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Pájaros de Verano – Birds of Passage – Pássaros de Verão


A paixão e a ganância, quando não são administrados, causam problemas, inclusive guerra e morte. Demorei para assistir a Pájaros de Verano. O filme ganhou evidência quando se tornou um dos semi-finalistas no Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Me interesso sempre pelo cinema colombiano, por isso foi uma pena ter que levar tantos meses até conseguir assistir a essa produção. Mas antes tarde do que mais tarde, dizem os espanhóis. 😉 Que filme incrível! Realmente, surpreendente.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que foi inspirada em fatos reais ocorridos na região de La Guajira, no extremo norte da Colômbia, entre as décadas de 1960 e 1980. Em cena, alguns sussurros. Uma mão, banhada com alguns raios de sol, e a voz de Úrsula (Carmiña Martínez) falando sobre família, avó, mãe, tio, sobrinho, neto, todos representados pelos dedos da mão.

Cada palavra é repetida por Zaida (Natalia Reyes), a herdeira de uma dinastia antiga e que prepara-se para ser apresentada para a comunidade Wayuu como mulher feita e, consequentemente, preparada para o casamento.

A mãe dela, Úrsula, diz que “se há família, há respeito, e se há respeito, há honra; se há honra, há palavra; e se há palavra, há paz”. Úrsula avisa a filha que o ano dela de confinamento acabou, e que quando ela sair da tenda, será como mulher. Em breve, a história dela mudará a comunidade para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já viu a Pájaros de Verano): Antes de mais nada, quero pedir desculpas pela longa, longa ausência. Como falei lá no princípio, demorei para assistir a esse filme e, depois, demorei nada menos do que três meses – ou um pouco mais que isso – para terminar de escrever sobre ele.

Quero, pouco a pouco, retomar as publicações mais recorrentes aqui no blog. Vamos ver se eu consigo. O tempo tem passado muito rápido. Tanto que já foram divulgados os 93 países que estavam habilitados a concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2020 e, depois, a “lista curta” com os 10 filmes que seguem na disputa por uma vaga entre os 5 finalistas nesta categoria. Alguns deles já comentados aqui no blog – em breve farei um adendo nos textos destas produções.

O tempo passou rápido mas, como é do meu costume, não vou assistir a novos filmes antes de falar sobre Pájaros de Verano, a última produção que eu assisti. Eu não sabia muito bem o que esperar deste filme. Por isso ela me surpreendeu bastante, especialmente pelo foco da história, pelas tradições que resgata e pelas mensagens que nos deixa.

O início da produção, que mostra as tradições de um povo e um cantor, tipo um “repentista”, cantando a “moral da história”, são um belo cartão de visitas de Pájaros de Verano. Cada detalhe da produção dirigida por Cristina Gallego e Ciro Guerra chama a atenção.

As roupas, as pinturas na pele da protagonista, os colares, a forma com que as pessoas se olham ou desviam olhar… cada detalhe ajuda a resgatar a história daquele povo e a narrar a história cheia de tradição.

Ajuda bastante a narrativa também o fato de grande parte dos diálogos terem sido escritos na língua Wayuu. Poucos diálogos são feitos em espanhol ou em inglês. Mas o surpreendente da história não é tanto o resgate de um povo que foi dizimado e sim as histórias de fundo que explicam o que ocorreu.

O primeiro ponto que chama a atenção é como uma comunidade tradicional da Colômbia poderia ter o mesmo princípio de dote que conhecemos de sociedades europeias desde a era medieval. A questão do dote e o interesse constante da matriarca Úrsula por dinheiro e por riqueza são pontos fundamentais da história.

Inicialmente, Rapayet (José Acosta), que fica fascinado por Zaida logo que ela é apresentada para a comunidade como uma mulher feita, não tem um apreço especial pelo dinheiro. O interesse dele é em Zaida e em formar uma família com ela. Mas ele sabe que, para conseguir isso, deve não apenas pagar o dote exigido por Úrsula mas, também, “honrar” a família da moça e sua tradição.

