Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Split – Fragmentado

Um suspense psicológico com requintes de terror e algumas ideias bastante interessantes. M. Night Shyamalan apresenta em Split um de seus bons trabalhos. Com algumas inevitáveis homenagens a filmes do gênero, mas cuidando também em inovar, esta produção é recomendada para quem gosta de um bom suspense psicológico. James McAvoy dá um show de interpretação e, sem dúvida, é um dos pontos fortes do filme, assim como aquelas ideias interessantes que comentei inicialmente. Está no grupo de filmes de qualidade do diretor.

A HISTÓRIA: Em um aniversário, enquanto o grupo de adolescentes festeja, uma garota está deslocada, parecendo que está em seu próprio mundo. No final da festa, a aniversariante Claire Benoit (Haley Lu Richardson) explica para o pai (Neal Huff) que ela teve que convidar a todos, inclusive a “esquisitona” e geralmente deslocada Casey Cooke (Anya Taylor-Joy). O pai de Claire, a aniversariante e uma de suas melhores amigas, Marcia (Jessica Sula), estão esperando para ver se alguém busca Casey. Como a garota não consegue “o socorro” dela, o pai de Claire oferece uma carona. No estacionamento as garotas entram no carro enquanto o pai de Claire coloca os presentes no porta-malas. Neste momento ele é acertado por um homem que entra no carro e rapta as três garotas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Split): Eu não gosto de assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los, mas como nem sempre a gente escolhe o que ver antes de um filme no cinema, assisti a contragosto o trailer de Split. Então eu já sabia qual era a “levada” do filme antes de assisti-lo. Sabia das múltiplas identidades e do sequestro das meninas pela figura interpretada pelo sempre competente James McAvoy.

Então sim, eu já sabia de alguns dos principais fatos desta produção antes de assisti-la. E isso não foi tão ruim ao ponto de acabar com todas as surpresas da produção ou torná-la menos interessante. M. Night Shyamalan volta a mostrar uma boa forma em Split, um filme bem conduzido, com inteligência e com algumas ideias bem interessantes, como comentei no início desta produção.

A primeira ideia interessante (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) é que diferentes personalidades que uma pessoa pode ter podem apresentar aspectos físicos diferentes. Este não é o primeiro filme e provavelmente não será o último a tratar de múltiplas personalidades que uma pessoa pode ter. Mas é o primeiro que explora tão bem esta questão de que uma pessoa que tem múltiplas personalidades pode ter não apenas comportamentos muito diferentes entre uma personalidade e outra, mas também desempenho e características físicas distintas.

Tanto o roteiro de Shyamalan quanto a interpretação de McAvoy exploram muito bem as características diferentes de uma parte das 23 personalidades diferentes que Kevin Wendell Crumb abriga em seu interior. O ator está muito bem e convence em cada personagem que ele “interpreta”. Alguns podem ficar indignados com a forma com que as vítimas lidam com o sequestrador. Mas até neste ponto Shyamalan acerta na escolha. Para rivalizar com Crumb, temos a interessante personagem da adolescente “problemática” Casey Cooke.

A atriz Anya Taylor-Joy, aliás, é a boa surpresa deste filme. Já esperávamos um bom trabalho de McAvoy, mas Anya acaba se destacando na produção. Ela tem o olhar profundo e o medo atento de quem já passou por maus bocados. De forma inteligente, Shyamalan intercala o presente angustiante da adolescente e de suas duas colegas com um flashback fragmentado que conta a história da presa de Crumb que pode, no momento certo, rivalizar com ele.

Enquanto as colegas de confinamento dela estão aflitas para buscar uma saída para aquela situação de confinamento, Casey relembra dos ensinamentos do pai (Sebastian Arcelus) quando eles saíam para caçar. Um elemento fundamental de qualquer caçada é compreender o entorno, ter paciência e acompanhar o desenvolvimento da caça antes de partir para o ataque. Sim, ela é vítima da situação criada por Crumb, mas está também atenta para qualquer oportunidade para virar o jogo.

