Hereditary – Hereditário

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Um filme, para ser sinistro, precisa apresentar alguns predicados. Primeiro, começar daquela forma bacana, quase pueril, e depois dar uma bela guinada na história. Depois, ter algumas atitudes bem estranhas dos seus protagonistas ou personagens secundários. Finalmente, deve ter alguns elementos sobrenaturais ou do tipo “incontroláveis”, do gênero que impede que qualquer atitude racional possa colocar um freio. Tudo isso encontramos em Hereditary, um dos filmes mais sinistros que eu assisti nos últimos tempos. Mas apesar de ter todos esses elementos e ser um bocado impactante, esse filme carece um pouco de originalidade. Vejamos o porquê.

A HISTÓRIA: Começa com um texto sobre a morte de Ellen Taper Leigh, que morreu aos 78 anos depois de passar por um longo período doente. A morte dela ocorreu na casa de sua filha, Annie, no dia 3 de abril de 2018. Amada esposa do falecido Martin Leigh, mãe devota de Annie Leigh Graham e do falecido Charles Leigh. Avó de Peter Graham e Charlie Graham. Sogra do Dr. Steven Graham. Todos sentirão sua falta. O corpo dela será velado na sexta-feira, das 10h às 12h, na Funerária Kingstone. Do funeral, o corpo seguirá no sábado, às 10h, para o enterro no Cemitério Spring Blossom.

Por uma janela, vemos a uma casa da árvore. Dentro da residência, diversas maquetes, inclusive uma que mostra um quarto simples, com cama e armário. Conforme a câmera se aproxima, vemos a jovem na cama. Entra pela porta o pai de Peter (Alex Wolff), Steve (Gabriel Byrne), que chama o jovem para o funeral da avó. Em seguida, Steve procura Charlie (Milly Shapiro) na casa da árvore, e chama a garota também para o carro, onde Annie (Toni Collette) está esperando a família para ir para o velório da mãe. Esse fato é apenas o começo de uma série de acontecimentos na vida da família Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hereditary): Cheguei até esse filme porque ele foi citado por diferentes listas de “melhores filmes de 2018 até agora” feitas por críticos americanos. Assisti a essa produção, claro, desconfiando que se tratava de um filme de suspense/terror, mas eu não tinha mais nenhuma expectativa além dessa.

No início, achei interessante aquela pegada um tanto psicológica envolvendo Annie e o seu trabalho de criar “pequenos mundos”. Ela tinha que enfrentar a perda da mãe ao mesmo tempo em que precisava lidar com uma série de problemas familiares. Primeiro, os seus filhos, que não eram exatamente muito apegados ou comunicativos com ela. Depois, por ser sonâmbula e, aparentemente, um pouco inconstante, a própria Annie sentia que o marido e os filhos pareciam não confiar muito nela.

Temos, assim, um cenário com várias possibilidades de conflitos e de problemas. A tensão e a tristeza estão no ar mas, apesar disso, Annie e sua família parecem normais. Nada demais. Quando Hereditary começa, o roteiro do diretor Ari Aster nos situa em um momento importante, que é o luto vivenciado por Annie e pelos seus filhos com a morte de Ellen. O fato de Annie viver utilizando a imagem dela e das pessoas da sua família nas maquetes é o que dá os primeiros arrepios, mas nada demais.

O primeiro sinal realmente sinistro acontece quando um pássaro morre do lado de fora da classe de Charlie e a garota vai, discretamente, até lá para cortar a cabeça do animal e a leva para casa. A questão da perda de cabeças será uma constante nesse filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Há diversas cenas um pouco “estranhas” pinceladas aqui e ali – especialmente algumas “aparições”, mas tudo caminha com certa naturalidade até que Charlie acompanha a contragosto o irmão Peter para uma festa. O acidente em que Charlie literalmente é degolada marca um “antes” e um “depois” nesta produção.