O curioso é que a leitura sobre o que seria esta honra muda bastante quando analisamos a ótica de Úrsula. Enquanto para muitos a “honra” poderia ser Rapayet seguir os costumes do clã e procurar sustentar a família tendo a honestidade como base, para a matriarca a honra passa pela defesa ferrenha da própria família.

Neste ponto, Pájaros de Verano entra em outro assunto fundamental. O que é mais importante: a prosperidade de uma família ou a preservação de uma comunidade? Para Úrsula, sem dúvida alguma que o mais importante é que a família dela, incluindo o seu filho problemático e rebelde Leonídas (Greider Meza na fase adulta, Yanker Díaz na infância), tenha prosperidade e sobreviva, independente do que aconteça.

Ou seja, a derrocada daquele povo teve menos a ver com as “invasões bárbaras” de estrangeiros e das drogas e esteve muito mais relacionada com a cobiça e o egoísmo da sua líder. No fim das contas, o que importa não é a proteção ferrenha de uma família e de algumas tradições e sim a capacidade das pessoas que se dizem líderes de um coletivo de pensar no bem comum – ou seja, na maioria, e não apenas nos seus.

Esse grande aprendizado desta produção, algo surpreendente para quem pensava em assistir a um filme focado apenas em uma comunidade tradicional da Colômbia, torna Pájaros de Verano um filme atemporal. E maior do que a sua particularidade, do que o resgate de uma comunidade tradicional que sucumbiu frente à violência e às drogas, apodrecida pela cobiça, pela noção errada de família acima do coletivo.

Além disso, achei muito interessante como o roteiro escrito por Maria Camila Arias e Jacques Toulemonde Vidal, a partir da ideia original de Cristina Gallego e Ciro Guerra, foi construído. O filme não é divido em capítulos, e sim em “cantos”. Cada parte narra um período e uma evolução da narrativa.

Motivado pela “cobrança” de Úrsula e contando com a parceria do amigo Mocho/Moisés (Jhon Narváez), Rapayet faz a ligação entre os produtores de maconha locais e os grandes consumidores americanos. O filme começa de forma lírica mas, conforme a história avança, a violência se apresenta de forma visceral.

Por alguns momentos, Pájaros de Verano parece mesclar os filmes de gângster produzidos por Hollywood com Deus e o Diabo na Terra do Sol. O estilo “raiz” lembra o clássico filme brasileiro de 1964, enquanto que a violência e um certo tom de crueldade faz lembrar produções como Scarface. Guardada as devidas proporções, é claro.

A narrativa sobre como a Colômbia se tornou um grande centro de exportação de drogas, envolvendo pessoas e comunidades tradicionais, se revela interessante e mais rica do que poderíamos esperar inicialmente. Isso porque ela não envolve apenas a história e as tradições, mas algumas questões essenciais de qualquer povo ou comunidade, como podem ser as noções de família, amor, cobiça e irmandade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante dizer que a cobiça não é apenas de Úrsula. Verdade que ela é uma peça fundamental na equação e um agente catalisador de muito do que acontece na história. Mas a cobiça de Mocho também é um ponto fundamental. Ele quer faturar cada vez mais e não se importa com as tradições ou com a consequência dos seus atos.

Como violência gera mais violência, quando ele começa a radicalizar, a espiral das mortes acaba não tendo mais freio. Quando Leonídas também mostra toda a soberba e falta de controle de alguém que sempre foi mimado e protegido, o resultado dos atos da família não podem ter um fim positivo.

Achei especialmente interessantes o roteiro e a direção desta produção. Muito bem equilibrados e muito bem feitos. Especialmente o trabalho de Cristina Gallego e Ciro Guerra merecem elogio. Eles valorizam com perfeição o trabalho dos atores, assim como as paisagens da região e a dinâmica da história. Trabalho excepcional.

Os atores também fazem um ótimo trabalho, com destaque para José Acosta como Rapayet; Carmiña Martínez como Úrsula; e Natalia Reyes hipnótica como Zaida. Além deles, estão bem Jhon Narváez como Moisés/Mocho; Greider Meza como o detestável Leonídas; e José Vicente como Peregrino, um veterano respeitado por todos e tio do protagonista.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a direção de fotografia de David Gallego; a trilha sonora de Leonardo Heiblum; a edição de Miguel Schverdfinger; a direção de arte de Angélica Perea; os figurinos de Catherine Rodríguez; a decoração de set de Juan David Bernal; e a maquiagem de Ana María Jauregui.