Algo que alguns pode achar irritante, ou pouco crível, mas que eu achei perfeito, foi a forma com que Shyamalan apresenta e desenvolve a personagem de Casey. Afinal, ela é tão importante quanto Crumb para o desenvolvimento da trama. Verdade que logo nos primeiros minutos do filme, como imagino que qualquer outra pessoa da plateia no cinema ficou pensando, eu me perguntei porque a atenta Casey não teve uma reação mais dinâmica quando ela e as colegas foram sequestradas.

Ela poderia ter aberto logo a porta do carro e ter saído correndo, pedindo ajuda, quando Crumb entrou no automóvel. Mas aí, e vamos entender isso só depois, duas questões entram em jogo. A primeira é que precisamos esquecer a nossa desconfiança e a atenção extrema que todo brasileiro, cercado de violência e de risco de assaltos, tem, e tentar lembrar que em outras culturas esta não é a “normalidade” deles. Sim, já vivi e visitei outros países e ficou claro para mim que nestas sociedades eles não vivem sempre “alerta” e atentos para o pior como nós ficamos no Brasil.

Nestas sociedades, e acredito que os Estados Unidos sejam assim – ao menos parte do país, em alguns círculos, bairros, etc. -, as pessoas caminham tranquilas e vivem desatentas. Elas não esperam o pior dos outros praticamente o tempo inteiro. Nestes cenários, a primeira reação é a que vemos no início de Split: as pessoas ficam um tanto atordoadas, um tanto surpresas, e esperam mesmo que a outra pessoa esteja apenas enganada e que não seja um criminoso.

A segunda questão sobre aquele começo, e vamos entender isso só depois, conforme Shyamalan nos apresenta a história de Casey, é que a garota sabe que reagir pode ser pior. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, vocês já sabem). Violentada pelo tio desde que tinha cinco anos de idade, Casey se acostumou a dissimular e esconder o que sentia para sobreviver – fica claro que o tio dela (interpretado por Brad William Henke) vivia ameaçando a menina e, depois, adolescente, sobre o que poderia acontecer com ela se ela desse com as línguas nos dentes.

Unindo a experiência que teve com o pai, que lhe ensinou os princípios de uma boa caçada, e as lições ruins que aprendeu com o tio, Casey sabia que precisava encontrar o momento adequado para tentar reverter a sua situação. De forma inteligente, ela primeiro começa a entender aquela figura estranha que chega a cada momento com uma personalidade diferente no cárcere dela e das amigas. Depois, explora a ponta fraca entre as personalidades, que é o garoto Hedwig.

A outra ideia interessante do filme é aquela que norteia todas as ações de Dennis, Patricia e The Beast. Os três estão unidos no conceito de que os “impuros” devem sofrer e serem “libertados” de sua condição mortal para “evoluir”. Como acontece com muitas pessoas que tem distúrbios mentais pesados, as ideias de parte das personalidades de Kevin são bastante equivocadas e deturpadas.

O interessante de Split é que o filme nos apresenta um protagonista que tem algumas de suas identidades fascinadas pelas pessoas “puras” – Hitler e outros algozes também foram fascinados por este conceito. O curioso é que os “puros” são, na visão de The Beast e dos demais, os rejeitados, os problemáticos, aqueles que sofreram e/ou sofrem na vida e que são desprezados pela ideia de perfeição da sociedade. Os “impuros” são justamente os “perfeitos” segundo o olhar da sociedade. Meninas lindas e populares como Claire e Marcia. Os que não sofreram, que são vistos como modelos.

Em outras palavras, algumas da personalidades de Kevin estão lutando contra os padrões estabelecidos pela sociedade. Querem castigar e se “vingar” deste idealismo de pessoas consideradas modelos, belas e bem sucedidas, até como forma de “dar o troco” para esta mesma sociedade que excluiu o estranho Kevin e os demais. Afinal, exceto pela Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), que procura entender Kevin e as suas 23 personalidades, os demais não acreditam nele ou o consideram “bizarro”.

