Zimna Wojna – Cold War – Guerra Fria

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Um filme belíssimo, com uma fotografia incrível, muita música e uma história triste. Cold War mostra a beleza e a profundidade da fotografia preto e branco e valoriza a música como poucos filmes recentes. Mas a história em si não é exatamente inovadora ou surpreendente. Na verdade, tanta beleza contrasta com uma história de um amor impossível que é um bocado previsível. Mas o amantes não querem saber disso, e persistem. Uma história necessária sobre um tempo já ultrapassado – mas sobre o qual, alguns, parecem ter saudade.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera focada em uma gaita. Em seguida, a câmera sobe até focar o rosto do homem que está tocando o instrumento. Ele começa a cantar. A canção é sobre uma frustração amorosa. Ao lado dele, um outro músico toca um violino e ajuda a fazer o dueto. Enquanto eles cantam, vemos o frio se plasmando no ar conforme cada palavra é pronunciada. Corta.

Em um furgão, o motorista e empresário Kaczmarek (Borys Szyc) pergunta para Irena (Agata Kulesza) se ela não se preocupa que a música que eles ouviram seja muito “monótona e primitiva”. Ela diz que não, e pergunta o porquê daquela indagação. Kaczmarek diz que de onde ele vem, todos os bêbados cantam daquele jeito. Irena e Wiktor (Tomasz Kot) não se importam com o que o acompanhante deles acha. A missão deles é registrar e resgatar a música típica e cada vez mais esquecida de seu país. A história começa na Polônia em 1949 e segue por diversos anos para adentrar nos bastidores da Guerra Fria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cold War): Sim, amigos e amigas do blog, muito tempo passou desde que eu estive por aqui pela última vez. Correria de final de ano, vocês podem imaginar. Primeiro, finaleira do trabalho. Depois, preparativos para o Natal. Mas agora, perto do final do ano, finalmente consigo voltar a escrever uma crítica aqui no blog.

Assisti à Cold War há várias semanas. Antes mesmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgar a lista dos nove filmes que avançaram na disputa do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2019 – falo mais sobre isso no final desse texto. Algo que impressiona nesse filme, em primeiríssimo lugar, é a beleza da produção. Esse parece ser o ano das direções de fotografia em preto e branco. Além de Cold War, temos a Roma, outro forte concorrente do Oscar 2019, que também tem uma fotografia em preto e branco.

As escolhas do diretor e roteirista Pawel Pawlikowski, que criou a história de Cold War e escreveu esse roteiro com a ajuda de Janusz Glowacki e Piotr Borkowski, em relação à condução da trama, ao menos em relação às imagens, são perfeitas. Os ângulos das câmeras, a dinâmica das filmagens e, principalmente, a direção de fotografia Lukasz Zal realmente impressionam. Esses são os pontos fortes da produção. Assim como o trabalho dos atores principais, que fazem uma entrega muito coerente com o que a história nos apresenta.

Mas afinal, que história nos conta Pawlikowski? Cold War tem pelo menos duas narrativas centrais. A primeira, envolve a questão que fica mais evidente logo que ocorre o primeiro encontro entre os protagonistas. O professor, compositor e músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê. A garota é muito mais jovem que ele, mas parece saber muito bem o tipo de interesse que ela desperta nos homens – e no seu novo objeto de desejo.

O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer. Nesse sentido, o filme lembra um pouco ao clássico Lolita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, a história entre eles se complica um pouco mais, especialmente quando ele foge do controle que eles sofrem no país conquistado pelos russos enquanto ela decide ficar. Muito mais tarde, eles conseguem se reencontrar e viver em paz e em liberdade por um período, mas a imaturidade de ambos – ou o orgulho, como quiserem – acaba colocando tudo a perder novamente.

Fora a história de amor entre o professor e a sua aluna, Cold War nos conta uma outra história importante. A manipulação que o regime comunista fazia da realidade para conquistar a sua “narrativa perfeita”. Assim, o projeto de resgate da arte folclórica feita com esmero e boas intenções pelos professores e especialistas Wiktor e Irena acaba sendo manipulado pelo burocrata interesseiro Kaczmarek.

Quando o “camarada” do governo pede que a Mazurka, o projeto cultural liderado por Wiktor e Irena “trabalhem” temas de interesse do regime comunista, como a reforma agrária, a paz mundial e os riscos para que ela aconteça e homenageie o líder do proletariado mundial (na época, Stalin), Irena afirma que estes temas não interessam às pessoas da comunidade rural e que a Mazurka tem como proposta resgatar o folclore legítimo. Mas isso não é prolema para Kaczmarek, que faz o grupo encarnar as músicas que o regime considera como convenientes.

Assim, durante a Guerra Fria, sabemos que os dois lado da disputa – tanto União Soviética/Rússia quanto Estados Unidos – manipulavam as informações e a realidade conforme era mais interessante para cada lado. Curioso que hoje, tanto tempo depois, alguns regimes “democráticos” e líderes de grandes países façam o mesmo – manipulam a verdade conforme o seu próprio interesse. E nem todos parece realmente se importarem com isso.

Nesse sentido, Cold War se revela um filme bastante interessante. Ele nos mostra os bastidores da disputa de poder da época e como o jogo de interesses acontecia. Essa é a parte mais interessante da história. O ir e vir do romance dos protagonistas traz um elemento pessoal e dramático para trama, mas não torna ela realmente mais interessante ou original. Na verdade, apesar dos romances sempre serem interessantes, no caso de Cold War esse elemento apenas enfraquece a produção.

Quem gosta de um sofrido e arrastado romance “clássico”, cheio de idas e vindas, certamente irá discordar de mim. Mas beleza. Como vocês bem sabem, o cinema é algo muito pessoal. Para mim, as pressões e as manipulações da guerra de versões daquela época acaba sendo mais interessante, assim como a parte artística do filme – seja na música, seja na fotografia -, do que o romance dramático e um bocado previsível dos protagonistas. Apesar do roteiro não caprichar tanto na trama entre eles, devo admitir que o trabalho dos atores é excelente.

Os protagonistas vivem uma relação conturbada, um amor que nem sempre pode ser considerado saudável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela morre de ciúmes dele, enquanto ele não sabe lidar muito bem com o fato dos dois estarem juntos em uma Paris cheia de possibilidades. Parece que eles sofrem daquela síndrome clássica de quem “não consegue ser feliz”. Visivelmente eles se amam, mas acredito que ela não foge com ele da primeira vez porque ela não quer ser uma párea. Se for para ela escapar do regime totalitário, que seja por uma via que não pode ser contestada.

Depois que ela faz aquela besteira de voltar, após um breve período de felicidade com o amado em Paris, ele faz a besteira de ir atrás dela. O “destino” deles passa a ser selado a partir dali, já que ele é taxado como traidor – por ter abandonado o país e dado as costas para o regime comunista. Nessa parte, o filme parece fazer realmente sentido em suas duas histórias paralelas, já que partimos do coletivo para o individual e, nesse último aspecto, no romance impossível dos protagonistas, vemos de forma simbólica como a Guerra Fria contribuiu apenas para terminar com o amor. Seja de uma forma particular, seja em um contexto maior e coletivo.

Vendo sob este aspecto, este filme tem muito mais acertos do que erros. E ao fazer esta análise, eu vou aumentar a nota original que estava dando para esta produção – avaliação que estava abaixo de 9. Acho que o filme merece mais do que isso. Especialmente pelo seu começo, com aquela pegada de resgate do folclore original polonês. Um grande acerto de Pawlikowski ao fazer isso, sem dúvida. Um belo filme, recheado de boas intenções.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade. Essas imagens valem a experiência do filme e a narrativa um tanto “arrastada” de alguns momentos da produção. Os dois também estão sempre valorizando a beleza da protagonista, a sempre ótima Joanna Kulig. Com o holofote adequado, a atriz consegue magnetizar qualquer espectador. Em Cold War ela faz mais um trabalho exemplar.

