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Knives Out – Entre Facas e Segredos

Uma trama que lembra muito o espírito dos romances de Agatha Christie. Knives Out conta a história de um suicídio que tem tudo para ter sido um assassinato. Mas quem cometeu o crime? E, de fato, ele foi um crime? Com um elenco estelar, um roteiro envolvente e com uma boa dose de ironia para as tramas do gênero, esta produção surpreende mesmo quem está habituado a “matar a charada” em filmes do gênero. Entretenimento simples e direto. Como Agatha Christie.

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All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

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Remember – Memórias Secretas

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Não é algo simples pegar um gênero do cinema e subvertê-lo. Quanto mais pegar duas temáticas bem utilizadas na Sétima Arte e mostrar uma forma diferente do público relacionar-se com elas. Pois é exatamente isso que Remember faz. Este não é um filme fácil de ser assistido, e por muitas razões. Especialmente pela fragilidade dos personagens principais – ao menos para mim esse fato teve um grande impacto. Além disso, nesta produção não será difícil, além da sensação de mal estar, você constantemente esperar que algo de ruim aconteça. É um filme forte e interessante.

A HISTÓRIA: Zev (Christopher Plummer) dorme profundamente e, quando começa a acordar, chama por Ruth. Ele não a encontra na cama, mas vê sua roupa e chapéu pendurados no cabideiro. Ao sair do quarto, ele pergunta pela sua esposa. A cuidadora Paula (Kim Roberts) lhe informa que Ruth faleceu há uma semana. Ele se senta, e Paula sugere que ele vá tomar o café da manhã. Lá ele se encontra com Max (Martin Landau), que comenta que aquele será o último dia do shivá em homenagem a Ruth. Daí Max pergunta a Zev se ele lembra o que ele prometeu que faria após a morte de Ruth. Zev não se recorda, mas Max diz que não há problema algum porque ele escreveu tudo em uma carta para ele se lembrar. A partir desta carta Zev vai empreender a sua própria missão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Remember): Não sei vocês, mas em diversas ocasiões eu já pensei que se eu tiver sorte de viver muitos anos, não seria nada raro ser acometida de alguma doença degenerativa. Isso é algo que pode acontecer com qualquer um de nós se chegarmos a uma idade avançada. Essa fragilidade do protagonista de Remember é um elemento fundamental para esta produção.

Para muitos será fácil se colocar no lugar de Zev. E mesmo quem não faz esse exercício dificilmente vai ficar alheio à fragilidade do personagem. Ele sofre de demência, mas isso não me impediu de lembrar de dois outros filmes que tratam sobre as angústias do esquecimento: Memento e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Aliás, recomendo muito estas duas produções, caso você, meu caro leitor e leitora, não tenha tido ainda a oportunidade de assisti-los.

Mas voltemos para Remember. Esta produção trata o esquecimento com franqueza. Sempre é angustiante pensar na rotina de alguém que tem a memória recente “zerada” de tempos em tempos. A exemplo do que acontece com o personagem de Memento, Zev utiliza de diferentes maneiras para começar a driblar o esquecimento, de anotar no punho que deve ler a carta até manter a carta com todas as informações principais sobre a sua circunstância atual e sobre o que ele se propôs a fazer por perto.

O esquecimento é um elemento fundamental desta história. Conforme a narrativa se desenrola, vamos conhecendo melhor as motivações de Zev, o que ele está procurando e de que forma o plano foi bem arquitetado para que ele avançasse. Mas daí vem o primeiro grande questionamento desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas eu não demorei muito para duvidar sobre a origem dos planos de Zev. Afinal, foi ele mesmo que planejou tudo aquilo e que queria se vingar ou isso seria um plano de Max que, sabendo do estado mental do amigo, estava o utilizando para conseguir os seus fins?