Certo que a família de Annie parecia meio disfuncional. Ela tinha uma certa dificuldade de ser próxima dos filhos – como ela própria, aparentemente, não tinha conseguido ser próxima da própria mãe. Ainda que Peter estivesse um tanto “chapado”, a reação dele de ir para casa, deitar-se na cama e não dizer nada sobre o que tinha acontecido com a irmão é mais do que fora do comum. É muito, muito estranha. Mas todos naquela casa pareciam ter reações estranhas que envolviam mentir e esconder fatos uns dos outros.

Vejamos. Annie mente para o marido dizendo que ia ao cinema quando, na verdade, ela estava procurando um grupo de apoio para pessoas que estavam em luto. Steve não disse para a esposa que o túmulo da mãe dela tinha sido violado. Peter e Charlie também pouco compartilhavam de suas vidas – eles pareciam viver fechados em si mesmos. Então as pessoas, por si mesmas, já pareciam um tanto estranhas e descoladas.

Mas, volto a dizer, apesar deste cenário, a reação de Peter era digna de chamar um psicólogo para trabalhar com o garoto. Só que nada disso é feito. No lugar de procurar ajuda para o filho, Annie fica amargurada e guarda uma grande raiva e indignação dentro de si. Depois da segunda perda na família, ela acaba se aproximando ainda mais de Joan (Ann Dowd), uma mulher que ela conheceu no grupo de apoio para pessoas que estão em luto.

E aí que o filme começa a ficar um tanto óbvio e, ao mesmo tempo, cada vez mais sinistro e com algumas “forçadas de barra”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A parte do lugar-comum e da obviedade é a forma com que Joan convence Annie de que ela poderá voltar a falar com a filha. Retomamos o velho jogo do copo e, em seguida, o papel e caneta para o “espírito” da garota se comunicar com a mãe.

Mas, depois, descobrimos que nada daquilo é verdadeiro. Joan não é a pessoa que diz ser e tudo faz parte de um plano elaborado de “possessão”, mas não de Annie, e sim de Peter. O que achei mais curioso dessa história é todos da família terem que morrer de forma violenta para que a tal possessão de Peter fosse concretizada no final. Então a parte de Joan convencer Annie com “sessões espíritas” é a parte óbvia do filme.

A parte um tanto “forçada” para o meu gosto, é como os adultos Steve e Annie agem frente a situações cada vez mais sinistras e um tanto macabras. Quando descobre o corpo da sogra no sótão, Steve não faz o que qualquer pessoa normal faria e chama a polícia. Não, ele confronta a esposa achando que ela fez aquilo. Antes, ele já tinha agido com certa “naturalidade” com o comportamento estranho do filho com a morte da irmão. E agora isso?

Por mais que Steve quisesse proteger as pessoas da família, acho muito estranho para um médico – ou psiquiatra? – agir daquela maneira. Além disso, ele embarca na ideia maluca da mulher de querer queimar o caderno de desenhos feitos pela filha morta. As próprias ações de Annie não fazem muito sentido. Ora, se ela quer salvar a família, a melhor saída seria realmente se “autodestruir” jogando aqueles desenhos no fogo? E se, na cabeça de Annie, essa era a melhor saída, por que pedir para que Steve presencie a cena? Não faria mais sentido ela fazer isso sozinha?

Alguém desesperado, mas com o mínimo de sanidade, não tentaria tirar a família daquela casa, chamar a polícia para denunciar o corpo da mãe e as atitudes de Joan? Certo que filmes de suspense e de terror geralmente não tem muita preocupação em parecerem lógicos, mas acho que esse Hereditary se esforça muito para ser macabro e para nos apresentar mortes estranhas e sinistras e tem pouco contato com reações que poderíamos esperar de personagens com algum pé na realidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de suspense/terror que tenham esse “fundinho” ao menos de realidade. Acho que quando tratamos de ações e reações mais realistas, mais o terror parece se aproximar do espectador. No caso de Hereditary, o filme impacta pelas cenas das morte sinistras, assim como pelo resgate de algo por si só assustador, que são os grupos de fanáticos satanistas. Mas fora esse detalhe, esse filme me pareceu forçar um pouco a barra da história com diversas cenas de “alucinações” e um bocado de descontrole da protagonista.

