The Shape of Water – A Forma da Água

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Uma bela homenagem ao amor e aos filmes. Um conto sobre como os diferentes podem se reconhecer, e como a nossa percepção da divindade pode estar equivocada. The Shape of Water é mais uma bela obra do diretor Guillermo del Toro, esse mexicano com um gosto diferenciado por contos nada óbvios. Novamente temos na nossa frente um filme com alma e com estilo, bem composto por todos os elementos que fazem o cinema ser uma viagem mágica. Ou seja, belas interpretações, roteiro interessante e com algumas surpresas e um visual incrível. Cheio de boas intenções, The Shape of Water só falha nos detalhes.

A HISTÓRIA: Começa com um local submerso em água. Adentramos lentamente e começamos a ver cadeiras, mesas e demais objetos flutuando na água. O narrador então comenta, que se ele falasse sobre aquilo, ele não saberia exatamente o que contar a respeito. Ele diz que não sabe se falaria sobre a época, que parece que foi há muito tempo, nos últimos dias do reinado de um príncipe justo…

Ou se falaria sobre o local, uma pequena cidade perto da costa e longe de todo o resto. Ou se falaria sobre ela, a princesa sem voz. Ou ainda ele poderia falar sobre a veracidade dos fatos. Um história de amor e de perda. E o monstro, que tentou destruir tudo aquilo. Após essa introdução, mergulhamos na história desse conto cheio de fantasia e de realidade ao mesmo tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shape of Water): Impossível, depois desse filme ter sido tão premiado nessa última temporada e de apresentar o maior número de indicações ao Oscar, não ter grandes expectativas sobre The Shape of Water. Então foi assim que eu fui assistir a esse filme, com um bocado de expectativas junto comigo.

Um pouco da história eu já sabia – apesar de não gostar nada de saber das histórias antes de conferi-las na telona. Mas não tinha como não saber que esse filme era protagonizado por uma personagem muda e que ela se interessa por um “monstro” aquático. O maravilhoso de The Shape of Water é que essa é apenas uma pequena parte da história. O filme surpreende pelo visual, em primeiro lugar, e, logo na sequência, pelo excelente trabalho dos atores.

O trio central está ótimo. Eu já esperava um belo trabalho de Sally Hawkins como Elisa Esposito, a protagonista dessa produção. Mas a atriz ainda conseguiu me surpreender por sua interpretação sensível, precisa, carismática e nada exagerada. Realmente ela está muito bem. Também fiquei encantada com o trabalho seguro e muito competente de Richard Jenkins e Octavia Spencer, respectivamente Giles e Zelda Fuller, os melhores amigos de Elisa.

Todos estão muito bem. E o roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor, desenvolvido a partir de uma história criada pelo diretor, também começa muito bem. Logo de cara o filme nos apresenta os dois cenários centrais dessa história e que são muito representativos para The Shape of Water: a casa e o cinema abaixo dos apartamentos em que moram Elisa e Giles, e o laboratório militar em que Elisa e Zelda trabalham como “mulheres da limpeza”.

O que mais me surpreende em The Shape of Water é como o filme faz uma grande homenagem para o cinema. Volta e meia a produção é recheada por músicas e cenas de filmes que fizeram a história da Sétima Arte. Os filmes fazem parte do tempo vago dos personagens Giles e Elisa que, ainda para completar, moram próximos de um antigo cinema de rua – cada vez mais vazio e abandonado.

Assim, apesar do filme claramente ser um conto fantasioso sobre o amor entre duas “criaturas” solitárias e incompreendidas, mas com referência claríssima para outro conto clássico, A Bela e a Fera, The Shape of Water se apresenta também com algumas narrativas paralelas muito interessantes. Apesar de não ficar claro na introdução do filme, essa produção se passa nos anos 1960. Possivelmente a década em que perdemos a nossa inocência enquanto civilização por diversas razões.

O filme mostra isso de forma pincelada aqui e ali. Primeiro, com uma cena isolada na TV de Giles que mostra a perseguição e a violência policial contra negros. Depois, em um dos cenários principais da história, a base militar em que o malvado Richard Strickland (Michael Shannon) manda e desmanda, a violência dos militares americanos contra tudo que poderia ter o mínimo cheiro de inimigo.

E, claro, nos bastidores daquele cenário, a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, cada um procurando ganhar do outro na corrida armamentista e de “conquista do Espaço”. Algo interessante desse filme do diretor Guillermo del Toro é como a história é cheia de referências.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além de A Bela e a Fera citada e dos diversos filmes homenageados por essa produção, se destacam também as referências históricas. Para mim, impossível não pensar no massacre dos colonizadores aos incas, maias e demais povos latinos, assim como a influência dos Estados Unidos em ditaduras da América do Sul, quando os personagens falam sobre a origem do “homem anfíbio” (Doug Jones).

Em determinado momento, Strickland comenta que os “nativos” amazônicos consideram o “homem anfíbio” como uma espécie de Deus, oferecendo para ele oferendas. Ele ridiculariza tal ação. Mas por esse “detalhe” e pelas características dos personagens Elisa, Giles e do próprio “homem anfíbio”, The Shape of Water se mostra um filme sensível e especial.

Vejamos. Primeiro, The Shape of Water trata do preconceito religioso e dos perigos da visão limitada que uma crença pode provocar. Strickland, que abriga todo o perfil de um militar com visão limitada, seguidor de ordens e com perfil violento, também resume parte da visão do “americano médio”. Ou seja, ele leva ao pé da letra que “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança”. Assim, ele não aceita que possa existir um ser especial como o “homem anfíbio”, um outro tipo de “Deus” para uma outra civilização.