O que as personalidades de Kevin querem fazer é mostrar que elas tem “poder” e que podem fazer o que bem entenderem, independente do que a sociedade acha correto ou não. Essa ideia distorcida de parte das personalidades de Kevin é bastante interessante porque explora algo que a maioria dos suspenses psicológicos não exploram, que é justamente esta distorção maluca que algumas mentes doentes têm da realidade e de como elas podem resolver os seus próprios problemas ou se “vingar” da sociedade fazendo outros pagarem o pato. Muitos e muitos casos de gente doente e que se voltam contra a sociedade através de inocentes estão aí para nos mostrar que esta ideia de Split tem um grande fundo de realidade.

Mas independente da sina “vingadora” das personalidades de Kevin que querem fazer outros pagarem por suas próprias frustrações e limitações, é uma ideia interessante esta de que “os desgraçados” e as pessoas que sofrem seriam as mais evoluídas. Claro que ninguém foi feito para sofrer e que todos deveriam ter o direito de serem feliz a maior parte do tempo possível mas, de fato, aprendemos muito com as dificuldades e com o sofrimento. Provavelmente evoluímos mais com elas também. Nesta parte, Split tem uma reflexão interessante.

Só não dá para dizer que tudo é perfeito neste filme. Ao mesmo tempo que eu entendo aquele começo “estranho” com falta de reação das garotas no carro e que compreendo a escolha de Casey em primeiro entender o que está acontecendo e sobre o algoz das garotas antes de reagir, há outros momentos da produção difíceis de engolir. Por exemplo, por que a Dra. Karen Fletcher não utilizou aquela “mágica” de falar o nome de Kevin inteiro antes? Ela poderia ter evitado qualquer morte, inclusive a própria, tendo falado o nome dele. Mas não, preferiu escrever sobre isso em um papel.

Ok, para a trama de Shyamalan essa escolha é compreensível, afinal, deixa para a “heroína” Casey a parte decisiva do filme. Mas para a nossa lógica fica complicado engolir aquela história. Também parece um tanto exagerada a forma de ataque de The Beast, não? Ok, ele é uma “mistura” dos animais que circulam Kevin no zoológico e tudo o mais. Como um felino, ele ataca justamente o dorso das vítimas.

Ainda assim, um pouco difícil de acreditar que ele realmente devoraria as partes vitais de alguém com certa agilidade, não é? Por mais que o corpo dele “se modifique” e ganhe uma força sobre-humana e todo aquele blá-blá-blá do roteiro de Shyamalan, os dentes dele não crescem, não é mesmo? Então ele não passa a ter as presas de um felino para fazer todo aquele estrago tão rapidamente.

Uma exagerada do roteirista sem necessidade. O vilão poderia apenas matar as pessoas e tal, mas aquela “devorada” é difícil de engolir. Finalmente, bem difícil de engolir também aquela característica meio “Wolverine” do final. Ok que The Beast resistisse a alguns tiros mal dados, mas aí quando o “personagem” perdesse o lugar na luz de Kevin, que parece que é o que acontece no final, certamente Dennis, Patricia ou a outra personalidade que assumisse o holofote sentiria o baque. Não é isso o que acontece.

Esses detalhes incomodam um pouco. Também fiquei me perguntando para que apresentar Kevin como um sujeito com 23 personalidades distintas quando apenas sete, além do próprio Kevin, aparecem em cena? Isso seria sem sentido e forçado caso Split não terminasse como terminou. A produção abre um flanco descarado para uma continuação, inclusive com uma possível presença maior do personagem de Bruce Willis que aparece bem no finalzinho. Não sei se Shyamalan faria uma continuação, mas ela seria interessante e poderia render um ou mais de um filmes interessantes.

Anya Taylor-Joy e a sua Casey Cooke tem potencial para se tornar uma “heroína” de filmes de terror como Jamie Lee Curtis fez antes com a sua Laurie da série Halloween. Guardadas as devidas proporções, é claro. Não acho que Shyamalan encara uma série de filmes como Halloween, mas ele poderia fazer perfeitamente mais um ou dois filmes que desenvolvessem melhor tanto Kevin e as suas personalidades quanto Casey Cooke. A conferir. Se fizer alguma continuação, aí faria sentido Kevin ter tantas personalidades e algumas delas aparecerem no próximo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: M. Night Shyamalan é capaz de fazer grandes filmes e também de fazer bombas. Para mim, Split está na lista de bons filmes feitos por ele. Não há dúvidas que ele entende bem do ofício de diretor. Soube conduzir muito bem os atores e as situações desta produção. Como roteiro, Split não é o seu melhor e nem o seu pior filme. Ele trabalha alguns conceitos já trabalhados antes com algumas pitadas de originalidade. Mais acerta do que erra. Mas ainda tem espaço para melhorar.

