Papillon

papillon2

A honra não tem a ver com seguir tradições ou regras. A honra tem a ver com fazer o que é certo, buscar a liberdade e a justiça e defender a vida do seu amigo mesmo quando esta defesa coloca a sua própria vida em risco. Papillon nos conta uma história incrível de busca incessante por liberdade e pelo lugar de uma pessoa no mundo. A história é tão incrível que nem parece que ela é baseada em fatos reais, mas Papillon realmente existiu. Um filme delicado, muito bonito e sensível, apesar de toda a dureza da história. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Começa nos contando que o que veremos é baseado em uma história real. Vemos a uma cela antiga. Do fundo da cela, caminha lentamente para a frente, Papillon (Charlie Hunnam). Ele passa a cabeça pelo buraco da porta e olha ao redor. Corta. O mesmo Papillon, mas agora bem vestido, escuta com atenção as engrenagens de um cofre. O ano é 1931, e o local, Paris. Depois de abrir o cofre, Papillon pega os diamantes e sai pelas ruas. Vai até um clube, onde encontra o chefe da quadrilha e a sua namorada, Nenette (Eve Hewson).

Ele entrega os diamantes que roubou para o chefe da quadrilha. No final da noite, do lado de fora do clube, ele presenteia a namorada com um colar e algumas pedras que pegou do roubo. Um capanga de Jean Castili (Christopher Fairbank) vê a cena. Papillon e Nenette saem dali para comemorar. Passam uma noite divertida mas, na manhã seguinte, a polícia prende Papillon sob a acusação de ter matado um desafeto do chefe. Ele é condenado à prisão perpétua e enviado para a Guinea Francesa junto com vários outros condenados. Passará por maus bocados, mas nunca desistirá de sonhar com a  liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Papillon): Assisti a esse filme há algumas semanas. Então me perdoem se eu não tenho ele tão “fresco” na memória como eu gostaria. Mas lembro do principal, disso podem ter certeza.

Fui ao cinema curiosa para ver a uma refilmagem de um clássico. Há ainda mais tempo, acredito que quando era criança ou adolescente, assisti ao Papillon original, com o grande Steve McQueen no papel principal. A história já era impressionante naquele momento. Na verdade, imagino que em qualquer época a história de Papillon e do que era feito com os presos nos anos 1930 na França impressionem.

Papillon trata de diversos pontos fundamentais sobre a busca da sociedade por regras e limites para os atos individuais e da busca incessante dos indivíduos por viver, ter liberdade e buscarem o seu lugar no mundo. Toda essa falta de compasso entre estas duas necessidades, da sociedade e do indivíduo, assistimos nessa nova versão da história que mexeu com a França e com outros países quando ela veio à tona.

Algo que chama a atenção em Papillon na versão 2017, desde o início, é a ótima fotografia da produção. O filme é lindo, com imagens incríveis e um cuidado com o visual que não pode ser negado. Além disso, logo após a introdução da cela, o mergulho na Paris de 1931 já serve como um belo cartão de visitas sobre o que veremos adiante em termos de reconstituição de época. Um trabalho primoroso também, tanto nos figurinos quanto nas locações.

Além do aspecto visual e da reconstrução de época, pontos que Papillon tem como destaque, vale comentar também o trabalho competente do elenco e falar da história, é claro. Gostei na forma com que o diretor Michael Noer tratou o roteiro de Aaron Guzikowski, que se baseou no roteiro do Papillon de 1973, escrito por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., e no livro Papillon e Banco, escritos por Henri Charrière.

Claro que o roteiro segue aquela linha clássica. Começa com uma cena do “presente” para depois retomar o “passado” para contar como Papillon chegou naquela cela. A partir do retorno para a Paris de 1931, a narrativa passa a ser linear. O principal destaque desta narrativa, a meu ver, é que o filme é bastante econômico em momentos que não são realmente relevantes para a história, como a encrenca que leva Papillon para a prisão, ao mesmo tempo em que explora com muita calma e até uma certa “lentidão” outros momentos importantes, como as fases de solitária do protagonista.

A intenção do roteiro de Guzikowki e da direção de Noer é clara. Eles querem que o espectador sinta ao menos um pouquinho a angústia, o peso do tempo e da solidão que o protagonista sentiu naquelas situações de isolamento. As regras da prisão para a qual Papillon e vários outros foram mandadas eram bastante diretas e duras. Ali, uma vida valia pouco.

Como o diretor da prisão comentou, para eles um preso morto dava menos despesa e trabalho do que um preso vivo. Nesse cenário, temos a um ladrão injustamente condenado por homicídio. Sim, Papillon não era santo, mas será que ele ou qualquer outro indivíduo mereciam aquele tipo de tratamento? Frente àquela situação, o mais incrível de Papillon é que ele nunca desistiu.

Mesmo passando fome, sendo agredido, tendo que estar constantemente atento para defender a própria vida e sendo isolado para ser “quebrado” pela solidão, pela falta de comida, atividade física e contato com outras pessoas, ele nunca desistiu de enfrentar todas as perspectivas e fugir. Qual era o seu maior objetivo? Buscar a liberdade e um lugar que ele pudesse se sentir em casa.

Acho esse tipo de “sonho” e de propósito de uma potência incrível. Uma pessoa que é movida por isso, se sabe lidar com a solidão – e Papillon sabia -, não será “quebrada” ou vencida nunca. Essa é a mensagem mais incrível do filme, a meu ver. Além disso, Papillon inicialmente se aproxima do endinheirado Louis Dega (Rami Malek) por interesse, é verdade, mas depois ele vê Dega como um amigo e, aí sim, Papillon revela toda a sua grandeza.

Naquele cenário agreste de busca por sobrevivência, Papillon poderia ter sido egoísta e ter ignorado Dega em mais de uma ocasião. Teria sido mais fácil para ele. Mas não. Papillon se aproximou de Dega e o considerou o seu amigo. E aí está outra leitura fantástica desta história. A força da amizade e da honra ao defender esse princípio, assim como o da liberdade. Teria sido mais fácil para Papillon “abandonar” Dega à própria sorte em mais de uma ocasião, mas ele não fez isso.

Então esse filme, a meu ver, tem um resgate importante de valores fundamentais, apresenta um belo trabalho dos atores principais e ainda tem uma narrativa que respeita os tempos e que valoriza outros aspectos da produção, como a reconstituição de época e os locais em que os personagens passaram. Gosto da narrativa lenta da produção em alguns momentos. Acho que ela ajuda o público a entender um pouco melhor a experiência de Papillon em seus momentos de isolamento.

