múltiplas personalidades que uma pessoa pode ter. Mas é o primeiro que explora tão bem esta questão de que uma pessoa que tem múltiplas personalidades pode ter não apenas comportamentos muito diferentes entre uma personalidade e outra, mas também desempenho e características físicas distintas.

Tanto o roteiro de Shyamalan quanto a interpretação de McAvoy exploram muito bem as características diferentes de uma parte das 23 personalidades diferentes que Kevin Wendell Crumb abriga em seu interior. O ator está muito bem e convence em cada personagem que ele “interpreta”. Alguns podem ficar indignados com a forma com que as vítimas lidam com o sequestrador. Mas até neste ponto Shyamalan acerta na escolha. Para rivalizar com Crumb, temos a interessante personagem da adolescente “problemática” Casey Cooke.

A atriz Anya Taylor-Joy, aliás, é a boa surpresa deste filme. Já esperávamos um bom trabalho de McAvoy, mas Anya acaba se destacando na produção. Ela tem o olhar profundo e o medo atento de quem já passou por maus bocados. De forma inteligente, Shyamalan intercala o presente angustiante da adolescente e de suas duas colegas com um flashback fragmentado que conta a história da presa de Crumb que pode, no momento certo, rivalizar com ele.

Enquanto as colegas de confinamento dela estão aflitas para buscar uma saída para aquela situação de confinamento, Casey relembra dos ensinamentos do pai (Sebastian Arcelus) quando eles saíam para caçar. Um elemento fundamental de qualquer caçada é compreender o entorno, ter paciência e acompanhar o desenvolvimento da caça antes de partir para o ataque. Sim, ela é vítima da situação criada por Crumb, mas está também atenta para qualquer oportunidade para virar o jogo.

Algo que alguns pode achar irritante, ou pouco crível, mas que eu achei perfeito, foi a forma com que Shyamalan apresenta e desenvolve a personagem de Casey. Afinal, ela é tão importante quanto Crumb para o desenvolvimento da trama. Verdade que logo nos primeiros minutos do filme, como imagino que qualquer outra pessoa da plateia no cinema ficou pensando, eu me perguntei porque a atenta Casey não teve uma reação mais dinâmica quando ela e as colegas foram sequestradas.

Ela poderia ter aberto logo a porta do carro e ter saído correndo, pedindo ajuda, quando Crumb entrou no automóvel. Mas aí, e vamos entender isso só depois, duas questões entram em jogo. A primeira é que precisamos esquecer a nossa desconfiança e a atenção extrema que todo brasileiro, cercado de violência e de risco de assaltos, tem, e tentar lembrar que em outras culturas esta não é a “normalidade” deles. Sim, já vivi e visitei outros países e ficou claro para mim que nestas sociedades eles não vivem sempre “alerta” e atentos para o pior como nós ficamos no Brasil.

Nestas sociedades, e acredito que os Estados Unidos sejam assim – ao menos parte do país, em alguns círculos, bairros, etc. -, as pessoas caminham tranquilas e vivem desatentas. Elas não esperam o pior dos outros praticamente o tempo inteiro. Nestes cenários, a primeira reação é a que vemos no início de Split: as pessoas ficam um tanto atordoadas, um tanto surpresas, e esperam mesmo que a outra pessoa esteja apenas enganada e que não seja um criminoso.

A segunda questão sobre aquele começo, e vamos entender isso só depois, conforme Shyamalan nos apresenta a história de Casey, é que a garota sabe que reagir pode ser pior. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, vocês já sabem). Violentada pelo tio desde que tinha cinco anos de idade, Casey se acostumou a dissimular e esconder o que sentia para sobreviver – fica claro que o tio dela (interpretado por Brad William Henke) vivia ameaçando a menina e, depois, adolescente, sobre o que poderia acontecer com ela se ela desse com as línguas nos dentes.

Unindo a experiência que teve com o pai, que lhe ensinou os princípios de uma boa caçada, e as lições ruins que aprendeu com o tio, Casey sabia que precisava encontrar o momento adequado para tentar reverter a sua situação. De forma inteligente, ela primeiro começa a entender aquela figura estranha que chega a cada momento com uma personalidade diferente no cárcere dela e das amigas. Depois, explora a ponta fraca entre as personalidades, que é o garoto Hedwig.

A outra ideia interessante do filme é aquela que norteia todas as ações de Dennis, Patricia e The Beast. Os três estão unidos no conceito de que os “impuros” devem sofrer e serem “libertados” de sua condição mortal para “evoluir”. Como acontece com muitas pessoas que tem distúrbios mentais pesados, as ideias de parte das personalidades de Kevin são bastante equivocadas e deturpadas.