Sem o charme ou a beleza de sua parceira de cena, Tomasz Kot acaba dando conta do recado por causa de seu talento. Ele encarna muito bem o homem mais maduro que não consegue lidar bem com o furacão com o qual ele está se relacionando. Os dois tem química e fazem uma bela parceria. Algo fundamental em um filme que é bem centrado em seus personagens.

A música e a fotografia roubam a cena nessa produção. A segunda, como comentei em mais de uma ocasião, é obra de Lukasz Zal. A segunda, a música, leva a assinatura, ao menos nos arranjos, de Marcin Masecki. Ele conta com um timaço que é responsável pelo Departamento de Música. Vale citá-los: Anna Bilicka, Piotr Domagalski, Maurycy Idzikowski, Piotr Knop, Luis Nubiola, Maciej Pawlowski e Jerzy Rogiewicz.

Gostei muito da direção de Pawel Pawlikowski. Ele constrói o filme, ao menos no apelo visual, com esmero e perfeição. Apenas o seu roteiro, a meu ver, começa muito bem e depois cai em um certo “lugar-comum” com o romance cheio de auto-sabotagem dos protagonistas. Ainda assim, ele faz um belo trabalho.

O filme é focado muito no talento e no trabalho de dois atores: Joanna Kulig e Tomasz Kot. Eles fazem uma bela parceria, como comentei antes, e conseguem convencer aos espectadores com perfeição. Além deles, vale citar o belo trabalho de Borys Szyc como Kaczmarek, o empresário manipulador (e um bocado canalha por se aproveitar de Zula) do grupo folclórico; Agata Kulesza como a idealizadora do grupo, Irena, que acaba pulando fora quando vê o seu projeto ser manipulado para favorecer aos interesses do regime comunista; Cédric Kahn como Michel, o diretor que acaba se aproveitando também de Zula; e Jeanne Balibar como Juliette, a poetisa e escritora que engata um romance com Wiktor antes de Zula voltar à cena.

Entre os aspectos técnicos do filme, além dos elementos já comentados, vale destacar o belo trabalho de Jaroslaw Kaminski na edição; de Benoît Barouh, Marcel Slawinski e de Katarzyna Sobanska-Strzalkowska no design de produção; e de Ola Staszko nos figurinos.

Interessante como esta produção mostra as mudanças dos personagens e do contexto cultural e político da Guerra Fria entre o final dos anos 1940 e até os anos 1960. A falta de esperança que resume a reta final da produção pode ser encarada como uma certa crítica aos efeitos que aquela época provocaram nas pessoas e no mundo. De fazer pensar.

Cold War estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até novembro, o filme participaria, ainda, de outros 36 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou 21 prêmios e foi indicado a outros 54. Números impressionantes. E que revelam a força desta produção. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Editor Europeu, Melhor Atriz Europeia para Joanna Kulig, Melhor Diretor Europeu, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Filme Europeu conferidos no European Film Awards; o de Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira segundo a National Board of Review.

Agora, vale comentar uma ou duas curiosidades sobre Cold War. No final da produção, o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski dedica o filme aos pais dele. Segundo as notas de produção do filme, o relacionamento “turbulento” dos protagonistas do filme foi inspirado na história real dos pais do diretor. Os pais de Pawlikowski se separaram e voltaram a se unir várias vezes, inclusive mudando de países em diversas ocasiões entre essas idas e vindas no romance. Curioso.

Cold War foi o primeiro filme falado em polonês a ser exibido na competição oficial do Festival de Cinema de Cannes desde o ano de 1990. Quando foi exibido no festival, o filme foi ovacionado por 18 minutos.

Dois dos personagens centras da trama foram inspirados em outras pessoas reais. Mais especificamente nos criadores, na vida real, do mundialmente famoso grupo de dança folclórica polonesa Zespól Piesni i Tanca Mazowsze. Os criadores desse grupo, Tadeusz Sygietynski e Mira Ziminska se casaram e, depois da Segunda Guerra Mundial, percorreram o interior da Polônia para buscar jovens talentos no canto e na dança. No filme, contudo, os criadores do grupo folclórico não eram casados – apenas eram parceiros de trabalho.

Depois de ter pensado nos protagonistas de Cold War, Pawlikowski buscou uma maneira de uni-los. E foi aí que surgiu a ideia dele “homenagear”, mesmo que livremente, ao grupo de dança folclórica polonês. A música, assim, passou a ser uma boa “desculpa” para unir aos personagens. Curioso que a história “nasceu” desta forma. Para mim, a homenagem ao grupo folclórico é o grande acerto desta produção – e o seu diferencial.

Pawlikowski e a atriz Joanna Kulig tiveram a atriz Lauren Bacall em mente para construírem a personagem Zula – especialmente na apresentação de seus diálogos mais cortantes e sarcásticos.

Procurei saber um pouco mais sobre Pawel Pawlikowski. O seu nome não me parecia estranho. Buscando sobre ele aqui no blog, descobri que eu já assisti a outros de seus filmes: Ida (comentado por aqui). Esse outro filme, também com uma fotografia maravilhosa em preto e branco, achei mais original e porreta. Ainda que ela não foi a protagonista de Ida, mas Joanna Kulig também está na outra produção – que, vejam que coincidência, foi também a última que rendeu uma crítica no blog em um determinado ano, no caso, em 2014. Curiosamente, Cold War é o primeiro trabalho de Pawlikowski na direção desde Ida. Ou seja, estou acompanhando ele bem desde então. 😉

Pawlikowski, é importante dizer, não é um diretor que lança muitos filmes. Desde 1987, ele dirigiu um episódio de uma série de documentários para a TV, quatro documentários feitos para a TV, um curta documentário para a TV e seis filmes longa-metragem para os cinemas – sendo Cold War o de número 6. A boa nova é que ele já está em pré-produção de seu novo filme, Limonov. Acho que o nome dele merece ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 textos positivos e nove textos negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o nível das notas dos dois sites chama a atenção por estarem acima da média. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 91 para o filme (fruto de 32 críticas positivas), assim como o selo “Metacritic Must-see” (ou seja, a recomendação do site para que o filme seja visto). Ou seja, Cold War caiu no gosto dos críticos e do público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cold War teve um desempenho pífio nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 99 mil. Ou seja, até o momento, esse foi um filme essencialmente de festivais. Veremos se ele terá poder de “barganha” para chegar forte ao Oscar – para ganhar, me refiro, porque ele deve ser indicado entre os cinco finalistas.

CONCLUSÃO: Um filme sobre arte, amor e as limitações para estes dois elementos quando a política e os jogos de poder entram em cena. A maior qualidade de Cold War é resgatar a cultura do interior, das pessoas comuns e a sua poesia propositalmente relegada ao esquecimento. Um belo filme, pelo cuidado que o diretor tem com a fotografia, o trabalho dos atores e, em especial, o registro de pessoas comuns da Polônia.

O único porém da produção é que ela realmente não surpreende na narrativa, já que trata-se de uma história de amor impossível tanto por conta da perseguição política que alguns sofreram na Polônia comunista quanto pela falta de sintonia entre os personagens centrais. Como tantas histórias de amor, eles não souberam lidar com os seus próprios sentimentos e expectativas, e quando isso surge no filme, a história fica um tanto “comum”. Apesar disso, é um belo filme, sem dúvidas. Especialmente por seu visual e pelo resgate cultural que faz da cultura polonesa.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: No dia 17 de dezembro a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou uma lista mais curta de filmes “finalistas” em nove categorias do Oscar 2019. Uma das categorias contempladas com a “lista curta” de indicados foi a de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cold War está entre os nove filmes que avançaram na disputa nesta categoria.

