Poesía Sin Fin – Endless Poetry – Poesia Sem Fim

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O retrato de um artista quando jovem, um pouco de sua trajetória e do seu país com diversos altos e baixos. Poesía Sin Fin é uma obra interessante e que apresenta uma visão única de um artista sobre o seu próprio passado. Apenas alguém que olha para trás pode ver com tanta riqueza de detalhes, fantasia e autocrítica os passos que deu pelo caminho. Apresentando alguns recursos interessantes e uma e outra inspiração do teatro, Poesía Sin Fin nos apresenta um pouco mais sobre um Chile desigual, romântico e ao mesmo tempo transgressor. Realmente interessante para quem gosta do tema artes e para quem se interessa pela América Latina.

A HISTÓRIA: Um casal caminha com o filho ao lado em direção ao mar. A mãe, Sara (Pamela Flores), chora e é consolada pelo marido, Jaime (Brontis Jodorowsky). O garoto, filho deles, Alejandro (Jeremias Herskovits), anda sozinho por diferentes figuras que representam as suas lembranças. Alejandro Jodorowsky declama uma de suas poesias que fala sobre como ele dixou a sua terra, cheia de lágrimas, para trás. Ele retornou para a Rua Matucana que, hoje, está em decadência, mas que em sua época era parte de um bairro de trabalhadores.

As memórias dele nos levam para o passado, para esta época com cenários e pessoas muito diferentes. Quando uma pessoa era morta na rua com facilidade para, na sequência, ter os seus pertences roubados por garotos pobres que viviam pelas ruas. Os tempos eram complicados, e começamos a acompanhar aqueles anos no Chile sob a ótica de Alejandro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Poesía Sin Fin): Esta produção chama a atenção, logo nos primeiros minutos, pelo estilo interessante – tanto visual quanto narrativo. O que vemos em cena tem um ritmo ligeiro e interessante, pelo menos no início da produção. A visão artística do roteirista e diretor Alejandro Jodorowsky é bastante desenvolvida.

Ele mistura todas as artes para fazer este filme. Muito da dinâmica que vemos em cena é do teatro – incluindo os “ajudantes de palco”, figuras que aparecem volta e meia para pegar ou trazer objetos que serão usados pelos atores em cena. Mas há também elementos fortes de artes plásticas e uma música transversal e importante – da mãe do jovem artista, que fala cantando, até outros momentos em que a música se torna uma peça importante em cena. Também há espaço para a dança e para o circo, citados em diferentes momentos.

Desta forma, de maneira muito natural e nada forçada, Jodorowsky demonstra o seu amor profundo por todas as manifestações artísticas. Com especial apreço, é claro, para a poesia – que está presente não apenas no título da produção, mas na forma de vida que ele escolhe para si. A produção começa em um momento importante para as memórias do artista. No dia em que ele vê uma morte acontecer na porta de casa e que avança com ele descobrindo a poesia em um livro de um cidadão que é expulso da loja do pai após ele ser acusado de roubo.

No livro que ele pega da cesta do cliente expulso ele encontra o poema “Romance Sonâmbulo“, de Federico Garcia Lorca, e outras preciosidades da obra do autor. Inebriado com aquelas palavras, ele decide que se tornará também um poeta. O pai, um comerciante que concentra toda a sua atenção em ganhar dinheiro, não aceita a ideia do filho. Para ele – que simboliza a classe média chilena e, cá entre nós, de diversos outros países -, o único futuro desejável para o filho é dele estudar para ser médico (e, com isso, ganhar bastante dinheiro).

A visão de Jodorowsky sobre o próprio passado parece uma grande alegoria, com todos os seus exageros e simplificações. Assim, a família da mãe é mostrada com bastante frieza, representada por um bando de gente cruel e apegada, a exemplo do pai dele, ao dinheiro, ao passado e a um monte de regras. A mãe dele, Sara, é a única vista com um pouco mais de lirismo e “bondade”. O pai é um sovina, e o pré-adolescente Alejandro resolve, em um encontro na casa da avó, dar um basta a tudo aquilo.

Ele é expulso pela tia e acaba sendo “socorrido” pelo primo Ricardo. Ele apresenta Alejandro para as irmãs Carmen e Verônica Cereceda, amantes da arte e duas “mecenas” que incentivavam artistas e potenciais artistas daquela época. E é assim que Alejandro consegue sair de casa e viver uma vida livre, onde pode escrever à vontade e conhecer muita gente interessante que frequenta a casa das irmãs. Depois de alguns anos, já adulto, ele é incentivado pelas irmãs a procurar a sua própria musa e a conhecer outros artistas em um bar da cidade.

A partir daí o filme entra em uma viagem muito particular de Jodorowsky em busca de sua própria identidade artística e como indivíduo. Nesta procura ele encontra a poetisa Stella Díaz Varín (também interpretada por Pamela Flores), com quem perde a virgindade e com quem vive um grande amor, e outras pessoas importantes para a sua trajetória, como Enrique Lihn (Leandro Taub), que se torna um grande amigo. Interessante como o filme de Jodorowsky tem poucos personagens realmente importantes e como ele utiliza alguns atores para interpretar diferentes papéis relevantes.

Essa escolha, para mim, serve para reforçar ainda mais a “confusão” um tanto onírica da lembrança do passado do roteirista e diretor – é como se ele nos dissesse que ninguém é capaz de realmente rever a própria história sem enchê-la de fantasia e de alguma inconsistência. Quando Stella aparece em cena, ainda que esteja caracterizada de forma bastante exagerada, fiquei pensando o quanto ela se parecia com a atriz que interpretava a mãe do protagonista. Depois descobri que se tratava da mesma atriz – o que faz todo o sentido.

Ainda que a caracterização diferencie bastante as duas personagens interpretadas por Pamela Flores, faz todo o sentido – e é um bocado óbvio, também – Jodorowsky ver uma grande semelhança no primeiro amor dele e a própria mãe (Freud explica). Da minha parte, achei o começo do filme e a parte final mais interessantes do que o “recheio”. Acho que há muitos momentos da busca do artista por sua própria identidade – o que inclui todo o ir e vir da relação com Stella – que poderiam ser sintetizados e que parecem muito lugar-comum.

Nestas partes eu acho que Jodorowsky perde um pouco da inovação que ele apresenta em outros momentos da produção. O começo do filme, com aquela mudança de cenário e de tempo histórico, assim como as sequências em que ele apresenta características interessantes do Chile – destaco, neste sentido, toda a sequência do Carnaval que, guardadas as devidas proporções e diferenças históricas e de latitude, nos fazem lembrar Federico Fellini e as suas próprias revisitas ao passado – são os pontos fortes da produção.

Todos os momentos em que Jodorowsky se apresenta como um amante disposto a tudo para “conhecer” o amor e para tirar proveito dele – inclusive traindo a confiança do melhor amigo e ficando com a sua ex-companheira (ou atual, não fica claro) Pequeñita (Julia Avendaño) – me pareceram um bocado um artifício de auto-elogio. Quando o diretor sai de si mesmo e olha mais para o que lhe cerca, o filme ganha em interesse.

Apenas esta inconstância da história, que acaba tendo altos e baixos entre o artista olhar mais para dentro de si ou mais para o que lhe cercava, faz o filme não ser melhor. Mas, no geral, pela visão artística interessante de Jodorowsky e pelo seu estilo felliniano, o filme mais que se justifica. Ele merece ser visto. Ele é bem feito e nos apresenta um pouco mais de um dos países latinos dos quais deveríamos saber mais – afinal, estamos todos próximos e, guardadas as devidas proporções, compartilhamos das mesmas dores e do mesmo terror de regimes absolutistas e tiranos.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o décimo trabalho do diretor Alejandro Jodorowsky. Ele estreou na direção com o curta La Cravate, em 1957. Com 20 minutos de duração, o curta de estreia dele adaptava uma história de Thomas Mann sobre um vendedor de cabeças humanas. O primeiro longa de Jodorowsky foi lançado em 1968: Fando y Lis, uma produção que já era baseada nas memórias do chileno que nasceu em Tocopilla em 1929.

Nos primeiros de sua vida, Alejandro vivia em um Chile governado pelo militar Carlos Ibáñez del Campo. Vale lembrar que Alejandro nasceu em pleno 1929, ano da eclosão de uma grande crise econômica mundial. Ou seja, aquela pobreza e violência que vemos no começo de Poesía Sin Fin não eram exageradas – apenas apresentadas de forma alegórica. Quando o general volta ao poder, como o filme mostra (ele é interpretado por Bastián Bodenhöfer), Jodorowsky resolve deixar o Chile para trás.

Poesía Sin Fin não mostra, mas antes de Jodorowsky decidir deixar o país, em 1955, imigrando definitivamente para Paris, ele saiu da cidade natal para estudar na capital chilena, Santiago. Na produção o diretor e roteirista parece ter preferido simplificar a história sugerindo que ele ficou o tempo todo na cidade dos pais. Mas a verdade é que aos 13 anos ele se mudou para Santiago, onde trabalhou como palhaço de circo e como marionetista (um pouco disso é mostrado no filme). Em Paris ele fez parte de um coletivo de artistas que produziu diversos livros e peças de teatro. E, aqui e ali, também produziu alguns filmes e curtas. Um sujeito interessante, sem dúvida.

Quem observou o nome dos atores envolvidos nesta produção percebeu que alguns dos principais dividem o mesmo sobrenome que o diretor e roteirista da produção, correto? Pois sim. Além do próprio Alejandro Jodorowsky aparecer em cena em uma autorreferência pontual, dois filhos dele fazem papéis importantes na história: Brontis interpreta a Jaime que, na verdade, foi o avô dele na vida real; e Adan interprata ao próprio pai em sua fase adulta. Além deles, Jodorowsky teve ainda outros dois filhos: Axel e Teo. Eles não aparecem em cena.

Algo curioso nesta produção é como Jodorowsky apresenta aos “figurantes” e personagens sem importância e/ou com pouca relevância para a história. Seja as pessoas das ruas, seja as que frequentam muitos dos locais em que ele vai, todas usam máscaras e/ou estão com cabeças baixas. É como se ele demonstrasse, desta forma, que aquelas pessoas não tem importância na vida dele ao mesmo tempo que faz uma leve crítica para a “massa” que não se diferenciava e que estava apática em um Chile que ficava cada vez pior, mais extremista, preconceituosos e pouco afeito ao que era diferente. Uma crítica que segue válida para diferentes latitudes nos dias de hoje.

O diretor e roteirista faz, com Poesía Sin Fin, um grande manifesto em defesa dos artistas. Ele são mostrados sempre da melhor forma, como transgressores, pessoas que se preocupavam com a beleza e com incentivar a vida em todas as partes contra um país cada vez mais cinzento. Sem dúvida alguma ele tem uma visão apaixonada para a sua trupe. E isso fica evidente neste filme.

