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Knives Out – Entre Facas e Segredos

Uma trama que lembra muito o espírito dos romances de Agatha Christie. Knives Out conta a história de um suicídio que tem tudo para ter sido um assassinato. Mas quem cometeu o crime? E, de fato, ele foi um crime? Com um elenco estelar, um roteiro envolvente e com uma boa dose de ironia para as tramas do gênero, esta produção surpreende mesmo quem está habituado a “matar a charada” em filmes do gênero. Entretenimento simples e direto. Como Agatha Christie.

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Logan Lucky – Logan Lucky, Roubo em Família

O diretor Steven Soderbergh tem uma fixação: filmes sobre roubos. Mais uma vez ele nos apresenta uma história destas em Logan Lucky. Só que, desta vez, ele resolve focar na “América profunda”, em um estilo de produção que estamos acostumados a ver com os irmãos Coen. Mais uma vez, Soderbergh se esforça. Mas já vimos a tantas histórias parecidas… no final, ficamos com aquela sensação de “eu já vi isso antes”. Ainda assim, claro, o roteiro é bacaninha, com alguns diálogos e sacadas bacanas, apesar de ser bem previsível. E os atores são a melhor parte do filme.

A HISTÓRIA: Enquanto conserta o carro, Jimmy Logan (Channing Tatum) fala de forma frenética. Ele conta para a filha, Sadie (Farrah Mackenzie), que o está ajudando na tarefa do conserto, uma história sobre um de seus ídolos, o cantor e compositor John Denver. A menina escuta tudo atentamente e descobre que o pai gosta de músicas “que tenham história”. Sadie diz que a mãe dela pensou em pagar a conta do celular dele, porque volta e meia ele está com a conta atrasada e, consequentemente, não consegue receber chamadas. Jimmy diz que tem o celular apenas para fazer fotos da filha. Em breve, ele vai ficar desempregado e acaba acionando um plano ousado de roubo que envolve os seus dois irmãos e alguns conhecidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan Lucky): A melhor qualidade desta produção, de longe, é o seu elenco. Ótimos atores e desempenhando papéis bem diferentes – no geral – do que estamos acostumados a vê-los. Daniel Craig, em especial, está ótimo. Como um presidiário bem tatuado e com todas as características que esperamos de um presidiário americano, Craig parece tirar sarro de seu papel de James Bond.

Ao menos eu não consegui olhar para ele em Logan Lucky e não pensar nisso, em como o seu papel como Joe Bang é o oposto do personagem clássico do cinema que ele interpreta desde 2006. Então sim, os ótimos atores em cena é o que fazem Logan Lucky ser um pouco interessante. O roteiro de Rebecca Blunt também começa bem. Parece que ela fez várias aulas com os irmãos Joel e Ethan Coen – eles sim especializados em tratar da “América profunda” e de seus “bandidos e mocinhos” caipiras.

Então, rapidamente percebemos que Logan Lucky segue um pouco a linha de filmes dos Coen como Fargo – mas sem tanto refinamento e inteligência, é bom dizer. Logan Lucky logo demonstra que o roteiro de Rebecca Blunt vai desbravar a seara da verborragia do interior dos Estados Unidos, com todos os seus sotaques e “conversa jogada fora” que, volta e meia, algum roteirista/cineasta norte-americano gosta de apresentar. Mas em uma época como esta, em que temos um presidente como Donald Trump no poder, não deixa de ser curioso voltarmos para este tipo de filme.

Afinal, reza a lenda que figuras como o protagonista Jimmy Logan é que teriam eleito Donald Trump. Ou seja, homens brancos, desempregados e desiludidos com a “falta de protagonismo” dos Estados Unidos. Pessoas mais preocupadas em voltar a ter emprego e dinheiro na conta do que em política externa, discutir as armas sendo vendidas livremente no país ou planos de saúde. Bem, o foco deste filme é justamente esse perfil de americanos. Pessoas que vivem as suas vidas da melhor forma possível, muito patriotas, mas nem sempre corretos.

A impressão que Logan Lucky nos dá, conforme a história vai avançando, é que não apenas o brasileiro é chegado em um “jeitinho” para resolver os seus próprios problemas. Mas, claro, nesta versão americana de “jeitinho”, o “herói” da história até tenta ser correto. Procura trabalhar, se esforça em manter as contas em dia, mas o “sistema” não lhe deixa ser um cara correto. Então a lei e a noção do que é certo e correto são facilmente ignorados quando o protagonista desta história fica desempregado e vê a ex-mulher Bobbie Jo Champman (a assustadoramente apagada Katie Holmes) ameaçar levar a filha do casal para um Estado vizinho.

Ex-promessa/astro juvenil do futebol americano, Jimmy Logan procura se sustentar com trabalhos dignos mas que pagam pouco. Ele faz parte de uma família sobre a qual, segundo o irmão de Jimmy, Clyde (o sempre competente Adam Driver), pesa uma maldição. Ao menos esta é a teoria de Clyde, um barman que perdeu parte do braço e a mão em uma de suas incursões no Iraque.

Aliás, o roteiro de Rebecca Blunt poderia ser menos descaradamente americano? Ela pega um ex-jogador de futebol americano que fazia sucesso quando era jovem mas que, hoje, não tem mais o brilho de antigamente, e coloca ele como irmão de um ex-veterano ferido no Iraque. Para completar a família Logan, temos a irmão de Jimmy e de Clyde, a cabeleireira Mellie (a interessante Riley Keough). Ou seja, toda a família é classe média média americana, todos com perfil perfeito para cair nas “graças” dos eleitores de Donald Trump – digo tudo isso generalizando, é claro.

Bem, os personagens até são interessantes. Os atores, em especial, fazem um grande trabalho. Todos os que eu citei até agora – menos Katie Holmes -, incluindo Channing Tatum, estão muito bem em seus papéis. Mas o problema é mesmo o roteiro previsível e cheio de lugares-comum de Rebecca Blunt e a direção preguiçosa de Steven Soderbergh – este é o ano, parece, de bons diretores fazerem trabalhos apenas medianos, vide Darren Aronofsky com o divisor de opiniões do ano Mother! – que eu comentei por aqui.