Temos aí pincelado os perigos do extremismo religioso, e como ele pode levar à exclusão e à violência. The Shape of Water trata sim sobre a exclusão do que não entendemos e do que é diferente ao nosso “padrão”. Algo que já fez muito parte da história da Humanidade e que, infelizmente, em épocas de extremismo religioso pelo mundo, continua fazendo parte da nossa história.

Mas esse filme também trata sobre o massacre da beleza em outros sentidos. Como eu comentei antes, The Shape of Water trata muito bem sobre o esvaziamento dos cinemas de rua e sobre como o cinema deixou de ter importância na vida das pessoas com o surgimento da TV – e por outros fatores, evidentemente. Aquela magia de ir para uma sala de cinema foi sendo substituída por outros “passatempos”, e todos perdemos um pouco daquela magia por causa disso.

Essa produção ainda revela como a Guerra Fria provocou muitas mortes gratuitas e absurdas, com duas grandes nações competindo não pela evolução da Humanidade, mas sim em uma queda-de-braços para ver quem era “melhor”. Espionagem e contra-espionagem e muitas mortes como saldo disso.

Como o chefe russo do Dr. Robert Hoffstetler/Dimitri (Michael Stuhlbarg) bem define, o importante não era o que eles poderiam “descobrir” ou aprender com o “homem anfíbio”, mas sim impedir que o inimigo conseguisse descobrir algo significativo. Então esse é um conto fantasioso sobre aquele período, mas que revela bem as oportunidades que os dois países tiveram e que perderam por pura ambição.

De pano de fundo da história, também vemos a uma sociedade com muitas oportunidades desiguais para as pessoas. Giles rebolava tentando conseguir algum trabalho aqui e ali, enquanto Elisa e Zelda trabalhavam na madrugada para conseguir pagar as suas contas. Giles teve um problema com alcoolismo, e Zelda lida com um marido que é castigado pelo trabalho e com quem ela nem sempre tem uma boa relação. É a vida do cidadão comum no foco dessa produção.

Esse é um dos aspectos interessantes desse filme. Como a vida de pessoas comuns pode ter – e sempre tem, quando estamos atentos para perceber – muita poesia e significado. E, claro, The Shape of Water é um filme sobre a admiração e a aproximação de duas pessoas solitárias e incompreendidas. Por  um lado, a muda, solteira e com poucos amigos, Elisa, que se encanta por um “homem anfíbio” que também não tem voz, mas que é inteligente, sabe se comunicar de outra forma e é sensível. Como ela.

Os dois se identificam e se aproximam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E sim, por mais que eles flertaram e se aproximaram no decorrer da história, não deixa de ser estranha a noite de amor entre os dois quando o “homem anfíbio” está no banheiro de Elisa. Apesar daquela sequência ter sido um pouco forçada, ela ainda é justificável. O que me incomodou mesmo e que eu achei um certo “deslize” do roteiro de del Toro e de Taylor foi outra parte.

Ora, passa um bom tempo entre o “resgate”/sequestro do “homem anfíbio” e o momento em que Strickland persegue Dimitri no momento de sua “extração”. Achei um tanto “forçada” toda aquela incompetência de Strickland. Afinal, não seria natural que ele tivesse seguido o Dr. Hoffstetler e outros suspeitos antes? Mas tudo que ele parece fazer são interrogatórios sem muito sentido e pouco mais que isso.

Claro que houve um motivo para o filme ser desenrolado dessa forma. Se Strickland tivesse tido uma atitude mais coerente na história, provavelmente o romance e a aproximação do “homem anfíbio” e de Elisa não teria tido tempo de ocorrer. Mas esse “desleixo” relativo com a história e a falta de explicação para a fórmula do Dr. Hoffstetler começar a deixar de funcionar com o “homem anfíbio” enfraquecem um pouco o roteiro de The Shape of Water.

Ainda assim, esses são apenas detalhes e pequenos deslizes de um filme que renova o gênero dos contos de fantasia. Como qualquer conto, The Shape of Water trabalha a realidade com uma boa carga de fantasia para provocar reflexão. Nada pode ser muito óbvio ou realista, justamente para fazer as pessoas pensarem sobre a história e, a partir dela, sobre a própria realidade. Esse é um belo conto, cheio de ponderações interessantes.

O maior valor e “moral da história” da produção, evidentemente, reside na reflexão que todas as pessoas merecem ser amadas e serem vistas por suas características e qualidades e não por seus “problemas” ou por alguma diferença que tenham com o “modelo ideal” previsto pela sociedade. Todos merecem ser incluídos, compreendidos, amados. E não excluídos ou extintos porque são diferentes do que o padrão gostaria.

Em uma época como a nossa, em que alguns extremistas voltam com a ideia de dizer quem merece ou não viver, quem merece ter ou não oportunidades, The Shape of Water se revela um filme importante. Nem tanto pelo que ele deixa óbvio, mas pelo que ele sugere e faz refletir. Vejam essa produção como um conto, como uma fantasia. Como tantos outros contos clássicos, esse também está cheio de belas mensagens e de reflexão.

NOTA: 9,3 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que eu amo no diretor e roteirista Guillermo del Toro: a visão artística diferenciada que ele tem. Para mim, ele possui um estilo e uma assinatura quase tão diferenciadas quanto Tim Burton. Esses são dois realizadores que tem um grande apreço pelo visual e pelos contos, algo que eu admiro. Novamente com The Shape of Water del Toro consegue nos apresentar uma história interessante e com um visual muito bacana. Esse tipo de filme que pode até não ficar tanto tempo na nossa mente pela história, mas talvez pelo visual da produção.

