The Case for Christ – Em Defesa de Cristo

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A fé é uma escolha individual. Uma decisão pessoal e intransferível. O mesmo se aplica à escolha por assistir a um filme. Você sempre pode decidir por A ou por B. Dito isso, recomendo que a decisão por assistir a The Case for Christ seja feita após alguma reflexão. Esta produção conta a história de um casal de ateus que acaba se convertendo e virando cristãos. O filme é baseado em uma história real. Ou seja, com esta introdução, você já sabe um bocado sobre como a história vai se desenvolver. Então se você acha o cristianismo uma grande bobagem e/ou não faz sentido para você, a minha recomendação é que você fique longe deste filme. Para os cristãos, contudo, ele é um belo deleite. Depois eu falo sobre cinema. 😉

A HISTÓRIA: Vista da cidade. Um papel é colocado em uma máquina de escrever. Lee Strobel (Mike Vogel) pesquisa em livros, faz anotações e escreve. Corta. A história volta no tempo, quando ele (interpretado, quando jovem, por Michael Provost) começa na carreira de jornalista. Na época, ele namorava com Leslie (Erika Christensen, quando jovem, interpretada por Kelly Lamor Wilson). Vemos o romance dos dois e o trabalho premiado dele quando ele avança na carreira. Ele é um jornalista dedicado e investigativo. Se divide entre o trabalho e o casamento. Mas um incidente envolvendo a filha do casal, Alison (Haley Rosenwasser), faz com que a vida do casal Strobel mude para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Case for Christ): Impossível assistir a um filme tão contundente como este sobre fé sem tratar um pouco sobre o assunto. Por isso eu comentei, lá em cima, que eu acho esta produção recomendada para quem tem a fé bem definida ou para quem, sem acreditar em nada, pelo menos deixa em aberto alguma possibilidade de dúvida – ou de conversão.

Afinal, este filme trata, claramente, sobre um processo de conversão. Para quem é cristão, como é o meu caso, é impactante (e emocionante) ver pessoas que não acreditavam em Deus ou em Cristo passarem por buscas tão particulares e reveladoras. O casal que protagoniza este filme apresenta trajetórias muito diferentes de busca de respostas, e pela própria fé, mas é tocante como a história deles se complementa e como nos passa tanta verdade. Baseado em uma história real, este filme fala de dois de vários tipos possíveis de conversão.

Na verdade, e acredito muito nisso, cada um tem o seu processo de busca por respostas e de contato com Deus. Cada um encontra o Cristo de verdade e se converte em seu momento, com a sua maturidade na fé. E há pessoas, claro, que tem outros tipos de fé ou de crenças que podem não passar pelo entendimento de Deus ou de Cristo. E estas pessoas, como todas as demais, devem ser respeitadas e se sentirem acolhidas. Pessoalmente, eu nunca tinha visto a um filme com esta proposta.

O roteiro de Brian Bird, baseado no livro de Lee Strobel, fala de pessoas comuns. E isso ajuda muito nesta história. Conseguimos nos identificar com os personagens que vemos em cena – especialmente se nos lembramos do contexto da produção. Ou seja, estamos vendo a um casal e as suas relações em uma Chicago de 1980. Os personagens fazem sentido, naquele contexto, e quem conhece o ambiente do jornalismo, também consegue se “transportar” um pouco no passado e ver legitimidade na figura do protagonista.

Esses elementos dão peso para o filme. E é tocante ver a trajetória tão diferente de entrega e de busca por respostas e pela própria fé feita pelo casal de protagonistas. Eles são as estrelas da produção. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Leslie parece já tentada a “se entregar” e tem uma experiência incrível de encontro com Deus e com a palavra Dele logo que conhece a enfermeira Alfie Davis (L. Scott Caldwell), que salva a filha dela de um engasgamento no restaurante. Grávida e mulher – ou seja, normalmente mais sensível que a maioria dos homens -, Leslie está mais propensa a questionar a própria falta de fé e a pensar que sim, podem existir outras respostas para o que ela não conhece.

Ela vai se entregando de uma forma relativamente fácil para a conversão. A Bíblia, para ela, faz todo o sentido. Diferente do que muitos podem imaginar, de fato o cristianismo, quanto mais você procura saber sobre ele, mais ele faz sentido. A Bíblia não é um texto que ficou parado no tempo, mas é a Palavra viva, e quem realmente tem fé e se converte percebe isso. Leslie acaba, assim, deixando para a trás a sua “vida antiga” e mudando definitivamente – como acontece com quem realmente se converte.

No início, ela esconde um pouco o que está acontecendo com ela. Mas isso não dura muito tempo. Quando, finalmente, ela conta para Lee o que está acontecendo, o marido não aceita isso bem. Nada bem, na verdade. Ele passa a estranhar a própria mulher e começa a questionar o próprio casamento. E o porquê disso? Basicamente porque ele está convicto de estar cheio da razão, de estar muito certo de tudo. Ele é um ateu convicto e não deixa margem para a realidade ser diferente do que ele imagina como certo.

Como jornalista, que precisa “comprovar” tudo para poder acreditar, que tem a necessidade de encontrar “a verdade” dos fatos, Lee está cheio de certezas e não consegue entender que a mulher possa “virar a casaca” e começar a ter fé. Eles são ateus e ele quer que eles continuem assim. Esse é um ponto interessante do filme, porque ela acaba tocando em algo que todos os casais vivem: as pessoas mudam com o tempo, evoluem, deixam de acreditar ou de gostar de certas coisas e passam a acreditar e gostar de outras que não gostavam/acreditavam no princípio.

Tem pessoas que têm a sabedoria de entender que é assim mesmo, e que faz parte do casamento reconstruir relações, criar pontes e voltar a dialogar com a pessoa “diferente” com que você está casado. Porque todos mudam, todos evoluem. Mas tem pessoas que não conseguem aceitar determinadas mudanças e evoluções, e isso acaba com muitas uniões e casamentos – muitas vezes porque, como o filme mostra, pessoas como Lee se sentem “traídas” pela mudança da pessoa amada.

Cheio de “lógica” e de uma busca “racional” pela “verdade” e por respostas, Lee acaba, sozinho, empreendendo a sua própria busca por uma reportagem que vai “desmascarar” a “mentira” do cristianismo. Essa é a parte interessante deste filme. Lee procura diferentes especialistas, ateus, cristãos e de outras fés, para ajudar a lhe contar a história de Cristo e, em especial, do ponto central do cristianismo: a ressurreição do Filho de Deus. Ele tem razão neste ponto. O cristianismo não existiria se Cristo tivesse morrido na cruz e não tivesse ressuscitado.