Mesmo pensando isso já meio no início do filme – mais ou menos à altura do roteiro em que Zev compra a arma -, admito que o final da produção me surpreendeu mesmo assim. Mas falemos do final mais tarde. Novamente o diretor Atom Egoyan, desta vez trabalhando com o roteiro de Benjamin August, subverte uma história e a torna provocativa. Se o esquecimento não é, exatamente, uma novidade no cinema, e muito menos uma história de vingança, por que este filme impacta tanto?

Para mim, primeiro, pela fragilidade dos personagens principais. Depois, pelo suspense do ótimo roteiro de August que nos faz acompanhar Zev sem a segurança de que ele não poderá se perder no caminho. A exemplo do que acontece com a personagem de Julianne Moore no ótimo Still Alice (comentado aqui), Zev também pode se perder a qualquer momento porque a sua lucidez não é mais tão à prova do desenrolar dos fatos.

Depois, existe a insegurança sobre a verdade por trás da motivação da vingança. Realmente o que está escrito na carta é verdadeiro? Como Zev pode ter certeza sobre a legitimidade dos seus atos – ainda que, aparentemente, ele não questione isso em momento algum. Mas nós, espectadores, sim podemos questionar as suas ações no lugar dele. Christopher Plummer é um ator gigante, e ele passa muita veracidade em cada ato no filme. Então é de cortar o coração pensar que ele pode estar sendo movido por algo que não a sua própria vontade.

Além desta angústia permanente durante a produção, é interessante ver como um filme de vingança pode ser tão diferenciado do que estamos acostumados a ver. Não apenas pelas características do justiceiro, mas pela motivação dele. E aí entramos em outro tema bem tratado pelo cinema: as feridas deixadas pelo nazismo entre os sobreviventes do Holocausto. Alguns filmes já trataram deste tema especificamente – como Wakolda (com crítica aqui no blog). Mas poucos – pessoalmente eu não lembro de nenhum – se deteve em contar um pouco da história dos sobreviventes judeus e alemães.

Remember faz essa imersão interessante em um tema tão controverso. Grupos de judeus realmente procuraram caçar os algozes nazistas, mas normalmente os filmes a esse respeito mostram mais a caçada do que a realidade ou um pouco da história dos diferentes personagens. O roteiro de August tem o cuidado de fazer as duas coisas, mostrar o processo de vingança de Zev e Max e também um pouco dos personagens que o primeiro vai encontrando no caminho. Cada um tem a sua história e ela é rapidamente mostrada nesta produção.

Enquanto isso, pincelado aqui e ali no filme, vemos a preocupação do filho de Zev, Charles Guttman (Henry Czerny), em encontrar o pai. De forma muito inteligente a viagem de Zev é planejada para pagamentos em dinheiro. Desta forma, ele acaba não sendo rastreado pelo uso do cartão de crédito. Perto do final, contudo, ele acaba usando o cartão, e é aí que o desfecho da história ganha um interesse e um testemunho de Charles Guttman especial.

O trabalho de Plummer e o de Landau mereciam indicações ao Oscar, a meu ver. Eles estão soberbos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sobre o final, ainda que eu desconfiasse que Zev estava sendo usado por Max para que ele atingisse o seu próprio propósito, eu jamais poderia imaginar que a identidade de Zev seria descoberta daquela forma. Impressionante a força do final. Max esperava que não apenas Zev cumprisse a missão de encontrar e eliminar o algoz nazista, mas que ele próprio tivesse o fim que teve.

Neste ponto vem o único porém que eu tive com este filme. Afinal, tendo feito tudo o que fez, Zev realmente optaria por aquele tiro final? Eu acho questionável mas, por outro lado, entendo a proposta de August e Egoyan. Por maior criminoso que alguém for, se ele não tiver a memória de seus atos e for “surpreendido” lá pelas tantas pela verdade vindo à tona, ele não se arrependerá? Ele não terá tanta vergonha de ter os atos descobertos que não terá vontade de morrer?

