Poesía Sin Fin – Endless Poetry – Poesia Sem Fim


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O retrato de um artista quando jovem, um pouco de sua trajetória e do seu país com diversos altos e baixos. Poesía Sin Fin é uma obra interessante e que apresenta uma visão única de um artista sobre o seu próprio passado. Apenas alguém que olha para trás pode ver com tanta riqueza de detalhes, fantasia e autocrítica os passos que deu pelo caminho. Apresentando alguns recursos interessantes e uma e outra inspiração do teatro, Poesía Sin Fin nos apresenta um pouco mais sobre um Chile desigual, romântico e ao mesmo tempo transgressor. Realmente interessante para quem gosta do tema artes e para quem se interessa pela América Latina.

A HISTÓRIA: Um casal caminha com o filho ao lado em direção ao mar. A mãe, Sara (Pamela Flores), chora e é consolada pelo marido, Jaime (Brontis Jodorowsky). O garoto, filho deles, Alejandro (Jeremias Herskovits), anda sozinho por diferentes figuras que representam as suas lembranças. Alejandro Jodorowsky declama uma de suas poesias que fala sobre como ele dixou a sua terra, cheia de lágrimas, para trás. Ele retornou para a Rua Matucana que, hoje, está em decadência, mas que em sua época era parte de um bairro de trabalhadores.

As memórias dele nos levam para o passado, para esta época com cenários e pessoas muito diferentes. Quando uma pessoa era morta na rua com facilidade para, na sequência, ter os seus pertences roubados por garotos pobres que viviam pelas ruas. Os tempos eram complicados, e começamos a acompanhar aqueles anos no Chile sob a ótica de Alejandro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poesía Sin Fin): Esta produção chama a atenção, logo nos primeiros minutos, pelo estilo interessante – tanto visual quanto narrativo. O que vemos em cena tem um ritmo ligeiro e interessante, pelo menos no início da produção. A visão artística do roteirista e diretor Alejandro Jodorowsky é bastante desenvolvida.

Ele mistura todas as artes para fazer este filme. Muito da dinâmica que vemos em cena é do teatro – incluindo os “ajudantes de palco”, figuras que aparecem volta e meia para pegar ou trazer objetos que serão usados pelos atores em cena. Mas há também elementos fortes de artes plásticas e uma música transversal e importante – da mãe do jovem artista, que fala cantando, até outros momentos em que a música se torna uma peça importante em cena. Também há espaço para a dança e para o circo, citados em diferentes momentos.

Desta forma, de maneira muito natural e nada forçada, Jodorowsky demonstra o seu amor profundo por todas as manifestações artísticas. Com especial apreço, é claro, para a poesia – que está presente não apenas no título da produção, mas na forma de vida que ele escolhe para si. A produção começa em um momento importante para as memórias do artista. No dia em que ele vê uma morte acontecer na porta de casa e que avança com ele descobrindo a poesia em um livro de um cidadão que é expulso da loja do pai após ele ser acusado de roubo.

No livro que ele pega da cesta do cliente expulso ele encontra o poema “Romance Sonâmbulo“, de Federico Garcia Lorca, e outras preciosidades da obra do autor. Inebriado com aquelas palavras, ele decide que se tornará também um poeta. O pai, um comerciante que concentra toda a sua atenção em ganhar dinheiro, não aceita a ideia do filho. Para ele – que simboliza a classe média chilena e, cá entre nós, de diversos outros países -, o único futuro desejável para o filho é dele estudar para ser médico (e, com isso, ganhar bastante dinheiro).

A visão de Jodorowsky sobre o próprio passado parece uma grande alegoria, com todos os seus exageros e simplificações. Assim, a família da mãe é mostrada com bastante frieza, representada por um bando de gente cruel e apegada, a exemplo do pai dele, ao dinheiro, ao passado e a um monte de regras. A mãe dele, Sara, é a única vista com um pouco mais de lirismo e “bondade”. O pai é um sovina, e o pré-adolescente Alejandro resolve, em um encontro na casa da avó, dar um basta a tudo aquilo.

Ele é expulso pela tia e acaba sendo “socorrido” pelo primo Ricardo. Ele apresenta Alejandro para as irmãs Carmen e Verônica Cereceda, amantes da arte e duas “mecenas” que incentivavam artistas e potenciais artistas daquela época. E é assim que Alejandro consegue sair de casa e viver uma vida livre, onde pode escrever à vontade e conhecer muita gente interessante que frequenta a casa das irmãs. Depois de alguns anos, já adulto, ele é incentivado pelas irmãs a procurar a sua própria musa e a conhecer outros artistas em um bar da cidade.

A partir daí o filme entra em uma viagem muito particular de Jodorowsky em busca de sua própria identidade artística e como indivíduo. Nesta procura ele encontra a poetisa Stella Díaz Varín (também interpretada por Pamela Flores), com quem perde a virgindade e com quem vive um grande amor, e outras pessoas importantes para a sua trajetória, como Enrique Lihn (Leandro Taub), que se torna um grande amigo. Interessante como o filme de Jodorowsky tem poucos personagens realmente importantes e como ele utiliza alguns atores para interpretar diferentes papéis relevantes.