Nesse sentido, vale destacar o excelente trabalho de Dan Laustsen na direção de fotografia; de Paul D. Austerberry no design de produção; de Nigel Churcher na direção de arte; de Jeffrey A. Melvin e de Shane Vieau na decoração de set; e de Luis Sequeira nos figurinos. Todos eles, especialmente os três primeiros, fazem um trabalho fundamental para mergulharmos na época e no estilo diferenciado dessa história. Um belo trabalho, sem dúvida.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale também destacar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; de Sidney Wolinsky na edição; dos 12 profissionais envolvidos com o departamento de maquiagem; dos 21 profissionais responsáveis pelo departamento de arte e dos 69 profissionais envolvidos com os efeitos visuais da produção. Toda a equipe técnica está de parabéns.

Entre as belas lembranças do cinema resgatadas por The Shape of Water, devo dizer que fiquei especialmente tocada pela lembrança de Carmen Miranda. Apesar de ter nascido em Portugal, Carmen Miranda ficou conhecida após ter se radicado no Brasil e ter vendido a imagem do nosso país para o mundo antes mesmo do futebol e do Carnaval realmente dominarem o nosso imaginário fora das nossas fronteiras. Bacana terem lembrado dela.

Sobre o elenco, como comentei antes, os grandes destaques são mesmo Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer. Todos muito bem, firmes e precisos em seus papéis, evitando os exageros e os estereótipos. Michael Shannon combina sempre muito bem com os papéis de “meio malvado, meio louco”. Novamente ele faz bem esse personagem. Assim como Michael Stuhlbarg combina bem com o papel do sujeito “humano, demasiado humano”, que tem os seus dilemas, mas que sempre (ou quase sempre) acaba fazendo o que é certo. Estou curiosa para o dia em que Shannon e Stuhlbarg conseguirem sair desses papéis-padrão.

Como é sempre indicado para filmes que querem desenvolver os seus personagens um pouco melhor, The Shape of Water tem um pequeno grupo de personagens importantes. Os demais, que aparecem em cena, realmente são secundários e com papéis pouco desenvolvidos. Isso funciona bem aqui – e na maioria das vezes. Entre os personagens com menor relevância, vale destacar o bom trabalho de David Hewlett como Fleming, o chefe de segurança do laboratório militar até a chegada de Strickland; Nick Searcy como o General Hoyt, superior de Strickland e perfil totalmente coerente com os militares americanos da época; Nigel Bennett como Mihalkov, líder russo e superior de Dimitri; Lauren Lee Smith como Elaine Strickland, esposa de Richard; e Wendy Lyon como Sally, a secretária do vilão. Ainda que ele não “dê as caras”, tem um trabalho importante nessa produção o ator Doug Jones. Ele é que dá a vida para o “homem-anfíbio”.

The Shape of Water estreou em agosto de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de 38 festivais em diversos países mundo afora. Nessa trajetória, o filme conquistou 73 prêmios e foi nomeado a outros 231 prêmios – incluindo a indicação em 13 categorias do Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Diretor para Guillermo del Toro e para Melhor Trilha Sonora no Globo de Ouro 2018; para 12 outros prêmios de Melhor Diretor para del Toro; outros 11 prêmios de melhor trilha sonora; 16 prêmios de Melhor Atriz para Sally Hawkins; 6 prêmios de Melhor Design de Produção; 6 prêmios de Melhor Filme; e 3 prêmios para Melhor Direção de Fotografia.

Entre os prêmios de Melhor Filme, destaque para o recebido no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Guillermo del Toro disse que a atriz Sally Hawkins não foi apenas a “primeira” escolha dele para o papel de Elisa, mas a sua “única” escolha. A personagem foi escrita para a atriz, assim como o personagem de Richard Strickland para Michael Shannon. Sobre Sally, o diretor e roteirista disse que queria uma atriz que lembrasse uma mulher de um “comercial de perfume”, ou seja, que o espectador visse e acreditasse que poderia estar ao seu lado em um ônibus ao mesmo tempo que ela tivesse uma “luminosidade e uma beleza quase mágica, etérea”. Melhor definição, impossível.

O visual do “homem-anfíbio” é fortemente inspirado na “criatura” do filme The Creature from the Black Lagoon, lançado em 1954. A exemplo do personagem de The Shape of Water, que é pego em um rio na América do Sul, o personagem de The Creature from the Black Lagoon também tinha essa origem.

Guillermo del Toro escreveu longos “backstories” para cada um dos personagens principais dessa produção. Alguns tinham mais de 40 páginas. Depois de escrever esse material, o diretor deixou os atores livres para utilizarem esse material ou não. Enquanto Richard Jenkins preferiu ignorar o “backstorie” para se centrar apenas no que acontecia em cena, Michael Stuhlbarg leu o “backstorie” de seu personagem e disse que esse material foi útil para ele desenvolver o seu papel no filme.

O sobrenome de Elisa, Esposito, tem origem italiana e costuma ser dado, nos Estados Unidos, para crianças que foram abandonadas.

De acordo com del Toro, se The Shape of Water tivesse sido um fracasso, ele teria se aposentado da carreira como diretor. O mesmo aconteceu antes, na carreira dele, com El Laberinto de Fauno e com The Devil’s Backbone – outros filmes que tiveram um grande envolvimento pessoal do diretor.

A atriz Sally Hawkins disse que se inspirou em Charles Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, Buster Keaton e Audrey Hepburn para fazer o seu papel. Mistura realmente interessante, e com alguns dos grandes nomes do cinema – infelizmente pouco conhecidos pela galera nova, ultimamente.

Inicialmente, Guillermo del Toro tinha pensado em fazer The Shape of Water em preto e branco. Teria ficado interessante, mas acho que menos do que a versão colorida que vimos na telona. O diretor desistiu a ideia porque filmar em preto e branco sairia mais caro.

As filmagens de The Shape of Water, quase todas feitas dentro de um estúdio, foram feitas durante 12 semanas.