Não sabemos exatamente a motivação do ato de Zev – ela está aberta para interpretações -, mas a saída que ele encontrou certamente era a que Max esperava. Jogada de mestre dele, pois. Mas honestamente eu tenho as minhas dúvidas se o Zev original realmente faria aquilo. Ele até poderia atirar no ex-amigo, mas acho que dificilmente teria aquele ato final. Enfim… De qualquer forma, é um filme impactante sob qualquer ótica. Mais um acerto de Egoyan.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco escolhido a dedo pelo diretor Atom Egoyan e sua equipe é de tirar o chapéu. Christopher Plummer ganha o protagonismo que ele merece e dá um show de interpretação. Como ele é o personagem que puxa a narrativa, os outros atores em cena tem um papel bem menor que ele, são interpretações secundárias. Ainda assim, sem dúvida alguma merece destaque o bom trabalho de outro veteraníssimo de tirar o chapéu: Martin Landau. Apenas por ter unido estes dois gigantes e dado para eles o protagonismo deste filme, Egoyan e equipe já estão de parabéns.

Além destes dois gigantes do cinema, Remember tem alguns nomes interessantes em papéis secundários. Além do já citado Henry Czerny, que interpreta ao filho do protagonista, temos os veteranos e muito bons atores Bruno Ganz como o primeiro Rudy Kurlander; e Jürgen Prochnow com uma maquiagem pesada – ele é o mais jovem dos atores que vivem o personagem-alvo de Zev – como o quarto Rudy Kurlander. Vale destacar o trabalho de Dean Norris como John Kurlander, filho do terceiro Rudy Kurlander que o protagonista procura. Quem assistiu Breaking Bad vai se lembrar bem do ator. Ele está muito bem no filme – e a sequência dele com Rev é de arrepiar.

Outros atores em papéis secundários que merecem ser citados: James Cade como o vendedor da loja de armas; Peter DaCunha como Tyler, o garoto que interage com Zev no primeiro trecho da viagem dele, no trem; Sofia Wells como Molly, a menina que ajuda Zev no hospital ao ler a carta para ele; Heinz Lieven como o segundo Rudy Kurlander; Stefani Kimber como Inge e Jane Spidell como a mãe dela, Kristin, respectivamente neta e filha do último Rudy Kurlander.

O estilo de direção de Atom Egoyan é estar sempre próximo dos atores, especialmente de Christopher Plummer. A câmera atenta do diretor mostra cada expressão, momento de tensão e medo do personagem, assim como o seu caminhar e a sua forma de lidar com cada situação. Egoyan também utiliza diferentes planos de câmera para reforçar a mensagem que ele quer passar – exemplo disso são as diferenças de nível na sequência entre Zev e John Kurlander. Enfim, o diretor sabe muito bem utilizar os recursos técnicos a favor da narrativa.

Sempre alguns elementos técnicos se destacam mais que outros em uma produção. No caso de Remember, a trilha sonora é um ponto-chave. Mychael Danna faz um bom trabalho com uma trilha bastante presente e de suspense. Quando a trilha não está presente é para tornar o momento ainda mais especial – como no final da sequência entre Zev e John Kurlander. Outros destaques na parte técnica deste filme são a direção de fotografia de Paul Sarossy; a edição de Christopher Donaldson; e a decoração de set de Danny Burke, Elizabeth Calderhead, Brett Jones e Helen Kaneva. Fazem um bom trabalho também Debra Hanson com os figurinos; Rory Cheyne com a direção de arte e Matthew Davies com o design de produção.

Remember estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme passaria ainda por outros 11 festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 14. Os que ele recebeu foram o de Melhor Roteiro Original no Canadian Screen Awards; o Cinecolor Audience Award para Atom Egoyan no Festival de Cinema de Mar del Plata; e o Vittorio Veneto Film Festival Award para Atom Egoyan no Festival de Cinema de Veneza. Ele também ficou em segundo lugar na escolha do público na categoria World Cinema do Festival de Cinema de Mill Valley.

Esta é uma coprodução entre o Canadá e a Alemanha.