Para resumir, achei Papillon envolvente e bem construído. Tem muito mais qualidades do que defeitos. Talvez tenha faltado para a produção um pouco mais de contextualização sobre o que aconteceu com outros personagens importantes da história. Mas esse é apenas um detalhe.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que este pode ser o ano do ator Rami Malek. Descobri ele por causa da série Mr. Robot. Já achava o seu trabalho muito bom. Mas, neste ano, ele não apenas fez esse trabalho interessante em Papillon, como, logo mais, vamos vê-lo como protagonista em Bohemian Rhapsody. Admito que estou bem curiosa para conferir como ele se saiu como Freddie Mercury – apenas pelo trailer, estou até desconfiando que ele pode receber uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. Veremos logo mas. Mas, sem dúvida, este é um ator em ascensão.

Além de Malek, que faz um belo trabalho como Louis Dega, vale destacar o ótimo trabalho de Charlie Hunnam como Papillon. Não seria fácil, para qualquer ator, fazer o mesmo papel que, antes, foi realizado por Steve McQueen. Mas Hunnam não parece ter se intimidado com o desafio e abraçou Papillon como se este fosse o papel da sua vida. Gostei bastante da interpretação do ator. Não lembro de tê-lo visto em nenhum outro filme, mas reparei que ele também está em ascensão. Vale acompanhá-lo, pois.

Papillon tem, assim, dois atores em ascensão em papéis centrais. Isso é algo importante para um filme. Além de Malek e de Hunnam, Papillon apresenta outros bons atores em cena. Do elenco, vale destacar o trabalho de Roland Moller como Celier, um presidiário que é bom em navegação – mas que nunca foi com a cara de Dega; Michael Socha como Julot, companheiro de Papillon e de Dega e que é o primeiro a sofrer as consequências por tentar fugir e matar um guarda no intento; Christopher Fairbank em uma super ponta como o chefe da quadrilha de assaltantes Jean Castili; Joel Basman como Maturette, um preso que ajuda na fuga do grupo e que acaba tendo o gostinho da liberdade por um tempo; e Yorick van Wageningen como Warden Barrot, o chefe da prisão na Guiana Francesa. Todos estão muito bem.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque vai para a direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Um trabalho incrível e que valoriza a história. Depois da direção de fotografia de Bogdanski, vale destacar a edição de John Axelrad e Lee Haugen; o design de produção de Tom Meyer; a direção de arte de Tom Frohling e Natasha Gerasimova; a decoração de set de Jennifer M. Gentile; os figurinos de Bojana Nikitovic; e a trilha sonora de David Buckley.

Papillon estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Montclair, Edinburgh e o Biografilm Festival. Nesta trajetória, o filme não recebeu indicações ou foi premiado.

Esta produção é baseada, de fato, no livro escrito por Henri Charrière, o nome de batismo de Papillon, e lançado, originalmente, na França em 1969. Ou seja, a primeira adaptação para ao cinema de sua história chegou às telas apenas quatro anos depois do livro ser lançado. Uma prova de como a obra de Charrière foi impactante naquela época.

Papillon significa “borboleta”. Charrière recebeu este apelido por causa da tatuagem de borboleta que ele tinha no peito – e que, descobrimos no filme, tinha o significado, entre os criminosos, de que ele era um assaltante.

Segundo a história, Papillon foi condenado em 1933 e conseguiu escapar da prisão apenas em 1941.

Papillon não caiu no gosto dos críticos. O filme conseguiu 46 críticas positivas e 41 negativas entre os críticos linkados no site Rotten Tomatoes, o que dá para a produção uma aprovação de 53% e uma nota média 6. No site Metacritic o filme não foi muito melhor. Lá, a versão 2018 de Papillon recebeu o “metascore” de 52, fruto de 10 críticas positivas, 15 críticas medianas e de quatro críticas negativas.

Apenas os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos com o filme, dedicando a ele a nota 7. Para mim, é válido uma refilmagem de Papillon agora, para que as novas gerações confiram esta história. Eu não acho que toda refilmagem deve superar a anterior. Cada uma tem os seus predicados. Claro, muito difícil – ou até impossível – superar o Papillon original. Mas acho que o novo Papillon pode ser visto de forma isolada, como um belo trabalho e um esforço interessante de reapresentar uma história bacana e forte para um novo público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Papillon arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 2,2 milhões nos outros países em que o filme estreou. Esses números mostram que a produção foi praticamente ignorada pelo público. Uma pena, porque eu achei ela bem acabada e com uma temática que vale ser tratada e discutida. Mas a nova versão de Papillon realmente não conseguiu emplacar.

Papillon é uma coprodução da República Checa, da Espanha e dos Estados Unidos. Curiosa essa mistura. Não lembro de ter visto a outro filme da República Checa. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com uma fotografia incrível, um roteiro bem equilibrado, bons atores e que não tem pressa de contar uma história. Muito pelo contrário. Papillon segue o seu ritmo e a visão do diretor Michael Noer do início ao fim. Gostei do resgate desta obra tão importante sobre valores fundamentais da humanidade. Toda sociedade precisa de regras, leis, controles e segurança. Mas a busca do indivíduo por liberdade e por escolher os seus caminhos ultrapassa tudo isso. Belo filme, muito bem realizado e que nos faz pensar muitos aspectos. Se você não se incomodada com uma narrativa um pouco lenta, dê uma chance para Papillon.

Anúncios

Juliet, Naked – Juliet, Nua e Crua

juliet-naked

Geralmente a gente leva aquela vidinha mais ou menos. E nos acostumamos com esse “mais ou menos”. Mas o que nos desagrada na nossa vidinha “assim, assim” nos tira a paz. Isso pode durar muito tempo. A vida inteira, muitas vezes. Ou pode chegar um dia em que um fato inesperado nos faz querer mudar. Juliet, Naked segue a onda da obra do escritor Nick Hornby na sua busca da relação das pessoas com a música e vice-versa mas avança alguns passos em direção à maturidade. Um filme com doses certas de humor, romance, drama e cinismo. Uma bela pedida.

A HISTÓRIA: Em um vídeo gravado para o seu site, Duncan Thomson (Chris O’Dowd) fala um pouco mais sobre a aura e as “lendas” que envolvem o seu ídolo máximo, o sumido “astro” do rock alternativo Tucker Crowe (Ethan Hawke). Nesse vídeo, feito em casa, Duncan relembra as linhas gerais da trajetória de Tucker e comenta como ele fez uma “obra-prima” em 1993 antes de “desaparecer”. Muitos anos depois, em 2014, teriam feito uma foto dele em uma fazenda, mas ninguém comprovou se a imagem seria do artista. Corta.