Vale citar uma interpretação interessante do roteiro feita pela atriz Octavia Spencer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chamou a atenção dela, do roteiro, que o casal de protagonista é mudo, e que a maior parte do diálogo é feita por uma mulher negra e por um homem de meia idade gay, ambos perfis oprimidos pela sociedade nos anos 1960. Eu não tinha parado para pensar nisso, mas realmente é um toque interessante do filme.

The Shape of Water faturou quase US$ 44,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos, e fez outros US$ 19,6 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Somados, esses dois resultados dão cerca de US$ 64,2 milhões para o filme. A bilheteria não é ruim, mas me parece também muito distante de um sucesso comercial para a produção. E isso porque ela recebeu 13 indicações ao Oscar 2018… pelo jeito, muitas pessoas já não dão bola para isso. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 263 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4. Os dois níveis de avaliação são muito bons, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, mas especialmente a nota dos críticos é excelente.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme lindo, em vários sentidos. Especialmente nas mensagens que ele propaga e no visual. The Shape of Water é uma produção bonita, bem acabada tecnicamente e com um bom trabalho dos atores. O roteiro, segue a linha que o realizar gosta, de contos que resgatam e renovam a tradição desse gênero. Apenas a narrativa, que convence por uma boa parte do tempo, dá uma certa “escorregada” para justificar a ação por mais tempo.

Essa é a única falha do filme que, como eu disse no princípio, faz uma bela homenagem ao cinema e ao amor nas suas formas mais surpreendentes e inusitadas. Entre outras mensagens, The Shape of Water nos mostra como todos devem ter o direito de amar e de serem aceitos como eles são. Mesmo que o “sistema vigente” não pense da mesma forma, é possível resistir e buscar isso com uma certa ajuda “dos amigos”. Belo filme. Mais um gol de del Toro.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme é um grande mistério. Ao menos se pensarmos nas chances que ele tem na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele é o recordista em indicações nesse ano, concorrendo em 13 categorias… mas ele realmente deve se consagrar como o maior vencedor do ano?

Essa é a grande questão que se apresenta. Acho sim que ele tem alguma chance de levar como Melhor Filme. Mas, para isso, ele terá que vencer o favorito Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui). Não seria uma injustiça um ou outro vencer. Mas… para o meu gosto, acho Three Billboards mais interessante que The Shape. Nem tanto pelo visual ou pelos aspectos técnicos, mas pelo roteiro.

Então, pessoalmente, acho que Three Billboards, apesar de ter quase metade das indicações de The Shape, deve se consagrar como o grande vencedor da noite – ganhando não apenas Melhor Filme, mas Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, talvez, Melhor Roteiro Original (ainda que, nessa categoria, ele corra por fora).

Vejo The Shape com maiores chances de abocanhar os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Design de Produção e Melhor Direção de Fotografia. Mas, não está descartado dele surpreender em outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora, por exemplo.

Da minha parte, ainda que eu tenha gostado muito dos atores coadjuvantes de Three Billboards, me chamou muito a atenção o trabalho de Richard Jenkins em The Shape. Ele poderia surpreender – mas nessa categoria é mais difícil o favorito Sam Rockwell não levar.

Enfim, The Shape pode sair com o Oscar principal e mais três ou quatro prêmios no Oscar 2018 como pode, também, sair com as mãos mais vazias. Espero que ele saia com alguns prêmios, porque o filme merece. Muito bem feito e com mensagens bacanas. Segundo as bolsas de apostas, as melhores chances do filme estão em cinco categorias. Tenho as minhas dúvidas se o filme levará tantas estatuetas para casa. Logo mais saberemos ao certo sobre isso.

ATUALIZAÇÃO (13/02): Olá amigos e amigas do blog! Senti a necessidade de fazer uma atualização desse texto. Até para explicar um pouco sobre as razões que fizeram eu baixar a nota do filme. Quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que essa não é a primeira vez que isso acontece. Mas, como isso não é tão comum assim, acho importante explicar o que aconteceu dessa vez.

Admito que algumas vezes, quando escrevo a crítica pouco depois de ter assistido ao filme – o que foi o caso desse The Shape of Water -, a minha avaliação ainda está positivamente contaminada pelas sensações que a produção acaba de me despertar. Mas, transcorrido algum tempo, percebe que a nota que eu dei estava acima do que deveria. Esse foi o caso.

Fiquei surpresa com a beleza e a proposta visual de The Shape of Water e, sobretudo, com a homenagem que o filme faz para o cinema. Ok, essa não é a primeira vez que um filme faz isso – na verdade, temos algumas décadas de experiência de filmes que volta e meia homenageiam a Sétima Arte. Como o cinema, para mim, muitas vezes significa o mecanismo que salva a minha sanidade, sim, eu tenho um fraco por filmes que fazem essa homenagem.

Mas, devo admitir, passado um tempo desse impacto visual de The Shape of Water, os problemas de roteiro da produção começam a incomodar mais. Especialmente pelo fato de que eles poderiam ter sido facilmente resolvidos – com um pouco de esforço de Guillermo del Toro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Então sim, me incomodaram três falhas um tanto “gritantes” nessa produção. Para começar, se Richard Strickland estava realmente desconfiando do Dr. Robert Hoffstetler, como ele não “flagrou” a visita dos russos ao “companheiro” no seu apartamento após o sequestro do “homem-peixe”? Não faz sentido.