Então o que ele quer comprovar é isso, que a ressurreição não aconteceu. Para quem gosta de filmes sobre investigação e jornalismo, esta produção romantiza um pouco o processo mas, se levarmos em conta que estamos nos anos 1980, antes da internet e das entrevistas feitas por Skype e afins, The Case for Christ mostra bem como um jornalista investigativo trabalhava na época. É algo interessante. E não deixa de ser provocativo e inusitado um jornalista se lançar em uma “cruzada” contra a fé cristã. Achei interessante.

Agora, à parte da fé e do quanto pode ser tocante para um cristão assistir a histórias de conversão tão diferentes e reveladoras, The Case for Christ é um filme mediano. E por que eu falo isso? Porque a produção, de fato, pouco surpreende. Desde o início do filme e da primeira discussão entre Lee e Leslie, já sabemos por onde a história vai caminhar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não é difícil adivinhar que Lee fará a sua “cruzada” particular e que, no final, ele vai acabar se convertendo. Então aquela parte do roteiro que mostra os conflitos do casal Strobel acaba tendo pouco efeito – sim, nos compadecemos de Leslie mas, no fim das contas, sabemos que o casal terá um final feliz.

Então as pequenas “surpresas” e momentos de tensão do filme acabam tendo pouco efeito. Já conseguimos ver o final com bastante antecedência. Olhando para esta produção apenas como uma obra de cinema, ela acaba não sendo tão impactante ou eficaz como poderia. Os atores são bons, mas algumas partes do roteiro parecem um tanto forçadas – como o isolamento de Lee como “resposta” para a fé da esposa. Apesar de não ser surpreendente, esta produção tem uma boa direção de Jon Gunn, que coloca a câmera sempre próxima dos atores.

Os personagens centrais fazem um bom trabalho, com destaque para Erika Christensen – que acaba brilhando mais até que Mike Vogel. Mas eles fazem uma boa dupla. Se, por um lado, o filme tem um desfecho meio “óbvio” e apresenta vários clichês sobre o jornalismo, por outro ele se mostra interessante pela “humanidade” do casal de protagonistas e pelas respostas que Lee vai encontrando pelo caminho.

Muitos cristãos desconhecem os fatos “científicos” que são relatados na produção. E é bacana a forma com que a investigação de Lee vai nos apresentando os diferentes pontos de vista e áreas do conhecimento que já trataram e/ou se debruçaram na ressurreição de Cristo. Particularmente, o filme só reforça algo em que eu já acreditava: o conhecimento e a ciência não negam a fé. Muito pelo contrário.

Quanto mais você se aprofunda, estuda e conhece o cristianismo, mais ele faz sentido. Mas, ainda assim, no fim das contas, a fé é sim uma decisão. Você pode abraçá-la ou negá-la. E mais importante do que essa decisão, que é muito particular, é o que você faz no seu dia a dia. Não adianta ter fé e negá-la com os seus atos. O testemunho de alguém, a forma com que ele(a) age, como trata as pessoas e todas as formas de vida ao seu redor, é o que importa acima de tudo.

Então sim, nesta crítica eu falei de fé, de religião, mas também falei de cinema. Assim como eu falo sobre outros temas quando eles são o foco de produções que vou comentando por aqui – quem acompanha este blog sabe que trata muito sobre psicologia, comportamento humano e afins. Afinal, sobre muito disso tudo que o cinema trata. Então me perdoem os que não gostam de falar de religião, mas em um filme como este, é impossível não tratar a respeito. Espero que vocês me entendam. E sim, eu respeito a todos, inclusive a quem pensa diferente de mim. 😉 Como sempre, sintam-se à vontade para discordar. 🙂

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de assistir a The Case for Christ, foi inevitável, para mim, não buscar mais sobre Lee Strobel. Foi aí que eu fiquei sabendo que este jornalista se transformou em um profícuo autor de livros que tratam sobre Deus, fé e o cristianismo. Segundo o site de Strobel, ele tem 12 livros – sendo apenas um deles escrito em parceria com outro autor. Interessante como ele realmente mudou a sua vida a partir da conversão da esposa e da própria conversão. Vale dar uma olhada no site dele.

Não li o livro homônimo que deu origem a esta produção, mas imagino que o roteiro de Brian Bird seja bem fiel à obra de Strobel. Ainda assim, senti falta do filme se aprofundar mais na investigação do jornalista, dando mais espaço para as argumentações dos diferentes cientistas e especialistas. Dá para entender o esforço de Bird de equilibrar a questão pessoal dos Strobel, a família, que era um elemento muito importante e fundamental para a história, com a procura por “provas” do jornalista. Mas, ainda assim, eu teria achado mais interessante o filme explorar mais o que ele encontrou em suas buscas.

Como comentei antes, boa parte desta história está centrada em dois personagens: Leslie e Lee Strobel. Consequentemente, os atores que interpretam eles é que têm destaque na produção. Os dois fazem um bom papel, mas, repetindo o que eu já falei, considero que Erika Christensen tem uma entrega mais sensível e convincente que o seu par Mike Vogel. Mas ambos estão bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de L. Scott Caldwell como Alfie Davis, a mulher que desperta a mudança em Leslie; Faye Dunaway em uma ponta como a Dra. Roberta Waters, uma das especialistas procuradas por Lee; Frankie Faison como Joe Dubois, chefe da redação onde Lee trabalha; Robert Forster em uma ponta como Walt Strobel, pai do protagonista; Brett Rice como Ray Nelson, espécie de “conselheiro” de Lee; Rus Blackwell como Dr. William Craig, outro especialista entrevistado por Lee; Matthew Brenher como Dr. Phillip Singer, idem o anterior; Tom Nowicki como Dr. Alexander Metherell, idem o anterior; Kevin Sizemore como Dr. Gary Habermas, idem o anterior; Cindy Hogan como Lorena Strobel, mãe de Lee; Mike Pniewski como Kenny London, jornalista colega de Redação de Lee; e Miguel Pérez como o Frei Jose Maria Marquez, outro nome consultado por Lee para a sua reportagem/livro.

Nada de muito destaque entre os elementos técnicos do filme. Achei a direção de Jon Gunn boa, mas nada além da média. Ele acerta ao deixar a câmera perto dos protagonistas, explorando as “emoções” dos personagens, mas o roteiro de Brian Bird e algumas escolhas do diretor, como o quadro de “provas” que Lee apresenta para estruturar a sua reportagem, acabam lançando o filme em um lugar-comum que é um tanto desnecessário. O roteiro busca aquele equilíbrio que eu comentei antes, mas poderia ter explorado mais os especialistas consultados pelo protagonista. Afinal, este é um diferencial da produção – e nem tanto a questão familiar/pessoal dos Strobel que, de uma forma ou outra, já vimos antes.