Em uma pequena cidade do litoral do Reino Unido, Annie Platt (Rose Byrne) mantém o legado do pai no museu da cidade. Agora, ela está com o desafio de organizar uma mostra que vai lembrar um Verão dos anos 1960 na cidade. Ela passa os dias entre o trabalho no museu, a rotina de um relacionamento morno com Duncan e desempenhando o papel de confidente da irmã mais nova, Katie (Alex Clatworthy).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu Juliet, Naked): Como manda o meu figurino, eu não sabia praticamente nada sobre Juliet, Naked antes de entrar no cinema e começar a assistir ao filme. Mas, conforme ele foi se desenvolvendo, me pareceu que aquele estilo e aquela assinatura da produção, especialmente do roteiro, me pareciam familiares.

Então não foi surpresa nenhuma, pelo contrário, fez muito sentido, depois, saber que o roteiro de Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins foi escrito tendo uma obra de Nick Hornby como fonte. Juliet, Naked tem o estilo de Hornby do primeiro ao último minuto. Assim, para entender bem este Juliet, Naked, o ideal seria antes visitar (ou revisitar) o filme High Fidelity – que eu assisti antes de criar este blog, por isso esse o texto sobre ele não poderá ser encontrado por aqui.

High Fidelity foi o filme que fez Hornby ser conhecido do grande público. Depois, dá para entender um bocado da “pegada” do autor com a produção About a Boy – que eu assisti também antes de criar o blog. O que estes filmes, baseados em livros de Hornby, têm em comum e que é importante conhecer e/ou entender antes de assistir a Juliet, Naked? Nas duas produções que “lançaram” Hornby para o grande público nós temos protagonistas em busca de sua própria maturidade.

Já foi comprovado, cientificamente, que os homens amadurecem, em geral, mais tarde que as mulheres. Esse amadurecimento mais tardio é sempre confrontado pelas responsabilidades da vida adulta versus os gostos ainda juvenis que muitos homens preservam pelo máximo de tempo possível. Assim, você pode ganhar muita responsabilidade conforme os anos passam, mas nem sempre você consegue lidar bem com toda essa responsabilidade e “cobrança”.

Mais uma vez, em Juliet, Naked, vemos a dois homens relevantes para a história que tem dificuldade de lidar com alguns aspectos mais “adultos” das suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Professor, Duncan alimenta uma verdadeira “paixão” pela música de Tucker Crowe. Ele é o típico “fanático” pelo artista, aquele cara que acredita que sabe tudo sobre o seu ídolo e o defende com unhas e dentes – mesmo não sendo muito racional (ou nada racional?) nesta defesa.

Ao mesmo tempo que dedica apenas o tempo necessário para a sua profissão de professor e igualmente apenas a atenção mínima para a namorada que vive com ele, Duncan dedica grande parte da sua paixão para a música de Tucker e para o site que criou sobre o artista. Cheio de razão sobre o que acredita saber sobre Tucker, Duncan fantasia o ídolo e a vida que ele possa ter seguido após ter optado pelo “anonimato”.

Nessa parte, tanto Hornby quanto os roteiristas de Juliet, Naked fazem uma ponderação interessante sobre as nossas paixões e como elas nos cegam. Duncan coloca tanta energia no seu “amor” pelo ídolo que, no dia em que ele o encontra com a ex-namorada na praia, ele é incapaz de identificar o objeto da sua paixão. Depois, no jantar cheio de constrangimento que os três e mais o filho de Tucker tem na casa de Annie, fica evidente o descolamento das impressões de Duncan sobre o ídolo e a realidade.

Nesse sentido, Juliet, Naked se revela um filme muito interessante. Nos faz pensar sobre o quanto o nosso amor, paixão ou admiração mesmo para outra pessoa (ou obra) nos torna cegos ou, no mínimo, míopes para a realidade sobre aquela pessoa (ou obra). De fato isso acontece, e com maior frequência do que gostaríamos de admitir. É preciso racionalizar e usar a nossa inteligência para eliminar a névoa e a vista nublada, para enxergar além da “cortina de fumaça”.

Mas para isso acontecer, é preciso ter contato com a realidade, nua e crua, e querer enxergar. Há quem prefira a vista nublada e a paixão cega, mesmo sabendo o que elas representam. Sempre é uma questão de escolha individual – e intransferível, portanto. Duncan, está claro conforme a produção avança, é um sujeito afeito e apreciador de miopia. Ele se deixa levar pelas emoções – ainda que seja tão ruim em administrá-las na prática. Lhe falta, evidentemente, uma maior maturidade emocional.

Isso é comprovado com o final de Juliet, Naked. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder definitivamente a ex-namorada para o ex-ídolo, ele não disfarça a dor de cotovelo que passou a sentir utilizando a internet para “atacar” o novo trabalho de Tucker. Quantas decisões erradas tomamos por que nos sentimos traídos ou decepcionados? Esses sentimentos nunca são bons conselheiros.

Enquanto Duncan procura, mas parece não achar muito a maturidade emocional, temos outra figura em uma busca por maturidade nesta produção: Tucker. Depois de fazer um relativo sucesso como cantor e compositor, ele se afasta da música e da exposição pública e pula de relacionamento em relacionamento, colecionando não apenas ex-mulheres ou ex-parceiras, mas também diversos filhos.

Quando Duncan recebe a primeira gravação do disco de Tucker que ele ama e publica uma crônica a respeito no seu site, a pouco valorizada – e não tão míope – Annie resolve publicar um comentário dando um contraponto para toda aquela “rasgação de seda”. Ao ver um comentário mais ácido, Tucker entra em contato com a usuária que o postou. E assim ele começa a se corresponder com Annie.

Nesse sentido, Juliet, Naked explora muito bem as possibilidades de contato e de interação cheios de significado que a tecnologia da internet nos trouxe. Como é o caso deste blog mesmo, onde tanta gente boa fala sobre cinema e acaba trocando impressões sobre os filmes. Sempre é possível, nestes locais, encontrar pessoas com grande afinidade com a gente – mais até do que algumas pessoas próximas, muitas vezes.

Justamente esse potencial da internet que acaba sendo um elemento determinante para a história de Annie e de Tucker. Para surpresa dela, que não “endeusa” o artista como o namorado, Tucker acaba se revelando um sujeito realmente interessante. E atento, que lhe dá ouvidos e atenção, algo que ela não recebe em casa.