Depois, ainda que tivesse rolado um “flerte” entre Elisa e o “homem peixe”, como eu disse na crítica, me pareceu um bocado forçada a “primeira noite de amor” entre os dois. Parecia que o diretor precisava correr com a narrativa. E, claro, durante a produção, me saltou “aos olhos” a falha comentada pelo Paulo Cesar Luz no comentário logo abaixo – pensei nisso enquanto o filme se desenrolava, mas, depois, esqueci de citar na crítica aqui do blog. Sim, me chamou muito a atenção o fato do “homem-peixe” ter sido encontrado em um “rio” da América do Sul e, depois, o cientista ter recomendado para Elisa uma solução “salina” para que ele não sofresse no cativeiro.

Ora, isso não faz o menor sentido. Claro, para a narrativa um tanto desleixada de del Toro, o “homem-peixe” precisar ficar em água salgada justificaria, depois, ele ser solto em um rio que iria desembocar no mar – caminho que ele poderia, então, “trilhar” para voltar para casa. Mas vamos combinar, então por que falar que ele foi achado em um rio? Ok, como o “homem-peixe” era capaz de “adaptar” o seu organismo para respirar na água e fora dela, ele também poderia ser capaz de se adaptar em água doce e salgada… mas isso não foi dito em momento algum da produção e, se fosse assim, ele não teria problema em ficar na água doce de uma banheira, não é mesmo?

Enfim, essas “forçadas de barra” do roteiro, os fios soltos da história que não precisavam ter sido deixados soltos – o que, para mim, só mostra desleixo de del Toro – me fizeram baixar mais a nota dessa produção. E, talvez, daqui a seis meses, eu até ache que o filme merece menos que 9. Mas é que ele é tão bonito e tão cheio de boas intenções… que vou deixar ele com essa nota por enquanto. É um bom filme, só um bocado desleixado no roteiro – nos outros aspectos ele funciona bem, especialmente no visual.

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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

Loving

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Duas pessoas se amam para valer, mas elas acabam sendo foras-da-lei por causa disso. Não porque tenham cometido algum crime, mas simplesmente porque elas têm cor de pele diferente. Esta é a história de Loving, um filme singelo e com narrativa linear que nos conta mais um capítulo da vergonhosa história de racismo nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Após um longo silêncio, Mildred (Ruth Negga) diz para Richard (Joel Edgerton) que está grávida. Ele ri e diz “ótimo”. Fica feliz com a notícia, o que alivia a preocupação de Mildred. Corta. Em uma disputa entre dois motoristas, o carro preparado por Richard ganha a disputa. Ele comemora com Mildred e não se importa de destoar do grupo de negros sendo o único branco da turma. Do outro lado da pista, um grupo de brancos, que perdeu a disputa, olha torto para o casal. O preconceito contra eles mal começou a aparecer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving): O que me atraiu neste filme foi a indicação dele ao Oscar de Melhor Atriz para Ruth Negga. Simpatizei com a atriz na entrega do Oscar e senti a necessidade de conferir o seu trabalho nesta produção.

Ruth Negga faz um belo trabalho em Loving, mas achei o desempenho dela tão bom quanto do ator Joel Edgerton, protagonista da produção também. O diretor Jeff Nichols, que também escreveu o roteiro de Loving, acertou a mão ao tentar contar a história o mais fiel possível com a realidade. Porque sim, este é mais um filme desta temporada do Oscar baseado em uma história real.

Diferente até do que tem sido cada vez mais recorrente no cinema de Hollywood, de filmes recheados de histórias fragmentadas e/ou com um bocado de flashbacks, Loving investe em uma história linear. Vejo que esta foi uma boa escolha de Nichols. Apenas senti falta, na história, de saber um pouco como o casal Mildred e Richard se conheceu. Faltou um pouco de romance, para o meu gosto.

Mas algo bacana do filme é o retrato bem realista dos personagens. Mildred era uma mulher simples, assim como Richard era um operário típico dos Estados Unidos. Os atores que os interpretam e o roteiro de Nichols conseguem construir muito bem estes perfis. No geral, Richard é um cara silencioso e muito trabalhador. Ele tem um olhar carregado de amor e de cuidado para Mildred. Ela, que acaba segundo as pontas em casa, se revela uma mulher com consciência racial e de justiça muito interessante.

O casal foi esperto em seguir a ordem judicial por um tempo, indo morar em Washington de favor. Mas quando um dos filhos dele sofre um acidente, Mildred resolve dar um basta para aquela rotina. Ela nunca quis deixar o interior, tipo de vida que ela sempre conheceu. E é assim que eles vivem diversos anos como foras-da-lei e se escondendo não muito longe de onde moram os pais dos protagonistas.

A minha única dúvida é se eles não sofreram mais hostilidades do que aquele episódio de uma “mensagem velada” que Richard recebe no carro dele. Especialmente quando o casal acaba aparecendo mais na imprensa, acho difícil eles não terem sido alvo de mais problemas. Mas o filme não mostrou isso, então há que se respeitar a escolha de Nichols, ainda que eu gostaria de ver ainda mais realidade na tela.

Sobre a história, Loving mostra de forma simples e honesta como a legislação nos Estados Unidos demorou para se libertar dos tempos de escravidão. É um absurdo pensar que duas pessoas simplesmente não poderiam ficar juntas por causa da cor de suas peles. Não tem o mínimo cabimento. Por isso mesmo é ultrajante o comportamento racista do delegado que prende o casal e que penaliza mais a mulher. Não apenas por ela ser mulher, mas especialmente por ser negra, e sem se importar se ela estava grávida – muito pelo contrário.

Impossível não achar aquela sequência absurda. A sorte é que o protagonista era um sujeito simples, mas controlado. Alguém um pouco mais “latino” teria perdido o controle e colocado tudo a perder. De qualquer forma, revoltante o tratamento dado a Mildred e também revoltante a condenação deles. Justamente por esta história precisar ser contada que eu dei a nota abaixo para o filme.