Poesía Sin Fin é uma produção feita para o alter ego do diretor brilhar. Desta forma, claro que os destaques de interpretação são os atores escalados para vestir a “pele” de Jodorowsky: Jeremias Herskovits e, principalmente, Adan Jodorowsky. Além deles, brilha com os seus personagens caricaturais a competente Pamela Flores. Também gostei muito do trabalho de Leandro Taub, que faz um dueto interessante com Adan Jodorowsky.

Além destes atores e dos outros já citados, vale comentar as pontas de Carolyn Carlson como Maria Lefevre, que lê o tarô para Jodorowsky; Ali Ahmad Sa’Id Esber como Andrés Racz; e Felipe Ríos como o poeta Nicanor Parra, bastante admirado pelo protagonista. Eu gostaria de citar a outros nomes que tem certa relevância nesta produção mas, infelizmente, não encontrei a relação completa dos atores que participaram deste filme. Fico devendo.

Jodorowsky dedica esta produção para o amigo Michel Seydoux, produtor de cinema francês responsável, entre outros títulos, por Cyrano de Bergerac.

Pesquisando mais sobre Jodorowsky eu soube que ele era um dos grandes ídolos de John Lennon. Em 1970, por exemplo, o filme dirigido por Jodorowsky “El Topo” chegou aos Estados Unidos por influência de Lennon e virou cult. Admito que eu não tinha, até agora, assistido a um filme dele. E desconfio que este Poesía Sin Fin seja o filme menos “viajandão” e/ou com tintes psiquiátricos/artísticos dele. Comecei bem, então. 😉 Neste artigo da Wikipédia eu encontrei mais informações sobre o diretor.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco os efeitos visuais do trio Felipe Astorga, Didier le Fouest e Vincent Perzo; a trilha sonora de Adan Jodorowsky; a direção de fotografia perfeita de Christopher Doyle; a edição de Maryline Monthieux; e os figurinos de Pascale Montandon-Jodorowsky.

Poesía Sin Fin estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme passaria por outros 20 festivais – a produção, claramente, tem um perfil muito mais de festivais ou de circuitos pequenos do que o perfil para ser exibido em vários cinemas.

Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros dois. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Narrativa segundo a escolha do público no Festival Internacional de Cinema de San Francisco.

Este é o segundo dos cinco filmes de memórias que Alejandro Jodorowsky planeja realizar. O primeiro da série foi La Danza de la Realidad, de 2013. Eu não assisti a este filme, mas agora eu acho que entendo melhor o que Jodorowsky nos apresentou inclusive em Poesía Sin Fin. No filme de 2013 ele mostrou a primeira parte da vida dele, especialmente a infância, até quando eles deixaram a cidade em que ele nasceu. O segundo filme, Poesía Sin Fin, na verdade é ambientado em Santiago, na Capital. Ah sim, daí faz mais sentido. 😉

Aliás, como o filme mesmo sugere, esta produção foi totalmente rodada em Santiago do Chile.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,2.

Este filme é uma coprodução do Chile com a França.

CONCLUSÃO: A visão de um artista é sempre diferenciada. Mais inspirada, provocadora e/ou atenta aos detalhes do que a de um “cidadão comum”. Isto fica evidente com este Poesía Sin Fin, uma ode de seu realizador para o país que ele deixou para trás e para todas as experiência que viveu por lá. Ao mesmo tempo que descobrimos pontos interessantes da vida dele e sobre o Chile, também pensamos sobre a nossa própria trajetória. A veríamos de forma tão generosa ao mesmo tempo que precisaríamos recontá-la para fazer as pazes com quem não conseguimos na vida real? Um belo filme por todos os seus detalhes e, claro, descontando as repetições e os momentos menos interessantes da revisita ao passado de Alejandro Jodorowsky.

Star Wars Episode IV: A New Hope – Star Wars – Guerra nas Estrelas – Guerra nas Estrelas Episódio IV: Uma Nova Esperança

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Personagens interessantes, atores carismáticos e um enredo recheado de ação e de pitadas de comédia e de filosofia. Star Wars Episode IV: A New Hope (conhecido no ano de lançamento apenas como Star Wars) levou os filmes de ficção científica para um novo patamar – muito mais pop do que o cinema poderia imaginar até então. Assistir ao filme 40 anos depois dele ser lançado mostra que alguns elementos dele ficaram realmente datados – mas estes elementos são muito sutis. O filme continua encantando, mesmo tanto tempo depois, e mostra que sobrevive ao passar do tempo por apresentar muitas qualidades e uma e outra cena que entrou para a história do cinema.

A HISTÓRIA: “A long time ago in a galaxy far, far away…” (Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante…”) Star Wars. Em um período de guerra civil, espaçonaves rebeldes, partindo de uma base secreta, atacam e conquistam a sua primeira vitória contra o perverso Império Galáctico. Durante a batalha, espiões rebeldes conseguem roubar os planos secretos da arma definitiva do Império, a Estrela da Morte, uma estação que é capaz de destruir um planeta inteiro.

Perseguida pelos agentes do Império, a princesa Leia (Carrie Fisher) viaja para casa protegendo os planos que podem salvar o seu povo e restaurar a liberdade na galáxia… Após esta introdução, o filme começa a contar a história da perseguição dos rebeldes, a missão dada pela princeia Leia para R2-D2 (Kenny Baker) que, acompanhado de C-3PO (Anthony Daniels), acaba caindo no planeta de Luke Skywalker (Mark Hamill). É lá que o jovem órfão irá, motivado pela mensagem da princesa Leia, procurar o antigo jedi Ben Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) e começar a sua longa aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desta produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars Episode IV): Quem tem 30 anos de idade ou mais dificilmente vai conseguir assistir a este filme sem ter diversas “emoções”. Nossas caixinhas de boas lembranças são acionadas a cada acorde da música fantástica de John Williams, especialmente na introdução clássica feita em Star Wars. Difícil não ficar arrepiado(a) ou levemente excitado(a) com aquela introdução.

A primeira vez que eu assisti a Star Wars Episode IV foi na década de 1980, quando eu era criança – ou seja, provável que eu tenha assistido em meados daquela década. Depois, devo ter assistido nos anos 1990 mais uma vez, e isso foi tudo. Quem tem 30 anos ou mais deve ter tido a mesma experiência – afinal, esta produção passava muito naquelas décadas logo após ela ter sido lançada. O filme que consagrou George Lucas virou um clássico instantâneo e uma produção difícil de ser ignorada.

Como a maioria dos clássicos do cinema, Star Wars também pode ser assistido de duas formas diferentes: fazendo um esforço para situar o filme no contexto de sua época e imaginar o impacto que a produção teve naquele momento e vendo ela com os “olhos atuais”, avaliando o quanto o filme consegue ainda ser “fresco” e/ou o quanto ele consegue provocar impacto. Nestas duas provas Star Wars Episode IV passa com louvor.

Primeiro, pensando neste filme sendo lançado há 40 anos, na segunda metade dos anos 1970. Aquela década foi muito interessante em termos artísticos, especialmente com a música e o cinema, e marcada por diversas guerras, conflitos e por uma crise do petróleo que afetou diversos países – especialmente os Estados Unidos. Ainda que a corrida espacial e armamentista encerraram durante esta década, estes eram assuntos presentes por boa parte do período. As pessoas sonhavam com o que havia além da Terra – afinal, o homem havia chegada à lua apenas oito anos antes de Star Wars ser lançado, em 1969.

Neste contexto é que o primeiro filme de Star Wars foi lançado. A produção é instigante do início ao fim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela começa com ação e com expectativa, com a invasão da nave da princesa Leia, e termina também com uma perseguição eletrizante – com o jovem Luke Skywalker sendo ajudado pela Força na hora de dar um tiro certeiro e destruir a Estrela da Morte. O ritmo desta produção, junto com algumas cenas que viraram clássicas e que foram cuidadosamente planejadas por George Lucas são algumas das grandes qualidades deste filme.

As outras são os personagens, interessantes e interpretados de forma muito carismática pelo ótimo elenco escolhido por Lucas, e as qualidades técnicas de Star Wars em uma época em que os efeitos especiais eram feitos “na unha” e sem a ajuda de computação gráfica. Neste sentido, dão um show os efeitos especiais mecânicos que permitiram as perseguições espaciais – a sequência final do filme, mesmo um tanto “tosca” segundo os critérios atuais, é de tirar o fôlego e cumpre muito bem o seu papel -, os efeitos sonoros e a trilha sonora marcante e fundamental de John Williams.

Se qualquer um destes elementos não tivesse a qualidade que têm em Star Wars, certamente o filme não seria envolvente e interessante como ele de fato é. O roteiro propriamente não é tão excepcional assim. Verdade que ele envolve bem a audiência e consegue entregar de forma cirúrgica apenas o que interessa para Lucas atrair o público para o filme seguinte da saga – e para os outros que ainda viriam. Mas se analisarmos bem o que Episode IV nos apresenta, ele tem um humor um tanto juvenil e simplório. Ele devia combinar bem para a época e para Lucas realizar os seus planos de mostrar a evolução dos personagens, mas não deixa de chamar a atenção este caráter um tanto “pueril” desta primeira história.

Luke Skywalker é um jovem órfão que não sabe praticamente nada de suas origens. Ele está louco para sair do local isolado em que ele vive com o tio Owen (Phil Brown) e a tia Beru (Shelagh Fraser) e buscar as aventuras que tanto deseja fora dali. No fim das contas e de maneira trágica ele consegue realizar este sonho. Ele se torna um herói e, nos filmes seguintes, vai descobrir a verdade sobre o próprio passado. Em Star Wars Episode IV somos apresentados a ele e a outros personagens importantes da saga.

Todos parecem um tanto juvenis nesta produção. E isso parece ter sido meticulosamente calculado por George Lucas. A escolha combinava com a época, podia fazer o filme chegar a todos os públicos (inclusive crianças e jovens) e, claro, abria margem para apresentar uma narrativa mais densa e de amadurecimento destes mesmos personagens no futuro. Na verdade, George Lucas foi muito inteligente em suas escolhas. Este filme funciona bem de forma isolada e consegue, ao mesmo tempo, atrair o interesse para que o público não resista a acompanhar a saga. Não por acaso Star Wars movimentou multidões de “seguidores” e de adeptos com o passar das décadas.