Junto com Cold War estão Birds of Passage; The Guilty; Never Look Away; Shoplifters; Ayka; Capernaum; Roma e Burning. Destes, assisti apenas a The Guilty (comentado por aqui) e a Burning (com crítica neste link). Me parece que Roma, Capernaum e Never Look Away são fortes concorrentes. Assim, em teoria, sobrariam apenas duas vagas para os demais filmes. Uma destas vagas deverá ser de Cold War. Mais que nada, pela beleza da produção – nem tanto pela força da história.

Para mim, não seria uma surpresa Cold War chegar até os cinco finalistas ao prêmio nesta categoria. Na verdade, acredito que ele tem méritos para chegar lá. Agora, ele levar a estatueta… entre os filmes que eu assisti, continuo preferindo a The Guilty. O próximo da lista, que vou assistir – já dou spoiler para vocês – será Roma que, para muitos, é o favoritíssimo nessa categoria no Oscar 2019. Veremos. Acho que Cold War chega entre os finalistas, mas dificilmente levará o prêmio. Ainda que a Academia ama um filme sobre guerra, não é mesmo? Veremos…

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Beoning – Burning – Em Chamas

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Um encontro casual com alguém que você não encontrava há muito tempo pode mudar a sua vida. Inicialmente, você pode até não se dar conta disso. Mas depois tudo fica claro, especialmente quando esta pessoa some. O filme sul-coreano Beoning trata de uma história de amor com diversos desencontros e com constatações sobre a diferença entre classes sociais um tanto assustadoras. Um filme interessante e que faz pensar, especialmente pelo final “intempestivo” e sobre o seu tom existencialista.

A HISTÓRIA: Barulhos de trânsito, como buzinadas e o som de automóveis. Atrás de um caminhão, Lee Jong-su (Ah-In Yoo) termina de fumar um cigarro. Ele pega algumas mercadorias do caminhão, coloca sobre um ombro e caminha entre várias pessoas até chegar a um local onde duas moças jovens dançam e convidam as pessoas a aproveitar super liquidações. Uma das moças olha bastante para Lee Jong-su, que entra no centro comercial passando pelas jovens.

Shin Hae-mi (Jong-seo Jeon), uma das moças, entrega um número para ele. Quando ele está saindo, ele olha para o celular e para a garota bonita e simpática que está “dando mole para ele”. Ele ganha um relógio no sorteio, e Shin Hae-mi pergunta se ele tem namorada. Ele diz que não, e ela comenta que ele vai precisar arranjar uma já que o relógio é feminino. Quando ele começa a ir embora, ela diz que o conhece da cidade natal deles. Esse encontro vai mudar a vida dos dois, mas de uma forma que eles não poderiam esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Beoning): Esse filme tem uma pegada muito interessante. Mas ele também tem algumas características com as quais não estamos exatamente acostumados e que são bastante típicas de parte do cinema sul-coreano. Uma destas características é uma certa “estranheza” em relação ao comportamento dos personagens, suas decisões e o desenrolar da história.

Diferente de outros filmes daquele país, Beoning não aposta no sobrenatural. Muito pelo contrário. Algo que achei realmente interessante no roteiro de Jungmi Oh e Chang-dong Lee, que escreveram Burning baseados em uma história curta do livro Barn Burning, de Haruki Murakami, foi como o filme “bebe” da realidade de duas classes sociais bem diferentes que compartilham o mesmo espaço no cenário urbano da Coreia do Sul.

Além desta particularidade, que me parece um dos principais trunfos de Beoning, gostei muito da direção delicada e atenta aos detalhes de Chang-dong Lee. O diretor sabe explorar muito bem o talento dos atores, as nuances da história, os pequenos gestos plásticos e simbólicos dos personagens e, claro, outro elemento personagem da história, que são os ambientes da cidade e do interior do país.

O filme tem, aparentemente, uma história relativamente simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um rapaz solteiro se encontra por acaso com uma garota com quem ele conviveu na infância. Ambos estão na “cidade grande” agora, mas ambos vieram do interior. Eles são, como milhares de outras pessoas da cidade grande, “estranhos no ninho”. Mas eles sabem se virar e correr atrás das condições mínimas para ter uma certa qualidade de vida.

Assim, Beoning é um filme sobre um reencontro de duas pessoas em um cenário diferente e desafiador. Por este lado, Beoning é uma história de amor composta por encontro, abertura de um para o outro, seguido de desencontro, expectativas frustradas e muitas, muitas palavras não ditas. Mas esta produção trata de muitos outros temas além desse.

A viagem de Lee Jong-su para a cidade natal Paju, no interior, para cuidar da propriedade do pai, que será julgado por agressão em breve, nos faz observar o contraste entre duas realidades muito diferentes do país. Esse contraste fica ainda mais evidente quando entra em cena Ben (Steven Yeun), um sujeito de classe alta que acaba se aproximando de Shin Hae-mi na viagem que ela faz para a África.

O “background” e a realidade dos protagonistas é muito diferente da vivida por Ben. Mas o sujeito, extremamente simpático, parece estar muito interessado por essa realidade diferente de Lee Jong-su e Shin Hae-mi. Enquanto ela parece encantada pelo modo de vida e o jeito de ser de Ben, Lee Jong-su está desconfiado. Ele sente que algo não se encaixa ou não “bate” no comportamento de Ben.

Por algum tempo, ficamos pensando se esse “pé atrás” de Lee Jong-su é apenas ciúme de Shin Hae-mi ou se existe algo a mais naquela história. Aos poucos, percebemos que parece que Ben olha para os dois amigos de infância como quem observa animais em um zoológico. Mas essa observação seria apenas de curiosidade ou existe algo a mais por trás de seu comportamento?

Algo interessante deste filme é como ele brinca com a percepção de realidade. Afinal, o que Shin Hae-mi conta é verdade, algum dia já aconteceu, ou ela vive uma parte da vida na fantasia? Em certo momento, quando ela já “desapareceu”, Lee Jong-su chega a questionar algumas certezas que ele tinha.

Por exemplo, se ela realmente tinha um gato em casa ou se isso não passava de uma fantasia. Ele não se conforma com ela apenas ter desaparecido, mas acaba colocando algumas certezas que ele tinha sobre a garota em dúvida. Pouco a pouco, ele acaba “investigando” Ben, e a partir desta proximidade que ele acaba descobrindo a verdade por trás dos fatos escondidos.

Um acerto do roteiro de Jungmi Oh e do diretor Chang-dong Lee é deixar um certo tom de incerteza e de dúvida no ar. Ainda que, claro, alguns fatos descobertos por Lee Jong-su são irrefutáveis. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, do nada, surge um gato na vida de Ben. Quando o gato foge e Lee Jong-su o encontra, ele fala o nome do gato de Shin Hae-mi e o gato parece atender ao chamado. Além disso, ele encontra diversos objetos de mulheres no banheiro de Ben.

Esse é um verdadeiro clássico. Sabemos que muitos psicopatas que viram serial killers tem como hábito guardar “souvenirs” de suas vítimas. É como se aqueles objetivos fossem pequenos “troféus” de suas conquistas tirando a vida de uma outra pessoa. Assim, mesmo o filme deixando um certo tom de dúvida no ar, sim, Chang-dong Lee acaba fazendo “justiça com as próprias mãos”.

A parte de reflexão do filme sobre as diferenças sociais grandes na sociedade sul-coreana está na constatação de que uma pessoa como Ben, com boa educação e muito dinheiro no bolso, pode realmente sair incólume de uma série de assassinatos de garotas sobre as quais “ninguém se importa”. Para Ben, Shin Hae-mi e todas as outras garotas do interior que ele encontra e com as quais ele se envolve são perfeitamente descartáveis.