Juliet, Naked também entra, de forma bastante discreta, em outro tema bastante presente nos nossos dias: o que é, afinal, traição? Annie esconde de Duncan que ela está se correspondendo com o ídolo-mor dele. Não apenas trocando e-mails e mensagens, mas confidências – como a declaração de que ela “desperdiçou” os seus últimos 15 anos de vida. Annie não se sente orgulhosa de esconder isso do namorado, mas também não vê como falar a verdade para ele.

Como a vida tem as suas ironias, Duncan “mete a pata” e faz besteira traindo Annie com uma nova colega de colégio, Gina (Denise Gough). O “motivador” dele em relação à ela é porque Gina parece compartilhar da mesma emoção que ele sente ao escutar à primeira gravação do disco de Tucker.

Como acontece com muitos homens imaturos, Duncan “se deixa levar” e tem uma noite de sexo que não significa “nada” com Gina. Mas isso é suficiente para Annie ter a desculpa perfeita para terminar com aquele relacionamento morno e mais ou menos – sobre o qual ela já estava farta há algum tempo.

Depois, o que é um clássico também, Duncan se arrepende e tenta voltar com Annie. Sem sucesso, é claro, porque Annie já está cansada da “vidinha mais ou menos” que vinha levando e resolve correr atrás de algo que lhe faça mais sentido. Ufa! Ainda bem! Tantas mulheres abrem mão de suas próprias vontades, desejos e do que lhes traz mais sentido por causa de comodismo… ainda bem que esse não foi o caso da protagonista de Juliet, Naked.

Assim, de forma bem natural, esse filme nos faz refletir de que a vida está cheia de surpresas e de oportunidades. Por causa de um comentário franco que fez no site do namorado, Annie acabou se aproximando de um ex-ídolo rockeiro sobre o qual ela não tinha nenhuma atração em particular. A vida está cheia destas surpresas e oportunidades. O que fazemos com elas é o que realmente interessa, no final. Quantas vezes você teve uma ótima oportunidade pela frente mas a deixou passar?

Tucker estava “confortável” morando na garagem nos fundos da propriedade da sua última namorada e cuidando do filho Jackson (Azhy Robertson). Depois de errar tanto com suas ex-mulheres/namoradas e de não realmente buscar ser um bom pai, ele quer fazer diferente agora – assim, esse filme mostra um homem com dificuldade para amadurecer realmente procurando por esta mudança na sua vida.

Seus planos iam muito bem, até que Annie apareceu na sua vida. Apesar de estar em uma situação “confortável”, Tucker é quem toma a iniciativa de uma aproximação. Quando eles realmente se aproximam, Annie vê que a vida do novo pretendente é um verdadeiro caos. Ela poderia ter recuado, agradecido a oportunidade e seguido em outra direção. Mas ambos já tinham se modificado, um ao outro, e resolveram não fechar os olhos para isso.

Mudanças maravilhosas podem acontecer com as pessoas – e com as sociedades, enquanto coletivo de pessoas – quando as pessoas estão dispostas para que isso aconteça. Mas é preciso disposição, sem dúvida. É preciso sair da zona de conforto, da “vidinha mais ou menos” e da segurança do que já conhecemos. É preciso se arriscar, sabendo que há chances de dar certo ou de dar errado. E tudo bem.

Pensando no que pode ter atraído tanto Annie em Tucker, acho que foi a grande e incurável honestidade dele. Em nenhum momento Tucker quis disfarçar os seus defeitos ou parecer algo que ele não era. Essa franqueza, tão difícil de encontrar por aí, assim como o olhar cuidadoso e realmente interessado de Tucker, foram “fatais” para Annie. Realmente é como achar uma agulha em um palheiro.

Para uma pessoa que vive um bocado na zona de conforto mas que não está cega para as mudanças e para as possibilidades que a vida sempre nos apresenta, Juliet, Naked é uma brisa de ânimo e de esperança. Um filme sobre a busca da felicidade, de fazer melhor na próxima vez e de maior maturidade. Uma brisa animadora frente a tanto caos e cegueira. Um filme sobre música e o amor baseado em princípios que realmente valem a pena. Um belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto de produções com muitos diálogos e com bastante conteúdo. Esse é o caso deste Juliet, Naked. Algo bastante típico também do escritor Nick Hornby. O autor, assim como os roteiristas desta produção, exploram muito bem a construção dos personagens. Não apenas nos diálogos deles com outros personagens mas, sobretudo, no diálogo deles “interno”. Vemos isso coloado em Juliet, Naked de forma natural, sem forçar a barra e em momentos pontuais.

O roteiro de Juliet, Naked, vocês podem imaginar, é um dos pontos fortes do filme. Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins respeitam o estilo de Nick Hornby e conseguem construir um roteiro envolvente e que mergulha com cuidado e verdadeira “admiração” nos personagens centrais da história. Há diálogos deliciosos e engraçados espalhados aqui e ali, assim como momentos para o drama e o romance. Uma crônica sobre pessoas comuns e os nossos tempos de comunicação intermediada por computadores e tudo que isso significa de filtros e de possibilidades.

Além do roteiro acima da média, Juliet, Naked apresenta uma direção de Jesse Peretz bastante coerente com a história. O diretor, com muitos trabalhos na direção de curtas e de séries de TV e relativamente poucos trabalhos na direção de longas, valoriza bem o trabalho dos atores e os locais em que eles vivem e/ou transitam. Essencialmente, o trabalho de Peretz não tem nenhum grande “achado” de ângulo ou ritmo de câmera, mas ele faz um trabalho competente de valorização das interpretações dos atores.

Falando em atores, esse é um outro ponto forte de Juliet, Naked. Rose Byrne e Ethan Hawke estão simplesmente incríveis em seus papéis. Especialmente Hawke, que parece se encaixar perfeitamente no papel de um “ex-ídolo” jovem, belo e admirado que acaba se afastando de tudo e de todos e passa a ter quase uma “ojeriza” à fama. Hawke envelheceu e não é mais aquele garoto jovem e belo como antes. Então ele se encaixa perfeitamente no papel. Hawke e Byrne são simpáticos e “iluminam” a tela, além de fazerem uma bela parceria em cena. Gostei muito do trabalho deles e da construção de seus personagens.