Remember teria custado 13 milhões de dólares canadenses. Nos cinemas dos Estados Unidos o filme teria feito pouco mais de US$ 600 mil, uma quantia bem pequena para os padrões americanos. Segundo o site Box Office Mojo, levando em conta a bilheteria mundial da produção, ela teria conseguido pouco mais de US$ 1,95 milhão. Ou seja, até o momento, dando um belo prejuízo. Pena que este filme não foi descoberto por mais gente. Ele merece ser visto, especialmente pelo roteiro e por Plummer.

O filme foi totalmente rodado no Canadá, em locais como Toronto, Alberta, Hamilton e Sault Ste Marie.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O roteiro de Remember consultou especialistas em Alzheimer para que eles garantissem que a história retratasse as condições de um idoso que sofre com a demência com precisão.

As cenas em que Christopher Plummer toca piano são realistas. O ator realmente executou as peças que aparecem no filme.

Durante o Holocausto, os prisioneiros dos campos de concentração só receberam tatuagens no complexo de Auschwitz. Apenas os prisioneiros escolhidos para o trabalho forçado recebiam números em série. Os outros prisioneiros, que chegavam de trem, eram enviados diretamente para as câmaras de gás, onde eram mortos. Estes prisioneiros nunca foram registrados e não recebiam tatuagens. Esta é uma razão que dificulta, até hoje, saber o número exato de mortes no local.

Inicialmente o ator alemão Günter Lamprecht foi escalado para dar vida ao quarto Rudy Kurlander, mas como o ator teve uma lesão no joelho, ele acabou sendo substituído por Jürgen Prochnow.

Christopher Plummer ficou irado quando o diretor sugeriu fazer a cena do sofá com um dublê. Ele mesmo fez questão de fazer aquela sequência.

O diretor egípcio Atom Egoyan tem 39 títulos no currículo, incluindo longas, curtas, séries e filmes para a TV. Até o momento ele acumula 56 prêmios e duas indicações para o Oscar – ambas pelo filme The Sweet Hereafter, de 1997. O cinema trilhado por ele é provocador. Que eu tenho lembrança, assisti dele, entre os filmes mais recentes, Chloe (comentado aqui) e lá atrás, quase no começo do blog, quando o formato de publicações ainda não era bem o atual, o filme Where The Truth Lies (que pode ser acessado neste link). Vale acompanhá-lo, apesar do cinema dele nem sempre ter tanta qualidade quanto ele gostaria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos entusiastas da produção. Eles dedicaram 52 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Este filme trata de dois temas, basicamente: vingança e Auschwitz. Ou seja, dois temas já beeeeeem tratados pelo cinema mundial – especialmente o americano. Por isso mesmo, Remember poderia ser um filme previsível, “mais do mesmo”, mas ele é tudo menos isso. Da escolha dos personagens até a narrativa e, especialmente o final, Remember é uma destas produções que consegue subverter os gêneros que o filme aborda. A angústia é uma sensação presente, assim como a curiosidade sobre o desenrolar da história. Mais um belo trabalho do diretor Atom Egoyan, geralmente provocativo. Vale ser visto, com certeza, mas tenha certeza que não sairás deste filme incólume.

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The Imaginarium of Doctor Parnassus – O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

Um diretor genial, um elenco estelar, o último trabalho de um ator premiado como Heath Ledger e, ainda assim, The Imaginarium of Doctor Parnassus parece uma obra inacabada. Algo está faltando. Ou muita coisa parece ter ficado no caminho. O mundo extraordinário do personagem título não convence como deveria. Em uma era em que James Cameron busca a perfeição em 3D, o filme de Terry Gilliam parece traços de um amador ou uma caricatura de um iniciante. Mesmo a história, que bebe na já conhecida lenda do “homem que tentou enganar o diabo”, não apresenta nada de novo, não reinventa a fórmula e, mesmo que tudo isso não seja necessário, nem mesmo convencer o filme convence. Falta encantamento e espaço para que o espectador possa explorar a sua imaginação – no filme de Terry Gilliam tudo é explicado demais.