Como ninguém realmente se interessa por estas garotas, segundo a visão de Ben, elas podem desaparecer sem maiores consequências. Ele sente a necessidade de “queimar”, de eliminar aquelas vidas tão cheias de vitalidade e que buscam o sentido da vida. Para ele, não ter limites é o que lhe interessa, é o seu combustível. Além disso, Ben é sádico. Ele se diverte ao ver o sofrimento de Lee Jong-su e de jogar com ele e com Shin Hae-mi.

Estas são as narrativas centrais de Beoning. Mas o filme também tem alguns outros pontos de interesse paralelos e que são interessantes, como a viagem de Shin Hae-mi para a África, em busca do “Grande Faminto” e da sua consequente busca pelo sentido da vida; as famílias disfuncionais simbolizadas pelos pais do protagonista e a sua relação nada próxima com eles; e a questão da criatividade literária, um interesse do protagonista, que cita William Faulkner e O Grande Gatsby.

Aliás, interessante que, em um certo momento do filme, o protagonista comenta que o seu escritor preferido é Faulkner e que, muitas vezes, ele considera que a sua vida é como um livro do escritor. Algumas característica da obra de Faulkner podem ser vistas nesse filme, então essa “inspiração” e relação é algo também interessante nesta produção.

Em geral, gostei da complexidade do filme – que tem a qualidade de não parecer muito complexo enquanto ele se desenrola, mas percebemos isso no arremeto final da produção -, assim como de sua narrativa “naturalista”, fluída e envolvente. Os atores centrais da produção fazem um ótimo trabalho, e gostei bastante também da direção de Chang-dong Lee, que sabe colocar a atenção de sua câmera no local perfeito – e nem sempre o mais óbvio – durante toda a produção.

Um bom filme, ainda que a história de um romance frustrado por um serial killer não seja, exatamente, a mais “edificante” de todas, não é mesmo? O filme é bacana, mas não tem a força que eu estava esperando – ao menos com um título para o mercado internacional como Burning – e nem uma “mensagem” como eu gosto de apreciar em filmes mais humanistas/filosóficos.

Verdade que Beoning tem uma pegada um pouco “existencialista”. Afinal, o que realmente move cada um dos personagens? O que eles buscam, o que os faz realmente pulsar? Ainda que tenha um pouco desta pegada, Beoning não é um filme realmente existencialista. Apesar disso, é um filme bacana por nos apresentar uma ótica diferenciada e uma história realmente original. Vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito algo para vocês: assisti a Beoning há mais de uma semana. Então, escrevi essa crítica com as principais lembranças que o filme me trouxe. Mas não é o mesmo que assistir a uma produção em um dia e escrever sobre ela no dia seguinte, por exemplo, ou dois dias depois. Tenho a consciência que parte da “complexidade” ou das características de Beoning perdi no caminho. Mas acho que o essencial sobre o que eu achei do filme eu comentei acima.

Entre as qualidades da produção, além do roteiro de Jungmi Oh e Chang-dong Lee e da direção de Chang-dong Lee, destaco o trabalho dos intérpretes. O filme é, basicamente, centrado no trabalho de três atores: Ah-In Yoo como Lee Jong-su; Jong-seo Jeon como Shin Hae-mi; e Steven Yeun como Ben. Os três estão muito bem em seus respectivos papéis. Steven Yeun era mais conhecido, por seu trabalho em Lost, mas as revelações do filme são Ah-In Yoo, em primeiríssimo lugar, e Jong-seo Jeon na sequência. Sem eles, o filme não nos envolveria ou nos interessaria da mesma forma.

É de arrepiar pensar em duas partes desta produção, em especial. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de descobrirmos o que aconteceu com Shin Hae-mi, é de arrepiar pensar nas últimas palavras que Lee Jong-su disse para ela e na forma com que Ben falava de “queimar estufas” quando, na verdade, estava falando de outro crime – muito mais cruel. De arrepiar.

Além destas qualidades, é preciso citar a ótima direção de fotografia de Kyung-pyo Hong e a trilha sonora caprichada de Mowg. Outros elementos técnicos que funcionam muito bem: a edição de Da-won Kim e Hyun Kim; o design de produção de Jum-hee Shin; e os figurinos de Choong-yeon Lee.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção. Ainda que questões políticas não sejam importantes na produção, não dá para ignorar o fato da cidade dos protagonistas, Paju, fazer fronteira com a Coreia do Norte. Esse é um elemento de uma certa “tensão” subliminar em partes do filme. Também não é por acaso, acredito, que Donald Trump apareça discursando na TV do protagonista.

É como se os realizadores nos dissessem, de forma subliminar, que existem tensões distantes na vida de qualquer pessoa, por mais simples que ela seja, porque, afinal de contas, todos estamos ligados nesse mundo maluco globalizado em que vivemos.

Achei interessante a guinada que Beoning dá na história depois de quase 1h30 de produção. Honestamente, até aquele momento do “desaparecimento” de Shin Hae-mi, não dava para desconfiar que o filme iria por aquele caminho. Isso foi algo interessante e é a parte mais surpreendente de Beoning.

Beoning estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até dezembro de 2018, a previsão é que o filme participe de outros 72 festivais em diferentes países. Esse é um número impressionante. Acredito que seja o filme que eu assisti com maior participação em festivais. Incrível.

A citação de O Grande Gatsby também tem um significado para a história. As duas obras compartilham de um certo “triângulo amoroso” no qual estão envolvidos um “homem rico, carismático e misterioso” e um narrador menos carismático que desenvolve uma “obsessão” pelo homem rico e pela mulher que une os três. Existem paralelos interessantes em Beoning e O Grande Gatsby, realmente.

De acordo com as notas da produção, Beoning foi inspirado também em uma história de 1939 de William Faulkner. Segundo Chang-dong Lee, o filme é a história “de um jovem Faulkner vivendo no mundo de Murakami”. Interessante.

Beoning ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 31. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Adana; para os prêmios de Melhor Diretor para Chang-dong Lee e Melhor Trilha Sonora para Mowg no Festival de Cinema Buil; para o Prêmio FIPRESCI no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Grand Bell Awards da Coreia do Sul; e para o de Melhor Filme no Oslo Films from the South Festival.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e sete negativas para este filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Especialmente os críticos, como vocês podem notar pela diferença de notas, gostaram de Beoning. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para Beoning, fruto 31 críticas positivas e de duas críticas medianas. O site também apresenta o selo “Metacritic Must-see” para Beoning.

De acordo com o site Box Office Mojo, Beoning faturou US$ 331,4 mil nos cinemas dos Estados Unidos. Dificilmente os americanos assistem a filmes que são de fora do país – especialmente quando não envolvem atores ou diretores famosos, especialmente europeus.

Além de não ter um desenvolvimento óbvio, Beoning ganha alguns pontos por aquela certa carga de “incerteza” que o filme deixa no ar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que, como comentei antes, Lee Jong-su encontra alguns pontos que parecem dar sentido para a tese dele de que Ben matou Shin Hae-mi, esses mesmos pontos podem ser vistos como circunstanciais. O gato que ele chama pelo apelido do gato de Shin Hae-mi não responde na primeira vez. Ou seja, podia não ser o gato dela. O relógio que poderia ser da garota e outros objetos de mulheres poderiam ser guardados por Ben como souvenir por outra razão. Enfim… apesar da teoria de Lee Jong-su parecer ser lógica, ela também poderia estar errada. E essa incerteza deixada por Chang-dong Lee é um grande acerto.

Beoning é uma produção 100% da Coreia do Sul. O filme é o representante do país na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Com ele, sigo a minha missão de assistir ao máximo de filmes que poderão concorrer a uma estatueta dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood no próximo ano.