Para mim, Hawke e Byrne roubam as cenas sempre que aparecem. Apesar disso, há outros nomes competentes e que fazem um belo trabalho em Juliet, Naked. Vale citar, em especial, o bom trabalho de Chris O’Dowd como Duncan, um cara de meia idade com algumas paixões e com pouca capacidade de desenvolver relações reais; Alex Clatworthy muito bem com a irmã mais nova, lésbica e “pegadora” da protagonista, Katie, um contraponto interessante para Annie; Denise Gough bem em um papel menor e de coadjuvante, realmente, como Gina, a professora que dá em cima do colega Duncan; Azhy Robertson muito bem como Jackson, o filho mais novo de Tucker e a sua esperança de ser “um bom pai”; e Ayoola Smart como Lizzie, uma das filhas de Tucker que procura o pai quando está grávida.

Além destes nomes, que tem um destaque maior na trama, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Lily Newmark como Carly, uma das namoradas de Katie; Phil Davis como o caricatural e um bocado “sem noção” prefeito de cidade pequena Terry Barton; Eleanor Matsuura como Cat, a última ex-namorada de Tucker – e dona da propriedade onde ele mora nos fundos da residência; Florence Keith-Roach como Caroline e Megan Dodds como outras ex-mulheres de Tucker – elas são mães, respectivamente, de Lizzi e dos gêmeos Zak (Thomas Gray) e Jesse (Brodie Petrie), todos filhos de Tucker.

Entre os aspectos do filme, além do saboroso e interessante roteiro do trio Peretz, Taylor e Jenkins e da direção firme e coerente de Peretz, vale destacar a direção de fotografia de Remi Adefarasin; a edição de Sabine Hoffman e de Robert Nassau; a trilha sonora de Nathan Larson; o design de produção de Sarah Finlay; a direção de arte de Caroline Barclay; a decoração de set de Ellie Pash e os figurinos de Lindsay Pugh.

Ainda que os filmes mais significativos baseados na obra de Nick Hornby não tenham sido comentados aqui no blog – porque eles são anteriores à criação deste espaço -, tenho publicados no site duas críticas de filmes que contaram com o roteiro de Hornby. Vocês podem conferir por aqui a crítica de An Education e, neste link, a crítica de Brooklyn. Não são os melhores trabalhos dele, mas os dois filmes são interessantes.

Juliet, Naked estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de Sydney, de Zurique e do American Film Festival. Nessa trajetória de festivais, ele foi indicado em uma categoria mas não ganhou prêmio algum.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Rose Byrne estava grávida de seis meses quando Juliet, Naked foi filmado. Para esconder essa gravidez, o diretor optou por planos de câmera inteligentes, como takes de médio e grande plano, e pela colocação de bolsas e notebooks na frente da barriga da atriz para que a gravidez não aparecesse na tela.

O escritor Nick Hornby faz uma ponta no filme. Ele aparece ao lado da atriz Rose Byrne na sequência no museu na qual Tucker Crowe canta a música “Waterloo Sunset”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,9. No site Metacritic, Juliet, Naked recebeu o “metascore” 67, fruto de 20 críticas positivas e 12 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Juliet, Naked fez pouco mais de US$ 3,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos.

Juliet, Naked é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: A energia que nós dedicamos a alguns aspectos da nossa vida nem sempre é proporcional ao quanto aquilo vale a pena realmente. Muitas vezes, não nos dedicamos o quanto deveríamos para a pessoa que está ao nosso lado, gastando aquela energia com nossos gostos pessoais. Juliet, Naked segue a linha de Nick Hornby de falar de encantamento, de paixão, de amor e de música, mas com alguns toques maiores de autocrítica, cinismo e compaixão com seus personagens. Mais um filme interessante e divertido com a marca de Hornby e com ótimos atores em cena. Porque vale falar de música, de amor e da vida de gente comum. Boa pedida para quem gosta do gênero.

Venom

venom

Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

10 Segundos para Vencer

10-segundos-para-vencer

O tempo passa e quem “não é visto, não é lembrado”. O Brasil tem alguns fenômenos sobre os quais falamos pouco. 10 Segundos para Vencer conta a história de um deles: Éder Jofre. O único brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de boxe em duas ocasiões e em duas categorias diferentes. Um verdadeiro fenômeno sobre o qual praticamente não ouvimos falar. Isso diz muito sobre o Brasil e os brasileiros. Nesse sentido, 10 Segundos para Vencer nos faz pensar um bocado.

A HISTÓRIA: Abertura em preto e branco e o som de uma transmissão de rádio. Está difícil de sintonizar a estação. Surge a informação de que o filme é baseado em uma história real. Vamos para 5 de maio de 1973. Em Brasília, vai se decidir mais um título mundial da WBC. Agora, de peso pena. Para muitos, 10 segundos podem não significar grande coisa. Mas 10 segundos é tudo para um lutador.

Éder Jofre (Daniel de Oliveira) aparece deitado, olhando para cima, esperando a sua hora de lutar. A história volta para 1946, quando Éder é um garoto e acompanha, admirado, o trabalho do pai, Kid Jofre (Osmar Prado) como treinador e do tio, Silvano (Ricardo Gelli) como pugilista. Mal sabe o jovem Éder que ele vai seguir os passos do tio, mas superá-lo nos resultados para tornar-se um dos maiores pugilistas da história do esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 10 Segundos para Vencer): Estou aqui na minha odisseia para colocar em dia os filmes que eu assisti nas últimas semana. Vi a esta produção nacional pouco depois dela estrear. Sempre amei o boxe. Lembro bem, de quando era criança e pré-adolescente, assistir às lutas que muitas vezes a TV passava no final da noite.

Acompanhei bem a carreira de Mike Tyson, por exemplo, antes dele surtar, e assisti a outros grandes nomes no ringue, como George Foreman e Evander Holyfield. Bons tempos em que era fácil assistir a grandes lutas de boxe no conforto do nosso lar. O que sempre me fascinou no boxe é que este é um esporte de garra, de técnica e de inteligência. Mas também de vigor físico, de resistência, de foco e de obstinação.

Todos nós conhecemos a história de Rocky Balboa, na série de filmes que fizeram a carreira de Sylvester Stallone. Mas o Brasil já teve o seu herói nos ringues. Pena que ele é pouco lembrado. Mas 10 Segundos para Vencer dá o merecido protagonismo para este herói brasileiro do boxe, Éder Jofre.

O filme segue a linha das produções que homenageiam o retratado. Ou seja, você não verá complexidade no roteiro de Thomas Stavros e Patrícia Andrade, que contaram com a colaboração de José Alvarenga Jr. e José Guertzenstein. Muito pelo contrário. O filme segue uma linha clássica de começar com um momento importante do homenageado para, depois, voltar atrás na sua história e contar os principais fatos da vida dele até chegarmos àquele primeiro momento novamente.