Além de tudo isso, digo que é emocionante ver a grandes atores e personagens em cena. Impossível não ficar arrepiado(a) com a cena em que Luke Skywalker sai da mesa com os tios para encarar o pôr do sol com dois sóis ou aquela em que Ben Obi-Wan Kenobi filosofa com Luke sobre a última vez em que alguém lhe chamou de Obi-Wan. Também é emocionante ver aos carismáticos R2-D2 e C-3PO em suas primeiras trocas de farpas e finas ironias caminhando para cima e para baixo. E quando o jovem Harrison Ford entra em cena? O ator é o mais carismático de todos e mostra neste filme, assim como nos demais da saga e nas produções Indiana Jones, porque é um nome inevitável na história do cinema.

Sim, Star Wars Episode IV é um filme imperdível e inevitável. Se você gosta de cinema, não tem como ignorá-lo. A boa nova sobre isso é que esta produção é fácil de assistir. A narrativa envolvente, com várias sequências de ação e com a apresentação de personagens interessantes torna a experiência fácil – diferente de outros clássicos mais densos. Com um tom um tanto juvenil, este filme também pode ser assistido por todos os públicos sem maiores problemas – outras produções da saga tem uma complexidade maior e não podemos falar delas da mesma forma. De quebra, você tem uma pequena aula de cinema na sua frente.

Ah sim, e há tudo aquilo que os fãs da saga gostam de ressaltar. A filosofia por trás da obra de George Lucas começa a ser apresentada neste filme. Bebendo de diferentes fontes históricas, da filosofia e até da religião, Lucas cria a sua própria “religião”. Há diferentes formas de interpretar o trabalho de Lucas que começa a ser apresentado neste Star Wars Episode IV.

Mas claramente ele se inspira em fatos da História, que teve vários casos de ditadura – inclusive naqueles anos 1970 – e de divisão preto versus branco (vide Guerra Fria, capitalistas versus comunistas e tantas outras disputas) assim como bebe em mitologias e religiões para tratar de uma Força (Deus ou a força “universal” que você quiser escolher) que estaria em todas as partes e que, segundo este primeiro Star Wars, emanaria de cada ser vivo e poderia ser usada para o Bem ou para o Mal.

Não é por acaso o uso das cores na produção – o negro simboliza a escolha pelo Mal feita por Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones) e o branco de Luke Skywalker representa o Bem. As roupas de Obi-Wan também lembram a dos jesuítas e mostram um certo “equilíbrio” da Força. E por aí seguem as referências. Star Wars mudou a história do cinema e da ficção científica. Muito do que vemos neste filme inaugural iriam inspirar diversas outras produções e outros tipos de produtos. Aliás, quem lembra dos primeiros jogos legais para computador vai lembrar de diversas sequências deste filme que podiam ser jogadas pelos fãs depois. Enfim, esta produção é um grande deleite, não importa sob que ótica você a analise.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, Star Wars Episode IV tem um certo tom “pueril” que representa bastante a sua época e a estratégia de chegar a todos os públicos de George Lucas. Esse tom pode ser visto no comportamento dos personagens principais da produção e também nos detalhes de todos os personagens – como nas “batalhas” atrapalhadas entre os soldados do Império e os rebeldes. Neste sentido o filme é um pouco datado, mas nada que ofusque as suas qualidades.

Os números do que George Lucas começou com esta produção impressionam. Primeiro que, segundo o site The Numbers, até hoje Star Wars Episode IV consegue ser o filme recordista em bilheteria nos Estados Unidos (se levarmos em conta a inflação desde que a produção foi lançada) com nada menos que US$ 1,42 bilhão como resultado. Star Wars Episode VII: The Force Awakens é o recorde nas bilheterias se não fizermos este reajuste da inflação – ele fez US$ 936,66 milhões apenas nos Estados Unidos. Observando as bilheterias mundiais, contudo, o sucesso da saga é menor – ela perde para Avatar, com US$ 2,02 bilhões.

Mas os números de Star Wars são superlativos também quando comparamos as principais franquias do cinema – e olhando apenas para os filmes, porque se fôssemos analisar os produtos derivados deles, os números seriam muito maiores. A saga Star Wars com 12 filmes lançados e previstos entre 1977 e 2019 contabiliza uma bilheteria ajustada pela inflação de US$ 6,35 bilhões. Este número a coloca à frente da franquia James Bond, que vem em segundo lugar com 25 filmes entre 1963 e 2015 e US$ 5,47 bilhões (corrigidos pela inflação) e dos filmes do Universo Marvel com 22 produções entre 2008 e 2019 e US$ 4,97 bilhões. Certamente a única ameaça para a saga de George Lucas é a dos filmes Marvel.

Entre os atores desta produção, o destaque vai para Harrison Ford como Han Solo; Mark Hamill como Luke Skywalker; Alec Guiness como Ben Obi-Wan Kenobi; e Carrie Fisher como a princesa Leia Organa. Sem mostrar o rosto, mas tendo uma presença marcante e “sentimental” na lembrança dos fãs, vale destacar também Peter Mayhew como Chewbacca; Kenny Baker como R2-D2 e Anthony Daniels como C-3PO. Estes são os inevitáveis. Também não dá para ignorar a presença forte, ainda que com menos destaque neste filme do que no seguinte, do Darth Vader interpretado aqui por David Prowse.

Entre os personagens que perduraram menos tempo na saga e que aparecem neste filme com certa relevância, vale destacar Peter Cushing como o Grande Moff Tarkin, comandante que tenta acabar com os rebeldes usando a Estrela da Morte; Phil Brown como o tio Owen; Shelag Fraser como a tia Beru; Jack Purvis como o chefe Jawa, que pressiona Solo; Denis Lawson como Red Two, amigo de Luke; Drewe Henley como Red Leader, que comanda o grupo que tenta acabar com a Estrela da Morte; e Angus MacInnes como Gold Leader, que comanda o outro grupo no ataque.

Da parte técnica do filme, a menção especial vai para a trilha sonora inesquecível de John Williams. Não por acaso ele se tornou um dos grandes compositores do cinema de todos os tempos. A música de Star Wars é um de seus trabalhos mais icônicos. Mas vale destacar também outros profissionais que fazem um trabalho excepcional neste filme, como o diretor de fotografia Gilbert Taylor; o design de produção de John Barry; os figurinos de John Mollo; a edição de Richard Crew, Paul Hirsch, Marcia Lucas e George Lucas; o departamento de arte que faz um trabalho fundamental em uma época sem computação gráfica e que era composto por 21 profissionais; o departamento de som, sem o qual este filme não teria a qualidade que ele tem, e que era composto por 21 profissionais; os efeitos especiais feitos por John Schoonraad, John Stears, Tony Dyson, Bob Keen, Robert Nugent e Petro Vlahos; os efeitos visuais fundamentais realizados com miniaturas e com efeitos de lentes por 80 profissionais – e mais uma equipe considerável no relançamento do filme em 1997.

Este filme foi dirigido e teve o roteiro escrito por George Lucas. Diferente do que alguns desavisados podem pensar, este foi apenas um dos quatro filmes da saga Star Wars que ele dirigiu. Além desta produção inaugural da saga, ele dirigiu apenas os Episódios I, II e II, lançados, respectivamente, em 1999, 2002 e 2005. Os filmes que seguiram ao clássico Episode IV não foram dirigidos por Lucas e sim por Irvin Kershner e por Richard Marquand, nesta sequência. Antes de se consagrar com Star Wars Episode IV, Lucas havia dirigido, essencialmente, a curtas, e aos longas THX 1138 (lançado em 1971) e American Graffiti (de 1973). Depois vieram os quatro filmes Star Wars e nada mais. Realmente um realizador de uma saga só – a mais lucrativa da História, é preciso dizer. Imagina se as ideias dele para Star Wars não dessem certo? A história de Lucas seria diferente, certamente.

Star Wars Episode IV estreou no dia 25 de maio de 1977 nos Estados Unidos. No mesmo ano o filme estreou em vários países e, em janeiro de 1978, entrou no circuito dos cinemas do Brasil. No dia 31 de janeiro de 1997, quando a produção completou 20 anos, ela foi relançada em uma versão com recursos adicionais de efeitos especiais feitos em computador nos cinemas dos Estados Unidos – e em outros países.

Este primeiro filme da saga Star Wars teria custado US$ 11 milhões. Em sua época, sem aplicar o reajuste inflacionário, a produção fez US$ 289,9 milhões apenas nos Estados Unidos – e outros US$ 410 milhões no restante do mundo. Ou seja, aquela fortuna, para os padrões da época, de US$ 11 milhões de custo, foi multiplicada nos cinemas e garantiu um belo lucro que salvou a Fox da falência – o estúdio estava mal das pernas nos anos 1970 – e que garantiu a aposentadoria de George Lucas (ou quase isso). Além disso, Star Wars foi a primeira saga a obter uma verdadeira fortuna de merchandising e de produtos derivados do filme.

Star Wars Episode IV foi rodado em cinco países. A saber: no Tikal National Park, da Guatemala (Fourth moon of Yavin); em Ajim (Mos Eisley, Tatooine), Chott el Djerid, Sidi Driss Hotel em Matmata e Sidi Bouhlel em Tozeur (Tatooine), na Tunísia; Yuma e no Death Valley National Park (Tatooine), nos Estados Unidos; Calakmul, no México; e nos estúdios Elstree e Shepperton e nos hangares Cardington Airship (base rebelde Yavin 4) na Inglaterra.

O site IMDb apresenta nada menos que 408 curiosidades sobre esta produção. Vou citar por aqui apenas algumas delas. O diretor e roteirista George Lucas estava tão certo de que Star Wars Episode IV seria um fracasso que, ao invés de assistir à estreia da produção, ele viajou para umas férias no Hawaii com o seu bom amigo Steven Spielberg. Foi nesta viagem que eles tiveram a ideia para o filme Raiders of the Lost Ark (um dos meus preferidos de todos os tempos).

Este foi o primeiro filme da História a fazer mais de US$ 300 milhões nos cinemas.

A decisão de George Lucas de receber um salário mais baixo que o normal, para a época, para dirigir Star Wars Episode IV em troca de ter todos os direitos de merchandising de Star Wars foi considerada uma decisão tola na ocasião. Mas ele não poderia ter se dado melhor na vida. Na época, contudo, esta jogada parecia bastante ousada. Afinal, até então, brinquedos baseados em filmes nunca tinham dado muito dinheiro – mas Star Wars mudou esta lógica e abriu frente para várias outras produções fazerem o mesmo.

Quando a 20th Century Fox foi distribuir Star Wars Episode IV nos Estados Unidos, menos de 40 salas de cinema toparam exibir a produção. Para forçar os cinemas a passar o filme, a Fox disse que só liberaria o blockbuster potencial The Other Side of Midnight para quem exibisse, antes, Star Wars. E foi assim que o filme de Lucas chegou ao máximo de salas possível se tornou um fenômeno das bilheterias.

A música temática de John Williams ocupa a primeira posição na na lista AFI’s 100 Years of Film Scores.