O interessante de Split é que o filme nos apresenta um protagonista que tem algumas de suas identidades fascinadas pelas pessoas “puras” – Hitler e outros algozes também foram fascinados por este conceito. O curioso é que os “puros” são, na visão de The Beast e dos demais, os rejeitados, os problemáticos, aqueles que sofreram e/ou sofrem na vida e que são desprezados pela ideia de perfeição da sociedade. Os “impuros” são justamente os “perfeitos” segundo o olhar da sociedade. Meninas lindas e populares como Claire e Marcia. Os que não sofreram, que são vistos como modelos.

Em outras palavras, algumas da personalidades de Kevin estão lutando contra os padrões estabelecidos pela sociedade. Querem castigar e se “vingar” deste idealismo de pessoas consideradas modelos, belas e bem sucedidas, até como forma de “dar o troco” para esta mesma sociedade que excluiu o estranho Kevin e os demais. Afinal, exceto pela Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), que procura entender Kevin e as suas 23 personalidades, os demais não acreditam nele ou o consideram “bizarro”.

O que as personalidades de Kevin querem fazer é mostrar que elas tem “poder” e que podem fazer o que bem entenderem, independente do que a sociedade acha correto ou não. Essa ideia distorcida de parte das personalidades de Kevin é bastante interessante porque explora algo que a maioria dos suspenses psicológicos não exploram, que é justamente esta distorção maluca que algumas mentes doentes têm da realidade e de como elas podem resolver os seus próprios problemas ou se “vingar” da sociedade fazendo outros pagarem o pato. Muitos e muitos casos de gente doente e que se voltam contra a sociedade através de inocentes estão aí para nos mostrar que esta ideia de Split tem um grande fundo de realidade.

Mas independente da sina “vingadora” das personalidades de Kevin que querem fazer outros pagarem por suas próprias frustrações e limitações, é uma ideia interessante esta de que “os desgraçados” e as pessoas que sofrem seriam as mais evoluídas. Claro que ninguém foi feito para sofrer e que todos deveriam ter o direito de serem feliz a maior parte do tempo possível mas, de fato, aprendemos muito com as dificuldades e com o sofrimento. Provavelmente evoluímos mais com elas também. Nesta parte, Split tem uma reflexão interessante.

Só não dá para dizer que tudo é perfeito neste filme. Ao mesmo tempo que eu entendo aquele começo “estranho” com falta de reação das garotas no carro e que compreendo a escolha de Casey em primeiro entender o que está acontecendo e sobre o algoz das garotas antes de reagir, há outros momentos da produção difíceis de engolir. Por exemplo, por que a Dra. Karen Fletcher não utilizou aquela “mágica” de falar o nome de Kevin inteiro antes? Ela poderia ter evitado qualquer morte, inclusive a própria, tendo falado o nome dele. Mas não, preferiu escrever sobre isso em um papel.

Ok, para a trama de Shyamalan essa escolha é compreensível, afinal, deixa para a “heroína” Casey a parte decisiva do filme. Mas para a nossa lógica fica complicado engolir aquela história. Também parece um tanto exagerada a forma de ataque de The Beast, não? Ok, ele é uma “mistura” dos animais que circulam Kevin no zoológico e tudo o mais. Como um felino, ele ataca justamente o dorso das vítimas.

Ainda assim, um pouco difícil de acreditar que ele realmente devoraria as partes vitais de alguém com certa agilidade, não é? Por mais que o corpo dele “se modifique” e ganhe uma força sobre-humana e todo aquele blá-blá-blá do roteiro de Shyamalan, os dentes dele não crescem, não é mesmo? Então ele não passa a ter as presas de um felino para fazer todo aquele estrago tão rapidamente.

Uma exagerada do roteirista sem necessidade. O vilão poderia apenas matar as pessoas e tal, mas aquela “devorada” é difícil de engolir. Finalmente, bem difícil de engolir também aquela característica meio “Wolverine” do final. Ok que The Beast resistisse a alguns tiros mal dados, mas aí quando o “personagem” perdesse o lugar na luz de Kevin, que parece que é o que acontece no final, certamente Dennis, Patricia ou a outra personalidade que assumisse o holofote sentiria o baque. Não é isso o que acontece.

Esses detalhes incomodam um pouco. Também fiquei me perguntando para que apresentar Kevin como um sujeito com 23 personalidades distintas quando apenas sete, além do próprio Kevin, aparecem em cena? Isso seria sem sentido e forçado caso Split não terminasse como terminou. A produção abre um flanco descarado para uma continuação, inclusive com uma possível presença maior do personagem de Bruce Willis que aparece bem no finalzinho. Não sei se Shyamalan faria uma continuação, mas ela seria interessante e poderia render um ou mais de um filmes interessantes.