Sobre a interpretação de Ruth Negga, acho que ela se sai muito bem no papel principal. Ela não exagera na interpretação e faz uma entrega muito coerente e que passa legitimidade. Agora, ela merecia uma indicação como Melhor Atriz no Oscar? Francamente, acho que merecia mais que ela estar lá a atriz Amy Adams por seu excelente trabalho em Arrival (com crítica neste link). Mas, em um ano em que Emma Stone ganha a estatueta no lugar de Natalie Portman e Isabelle Huppert, não é possível exigir muita coerência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, não é mesmo?

No geral, a história de Loving é importante e merece ser conhecida. Só que por não explorar tanto o romance entre os protagonistas ou mesmo a relação deles com outros personagens, a história acaba sendo um tanto burocrática demais. Mas, no geral, vale ser visto, especialmente em casa.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Adam Stone e para a trilha sonora com bom resgate de época e bem pontual de David Wingo.

Além dos protagonistas já citados e que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Chris Greene como Percy, o amigo mais próximo de Richard; Sharon Blackwood como Lola, mãe do protagonista; Christopher Mann como Theoliver, pai de Mildred; Marton Csokas como o sheriff Brooks; Bill Camp como o advogado Frank Beazley; David Jensen como o juiz Bazile; Jevin Crochrell e Brenan Young interpretam Sidney, primeiro filho do casal de protagonistas; Jordan Williams Jr. e Dalyn Cleckley interpretam Donald, o segundo filho deles; Georgia Crawford e Quinn McPherson interpretam Peggy, a caçula do casal; Nick Kroll interpreta ao advogado Bernie Cohen, figura fundamental na causa dos protagonistas; Jon Bass interpreta ao advogado Phil Hirschkop; e Michael Shannon faz uma ponta como o fotógrafo da Life Grey Villet.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Jeff Nichols. Ele estreou em 2007 com Shotgun Stories e, no ano passado, lançou Midnight Special. O diretor de 38 anos de idade já tem 21 prêmios no currículo. Dirigido por ele, antes de Loving, eu assisti a Mud (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 185 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

Loving teria custado cerca de US$ 9 milhões e faturado, apenas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,7 milhões. Ou seja, até o momento, o filme está dando prejuízo.

Este filme, que até o momento tem 21 prêmios, é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Uma história importante para a evolução dos Estados Unidos e que é contada de maneira muito franca e singela. Uma das qualidades do filme é que ele não exagera em suas tintas e nem no sentimentalismo. Loving conta a saga do casal que foi proibido de ficar junto e que conseguiu permanecer unido apesar da lei e de diversas pessoas serem contra. Boa história, com atores afinados, bela fotografia, Loving só não tem força para entrar na lista das produções inesquecíveis.

Mud – Amor Bandido

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Gosto de filmes com garotos. Porque estas produções, normalmente, resgatam aquele desejo de aventura e de descobrir o que ainda não se sabe antes da fase adulta, quando o cinismo costuma entrar em cena. Mud segue a tradição de filmes do gênero e nos apresenta uma obra singela, mas muito interessante. Destas que fazem a gente pensar sobre as nossas apostas, nos conceitos e sentimentos que queremos seguir acreditando, e na necessidade de saber quando dar o passo adiante.

A HISTÓRIA: Brinquedos e lembranças marcadas pelo tempo decoram o quarto de Ellis (Tye Sheridan). O garoto está sentado no escuro, à espera de um sinal. Quando o walkie-talkie que ele tem na mão toca, Ellis age. Saindo de casa, ele escuta a mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), falando que está cansada de morar ali. O marido (Ray McKinnon) escuta sem tirar os olhos do jornal. Ellis parte para uma aventura com o amigo Neckbone (Jacob Lofland). Eles vão conferir a história de que existe um barco abandonado sobre uma árvore em uma ilha próxima. Lá, Ellis e Neckbone conhecem a Mud (Matthew McConaughey), um sujeito com uma história atribulada e que vai alterar a rotina dos garotos a partir do encontro com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mud): Como comentei lá no início, sempre gostei de filmes que tem na aventura de dois ou mais garotos o seu mote principal. Não por acaso dois dos meus filmes preferidos de todos os tempos são Stand By Me, do diretor Rob Reiner, baseado em um livro de Stephen King, e The Goonies, dirigido por Richard Donner, com roteiro de Chris Columbus sobre uma história de Steven Spielberg.

Claro, vocês podem falar, que Stand By Me, The Goonies e Mud são muito diferentes entre si. Verdade. Mas este trio de filmes guarda alguns elementos em comum. Para começar, todos são narrados sob a ótica de um par de garotos. Assim, a essência das histórias parte do desejo pelo conhecimento e por aventura que é típico desta fase da vida. Por isso, cada uma destas histórias, a sua maneira, está cheia de encantamento, de curiosidade e do vigor da juventude. Os três filmes também tratam de amizade, um tema que sempre esteve entre os meus preferidos.

Mas as semelhanças terminam aí. Mud é um filme mais adulto que os citados neste texto e que marcaram a década de 1980. Mas este viés do roteiro não se esforça para isso, o que é fundamental para o filme funcionar. Ou, em outras palavras, o roteiro do diretor Jeff Nichols prima pela fluência, pela busca pela legitimidade da história, e não força a barra procurando frases clássicas ou surpresas inusitadas na ação. O que é um alívio para quem já viu muito roteiro com esse tipo de “artimanha”.

Ainda que o espectador aguarde que algo de ruim aconteça a qualquer momento, o desfecho do filme dificilmente será previsto. Então há surpresa, o que também é um grande trunfo para qualquer filme. Mas o que realmente me encantou nesta produção é a essência da história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei uma grande sacada de Nichols colocar como protagonista desta história o garoto Ellis. Ainda que o filme leve o nome de Mud, ele não é o personagem central. Ellis é o narrador, e a figura central da história porque ele carrega a ação. As principais decisões são dele, e a história só acontece da forma com que acontece por causa do garoto. E a sacada acertada de Nichols é ter um garoto em fase de desenvolvimento confrontado com uma das grandes indagações da vida: afinal, vale a pena acreditar no amor? Sacrificar-se por ele?