Além das danças, das canções e das tradições dos Wayuu, algo bastante interessante em Pájaros de Verano é como as mulheres da família de Úrsula tinham um certo “poder” muito respeitado pelo seu povo.

Zaida seguia uma tradição de mulheres que tinham uma forte ligação com o além, com os mortos, e que, através dos sonhos, podiam receber “mensagens” e ter premonições sobre fatos importantes que iriam acontecer.

Esse aspecto do filme também é algo interessante, já que povos mais antigos e tradicionais tinham essa ligação com a parte menos racional da vida. Algo que, nas sociedades ocidentais modernas, a maioria foi perdendo pelo caminho. Alguns ainda encaram os sonhos como algo importante de ser analisado e estudado – especialmente quem conhece Jung, seu trabalho e seus discípulos -, mas acredito que eles são a minoria.

Pájaros de Verano estreou em maio de 2018 em Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros 29 festivais em diversos países do mundo até março de 2019. Nesta trajetória, a produção recebeu 24 prêmios e foi indicada a outros 32.

Também foi indicado pela Colômbia para o Oscar – o filme conseguiu avançar para a lista das 9 produções pré-selecionadas para o prêmio, mas acabou ficando de fora da lista dos 5 indicados na categoria. Aqui vocês podem relembrar os filmes que foram finalistas do Oscar 2019 na categoria e, neste outro link, a lista das produções que avançaram na disputa mas não chegaram até o final.

Agora, algumas curiosidades sobre Pájaros de Verano. Muitas vezes o cinema aproxima pessoas e acaba servindo de “cupido” – vários casais já se formaram por causa de uma rodagem. Mas não foi isso que aconteceu com este filme. Os diretores, Cristina Gallego e Ciro Guerra, formavam um casal antes do filme começar a ser rodado, mas se separaram durante a sua realização.

Alguns críticos compararam Pájaros de Verano com outros filmes que contam a “saga do crime”, como Scarface (me lembrei desta produção antes de ler esse comentário, devo dizer), The Godfather e a série The Sopranos. De fato, o filme lembra bastante essas sagas que narram a escalada da violência em uma família ou comunidade. Mas ele tem uma riqueza de simbologia e tradições que outras produções do gênero não apresenta. Daí o seu grande diferencial.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 6 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,92.

No site Metacritic, Pájaros de Verano apresenta um “metascore” de 85 – fruto de 25 críticas positivas, 1 mediana e 1 negativa. De acordo com o site Box Office Mojo, a produção colombiana faturou US$ 507 mil nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 2 milhões no restante do mundo.

Ciro Guerra começou a sua carreira na direção em 2004 com La Sombra del Caminante. Cinco anos depois, em 2009, ele lançou Los Viajes del Viento. Ganhou prêmios com esses dois primeiro filmes, mas começou a se projetar com maior força a partir de 2015 com El Abrazo de la Serpiente, produção que foi indicado ao Oscar. Sem dúvida, um nome a ser acompanhado. Cristina Gallego, com um grande trabalho como produtora, estreou na direção com Pájaros de Verano.

Devo dizer que fico feliz em, finalmente, atualizar o meu blog novamente. Minha intenção é aproveitar as minhas férias, que efetivamente começaram hoje, dia 28 de dezembro, para deixar esse espaço mais atualizado. Agora, dando uma boa olhada nos filmes que já estão sendo cotados para o Oscar 2020. Então, até breve! 😉

CONCLUSÃO: Um filme surpreendente, como comentei lá no início. Até assistir a Pájaros de Verano, eu não sabia muito bem o que esperar da história. Pelo cartaz do filme, achei que veria sim uma etnia da Colômbia resistindo à “invasores” ou algo do gênero, mas eu não poderia sonhar que encontraria um filme muito mais profundo pela frente.

Contundente, envolvente e cheio de surpresas, Pájaros de Verano é um dos melhores filmes latinos que eu vi nos últimos anos. Um verdadeiro presente. Deve ser visto e apreciado sem moderação.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

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