Anya Taylor-Joy e a sua Casey Cooke tem potencial para se tornar uma “heroína” de filmes de terror como Jamie Lee Curtis fez antes com a sua Laurie da série Halloween. Guardadas as devidas proporções, é claro. Não acho que Shyamalan encara uma série de filmes como Halloween, mas ele poderia fazer perfeitamente mais um ou dois filmes que desenvolvessem melhor tanto Kevin e as suas personalidades quanto Casey Cooke. A conferir. Se fizer alguma continuação, aí faria sentido Kevin ter tantas personalidades e algumas delas aparecerem no próximo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: M. Night Shyamalan é capaz de fazer grandes filmes e também de fazer bombas. Para mim, Split está na lista de bons filmes feitos por ele. Não há dúvidas que ele entende bem do ofício de diretor. Soube conduzir muito bem os atores e as situações desta produção. Como roteiro, Split não é o seu melhor e nem o seu pior filme. Ele trabalha alguns conceitos já trabalhados antes com algumas pitadas de originalidade. Mais acerta do que erra. Mas ainda tem espaço para melhorar.

De forma bastante honesta, Shyamalan faz em Split uma homenagem escancarada para Alfred Hitchcock, o grande entre os grandes do suspense. Não apenas pelas sequências da escadaria em caracol mas também por se incluir no próprio filme – como Hitchcock tanto gostava de fazer -, Shyamalan escancara a sua admiração pelo diretor inglês. Impossível, cá entre nós, não fazer isso. Hitchcock era e é um grande mestre, referência inevitável do gênero.

James McAvoy e Anya Taylor-Joy são os nomes fortes desta produção. Dão um show de interpretação. Além deles, vale bater palma para Betty Buckley como a Dra. Karen Fletcher. Outros nomes estão bem, mas nada excepcional. Haley Lu Richardson e Jessica Sula estão bem, convencem, mas acabam “desaparecendo” lá pelas tantas na história. Daí nem tinha como elas se destacarem muito mesmo. Os outros personagens são bem secundários, com certo destaque para Sebastian Arcelus como pai de Casey e para Izzie Coffey como a garota quando ela tinha cinco anos.

Da parte técnica do filme, destaco da trilha sonora de West Dylan Thordson, a direção de fotografia de Mike Gioulakis e a edição de Luke Franco Ciarrocchi. Vale citar também o design de produção de Mara LePere-Schloop; a direção de arte de Jesse Rosenthal; a decoração de set de Jennifer Engel e Dennis Madigan; os figurinos de Paco Delgado; e o departamento de maquiagem de Diane Dixon, Pamela Peitzman e Zachary Ripps.

Split teria custado US$ 9 milhões. Orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Shyamalan mostrando, mais uma vez, como é possível fazer um bom filme em Hollywood com orçamento baixo, sim senhores! A produção faturou, apenas nos Estados Unidos, US$ 137,2 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 128 milhões. Ou seja, no total, já bateu os US$ 265,2 milhões. Um baita sucesso e um lucro que garante para Shyamalan liberdade para as suas próximas empreitadas.

Segundo as notas da produção, o personagem de Kevin foi inspirado em Billy Milligan, um sujeito que foi diagnosticado com o transtorno dissociativo de personalidade com nada menos que 24 personalidades diferentes. Essa condição dele foi utilizada em sua defesa para defendê-lo dos crimes que ele praticou e que Milligan disse que não tinha praticado – alegando que tinham sido algumas de suas personalidades.

Split ganhou quatro indicações a prêmios: Melhor Thriller e Melhor Atriz Coadjuvante para Betty Buckley pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos Estados Unidos; Melhor Atriz Jovem Inglesa/Irlandesa para Anya Taylor-Joy no London Critics Circle Film Awards; e Melhor Filme no Rondo Hatton Classic Horror Awards.

Para quem acha o tema de múltiplas personalidades interessantes, vale dar uma olhada neste texto e neste outro texto sobre o assunto.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo esta crítica entra para a lista daquelas que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 164 críticas positivas e 54 negativas para Split, o que garante para o filme uma aprovação de 75% e uma nota média 6,4.

CONCLUSÃO: Um filme bem construído, com personagens interessantes, ainda que apenas parte deles seja realmente explorado. Split desenvolve uma história de suspense focada em um protagonista com múltiplas personalidades que está em uma fase muito instável. O perigo crescente e essa ideia de “bomba-relógio” mantém a tensão da produção que tem um desfecho interessante, ainda que com alguns pequenos poréns. Mas, no conjunto da obra, é um filme envolvente e interessante, que prende a atenção e que tem um baile de interpretação de James McAvoy. Os outros atores também se saem muito bem, o que torna esta produção bem acabada. Vale o ingresso se suspense com retoques de terror é do seu gosto.

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3 comentários em “Split – Fragmentado

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