Os atores fazem um belo trabalho, mas achei um tanto forçada a interpretação tanto de Toni Collette, que faz uma Annie um bocado histérica, quanto de Alex Wolff, que também faz um garoto fora do “compasso” e um tanto “amedrontado” demais para um jovem da sua idade.

Na verdade, me parece, que o mais racional da família, Steve, deveria ter tido outra atitude em relação às perdas que eles tiveram. A passividade dele e a forma com que Annie ignora a história da própria família são de assustar – e acabam desencadeando boa parte da loucura que vemos em cena. Ah sim, outro ponto que me parece meio sem sentido: beleza que a mãe de Annie queria que o neto Peter fosse o novo “hospedeiro” do seu demônio do coração, mas para que, para realizar isso, ela precisava liquidar com toda a família? Outro ponto um tanto forçado.

Um filme assustador, em muitos momentos, mas que em outros nos cansa um pouco com aquele recurso de “figuras sinistras correndo a qualquer momento na frente da tela”. Hereditary tem bons atores – especialmente Toni Collette em grande momento – e uma crescente de terror que muitas vezes funciona mas que, aqui, me pareceu um bocado forçado. O final, de qualquer forma, na casa da árvore, é bastante impactante. Apenas por aquela cena, o filme merece aplausos pela coragem de Ari Aster. Mas a história em si… deixa um pouco a desejar.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curiosas diversas escolhas do roteirista e diretor Ari Aster. Ele tem um estilo muito próprio em focar a atenção nos detalhes, seja dos cenários em miniatura, seja nas interpretações dos atores. A escalada sinistra que ele faz no roteiro também é para poucos. Procurei saber mais sobre o diretor e vi que Hereditary é o primeiro longa feito por ele. Antes, Aster dirigiu a sete curtas, apenas.

Para quem gostou do estilo de Ari Aster, a boa notícia é que ele já está filmando o seu próximo longa: Mindsommar, um outro filme de terror. Veremos o que ele nos apresenta da próxima vez. Mindsommar deve ser lançado em 2019.

O destaque desta produção, apesar de alguns rompantes histéricos, sem dúvida alguma é a atriz Toni Collette. Ela rouba a cena toda a vez em que aparece. Carismática e cheia de nuances em sua interpretação, ela é fascinante. Além dela, estão bem Alex Wolff como Peter, um garoto que parece querer a aprovação da mãe na mesma medida em que teme o que ela pode fazer; Gabriel Byrne como Steve, o estereótipo de marido calado e de bom pai; Milly Shapiro como Charlie, uma menina também um tanto “introspectiva” demais e a primeira vítima da avó; Mallory Bechtel bem em uma ponta como Bridget, a garota do colégio de quem Peter gosta; e Ann Dowd muito bem como Joan, um mulher aparentemente comum que se revela uma maluca de primeira linha.

Há diversos outros atores em cena, mas quase todos em papéis tão secundários e pouco relevantes para a história que eu nem acho que faz falta citá-los por aqui.

Entre os aspectos técnicos desta produção, o destaque vai para a direção cuidadosa e atenta para os detalhes de Ari Aster. Ele também sabe fazer a história assumir um “crescente” de tensão importante, ainda que o roteiro dele não seja tão brilhante por recorrer a diversos lugares-comuns e a um ou dois pontos um tanto “forçados”. Além do trabalho de Aster, vale destacar a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski; a edição de Lucian Johnston e Jennifer Lame; a trilha sonora feita para assustar e criar tensão assinada por Colin Stetson; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Richard T. Olson; a decoração de set de Brian Lives; os figurinos de Olga Mill; a maquiagem perfeita feita por 14 profissionais; e os efeitos visuais realizados por outros 19 profissionais.