Para quem se interessou em saber mais sobre William Faulkner, há um resumo interessante sobre o autor na Wikipédia. Vale dar uma conferida.

CONCLUSÃO: Nem tudo que parece, realmente é. Isso vale para a vida real e para uma história contada em um filme. Beoning sabe mexer muito bem com as nossas leituras dos “fatos” e as nossas desconfianças. Um filme com poucos personagens importantes mas que tem ótimos atores por trás. Singelo, envolvente e um tanto angustiante, Beoning nos faz pensar sobre as nossas escolhas e sobre o que deixamos de dizer de importante para os outros.

Assim, ele tem uma pegada “pessoal” e ao mesmo tempo social ao mostrar realidades muito diferentes que convivem em uma mesma cidade e país. Um filme sul-coreano diferenciado e que chega a criar mal-estar, especialmente pelo final. Apesar de não seguir a linha de terror e de suspense de outros filmes sul-coreanos, Beoning não ignora o lado mais sombrio das pessoas e das suas relações. Interessante.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Esse é o quarto filme que eu assisto e que está buscando uma vaga entre as produções finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo Oscar. Antes de conferir a essa produção sul-coreana, eu assisti à Den Skyldige (comentado aqui), à I Am Not a Witch (com crítica neste link) e à Dogman (com crítica aqui).

Ainda preciso assistir a alguns dos filmes “favoritos” segundo alguns especialistas estrangeiros para esta categoria. Mas entre os quatro filmes que eu já assisti, difícil realmente mensurar as chances de Beoning na disputa. Avaliando o meu gosto pessoal, acho que ele perde para Den Skyldige e fica próximo do impacto causado por Dogman e I Am Not a Witch.

Tentando pensar com a cabeça dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, acredito que ele corre um pouco por fora, ficando atrás de Den Skyldige e de I Am Not a Witch. Como ainda não assisti à muitos dos favoritos, por enquanto, acredito que Beoning teria que fazer uma ótima campanha nos bastidores para chegar entre os cinco finalistas ao prêmio. Se chegar lá, os produtores devem ficar satisfeitos, porque não vejo muitas chances dele levar o prêmio.

Dogman

dogman

Um misto de desejar ser aceito por um grupo e dar satisfação para a filha com viagens divertidas. A junção destes dois desejos nem sempre é fácil de ser alcançada. Ao menos, pelas vias “normais”. Dogman nos conta a história de um sujeito comum, trabalhador, que não encontra no seu trabalho cotidiano os recursos para levar a filha única para viajar como ele desejaria.

Isso acaba fazendo com que ele busque outros meios de conseguir dinheiro, e essa busca o leva para caminhos perigosos – e que acabam indo contra aquele desejo de pertencimento ao grupo de “cidadãos de bem” do qual ele se orgulha de fazer parte. Um filme interessante e que nos faz refletir sobre nossas limitações.

A HISTÓRIA: Um cão acorrentado está bastante raivoso. Ele late e mostra os dentes. Ameaça atacar, mas como está preso, a sua capacidade de concretizar isso é limitada. Enquanto isso, Marcello (Marcello Fonte) tenta dar um banho no cachorro. Primeiro, ele espirra alguns jatos de água. Outros cães, presos, observam. Marcello fala com doçura com o cão bravo, mas ele não gosta muito da ideia de tomar banho.

Marcello tenta uma outra técnica, com um pano improvisado sobre o que parece ser uma vassoura. O cão acaba mordendo o pano. Mas Marcello parece ter conseguido avançar, porque ele acaba usando um jato para secar o cão. Essa é a única parte em que ele gosta da experiência. Essa é a rotina de Marcello, que cuida de cães e tem outros desafios em seu cotidiano.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dogman): O protagonista desta produção nos faz pensar sobre algumas questões importantes. Quando alguém vem com a ideia equivocada de “bandido bom é bandido morto”, eu me questiono: mas quem é esse bandido que a outra pessoa quer ver morta? Quem garante que na família dela não existam “bandidos” como o que ela parece odiar à priori? Quem garante que essa própria pessoa nunca vai cometer um crime na vida?

Digo isso porque o protagonista de Dogman, Marcello, parece um bom sujeito sob qualquer ótica que alguém possa observá-lo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ele ama verdadeiramente os animais – especialmente os cachorros. Ele não trata os cães bem apenas porque este é o seu trabalho – prova disso é quando ele invade novamente uma casa para salvar um cãozinho que tinha sido colocado no congelador pelos seus “amigos” bandidos.

Depois, Marcello é um sujeito que trabalha um bocado para pagar as contas e para trazer pequenos momentos de felicidade para a filha, Alida (Alida Baldari Calabria). Além disso, o protagonista de Dogman tem diversos amigos no bairro, encontrando com essa turma com uma certa frequência – seja no jogo de futebol regular, seja almoçando ou frequentando o bar de um deles. Para muitas pessoas, ele é um cidadão exemplar. Simpático, bem visto por todos, amável, Marcello não parece ter defeitos.

Mas não demora muito para percebermos que existe um outro Marcello que não é conhecido pela maioria. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Preocupado em garantir ótimas experiências com a filha, que não mora com ele, Marcello vende drogas para ganhar mais dinheiro. O cliente mais costumeiro dele é o “porra louca” Simoncino (Edoardo Pesce). Grande, forte, metido à valente, Simoncino – conhecido também como Simone – é o terror da vizinhança. Literalmente.

Simone é violento e gosta de ser temido. Viciado em cocaína, com bastante frequência ele sai do prumo e parte para cima de alguém. Ou quebra a máquina do bar, ou rouba o restaurante mais próximo, ou cria alguma confusão qualquer. Não por acaso, os vizinhos de Marcello chegam a conversar sobre pagar alguém para dar um fim em Simone. Mas como nem todos concordam com essa “solução”, a conversa termina em impasse.

Marcello parece ser o único amigo de Simone. Essa proximidade faz com que ele vá se envolvendo cada vez mais nas confusões e até nos crimes do “amigo”. Em uma certa noite, Marcello é intimado por Simone para servir de motorista de fuga de um furto. Depois, vem o grande problema (e dilema) da vida do dono do petshop. Por ser vizinho de parede de um comerciante que compra ouro, Simone o “intima” a ceder a chave do local para que ele roube o joalheiro.

Nessa parte, de forma muito inteligente, o roteiro de Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso, que contaram com a colaboração de Marco Perfetti, Damiano D’Innocenzo, Fabio D’Innocenzo e Giulio Troli, não mostra tudo o que acontece. Assim, fica a critério do espectador interpretar os fatos.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Da minha parte, acho sim que Marcello deu uma cópia de suas chaves para Simone. Tanto que, depois que ele sai da cadeia, ele cobra do “amigo” os 10 mil euros que ele estaria lhe devendo. Ora, será que se ele fosse inocente no crime, ele teria cobrado esse dinheiro? E como ele cobraria exatamente 10 mil euros se não tivesse combinado isso com Simone antes? Ele até poderia ter lido sobre a quantia roubada e ter pedido metade, mas acho que faz mais sentido ele realmente ter facilitado o furto,  nesse caso.

Pois bem, antes de ceder para Simone, Marcello chega a comentar que ele não daria as chaves porque era amigo de todos da comunidade e que ele era bem quisto por todos, e que isso ele não iria perder. Mas ele cede, ele se deixa levar pela cobiça de ganhar mais dinheiro e isso acaba sendo o início de seu fim. Bandido como ele é, Simone não paga para o “amigo” o que ele pede, e Marcello perde a cabeça e destrói parte da morto de Simone.