A HISTÓRIA: Em Londres, uma companhia de artistas mambembe  busca público para seu espetáculo The Imaginarium of Doctor Parnassus. O jovem Anton (Andrew Garfield), vestido de Mercúrio, tenta chamar as pessoas que passam, mas ele não consegue atrair ninguém. Exceto por um grupo de jovens que beberam demais e que estão saindo da boate Medusa. Liderados por Martin (Richard Riddell), eles se aproximam do espetáculo, mas apenas Martin resolve perseguir a bela Valentina (Lily Cole), filha do Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Tentando escapar do bêbado abusado, Valentina entra no espelho mágico. Lá dentro, Martin se perde em um mundo irreal criado por sua imaginação e estimulado pelo Dr. Parnassus. Em permanente movimento, o espetáculo muda de local e, no caminho, Dr. Parnassus volta a se encontrar com um antigo parceiro de apostas, Mr. Nick (Tom Waits). Perto de perder mais uma delas, Dr. Parnassus joga as cartas do baralho e pressente a chegada de Tony (Heath Ledger), um jovem desmemoriado que irá mudar a vida do grupo para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imaginarium of Doctor Parnassus): Respeito muito o trabalho do diretor e roteirista Terry Gilliam. Ele é uma verdadeira lenda. Um dos remanescentes do genial grupo inglês Monty Phyton, Gilliam sobreviveu ao tempo e ainda produziu outros trabalhos independentes incríveis, como Twelve Monkeys e Fear and Loathing in Las Vegas. Prestes a completar 70 anos, contudo, ele deu um palso em falso com esta produção sobre o Dr. Parnassus. Em breve, quando estrear o novo filme de outro gênio dos cinemas, Tim Burton, Alice in Wonderland, ficará ainda mais evidente como Dr. Parnassus parece uma tentativa frustrada ou o trabalho de um amador.

Sem problemas um filme ser “nonsense” ou explorar de maneira descarada a imaginação cheia de simbolismos e lógicas escondidas. Esse não é o problema. A questão é que Dr. Parnassus não tem uma história interessante que sustente toda a “viagem” imaginada por Terry Gilliam. E o pior: na fase de alta tecnologia em que estamos, um filme não pode ficar no meio do caminho entre o artesanal e o visual produzido pela alta tecnologia. Em outras palavras, é possível sim produzir ainda obras no melhor estilo de Fellini, em que a imaginação ganha uma tintura quase teatral. O que não convence é quando Gilliam tenta fazer algo que mistura artesanato com alta tecnologia. Isso funcionava na década de 70, nos filmes revolucionários do Monty Phyton, mas agora essa estética parece apenas fora de moda.

Salta aos olhos do público efeitos especiais de quinta ou, sendo gentil, terceira categoria. Cito, explicitamente – entre outras – a sequência em que a imagem do Mr. Nick aparece em um rio de águas turvas que marca a escolha de uma dondoca incentivada por Tony a escolher o “desprendimento”. Se no visual o filme funciona apenas em parte – quando ele é escancaradamente teatral -, no roteiro ele também parece um bocado perdido. Há momentos em que o texto de Terry Gilliam e Charles McKeown consegue aliar intenções com execução, ou seja, que através da direção de Gilliam se torna interessante e convence o espectador. A maioria deles tem a ver com os diálogos entre Mr. Nick e Parnassus e entre Tony e Valentina. No mais, o roteiro de Dr. Parnassus é arrastado e previsível, carregado de poucas surpresas e, o que é fatal para um projeto como este, quase nenhum encantamento ou “magia”.

Provavelmente os fãs de Heath Ledger vão discordar de mim, mas nem da interpretação do ator eu gostei. Desde a primeira fala dele até a sua última nesta produção o astro me pareceu caricato. Ok, seu personagem pedia um tom um pouco exagerado de interpretação. Mas, ainda assim… ele não parecia, simplesmente, ele mesmo. Sem saber quando os outros atores iriam entrar em cena e a razão que seria dada no roteiro para isto – me recuso a ler textos sobre as produções que assisto antes de assistí-las -, Heath Ledger me parecia mais com Johnny Depp do que com Heath Ledger. Cheguei a respirar aliviada quando o próprio Depp entrou em cena – agora sim, rosto e interpretação estavam casando perfeitamente. Uma triste despedida para um ator tão talentoso quanto Ledger. A verdade é que seria melhor, para seus fãs, lembrarem do ator em outros de seus trabalhos.

