Knives Out – Entre Facas e Segredos

Uma trama que lembra muito o espírito dos romances de Agatha Christie. Knives Out conta a história de um suicídio que tem tudo para ter sido um assassinato. Mas quem cometeu o crime? E, de fato, ele foi um crime? Com um elenco estelar, um roteiro envolvente e com uma boa dose de ironia para as tramas do gênero, esta produção surpreende mesmo quem está habituado a “matar a charada” em filmes do gênero. Entretenimento simples e direto. Como Agatha Christie.

A HISTÓRIA

Começa com a imagem de uma mansão, estilo “castelo mal-assombrado”, e uma dupla de cães correndo em frente. Em uma bandeja, uma xícara de café apresenta a expressão “minha casa, minhas regras, meu café”. Vemos cenas da residência, cheia de detalhes pitorescos. Fran (Edi Patterson) sobe as escadas para levar o café da manhã para o proprietário. Ela não o encontra no quarto, então vai para o seu estúdio. Encontra Harlan Thrombey (Christopher Plummer) deitado e com a garganta cortada. Em seguida, a história avança uma semana no tempo, quando as investigações sobre a morte de Sr. Thrombey prosseguem.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Knives Out). Logo de cara, vemos que este filme será peculiar. Começando pela trilha sonora marcante e por pequenos detalhes que chamam a atenção desde os primeiros minutos do filme. Como a escolha cuidadosa de cada detalhe da residência peculiar que é palco de um mistério e seus personagens.

Nosso background logo nos remete para os filmes clássicos de suspense e de investigação policial. Especialmente para os filmes antigos do gênero ou para a obra da rainha do mistério, Agatha Christie. Para quem já leu alguns livros da escritora britânica, impossível não lembrar de seu estilo nesta produção. Especialmente pelo estilo do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig).

Mas apesar de várias referências e alusões ao gênero, o roteiro do diretor Rian Johnson se revela muito inteligente e interessante ao utilizar os clássicos para “brincar”/jogar com eles. Até um certo ponto, a produção segue uma dinâmica no estilo “clássico” de policiais/investigadores e um detetive particular entrevistando/interrogando quem estava presente na casa na véspera da morte do patriarca.

Essa linha clássica de investigação, mostrada no filme, procura encontrar idiossincrasias e furos nas histórias das pessoas que estavam próximas do morto e que, claro, são os primeiros suspeitos de um possível crime. Aparentemente, o patriarca da família se matou. Mas, de fato, foi isso que aconteceu? Descobrir a verdade por trás dos fatos é a missão de Blanc e dos investigadores da polícia, o tenente Elliott (LaKeith Stanfield) e o soldado Wagner (Noah Segan).

Durante os interrogatórios com as pessoas que estavam presentes no aniversário do escritor de romances de suspense Harlan, horas antes dele morrer, logo percebemos que a verdade é contada em partes e que ela varia muito de versão para versão. Um clássico dos filmes de investigação. Mas um trabalho muito bem construído por Johnson logo nas primeiras linhas. Quem conhece Agatha Christie, sabe que devemos sempre duvidar do que as pessoas lembram ou nos contam. Todos tem os seus interesses, suas perspectivas e apresentam memórias falhas e/ou relativas.

Johnson brinca muito bem com isso, retomando, em teoria, as memórias reais das pessoas antes delas contaram as suas versões dos fatos – sempre modificadas – para Blanc ou os policiais. O roteiro de Knives Out é bastante dinâmico e a narrativa é muito bem segmentada, com idas e vindas entre o presente, que se passa uma semana depois dos fatos, e a retomada sobre os acontecimentos da noite em que a morte de Harlan aconteceu.

Como manda a cartilha de Agatha Christie, devemos sempre nos perguntar quem tinha a motivação para matar. Em Knives Out, logo percebemos, a teoria de que Harlan teria se matado ainda está sendo examinada. Alguém, que ninguém sabe quem no início da trama, contratou um detetive particular para investigar o caso. Quem teria feito isso? O próprio Harlan, acreditando que poderia ser morto por algum familiar? Ou outra pessoa? Quem teria essa motivação?