Por falar em listas, Star Wars está na lista de filmes que aparecem na obra “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer” e que norteia a minha revisão de clássicos feita aqui no blog. O texto de Joanna Berry começa assim: “Ninguém esperava que o filme do roteirista e diretor George Lucas fosse um sucesso. Em se tratando de um ‘faroeste de ficção científica’ cujo elenco principal era essencialmente desconhecido (Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher), os chefões do estúdio estavam tão convencido de que o filme iria fracassar que gentilmente cederam a Lucas, de graça, os direitos de merchandising de qualquer produto relacionado a Guerra nas Estrelas”.

E ela segue: “Obviamente, não perceberam o enorme potencial do filme e jamais esperaram que fosse gerar duas continuações, três capítulos ‘anteriores’, um derivativo baseado nos Ewoks, desenhos animados, jogos de computador, brinquedos, trilhas sonoras, livros, enormes vendas de vídeos e DVDs, doces, roupas, roupa de cama e até mesmo comida. O filme, que custou US$ 11 milhões e rendeu mais de US$ 460 milhões, não parecia ter o potencial para se tornar um enorme sucesso”.

Depois de resumir a história, Joanna Berry continua: “Guerra nas Estrelas poderia ter sido incrivelmente tolo, considerando-se que, em meados dos anos 1970, as pessoas esperavam que ‘ficção científica’ fosse algo similar aos cenários de plástico de Jornada nas Estrelas ou com efeitos como a ‘calota pendurada em um fio’ de Ed Wood em seu Plano 9 do Espaço Sideral. Mas Lucas tinhas ideias mais grandiosas. Duas décadas antes que imagens de computador fossem usadas para criar mundos fantásticos, Lucas, usando modelos ultradetalhados, truques inteligentes e locações bem escolhidas – as cenas que mostram o planeta desértico de Tatooine, onde Luke morava, foram filmadas em cenários construídos na Tunísia (reutilizadas em 1999, em Guerra nas Estrelas: Episódio I – A Ameaça Fantasma) -, conta a história de outro universo, no qual o maligno Império dominado por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones) está no controle. Mas as forças rebeldes estão se reunindo para tentar derrubar os tiranos”.

Vale seguir citando o texto de Joanna Berry – e, claro, você conferir o livro, que é excelente: “Lucas criou uma mitologia que foi abraçada com entusiasmo por pessoas de todas as idades. além de dar origem a várias criaturas de uma galáxia muito, muito distante, sua linha de narrativa do bem contra o mal nos apresentou a pessoas e objetos que, desde então, tornaram-se parte de diversos idiomas de nosso planeta: o Millennium Falcon (a nave espacial de Han Solo, que Lucas originalmente imaginou com o aspecto de um hambúrguer voador), os sabres de luz (a arma similar a uma espada, com seu som característico), os Stormtroopers imperiais e, naturalmente, os cavaleiros Jedi (hoje uma parte tão integral de nosso inconsciente coletivo que uma campanha via internet sugerindo que as pessoas respondessem ‘Jedi’ a um item sobre religião num formulário de recenseamento no Reino Unido teve enorme sucesso). Ao dar vida a Guerra nas Estrelas, Lucas conseguiu criar muito mais do ue apenas um filme: criou um mundo, um novo estilo de cinema e uma ópera espacial inesquecível que jamais foi superada”.

Ela está certíssima. Star Wars supera em muito a capacidade de um filme de encantar e de entreter.

Star Wars Episode IV ganhou 56 prêmios, incluindo seis estatuetas do Oscar. Além disso, esta produção foi indicada a outros 28 prêmios. Os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme recebeu foram de Melhor Direção de Arte-Decoração de Set, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhor Edição, Melhores Efeitos-Efeitos Especiais e Melhor Trilha Sonora Original. Ainda que tenha recebido este número significativo de estatuetas, Star Wars perdeu nas categorias principais – Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Alec Guiness, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Quem ganhou o Oscar de Melhor Filme em 1978? Annie Hall, de Woody Allen.

Esta produção de Lucas ganhou também o Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora; dois Bafta’s, de Melhor Som e o Anthony Asquith Award for Film Music para John Williams; 13 prêmios na Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films entregues em 1978 – incluindo Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, entre outros; três prêmios Grammy; nove prêmios Guiness World Record.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e sete negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota recebida pelo filme chama a atenção – muito acima de muitas outras produções. O nível de aprovação, contudo, não é tão alto.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra para a lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um clássico que segue cumprindo bem o seu papel mesmo tanto tempo depois de ter sido lançado. O filme mais rentável da história do cinema americano tem uma série de fãs e, mais que isso, de fanáticos admiradores. Mas não é por isso que eu dei a nota máxima para Star Wars Episode IV: A New Hope. Este filme merece a melhor avaliação porque ele cumpre com maestria o seu papel. Ele entretêm ao mesmo tempo que apresenta alguns dos elementos que tornariam a saga criada por George Lucas como a mais rentável de todos os tempos. Bem conduzido e com cenas que marcam a memória de qualquer um, Star Wars Episode IV revela todo o potencial do cinema quando ele é bem planejado e bem feito. Se você ainda não assistiu – o que é algo difícil -, não pense duas vezes em colocar esta sua dívida particular em dia.

Mal de Pierres – From the Land of the Moon – Um Instante de Amor

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Algumas vezes o mais difícil é deixar-se amar. Mal de Pierres nos apresenta uma história contundente que versa sobre sanidade e loucura, amar e ser amado, vigilar e cuidar, conhecer ao outro e a si mesmo. É preciso coragem para ver o mundo como se quer, mesmo que isso seja uma loucura. Mas a maior coragem de todas é ver o mundo como ele é e (apesar ou por causa disso) realmente interessar-se pelos outros que nos rodeiam. Um filme interessante, envolvente, que vai se descortinando aos poucos na nossa frente.

A HISTÓRIA: Em um carro, Gabrielle (Marion Cotillard) organiza os lenços bordados à mão. Tira algumas comidas que ela preparou e dá para o filho, Marc (Victor Quilichini), e para o marido, José Rabascal (Alex Brendemühl). Eles estão viajando pelo interior da França com destino a Lyon, onde Marc fará uma audição em um conservatório. No caminho, Gabrielle coloca uma música clássica no rádio, mas o filho diz que aquele não é o momento. Eles chegam à noite no hotel e, no dia seguinte, seguem para a audição.

No caminho, o taxista tem que parar porque um vidraceiro está entregando uma encomenda. Quando eles finalmente conseguem avançar, Gabrielle pede para eles pararem quando ela vê o nome da Rua Commines. Ela corre até um prédio e vê um sobrenome familiar entre os proprietários: Sr. Sauvage. A partir daí conhecemos a história desta mulher e o porquê dela ter se emocionado tanto por ter encontrado aquele nome no prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mal de Pierres): Gosto de filmes que vão se apresentando aos poucos depois de nos fisgarem com uma isca certeira. Isso acontece com Mal de Pierres. Esta produção inicia a sua jornada nos mostrando uma Gabrielle aparentemente controlada, uma mãe e esposa atenciosa, “normal”, que apenas tem um rompante ao ver ao nome de uma rua que lhe é familiar. Na sequência, como tantos outros filmes, a história volta para o passado para contar mais sobre Gabrielle e sobre as razões da Rua Commines mexer daquela forma com ela.

A partir daí o filme percorre uma narrativa linear. Ainda que esta forma de tratar uma história seja bem conhecida, a forma com que o roteiro de Nicole Garcia e Jacques Fieschi, que tiveram a colaboração de Natalie Carter, é construído, como se fosse cheio de camadas que vão sendo apresentadas aos poucos, faz o espectador ficar interessado por cada nova “fase” da história.

Retomamos a história de Gabrielle em um momento específico. Como o filme começa mostrando ela com marido e filho, Mal de Pierres começa justamente na fase um pouco anterior a ela ficar comprometida com José Rabascal. Daí percebemos que ela não era “muito certa”, ao menos para os padrões da comunidade em que ela vivia e segundo a ótica da família dela. E aí o filme abre uma frente interessante sobre o que é ser “certo” ou ser “errado”.

A volta para o passado nos mostra como Gabrielle era fascinada, obcecada, possivelmente até o ponto do descontrole, pelo professor Jean Claude Tauran (Arthur Igual), que era casado e que tinha uma mulher grávida. Jean Claude não dá bola para os “delírios” apaixonados de Gabrielle, e ela sofre com a rejeição. Claramente a garota tem um desejo sexual considerável, com muitas fantasias eróticas e uma vontade enorme de se jogar em um amor romântico que lhe satisfaça todos os seus desejos e fantasias.

Preocupada com a filha, Adèle (Brigitte Roüan) percebe o olhar interessado de José Rabascal para Gabrielle e corre para tentar “arranjar” que os dois fiquem juntos. Rabascal diz que não tem nada – posses ou recursos – para oferecer por Gabrielle ou para dar segurança para os dois, mas Adèle diz que ele tem uma profissão (ele é pedreiro) e que isso será o suficiente para a nova família dar certo. Adèle também afirma que, diferente do que outros comentam, Gabrielle não é louca.

Bem, conforme a história vai se desenrolando, fica a critério do público “medir” o quanto ela é louca ou não. Mal de Pierres acaba questionando a nossa noção de loucura. Afinal, o que é ser louco? Claro que Gabrielle não tem um comportamento “usual”. Ela tem muitos rompantes e parece só fazer o que lhe dá na telha. Isso surpreende e choca as pessoas, como hoje em dia muitos se sentem incomodados com quem pensa diferente.

A verdade é que Gabrielle é uma garota cheia de desejos e que não costuma se deixar levar pelo que os outros querem ou exigem dela. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela até se “deixa” casar com Rabascal, mas afirma que não vai ter relações com ele. De fato eles se casam desta forma e ficam nesta situação por muito tempo. Com isso, descobrimos muito sobre Rabascal. Outro homem teria agido de forma muito pior e radical, mas ele realmente gosta de Gabrielle e sabe respeitar a postura e a posição da mulher.

Gabrielle acaba cedendo, após um longo período, e abre espaço para ter relações com o marido. Mas ela deixa claro que não gosta dele, de verdade, e parece resistir o quanto pode para gostar dele. Quando finalmente é diagnosticada da forma correta – ela tem pedra nos rins, o “mal de pierres” do título -, Gabrielle é internada para receber um tratamento que vai livrá-la daquele sofrimento. Afinal, Rabascal quer um filho, e para que uma gravidez consiga chegar ao fim, Gabrielle precisa tratar o “mal de pierres”.