Ainda que nenhuma característica técnica seja realmente de destaque, vale comentar os responsáveis pelos principais aspectos desta produção: Brian Shanley assina a direção de fotografia; Will Musser assina a trilha sonora; Vance Null, a edição; Mitchell Crisp, o design de produção; Natalie Rhooms, a decoração de set; e Dana Konick, os figurinos.

The Case for Christ estreou no dia 7 de abril no Canadá, nas Filipinas e nos Estados Unidos. A produção não participou de nenhum festival e também, até o momento, não ganhou nenhum prêmio – o que se entende, porque não é muito o perfil do filme.

Esta produção teria custado US$ 3 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 14,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 2 milhões. Ou seja, está lucrando bem.

The Case for Christ foi rodado em Chicago, como a produção mesmo sugere, e em outras três cidades do Estado da Georgia: Covington, Madison e Atlanta. Além de ser todo rodado nos Estados Unidos, este filme é uma produção 100% americana – e, por isso, atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog em que vocês pediam críticas de filmes deste país.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção e seus personagens. Lee Strobel foi um editor premiado da editoria legal do The Chicago Tribune. Ele fez a faculdade de Jornalismo na Universidade do Missouri e um mestrado em Direito na Yale Law School.

O livro mais recente de Strobel, The Case for Grace, de 2016, ganhou como o Livro de Não-Ficção do Ano da EPCA. Strobel também é um convidado regular de canais de TV como ABC, Fox, Discovery, PBS e CNN.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 12 críticas positivas e 10 negativas para o filme – o que garante para ele aprovação de 55% e uma nota média de 5,6. Realmente os dois níveis de avaliação foram baixos, como vocês viram. Isso se explica, imagino, porque o filme é, realmente, mediano. Do estilo “Sessão da Tarde”. E também porque ele é claramente religioso – e isso, nem sempre, agrada ao grande público ou aos críticos. Faz parte.

CONCLUSÃO: Este é um filme com um propósito. E ele cumpre este propósito com competência. À parte disso, podemos dizer que se trata de um grande filme? Não, não é para tanto. The Case for Christ é um filme interessante, com uma história pouco conhecida, mas com uma compreensão e “simpatia” muito particulares. Literalmente ele vai agradar a gregos, mas não a troianos. Isso não é um problema para um filme. Especialmente se ele tem como bandeira a conversão de quem ainda não acredita e/ou tem fé. Como cinema, ele é apenas uma história a mais, com um roteiro previsível. Como testemunho de fé, The Case for Christ é potente. Vale para quem achará um sentido nesta história – para os demais, é bom evitar.

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Atomic Blonde – Atômica

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Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

L’ombre Des Femmes – In The Shadow of Women – À Sombra de Uma Mulher

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Tem filmes que você assiste com um certo sorriso no canto da boca. No final, você fica um tempo pensando se gostou ou não do que viu. Geralmente estas produções tratam de forma sincera questões com as quais você já se deparou. Este é bem o caso de L’ombre Des Femmes. Esta produção francesa é interessante no estilo/forma por ser curta e em preto e branco. Mas a história… nos faz pensar em pessoas que conhecemos ou que já passaram por nossa vida e também nos faz refletir sobre os nossos modelos de sociedade. É um filme “singelo”, entre aspas. Ele não nos apresenta, realmente, nenhuma grande ideia nova. Mas nos faz pensar além do gostaríamos, muitas vezes.

A HISTÓRIA: Pierre (Stanislas Merhar) olha para um papel. Em seguida, olha ao redor e como um pedaço de um baguete. Ele segue olhando para aquele papel, como se estivesse decorando o que está vendo. Corta. Em casa, Manon (Clotilde Courau) seca os cabelos. Alguém toca a campainha e abre a porta. Manon acredita que seja Pierre. Mas não. Caminha pelo apartamento o proprietário do local (Claude Desmecht), que questiona a inquilina em diversos pontos, inclusive lhe cobrando o aluguel que Manon está devendo. Pierre a consola, e diz para ela parar de chorar. Na sequência, o narrador nos conta um pouco da história deste casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a L’ombre Des Femmes): Cada vez mais eu gosto de filmes curtos. Quando vi que esta produção teria pouco mais de uma hora de duração, achei perfeito. Essa talvez seja uma influência das séries que eu ando assistindo – e há vários anos. Tenho achado, com bastante frequência, que uma boa história não precisa de mais de duas horas para ser contada. Muitas, aliás, podem ter 1h30 ou menos. Este é o caso deste L’ombre Des Femmes.

O diretor Philippe Garrel, que escreveu o roteiro junto com Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann, resolveu grande parte da “enrolação” que a trama poderia ter utilizando um narrador para nos apresentar aspectos da história. Essa decisão funcionou muito bem. Desta forma, temos um filme ágil e que vai direto ao ponto. O narrador nos ajuda a contextualizar os personagens centrais e a entendermos as suas relações melhor.

No fundo, L’ombre Des Femmes fala sobre casais e sobre a busca particular e individual pela própria felicidade e por sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Olhando de maneira ligeira para esta produção, ela poderia ser resumida como a história de um sujeito que trai a mulher, sem culpa, porque acredita que é isso “o que os homens fazem”, mas que não aceita quando ele próprio é traído. Convenhamos, esta é a narrativa de boa parte das nossas sociedades machistas, onde os homens acreditam realmente que tem direitos acima das mulheres.

Garrel aborda estas questões de forma muito direta e franca. Ao mesmo tempo, acompanhamos os protagonistas nas suas buscas particulares por encontrar sentido para as suas existências. Manon faz isso dedicando o seu tempo e talento para o trabalho do marido. Ela ama ele e admira o que ele faz. Pierre, por sua vez, busca seguir fazendo documentários, mesmo que isso não lhes pague as contas. Ambos, no dia a dia, devem buscar saídas para a “vida ordinária” enquanto tentam fazer, em paralelo, o que eles acreditam.

Essa é a vida adulta, todos nós sabemos. Quem nunca teve que encarar afazeres no dia a dia que não lhe faziam muito sentido mas que precisavam ser feitos para que você conseguisse pagar as contas e sobreviver, apostando no dia em que aqueles “sacrifícios” lhe trariam a oportunidade de fazer o que realmente lhe importa? A diferença é que Pierre parece consumido pelo cotidiano. Ele vive espalhando papéis pelo bairro para conseguir um emprego, enquanto filma um documentário que é um projeto muito particular.