Ainda que Christopher Plummer defenda bravamente o seu personagem de Dr. Parnassus, o nome deste filme é o de Tom Waits. O músico e ator simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Seu personagem, também, é o melhor desenvolvido do roteiro. Suas aparições e uma ou outra sequencia envolvendo Valentina – como as cenas em que ela está viajando com sua trupe e Gilliam aproveita para mostrar o lado itinerante do grupo e Londres durante a noite – valem o tempo gasto com a produção. Vale citar ainda o trabalho do ator Verne Troyer como Percy, fiel companheiro do Dr. Parnassus.

A reflexão sobre a capacidade das pessoas atualmente se sentirem maravilhadas pelo “mistério”, pela imaginação ou pelos contadores de história é interessante. Certamente o Diabo teria atualmente, em uma era do consumismo e dos valores facilmente intercambiáveis, muito mais chances de ganhar uma aposta do que o homem sábio e crente. Ainda assim, tanto tempo e tantos recursos para tratar desta velha história me parecem um desperdício. Nem sempre grandes nomes acertam em todos seus projetos. Por tudo isso, devo dizer que a nota abaixo está relacionada com o respeito que eu tenho à carreira de Terry Gilliam, porque o filme propriamente dito merecia muito menos. Talvez um 6. Infelizmente a imaginação e a ousadia do diretor e roteirista, desta vez, ficaram abaixo da média do mercado.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assistindo a este filme, fiquei com saudade do Dr. Caligari, personagem clássico lançado em 1920 pelo filme Das Cabinet des Dr. Caligari – que ganharia outras versões posteriormente. Naquela produção – e em outros do gênero – sim havia mistério, uma permanente sombra de perigo/morte e o convite provocativo para que o espectador imaginasse o que estava acontecendo. Em The Imaginarium of Doctor Parnassus tudo é explícito demais – e um bocado “fake” ou mesmo “kitsch”. Não combina muito com o final da primeira década do século 21 ou mesmo com a carreira inovadora de Terry Gilliam.

Como a maioria ou todos devem saber, Heath Ledger morreu enquanto o filme ainda estava sendo rodado. Com a morte do ator, a produção acabou sendo suspensa por alguns meses. A sorte de Terry Gilliam é que as cenas filmadas com Ledger permitiram que o trabalho do ator pudesse ser complementado com as atuações de Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. A aparição de cada um dos três casa perfeitamente com a premissa de que algumas pessoas podem mudar seus aspectos quando entram no “mundo imaginário” incentivado/criado pelo Dr. Parnassus. Parte do roteiro, contudo, teve que ser reescrito para que a história pudesse se adequar com a ausência de Ledger.

Uma curiosidade ainda sobre esta participação dos três astros para complementar o trabalho de Heath Ledger: segundo o site IMDb, eles doaram os cachês que receberam por seus trabalhos para Matilda, filha de Ledger, como forma de garantir-lhe um futuro mais seguro. Um belo gesto, sem dúvida.

The Imaginarium of Doctor Parnassus faz várias referências à peça Esperando Godot (no original, En Attendant Godot), de Samuel Beckett. As mais evidentes seriam o terno e o chapéu utilizados por Mr. Nick e a cena em que Jude Law aparece com uma corda no pescoço.

O ator Dominic Cooper teria feito os testes para o papel de Anton. Talvez ele tivesse se saído melhor que o relativamente “cru” Andrew Garfield.

Os produtores do filme dizem que Heath Ledger improvisou grande parte de suas cenas cômicas. Certo. Mas, ainda assim, sua performance está abaixo de outras de sua filmografia recente. Sinto muito para os fãs.