Acompanhamos, assim, a história de Éder Jofre desde que ele era um garoto, em 1946 – ele tinha, então, 10 anos de idade -, e até aquela decisão do seu segundo título mundial, em 1973. O foco da história é sempre a “responsabilidade” de Jofre de seguir o legado da família e de honrar o pai, o treinador Kid Jofre. O garoto quer orgulhar o patriarca e, ao ver que o tio não será capaz de fazer isso, ele assume essa responsabilidade.

Mas nada disso acontece sem dúvidas ou sem dor. Por um bom tempo, o jovem Éder quis seguir a carreira artística. Ele teve o apoio da mãe, Angelina (Sandra Corveloni), mas, naquela época – e ainda hoje, infelizmente -, as mulheres não tinham muita voz ou vez dentro da família. Assim, a personalidade marcante e “dominadora” de Kid se sobrepõem a do filho e à da mulher.

Mais que isso, quando o irmão mais novo Doga (Ravel Andrade) fica doente, Éder assume a responsabilidade de entrar no boxe para conseguir dinheiro para o tratamento do irmão. Segundo esta matéria interessante que conta um pouco da história de Éder Jofre, o pugilista se transformou em profissional em 1953, quando se tornou Campeão da Forja de Campeões.

A partir daí, ele não parou mais, se tornando Campeão Brasileiro dos Galos em 1958; Campeão Sul-americano dos Galos em 1960; Campeão Mundial dos Galos em 1960; Campeão Unificado dos Galos em 1962 e Campeão Mundial dos Penas em 1973. Realmente uma trajetória impressionante. Além de todos esses títulos, Éder Jofre é considerado como um dos melhores pugilistas de todos os tempos.

Em 10 Segundos para Vencer nós assistimos de perto o “background” familiar de Jofre, a sua ascensão e suas conquistas. Interessante como ele não se deslumbrou com a fama e com os títulos e, em certo momento da vida, quis parar com tudo para ter uma vida mais familiar com a esposa e os filhos. Está bem, no filme, a atriz Keli Freitas como Cida, esposa do protagonista.

Pensando nos dois, logo me lembro da ótima reconstituição de época feita neste filme. Especialmente os figurinos e a reconstituição da São Paulo dos anos 1960 foi incrível. Do elenco, todos estão muito bem, mas com destaque para Daniel de Oliveira e para Osmar Prado – especialmente Prado em uma interpretação incrível, com um sotaque paulistano acentuado e uma emoção que transborda a telona.

No filme, também acompanhamos um dilema interessante e que nem sempre está presente em filmes sobre grande atletas: o quanto o esporte de alto nível cobra da vida da pessoa. Sim, ela ama aquele determinado esporte. Sim, ela tem orgulho de representar a sua família e nação. Mas e tudo o mais da vida que ela abre mão para chegar ao auge, vale a pena? E depois de chegar ao auge, até quando fazer sacrifício para permanecer lá?

O interessante do exemplo de Éder Jofre é que ele nunca foi um deslumbrado com o que ele conquistou. Depois de conseguir se consagrar como campeão mundial, ele não quis permanecer nessa posição para sempre e fazer todos os sacrifícios que isso trazia. E ele estava certo. Há tempo para tudo, nessa vida. Para desfrutar dela e para fazer sacrifícios para um “bem maior”. Mas ninguém merece ser sacrificado a vida inteira. 10 Segundos para Viver faz uma ponderação interessante sobre isso.

Gostei da homenagem que fizeram para Éder Jofre. Mais pessoas precisam conhecer a sua história. Espero que o filme faça esse trabalho. Fez isso comigo, que fui atrás de saber mais sobre ele. Só achei que o filme perde em densidade ao abrir mão de falar mais sobre os dilemas do personagem. Afinal, todos temos os nossos dilemas e defeitos, mas nada disso aparece em 10 Segundos para Vencer.

Assim, o filme vale pela homenagem e pelo cuidado do diretor José Alvarenga Jr. pelos detalhes, assim como pelo trabalho dos atores principais. Sempre é bom assistir a filmes de grandes nomes do esporte. Especialmente dos brasileiros, tão pouco lembrados no cinema. Apenas por esses aspectos, vale assistir a 10 Segundos para Vencer. A história poderia ser melhor acabada e mais cheia de nuances, mas nós perdoamos a falta de camadas do filme por tratar-se realmente de uma homenagem.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais um belo filme nacional que eu assisto nesse ano. Fico feliz. Torço muito pelo cinema brasileiro – para além das produções de comédia escrachada. Que bom que estamos investindo também em outros tipos de produções, além daquelas feitas para levar um grande público ao cinema. 10 Segundos para Vencer faz parte de uma safra boa.

Gostei do trabalho de José Alvarenga Jr. neste filme. Ele tem uma direção segura e não deixa nada a desejar nas cenas das lutas de boxe – sem dúvida alguma, as mais difíceis de serem feitas. O diretor acerta também em valorizar a interpretação dos atores e a reconstituição de época, que é um outro ponto forte do filme. O diretor dá um bom ritmo para a produção, que não deixa a bola cair em momento algum e prende a atenção da audiência, apesar da história previsível e carregada demais de “homenagem”, até o final. Mais mérito do diretor do que do roteiro, sem dúvida.

Além de um bom trabalho de José Alvarenga Jr., 10 Segundos para Vencer merece destaque pelo ótimo trabalho na atuação de Daniel de Oliveira e de Osmar Prado. Eles são dois gigantes em cena. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Sandra Corveloni, de Ravel Andrade, de Keli Freitas e de Ricardo Gelli. Em papéis menores, estão ainda Samuel Toledo e Christiano Torreão.

Entre os aspectos técnicos do filme, o principal destaque vai, sem dúvida, para a excelente direção de fotografia de Lula Carvalho; para os figurinos impecáveis de Marcelo Pies; e para a bela produção de design de Claudio Domingos. Também vale destacar a emotiva trilha sonora de Berna Ceppas. Não encontrei o nome de quem fez a edição do filme, mas esse foi mais um belo e fundamental aspecto da produção.

Vale indicar algumas matérias sobre Éder Jofre. Para começar, recomendo duas sobre como o pugilista se emocionou ao ver a sua história narrada em 10 Segundos para Vencer: esta da Globo e esta outra do Estadão. Depois, para quem gosta (ou gostava) de boxe, como eu, vale conferir esta outra matéria do site Melhor de 10 sobre 10 dos melhores atletas do boxe de todos os tempos – e com o nosso Éder Jofre fazendo parte desta lista. O bacana deste último site é podermos ver a cenas reais de lutas dos pugilistas. Bem legal.