Ainda que o começo do filme seja interessante e que sempre pode valer a pena assistir a um filme que trata da “América profunda”, conforme a história avança nós vemos a mais um filme de roubo do Sr. Soderbergh. A ação propriamente dita não apresenta nada de novo – ok, o diretor sabe fazer cenas de ação e valorizar os atores, mas não apresenta nada de realmente interessante. E o roteiro vai por caminhos esperados, praticamente sem surpresa alguma – ok, existe uma “reviravolta” na história, que sugere algo inicialmente e depois mostra a “virada”… mas até isso acaba sendo previsível.

Então, e eu acho que ninguém falou isso para o Soderbergh, mas esta fórmula dele está desgastada. Tanto que o roteiro até tira um “sarro” da trajetória do diretor… (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Lá pelas tantas, uma mulher comenta, ao ser entrevistada em um noticiário que aparece no filme, que o roubo do autódromo em que ocorreu uma das provas mais importantes do Nascar está sendo chamado de “Ocean’s Seven Eleven” porque a grana do crime foi deixada em um posto da rede 7-Eleven. Ah, sério? Sério mesmo? Soderbergh precisa encontrar o próprio rumo e deixar de fazer filmes que são mais do mesmo e pura autorreferência para o que ele já fez antes.

Francamente, com tanta obviedade, eu só não dou uma nota menor do que a que eu estou dando aqui porque eu realmente gostei do trabalho dos atores. Especialmente Daniel Craig está ótimo no papel do especialista em abrir cofres Joe Bang. Também gostei muito do trabalho dos “irmãos Logan”, com Channing Tatum e Adam Driver fazendo papéis interessantes e que tiram eles um pouco da “zona de conforto”. Outras atrizes que aparecem bem, como Farrah Mackenzie e Riley Keough completam bem o time principal, e grande parte do elenco de apoio faz um bom trabalho.

Pensando nesta “América profunda” que elegeu Donald Trump, até que achei o filme interessante. A parte que fala sobre estas pessoas, como elas vivem e o que elas pensam. Agora, o enredo do roubo e a ação como ela acontece – incluindo a “rebelião” com referência forçada a Game of Thrones no presídio -, achei de uma obviedade desconcertante. Enfim, mais um filme de Soderbergh repetindo a sua fórmula que um dia já foi sucesso. Até diverte, mas não é nada além de mediano. E ainda sendo boazinha. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, ainda que Logan Lucky seja bastante previsível, ele tem uma grande “virada” em sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, o roteiro de Rebecca Blunt nos faz acreditar que, após Jimmy assistir à apresentação da filha Sadie, que abre mão de cantar uma música de Rihanna para cantar a música preferida do pai, que fala do Estado da Virgínia, ele teria se arrependido do crime e decidido abandonar o dinheiro em um posto com uma rede de 7-Eleven. Mas aquilo parece um bocado estranho e apesar dos outros personagens ficarem “indignados” com Jimmy e o abandono do dinheiro ser noticiado por todos os lados, não chega a ser realmente surpreendente quando o dinheiro começa a ser distribuído e percebemos que eles deram o “golpe” no golpe.

Ou seja, como já aconteceu em outros filmes, eles souberam disfarçar o próprio crime. Mas como eles fizeram isso? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação, um tanto mal realizada em Logan Lucky, é a seguinte: eles roubaram muito mais do que o que “devolveram”. Como o autódromo não tinha uma “conta exata” do quanto tinha sido roubado – uma desculpa volta e meia dada por empresas e instituições que são roubadas, mas um tanto difícil de acreditar, não é mesmo? -, e como eles tinham recebido também o dinheiro do seguro (algo estranho já que, em teoria, o dinheiro do crime foi devolvido), ninguém soube afirmar se realmente todo o dinheiro do roubo tinha sido abandonado no posto.

Com razão os agentes especiais Sarah Grayson (Hilary Swank em uma aparição surpreendente na reta final do filme) e Brad Noonan (Macon Blair) desconfiam um pouco de toda aquela história envolvendo o dinheiro. Afinal, o quanto tinha sido roubado? Tudo tinha sido devolvido? Por que o autódromo tinha também ganho o dinheiro do seguro? Aliás, uma outra pergunta que eu faria, se fosse eles: pelo fato do autódromo ter “ganho” duas vezes, alguém da administração do local não poderia ter orquestrado todo o crime?

No fim das contas, Jimmy Logan, que era o “cérebro” de todo o golpe, conta apenas parte do plano para Joe Bang e seus dois irmãos atrapalhados. Os irmãos de Jimmy fazem um bom teatro para dissimular o “golpe do golpe”. E, assim, eles roubam parte do dinheiro e devolvem ele naquela história do carro abandonado no posto, enquanto uma outra parte considerável do dinheiro é “enterrada” no aterro sanitária e, na hora certa, quando Jimmy não está mais sendo grampeado e investigado, retirada daquele local e distribuída. Mas, claro, eles são muito bobos em deixarem tantos rastros e, depois do dinheiro resgatado, aparecem todos no bar onde Clyde trabalha para “comemorar”. Sinal de que os espertos não são tão espertos assim.

O elenco de Logan Lucky surpreende. Grandes nomes envolvidos em um projeto mediano de Steven Soderbergh. O diretor é bom, e certamente isso atraiu os astros e estrelas a fazerem parte deste novo filme. Entre os nomes estrelados e bem pagos por Hollywood, como eu comentei antes, os destaques para mim foram Daniel Craig ótimo, com um olhar um tanto de psicopata, com o seu Joe Bang; seguido de Channing Tatum bem como um ex-jogador de futebol americano que luta para ser um bom pai, apesar das dificuldades em conseguir um emprego; Adam Driver como Clyde Logan, o irmão mais correto da família e que busca sempre seguir os passos de Jimmy; e Riley Keough como uma grata surpresa nesta produção como a irmã cabeleireira e um ás do volante da dupla Jimmy e Clyde.