Dr. Parnassus estreou no Festival de Cannes em maio de 2009. Depois do festival francês, o filme participou ainda de outros 17 festivais. Nesta longa tragetória, a produção capitaneada por Terry Gilliam recebeu apenas um prêmio – e cinco nomeações. Isso reflete, meus caros, o quanto o filme agradou aos especialistas no assunto. O único prêmio recebido pela produção foi o de melhor figurino para Monique Prudhomme no Satellite Awards. O trabalho dela é bom, mas inferior ao de outras produções recentes. Vale dizer ainda que Dr. Parnassus está concorrendo a dois Oscar – um deles, o de figurino.

Este novo filme de Terry Gilliam custou uma pequena fortuna: US$ 30 milhões. Justifica-se, claro, pelos nomes de boa parte de seu elenco e, principalmente, pelos custos de uma produção que envolve muitos efeitos especiais (ainda que a maioria deles ruins) e um grande trabalho de design de produção, figurinos e edição de arte. Nos Estados Unidos, mesmo com o “marketing” de ter sido o último filme de Heath Ledger, Dr. Parnassus teve um desempenho um tanto fraco. Ele arrecadou, até o dia 7 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 6,7 milhões nas bilheterias. No Reino Unido, até novembro de 2009, foram 3,2 milhões de libras. Ele ainda está longe de dar lucro.

Co-produzido pelo Reino Unido, pelo Canadá e pela França, Dr. Parnassus foi filmado nos dois primeiros países citados.

O visual de algumas cenas deste filme, assim como boa parte da caracterização da personagem de Valentina me lembraram várias das obras do famoso pintor El Bosco – recomendo uma olhadela em alguns de seus quadros no Museo Nacional del Prado, como El Jardín de las Delicias.

Na parte técnica, não achei nenhum trabalho excepcional. Ainda assim, para os curiosos, vale citar os trabalhos de Nicola Pecorini na direção de fotografia; o de Mick Audsley na edição; o de Anastasia Masaro no design de produção; o de Dan Hermansen e Denis Schnegg na direção de arte; o de Caroline Smith e Shane Vieau na decoração de set; o de Ailbhe Lemass coordenando a equipe responsável pela maquiagem e o de Jeff Danna e Mychael Danna na trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Uma nota muito boa, devo dizer, levando em conta o resultado final da produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 110 textos positivos e 56 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 66%.

Um dos críticos que gostaram de Dr. Parnassus foi Ty Burr, do The Boston Globe. Ele escreveu neste texto que o novo filme de Terry Gilliam “é uma bagunça”, algo que o realizador vem fazendo durante os anos. Burr comenta que ele foi conquistado pelos “caprichos desorganizados” do diretor. Gostei quando ele comenta sobre o trabalho corajoso de Ledger, afirmando que ele se joga no papel de Tony com “inteligência e inventividade inconstante”. O crítico ressalta ainda como as cenas do “universo interior” do espetáculo do Dr. Parnassus revelam o orçamento enxuto do filme, ainda que o resultado lembre uma colha de retalhos das animações do Monty Phyton. Burr ainda enaltece o trabalho de Troyer, que interpreta o “pessimista da trupe” e afirma que Imaginarium trata da “possibilidade da magia no mundo moderno”.

O crítico Peter Howell, do Toronto Star, comentou neste texto que mesmo que o ator Heath Ledger não tivesse morrido antes das filmagens terminarem, dificilmente The Imaginarium teria sobrevivido às “várias indulgências” de Terry Gilliam. “Parnassus continua com o velho hábito de Gilliam em sabotar o próprio trabalho ao empilhar imagens desenfreadas sem levar em conta o desenvolvimento dos personagens ou em contar histórias”, escreveu Howell. Ele foi duro com o diretor, mas devo admitir que, pelo menos com este filme – e alguns outros de Gilliam – ele está certo. Achei especialmente “porreta” o momento em que o crítico comenta que o esforço dos atores que interpretam Tony foi em vão e que apesar de Dr. Parnassus ser descrito como “um conto de moralidade fantástico, ele é realmente uma bagunça fantástica que começa com um lembrete macabro – embora acidental – da morte de Ledger”. No final de seu texto, o crítico afirma que mesmo o resgate de recursos utilizados na época do Monty Phyton não são suficientes para reanimar o filme.