Bem, nem preciso dizer que isso acaba virando uma espiral do caos, não é mesmo? Em troca de ter mais dinheiro para, entre outras coisas, pagar por mais viagens dos sonhos para a filha, Marcello abre mão do respeito que ele tinha na comunidade. Muito rapidamente ele passa a ser desprezado e excluído. Ignorado, ele acaba forçando a barra para cima de Simone, para ganhar mais dinheiro.

No final, como um cão que precisa ser aceito pela matilha, Simone leva o seu “troféu” para a comunidade para que, desta forma, ele receba algum sinal de aceitação novamente. Sim, existe um paralelo interessante entre os homens e os cães nesse filme. Somos pessoas gregárias, que gostam – e precisam, geralmente – viver em grupo, em comunidade.

Acreditando que, por não viver com a filha, ele precisava propiciar as melhores experiências para ela, Marcello se deixa levar pela ambição e perde o que lhe dava sustentação. Justamente o sentimento de pertencer a uma matilha. Essa percepção acaba sendo fatal para ele, que acaba caindo em ações intempestivas e para as quais não existe volta atrás.

Um filme envolvente, muito bem narrado e que não deixa ninguém indiferente. Impossível não se interessar pela história de um sujeito comum que acaba fazendo uma série de escolhas equivocadas e, com isso, colocando a própria vida a perder. Com um belo roteiro e uma direção atenta e cuidadosa, Dogman é um filme interessante sobre as escolhas que fazemos e sobre como, dentro destas escolhas, devemos ter a consciência de que não podemos ter tudo.

Sim, o protagonista desta produção tinha coração e bons valores – tanto que não pensou duas vezes em salvar Simone quando ele é atingido por alguns disparos. Mas nem todos são como ele e, certamente, Simone não era. Ainda que nos solidarizamos com os outros e que Marcello quisesse não abandonar Simone, ele deveria ter aprendido que o melhor que podemos fazer, em algumas situações, é nos afastarmos do mal. Ou, ao menos, não sucumbirmos a ele.

Mas, voltando para o início dessa crítica, algo Dogman deixa bem claro: ninguém está realmente livre de cometer erros e de se envolver em situações muito complicadas, mesmo sem realmente desejar isso. Um “cidadão do bem” como Marcello acaba se enrolando tanto em problemas que depois essa espiral acaba o engolindo. Uma pena. Mas também um alerta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Honestamente, eu estava cansada e com um certo sono quando assisti a Dogman. Mas o filme é tão envolvente, e os personagens tão bem desenvolvidos, que eu venci o sono facilmente. Acho que um dos grandes méritos do filme é realmente ter poucos personagens importantes e focar nestes personagens – especialmente no protagonista – e nas suas relações. Um belo trabalho dos roteiristas e do diretor Matteo Garrone.

Um dos grandes méritos do filme também é o carisma do protagonista, vivido pelo ator Marcello Fonte. Impossível não desenvolver empatia com ele – mesmo quando tememos e/ou discordamos das suas decisões. Fonte faz um trabalho incrível e franco, trazendo muita legitimidade para o seu personagem e nos fazendo mergulhar na sua história.

O grande parceiro de cena dele é Edoardo Pesce, que dá a vida para o valentão Simoncino (chamado pelo apelido de Simone). Pesce também se sai muito bem no seu papel, mas o seu personagem tem menos camadas que o de Marcello. Assim, claro, como era de se esperar, ele brilha menos que o seu companheiro de cena. Mas faz um belo trabalho, muito convincente também.

Gostei da direção de Matteo Garrone, que sabe fazer uma dinâmica interessante entre diferentes elementos que ajudam a contar e a narrar essa história. O jogo que ele faz entre as pessoas, os animais e aquele bairro um tanto marginalizado da Itália é perfeito. Eis uma alquimia interessante e que faz a história ter os temperos que ela nos apresenta. Afinal, pessoas, animais e lugar são elementos importantes para a trama – nada está ali por acaso.

Além do ótimo trabalho de Marcello Fonte e de Edoardo Pesce, vale comentar o bom trabalho de outros atores com papéis menos relevantes. Fazem um belo trabalho, quando aparecem em cena, Nunzia Schiano como a mãe de Simoncino – uma típica e “clássica” mãe italiana; Adamo Dionisi como Franco, o comerciante que é vizinho de Marcello; Francesco Acquaroli como o proprietário do bar e casa de jogos; Gianluca Gobbi como o proprietário do restaurante; e Alida Baldari Calabria como Alida, filha de Marcello.

Outros atores praticamente só fazem aparições no filme. Com papéis bem menores, vale citar Laura Pizzirani como a mãe de Alida; e Aniello Arena como o inspetor da polícia que prende Marcello.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale citar o belo trabalho de Nicolai Brüel na direção de fotografia; de Michele Braga na trilha sonora; de Marco Spoletini na edição; de Dimitri Capuani no design de produção; de Massimo Pauletto na direção de arte; de Giovanna Cirianni na decoração de set; e de Massimo Cantini Parrini nos figurinos.

Dogman estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 13 festivais em diversos países. Nessa trajetória, a produção ganhou 12 prêmios e foi indicada a outros 5. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Ator para Marcello Fonte e o Palm Dog para o elenco canino do filme no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Jerusalém; e para os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator para Marcello Forte e para Edoardo Pesce, Melhor Edição, Melhor Design de Produção, Melhor Diretor de Casting, Melhor Produtor e Melhor Som conferidos pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalistas de Cinema. Ou seja, na Itália, o filme foi um papa-prêmios. Mas achei muito justo o prêmio de Melhor Ator para Forte em Cannes. Realmente ele faz um trabalho especial nesse filme.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Roberto Benigni foi convidado para fazer o papel de Marcello, mas acabou recusando o papel. Gosto do Benigni, mas achei ótimo que o talento de Marcello Forte acabou sendo evidenciado por causa desta recusa. Ele merecia ser “descoberto” por um público mais amplo.

Esse filme é inspirado em uma história real – apesar de não citar isso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De acordo com os produtores do filme, Dogman é inspirado em um dos crimes mais infames do pós-guerra na Itália, quando um cuidador de cachorros de 27 anos aprisionou e matou um ex-boxeador que estava fazendo “bullying” contra ele. Talvez a história original não tivesse a complexidade do que vemos em Dogman, por isso eles não citam como baseado em fatos reais.

Dogman é o representante da Itália para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Mas além de ser produzido pela Itália, o filme tem a França como país coprodutor.

Fiquei curiosa por saber mais sobre Marcello Fonte. Ele é um ator italiano com 11 trabalhos no currículo até Dogman – agora, ele está participando das filmagens de outras duas produções. Ele estreou no ano 2000, em uma série de TV, em um papel em que ele não chegou a aparecer nos créditos. O primeiro trabalho dele realmente creditado foi em 2011, no longa Corpo Celeste. Até o momento, Fonte recebeu três prêmios – todos por Dogman. Realmente esse filme o projetou. Bacana.

Matteo Garrone é um belo diretor. Dogman é o 15º trabalho dele como diretor – atualmente ele está em fase de pré-produção de seu décimo-sexto título, Pinocchio. Ele estreou na direção em 1996 com Terra di Mezzo, mas eu o conheci vários anos depois, em 2008, com Gomorra (comentado por aqui). Cheguei a ele, portanto, porque naquele ano Gomorra buscava uma vaga como finalista no Oscar. Ele não chegou lá, mas acabei conferindo o belo trabalho de Garrone por causa disso. Outro filme dirigido por ele, Il Racconto Dei Racconti (ou Tale of Tales), também tem uma crítica aqui no blog. Vale conferir.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 37 críticas positivas e 11 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 7,5. Achei curioso como a nota do RT é boa, acima da média do site, mas o nível de aprovação é relativamente baixo. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 75 – fruto 10 críticas positivas e de 4 medianas.