Além destes quatro atores, que são o destaque nesta produção, vale comentar o bom trabalho de Farrah Mackenzie como Sadie Logan – como não lembrar de Abigail Breslin e a sua Olive Hoover no genial Little Miss Sunshine?; David Denman como um americano típico boçal e, neste filme, vendedor de carros chamado Moody Champman; Seth MacFarlane como outro boçal, o dono de uma marca de energético, chamado Max Chilblain; Jack Quaid e Brian Gleeson como os irmãos de Joe Bang, respectivamente Fish e Sam; Katherine Waterston perfeita como Sylvia Harrison, uma garota mais nova que Jimmy e que era fascinada por ele no colégio e que volta a encontrá-lo nesta nova fase “decadente”; Lauren Revard em uma ponta como a colega de Sylvia; Jon Eyez como Naaman, o parceiro de Joe Bang nos planos para a fuga e retorno para o presídio; Deneen Tyler como a enfermeira do presídio que atende Joe Bang; e Dwight Yoakam em um papel especialmente engraçado (e cheio de estereótipos) como o diretor do presídio que não admite nenhum problema ou erro.

Outros atores com papéis menores estão ok, preenchem a tela nos momentos devidos. Mas alguém que tem uma certa relevância na história e que não convence em seu papel em momento algum, muito pelo contrário, é a atriz Katie Holmes. Chega a ser um pouco angustiante o desempenho dela. Achei muito fraco, muito distante de outros papéis que ela já fez.

Entre as qualidades técnicas do filme, o principal aplauso vai para a trilha sonora de David Holmes. O que ouvimos na telona é o ponto alto da produção – assim como o elenco. Depois, vale comentar a edição de Steven Soderbergh (que assina como Mary Ann Bernard); o design de produção de Howard Cummings; a direção de fotografia de Soderbergh (que assina como Peter Andrews); a direção de arte de Eric R. Johnson e de Rob Simons; e os figurinos de Ellen Mirojnick.

Logan Lucky estreou em uma première em Tel Aviv no dia 7 de agosto. Depois, no dia 17 de agosto, o filme estreou na Austrália, em Israel e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos ele estreou no dia seguinte e, no Brasil, apenas no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Em circuito comercial no Brasil ele entrou em cartaz apenas no dia 12 de outubro.

Esta produção teria custado US$ 29 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 27,7 milhões. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 15,1 milhões. Ou seja, somando estes dois mercados, o filme fez cerca de US$ 42,9 milhões. Como sempre calculamos o dobro do custo inicial para verificar o quanto um filme gastou – e aí sim incluindo cópias, distribuição, publicidade, etc. -, dá para perceber que Logan Lucky ainda não conseguiu dar lucro.

Ah, antes eu falei da Virgínia, certo? Estado que é “homenageado” por esta produção. Pois bem, vale dar uma lida nesta matéria do site português Publico. Nele eles comentam como a Virgínia é reduto da extrema-direita americana. Ou seja, nem preciso dizer que o filme toca em alguns pontos interessantes, ainda que de forma suave, certo? Acho que ele poderia ter sido bem mais contundente sobre a imbecilidade de alguns humanos que fazem parte daquele Estado…

Vale comentar, aliás, que Logan Lucky fala da Virginia mas não foi rodado lá. Esta produção foi rodada na Carolina do Norte e na Geórgia, em cidades como Clayton County, Douglasville e Charlotte – esta última sim, citada na produção.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Logan Lucky é o primeiro filme dirigido por Steven Soderbergh desde que ele anunciou a sua “aposentadoria” como diretor. A produção anterior que ele havia dirigido foi Behind the Candelabra. Para o próximo ano é esperado um novo filme dirigido por ele e estrelado por Juno Temple, Claire Foy, Aimee Mullins, entre outros. O filme no estilo “drama/horror” tem o título provisório de Unsane. Esperamos que ele traga alguma ideia nova, para variar…

Falando no filme dar ou não lucro, Soderbergh optou por uma forma diferente de distribuição do que a que Hollywood está acostumada. Para se livrar dos estúdios e ter “liberdade criativa” nesta produção, Soderbergh vendeu diretamente os direitos para distribuição estrangeira de Logan Lucky, assim como os direitos do filme ser exibido por HBO, Netflix e demais serviços do gênero. Com isso, o diretor e produtor garante que reduziu os custos com distribuição e que tornou mais fácil para o filme obter lucro.

Vários pilotos da Nascar aparecem nesta produção. Vale citar a aparição de nomes como Ryan Blaney, Kyle Larson, Carl Edwards, Kyle Busch, Brad Keselowski,Joey Lagano, Jeff Gordon e Darrell Waltrip – comento a lista aqui acaso tenha algum(a) fã de Nascar por aí. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 202 críticas positivas e apenas 15 negativas para o filme, o que garante para Lucky Logan uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,3. Achei as duas notas boas e o nível de aprovação dos críticos especialmente generoso.

Logan Lucky é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Se você já viu aos filmes anteriores do diretor Steven Soderbergh, especialmente a Ocean’s Eleven, tenha certeza que você não vai ver nada de muito novo neste Logan Lucky. Sim, é verdade que o diretor resolveu fazer uma produção mais “realidade americana” desta vez. Então temos os vários sotaques do interior, aquele orgulho e estupidez inerente de muitos americanos – algo já bem explorado (e inclusive com maior qualidade) pelos irmãos Coen. O filme é engraçadinho e tem no ótimo elenco o seu principal trunfo. Mas o roteiro… infelizmente, é mais do mesmo. Nada de novo sob o sol, muito pelo contrário. Veja apenas se você gosta muito de algum dos atores em cena ou se não tiver nada melhor para fazer.