O conhecido crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu neste texto que The Imaginarium pode ser visto como uma versão secundária da própria vida de seu diretor, Terry Gilliam. Ele seria o homem que tenta atrair as “pessoas para as suas fantasias, em um cenário extravagante e exagerado, com fumaça e espelhos, o que, depois de tudo, é sua verdadeira natureza”. Ebert elogia o trabalho feito com a computação gráfica do filme, dizendo que algumas visões do diretor se materializam de forma “maravilhosa”. Concordo que parte do trabalho ficou interessante, mas há uma grande parte realmente ruim. Parece até que não assistimos ao mesmo filme.

Ebert acredita que Heath Ledger seria o guia do público para os diferentes mundos fantásticos do filme. Mas ele afirma que Terry Gilliam, “aparentemente”, terminou de filmar as cenas externas, onde aparecia a Londres moderna, para depois filmar as demais cenas em estúdio. Enquanto isso, Ledger voltou para Nova York e, como todos sabem, foi encontrado morto em seu apartamento. Para o crítico, Depp se parece mais com Ledger, mas “é um fato triste” que Farrell roube o papel. “O meu problema com os filmes de Gilliam é a falta de roteiro discernível. Eu não preciso seguir o ABC, ação 1-2-3, mas aprecio bastante ter alguma noção das regras próprias do filme”, escreveu ainda Ebert. O crítico finaliza recomendando que o espectador tente viver cada momento do filme, sem pensar em sua memória a longo prazo, para tentar aproveitá-lo.

CONCLUSÃO: Mais conhecido por ter sido o último trabalho do ator Heath Ledger, The Imaginarium of Doctor Parnassus é um dos filmes mais fracos da carreira do diretor Terry Gilliam. Remanescente do genial Monty Phyton, Gilliam faz aqui um de seus filmes mais vazios e fracos inclusive na proposta visual. Há elementos que lembram os antigos filmes do Monty Phyton, mas há também uma busca por um sentido artístico e de moral que não se concretiza. Reformulando a velha história do homem que tenta enganar o Diabo, o diretor e roteirista consegue, no máximo, homenagear os artistas itinerantes. Mas ele não dá, infelizmente, um passo no sentido de contar uma história original ou que tenha muito pé ou cabeça. Mesmo Heath Ledger, que teve seu trabalho complementado pelo dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, não está em seu melhor momento. Um verdadeiro desperdício de talentos em um filme mal construído desde o princípio, cheio de personagens fracos e efeitos ruins.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Imaginarium of Doctor Parnassus surpreendentemente está concorrendo a dois Oscar este ano. Não que o filme não tenha qualidades. Mas, francamente, ele não merece Oscar algum. De qualquer forma, vale citar que Dr. Parnassus está concorrendo nas categorias Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Na primeira, como comentei neste texto em que falo dos candidatos nas 24 categorias da premiação, Avatar leva vantagem. E mesmo que o filme dirigido por James Cameron não leve a estatueta dourada, acredito que o trabalho feito em Nine ou The Young Victoria sejam superiores ao de Dr. Parnassus. Na categoria de Melhor Figurino, prefiro o resultado de Bright Star, comentado recentemente. Ainda que, volto a afirmar, The Young Victoria tem grandes chances de levar o Oscar nesta categoria. Resumindo: para mim, The Imaginarium of Doctor Parnassus sairá de mãos vazias deste Oscar. Na melhor das hipóteses, Heath Ledger será homenageado na noite de premiação. E olha lá – levando em conta o papelão que a família dele protagonizou no ano passado.