Indagação fantástica para um filme, não é mesmo? Quase todas as produções românticas abordam esta questão, de uma forma ou de outra. Mas poucas conseguem fazer isso com a inteligência deste filme de Nichols. Ellis vive um momento difícil, de ruptura, algo que é apresentado a ele e para a gente, por tabela, logo nos primeiros minutos do filme. Mas vamos entender isso em profundidade apenas depois. Este é outro acerto do texto do diretor: a compreensão dos fatos vai se desdobrando para o espectador na mesma medida em que o entendimento bate para o protagonista.

Mesmo sendo adulta e tendo vivido mais que Ellis, eu demoro mais neste jogo porque não tenho as informações que o personagem tem. Essa técnica de Nichols mostra a inteligência do roteiro. Mas as qualidades não terminam aí. Ellis fica encantado com Mud por mais de uma razão. Primeiro, e isso fica evidente mais tarde, com um comentário de Juniper (Reese Witherspoon) porque o personagem de Matthew McConaughey sabe como fascinar uma pessoa, fisgá-la com as suas histórias. Depois, porque com a separação iminente dos pais, Ellis vê na história de Mud e Juniper uma alternativa para continuar acreditando no amor.

O próprio Ellis, como pede qualquer filme que tem a passagem da inocência da infância para a maturidade da vida adulta como pano de fundo, está vivendo a descoberta do amor. Ele está encantado por May Pearl (Bonnie Sturdivant), uma garota de 16 anos – ele tem 14 – que, não por acaso, tem o nome composto como a mãe de Ellis. Aliás, nada neste roteiro sobra ou existe por acidente. Cada fala, cada imagem da cidade ou do entorno do rio, cada personagem tem uma razão de ser nesta produção.

Mud e Juniper destoam das pessoas da cidade nos Estados Unidos onde se passa esta história. Ao redor de Ellis e do amigo Neckbone, que comandam as “aventuras” desta produção, o cenário é de poucas oportunidades e de sacrifícios. Os homens costumam falar pouco, a exemplo do pai de Ellis. E as mulheres… bem, elas tem dificuldade de diálogo com os homens e, aparentemente, estão no comando da situação – vide May Pearl e Mary Lee. O que resta, neste cenário, para garotos como Ellis e Neckbone?

Eles se divertem com a realidade que tem. Mas quando Ellis fica fascinado com Mud e encara os desafios que ele vai colocando na sua frente como uma verdadeira missão, aquele entorno difícil do rio ou do centro urbano da cidade fica em segundo plano. Mais uma explicação para o fascínio de Ellis, que tem naquela aventura uma válvula de escape para a separação dos pais e para a consequente mudança no estilo de vida que ele terá ao deixar a casa ribeirinha.

Interessante como, no início, Ellis é movido apenas pelo sentido de “ajuda ao próximo”. Quando Neckbone pergunta para o amigo porque ele está ajudando ao desconhecido Mud, o protagonista responde de forma direta que é porque aquilo “é o certo a fazer”. Depois, quando os garotos conhecem Juniper, eles ficam fascinados por aquela bela mulher, e a motivação de Ellis tem a ver com a defesa de sua própria crença do amor.

Que história maravilhosa, não é mesmo? Fiquei encantada com este filme. E apenas não dou um 10 para ele porque acho que Reese Witherspoon destoa do conjunto da obra. Tanto a personagem dela não é bem explorada pelo roteiro – talvez o único pecado de Nichols -, quanto a interpretação da atriz me pareceu um pouco displicente. Não percebi o mesmo envolvimento dela do que dos outros atores. Mas esse deslize não tira o brilho dos méritos citados desta produção.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Neste filme não faz falta e nem sobram personagens. Até os atores coadjuvantes tem o seu tempo e o espaço adequado – a exceção fica apenas com a personagem de Juniper. Talvez a mãe de Ellis poderia aparecer um pouco mais, alguém pode dizer. Talvez. Mas acho que também há lógica na escolha de Nichols de fazer com que Mary Lee tenha o poder de decidir o futuro do protagonista e de sua família, ao mesmo tempo em que sobra para o pai dele, alguém com pouca criatividade para contra-argumentar, mais espaço para lamentar-se.

A postura do pai de Ellis, aliás, me faz refletir sobre como as pessoas que se colocam sempre na posição de vítimas são cansativas e, normalmente, não conseguem resolver os seus próprios problemas. Isso porque elas são muito “boas” contaminando o ambiente e jogando umas pessoas contra as outras, mas não conseguem assumir uma posição de resolução dos problemas ao encontrar saída para as suas próprias fraquezas e equívocos.

Mesmo com a reflexão anterior, devo dizer que uma outra sacada desta produção me impressionou pela sua eficácia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A forma muito natural com que Nichols “humaniza” estereótipos que estamos acostumados a ver nas reportagens dos jornais ou nas conversas de psicólogos. Isso vale tanto para a “vítima constante” e que não consegue sair de seu papel vivida pelo pai de Ellis, quanto pelo “bandido charmoso” Mud. Quem pode julgá-los? Quem pode defendê-los ou atacá-los? Cada personagem tem as suas razões e consegue, a seu próprio modo, causar empatia, pena ou apenas reflexão.

