Venom


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Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

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Um comentário em “Venom

  1. Eu não gostei do filme por causa do roteiro, que achei preguiçoso e mal acabado. A virada de personalidade do simbionte, por exemplo, não convence e só acontece porque o filme tem que andar e ele virar um “herói”. Outro problema é a relação de Brock com a Anne, que aliás, aproveita muito mal a Michelle Williams. Também não gostei muito de alguns efeitos especiais, esse CG vai ficar datado muito cedo. No fim, não achei um filme ruim, mas também não daria uma nota tão alta assim não, achei um filme bem mediano.

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