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Cowboys & Aliens

Colocar em um mesmo filme cowboys e aliens é, por si só, uma mistura inusitada. Mas um filme com Daniel Craig e Harrison Ford merece respeito e desperta interesse, é preciso dizer. Então me lancei a descobrir o que poderia acontecer, pelas leitura do diretor Jon Favreau, quando cowboys encontram aliens e vice-versa. O começo é retumbante, bem escrito e com ritmo perfeito. Mas depois… o filme cai naquele velho jogo de perseguição com um fim um bocado previsível. É divertido? Claro, Cowboys & Aliens tem algumas cenas bacanas, um começo perfeito, um punhado de bons diálogos e interpretações que não decepcionam. Mas, cá entre nós, vale a pena apenas como diversão, cinema-pílula. Nada excepcional.

A HISTÓRIA: Cenário típico do Velho Oeste. A câmera desliza mostrando a paisagem quando um homem desperta (Daniel Craig). Ele está sujo, parece ter saído de uma guerra. Olha assustado ao redor e, ao tentar levantar, sente um ferimento do lado direito da barriga. No braço esquerdo, um estranho bracelete. Ele tenta tirá-lo, inclusive com a ajuda de uma pedra, mas não consegue. Então ele escuta um grupo chegar à cavalo. Ele levanta, enquanto é cercado. O líder pergunta sobre o vilarejo de Absolution, a que distância está dali indo para o Oeste. Sem receber uma resposta, o grupo sugere que, pelo bracelete, ele deve ser um prisioneiro. O líder comenta que talvez ele renda uma boa recompensa, desce do cavalo e pede para o homem desconhecido marchar. Rapidamente, ele acaba com os três homens e segue, à cavalo, para o vilarejo mais próximo. Lá ele é ajudado pelo pastor local (Clancy Brown) antes de se desentender com o aloprado Percy Dolarhyde (Paul Dano), filho do rico Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford). Ele ainda conhece a misteriosa Ella Swenson (Olivia Wilde) antes de ser confrontado por um ataque alienígena e começar, junto a Dolarhyde e outros companheiros inusitados, a missão de resgatar pessoas sequestradas pelos extraterrestres.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cowboys & Aliens): Quando vi o título desse filme, logo de cara lembrei do livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Daniken, que resgata vestígios antigos e afirma que recebemos visitas e contribuições de extraterrestres desde a Antiguidade. Cowboys & Aliens brinca com esses conceitos, ao mostrar a história de uma localidade no Velho Oeste dos Estados Unidos que recebe as “visitas” e a exploração de extraterrestres.

O começo do filme dirigido por Jon Favreau é perfeito. Primeiro, porque cada linha do roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus e Hawk Ostby (ufa, quanta gente para escrever um texto!) parece ter sido afinado com esmero. Não há sobras, mas boas sacadas, ironia e tensão. A primeira imagem do protagonista Jake Lonergan resume o contra-senso da produção: um sujeito durão, que parece ter saído de uma guerra, machucado e com um aparato de altíssima tecnologia preso no pulso.

Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor; o equilíbrio entre planos abertos, que mostram a paisagem do Velho Oeste e os closes e planos fechados, a partir das costas dos personagens; aliados com os cortes rápidos e oposição entre os atores, resgata a alma dos filmes do gênero. Cria a tensão e o ritmo adequado – e, por que não dizer, esperado pelos espectadores – para a produção. Bastante providencial também o “branco” do personagem principal, que perdeu a memória – e que abre o flanco para aqueles que assistem à produção ficarem em dúvida sobre qual é a origem daquele bracelete e o que Lonergan tem a ver, afinal, com os alienígenas.

O roteiro é assinado pelos cinco nomes que eu mencionei antes, mas o argumento da história que originou o roteiro foi criado por Mark Fergus, Hawk Ostby e Steve Oedekerk. Achei que eles acertaram em vários pontos. Para começar, na amnésia do personagem principal, o que cria tensão e suspense. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pena que esses elementos não durem muito tempo. Afinal, a “dúvida” se Lonergan poderia ter matado a Alice (Abigail Spencer) não chega a colar e, 40 minutos depois do filme ter começado, fica logo evidente que os culpados foram os alienígenas. Se essa dúvida tivesse sido melhor construída e durasse mais tempo, talvez o filme tivesse ganho um pouco mais de interesse. Sem isso, logo sabemos que o protagonista é um herói, e que os demais humanos também são bacanas e devem agir para proteger o nosso planeta contra os únicos vilões da história: os invasores alienígenas.

Quando o filme cai na simplificação maniqueísta da maioria dos filme sobre invasão alienígena, ele perde bastante da força que tinha antes. Nós ficamos com aquela sensação de “mais do mesmo”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, não existem dúvidas, ou outras possibilidades… tudo está claro após meia hora de filme: os aliens são os bandidos que devem ser combatidos. E nós, os humanos, por mais que algumas vezes exploremos uns aos outros, que passamos por cima de alguns semelhantes porque temos mais “poder” ou “dinheiro” (exemplo encarnado pelo personagem de Harrison Ford), no fim das contas somos solidários e nos unimos por uma “causa maior”. Que é combater, pelo que parece, o invasor – seja ele alienígena ou um semelhante, durante um conflito qualquer.

Mas o pior mesmo é a justificativo para termos alienígenas por aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eles estão atrás de ouro! Sim, eles são atraídos pelo metal precioso tanto quanto nós, há vários séculos atrás. E por que? O que eles fazem com o ouro? Ninguém sabe, ninguém explica e, aparentemente, isso nem faz falta. Os cinco roteiristas dão a entender que tanto faz o motivo pelo qual somos invadidos. O importante mesmo é termos alguém contra lutar para que eles possam fazer um filme de ação. Por essas e por outros é que Cowboys & Aliens receberia uma nota péssima se eu fosse analisar apenas o roteiro. Que começa bem, não canso de repetir, mas que depois vai derrapando até se converter em um clássico texto para justificar tiroteios, mortes, batalhas e cenas diversificadas de ação.