Gostei muito do final de Mud. Não apenas por ele terminar com aquele espírito “esperançoso”, mas principalmente pelo gesto de Ellis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O protagonista desta produção nos dá mais uma lição, além daquela de ajudar ao próximo que ninguém ousaria auxiliar, que é a de aprender com o que viveu com a aparição de Mud. Se ele ficou frustrado com Juniper, esta decepção não foi suficiente para ele descartar o amor como um plano viável. May Pearl foi igualmente uma decepção? Pois com a mudança de casa e de vida, Ellis fica atento às novas possibilidades. E segue em frente. Palmas pra ele!

O pai de Ellis me parece o típico “machão”. Capaz de ter uma conversa franca com o filho, de falar o que pensa para ele, mas incapaz de dialogar com a própria mulher e de pensar diferente do que pensa atualmente. Em outras palavras, ele não tem condições de “pensar fora da caixa”, de se recriar quando é preciso e quando acha que é necessário. Uma pena. E o pior de tudo é que existem tantas pessoas assim – tanto homens quanto mulheres. Ô dó!

Fiquei encantada com os garotos que interpretam os protagonistas deste filme. Tye Sheridan e Jacob Lofland estão perfeitos, de tirar o chapéu. Especialmente o primeiro, que merece ser indicado para alguns prêmios. Além deles, gostei do desempenho de Matthew McConaughey. Acho que é a melhor interpretação dele, exatamente no tom necessário, em muito tempo. Quando ele assume a postura de “herói”, mostra como tem perfil para este papel. Um verdadeiro deleite. 🙂

Além deles, vale citar mais um belo trabalho de Sam Shepard, que interpreta a Tom Blankenship, o homem que criou Mud. Ray McKinnon e Sarah Paulson, que interpretam aos pais de Ellis, estão precisos – sem displicência e sem exageros – em seus papeis. E o ótimo Michael Shannon faz um papel bem secundário, quase uma ponta como Galen, tio de Neckbone e responsável pelo garoto.

Os vilões desta produção tem um desempenho menor. São praticamente coadjuvantes. Mas vale citar os atores que interpretam as ameaças principais: Paul Sparks vive Carver, o primeiro perseguidor de Mud que aparece em cena; e Joe Don Baker, bastante irreconhecível, interpreta a King, pai de Carver.

Da parte técnica do filme, destaco a excelente trilha sonora de David Wingo, parte fundamental para ajudar o filme a ter ritmo; a direção de fotografia equilibrada de Adam Stone, e a edição detalhista de Julie Monroe.

Além de um roteiro que beira a perfeição, Jeff Nichols tem uma direção segura, que equilibra o foco das lentes da produção nos atores e seus personagens tanto quanto no entorno que ajuda a explicá-los. Gosto dos silêncios desta produção, assim como das interações entre os atores. Os garotos roubam a cena, e é encantadora a franqueza deles – algo que muitas vezes falta para os adultos, habituados a jogos de poder e de dissimulação.

O tom principal deste filme é o de aventura, mas há drama, tensão e, porque não, comédia e humor no meio. Uma obra completa e que tem ritmo e estilo.

Este é o terceiro longa-metragem do jovem roteirista e diretor Jeff Nichols. Nascido no Arkansas, ele tem 34 anos – fará 35 em dezembro – e é irmão de Ben Nichols, vocalista da banda Lucero. Antes de Mud, ele filmou Shotgun Stories e Take Skelter, ambos bem cotados no site IMDb. Algo em comum entre os três filmes dirigidos por Nichols é a participação do ator Michael Shannon.

Mud estrou em maio do ano passado no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles.

O terceiro filme de Nichols arrecadou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 21,57 milhões até o último dia 18. Um bom desempenho.

Mud foi rodado em diversas cidades do Arkansas, terra natal do diretor. As principais locações foram feitas em Eudora, Dumas e Stuttgart.

Agora, uma curiosidade da produção: pouco mais de 2 mil garotos participaram das audições para a escolha de quem faria o papel de Neckbone. E outra: Mud foi filmado em oito semanas, com a maior parte do elenco secundário formada por habitantes do Arkansas, incluindo cerca de 400 pessoas contratadas como figurantes.

Eu entendo que as distribuidoras brasileiras sempre se preocupam em tornar os nomes dos filmes mais “acessíveis” e compreensíveis, mas Amor Bandido entrou na lista das escolhas lamentáveis. Era melhor ter deixado Mud. Pelo menos, seria mais coerente com o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Mud. Uma avaliação muito boa, levando em conta o histórico do site. Mais animados que os internautas estão os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles escreveram 154 textos positivos e apenas três negativos, o que garante para o filme uma aprovação impressionante de 98% e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Quem não gostaria de manter a inocência e o vigor da infância para sempre? Mas a vida “ensina”, como nos dizem desde sempre, e com o tempo algumas crenças ficam mais difíceis. Mud trata da diferença da visão de mundo das pessoas, principalmente o que diferencia a postura de adultos e crianças. A motivação do nosso protagonista é a mais simples possível – e, ao mesmo tempo, complexa. Ele quer comprovar que é possível a vitória do amor. Existe algo mais belo e motivador?

O roteiro e a direção de Mud são perfeitos, porque não exageram em nenhuma dose. A impressão que o espectador tem é que está diante de uma história curiosa e que vai crescendo com o tempo. Existe a expectativa de algo ruim pode acontecer a qualquer momento, e este suspense, mas sem exagerar no peso dele, dá ritmo para a produção até o desfecho final. Há covardia e heroísmo nesta história. Clareza nos propósitos, obstinação e fuga. Quase todas as interpretações estão irretocáveis. Mas alguns detalhes não deixam o filme chegar à perfeição. Mas quem se importa? Eis um belo exemplar de cinema, e é isso o que interessa. Vale ser visto com a cabeça fresca, aberta e conectada nas tuas próprias experiências de vida.