CONCLUSÃO: O caminho de fazer sempre o que é certo não é cheio de recompensas. Ele exige trabalho, vigília, atenção aos detalhes e às ações. Mas ele traz ao menos uma grande recompensa: dormir de forma tranquila todas as noites sabendo que você não prejudicou ninguém. Isso era o que o protagonista de Dogman queria, inicialmente, mas ele se deixa leva por sua “cobiça” – não para si, mas para presentear a filha – e acaba trilhando um caminho sem volta. Bem narrado, com uma história interessante e um bom elenco, Dogman é um filme singelo com algumas mensagens interessantes. Não é muito inovador ou arrebatador, mas mantém o público atento e até certo ponto envolvido.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Difícil isso de avaliar filmes e, especialmente, de tentar adivinhar o gosto dos participantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, viu? Especialmente quando a gente tem, pela frente, filmes tão, mas tão diferentes entre si como este Dogman e os recentemente comentados por aqui, Den Skyldige (com crítica neste link) e I Am Not a Witch (comentado por aqui).

Se eu fosse medir o impacto que cada filme teve em mim, eu diria que Den Skyldige sai na frente, seguido de I Am Not a Witch e de Dogman. Para o meu gosto, se eu tivesse que votar em qualquer um dos três, preferiria Den Skyldige e ficaria em dúvida sobre o segundo colocado. Isso porque Dogman me pareceu uma história mais envolvente, com algumas mensagens que me interessam mais, mas sem dúvida alguma I Am Not a Witch é um filme mais artístico e ousado.

Quais deles tem chances de chegar a uma indicação no Oscar? Puxa, difícil dizer. Acho que Den Skyldige e I Am Not a Witch tem uma vantagem maior, já que são filmes mais ousados, cada um a sua maneira. Apesar de interessante, Dogman segue uma fórmula mais tradicional e, sem demérito algum, até mais previsível. Apesar disso, a temática dele me agrada. Então não seria uma surpresa se os três chegassem a uma indicação, ainda que eu acho que Dogman corre por fora.

Agora, quem poderá realmente arrematar a estatueta dourada? Ainda é prematuro apontar algum vencedor. Faltam muitos filmes para ver ainda – inclusive o que muitos apontam como o favorito, Roma. Então vou pedir para vocês esperarem eu ver a mais concorrentes para poder falar sobre isso, beleza? Mas acho que, mesmo que Dogman chegar até os indicados, ele terá poucas chances de vencer.

I Am Not a Witch

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Acho difícil eu escrever qualquer frase por aqui que vá te preparar para assistir a I Am Not a Witch. Sim, o título é curioso, por si só. Mas o que vemos em cena está fora de qualquer previsibilidade. I Am Not a Witch começa forte, com cenas impressionantes, e depois destrincha relações e formas de exploração que são difíceis de acreditar, mas que até hoje existem. Depois daquele início potente, o filme perde um pouco de força, mas isso não faz com que ele tenha menos impacto.

A HISTÓRIA: Lentamente, um ônibus com alguns turistas vai se aproximando de um local de “exposição”. Nesse local, preparado justamente com turistas, está um grupo de mulheres que já tem uma certa idade. O ônibus para e os turistas saem. Logo eles são informados sobre o custo do “ingresso”, e uma turista reclama do preço. Mas todos pagam. E todos vêem de perto um grupo de “bruxas”. Os turistas perguntam porque elas estão presas com fitas, e o guia explica que é para elas não saírem voando.

Uma menina que faz parte do grupo pergunta se, quando elas voam, elas podem matar uma pessoa. O guia diz que sim, que geralmente elas voam para isso. Com as fitas, contudo, as “bruxas” são inofensivas. Em seguida, aquelas mulheres fazem gestos “ameaçadores”. Corta. Uma mulher tira um balde com água de um poço e caminha com ele sobre a cabeça. Mas ela cai quando se aproxima de uma menina. Logo essa garota será acusada de ser uma bruxa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a I Am Not a Witch): Que história impressionante, minha gente! Honestamente, não sabia o que esperar de um filme com um título como I Am Not a Witch. Mas, certamente, eu não esperava o que nós vemos em cena com esta produção.

Achei o início de I Am Not a Witch especialmente interessante. Primeiro, aquele “safari” humano que inicia a produção… algo realmente espantoso, mas que serve como um importante cartão de visitas do que veremos depois. Impressionante alguns lugares ainda existirem com a lógica que vemos nesta produção. Em que mulheres são acusadas por desafetos e pela ignorância alheia de serem “bruxas”.

Sim, por um lado temos a crendice e as tradições de um povo que ainda acredita em algo como bruxaria. Se algo “estranho” acontece em uma comunidade – e muitas vezes essa estranheza é apenas o medo das pessoas de algo que elas não conhecem -, é porque existe uma bruxa agindo no local. Mas o pior não é a ignorância, a crendice e as tradições sem fundo lógico destas pessoas simples e sem perspectivas na vida.

O pior mesmo, e muito bem explorado por I Am Not a Witch, é a “indústria” que se cria ao redor desta ignorância. Assim, o “governo”, simbolizado nesse filme pelo Mr. Banda (Henry B.J. Phiri) potencializa e explora aquela cultura que acredita em bruxas. As mulheres, que não passam de escravas, são exploradas em trabalhos forçados e também como atrativo turístico.

Especialmente esta exploração turística é de fazer o queixo cair. Quem é pior, uma figura como Mr. Banda, que explora aquelas mulheres daquela forma, ou os turistas que acham “bonito” fazer fotos com mulheres que não são acorrentadas, mas mantidas presas com “rédeas”? Desta forma, a diretora e roteirista Rungano Nyoni critica toda a exploração de quem tem mais recursos sobre aqueles que não tem nada, seja essa exploração feita por governantes ou por quem vem de fora – os turistas.

Até as “bruxas” que são exploradas por Mr. Banda ficam espantadas quando ele apresenta para a Alteza Real a nova integrante daquela comunidade. Afinal, como eles podem considerar uma bruxa uma criança como Shula? A órfã, que aparece em um vilarejo, não conta com a solidariedade de ninguém. Muito pelo contrário, ela acaba sendo levada para a delegacia e acusada de ser uma bruxa para a policial Josephine (Nellie Munamonga).

A policial escuta a todos da comunidade, inclusive a um bêbado (Leo Chisanga) que depõe contra a menina narrando um sonho que teve e no qual ela era uma bruxa. Pressionada por todos os lados, Shula não nega e nem confirma que é uma bruxa, segundo Josephine. Isso é o suficiente para a policial ligar para Mr. Banda que, claro, não desperdiça a chance de ter mais uma escrava que o ajude a faturar.

Diversas cenas de I Am Not a Witch são impressionantes. Chama muito a atenção, além daquela cena inicial com os turistas e as sequências em que Shula é acusada e transformada em uma “bruxa”, as imagens que mostram como as mulheres são exploradas pelo Sr. Tembo (John Tembo). Aquelas estruturas, que parecem enormes carretéis de linha, das quais saem as faixas em que as mulheres são presas, é algo impressionante. Algumas imagens com aquelas estruturas sobre uma carreta são muito simbólicas e impactantes.

Mas não é só em trabalhos forçados em campos e em pedreiras que as “bruxas” são exploradas. A jovem Shula logo será utilizada para outros trabalhos do “governo”. Ela vai decidir quem é inocente ou culpado em um julgamento e tomar outras decisões com base no “desconhecido”. Também será levada para a frente da TV. Fora estes momentos de exploração, vemos como as “bruxas” são tratadas pelas pessoas comuns. Elas são hostilizadas e temidas. Literalmente, muitas vezes, apedrejadas.