Inicialmente a protagonista resiste – parece que ela tem medo de enfrentar qualquer mudança em sua vida. Gabrielle está acostumada a sofrer, a ter aquelas crises horríveis de muita dor. Pensar em acabar com aquilo e de ter mais uma grande mudança na vida, que seria ter um filho, a aterroriza. O marido, diferente da família dela, que sempre achou que aquelas dores fossem “fantasias” da garota, não tem dúvidas de que ela deve ser tratada. Desta forma Gabrielle vai para um local remoto onde fica por seis semanas e onde conhece o seu novo “amor”, o tenente André Sauvage (Louis Garrel).

Enquanto está no tratamento, Gabrielle faz amizade com Agostine (Aloïse Sauvage) e perambula por todos os lugares interessada por tudo e por todos. Nestas andanças, contudo, ela fica fascinada mesmo por Sauvage. Como aconteceu com Jean Claude, ela fica fascinada pelo intelecto e pelos conhecimentos de Sauvage. Se apaixona e fantasia um grande amor com ele apenas porque vive de “amor romântico”, aquele tipo de encanto que foge do realismo/da realidade. Não interessa para Gabrielle realmente como são as pessoas pelas quais ela está apaixonada. Ela fantasia e cria em sua cabeça os amores perfeitos que ela imagina que a vão levar de sua vida “medíocre” para uma realidade de êxtase constante.

Realmente alguém que vive deste tipo de amor pode ficar louco(a). Isso acontece com Gabrielle, até que ela tem que se “conformar” com Rabascal quando Sauvage não lhe responde a nenhuma de suas cartas. A partir do nascimento do filho, Marc (interpretado por Ange Black-Bereyziat e por Victor Quilichini), e da vida com Rabascal, Gabrielle parece começar a ter mais contato com a realidade, deixa de fantasiar amores impossíveis e, finalmente, se sente um pouco realizada e aparenta maior normalidade. Ela passa a amar e deixa, um pouco ao menos, que a amem.

Até aí, o filme parece um bocado “normal”, com uma narrativa bem conduzida e ótimas atuações. Mas aí a diretora Nicole Garcia nos presenteia com uma reviravolta interessante perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Gabrielle descobre, assim como quem assiste à sua história, de que não houve nenhum grande romance entre ela e Sauvage. Realmente quando ele é levado da clínica onde eles se conheceram, ele não retorna mais. O grande arrebatamento entre os dois faz parte apenas das fantasias de uma Gabrielle que tem dificuldade de viver o amor real e que precisava, no fundo, de um tratamento psicológico além do que buscava a livrar das pedras nos rins.

Bem na reta final da produção Gabrielle descobre toda a verdade e, finalmente, consegue olhar com atenção para Rabascal. Ele sempre a amou e aceitou todos os delírios e inconstâncias da mulher enquanto ela não lhe dava amor porque ele não era um “intelectual”. Rabascal era um espanhol que fugiu de seu país por causa da guerra. Era um sujeito simples, trabalhador, muito diferente do ideal de romance de Gabrielle. Mas no final ela aprende a admirar o marido, a olhar para ele sem fantasias, mas com carinho e amor. Ela finalmente deixa ele a amar de verdade e, consequentemente, consegue entregar para ele o seu amor. Um belo final para um filme com algumas camadas muito interessantes.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta não é uma produção brilhante. Daquelas que quando nos pedem uma indicação de um grande filme, o nome da produção logo nos vem à mente. Mas desta última safra de filmes em cartaz nos cinemas, sem dúvida, Mal de Pierres é um dos títulos que vale conferir e indicar. Especialmente se você gosta de produções sobre o gênero humano e as relações entre pessoas e sociedade. Porque esta produção fala de amor, de expectativas, de aceitação e de autodescoberta. Uma produção simples, mas muito honesta e sensível. Vale conferir.

Além de um roteiro bem construído, baseado na obra de Milena Agus, Mal de Pierres tem uma direção cuidadosa e bem planejada de Nicole Garcia. Ela consegue valorizar as ótimas interpretações de seu elenco, especialmente de Marion Cotillard, ao mesmo tempo em que valoriza as belíssimas paisagens francesas e os entornos onde Gabrielle cresceu e onde foi viver após casar com Rabascal. Com olhar atento aos detalhes, Nicole Garcia nos apresenta um filme interessante e que tem diversos grandes momentos de construção dramática que fisga o espectador e o mantém atento o tempo todo.

Marion Cotillard… o que dizer sobre ela? Sempre gostei da atriz. Para mim, é uma das grandes de sua geração na França. Neste filme ela mostrar todo o seu talento com uma personagem que lhe ajuda a dar um show. Gabrielle tem diversos rompantes, caprichos e uma mudança durante a história realmente interessante. Elementos perfeitos para uma grande atriz como Marion Cotillard dar um show. Sem dúvida alguma este é um de seus grandes trabalhos. A atriz se entregou à personagem como poucas conseguiriam e isso faz o filme ter a verdade que ele tem.

Além de Marion Cotillard, que é, de longe, o grande destaque da produção, vale também comentar alguns outros trabalhos muito, muito bons. Junto com Marion, o destaque desta produção é Alex Brendemühl. O personagem dele é do tipo “quieto”, mas ele tem uma presença marcante em cena. Passa, a exemplo de Cotillard, muita verdade em cada gesto e em cada palavra que fala. Além dele, vale comentar o bom trabalho de Louis Garrel como André Sauvage; de Brigitte Roüan como a mãe de Gabrielle; e de Aloïse Sauvage como Agostine, uma das funcionárias do spa e que se torna amiga de Gabrielle.

Outros atores que tem um certo destaque nesta produção, apesar do trabalho deles realmente não ser de grande destaque, são Victorie Du Bois como Jeannine, irmã de Gabrielle; Daniel Para como Martin, pai de Gabrielle e de Jeannine; Ange Black-Bereyziat e Victor Quilichini como os filhos de Gabrielle aos sete e aos 14 anos, respectivamente; e Arthur Igual como o professor Jean Claude.

O filme tem uma série de qualidades técnicas. Para começar, a excelente e linda direção de fotografia de Christophe Beaucarne. Depois, a marcante e bastante expressiva trilha sonora clássica de Daniel Pemberton. Também vale comentar a boa edição de Simon Jacquet; o design de produção de Arnaud de Moleron; a direção de arte de Sandrine Jarron; a decoração de set de Cécile Deleu; e os figurinos de Catherine Leterrier.

Mal de Pierres estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros sete festivais em diversos países. Nesta trajetória a produção acumulou 13 indicações a prêmios, mas não conseguiu emplacar em nenhum lugar.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Mal de Pierres foi aplaudido durante sete minutos no final de sua exibição no Festival de Cannes. Realmente, o filme impressiona. Por todas as suas qualidades e por sua proposta interessante de discussão de diversos temas.

Como eu comentei antes, o título original em francês, “Mal de Pierres”, teria uma tradução simples de “mal das pedras”. Ele faz referência às “pedras nos rins” que é a doença que a protagonista da produção tem. Já o título que o filme recebeu nos Estados Unidos, “From the Land of the Moon”, que traduzindo de forma simples significa “vinda do mundo da lua”, é inspirado em um trecho do romance que inspirou esta produção e que afirma que “durante toda a vida tinham dito dela que ela era como alguém vindo do mundo da lua” – referindo-se à Gabrielle.

No romance que inspirou este filme, aliás, a história se desenvolve toda na Sardenha, região conhecida da Itália. No filme, contudo, grande parte da produção se passa na cidade costeira francesa de La Ciotat, em Provence e em Lyon, ambos na França, e nos Alpes suíços (parte do tratamento da protagonista). Interessante saber que a história original se passa na Itália e não na França porque realmente existem muitos trechos que nos remetem muito à Itália. Um exemplo é o casamento de Gabrielle e José Rabascal.

Esta produção marca a volta de Marion Cotillard para o cinema francês após quatro anos – o primeiro filme dela feito na França após De Rouille et D’Os.

Nicole Garcia tem uma longa carreira como atriz, com nada menos que 84 trabalhos no currículo, mas nos últimos 30 anos ela uma vez ou outra se aventura na direção também. O trabalho dela de estreia nesta função foi com o curta 15 Août, em 1986. O primeiro longa veio em 1990, Un Week-End Sur Deux. Desde 2002 ela teve três longas indicados à Palma de Ouro em Cannes, mas nunca ganhou o prêmio – ao menos até agora. Os prêmios que ela recebeu, até o momento, foram todos como atriz.

Mal de Pierres foi rodado na cidade suíça de Davos; nas cidades francesas de Lyon, Provence-Alpes-Côte d’Azur, Valensole, Puimoisson, Brunet, Céreste, Aix-les-Bains, Moustiers-Sainte-Marie, La Ciotat, Lourmarin e Paris; e na cidade de Villaluenga del Rosario, em Cádiz, na Espanha (cena final). Um filme bem “viajado”, pois. 😉

Este filme é uma coprodução da França, da Bélgica e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e apenas oito positivas para o filme, fazendo com que Mal de Pierres tivesse um nível de aprovação de apenas 30%. A nota média dada para a produção segundo o Rotten Tomatoes foi de 4,5. Normalmente eu não assisto a um filme que receba nota tão baixa deste site, mas admito que eu quis assistir a Mal de Pierres por causa de Marion Cotillard. E não me arrependo.

CONCLUSÃO: Um grande trabalho da atriz Marion Cotillard. Me arrisco a dizer que este é um de seus melhores trabalhos. A atriz vive com muita vontade e esmero uma personagem complexa e interessante. Mal de Pierres é um filme que nos mostra, com uma narrativa muito bem pensada, como todos tem o direito de amar e de ser amados. Mesmo aqueles que são considerados “incapazes” de fazer isso – ou, na maioria das vezes, aqueles que são incompreendidos. Com um roteiro envolvente e que sabe surpreender no momento mais adequado, Mal de Pierres se revela uma bela surpresa. Vale conferir pelo roteiro, por Marion Cotillard e pelo seu interessante parceiro de cena, o ator Alex Brendemühl.

Rester Vertical – Staying Vertical – Na Vertical

 

 

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Eis um filme “muitcho dôido!”. Não que ele seja do tipo psicodélico, mas certamente Rester Vertical foi gerado em uma das seguintes situações: ou o diretor/roteirista estava em uma grande “viagem” regada a drogas ou álcool quando escreveu esta história ou ele vivia uma grande crise de criatividade. Digo isso porque o filme se debruça na vida de um roteirista que não consegue escrever e, para o passar o tempo, resolve dar em cima, fazer sexo ou flertar com quem aparece pela frente. Basicamente isso. No final, você se pergunta qual é a razão mesmo da história. E, aparentemente, ela não tem razão alguma. Ainda que o realizador diga que o sentido dela é realmente mexer com os rótulos. Neste sentido, até pode fazer algum sentido – se nos esforçarmos para achá-lo.