Em casa, ele parece morrer de tédio. Não consegue mais olhar para Manon como deveria. Este “tédio” todo faz com que ele se encante pela primeira mulher que lhe “dá mole”. Como muitos homens na vida real, Pierre acredita que está se eximindo de qualquer responsabilidade pelo simples fato que falou, logo de cara, para a amante, Elisabeth (Lena Paugam), que ele era casado. Ora, se ela sabe disso, não deve ter maiores esperanças em relação a ele ou expectativas, correto? Pierre é, me desculpem os sensíveis, o canalha clássico.

Ele considera mesmo que tem o direito de trair e de ficar com quem ele quiser, não importando que, com isso, ele está sendo desonesto com a mulher com quem ele divide um teto. O importante, para ele, é que ele tem uma amante à sua disposição que “sabe a verdade”. Elisabeth é vista como um objeto, um pedaço de carne que ele pode utilizar quando deseja. Em “retribuição”, ele ajuda ela aqui e ali com alguns afazeres domésticos e, claro, com toda a sua “masculinidade”.

Desta forma, Elisabeth deveria ser um robô ou alguém insensível como ele. Afinal, por saber que ele é casado, ela não deve nutrir realmente algum sentimento por Pierre. Mas as pessoas – especialmente as mulheres – são assim? Difícil, não? Como alguém se envolve com outra pessoa e acha que é possível desligar os sentimentos com um botão? Não tem lógica. Ao menos para as mulheres. Os homens, aparentemente, foram forjados para não sentir, não se envolver quando isso não lhes interessa. Para a maioria das mulheres, isso parece algo incrível, inalcançável.

Como esperado, Elisabeth não é um robô e nem uma pessoa que não alimenta o desejo (bastante irreal, devemos admitir) de ter Pierre para si. Ela não quer ser a amante, mas ser “promovida” a condição de companheira de Pierre. Claro, são erros comuns e um caminho bastante óbvio para um roteiro. L’ombre Des Femmes não é, realmente, inovador em sua história. O que chama a atenção no filme é a forma direta com que ele trata os personagens e a forma cuidadosa com que o diretor valoriza os atores em cena.

Elisabeth cai no lugar-comum de querer ficar com Pierre. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aos poucos, ela vai se tornando a mulher que procura conhecer a “rival” e que busca realmente minar a relação do amado com a sua mulher. Enquanto isso, Manon surpreende um pouco ao se jogar, ela mesma, em um romance fora do casamento (com o personagem interpretado por Mounir Margoum). Quando Elisabeth descobre isso, resolve que é por aí que ela vai conseguir o que quer – ficar com Pierre para si.

O problema é que Pierre traiu Manon não porque não a amava, mas porque ele próprio estava precisando se autoafirmar. Quantos homens não tem o sucesso que eles acham que deveriam ter e que, sem muita autoestima, resolvem trair para se sentirem “desejados” ou “poderosos”? Eles não param para pensar no que lhes faz sentido, no que eles realmente querem. Sem pensar, eles se abraçam no instinto mais “primitivo”, tentando preencher as suas carências pulando a cerca. Sentindo-se, assim, desejados e “valorizados”.

É nesta cilada e nesta ilusão que o nosso protagonista cai. Pierre satisfaz os seus desejos imediatos pulando a cerca, mas quando percebe que a mulher também está usufruindo deste prazer com um outro homem, ele não consegue olhar mais para ela da mesma forma. É o clássico comportamento machista predominante de “eu posso fazer, você não”. L’ombre Des Femmes revela, assim, uma incoerência nata desta sociedade que vê homens e mulheres de forma desigual. O diretor desta produção e os roteiristas apresentam isso de forma direta e muito franca.

Esta é a parte positiva do filme. A forma com que Garrel e a sua turma demonstram toda esta incoerência da sociedade e de parte das pessoas que fazem este entendimento persistir com o passar do tempo. Pierre não admite a traição de Manon e não consegue olhar mais para ela da mesma forma. Ele próprio acaba seguindo a mulher, a exemplo do que Elisabeth fez com ele. Mas e o lado de Manon? Ela mesma confronta ele, em um determinado momento, dizendo que não aguenta mais ser a “culpada” pela ruína do casamento quando ele também a traiu.

Agora, nem tudo são flores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Manon tem a maturidade de seguir em frente, Pierre não consegue fazer o mesmo. Ele não lida nada bem com a traição e acaba radicalizando com o seu “orgulho” ferido de macho contrariado. Até aí, tudo normal, temos “a vida como ela é”, em muitos casos. Pierre acaba se desfazendo de Elisabeth e arruinando a relação com Mainon. O problema e um certo “gosto amargo” que esta produção deixa no final é quando Manon, após se separar de Pierre, resolve ceder novamente aos apelos dele.

Sim, acredito que o casal poderia ter amadurecido e chegado a conclusão que eles poderiam ser felizes novamente. O problema é a essência de Pierre. Será mesmo que ele conseguiria ser honesto com Manon novamente? Ele será capaz de deixar a sua ótica machista e de supremacia sobre ela de lado? Vai superar isso? Tenho sérias dúvidas. Quem tem uma visão romantizada das relações vai apostar nisso. Que Pierre aprendeu com os próprios erros e que realmente será capaz de ter uma relação madura com Manon. Eu, particularmente, duvido muito disso.

Então admito que me incomodou um pouco o fato de Manon não conseguir virar a página. Seguir a vida sozinha e/ou encontrando um novo amor, talvez alguém um pouco mais preparado para tratar uma mulher como ela merece. Agora, se Pierre amadureceu, acredito sim que ele e Manon podem voltar a ser felizes. Para isso, basta os dois se esforçarem, verdadeiramente, e serem sinceros consigo mesmos, em primeiro lugar, para logo conseguirem ser sinceros um com o outro. Não é fácil, mas acredito sim que é possível.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sim, eu sei. Ultimamente eu tenho dado muitos 9. 😉 Fico um bom tempo pensando sobre a nota que eu gostaria de dar para cada filme. E, muitas vezes, não consigo sair do bendito 9. Mais uma vez isso aconteceu. Não vejo a hora de encontrar algo para o qual eu queira dar o tão desejado 10. Que isso aconteça logo, pois! 😉

Este filme tem uma série de qualidades. Para começar, o roteiro direto e muito preciso de Philippe Garrel, Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann. Eles não tem papas na língua e não escreve nada que realmente não precisa estar em cena. O filme é enxuto, direto, e o público agradece quando é assim.