Ainda bem que, para a sorte do espectador, um filme não é apenas um roteiro. Mesmo quando o texto se mostra bem escrito no início e depois derrapa em lugares-comum, sequencias previsíveis e justificativas idiotas, como acontece com Cowboys & Aliens, nos resta agradecer por estarmos assistindo a um filme, e não lendo um livro. Como o cinema é muito mais que apenas bom textos e boas linhas de diálogo, temos na direção bem conduzida de Jon Favreau; nas interpretações dedicadas de Daniel Craig, Harrison Ford e Sam Rockwell, principalmente; na ótima edição de Dan Lebental e Jim May; na direção de fotografia inspirada de Matthew Libatique e na trilha sonora envolvente de Harry Gregson-Williams uma boa compensação para o roteiro que vai ficando fraquinho com o passar do tempo. Por tudo isso, Cowboys & Aliens se mostra um filme bem produzido, bem acabado na técnica e, principalmente, um passatempo que diverte – descontadas as falhas citadas anteriormente.

No fim das contas, o que motivava os alienígenas? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lembrando um pouco a District 9, Cowboys & Aliens explora a ideia de aliens inteligentes, com aparatos tecnológicos muito desenvolvidos, mas com aspecto que nos parece repulsivo. E ao mesmo tempo que eles tem máquinas impressionantes, seu comportamento é brutal, algumas vezes sem sentido. Para que eles utilizam o ouro que extraíam da Terra? Para que fulminavam pessoas em uma mesa de operações? Não sabemos o uso que eles davam para estas coisas. Mas o filme sugere que nem todos são assim, e que se há aliens exterminadores, há também alienígenas vingadores e “preocupados” com outras civilizações, como é o caso da personagem de de Ella Swenson – uma alienígena que pode tomar a forma humana e que se assemelha a uma fênix.

O maior pecado de Cowboys & Aliens, contudo, não está na falta de explicação para a invasão alienígena. Mas sim na simplificação da história, que tinha começado irônica e bem escrita. Lá pelas tantas, o filme se converte apenas em uma caça dos cowboys contra os alienígenas e em um tipo de “operação de resgate” deles para reaver os seus familiares. A ação se resume a encontrar o inimigo, atacá-lo e vencê-lo. O final, é previsível. Uma boa desculpa para gastar vários milhões de dólares, colocar atores ótimos em cena e seduzir os aficionados por efeitos especiais. Mas por trás desta cortina de fumaça, sobra pouco roteiro bem escrito e emoção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os produtores de Cowboys & Aliens acertaram na escolha do elenco. O primeiro gol foi conseguirem reunir dois veteranos dos filmes de ação para encabeçar a lista de protagonistas: Daniel Craig e Harrison Ford. Craig lembra, algumas vezes, seus personagens de ação anteriores, especialmente nas cenas em que cai no braço com os adversários. Ford faz o estilo paizão-durão. E com ele em cena, é inevitável não lembrar de algumas cenas do Indiana Jones – especialmente quando o personagem de Jake Lonergan está tentando chegar no núcleo da nave e escapar de lá.

Inicialmente, para o papel de Jake Lonergan, tinha sido convocado o ator Robert Downey Jr. Tenho certeza que ele teria se saído muito bem também, mas admito que gostei muito do trabalho do Craig. Sem ele, sem dúvidas, esse filme teria se mostrado ainda mais fraquinho. Os produtores acabaram chamando Craig devido à semelhança dele com Steve McQueen, que estrelou um dos épicos do gênero, The Magnificent Seven.

Falando em troca de astros para os papéis principais, Craig havia indicado a atriz Eva Green para o papel de Ella, mas ela acabou desistindo da personagem, o que abriu espaço para Olivia Wilde. Gostei, francamente, de ver a atriz mais conhecida por House M.D. ganhar este papel de destaque. Quem sabe ela não deslancha? Ainda que, até agora, tenham sobrado para ela, sempre, papéis menos complicados – onde a beleza da atriz é o principal argumento, mas ela não tem a interpretação como o ponto mais forte.

Até escrever estas observações extras eu não sabia que este filme é uma adaptação de um quadrinho. Não conheço a HQ de Cowboys & Aliens, então não posso dizer se o filme segue ou não a linha do original. Só vi que os quadrinhos originais foram criados por Scott Michael Rosenberg, da editora Platinum, com as histórias escritas por Andrew Foley e Fred Van Lente, e arte assinada por Luciano Lima e Dennis Calero. Alguém sabe me dizer se o filme respeita bastante o original ou faz um trabalho diferenciado?

Jon Favreau cita os clássicos Alien e Predator como influências para Cowboys & Aliens. Evidente, não? Qualquer filme sobre alienígenas, obrigatoriamente, acabam lembrando esses ícones – normalmente bem acima da média das outras produções que vieram depois – do cinema. Exceto por District 9, que traz alguma ideia nova para o gênero, depois de muitos anos de marasmo criativo.

Cowboys & Aliens custou, aproximadamente, a fortuna de US$ 163 milhões. E mesmo com grandes astros no elenco, até o último dia 11 de setembro, o filme conseguiu pouco mais de US$ 98 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção teve pré-estreia no dia 29 de julho e estreou definitivamente no dia 31 de julho em 3.750 cinemas daquele país. Certamente, juntando com o que a produção vai arrecadar no restante do mundo, ela terá lucro. Mas dificilmente será um fenômeno de bilheterias.

Além dos Estados Unidos, Cowboys & Aliens teve pré-estreia na Índia e no Canadá no dia 29 de julho. Depois, passou pelo festival de Locarno e estreou em outros mercados espalhados pelo mundo.

O trabalho dos atores mais significativo já foi comentado. Mas nunca é demais citar outros profissionais que acabam sendo importantes para a história e que fazem um trabalho razoável: Adam Beach como Nat Colorado, índio que virou o filho adotivo do durão Woodrow Dolarhyde; Chris Browning como Jed Parker; Ana de la Reguera como Maria; Noah Ringer como Emmett Taggart, filho do sheriff; Keith Carradine como o sheriff John Taggart; e Raoul Trujillo como o chefe apache Black Knife.