A HISTÓRIA: Em uma estrada estreita cercada de verde, no início de uma reta um jovem rapaz chama a atenção de Léo (Damien Bonnard). Em seguida, ele vê um velho sentado em uma cadeira. Na entrada da casa do velho, Léo dá a volta e retorna com o veículo para falar com Yoan (Basile Meilleurat). Ele pergunta se o jovem nunca pensou em fazer cinema. Yoan diz que não, e Léo insiste se ele não gostaria de fazer uma audição. O rapaz corta o papo e vai andando em direção à casa. O velho, Marcel (Christian Bouillette), cumprimenta Léo quando ele passa. Léo caminha pelos campos olhando por todas as partes. Em certo momento, ele encontra um rebanho de ovelhas e a pastora Marie (India Hair). Eles ficam juntos naquele dia e Léo conhece a família de Marie. A partir deste dia, Léo começa a migrar do interior para a cidade e vice-versa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rester Vertical): Um filme que é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista. Afinal, quem não gostaria de ficar perambulando pelo belo interior da França e volta e meia ir para a cidade ganhando dinheiro pela promessa de um trabalho que realmente não está sendo feito? Parece fácil, não é mesmo? De quebra, entre uma ida e outra vinda, o tal roteirista ainda pode ser considerado a “última bolacha do pacote” já que é praticamente desejado por todos que ele encontra no caminho – especialmente no interior.

Mas antes de falar sobre o que este filme realmente aborda – ou tenta tratar -, vamos falar um pouco sobre o começo de Rester Vertical. Não sei vocês, mas no início eu achei que o protagonista era um produtor e/ou diretor de cinema que estava em busca de novos lugares para filmar e de novos rostos/talentos para aparecer em cena em um filme qualquer. Seria interessante se fosse algo assim, porque seria possível para o diretor e roteirista Alain Guiraudie explorar um pouco mais o “fazer cinema”. Mas não.

O protagonista de Rester Vertical é um roteirista em “crise” – não sabemos o quanto esta crise é existencial ou de talento mesmo – que acaba revisitando o interior francês do qual ele tanto gosta. No início, ele parece interessado em absolutamente tudo. Parece sedento por qualquer tipo de inspiração. Algo interessante neste filme é que ele começa e termina com uma mesma “busca” do tal roteirista/protagonista. Ele quer encontrar um lobo de frente.

Esse lobo pode simbolizar muitas coisas. Para começar, os próprios medos de Léo. Depois, a necessidade dele de se manter sempre “ereto”, corajoso, capaz de enfrentar os próprios medos e o perigo que pode lhe cercar. É como se ele encarasse o perigo de frente e resolvesse vencê-lo com a sua própria bravura e sem mais recursos. O problema é que Léo tem uma visão romântica do lobo, assim como parece ter da própria vida. Sem uma entrega decente há algum tempo, sem posses, ele acha que pode apenas com a “cara e coragem” cuidar de uma criança e de si próprio.

Quando conhece Marie e ela lhe pergunta sobre a casa dele, Léo afirma que não tem casa e que vive entre hotéis e casa de amigos e conhecidos. Para quem tem uma boa conta bancária isso pode não ser problema. Mas não é o caso de Léo. Curioso que no filme inteiro nós não ficamos sabendo de nenhum amigo do roteirista. A única pessoa com quem ele fala, além daquelas do interior que ele fica conhecendo a partir do começo do filme, é o produtor que está esperando o tal roteiro que ele deveria estar escrevendo.

Além dele, que aparece lá pelas tantas no filme (interpretado por Sébastien Novac), vemos apenas a uma terapeuta, doutora Mirande (Laure Calamy). Todas as outras pessoas do entorno de Léo são aquelas que ele conhece no interior da França. Então cadê os tais amigos e conhecidos dele que o ajudam quando ele precisa? Parece que eles não existem. Léo parece ter uma visão romântica e/ou idealizada dos lobos da mesma forma com que ele tem esse tipo de visão da vida mesma. Ele acha que tudo vai se resolver por inércia e que basta ele insistir em cuidar do próprio filho – não importando se ele tem ou não condições práticas para isso.

Boa parte da história de Léo e de suas interações são meio “sem sentido”. Ele chega nas pessoas sempre com uma expressão de real interesse mas, ao mesmo tempo, ele não parece conseguir realmente se relacionar com ninguém em profundidade. Na primeira investida dele com Yoan achamos que ele estava dando uma cantada no garoto. Na sequência, ele logo fica com Marie. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ele mostra um grande interesse por um morador de rua da cidade (interpretado por Tangi Belbeoc’h) e por Marcel. Ficamos nos perguntando se ele tem realmente interesse por todos que encontra, de forma despretensiosa, por ser boa gente e atencioso, ou se ele tem segundas intenções.

Talvez um dos sentidos do personagem do Léo nesta história seja nos perguntarmos realmente sobre isso. O quanto o nosso senso de autopreservação e de certa desconfiança das pessoas afeta o nosso olhar sobre elas? Yoan não tem dúvidas de que está recebendo uma cantada de Léo e, por isso, o rechaça do início ao fim. Marcel acredita que Léo tem uma inclinação homossexual e que deseja mais do que uma simples amizade. Lá pelas tantas, o quase sogro de Léo, Jean-Louis (Raphaël Thiéry), dá em cima do roteirista sem rodeios. Léo não cede à investida, não porque ele não queira, mas porque ele não se imagina transando com o avô do filho dele – pelo menos é desta forma com que ele se justifica.

Até pela cena final entre Léo e Marcel concluímos que o roteirista é bissexual. Quando fala do filho, em certo momento, ele comenta que até gosta do fato de Marie não gostar da criança – afinal, ele poderá cuidar do filho sozinho e sem o “inconveniente” de uma mulher. Parece que ele não é tão chegada em mulheres assim. Rester Vertical sugere que ele gosta mais da companhia de homens – de qualquer idade.

Algo que eu achei incrível nesta produção é como Léo faz as vezes do “super” homem sexual. Ele parece exalar sexualidade enquanto caminha. Afinal, ou ele transa com quem aparece pelo caminho (Marie e Marcel), ou dá em cima da pessoa (Yoan e, dependendo da leitura, do morador de rua) ou recebe cantadas dela (Jean-Louis). Para mim, pareceu uma grande desculpa de Alain Guiraudie para mostrar corpos nus, genitálias em close – eu nunca me imaginei vendo um parto natural, e fui obrigada a assistir a cena nesta produção – e uma ou outra cena de sexo.

O personagem de Léo é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista – que queira, evidentemente, ser visto como um objeto constante de desejo. Para mim, Rester Vertical é uma grande “viagem” de um realizador que quer mostrar as suas próprias desventuras e/ou fantasias. Pouco além disso. Só não dei uma nota mais baixa para a produção porque, para mim, dá para tirar dela algumas pequenas leituras interessantes. Para começar, ela quebra alguns preconceitos. Os dois mais evidentes são de que nem toda mulher precisa querer ter três filhos e ser louca por eles – vide a falta de apego de Marie pelos filhos, especialmente o recém-nascido – e de que um homem pode sim, se tiver as habilidades e o interesse, cuidar sozinho de seu próprio filho.

Acho que muitas mulheres não querem ter filhos e, como Marie, se sentem “estranhas” – para dizer o mínimo – quando acabam fazendo o que parte da sociedade acha correto (conhecer um homem e ter um filho com ele). O resultado que vemos por aí, inclusive fora das telas do cinema, é que muitas mulheres não se sentem realmente amorosas ou realizadas com os filhos que tiveram para satisfazer a outras prerrogativas que não o próprio desejo sincero delas mesmas. Depois, achei interessante que Léo tinha um “espírito” de paizão, apesar de fugir deste estereótipo, e que ele faz questão de encarar o desafio de cuidar sozinho do filho que teve com Marie. Alguns homens são perfeitamente capazes de fazer isso.

O final do filme também me pareceu interessante. Digamos que “redimiu” um pouco do recheio “viajandão” da produção. Se pensarmos no final casado com o início da produção e com a “postura” de Léo com a vida, faz todo o sentido. Uma das mensagens que podemos tirar de Rester Vertical é que é preciso encarar os nossos “lobos” internos/externos com altivez, com a cabeça erguida e com coragem, sem demonstrar medo.

É como a própria história da humanidade, que venceu os seus predadores/inimigos com esta mesma postura. Sim, é preciso ter altivez para encarar todos os perigos, mas nunca podemos esquecer que, às vezes, esse perigo anda em matilha. Léo vive em uma fantasia quando acredita que basta se manter “ereto” para encarar não apenas um, mas vários lobos. Ele está perdido, e logo vai descobrir sobre isso. Para sobrevivermos, precisamos mais do que altivez e coragem. É necessário inteligência para conhecer o perigo e os inimigos, humildade para conhecer os seus próprios limites e estratégia para resolver os conflitos da melhor forma possível. O protagonista desta produção, infelizmente, sabe pouco sobre tudo isso.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Existe uma mensagem curiosa neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Uma possibilidade de leitura do que Alain Guiraudie nos apresenta é aquela velha história de que “todos são gays ou, se ainda não são, um dia vão descobrir que podem vir a ser”. Pelo menos é isso o que parece estar sugerido nos comportamentos de Yoan, Jean-Louis e Marcel. Os dois últimos foram casados, o primeiro teve uma filha, mas ambos acabam buscando Léo como parceiro sexual.

Yoan não cede às cantadas do roteirista, mas Marcel vive o chamando de “bichinha” e dizendo que ele foi atrás de “paus maiores”. Ainda que ele se relacione com Marie no final, ficamos em dúvida realmente se Yoan era, a exemplo de Léo, bissexual ou não – e mesmo Léo, ao invés de ser bi, poderia ser um homossexual que resolve “encarar” Marie para ter um filho, apenas. Acho sim que muitas pessoas são homossexuais ou bissexuais – e verdade que várias delas “escondem” isso -, mas a generalização de Rester Vertical me pareceu, a exemplo do protagonista, um tanto “romântica” e/ou inocente demais. Um tanto pueril. O mundo tem mais matizes do que apenas estas cores e há sim muita gente que não tem toda esta “inclinação” de “experimentar” em algum momento da vida. Nem todos encarariam o “Léo última bolacha do pacote”.

Para o meu gosto, o roteiro de Rester Vertical é o ponto fraco da produção. O início e o fim me pareceram mais interessante que o miolo. Parece que, a exemplo do personagem de Léo, Alain Guiraudie também passou por uma “crise criativa” e não sabia muito bem o que fazer com a história. Acho que a história de Rester Vertical derrapa aqui e ali até engrenar perto do final. A direção de Guiraudie também me pareceu regular, procurando valorizar o trabalho dos atores, mas com alguma sequências um tanto desleixadas – como quando Léo caminha pelos campos ou em algumas sequências nos veículos que aparecem em cena.