O interessante do trabalho deste quarteto é que apesar do roteiro ser muito franco e direto, a história não corre com uma velocidade acima do indicado. Não. Nada disso. O diretor Philippe Garrel consegue valorizar os ótimos atores em cena e fazer com que as suas ações e reações tenham coerência. Com bastante facilidade o público consegue colocar-se no lugar deles ou, ao menos, pensar em alguém que se parece com os personagens. O uso do narrador para contextualizar a história, como comentei antes, ajuda a dar agilidade e flexibilidade para a trama. Elimina “enrolações” e permite que o roteiro foque nas relações que realmente interessam.

Por falar do elenco desta produção, L’ombre Des Femmes acerta ao apostar em um núcleo pequeno de personagens. Essencialmente, este é um filme sobre um casal e as suas relações próximas. Assim, brilham em cena a excelente Clotilde Courau e o interessante (ainda que nos desperte ojeriza) Stanislas Merhar. A atriz se destaca, especialmente, pelo carisma e pelas reações muitas vezes viscerais. Ele, por sua interpretação contida que, em certos momentos, chega quase a se assemelhar ao silêncio antes da explosão. Muito bom e complementar o trabalho dos dois.

Além dos protagonistas apresentarem uma grande sintonia em cena, vale também destacar alguns personagens coadjuvantes que fazem um bom trabalho. O destaque, entre os coadjuvantes, sem dúvida é de Lena Paugam, que interpreta Elisabeth. Mas vale citar também o trabalho de Vimala Pons como Lisa, amiga de Manon; Antoinette Moya como a mãe da protagonista; Jean Pommier como Henri, o “velho resistente” que vira o foco de um documentário de Pierre; Thérèse Quentin como a mulher de Henri; Mounir Margoum como o amante de Manon; Claude Desmecht como o proprietário do apartamento onde Manon mora; e Louis Garrel como o narrador.

Entre as qualidades técnicas do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de fotografia de Renato Berta. Um trabalho impecável e muito, muito interessante e bonito. A fotografia é um dos pontos fortes desta produção. Também vale destacar a ótima edição de François Gédigier; os figurinos escolhidos à dedo por Justine Pearce; a trilha sonora clássica e bastante pontual de Jean-Louis Aubert; e o design de produção e a direção de arte de Emmanuel de Chauvigny.

Agora, algo temos que admitir. O final deste filme tem uma fina ironia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na igreja, Manon faz um paralelo entre o falso “resistente” Henri, que eles foram velar, e a história do próprio casal. O que Henri contava era uma mentira, e a busca do próprio casal por “felicidade” extra-conjugal também se mostrou uma mentira, como ela mesma comenta. Os dois acabaram sozinhos e infelizes. Neste ponto que ela percebe que talvez a história dos dois mereça uma nova oportunidade. Quem sabe, agora sem mentiras ou ilusões, realmente eles possam dar certo? Algumas vezes as pessoas evoluem. Vamos acreditar que isso aconteceu com os dois – assim teríamos, de fato, um final feliz.

Ainda que todo o elenco seja competente, achei a atriz Clotilde Courau realmente deslumbrante. Ela é encantadora, tem carisma e, quando sorri, a tela parece se iluminar. Stanislas Merhar, que parece cheio de tédio durante o filme inteiro, finalmente sorri no final. Então sim, é um final feliz. Não sabemos o quanto ele vai durar, mas isso não o torna menos feliz. E sim, sorrir faz toda a diferença. Na vida e na arte. 😉

L’ombre Des Femmes estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto de 2016 esta produção passou por outros 14 festivais em diversos países. Nesta trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme no Athens Panorama of European Cinema, em 2015; o de Melhor Filme não lançado em 2015 no International Cinephile Society Awards de 2016; e o de Melhor Atriz para Clotilde Courau no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção. Apenas fiquei sabendo que L’ombre Des Femmes fez pouco mais de US$ 50 mil nas bilheterias dos Estados Unidos – a produção estreou, na verdade, em apenas dois cinemas. Algo insignificante, mas que também não nos dá uma ideia do desempenho da produção nos cinemas.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, L’ombre Des Femmes foi totalmente filmado em Paris.

O diretor Philippe Garrel é um veterano do cinema francês. Ele começou a sua carreira por trás das câmeras em 1964 com o curta Les Enfants Désaccordés. O primeiro longa assinado por ele foi Anémone, de 1968. Diretor, roteirista, editor, ator e produtor, Garrel têm 11 prêmios na carreira. Por duas vezes ele foi premiado no Festival de Cinema de Cannes: em 1984, com Liberté, la Nuit; e em 2017 com L’amant d’un Jour. Entre os seus filmes, um dos mais premiados foi Les Amants Réguliers, estrelado por Louis Garrel, grande ator que é filho do diretor.

Outro destaque de L’ombre Des Femmes, a atriz Clotilde Courau também é uma veterana do cinema francês. Aos 48 anos de idade, ela têm 47 trabalhos como atriz. Em sua trajetória, Clotilde ganhou cinco prêmios. Além do já citado por L’ombre Des Femmes, ela foi premiada por Le Petit Criminel e com outros três prêmios por sua carreira.

L’ombre Des Femmes é uma coprodução da França com a Suíça.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e apenas cinco negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Agora, falemos um pouquinho sobre o título desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). L’ombre Des Femmes quer dizer, literalmente, “À Sombra das Mulheres”. Um título interessante para esta produção… Especialmente se pensamos que o protagonista se acha realmente “predominante” por boa parte da história. Ainda que o roteiro diga, lá pelas tantas, que Manon parece viver à sombra de Pierre, o título e o final da narrativa dá a entender que era o inverso. E mais do que Pierre viver à sombra de Manon, ele vive à sombra do sexo feminino. Ou seja, tem os seus passos determinados pelas mulheres. Interessante. No fundo, o machista que “pega todas” não percebe o quanto o seu desejo é o que lhe domina – e não o inverso. Por isso acho que o título faz muito sentido.

Por outro lado, a tradução do título para o português me pareceu um tanto precipitada/equivocada. “À Sombra de Uma Mulher” modifica a interpretação comentada há pouco. Dá a entender que Pierre vive à sombra de Manon, mas não é assim. A interpretação do título original é mais ampla e mais interessante.