Eu sei que a maioria das pessoas que gostam de filmes de ação não se importam muito com o roteiro. Mas não consigo me conter sobre um comentário. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os aliens deste filme são muito, mas muito burros, realmente. Afinal, eles não precisavam sequestrar um monte de gente e ficar atirando pra cima e pra baixo. Bastava atacarem ao personagem central, direcionar todos os tiros para Jake Lonergan. Ele era o único que tinha uma arma roubada e que realmente tinha efeito contra eles. Sem aquele bracelete, nenhum ataque terráqueo teria feito realmente efeito. No fim das contas, os homens e mulheres do Velho Oeste eram a inteligência superior. 🙂

Cowboys & Aliens não conseguiu convencer os espectadores e os críticos. Os primeiros deram a nota 6,5 para a produção no site IMDb. Os segundos, foram ainda menos generosos: eles tem 122 textos negativos e 98 positivos para a produção linkados no Rotten Tomatoes, o que garante uma aprovação de 44% – e uma nota média de 5,6. Olhando para estas avaliações, acho que eu fui beeeeem generosa com o 8 que eu dei. Mas é que eu gostei muito do começo do filme, da atuação do Daniel Craig e do estilo do diretor – ainda que a produção tenha caído tanto de qualidade depois dos primeiros 40 minutos. Mas é isso aí mesmo, gostos são gostos – e quando estamos dispostos a assistir a um filme-pipoca, como esse, até a nota melhora. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme que mistura dois gêneros clássicos do cinema: o western e a ficção científica, para gerar uma produção cheia de ação, alguma ironia e bastante previsibilidade. Cowboys & Aliens brinca com a ideia lançada por Erich von Daniken no livro Eram os Deuses Astronautas? para abordar o encontro inusitado entre civilizações em níveis de desenvolvimento muito diferente. Só que esta relação não se mostra amistosa ou complementar, mas apenas conflitante. Jon Favreau acerta na direção, mas o roteiro escrito a cinco mãos não evita que a história seja o elo fraco da produção. Tecnicamente bem feito, Cowboys & Aliens peca por uma história fraca, que perde interesse conforme o filme vai se desenvolvendo. Mas para quem não se importa muito com um roteiro previsível e está mais interessado em efeitos especiais e atuações bacanas, esse pode ser um bom passatempo e uma ótima alternativa de entretenimento. Para o meu gosto, esta produção saiu previsível demais e um bocado morna, sem emoção. Poderia ter sido melhor.

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Defiance – Um Ato de Liberdade

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Sete décadas depois do início da 2ª. Guerra Mundial, a história continua sendo revisitada. Novas publicações apontam aspectos do confronto pouco ou nada explorados por distintos autores até o momento. Defiance aparece no meio deste “levante” de revisão histórica ao apresentar a trajetória de um grupo de judeus que resistiu ao extermínio promovido pelos nazistas. Este é o primeiro filme que assisti com esta temática. Essa “inovação” que a produção traz, sem dúvida, é um dos seus maiores trunfos, ao promover a mudança do foco narrativo dos judeus como vítimas – algo que também foi uma realidade, claro – para mostrar-lhes como pessoas corajosas, lutadoras e convictas de seu direito de sobreviver.

A HISTÓRIA: Adolf Hitler cumprimenta parte de seu Exército. O ano é 1941 e a história que vamos assistir acompanha fatos que ocorreram na ocupação da Bielo-Rússia por parte da Alemanha. Imagens em preto-e-branco mostram o trabalho da SS e da polícia local em cercar e prender os judeus que moravam no país. Estas cenas logo se convertem em imagens coloridas que “reconstituem” o que teria acontecido com os irmãos Bielski. Depois de assistirem a morte dos pais, em agosto, eles se escondem na Floresta Lipiczanska, onde começam a formar um grupo de resistência ao regime de repressão e extermínio nazista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Defiance): Quando bons roteiristas encontram um trabalho de pesquisa bem acabado como base para seus filmes, normalmente o resultado do processo de adaptação de uma obra literária para os cinemas tem êxito. Este é, em muitos momentos, o caso deste filme, que se debruça sobre vários aspectos do cotidiano de um grupo de judeus que decidiu resistir à perseguição promovida pelos nazistas durante a 2ª Guerra. As qualidades do texto para o cinema escrito por Clayton Frohman e o diretor Edward Zwick começaram pelo trabalho de Nechama Tec, professora de sociologia que publicou a obra Defiance: the Bielski Partisans.

Tec, como outros escritores e pesquisadores históricos fizeram recentemente, buscou ir a fundo na investigação histórica daquela época, procurando outras versões sobre o que aconteceu no período de 1939 e 1945 na Europa. A curiosidade deles está provocando uma verdadeira revisão histórica do período, lançando luz sobre muitas dúvidas a respeito dos diferentes papéis que países, exércitos e civis desempenharam no período de expansão nazista. Assim, Tec e outros escritores têm mostrado que os judeus não foram sempre as vítimas indefesas e incapazes de lutar contra seus algozes como estávamos acostumados a aprender nas aulas de História ou através de filmes.

A revista Superinteressante trouxe, em setembro deste ano, uma reportagem sobre estas novas descobertas dos pesquisadores que se preocupam com o tema. Segundo a reportagem da revista, o grupo de resistência dos irmãos Bielski chegou a aniquilar aproximadamente 400 inimigos. Outros grupos de judeus perseguidos pelos nazistas resistiram em florestas e pântanos do Leste Europeu, repetindo os passos dos irmãos vistos em Defiance: além de se abrigarem em lugares de difícil acesso, estes grupos interceptavam carregamentos de comida para as tropas alemãs, sabotavam “usinas elétricas e fábricas”, descarrilhavam “trens inimigos e, quando possível”, matavam “algum nazista”.