Analisando especialmente essa lista do Melhor de 10, percebi algo que considero importante. No boxe, os “menos entendidos” sempre deram muito valor para os peso-pesados. Aí que Éder Jofre teve uma grande concorrência por atenção na sua época, já que ele era contemporâneo, entre outros nomes, de outro gigante do esporte: Muhammad Ali. Muito dos holofotes foram para Ali, naquela época. Além disso, claro, enquanto os americanos gostam de enaltecer os seus ídolos, a maior parte dos brasileiros não aprecia a mesma boa prática. Infelizmente.

10 Segundo para Vencer estreou no dia 23 de agosto de 2018 no Festival de Cinema de Gramado. Em circuito comercial, o filme estreou nos cinemas no dia 27 de setembro – assisti ele pouco depois.

No Festival de Cinema de Gramado, 10 Segundos para Vencer ganhou dois prêmios: Melhor Ator para Osmar Prado e Melhor Ator Coadjuvante para Ricardo Gelli. Prado mereceu. Está incrível no filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Nenhum outro site apresentou críticas sobre este filme.

10 Segundos para Vencer é uma produção 100% do Brasil. Por causa disso, ele passa a figurar na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando foram pedidos filmes feitos no Brasil para serem comentados por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem acabado, com ótima direção e reconstituição de época. 10 Segundos para Vencer conta a história de um grande ídolo nacional, mas pouco lembrado. O filme segue a linha das produções de “homenagem”, ou seja, com um mergulho apenas no lado “bacana” do personagem principal. Não vemos a todas as camadas ou mesmo à complexidade do protagonista. Apesar disso, o filme se mostra coerente com o seu estilo e muito bem conduzido. Sem dúvida alguma a história de Éder Jofre deveria ser mais conhecida. Vale assistir a 10 Segundos para Vencer como introdução para isso.

Mile 22 – 22 Milhas

mile22

Um filme bastante violento, com um bocado de pancadaria e recheado de palavrões. Mile 22 segue a nova linha de encarar a espionagem no mundo “pós-moderno”, em que FBI, CIA, antiga-KGB e afins não se comportam mais como antigamente. Francamente? Homeland, a série de TV, trata disso de uma forma mais interessante. Mile 22 começa até que bem, com uma operação interessante de uma força especial dos Estados Unidos, mas, depois, o filme cai em um jogo previsível. Algumas cenas de luta, especialmente do ator Iko Uwais, chamam a atenção. Também é interessante ver à pessoas como Lauren Cohan e Ronda Rousey em cena. Mas isso é tudo. Apenas mediano.

A HISTÓRIA: Um carro trafega calmamente em uma rua residencial. Algumas pessoas caminham enquanto um grupo de crianças brinca. Logo depois de parar, Rook (Billy Smith) pergunta para Alice (Lauren Cohan) se eles estão no endereço certo. Ela acha que não, porque diz que no e-mail falaram em uma casa branca, e aquela residência é azul. Enquanto ela pede para Rook ver no e-mail em que o endereço era citado, ele comenta que é mais fácil eles tocarem a campainha e perguntarem. Enquanto isso, nos fundos, James Silva (Mark Wahlberg) lidera uma equipe que vai invadir o local. Essa ação, que não resulta exatamente exitosa, terá ainda diversos desdobramentos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mile 22): Assisti à esta produção há algumas semanas já. Quem acompanha a página do blog no Facebook sabe a razão de eu não ter publicado este texto antes. Fiquei algumas semanas sem computador em casa, e aí não consegui terminar a crítica que comecei lá atrás.

Como estou com outros três filmes para falar na sequência, vou resgatar aquela intenção de um tempo atrás de falar menos das produções, beleza? Serei bem objetiva, portanto, com este Mile 22. A introdução e a conclusão deste texto já falam tudo que eu gostaria. 😉 Mile 22 entra em uma onda mais recente de análise dos movimentos de espionagem e contraespionagem que seguem válidos no mundo.

A queda de braço entre as principais potências econômicas e militares mundiais não é feita apenas no plano dos embaixadores, tratados comerciais e das reuniões de OTAN e ONU. Muito da geopolítica mundial ocorre em outro plano, com ações “embaixo do pano” envolvendo agentes de diversas siglas e com diferentes métodos. Isso não é ficção, mas o que de fato segue acontecendo no mundo enquanto escrevo estas linhas (e você as lê).

O tema espionagem já rendeu diversos filmes e séries interessantes e continuará rendendo. Como comentei antes, Homeland, para mim, é o expoente máximo desse tipo de produção. Primeiro, porque a série tem diversas camadas de leitura e se revela bastante complexa. Depois, porque tem excelentes atores em cena e uma busca por profundidade na apresentação dos personagens principais.

Feita esta introdução sobre o tema de Mile 22, vamos ao que interessa. Ao filme. 😉 Mile 22 começa bem, com um bairro comum e aparentemente “inocente” onde, na verdade, tanto os moradores de uma residência quanto o “casal” (que não é casal, na verdade) de visitantes são, na verdade, outras pessoas. Aquele início nos apresenta uma ideia interessante: o perigo pode estar morando ao lado.

Ataques terroristas nos Estados Unidos e em outros países nos mostram muito bem isso. Pessoas comuns, aparentemente, um belo dia se mostram extremistas e assassinos. Sob esta aura de medo e de incerteza é que Mile 22 se sustenta. Filmes no estilo James Bond já exploraram muito bem essa “licença para matar” que o protagonista desta produção gosta de pedir e de utilizar.

O que dá o tom para este filme é justamente aquela missão inicial. James Silva pede permissão para liquidar os inimigos, inclusive um jovem que estava ferido e desarmado. Essas ações serão determinantes para o restante da trama. A operação que a equipe faz é para achar uma certa quantidade de césio que está “perdida” e que poderá ser utilizada para um ataque em um – ou mais de um – centro urbano nos Estados Unidos.

A operação fracassa, ao menos inicialmente, no sentido de achar o césio. James Silva cobra Alice Kerr sobre qual teria sido a fonte dela de informação de que naquela casa eles encontrariam o césio. Ela disse que a fonte era segura, que se tratava de um policial que queria ajudar a desbaratar células terroristas. O tempo passa e um belo dia Li Noor (Iko Uwais) se prepara para uma missão. Ele queima a foto da filha e se concentra para começar a sua própria operação.