Uma outra curiosidade sobre o filme que me ocorreu agora. (SPOILER – não… bem, você já sabe). Não deixa de ser mais uma fina ironia o protagonista desta produção ser um diretor de documentários que não consegue enxergar na sua frente uma mentira. Ele não percebe que Henri está contando uma história mentirosa na mesma medida em que, na vida pessoal, não consegue ver que vive uma mentira dentro de casa. Irônico e interessante. Uma forma de nos mostrar como muitas vezes em “casa de ferreiro, espeto de pau”. 😉

CONCLUSÃO: Um filme sincero, destes que nos fazem pensar sobre crenças, comportamentos, amor, desejo, fidelidade, liberdade e escolhas. Pois sim. Como comentei lá no início, L’ombre Des Femmes é um filme singelo, sem um história complicada e que vai direto ao ponto. Apesar de ter uma história aparentemente bem simples, esta produção nos faz pensar sobre algumas certezas e práticas. De tão sincero, este filme surpreende. Passa rápido, mas nos deixa com uma vontade de “quero mais”. Ele segue na nossa mente um bom tempo depois de terminar. É interessante, vale ser conferido, ainda que não esteja na lista dos melhores do ano – mas isso pouco importa, não é mesmo?

10 anos do Crítica (non)Sense – O meu muito obrigado!

Olá meus bons amigos e amigas do blog Crítica (non)Sense da 7Arte!

Impossível ignorar a data de hoje, dia 28 de agosto de 2017.

Então eu vou pedir licença para vocês para, desta vez, não falar de um filme qualquer que eu assisti no cinema ou em casa. Vou falar sim sobre como este espaço chegou a sua primeira década de vida.

Há exatos 10 anos eu começava este espaço. A ideia era falar sobre cinema e compartilhar impressões com vocês. Receber críticas, sugestões, trocar ideias sobre filmes.

Naquela época, claro, eu não imaginava que este espaço chegaria tão longe. Nestes 10 anos, não foram poucas as vezes em que eu pensei em parar de escrever por aqui. Principalmente nos momentos em que o trabalho me consumia muitas energias e tempo…

Mas eu persisti. E muito – ou especialmente – por causa de vocês. Sei que este espaço têm a honra de ter alguns leitores fieis e que me acompanham há muito tempo. Sou especialmente grata a vocês. Assim como agradeço a cada novo visitante que me honra com a sua navegada nestas páginas.

Todos vocês são mais que bem-vindos(as). Saibam que é por vocês que este espaço continua sendo alimentado, mesmo com algumas temporadas de tempo escasso e de outras responsabilidades menos divertidas do que o prazer que eu tenho (e sempre tive) de falar sobre cinema.

Eu só tenho a agradecer pela visita esporádica ou costumeira que vocês costumam fazer por aqui. Muito, muito obrigada!

Não sei por quanto tempo este blog vai funcionar, mas eu espero, sinceramente, que ele ainda tenha uma vida longa. Aproveito também para pedir desculpas por alguns períodos sem novos posts e por estar com as respostas dos comentários de vocês tão atrasada… mas um dia eu coloco a nossa conversa em dia, eu prometo!

Vale também registrar, nestes 10 anos do Crítica (non)Sense da 7Arte, alguns números conquistados até este momento. Por aqui foram publicados 638 posts (este aqui é o de número 639) e o blog recebeu 1,86 milhão de visualizações de 795 mil visitantes.

Tenho a satisfação de ter 279 seguidores do blog pelo WordPress, 209 pessoas cadastradas para receber as novidades por e-mail e 396 pessoas que curtiram a página do blog no Facebook. Sem contar as pessoas que têm acessos aos posts através da minhas contas pessoais no Facebook, no Twitter e no Google+.

Novamente, o meu muito, muito obrigado por vocês fazerem parte desta história. E aguardo algumas sugestões de vocês sobre como podemos comemorar estes 10 anos do blog juntos. 😉

Um dos fieis leitores que ajudou a apoiar o blog há algum tempo foi sorteado e vai ganhar um presentinho do Crítica (non)Sense logo mais, mas eu aceito sugestões para nós todos celebrarmos de alguma forma.

Bem, por enquanto era isso que eu queria comentar. A partir do próximo post, volto a falar sobre filmes e o cinema que tanto amamos. Abraços apertados e beijos grandes em todo(as)! Vocês fazem este espaço ser especial. 😉

The Wall – Na Mira do Atirador

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Existem filmes que você não deve assistir se estiver cansado(a) e/ou com sono. Este é um grande exemplar deste tipo de filme. Realmente não tente assistir a The Wall se você não estiver bem descansado(a) e desperto(a). E sim, recomendo isso porque este é um filme com pouca ação. Essa constatação pode parecer estranha, por se tratar de um filme de guerra, mas The Wall é tudo menos uma produção tradicional do gênero. Um tanto angustiante, um tanto maçante, The Wall nos faz pensar sobre as razões de um conflito e sobre o que parece ser um problema sem fim envolvendo o Oriente Médio. É interessante, mas está longe de ser um dos melhores ou mais interessantes do gênero.

A HISTÓRIA: Se passa no final de 2007, quando a Guerra do Iraque está na reta final. O presidente americano Bush declarou vitória e as operações de reconstrução do país já começaram. O alvo de um soldado examina um muro. O companheiro dele diz que não há mais nada, que quem disparou em quem eles estão examinando de longe já foi embora. Ele pergunta para o companheiro, Ize (Aaron Taylor-Johnson) há quanto tempo eles estão ali, no Iraque. Ize responde para o sargento Matthews (John Cena) que já fazem 20 meses. Ele acredita que um iraquiano profissional atingiu aqueles alvos: seis funcionários de uma empresa e dois seguranças. Matthews e Ize acreditam que o inimigo pode estar atrás de um muro.

Enquanto Matthews acredita que o perigo já passou, Ize afirma que o inimigo pode ser um profissional. Uma outra possibilidade é que o ataque tenha sido feito não por uma pessoa, mas por um grupo. Querendo sair logo dali, já que eles receberam a informação que a guerra acabou, Matthews decide descer da posição em que eles estão para conferir de perto como o ataque foi feito. Quando chega ao local ele percebe que todos foram mortos com tiros na cabeça. Logo ele também é atacado, e Ize tenta socorrer o companheiro, mas as alternativas para os dois são bastante complicadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wall): Este não é um filme fácil. Em qualquer sentido. Primeiro, ele é bastante “lento” e sem ação. Bem diferente do que podemos esperar, normalmente, de um filme sobre guerra. Mas por isso mesmo The Wall se mostra, ao menos, uma produção diferenciada. No lugar de diversas cenas de ação, explosões, conflito e de muitos personagens sobre os quais praticamente ficamos sabendo nada, em The Wall temos nada menos que três personagens em cena durante o filme inteiro.