Este poderia ser um bom resumo sobre Defiance. Mas o filme é mais que isso. O roteiro de Zwick e Frohman tem espaço para as ações estratégicas do grupo dos irmãos Bielski, mas também (e esta é a parte mais curiosa) se ocupa em relatar a organização deles para sobreviver em locais isolados. Os trabalhos de construção de acampamentos, de distribuição de comida, a queda-de-braço pela liderança do grupo, os romances, o perigo de uma epidemia de tifo, enfim, o cotidiano de um grupo formado por pessoas com formação, faixa etária e condições de saúde tão diferentes é o que torna Defiance um filme curioso.

Um dos acertos do roteiro é o de não exagerar na dose de “santificação” dos protagonistas. Ainda que exista algum “embelezamento” de suas biografias, ele é feito de maneira moderada. Desta maneira é que acompanhamos, ao mesmo tempo, a bravura e a covardia de Tuvia Bielski (Daniel Craig), o líder do grupo de resistência que busca ser justo com aqueles que o cercam, dita regras coerentes para homens, mulheres e crianças, age com bravura na busca por alimentos para seu grupo mas, também, é capaz de invadir a casa de uma família e matá-la praticamente inteira por vingança.

O irmão de Tuvia, Zus (Liev Schreiber) é um homem que defendia o uso de armas mais que a diplomacia. Corajoso e assombrado por um certo complexo de inferioridade em relação a Tuvia (o que acaba resultando em ações de competição entre os irmãos), ele acaba aderindo a Otriad Outubro, formada por soldados do Exército Vermelho comandados por Viktor Panchenko (Ravil Isyanov).

A separação dos irmãos acabou sendo inevitável porque,enquanto Tuvia apostava em uma resistência estratégica, com a ação do grupo focada em assaltos contra alemães e seus colaboradores para conseguir comida e algumas armas, Zus acreditava em ações de represália mais duras. Ele também não concordava muito com o gesto do irmão em ser um “bom samaritano” e abrigar/cuidar de pessoas que não poderiam “pegar em armas” e resistir a um confronto com os nazistas. A verdade é que o grupo que foi se formando ao redor dos Bielski era composto, maioritariamente, por velhos, mulheres e crianças. Comentei tudo isso para demonstrar como Zus também foi mostrado como um personagem complexo, capaz dos gestos mais heróicos na luta direta contra os nazistas ao mesmo tempo em que demonstrava um bocado de inveja/disputa a respeito do irmão mais velho e egoísmo ao querer defender apenas a si próprio e aos familiares, não se importando muito com os demais.

Em filmes que buscam contar gestos heróicos de pessoas reais, existe um grande risco por ignorar os vários aspectos da personalidade destes personagens. Normalmente, os roteiristas se focam apenas nas qualidades ou nos defeitos das pessoas retratadas, dificilmente mostrando a complexidade de suas personalides – exceto quando se trata de uma cinebiografia. Defiance corria o risco de contar uma história um bocado rasa a respeito de seus protagonistas porque há muitos aspectos da história a serem mostrados. Levando isso em conta, os roteiristas se sairam bem no seu trabalho.

Os personagens mais “lineares” ou “rasos” ficaram para os outros dois irmãos Bielski. Asael, interpretado pelo sempre ótimo Jamie Bell, incorpora o papel do bom moço. Depois de ficar abalado com a morte do pai, ele passa a auxiliar Tuvia com o acampamento e, observando o irmão, aprende a se tornar também um líder. Na verdade, Asael aprende tanto com Tuvia quanto com Zus e, aparentemente, saca o melhor de cada um deles. Algumas das melhores cenas e diálogos do filme acabam sendo protagonizadas pelo garoto. O outro Bielski da história, Aron (George MacKay) aparece menos. Essencialmente ele encarna a fragilidade e o drama vivido pelas crianças do grupo, que ficaram órfãs da noite para o dia.

Comentei apenas sobre os irmãos Bielski, mas outros personagens também tiveram um certo destaque nesta história. Entre eles, destaco a bela francesa Alexa Davalos, que interpreta a Lilka Ticktin, uma mulher de posses e que estudou música na universidade e que acaba se apaixonando pelo protagonista; a encantadora australiana Mia Wasiowska como Chaya Dziencielsky, uma jovem salva junto com Asael que acaba motivando a operação de resgate de muitos judeus de um gueto criado pelos nazistas na região; o competente ator sueco Allan Corduner como Shamon Haretz, ex-professor dos Bielski e um dos organizadores do acampamento; e o nova-iorquino Mark Feuerstein como Isaac Malbin, um intelectual que acaba demonstrando para Tuvia que não bastava sobreviver aos nazistas, era preciso criar e fomentar a idéia de comunidade entre as pessoas do acampamento.

Seguindo ainda o que eu dizia antes sobre os acertos do roteiro, achei curioso como Defiance aborda alguns dos pré-conceitos que rondavam o imaginário da população sobre os judeus naquela época – e talvez até hoje. Idéias estas, é importante comentar, muitas vezes assumidas pelos próprios judeus. Entre outras, as de que eles eram incapazes de lutar ou de passar uma noite bebendo com os amigos, assim como de serem pessoas leais e capazes de gestos de doação. Os irmãos Bielski e as demais pessoas que fizeram parte de seu acampamento, em sua maioria, demonstraram que estes pensamentos estavam errados e que, como em qualquer outro grupo, eles também abrigavam pessoas de índole muito diferentes. Tuvia teve, por exemplo, que enfrentar uma tentativa de insurreição no próprio acampamento, liderada pelo absurdo Arkady Lubczanski (Sam Spruell).

Filmado com exatidão por Zwick, com uma direção de fotografia bastante correta do português Eduardo Serra, Defiance apresenta um ritmo de ação e drama geralmente condizentes com a história. Quando o espectador se dá conta, ele foi levado pelas mãos até a epopéia daquele grupo, torcendo para que eles sobrevivam mesmo quando todas as condições apontam para o contrário. Apenas perto do fim a produção exagera um pouco na dose. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Duvido muito, por exemplo, que Tuvia não tivesse tido nenhum romance no acampamento antes daquele primeiro beijo em Lilka. Também é difícil engolir a maneira com que os alemães atacaram os sobreviventes do acampamento no cerco final. Aquele não era o método do exército alemão em atacar os adversários – apenas com um núcleo e em uma única direção, tornando-se alvo fácil de um cerco como o mostrado em Defiance. Mas ok, entendo que um filme com tantos aspectos a serem abordados não pode ser muito fiel à realidade. Afinal, por mais que ele seja “baseado em uma história real”, trata-se de uma reconstrução da realidade, suscetível a interpretações e simplificações.