Hereditary estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, do South by Southwest Film Festival e do Haifa Film Festival. No Brasil, o filme estreou em junho de 2018. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros nove. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Toni Collette no International Online Cinema Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: segundo Alex Wolf, Hereditary poderia ter, facilmente, três horas de duração por todas as cenas que foram rodadas para essa produção. Para ficar mais condensado, os realizadores resolveram cortar diversas cenas de diálogos familiares.

Hereditary foi rodado em 32 dias.

Muitas pessoas do elenco e da produção encaram Hereditary muito mais como um drama familiar do que como um filme de terror. Sim, até certo ponto do filme, eu concordo. Mas depois… essa produção se torna totalmente um filme de terror.

Ari Aster tem 10 roteiros já escritos que ele espera rodar ao longo de sua carreira. Isso que eu chamo de um sujeito organizado e com uma bela programação pela frente. 😉

Agora, uma curiosidade que ajudou a tirar uma dúvida que eu tinha sobre Hereditary. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O demônio invocado nesta produção seria um anjo herege que, apesar de poder tomar formas femininas é, essencialmente, masculino. Além de ocupar o corpo da mãe de Annie, antes dela morrer, ele também possuiu Charlie antes de finalmente se apoderar de Peter. Então sim, sempre que ouvimos Charlie “estralando” a língua, fazendo um som típico com a boca, é porque o demônio está por ali. Tive a impressão que a menina tinha sido “possuída” primeiro, mas tire essa dúvida ao ler essa nota da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 255 críticas positivas e 32 críticas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – elevada se levarmos em conta o padrão do site. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 87 para esta produção, fruto de 46 críticas positivas, duas medianas e uma negativa. Com esta avaliação positiva, Hereditary ganhou o selo de “você precisa ver” do Metascore.

De acordo com o site Box Office Mojo, Hereditary fez US$ 44,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 35,3 milhões em outros mercados em que o filme estreou. No total, essa produção ultrapassou um pouco os US$ 79,3 milhões. Um belo resultado para uma estreia de um diretor no mercado do terror. Ainda mais que, segundo o site IMDb, Hereditary teria custado cerca de US$ 10 milhões. Ou seja, o filme deu um belo lucro. Um sinal positivo para Ari Aster seguir a sua trajetória.

Hereditary é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog – e na qual vocês pediam mais filmes made in USA. 😉

CONCLUSÃO: Se você está procurando um novo filme de terror “clássico”, essa é uma boa pedida. Hereditary resgata parte do manual do terror para nos apresentar uma história matematicamente dividida e feita para levar você da calmaria para a aflição – ou algo parecido com isso. Com belas interpretações e um enredo com alguns furos, Hereditary é forte por não ter muitos filtros sobre o que veremos na tela. Sinistro, ele apresenta um par de cenas bastante fortes. Está entre os filmes do gênero mais impactantes dos últimos tempos, ainda que ele não tenha as sacadas ou a inteligência de outras produções recentes, como Get Out (comentado por aqui). Mas Hereditary é bom, sem ser imperdível. Recomendado, realmente, para quem gosta do gênero e não tem problemas com gritos. 😉

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Please Stand By – Tudo que Quero

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Todos merecem o direito de sonhar. De desenvolver os seus talentos, mesmo que todas as pessoas ao redor achem que aquela pessoa não tem “nada demais” para oferecer. Please Stand By foca em uma protagonista diferente, que tem os seus próprios desafios cotidianos para enfrentar mas que, apesar deles, acredita em seu próprio potencial para fazer algo incrível. Uma bela homenagem para as pessoas que “fogem do comum” e para uma das franquias do cinema mais admiradas por quem gosta de ficção científica.