Essa é uma das várias perguntas que estão no ar nesta trama desde o início. Mas não é a única. O que mais achei interessante no trabalho de Rian Johnson é como ele, ao mesmo tempo, homenageia e subverte o gênero. A homenagem está no fato dele seguir os princípios da cartilha de Agatha Christie e de todas as obras que surgiram a partir daí. A inovação do roteirista e diretor está na forma com que ele brinca e faz comédia com alguns lugares-comuns desta cartilha.

Vejamos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, que maravilhoso, para qualquer escritor de romances policiais, ter uma personagem como Marta Cabrera (Ana de Armas) pela frente! Por que digo isso? Porque ela é uma personagem perfeita para qualquer investigador estilo Poirot. Em teoria, ela não pode mentir. Quando mente, acaba vomitando. Hahahaha. Vamos combinar que essa ideia é fantástica. É como se ela fosse uma máquina da verdade ambulante.

Não por acaso, ao saber deste detalhe, Blanc acaba utilizando ela como uma aliada e uma máquina da verdade ambulante. Literalmente. O problema é que a moça não era apenas a melhor amiga do morto, sua confidente, mas, logo vamos descobrir, sua herdeira e uma pessoa fundamental na sua morte. Tanto que ela presenciou o que aconteceu com ele, até o último minuto.

Johnson acerta ao nos mostrar “a verdade” sobre os fatos logo. Quando Blanc encontra Marta e, principalmente, quando toma o seu depoimento, ficamos sabendo o que de fato aconteceu na noite fatídica. Ainda assim, devo admitir, por conhecer bem o estilo de Agatha Christie, mesmo naquele momento fiquei desconfiada se as lembranças de Marta não seria uma mentira.

O diretor e roteirista poderia ter seguido este caminho, das memórias e versões das pessoas serem também enganosas, mas ele não optou por esta alternativa. Ele preferiu mostrar a verdade nas reminiscências dos personagens e a versão dos fatos apenas nos seus depoimentos. Isso facilita para o espectador, sem dúvidas. Torna o filme mais “confiável” e sem o que alguns poderiam considerar como “pegadinhas” – o que, algumas vezes, faz parte do gênero.

Ora, se logo sabemos o que de fato aconteceu naquela noite e como Harlan morreu, o que falta descobrir? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, uma pergunta que não saiu da minha cabeça desde que as lembranças de Marta são apresentadas pra gente foi a seguinte: quem sabotou a enfermeira e confidente do patriarca? Porque um antídoto para um acidente não pode sumir do nada, certo? Então ela foi alvo de uma sabotagem. Mas de quem?

Esta é a primeira pergunta que nos acompanha durante este filme. A segunda, claro, é se Marta é realmente tão inocente quanto ela parece. Essa dúvida surge, especialmente, quando ela acaba sendo a herdeira de todos os bens de Harlan. Será que, em algum momento, ela pode ter mentido para a narrativa e, de fato, manipulou o escritor para que ele deixasse tudo para ela e que, feito isso, ele fosse eliminado?

Depois, quando ela é chantageada, claro, surge a pergunta sobre quem poderia estar fazendo isso. E quando Marta encontra a resposta para esta pergunta, surge outra: quem teria atacado a chantagista? Existe alguém por trás da trama, isso parece claro. A resposta, como manda o figurino, veio apenas no final, com uma última reviravolta na história.

No fim das contas, Marta não nos enganou com as suas memórias, mas ela mesma não tinha todas as informações. Finalmente temos a resposta para aquela pergunta inicial e que se revelou fundamental: quem deu um fim para o antídoto de um possível acidente? Coincidências não existem, como bem nos ensina Agatha Christie em seus romances. E perguntas que podem surgir no início da trama, por mais que outras se sobreponham depois, nunca devem ser esquecidas.