Essa escolha, para mim, serve para reforçar ainda mais a “confusão” um tanto onírica da lembrança do passado do roteirista e diretor – é como se ele nos dissesse que ninguém é capaz de realmente rever a própria história sem enchê-la de fantasia e de alguma inconsistência. Quando Stella aparece em cena, ainda que esteja caracterizada de forma bastante exagerada, fiquei pensando o quanto ela se parecia com a atriz que interpretava a mãe do protagonista. Depois descobri que se tratava da mesma atriz – o que faz todo o sentido.

Ainda que a caracterização diferencie bastante as duas personagens interpretadas por Pamela Flores, faz todo o sentido – e é um bocado óbvio, também – Jodorowsky ver uma grande semelhança no primeiro amor dele e a própria mãe (Freud explica). Da minha parte, achei o começo do filme e a parte final mais interessantes do que o “recheio”. Acho que há muitos momentos da busca do artista por sua própria identidade – o que inclui todo o ir e vir da relação com Stella – que poderiam ser sintetizados e que parecem muito lugar-comum.

Nestas partes eu acho que Jodorowsky perde um pouco da inovação que ele apresenta em outros momentos da produção. O começo do filme, com aquela mudança de cenário e de tempo histórico, assim como as sequências em que ele apresenta características interessantes do Chile – destaco, neste sentido, toda a sequência do Carnaval que, guardadas as devidas proporções e diferenças históricas e de latitude, nos fazem lembrar Federico Fellini e as suas próprias revisitas ao passado – são os pontos fortes da produção.

Todos os momentos em que Jodorowsky se apresenta como um amante disposto a tudo para “conhecer” o amor e para tirar proveito dele – inclusive traindo a confiança do melhor amigo e ficando com a sua ex-companheira (ou atual, não fica claro) Pequeñita (Julia Avendaño) – me pareceram um bocado um artifício de auto-elogio. Quando o diretor sai de si mesmo e olha mais para o que lhe cerca, o filme ganha em interesse.

Apenas esta inconstância da história, que acaba tendo altos e baixos entre o artista olhar mais para dentro de si ou mais para o que lhe cercava, faz o filme não ser melhor. Mas, no geral, pela visão artística interessante de Jodorowsky e pelo seu estilo felliniano, o filme mais que se justifica. Ele merece ser visto. Ele é bem feito e nos apresenta um pouco mais de um dos países latinos dos quais deveríamos saber mais – afinal, estamos todos próximos e, guardadas as devidas proporções, compartilhamos das mesmas dores e do mesmo terror de regimes absolutistas e tiranos.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o décimo trabalho do diretor Alejandro Jodorowsky. Ele estreou na direção com o curta La Cravate, em 1957. Com 20 minutos de duração, o curta de estreia dele adaptava uma história de Thomas Mann sobre um vendedor de cabeças humanas. O primeiro longa de Jodorowsky foi lançado em 1968: Fando y Lis, uma produção que já era baseada nas memórias do chileno que nasceu em Tocopilla em 1929.

Nos primeiros de sua vida, Alejandro vivia em um Chile governado pelo militar Carlos Ibáñez del Campo. Vale lembrar que Alejandro nasceu em pleno 1929, ano da eclosão de uma grande crise econômica mundial. Ou seja, aquela pobreza e violência que vemos no começo de Poesía Sin Fin não eram exageradas – apenas apresentadas de forma alegórica. Quando o general volta ao poder, como o filme mostra (ele é interpretado por Bastián Bodenhöfer), Jodorowsky resolve deixar o Chile para trás.

Poesía Sin Fin não mostra, mas antes de Jodorowsky decidir deixar o país, em 1955, imigrando definitivamente para Paris, ele saiu da cidade natal para estudar na capital chilena, Santiago. Na produção o diretor e roteirista parece ter preferido simplificar a história sugerindo que ele ficou o tempo todo na cidade dos pais. Mas a verdade é que aos 13 anos ele se mudou para Santiago, onde trabalhou como palhaço de circo e como marionetista (um pouco disso é mostrado no filme). Em Paris ele fez parte de um coletivo de artistas que produziu diversos livros e peças de teatro. E, aqui e ali, também produziu alguns filmes e curtas. Um sujeito interessante, sem dúvida.

Quem observou o nome dos atores envolvidos nesta produção percebeu que alguns dos principais dividem o mesmo sobrenome que o diretor e roteirista da produção, correto? Pois sim. Além do próprio Alejandro Jodorowsky aparecer em cena em uma autorreferência pontual, dois filhos dele fazem papéis importantes na história: Brontis interpreta a Jaime que, na verdade, foi o avô dele na vida real; e Adan interprata ao próprio pai em sua fase adulta. Além deles, Jodorowsky teve ainda outros dois filhos: Axel e Teo. Eles não aparecem em cena.