A HISTÓRIA: De olhos fechados, ela escuta algo no fone de ouvido. Em seguida, abre os olhos e começa a imaginar uma história que envolve o espaço. Em seguida, ela imagina Spock em seu último gesto de bravura e de sobrevivência. Wendy (Dakota Fanning) é fascinada por Star Trek e está trabalhando em uma história que envolve esse universo. Scottie (Toni Collette) chega ao trabalho e cumprimenta vários moradores da residência que abriga muitas pessoas com seus desafios particulares. Ela toca um apito e entra no quarto de Wendy, que responde com outro apito. Scottie então comenta que a irmã de Wendy virá para visitá-la, e ela pergunta como ela se sente a respeito. Wendy tem muitos desafios para enfrentar no dia a dia e, em breve, vai passar por uma grande aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Please Stand By): Olá pessoal! Me desculpem a longa ausência. Mas tive Dia das Mães e muito trabalho nesse período. Assisti esse filme há umas duas semanas, então lembro do que eu vi, claro, mas sem toda aquela “vivacidade” que eu teria se tivesse conseguido tempo de escrever sobre Please Stand By antes. Peço desculpas por isso.

Assisti a esse filme sem grandes expectativas. Como vocês sabem, isso é algo importante. Pelo cartaz de Please Stand By, conclui, claro, que a produção fazia uma homenagem ou ao menos fazia uma bela referência para Star Trek. O que eu não sabia era que o filme teria um olhar tão generoso para pessoas “não comuns” da nossa realidade. Dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Mas as pessoas nem sempre pensam sobre isso. Sobre como todos nós somos frágeis e podemos passar por dificuldades físicas ou mentais sem poder prever isso ou evitar que isso aconteça.

E quem define o que é “ser normal”? E quem disse que as pessoas diferentes e “especiais” não fazem a nossa civilização ser especial? Diferente do que alguns ditadores já tentaram defender na nossa História, não acho que ganhemos nada – absolutamente nada, na verdade – eliminando as pessoas que tem algum problema ou dificuldade, seja ela física ou mental. Todos nós podemos um dia passar por isso, e podemos aprender muito com as pessoas diferentes da gente ou que fogem da “normalidade”.

Mas para aprender com elas, é preciso ter um olhar cuidadoso, atento e generoso. Perceber que ninguém é melhor que ninguém e que todos tem o seu valor. Todos podem contribuir e devem ter o direito e sonhar e de buscar a própria superação. Não para ficarem parecidos com alguém ou para servirem de modelo seja para quem for. Mas para sentirem o prazer próprio desse gesto de superação – só alguém que já fez isso sabe do que estou falando.

O que eu achei bacana de Please Stand By é que esse filme trata com respeito e com carinho exatamente esse cenário não comum para muitas pessoas. Cada família tem a sua realidade e cada pessoa a sua trajetória. Talvez você nunca tenha conhecido ou convivido com uma pessoa que tem algum problema mental. Então para você esse filme será uma bela introdução – se assim você desejar, é claro – para esse universo diferenciado. Se você já conviveu ou convive com alguém que seja “diferente”, certamente essa produção fará um sentido todo especial.

O bonito desse filme dirigido por Ben Lewin e com roteiro de Michael Golamco é que ele trata com respeito e com um olhar afetuoso essa realidade sempre desafiadora de alguém que foge da “normalidade”. Wendy é a protagonista, mas conseguimos ver também as pessoas que orbitam ao redor dela. Assim, observamos também como as pessoas “normais” lidam com o que foge da sua compreensão. Alguns são mais generosos e atentos, outros, nem tanto. E isso não acontece apenas nesse filme, mas na vida real. Mas Please Stand By está aí para nos fazer pensar a respeito.

Gostei da sensibilidade e da naturalidade com que essa história é contada. Esse é um ponto forte do filme. No fim das contas, Please Stand By é a história de uma pessoa que busca realizar um sonho apesar de todos os elementos que jogam contra esse desejo e também um road movie. Acompanhamos a protagonista em sua jornada de superação, e esse tipo de história sempre é bacana de ser contada e de ser vista.

Um outro ponto alto desta produção é o belo trabalho dos atores. O destaque, claro, vai para Dakota Fanning como a protagonista. Ela convence no papel em cada detalhe da sua interpretação. Depois, ao lado dela, estão belos trabalhos de Toni Collette e Alice Eve (que vive a irmã mais velha de Wendy).