Assim, de forma muito inteligente e perspicaz, Johnson consegue nos entregar tanto um filme coerente com o gênero quanto uma história que inova e rejuvenesce os clássicos. Ele consegue isso também com algumas referências interessantes da cultura pop, como um cenário que lembra o trono de Game of Thrones, na biblioteca de Harlan, e referências inteligentes em diversas falas, como Harlan comentando que aguarda morfina para ir para a terra de La La Land. 😉

Além de um roteiro envolvente, interessante e inteligente, Johnson faz um belo trabalho como diretor, explorando tanto o bom trabalho dos atores quanto ângulos típicos de filmes de suspense e uma atenção providencial para os detalhes dos cenários – que fazem parte da história. Somado a isso, junte um elenco estelar e voilà, você tem pela frente um filme interessante e surpreendente.

Claro que esse filme não muda a vida de ninguém. E o cinema nem sempre precisa fazer isso, certo? Muitas vezes ele precisa ser, apenas, um ótimo entretenimento. Mas, de preferência, respeitando o que foi feito antes, em cada gênero, e nos apresentando ideias interessantes no caminho. Isso Knives Out faz com maestria. Só que, para ser perfeito, faltou pouco.

Acho, por exemplo, que as falas da mãe de Harlan (K Callan), são um “estraga-prazeres” que não precisava estar lá. Querendo ou não, ela nos dá uma “pílula” da resposta do mistério cedo demais. Agatha Christie também nos ensina que pessoas para quem os outros não dão muita bola ou que desacreditam são as que nos dão pistas boas.

Um ator mais desconhecido no papel do vilão talvez tivesse ajudado também. Além disso, acho que o roteirista e diretor exagerou um pouco ao tornar todos os familiares de Harlan como um bando de esquisitões. Eles até poderiam ser, mas achei um pouco exagerado. Claro que tudo para justificar a questão da herança. Mas são detalhes, apenas. O filme, por tudo que comentei antes, sem dúvida alguma está acima da média do gênero nos últimos tempos. Para a nossa sorte.

NOTA

9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Impressionante o time de atores que Rian Johnson conseguiu reunir em Knives Out. Além de Daniel Craig e Christopher Plummer, já citados, temos em cena nomes marcantes como Jamie Lee Curtis como Linda Drysdale, filha mais velha de Harlan; Michael Shannon como Walt, filho de Harlan e o responsável pela editora e o legado do escritor; Don Johnson como Richard, marido de Linda; Chris Evans como Ransom, filho de Linda e Richard, neto de Harlan e considerado a “ovelha negra” da família; Toni Collette como Joni, viúva do terceiro filho de Harlan; e Katharine Langford como filha de Joni e neta de Harlan. Isso só para falar do elenco que forma a família de suspeitos.

Interessante que a trama mostra esta família no centro da história. Não apenas porque eles estiveram na casa horas antes da morte de Harlan, mas porque esta trama de suspense e policial não trata apenas de um mistério, mas das relações que envolvem uma família e o legado de um grande escritor. Essa é uma outra camada de leitura deste filme muito interessante. Afinal, apesar de se dizerem e considerarem tão unidos, nenhum dos familiares de Harlan eram próximos dele. Esse, de fato, era o papel de Marta.

Com um elenco estelar destes ao seu redor, sem dúvida alguma Knives Out é o filme perfeito para projetar Ana de Armas em uma carreira internacional e/ou em Hollywood. Ela se sai muito bem no papel de protagonista neste filme. Não por acaso, foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz – Musical ou Comédia – prêmio que ela perdeu, ontem à noite, para Awkwafina, de The Farewell.

Além destes atores, vale citar, ainda, o trabalho de Jaeden Martell como Jacob, neto de Harlan; Marlene Forte como a mãe de Marta; Frank Oz como o advogado Alan Stevens, que aparece para atualizar a família sobre a última versão do testamento de Harlan; e Kerry Frances em uma ponta como Sally, irmã da protagonista.