Entre os atores em cena, o destaque vai mesmo para Damien Bonnard. Ele faz um bom trabalho dentro do perfil que foi construído para o personagem dele. Convence com o seu olhar atencioso e sensível. Uma bela interpretação. Os outros atores em cena me pareceram em um nível um pouco inferior. Alguns, um tanto amadores. Os que tem destaque na produção “giram em torno” de Léo, com maior importância para India Hair, Christian Bouillette, Raphaël Thiéry e Basile Meilleurat – nesta ordem de relevância. Fora Damien Bonnard, nenhum grande destaque – talvez para Christian Bouillette.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a direção de fotografia de Claire Mathon, que sabe valorizar bem o interior francês; a edição de Jean-Christophe Hym; e o design de produção de Toma Baqueni.

Rester Vertical estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros 22 festivais em diferentes países. Nesta trajetória, a produção conquistou quatro prêmios e foi indicada a outros oito. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme dado no International Cinephile Society Awards; de Ator Mais Promissor para Damien Bonnard no Prêmio Lumiere; Melhor Filme Não-USA no Online Film Critics Society Awards; e Melhor Diretor para Alain Guiraudie no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Esta produção, 100% francesa, foi totalmente rodada na França. Entre os locais das filmagens estão Marais Poitevin, Brest, Causse Méjean, Sévérac-le-Château e Coulon. Cito as cidades caso alguém queira fazer um tour pelo interior francês. 😉

Procurei saber mais sobre Alain Guiraudie já que este filme me pareceu realmente diferenciado. Podemos gostar ou não do que vemos em cena, mas algo é inegável: o diretor tem estilo. Procurando, encontrei este texto interessante de Eric Kohn, da IndieWire. Kohn comenta como, em quase 30 anos, Guiraudie desenvolveu uma filmografia “ousada e transgressora” sobre as dificuldades para a definição da identidade sexual moderna. Apesar deste tempo todo de desenvolvimento desta linha de cinema, Guiraudie recebeu mais atenção quando ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes pelo filme Stranger by the Lake.

Na avaliação de Kohn, com toda a visibilidade que teve por causa de Stranger by the Lake, Guiraudie poderia ter feito um filme mais “mainstream” na sequência mas, ao invés disso, ele apresentou uma produção ainda mais audacioso – se referindo a Rester Vertical. No texto da IndieWire é citado que Guiraudie quis fazer com Rester Vertical uma mistura de “David Lynch com Luis Buñuel” – ele não é nada modesto, não? Sobre o personagem de Léo, o diretor afirma que foi proposital a ambiguidade da definição dele na história: “Você realmente não sabe se Léo é homossexual, bissexual ou heterossexual”. Guiraudie comenta que um rótulo ou outro não se aplica ao personagem em Rester Vertical – diferente dos personagens gays de Stranger by the Lake.

Guiraudie afirma que gosta de jogar com a realidade misturada com o sonho – pensando desta forma, fica um pouco mais fácil entender as “viagens” de Rester Vertical. O diretor também comentou que vê o seu futuro na “comédia de humor negro”. Apesar do meu primeiro contato com o trabalho dele não ter sido altamente satisfatório, acho que vale acompanhar o diretor em suas próximas peripécias. Afinal, fazer algo que desagrade a vários, mas com um pouco de talento, sempre pode valer a experiência. Vejamos o que virá por aí na sequência.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e 12 negativas para Rester Vertical – o que lhe dá uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,1. Minha avaliação coincide um pouco com ambos – inicialmente eu dei 6 para o filme e, depois de avaliá-lo melhor, cheguei ao 6,5. Realmente é por aí.

CONCLUSÃO: Um filme meio que sem pé e sem cabeça. Rester Vertical parece uma grande desculpa para o diretor e roteirista Alain Guiraudie mostrar corpos nus, genitálias e uma e outra cena de sexo. No mais, temos algumas cenas bucólicas do interior, cenas esparsas na cidade e diversas sequências aparentemente sem sentido aqui e ali. O protagonista desta produção parece um cara sensível, atencioso, mas na verdade ele está um bocado perdido. Assim como o filme. Para o meu gosto, Rester Vertical é um filme um tanto pretensioso, um tanto esquisito. Preferia ter apostado as fichas em outro filme.

Frantz

 

frantz

Os efeitos da guerra são devastadores. Individualmente e para o coletivo de pessoas que vivem nos países que entraram em conflito. Frantz nos mostra isso com muita propriedade, precisão e sensibilidade. Com uma fotografia belíssima, uma direção atenta aos detalhes e um par de atores muito bons, esta produção nos remete para uma época em que diversas pessoas tiveram que se reinventar para encontrar, em alguma parte, as razões para seguir vivendo após sofrerem perdas irreparáveis.

A HISTÓRIA: Em 1919, na cidade alemã de Quedlinburg, Anna (Paula Beer) caminha pelas ruas até comprar na feira local algumas flores brancas. As crianças correm e brincam enquanto os adultos cuidam de seus afazeres. No caminho para o cemitério, Anna para em frente a uma loja e vê um dos novos vestidos. Quando chega no túmulo de Frantz (Anton von Lucke), ela nota que ali foram deixadas algumas rosas brancas.

Ela pergunta para o administrador do cemitério sobre quem deixou aquelas flores, e ele diz que um “estrangeiro”. Ela pergunta quem, e ele mostra para ela uma moeda francesa. Quando retorna para a casa do noivo morto na guerra, a mãe dele, Magda (Marie Gruber), comenta que o francês que deixou as flores deve ser algum amigo de Frantz da época anterior à guerra. O estrangeiro em breve vai fazer contato com os Hoffmeister e mudar a rotina deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frantz): O primeiro destaque deste filme quando começamos a assisti-lo é a direção de fotografia de Pascal Marti. Muitas cenas que vemos em preto e branco são verdadeiras obras de arte. Frantz tem em seu visual realmente um grande diferencial. Mas todos nós sabemos que não basta uma bela direção de fotografia ou, em outro tipo de filme, impecáveis efeitos especiais ou visuais para termos um filme acima da média.

Verdade que a beleza de Frantz é o seu ponto forte. Mas o roteiro, apesar de um tanto “novelesco”, não deixa a desejar. Novamente percebemos um trabalho de grande sutileza e sensibilidade. O mérito é do diretor François Ozon, que escreveu o roteiro ao lado de Philippe Piazzo – os dois se inspiraram no roteiro do filme Broken Lullaby que, por sua vez, teve roteiro de Ernst Lubitsch, Reginald Berkeley, Samson Raphaelson e Ernest Vajda, e inspirado na peça de Maurice Rostand.

Não assisti ao filme original do diretor Ernst Lubitsch, que foi lançado em 1932, mas ao ver as fotos da produção, me parece que Frantz segue com bastante fidelidade a história daquela produção. A essência da história de Frantz é sobre as diferentes posturas dos homens – e podemos dizer que da humanidade – frente a um conflito que pode significar a morte de um semelhante.

Enquanto o protagonista desta história faz parte do grupo de homens que matam para se “defender” – ou simplesmente porque este ato faz “parte do jogo” de uma guerra e é o comportamento esperado em uma situação como aquela -, o personagem “ausente” (mas, na prática, bastante presente e, por isso, praticamente um protagonista também) faz parte do outro grupo, cada vez mais raro, de pacifistas que se recusam a matar, mesmo em uma guerra. Neste sentido, o Frantz que move os personagens desta produção me fez lembrar o Desmond Doss de Hacksaw Ridge (filme excelente comentado por aqui no blog).

Interessante pensar que o personagem ausente é o que move todos os demais “presentes” que vemos em cena. Frantz morreu, mas está em todas as partes. É o sentimento por ele que ocupa todos os pensamentos e os sentimentos de Anna e dos pais do jovem alemão morto em guerra, o doutor Hans (Ernst Stötzner) e a esposa Magda. Anna segue vivendo, apesar de esbanjar uma dor profunda pela perda, muito por causa do carinho que ela tem pelos pais de Frantz. E eles, por sua conta, seguem vivendo também penalizados pela ausência.

O outro personagem importante desta história, o francês Adrien Rivoire (Pierre Niney) também não consegue esquecer Frantz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, não sabemos exatamente qual é a história por trás deste sentimento um tanto obcecado de Adrien por Frantz. Pelas reações dele no início desta produção, a primeira ideia que me veio à cabeça é que ele teria tido um romance com Frantz quando o alemão foi estudar em Paris. Apesar de algumas sugestões neste sentido – as flores no túmulo, o choro franco e uma grande sensibilidade em relação à perda de Frantz -, aos poucos vamos nos questionando também se ele não poderia ter sido o algoz do jovem rapaz.

As duas possibilidades me passaram pela cabeça, até que Adrien resolve contar a verdade para Anna. Antes de fazer isso, ele conta uma série de mentiras para se aproximar da família do homem que ele matou. Corroído pela culpa, ele busca nos detalhes sobre a vida de Frantz algum consolo – uma ideia meio maluca, é verdade, por que quem em sã consciência se sentiria “consolado” ao saber detalhes da vida de alguém que ele matou? Mas talvez Adrien não buscasse realmente consolo, mas “humanizar” aquele soldado que ele atingiu mortalmente no campo de batalha.

Esta talvez seja uma das grandes mensagens deste filme. Teríamos menos guerras, conflitos, dor e perdas se pudéssemos ver “o outro” como alguém de carne e osso, sonhos e amores, tal como nós mesmos. A pessoa que é morta em um campo de batalha tem família, pai e mãe, pode ter irmãos e uma promessa para ir para o altar. E tudo isso termina e é interrompido com um tiro certeiro. Frantz, o filme, a exemplo do personagem título, é um filme claramente pacifista. Uma história importante de ser resgatada nos tempos atuais, quando pessoas seguem sendo mortas em conflitos de diferentes naturezas mundo afora.

Adrien vai para a cidade de Frantz para saber mais sobre o homem que ele matou e cuja memória “lhe atormenta” os pensamentos e os sentimentos. No fundo, ele não é um assassino, mas a guerra lhe dá este papel. Como qualquer pessoa que comete um ato que não gostaria, na essência, Adrien sofre terrivelmente com aquilo. O problema é que ele, na busca por respostas sobre Frantz, acaba com as suas mentiras entrando de uma forma inapropriada na vida dos pais e da noiva do jovem alemão que ele vitimou.