Além de ser uma produção sobre a jornada particular de uma pessoa diferenciada e que vive os seus próprios “dilemas” e “limitações” – não sou uma grande especialista, mas me parece que a protagonista é autista, certo? -, Please Stand By faz uma bela homenagem para o universo Star Trek. Wendy é apaixonada pelo universo do filme e da série de TV e, evidentemente, se sente “próxima” de Spock, que também deve enfrentar o desafio de lidar com as pessoas (como ela). Spock não entende muito bem os humanos, assim como precisa aprender a sentir. Desafios que parecem muito comuns com a protagonita de Please Stand By.

Alguns filmes, como o interessantíssimo documentário Life, Animated (comentado aqui), mostram como o cinema pode ajudar as pessoas a se encontrarem e a superarem os seus próprios dilemas. No fundo, o cinema nos aproxima – se você estiver disposto(a) a isso, é claro. Nos apresenta histórias, realidades e pontos de vista diferentes. E esse Please Stand By é um exemplo disso.

A história em si não é muuuuito surpreendente. A aventura de Wendy é linear e um bocado previsível, mas isso não importa tanto quanto a mensagem que o filme quer nos passar. De que todas as pessoas, como comentei antes, tem talentos, tem qualidades, limitações e o direito de sonhar e de realizar-se.

Mesmo quem se acha perfeito, certamente, tem algo que pode melhorar, tem algum defeito – ainda que não seja capaz de enxergar isso ao olhar-se no espelho. Então, devemos ser mais cuidadosos uns com os outros, mais generosos e ter mais respeito, especialmente com o que é diferente da gente. Esse tipo de mensagem é sempre bem-vindo, e isso é algo que esse filme faz.

Sobre a previsibilidade da história, como manda o clássico modelo de “trajetória do herói”, claro que Wendy tem que passar por uma série de desafios e de contratempos em sua jornada. Sim, o mundo nem sempre é simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expulsam ela do ônibus porque ela está com um cachorro – porque, afinal, as regras são mais importantes que as pessoas, em muitos lugares – e ela é assaltada. Mas ela consegue terminar a jornada, superando-se. E no final, pouco importa se ela conseguiu ou não ser reconhecida pelo roteiro criado para Star Trek. O mais importante de uma viagem é o caminho e não o destino e/ou a vitória final.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma série de mensagens bacanas. Como que as pessoas diferentes e relativamente distantes podem se aproximar se tiverem uma motivação ou interesse para isso. Vemos isso no caso das irmãs Wendy e Audrey e também entre Scottie e o seu filho, Sam (River Alexander). Audrey percebe que a irmã consegue fazer muito mais do que ela imaginava, e que ela tem talento, enquanto Sam se aproxima da mãe quando ele decide viajar com ela para procurar Wendy. É Sam quem explica para a mãe a “graça” por trás de Star Trek. Bacana.

Como Sam resume com precisão na conversa que tem com a mãe no carro, a grande “graça” de Star Trek são os seus personagens. E, da mesma forma, a parte mais interessante de Please Stand By são também os personagens e os atores que foram escalados para a produção. Golamco acerta ao dar destaque para poucos personagens – assim, conseguimos nos aprofundar melhor neles, nas suas histórias e relações. Não adianta, é isso que dá a graça para uma produção.

Como comentei antes, Please Stand By tem uma série de qualidades. Só não dei uma nota maior para a produção porque ela é, temos que admitir, bastante previsível e não apresenta nenhuma grande “inovação” ou sacada diferenciada. Esse é um filme um pouco no estilo Sessão da Tarde. Não é mega recomendado, mas pode ser visto sem grandes pretensões e, desta forma, representar uma bela surpresa para o espectador. Cheio de boas mensagens e princípios, ele só não é surpreendente ou inovador. Por isso, acredito, merece uma nota boa, mas distante da avaliação máxima – essa nota é apenas para os filmes realmente imperdíveis.