Tenho que fazer uma menção especial. Christopher Plummer está maravilhoso e perfeito no papel de Harlan. Ele é um gentleman e uma referência no cinema. Pena que seu personagem não apareça mais na produção. Mas é um presente cada vez que ele surge em cena. Daniel Craig está engraçado como o detetive particular Benoit Blanc. Claro que ele faz as vezes de Poirot. E, nesse sentido, é especialmente engraçado quando ele mergulhar na sua própria “espiral” de raciocínio lógico e para desvendar crimes e se perde da realidade – como na cena do carro. Genial.

Entre os aspectos técnicos do filme, uma grande qualidade desta produção é o roteiro de Rian Johnson. Ele também faz um ótimo trabalho na direção, mesclando com perfeição as escolhas para planos de câmera mais aberto, focado nos atores ou nos detalhes que não podem sair da atenção do espectador.

Além disso, é fundamental para este filme a trilha sonora de Nathan Johnson. Um belo trabalho, claramente inspirado em filmes do gênero. Ótimo também o trabalho do diretor de fotografia Steve Yedlin, assim como a edição de Bob Ducsay. Vale citar, ainda, o design de produção de David Crank; a direção de arte de Jeremy Woodward; a decoração de set de David Schlesinger e os figurinos de Jenny Eagan.

Knives Out estreou em setembro de 2019 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, ainda, de outros 12 festivais de cinema em diversos países. Em sua trajetória, até o momento, Knives Out recebeu 27 prêmios e foi indicado a outros 72 – incluindo as indicações de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Ana de Armas e Melhor Ator – Musical ou Comédia para Daniel Craig no Globo de Ouro.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Elenco conferido pelo National Board of Review.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre Knives Out. O jogo que Harlan e Marta estão disputando, na noite da morte do patriarca, se chama Go. Ele foi inventado na China há mais de 2,5 mil anos e tem, como princípio, ser um jogo de estratégia abstrata para dois jogadores que tem como objetivo ocupar um território maior do que o adversário.

Esse é o 15º trabalho do diretor Rian Johnson – incluindo longas, curtas e séries para a TV. Ele estreou na direção em 1990 com o curta para TV Ninja Ko, the Origami Master. Depois de mais três curtas para o cinema, ele estreou na direção de longas em 2005 com Brick. Aqui no blog, vocês encontram as críticas de Looper e de Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 394 críticas positivas e 14 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,32.

O site Metacritic apresenta um “metascore” de 82 para Knives Out, fruto de 47 críticas positivas e de cinco medianas. Segundo o site Box Office Mojo, esta produção teria custado cerca de US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 130,2 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou, ele fez mais US$ 117,2 milhões. Ou seja, no total, até o momento, teria faturado cerca de US$ 247,7 milhões – ou seja, deu lucro.

Knives Out é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esta produção atende a uma votação feita há diversos anos aqui no blog.

CONCLUSÃO

Um filme envolvente e bem conduzido. Segue a cartilha dos romances de Agatha Christie ao mesmo tempo que tira um pouco de sarro de obras do gênero. Destaque para o elenco estelar, recheado de atores conhecidos – exceto pela protagonista e um ou dois outros personagens – e para o roteiro e a direção de Rian Johnson. O filme entrega as reviravoltas esperadas e ainda um “plus” interessante no final. Entretenimento de qualidade e que mostra sua dose de originalidade. Especialmente interessante para quem, como eu, sempre gostou de Agatha Christie. 😉

PALPITES PARA O OSCAR 2020

Acredito que Knives Out não terá muitas indicados no Oscar 2020. Talvez essa produção possa emplacar as indicações de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Design de Produção. Talvez entre em alguma outra categoria técnica ou não seja indicado a tudo isso.

Mas o que, no final das contas, o filme poderá ganhar no Oscar? Francamente, apesar de ser interessante e de ter as qualidades que eu comentei antes, acho que ele não tem chances em nenhuma categoria. Este ano a disputa está boa e há concorrentes mais fortes para levar o prêmio nas diferentes categorias do que Knives Out.