Algo curioso nesta produção é como Jodorowsky apresenta aos “figurantes” e personagens sem importância e/ou com pouca relevância para a história. Seja as pessoas das ruas, seja as que frequentam muitos dos locais em que ele vai, todas usam máscaras e/ou estão com cabeças baixas. É como se ele demonstrasse, desta forma, que aquelas pessoas não tem importância na vida dele ao mesmo tempo que faz uma leve crítica para a “massa” que não se diferenciava e que estava apática em um Chile que ficava cada vez pior, mais extremista, preconceituosos e pouco afeito ao que era diferente. Uma crítica que segue válida para diferentes latitudes nos dias de hoje.

O diretor e roteirista faz, com Poesía Sin Fin, um grande manifesto em defesa dos artistas. Ele são mostrados sempre da melhor forma, como transgressores, pessoas que se preocupavam com a beleza e com incentivar a vida em todas as partes contra um país cada vez mais cinzento. Sem dúvida alguma ele tem uma visão apaixonada para a sua trupe. E isso fica evidente neste filme.

Poesía Sin Fin é uma produção feita para o alter ego do diretor brilhar. Desta forma, claro que os destaques de interpretação são os atores escalados para vestir a “pele” de Jodorowsky: Jeremias Herskovits e, principalmente, Adan Jodorowsky. Além deles, brilha com os seus personagens caricaturais a competente Pamela Flores. Também gostei muito do trabalho de Leandro Taub, que faz um dueto interessante com Adan Jodorowsky.

Além destes atores e dos outros já citados, vale comentar as pontas de Carolyn Carlson como Maria Lefevre, que lê o tarô para Jodorowsky; Ali Ahmad Sa’Id Esber como Andrés Racz; e Felipe Ríos como o poeta Nicanor Parra, bastante admirado pelo protagonista. Eu gostaria de citar a outros nomes que tem certa relevância nesta produção mas, infelizmente, não encontrei a relação completa dos atores que participaram deste filme. Fico devendo.

Jodorowsky dedica esta produção para o amigo Michel Seydoux, produtor de cinema francês responsável, entre outros títulos, por Cyrano de Bergerac.

Pesquisando mais sobre Jodorowsky eu soube que ele era um dos grandes ídolos de John Lennon. Em 1970, por exemplo, o filme dirigido por Jodorowsky “El Topo” chegou aos Estados Unidos por influência de Lennon e virou cult. Admito que eu não tinha, até agora, assistido a um filme dele. E desconfio que este Poesía Sin Fin seja o filme menos “viajandão” e/ou com tintes psiquiátricos/artísticos dele. Comecei bem, então. 😉 Neste artigo da Wikipédia eu encontrei mais informações sobre o diretor.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco os efeitos visuais do trio Felipe Astorga, Didier le Fouest e Vincent Perzo; a trilha sonora de Adan Jodorowsky; a direção de fotografia perfeita de Christopher Doyle; a edição de Maryline Monthieux; e os figurinos de Pascale Montandon-Jodorowsky.

Poesía Sin Fin estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme passaria por outros 20 festivais – a produção, claramente, tem um perfil muito mais de festivais ou de circuitos pequenos do que o perfil para ser exibido em vários cinemas.

Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros dois. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Narrativa segundo a escolha do público no Festival Internacional de Cinema de San Francisco.

Este é o segundo dos cinco filmes de memórias que Alejandro Jodorowsky planeja realizar. O primeiro da série foi La Danza de la Realidad, de 2013. Eu não assisti a este filme, mas agora eu acho que entendo melhor o que Jodorowsky nos apresentou inclusive em Poesía Sin Fin. No filme de 2013 ele mostrou a primeira parte da vida dele, especialmente a infância, até quando eles deixaram a cidade em que ele nasceu. O segundo filme, Poesía Sin Fin, na verdade é ambientado em Santiago, na Capital. Ah sim, daí faz mais sentido. 😉

Aliás, como o filme mesmo sugere, esta produção foi totalmente rodada em Santiago do Chile.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,2.

Este filme é uma coprodução do Chile com a França.

CONCLUSÃO: A visão de um artista é sempre diferenciada. Mais inspirada, provocadora e/ou atenta aos detalhes do que a de um “cidadão comum”. Isto fica evidente com este Poesía Sin Fin, uma ode de seu realizador para o país que ele deixou para trás e para todas as experiência que viveu por lá. Ao mesmo tempo que descobrimos pontos interessantes da vida dele e sobre o Chile, também pensamos sobre a nossa própria trajetória. A veríamos de forma tão generosa ao mesmo tempo que precisaríamos recontá-la para fazer as pazes com quem não conseguimos na vida real? Um belo filme por todos os seus detalhes e, claro, descontando as repetições e os momentos menos interessantes da revisita ao passado de Alejandro Jodorowsky.

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