A figura central da produção acaba sendo o personagem Isaac, chamado também de Ize, interpretado com maestria por Aaron Taylor-Johnson. A câmera do diretor Doug Liman está nele praticamente o tempo todo. As ações de Ize é o que ditam o ritmo – ou a falta de ritmo – de The Wall. Ele trabalha em conjunto com o sargento Matthews, o segundo mais importante em cena. E há, claro, o personagem “oculto”, tão importante quanto Ize, mas que não aparece – falo do iraquiano que atira nos soldados e que está sempre à espreita para um próximo disparo certeiro.

Esse inimigo não aparece, mas a voz dele que Ize ouve – e nós, por consequência – é do ator Laith Nakli. Então o filme está centrado, 99% do tempo, neste três personagens. A relação entre eles é de conflito e de expectativa pela morte. Todos querem sobreviver, e não existe espaço para misericórdia. Assim, sem grandes cenas de ação, mas com uma longa expectativa para que algo aconteça – um resgate, um milagre ou o tiro fatal -, The Wall nos fala sobre alguns aspectos da guerra que o cinema não costuma retratar, mas que são muito reais.

O filme dirigido por Doug Liman e escrito por Dwain Worrell fala sobre como a guerra é cruel e solitária durante grande parte do tempo. Especialmente em fases do conflito como o que vemos em cena, quando as grandes operações já passaram e os soldados que sobraram tentam resolver problemas pontuais. Nestes casos, o conflito fica praticamente “mano-a-mano”, e a morte e o risco fazem parte do cotidiano dos homens que não têm nenhuma perspectiva de voltarem a ter uma vida normal novamente.

Em The Wall, chama muito a atenção diversos diálogos entre o “sniper” iraquiano e o soldado que ele não matou logo de cara para conseguir mais informações dele. Apenas com o tempo vamos entender porque um franco-atirador que matou a tantos com um tiro na cabeça não matou logo de cara Matthews e Ize. Certamente aquela tentativa quase kamikaze de Ize de ajudar Matthews seria facilmente aniquilada pelo matador profissional iraquiano. Então por que ele não fez isso?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas bem perto do final é que Ize vai descobrir e, nós também, que o inimigo é um matador em série muito, muito estratégico. Ele utiliza a comunicação dos soldados americanos para atrair cada vez mais vítimas. Este foi o caso de Ize e de Matthews. Ele utilizou um rádio para pedir um pedido de socorro falso e atrair eles para uma armadilha. E ele não mata Ize e Matthews logo de cara para conseguir mais informações deles, especialmente de Ize.

No início, achamos que o iraquiano está querendo conhecer melhor a sua vítima. Temos a impressão que ele, a exemplo dos soldados americanos, está ali para cumprir um “dever” e que, por ter um cotidiano muito solitário, ele resolve dar uma “sobrevida” para Ize para que ele tenha com quem conversar. Conforme a história avança, e especialmente no final, percebemos que ele poderia ter atirado na cabeça de Matthews e de Ize com muita facilidade. Mas ele não faz isso, diferente do que pensávamos no início, não para ter com quem conversar ou para conhecer melhor as suas vítimas, mas para ter mais informações delas que o ajudariam nas próximas estratégias de atração dos inimigos.

E este é um ponto especialmente interessante do filme. O roteiro de Worrell vai, pouco a pouco, revelando mais sobre este inimigo iraquiano. Enquanto Ize tenta defender a visão dos americanos dizendo que a guerra acabou e que o franco-atirador matou pessoas que estavam ali “apenas” para ajudar na reconstrução do país, o iraquiano mostra um ponto de vista muito diferente. Essa ótica é especialmente importante hoje, 10 anos após a história de The Wall se passar. Ize se esconde atrás do muro que fazia parte da propriedade de uma escola. Não sabemos os detalhes do que ocorreu por ali, mas podemos imaginar que um ataque “cirúrgico” dos americanos acabou com aquela escola e com diversos inocentes.

Então, como bem diz o franco-atirador iraquiano, a guerra não acabou. Pessoas como ele, que foram muito bem treinadas – possivelmente pelos americanos, quando era do interesse dos Estados Unidos treinar iraquianos para que eles fizessem o “trabalho sujo” em outra época -, querem vingança. Querem dar o troco para os americanos e todas as nações que ajudaram eles a invadir o seu país e a provocar tanto estrago e tanto atraso. E é isso que nós vemos hoje nos ataques terroristas em diversos países pelo mundo. A resposta cheia de ódio de pessoas que foram preparadas de alguma forma pelos próprios americanos em seus jogos de poder e de busca por riqueza.

Com tudo isso, não quero dizer que os ataques terroristas se justificam. Diferente do que iraquiano que aparece no filme comenta, não acredito na ideologia “olho por olho, dente por dente”. Isto faz parte de um Velho Testamente que foi superado por outra visão de Justiça e de Deus trazida por Jesus. O problema é que nem todos entenderam esta mensagem ou acreditam nela. E aí temos a realidade cruel e desumana que vamos por aí. Infelizmente. Sou da opinião que nada justifica a violência, e que existem outras maneiras de resolver os nossos conflitos e de buscar a justiça.

Mas o ciclo da violência para quem acredita nela como saída para os problemas parece ser interminável. The Wall nos apresenta, de forma bastante interessante, um bocado sobre isso. Sem muita ação, mas com um bocado de reflexão, este filme da dupla Liman e Worrell mostra com clareza e sem pender a “torcida” para um lado da balança, duas visões opostas sobre a Guerra do Iraque – análise esta que vale para vários outros conflitos no Oriente Médio.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algo que eu achei interessante nesta produção é que ela não apenas mostra com sinceridade alguns dos aspectos pouco mostrados pelo cinema sobre a guerra, como ele também não cai no lugar-comum de um “final feliz” para os americanos. Muito pelo contrário. Naquela situação mostrada pelo roteiro, assim como em várias outras da vida real, os inimigos dos americanos levaram a melhor. Mas o cinema normalmente não mostra isso.