Esta é a parte cruel da produção. Os pais de Frantz encontram um certo conforto nas histórias fantasiosas de Frantz com o “amigo” Adrien por Paris ao mesmo tempo em que a inocente e bela Anna se deixa envolver pelas mesmas histórias e pela personalidade de Adrien. Os pais de Frantz e Anna estão tão envolvidos por Adrien que não existe solução fácil para aquela situação. No fim das contas, percebendo os efeitos do que está fazendo, Adrien resolve contar a verdade. E aí chegamos no que era o segundo objetivo dele ao viajar para a Alemanha.

Depois de saber mais sobre o homem que matou no campo de batalha, Adrien queria reduzir a própria dor recebendo o perdão das pessoas que ele feriu para sempre. Em um ato egoísta – na verdade ele tem este “defeito”, está pensando sempre nas suas próprias necessidades -, ele resolve contar a verdade para Anna e pede para ela o seu perdão. Ele deseja fazer o mesmo com os pais de Frantz, mas Anna se antecipa e conta ela própria uma mentira para Adrien. Ela diz que contou a verdade para os pais de Frantz, mas ela não faz nada disso.

Diferente de Adrien, Anna é uma pessoa generosa. Ela sabe que a verdade sobre Adrien vai ferir de morte, mais uma vez, os pais de Frantz. Como ela gosta demais deles, resolve preservá-los. Mas ela própria já está ferida de morte novamente. Logo depois que Adrien parte de volta para a França, Anna percebe que está apaixonada por ele. Ela pensa que é tarde demais para ela – afinal, ela está gostando justamente do homem que matou o seu grande amor, Frantz.

No desespero, ela tenta colocar fim na própria dor – o mesmo é feito por Adrien na França. Mas os dois são movidos por motivos muito diferentes. Enquanto Anna sofre por sentir o que não gostaria de sentir – amor por Adrien, o algoz de Frantz -, Adrien sofre por não ter conseguido o perdão de suas vítimas “secundárias”. Os dois acabam fracassando em suas tentativas de suicídio. E como a história não terminou, eles devem dar prosseguimento para as suas próprias vidas.

Os pais de Frantz, inocentes na história, acabam realmente vendo Adrien como um “segundo filho”, como alguém que traz para eles conforto e as melhores “lembranças” (fabricadas, mas eles não sabem disso) do filho único perdido para sempre. Por isso mesmo eles tem esperança de que Adrien possa “substituir” Frantz no coração de Anna e se casar com ela. Eles meio que “pressionam” a jovem a buscar Adrien quando a carta dela retorna sem achar o destinatário. E é assim que Anna vai para a França em busca dele cheia de esperanças de um recomeço.

E aí entra a segunda grande sacada e reviravolta da produção. Anna encontra Adrien e descobre que ele, a exemplo de Frantz, que estava com o casamento acertado com ela, está prometido para Fanny (Alice de Lencquesaing). Para mim, esta foi a parte mais dolorida do filme. É de cortar o coração ver a gentil, bondosa e inocente Anna descobrindo que Adrien tem tudo o que Frantz perdeu. Ele tem uma boa casa, a mãe protetora (Cyrielle Clair) perto dele e uma noiva com quem ele vai se casar. É de cortar o coração algumas situações pelas quais Anna passa, assim como a reação dos pais de Frantz quando reagem às mentiras que lhes fazem continuar vivendo.

Apesar da culpa que sente pela morte de Frantz, Adrien segue a sua vida com uma normalidade que choca Anna. Mas ela própria vai encontrar o seu caminho para também seguir a vida. E esta talvez seja a outra grande mensagem desta produção. Após grandes tragédias e grandes perdas as pessoas, mesmo as “sensíveis”, como gosta de repetir a mãe de Adrien, podem se reinventar e encontrar caminhos para recomeçar. E é isso que Anna e Adrien fazem, apesar da dor que nunca deixará de latejar em alguma parte de seus corações. Mas a vida segue.

A grandeza de Anna é que ela não pensa apenas nela – algo que Adrien diz que ele faz também, mas a sua maneira. Anna recomeça a vida em Paris, pensando em belezas que Frantz pode ter visto – e que ela sabe que Adrien viu, como a obra de Manet no Louvre – e embalada por possibilidades que a vida ainda pode lhe dar, ao mesmo tempo em que preserva a história “reconfortante” e mentirosa de Adrien para os pais de Frantz. Eles, por sua vez, seguem com boas lembranças e a imaginação do que pode acontecer de bom para Anna e Adrien. E o francês, por sua conta, segue vivendo não por ele, mas para não dar para a mãe dele e para Fanny a mesma dor que ele causou nas pessoas que perderam Frantz.

Além deste núcleo principal da produção, Frantz mostra um pouco do contexto social da época. Vemos claramente o ódio que seguiu alimentando corações e mentes tanto na parte da Alemanha quanto na França – esse ódio e o sentimento de “desforra” alemã seriam fervidos em fogo lento até a Segunda Guerra Mundial. Os sentimentos nacionalistas exagerados e a desumanização do oponente estão em cena e são elementos importantes nesta história – apesar de ficarem um pouco em segundo plano.

Como sempre que voltamos para a reflexão do passado, Frantz nos ensina como devemos aprender com os equívocos de épocas anteriores para tentar evitar novos ciclos de desgraça. Quem dera que todos pudessem assistir a este filme e entender as suas mensagens. Teríamos um outro tipo de sociedade, certamente. Bela produção, em todos os sentidos.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da minha parte, achei brilhante as escolhas de François Ozon e do diretor de fotografia Pascal Marti. Grande parte do filme é em preto e branco. O que apenas valoriza as imagens e dão um contexto interessante para a produção – afinal, Frantz se passa em 1919, uma época em que os filmes eram todos em preto e branco. Além disso, a escolha do preto e branco em contraste com algumas sequências coloridas ajuda a contar uma história conceitual interessante. Eis a segunda camada de interpretação da história.

Grande parte do “presente” da história deste filme é contada em preto e branco. Essas sequências representam a vida sem Frantz, uma vida sem cor, sem sentido para os pais dele e para Anna. Essa mesma realidade após a morte de Frantz tem as mesmas matizes para Adrien. Mas em alguns momentos a cor toma conta da tela. Se notarmos quando isso acontece, é quando a vida começa a invadir aquele espaço sem cor. Percebemos o colorido nas sequências em que vemos Frantz em cena e naquelas em que Anna e os pais de Frantz conseguem sentir alegria além da dor da perda. Esse é um toque genial dos realizadores. Mais um ponto sensível e muito interessante desta produção. Observe as cores. Elas tem muito a dizer.

A origem do filme Broken Lullaby, produção que inspirou Frantz, é uma peça teatral de Maurice Rostand. Nascido em Paris em 1892, Rostand era um pacifista e um dos homossexuais mais conhecidos e respeitados no período entre guerras. Como a origem desta produção tem uma ligação com a peça teatral dele, dá para entender o tom um tanto “teatral” de Frantz. Nada que prejudique a história, é claro, mas é um estilo que nem todos estão habituados a assistir – especialmente quem não viu a filmes antigos, que tinham, muitos deles, exatamente este espírito.

Em termos de interpretação, o grande destaque para mim nesta produção é o trabalho magnífico e irretocável de Paula Beer. Ela está perfeita, atenta a cada detalhe e com uma interpretação realmente convincente. Grande atriz que merece ser acompanhada. Quem faz um “dueto” interessante com ela é o ator Pierre Niney. Ele também está muito bem. Além deles, os destaques nesta produção, mas em segundo plano, são os atores Ernst Stötzer e Marie Gruber – especialmente ela, com uma interpretação tocante -, que vivem os pais de Frantz; Johann von Bülow como Kreutz, um conhecido da família de Frantz que não perde tempo em pedir a mão de Anna e tentar se casar com ela; e Anton von Lucke em aparições “mudas” como o personagem-título morto. Estes são os destaques.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Cyrielle Clair como a esnobe e um tanto irritante mãe de Adrien; de Alice de Lencquesaing em quase uma ponta como Fanny, noiva de Adrien; Alex Wandtke como o recepcionista no hotel em que Adrien fica hospedado na pequena cidade alemã; Rainer Egger como o administrador do cemitério na Alemanha; Rainer Silberschneider como o vendedor da loja que vende para Anna um vestido para o baile; Lutz Blochberger como o homem que salva Anna no lago; e Jeanne Ferron como a tia de Adrien.

Entre os aspectos técnicos do filme, o grande destaque, sem dúvida, é a maravilhosa e inspiradora direção de fotografia de Pascal Marti. Além dele, merecem menção a trilha sonora extremamente pontual de Philippe Rombi; a excelente edição de Laure Gardette; o design de produção de Michel Barthélémy; a direção de arte de Susanne Abel; a decoração de set de Maresa Burmester e de Catherine Jarrier-Prieur; os belos e ajustados figurinos de Pascaline Chavanne; e o trabalho cuidadoso da equipe de 11 profissionais do departamento de maquiagem.

Frantz estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme participaria, ainda, de outros 21 festivais e mostras em diferentes países. Nesta trajetória o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros 19. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Fotografia no Prêmio César; o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Sedona; e o de Melhor Jovem Atriz para Paula Beer no Prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Cinema de Veneza. Belos prêmios. Todos merecidos.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção, mas vi que Frantz fez quase US$ 881 mil nos Estados Unidos, quase 661 mil euros na França e outros 413 mil euros na Itália. Bilheterias um tanto baixas. Tenho dúvidas se o filme conseguiu algum lucro.

Esta produção, como a história mesmo sugere, foi rodada em diferentes lugares da Alemanha e da França. Foram rodadas cenas nas ruas de Quedlinburg; no cemitério de Nikolaifriedhof, em Görlitz; em Wernigerode (casa dos Hoffmeisters); em Osterwieck; em Teufelsmauer (rio onde Anna e Adrien vão e onde ele se banha); e em Bad Suderode (estação de trem onde Adrien embarca), todos na Alemanha. Na França, foram rodadas cenas no Château du Saussay, em Ballacourt-sur-Essonne (castelo dos Rivoire); no Museu do Louvre e na Ópera Nacional de Paris Palais Garnier, em Paris; em Eymoutiers (estação de trem) e em Senlis.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e 11 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,4.

Frantz é uma coprodução da Alemanha com a França. Por causa disso o filme passa a figurar na lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme atemporal. Não apenas por sua beleza e lirismo, mas principalmente porque ele trata de assuntos que perduram no tempo. Ainda que a produção seja ambientada no final da Primeira Guerra Mundial, a essência do que vemos em cena continua se repetindo atualmente em qualquer conflito em que pais perdem os seus filhos e noivas vêem os seus sonhos de futuro serem abortados pela morte. Um belo filme, muito bem conduzido e muito bonito visualmente – apesar da história cheia de agruras. Frantz nos faz pensar sobre a capacidade humana de superação e também de reinvenção. Possivelmente essas sejam as nossas grandes qualidades.