De forma bastante honesta, Shyamalan faz em Split uma homenagem escancarada para Alfred Hitchcock, o grande entre os grandes do suspense. Não apenas pelas sequências da escadaria em caracol mas também por se incluir no próprio filme – como Hitchcock tanto gostava de fazer -, Shyamalan escancara a sua admiração pelo diretor inglês. Impossível, cá entre nós, não fazer isso. Hitchcock era e é um grande mestre, referência inevitável do gênero.

James McAvoy e Anya Taylor-Joy são os nomes fortes desta produção. Dão um show de interpretação. Além deles, vale bater palma para Betty Buckley como a Dra. Karen Fletcher. Outros nomes estão bem, mas nada excepcional. Haley Lu Richardson e Jessica Sula estão bem, convencem, mas acabam “desaparecendo” lá pelas tantas na história. Daí nem tinha como elas se destacarem muito mesmo. Os outros personagens são bem secundários, com certo destaque para Sebastian Arcelus como pai de Casey e para Izzie Coffey como a garota quando ela tinha cinco anos.

Da parte técnica do filme, destaco da trilha sonora de West Dylan Thordson, a direção de fotografia de Mike Gioulakis e a edição de Luke Franco Ciarrocchi. Vale citar também o design de produção de Mara LePere-Schloop; a direção de arte de Jesse Rosenthal; a decoração de set de Jennifer Engel e Dennis Madigan; os figurinos de Paco Delgado; e o departamento de maquiagem de Diane Dixon, Pamela Peitzman e Zachary Ripps.

Split teria custado US$ 9 milhões. Orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Shyamalan mostrando, mais uma vez, como é possível fazer um bom filme em Hollywood com orçamento baixo, sim senhores! A produção faturou, apenas nos Estados Unidos, US$ 137,2 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 128 milhões. Ou seja, no total, já bateu os US$ 265,2 milhões. Um baita sucesso e um lucro que garante para Shyamalan liberdade para as suas próximas empreitadas.

Segundo as notas da produção, o personagem de Kevin foi inspirado em Billy Milligan, um sujeito que foi diagnosticado com o transtorno dissociativo de personalidade com nada menos que 24 personalidades diferentes. Essa condição dele foi utilizada em sua defesa para defendê-lo dos crimes que ele praticou e que Milligan disse que não tinha praticado – alegando que tinham sido algumas de suas personalidades.

Split ganhou quatro indicações a prêmios: Melhor Thriller e Melhor Atriz Coadjuvante para Betty Buckley pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos Estados Unidos; Melhor Atriz Jovem Inglesa/Irlandesa para Anya Taylor-Joy no London Critics Circle Film Awards; e Melhor Filme no Rondo Hatton Classic Horror Awards.

Para quem acha o tema de múltiplas personalidades interessantes, vale dar uma olhada neste texto e neste outro texto sobre o assunto.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo esta crítica entra para a lista daquelas que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 164 críticas positivas e 54 negativas para Split, o que garante para o filme uma aprovação de 75% e uma nota média 6,4.

CONCLUSÃO: Um filme bem construído, com personagens interessantes, ainda que apenas parte deles seja realmente explorado. Split desenvolve uma história de suspense focada em um protagonista com múltiplas personalidades que está em uma fase muito instável. O perigo crescente e essa ideia de “bomba-relógio” mantém a tensão da produção que tem um desfecho interessante, ainda que com alguns pequenos poréns. Mas, no conjunto da obra, é um filme envolvente e interessante, que prende a atenção e que tem um baile de interpretação de James McAvoy. Os outros atores também se saem muito bem, o que torna esta produção bem acabada. Vale o ingresso se suspense com retoques de terror é do seu gosto.

The Conspirator – Conspiração Americana

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.