Li Noor dirige rapidamente até a embaixada americana na Indonésia e diz que tem o segredo da localização do césio. Essa informação está em um HD criptografado. Ele só passará a senha se os Estados Unidos lhe tirarem do país em segurança. Em seguida, o governo da Indonésia inicia uma ação de combate a essa tentativa de Li Noor receber asilo e ser tirado do país. Começa então o jogo de “gato e rato” entre os americanos e os seus inimigos.

Resumindo o filme desta maneira, não é difícil de perceber que a parte mais interessante da produção é a inicial, não é mesmo? Porque o restante, a história de “eu vou falar a senha do HD só depois que eu sair do país” e da perseguição por 22 milhas (cerca de 35 quilômetros) é bastante previsível, convenhamos. Depois daquela introdução da história, o “miolo” do filme acaba sendo os diferentes tipos de ataques e de confrontos envolvendo os indonésios e os americanos.

Em todo esse “miolo” da produção, as sequências acabam ficando um bocado repetitivas e cansativas. Quem acaba se destacando é o ator Iko Uwais que, junto com os seus dublês (acredito que ele deve ter tido alguns), protagonizou as cenas mais interessantes de lutas. Fora isso, temos a um protagonista e os seus atores “satélites” com personagens pouco desenvolvidos. E isso é tudo.

No final, descobrimos que uma pessoa pode não ser apenas agente duplo, mas agente triplo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Aparentemente, o responsável pela contra-espionagem da Indonésia, Axel (Sam Medina), tinha muito medo do que Li Noor poderia contar sobre as operações do país – o que não deixa de ser um pouco um mistério, como Li Noor poderia saber tanto sendo apenas um “policial”. Mas, quem realmente estava por trás das ações de Noor eram os russos.

Sempre são eles, não é mesmo? Até essa saída acabou sendo um tanto óbvia. Mas nesse ponto Mile 22 me fez pensar. Realmente os russos devem se achar os defensores dos interesses globais ao trabalhar para que uma única nação (os Estados Unidos) não se sobreponha sozinha na geopolítica mundial. Por um lado, eles tem razão. Não é bom que país algum se sinta dono realmente de todas as cartas e dados dispostos em uma mesa.

Assim, Mile 22 é um filme que começa bem mas que, depois, cai em um lugar-comum, em uma trama previsível e com várias sequências de tiroteio e de lutas um bocado repetitivas. Bem realizado, o filme não chega a ser um desastre, mas também está muito longe de ser lembrado como uma referência do gênero. Pode ser considerado mediano, e olha lá.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Peter Berg é um belo diretor. Faz um trabalho competente em Mile 22. Mas o que prejudica o filme mesmo é o roteiro fraquinho de Lea Carpenter, que se baseia na história de Graham Roland e dela mesma. O tema em si sempre será interessante, mas falta ao trabalho de Carpenter um pouco mais de desenvolvimento dos personagens e algumas pitadas de interesse espalhadas no meio da trama além de uma infindável perseguição e pancadaria.

Admito que gostei, em especial, de ver à atriz Lauren Cohan, mais conhecida por seu trabalho em The Walking Dead, em outro papel de protagonismo fora da série. Ela é uma boa atriz e poderá se dar bem além do seriado que ainda está no ar – e um tanto “perdido”, ao meu ver. Ela só não brilha mais no filme porque faltou para ela um roteiro melhor para trabalhar.

Além de Lauren Cohan, o destaque da produção é Iko Uwais. O ator tem o melhor papel e o melhor desempenho em cena. Está melhor que o verborrágico e um bocado confuso personagem de Mark Wahlberg – esse, apenas mediano. Também vale citar o bom trabalho – ainda que pequeno – da lutadora Ronda Rousey e de John Malkovich, ambos como parte da equipe de James Silva.

Em papéis menores e desempenhos mornos estão ainda Carlo Alban, Natasha Goubskaya, Sam Medina, Billy Smith, Emily Skeggs, entre outros que tem papel tão pouco significante que eu nem consegui localizar que ator interpreta qual papel. 😉

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a direção de fotografia de Jacques Jouffret; a edição de Melissa Lawson Cheung e de Colby Parker Jr.; a trilha sonora de Jeff Russo; o design de produção de Andrew Menzies; a direção de arte de Alex McCarroll e María Fernanda Muñoz; a decoração de set de Natalie Pope; os figurinos de Virginia Johnson; os efeitos visuais e o excelente trabalho do departamento de som – cada aspecto deste contando com dezenas de profissionais.

Mile 22 estreou no dia 16 de agosto de 2018 na Grécia, em Israel e em Cingapura. No Brasil, o filme estreou no dia 20 de setembro do mesmo ano. Em algum dia após a estreia por aqui que eu o assisti no cinema.

O final do filme dá a entender que ele poderá ter uma sequência. Durante o CinemaCon, em março de 2017, Mark Wahlberg e o diretor Peter Berg comentaram que pretendem fazer uma trilogia Mile 22. Espero que melhorem bastante o roteiro nos próximos ou que desistam da ideia.

Outra curiosidade sobre esta produção: apesar de parte da história se passar na Ásia, as cenas daquela região foram filmadas realmente na Colômbia. A razão para isso foi uma melhor segurança do elenco e da equipe técnica. Curioso, porque não faz muito tempo que filmes ambientados na Colômbia eram filmados no México pela mesma razão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 críticas negativas e 39 positivas para o filme – o que lhe dá uma aprovação de apenas 39% e uma nota média de 4,2. No site Metacritic, Mile 22 registra o “metascore” 38, fruto de 15 críticas negativas, 13 medianas e oito positivas.

Segundo o site Box Office Mojo, Mile 22 teria custado US$ 50 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 36,1 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 23,8 milhões. Ou seja, na soma, Mile 22 teria feito cerca de US$ 59,9 milhões. O resultado ruim – não pagou os custos de distribuição e divulgação – poderá fazer Berg e Wahlberg rever as continuações do filme.

Mile 22 é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, esse filme passa a integrar uma lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pediam filmes deste país.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com algumas cenas de ação – especialmente de luta – muito bem planejadas, Mile 22 só não consegue surpreender. Ok, no início, até ele consegue nos instigar com cenas rápidas e envolventes. Mas depois… caímos em uma perseguição que chega ao auge do maçante em tiroteios que parecem sem fim em um prédio residencial. Para contar o que conta, essa produção poderia ter 20 minutos a menos sem maiores problemas. Apesar de um pouco cansativo, é um filme que apresenta bons atores em personagens rasos. Você viveria sem esse filme tranquilamente mas, para um dia qualquer, pode ser um bom entretenimento. Tudo vai depender do seu gosto, evidentemente. Mas há filmes bem melhores no mercado, inclusive nesse gênero.