O destaque dessa produção é o trabalho de Dakota Fanning como a protagonista. A atriz, que vem fazendo uma bela carreira desde a infância, demonstra como segue trilhando um belo caminho na profissão. Vejo ela como muito potencial para seguir fazendo ótimos trabalhos no futuro – se fizer as escolhas certas, é claro. Além dela, estão muito bem nos papéis secundários a veterana Toni Collette e Alice Eve.

Além deles, merece ser citado o bom trabalho, como coadjuvantes, de Tony Revolori como Nemo, o colega de Wendy na lanchonete e que tem uma “caidinha” por ela; e do veterano de séries e de pontas Patton Oswalt como o policial Frank, um fã de Star Trek que tem a sensibilidade de falar com Wendy em klingon – ou seja, ele foi a primeira pessoa a falar com ela de uma forma cuidadosa e bacana desde que ela começou a sua viagem para Hollywood. Outra veterana de pontas e de séries, a atriz Robin Weigert também merece ser citada pela ponta como a policial Doyle. Também vale citar o trabalho de Farrah Mackenzie como a jovem Wendy e de Madeleine Murden como a jovem Audrey.

O filme é bacana, cheio de boas intenções, mas me incomodou um pouco a forma com que ele “exagerou” um pouco na falta de sensibilidade das pessoas com Wendy. Ok que vivemos em uma época de muito individualismo e egoísmo, mas ninguém nunca ter se disposto a ajudá-la me pareceu um pouco exagerado – como quando ela não tem dinheiro para pagar um ônibus que a leve para a Paramount Pictures. Segundo esse filme, todos estão muito presos a regras e burocracias. Ainda que isso seja em parte verdade, acho que existe mais margem para o improviso e para a solidariedade no dia a dia do que o filme nos mostra.

Entre os elementos técnicos desse filme, vale destacar a trilha sonora de Heitor Pereira; a direção de fotografia de Geoffrey Simpson; o design de produção de John Collins; a direção de arte de Lindsey Moran; a decoração de set de Tamar Barnoon e os figurinos de Annie Bloom. Ben Lewin faz um bom trabalho na direção, mas não apresenta nada muito diferente da normalidade e do padrão.

Please Stand By estreou em outubro de 2017 no Festival de Cinema de Austin. Depois, o filme passou pelos festivais de Roma e da Virgínia. Nessa trajetória, o filme não foi indicado a nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As falas trocadas entre Kirk e Spock na história criada por Wendy são as mesmas que os dois personagens falam no episódio The Tholian Web, de 1968.

As equipes de Star Trek Deep Space Nine e Star Trek Voyager nunca promoveram um concurso de roteiros. Ainda assim, elas permitiram que alguns fãs das séries escrevessem roteiros. Parte desse material foi, de fato, utilizado nas séries enquanto elas eram transmitidas.

As montanhas que aparecem nos sonhos de Wendy são as Vasquez Rocks localizadas em Agua Dulce, na Califórnia. Esse local foi usado, de fato, em diversos filmes e séries da grife Star Trek, inclusive no episódio Arena, de 1966.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 críticas positivas e 11 negativas para Please Stand By – ou seja, o filme tem uma aprovação de 61% e uma nota média de 5,8. No site Metacritic, o filme apresenta um metascore de 49, resultado de quatro críticas positivas, sete medianas e uma negativa. Ou seja, o filme é considerado mediano – o que é o meu parecer também.

Please Stand By é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog, na qual os leitores podiam filmes desse país. Mais um para a lista, pois. 😉

CONCLUSÃO: Um filme singelo, mas muito bem conduzido e com atuações convincentes. Sempre bato palmas para produções que dão voz e que destacam pessoas especiais mas para quem muita gente não dá a mínima bola. Todos nascem com talentos e com capacidade, basta olharmos com um pouco mais de carinho e de generosidade para aqueles que são diferentes da gente. Please Stand By consegue fazer um cruzamento interessante de histórias ao mesmo tempo que presta uma bela homenagem para o próprio cinema e um clássico da ficção científica. Despretensioso, merece ser visto. Um filme leve e que, ao mesmo tempo, tem uma bela mensagem.

The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

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Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! 🙂

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.