E ainda que Defiance apresente um Tuvia e um Zus um bocado complexos, lá pelas tantas o roteiro “esquece” esta complexidade para transformá-los basicamente em heróis. Assim, rapidamente esquecemos que Tuvia foi capaz de matar a sangue frio uma família quase inteira e aceitamos o momento em que ele critica Zus por querer fazer o mesmo. Também “perdoamos” os gestos de egoísmo e inveja de Zus quando ele aparece para ajudar o irmão no final da história. Esta “manipulação” do roteiro na tentativa de tornar os personagens ainda mais heróicos era dispensável.

NOTA: 9 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Com uma fotografia muito boa, este filme registra algumas das paisagens da Lituânia, onde Defiance foi filmado. Achei curioso a produção ter sido feita naquele país, vizinho da Bielo-Rússia, onde os fatos realmente aconteceram. Lendo as notas de produção de Defiance fiquei sabendo que os produtores nem cogitaram filmar na Bielo-Rússia porque o atual regime daquele país é o de uma ditadura.

A trilha sonora assinada pelo oito vezes indicado ao Oscar James Newton Howard é um dos destaques do filme e, até o momento, foi o único aspecto técnico da produção que rendeu alguma premiação para Defiance. Além de ter sido indicado ao Oscar neste ano, por esse trabalho, Howard recebeu graças a ele o prêmio Sierra da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas. Como em qualquer filme que busca sacar lágrimas com sua história, Defiance também consegue, com uma ajuda fundamental da trilha sonora, levar os espectadores pelas mãos neste caminho.

Gostei muito da interpretação dos atores que fazem os irmãos Bielski, com especial destaque para o másculo (e charmoso, convenhamos) Daniel Craig e para o geralmente linear Liev Schreiber. Jamie Bell, novamente, comprova que é um dos grandes nomes de sua geração.

Edward Zwick consegue equilibrar muito bem cenas de batalha e de ação cuidadosamente planejadas com momentos mais “introspectivos”, como os que revelam as relações de poder, disputa, aprendizado e amor entre os diferentes personagens do acampamento judeu.

Defiance deu prejuízo para os seus produtores. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 50 milhões, conseguiu arrecadar, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 28,6 milhões até abril deste ano. Pouco, muito pouco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Se você achou ela baixa, é porque ainda não viu a avaliação dos críticos que tem seus textos linkados pelo site Rotten Tomatoes: eles dedicaram 90 textos positivos e 74 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 55% (e uma nota média de 5,8).

Para o crítico Mick LaSalle, do San Francisco Chronicle, infelizmente nem toda história verdadeira sobre o Holocausto rende um filme de Hollywood. Nesta crítica (em inglês), LaSalle afirma que a história dos irmãos Bielski poderia render em um grande artigo para uma revista ou em um documentário do History Channel, mas que ao ser transformada em filme, ela acabou tendo seu fascínio diluído em uma produção longa e árdua. Ainda assim, o crítico afirma que os detalhes sobre a vida dos sobreviventes na história acabam tornando a primeira hora do filme interessante. LaSalle enfatiza o fato de que a história em si dos Bielski é significativa mas, para um filme, pouco dramática.

Destaco também este texto do crítico Michael Phillips, do Chicago Tribune, que afirma que a determinação do filme em “mitificar o heroismo da vida real de seus personagens” acaba se demonstrando inadequada. Para Phillips, o roteiro de Defiance resume todos os fatos ao mais simples, apostando em “máximas redutoras”. Os personagens, para o crítico, não parecem pessoas reais em uma situação dramática como aquela. Phillips destaca o gosto de Zwick por manter os seus extras (personagens secundários) apenas como extras, ou seja, limitados a uma existência galgada em frases feitas. Mesmo com estas críticas, Phillips destaca a técnica de Zwick como um de seus pontos fortes.

Os atores Daniel Craig e Jamie Bell vão repetir a dobradinha de trabalharem juntos no filme The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn. A produção, dirigida por Steven Spielberg, transportará para a telona uma das aventuras do popular personagem de HQ’s.

CONCLUSÃO: Um filme inovador em sua temática, mas tradicional em seu formato. Defiance contribui na recente revisão histórica da 2ª Guerra Mundial ao narrar a ação de resistência de um coletivo de judeus durante a invasão da Bielo-Rússia pelos nazistas em 1941. Bem equilibrado entre momentos de ação, guerrilha e drama, Defiance nos revela os desafios enfrentados pelos irmãos Bielski e o grupo que se formou ao seu redor para sobreviver. Tecnicamente irretocável, o filme sofre por uma certa inestabilidade de seu roteiro, que começa bem, ao mostrar a complexidade das personalidades de seus protagonistas, mas que depois acaba caindo em uma simplificação (e até “santificação”) de suas ações. Mesmo com alguns “poréns”, é um filme bem feito e que traz à luz uma história incrível. Apenas por isso, merece ser visto.

SUGESTÕES DE LEITORES: Defiance foi citado pela primeira vez aqui no blog pelo Assis, no dia 25 de janeiro deste ano. Na época, este querido leitor aqui do blog tinha acabado de assistir ao filme e queria ler um comentário meu a respeito. Pois bem, Assis, aqui está, finalmente, o texto. Como podes ver, gostei do filme, especialmente porque desconhecia os detalhes da história dos irmãos Bielski. Agora, como eu disse antes, achei uma pena os momentos em que o filme tentou “embelezar” a história e/ou simplificar demais os seus personagens. De qualquer forma, acho que Defiance é um filme bem interessante e que merece ser visto. Aguardo a tua visita e teus comentários a respeito dele. Um abraço!