É bom, para variar, um filme de guerra mostrar estes aspectos tão comuns nos conflitos e tão pouco abordados por Hollywood. Apesar de ser muito lento e um bocado cansativo, The Wall se revela, desta forma, acima da média da maioria de produções recentes deste gênero. É um filme interessante pelos diálogos e pelas cenas que nos ajudam a sentir quase na “pele” o que os soldados viveram na reta final do conflito no Iraque. O grande desafio é conseguir manter-se acordado até o final. 😉

The Wall é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso este filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e passa a figurar na lista que atende a estes pedidos feitos por vocês, meus queridos e caros leitores. 😉

Esta é a última crítica antes do blog completar 10 anos. Só tenho a agradecer por cada um de vocês que passaram por aqui neste período. E agradeço, em especial, a todos que me acompanham há vários anos. Mantive este espaço por causa de vocês! Sei que estou devendo várias respostas a mensagens que vocês, meus bons leitores, deixaram aqui nestes anos todos. Mas um dia, eu prometo, vou conseguir colocar a nossa conversa em dia. Muito, muito obrigado a cada um de vocês! E vida longa – enquanto eu conseguir – para este espaço. Beijos e abraços grandes em cada um(a)! E até a próxima crítica. 😉

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Dwain Worrell é simples, mas muito bem planejado. Tudo o que acontece em cena faz sentido e se parece com o que soldados realmente fariam naquelas situações. Os diálogos são precisos, assim como a ação. O filme, apesar de bastante lento, tem o ritmo exato que uma intervenção militar como aquela teria – por isso o filme nos lembra um pouco o tom de um documentário.

Não sabemos exatamente quantas horas se passam desde o início da história e até o final, porque o protagonista “apaga” algumas vezes, mas a espera dele por um resgate, pela morte ou por um milagre é angustiante e nos prende a atenção, apesar da falta de “ação” neste filme. Ize passa por momentos de solidão, de angústia, de desânimo e por rompantes de “renovada energia” que o fazem buscar uma saída para aquela situação-limite. Uma narrativa competente tanto do roteirista quanto do diretor. Um bom trabalho.

O destaque desta produção, em termos de atuação, é sem dúvida alguma Aaron Taylor-Johnson. O ator tem o filme para si. E faz um belo trabalho. Sem dúvida alguma ele se credenciou para estrelar outras produções interessantes a partir do que ele apresentou neste The Wall.

Da parte técnica do filme, sem dúvida, o destaque é a direção de Doug Liman. Ele procura sempre estar próximo de seus atores, com diversas cenas de close e de câmera muito próxima de “pequenas ações” que eles fazem. Lembrando que durante grande parte do filme temos um protagonista deitado ou sentado no chão, se arrastando, então tecnicamente é um desafio fazer uma produção interessante com variações de câmera sobre espaços tão limitados. Um belo trabalho de Liman, que tem uma longa carreira como produtor e 23 trabalhos como diretor – incluindo curtas, longas e séries para a TV. A estreia dele foi feita em 1994, com Getting In. Liman ganhou dois prêmios em sua carreira, ambos por Swingers, de 1996.

Ainda sobre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a excelente direção de fotografia de Roman Vasyanov; a edição cuidadosa de Julia Bloch; a maquiagem de Jamie Kelman, Tami Lane, Francisco X. Pérez e Mike Smithson; e os 17 profissionais envolvidos com o departamento de som – que é um ponto fundamental da produção. Outros aspectos que vale citar, mas menos “destacáveis”, são o design de produção de Jeff Mann; a direção de arte de Cassidy Shipley; a decoração de set de Kelly Berry; e os figurinos de Cindy Evans.

Este filme me fez lembrar muito a All Is Lost, estrelado por Robert Redford. A exemplo de The Wall, em All Is Lost o filme é focado em apenas um personagem e há muitos e muitos momentos de pouca ou “nenhuma” ação. Também é um filme que pode dar sono e que não é simples de assistir, mas que tem algumas mensagens interessantes e que faz pensar. Comentei sobre ele neste link.

The Wall estreou em poucos cinemas do Canadá e dos Estados Unidos no dia 12 de maio de 2017. Depois, em junho, o filme participou do Festival de Cinema de Sidney. Filme de apenas um festival até agora, esta produção concorreu a apenas um prêmio, o de Melhor Filme Independente no Golden Trailer Awards, mas ele perdeu nesta categoria para Manchester by the Sea (comentado por aqui).

Não encontrei informações sobre os custos desta produção. Certamente eles foram bem baixos, pelas características do filme. Mas encontrei informações sobre o resultado do filme nas bilheterias conforme o site Box Office Mojo. Nos Estados Unidos, The Wall fez pouco mais de US$ 1,8 milhão, e nos demais mercados em que ele estreou ele fez outros US$ 2,2 milhões. Não é muito, claro, mas é um resultado bom para um filme independente e com as características nada óbvias que ele têm.

Durante grande parte desta produção, “nada acontece” – ou praticamente isso. Mas devo admitir que a reta final de The Wall faz o filme merecer a nota acima. Aquele final realmente foi especial. O que mostra que um filme precisa sim de um belo roteiro e, especialmente, de um grande final. Mais roteiristas/produtores/diretores deveriam se lembrar disso. O público agradeceria. 😉

Nicholas Irving, ex-US Ranger Sniper e autor do livro The Reaper, trabalhou como assessor técnico de The Wall. Irving recebeu o apelido “the reaper” durante as incursões que ele fez no Afeganistão. Ou seja, é um sujeito que entende bem do que acontece em cena em The Wall.

Agora, uma curiosidade que quem não viu o filme não deve ler. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente, o final de The Wall seria bem menos ambíguo. Nesta versão, o atirador iraquiano seria morto e Ize seria resgatado. Francamente? Teríamos o clássico “final feliz” para o exército americano. Gostei muito, mas muito mais da versão que The Wall acabou tendo. Ela era bem mais coerente com o “super” sniper iraquiano, não? Bom também ter um outro ponto de vista da história, porque na vida real, nem sempre, os americanos se dão bem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus comentários linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 70 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que garante para The Wall uma aprovação de 69% e uma nota média 6,1.

CONCLUSÃO: Assistir a The Wall denota um certo sacrifício. Sim, você deve vencer o sono ou a ânsia de ver algo de interessante acontecer para se colocar no lugar de um soldado como tantos outros da vida real. Filmes de guerra costumam mostrar grandes sequências de batalha e de morte, mas o que poucos mostram é o que realmente acontece na maior parte do tempo. The Wall se preocupa em nos revelar justamente isso. Este é um filme sobre pessoas comuns colocadas em situações complicadas e onde não existe espaço para bondade ou misericórdia. The Wall é bruto, angustiante, um tanto “maçante” e “sem sentido”. Como a guerra e os conflitos o são. Vale assistir se você gosta muito do gênero. Os demais podem passar adiante.