Difícil acreditar que até hoje existam pessoas e lugares que funcionem com essa lógica. Com tanta ignorância, com tanta crueldade. Não sei até que ponto este filme é baseado em histórias que seguem válidas até hoje ou é fruto da criatividade de Rungano Nyoni. Mas o fato é que até hoje existe muita crueldade, ignorância e exploração de humanos feita por humanos mundo afora. Nesse sentido, I Am Not a Witch é de arrepiar, pois nos mostra uma realidade que é difícil de aceitar.

Uma qualidade de I Am Not a Witch é que o filme começa muito bem e sabe explorar o talento da protagonista, a jovem Maggie Mulubwa. Ela é a estrela da produção, não há dúvida. A diretora e roteirista Rungano Nyoni também sabe explorar muito bem o talento de pessoas comuns e valorizar o local em que eles vivem. Estes fatores são importantes para a história porque eles ajudam a dar legitimidade para ela e a nos transportar para aquele ambiente que é tão diferente do que estamos acostumados.

Só achei uma pena que o filme acabe perdendo um pouco a força no meio do caminho. Especialmente quando Shula se aproxima da mulher do Mr. Banda. Apesar de curioso, aquele trecho da narrativa realmente não acrescenta muito valor para a história. Também não gostei muito do desfecho da produção. Pressionada, na reta final, Shula acaba comentando que preferia ter “escolhido” ser uma cabra do que uma bruxa.

Apesar de não fazer chover e de perder o “encanto” para o Mr. Banda, Shula não parecia realmente doente perto do final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco antes de vermos o corpo dela sendo deixado pelos empregados do Mr. Banda para que ela fosse velada pelas velhas bruxas, vemos como ela acorda durante a noite e recolhe toda a sua rédea. Na cena seguinte, estão levando ela em uma carroça para depositá-la no chão para as outras bruxas. Então o que pode ter acontecido?

A resposta para esta pergunta fica em aberto. Da minha parte, acredito que ela tenha tentado fugir e que tenham matado ela por causa disso. Então ela estava cansada daquilo e queria a sua liberdade, mas isso era algo que não poderia ser aceito pelo “governo” local. Entre continuar sendo escrava e ser explorada até a morte, Shula preferiu tentar ser livre e foi sacrificada como uma anciã havia comentado com ela na véspera do que aconteceu.

Para mim, esta é a resposta para aquele final. É como se a diretora estivesse defendendo a ideia de que é melhor morrer tentando ser livre do que viver sendo o que uma pessoa não é – e, no caso de Shula, fazendo de conta que era uma bruxa.

Outra possibilidade é que ele tenha ficado doente e morrido por causa disso. Mas essa falta de conclusão e de definição, achei um recurso desnecessário. Até parece que I Am Not a Witch precisava terminar logo e que o diretor e roteirista teve que correr para finalizar o seu filme. Acho que ele poderia ter tido um pouco mais de cuidado ao arrematar a história.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: I Am Not a Witch tem algumas “brincadeiras” narrativas interessantes. Primeiro, um certo protagonismo da trilha sonora aqui e ali para dar maior dramaticidade para a história. Depois, alguns “congelamentos” de cenas no momento em que Shula é “testada” como uma bruxa com o sacrifício de uma galinha. Esses recursos chamam a atenção, ainda que não seja, exatamente, inovadores. Mas são detalhes interessantes do trabalho da diretora Rungano Nyoni.

O trabalho da diretora Runagno Nyoni é o ponto forte do filme, assim como a interpretação de Maggie Mulubwa e, em segundo lugar, de Henry B.J. Phiri. Nyoni sabe explorar muito bem o talento de diversos atores evidentemente não profissionais nesse filme. Um belo trabalho. O roteiro de Nyoni também é interessante, ainda que ele vá perdendo força durante a produção e não se sustente com a mesma pegada até o final.

Entre os aspectos técnicos desta produção, vale comentar a ótima direção de fotografia de David Gallego; a marcante e bastante pontual trilha sonora de Matthew James Kelly; a edição cuidadosa, detalhista e competente de George Gragg, Yann Dedet e Thibault Hague; o design de produção de Nathan Parker; a direção de arte de Malin Lindholm; a decoração de set de Clementine Miller; os figurinos de Holly Rebecca; e a maquiagem de Charlene Coetzee, Thwaambo Mujanja e Julene Paton.

Do elenco, o grande destaque é a menina que interpreta Shula, sobre isso não há dúvidas. Maggie Mulubwa faz um trabalho excepcional, e em um papel muito difícil. A expressividade da jovem atriz é algo impressionante. Muitas vezes ela impacta o espectador sem falar nada, apenas com as suas expressões e olhar. Além dela, vale destacar o trabalho de Henry B.J. Phiri como Mr. Banda, o homem do governo que explora mulheres e crianças sem nenhum peso na consciência.

Além deles, estão muito bem as atrizes e atores com papéis menores, mas que tem a sua importância na trama, com destaque para John Tembo como Mr. Tembo, o capataz de Mr. Banda, responsável por controlar as “bruxas” mais velhas; e todas as mulheres que vivenciam essas “bruxas”. Vale citá-las: Janet Chaile, Martha Chig’Ambo, Loveness Chilndo, Joyce Chilombo, Nelly Chipembele, Kalenga Chipili, Mrs. Chishimba, Aliness Chisi, Mary Chulufya, Mariam Chansa Kabunada, Chama Kaifa, Grace Kunda, Mary Lungu, Dina Lupiya, Mandalena, Eneless Mbewe, Joyce Mbomena, Gertrude Mulenga, Magdalena Mumba, Ruth Njobru, Josephine Penti, Lexina Phiri, Fides Sinyangwe e Setrida Zulu.

Apesar da direção de fotografia de I Am Not a Witch ser boa, senti que em diversos momentos do filme temos pela frente cenas muito escuras, o que prejudica algumas partes da produção.

I Am Not a Witch estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 39 festivais em diversos países. Números impressionantes. Realmente um filme de festivais. Nessa sua trajetória, o filme ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros 26.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio BAFTA de “Outstanding Debut by a British Writer, Director or Producer” para Rungano Nyoni e Emily Morgan; para o prêmio de Melhor Filme dado pelo Festival de Cinema de Adelaide; para o prêmio de Melhor Estreia na Direção para Rungano Nyoni no Festival de Cinema de Estocolmo; e para os prêmios de Melhor Diretora para Rungano Nyoni, “Breakthrough Producer” para Emily Morgan e o prêmio Douglas Hickox para Rungano Nyoni no British Independent Film Awards.

Para quem ficou curioso para saber em que local I Am Not a Witch foi filmado, esta produção foi totalmente rodada na Zâmbia.

I Am Not a Witch foi escolhido pelo Reino Unido para representar o país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 67 críticas positivas e duas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 7,4. O site Metacritic confere um “metascore” de 80 para o filme, fruto de 17 críticas positivas e de uma mediana.

Como alguns dos prêmios que eu citei acima sugerem, I Am Not a Witch é o primeiro longa-metragem da diretora Rungano Nyoni. Ela começou a carreira como diretora com o curta 20 Questions, em 2009. Depois, ela dirigiu outros quatro curtas e um média-metragem com 1h de duração. Apesar de nunca ter feito um longa antes, a diretora acumula um número importante de prêmios: 47, até o momento. Ou seja, um nome a ser acompanhado. E um pequeno detalhe: Nyoni nasceu na Zâmbia, justamente no local em que o filme é rodado, em Lusaka. Ou seja, ela conhece bem aquela realidade.

Este é um filme coproduzido pelo Reino Unido, pela França, pela Alemanha e pela Zâmbia.

CONCLUSÃO: I Am Not a Witch nos fala de um universo muito diferente do nosso. Em um local em que crenças e tradições são utilizados por autoridades para explorar pessoas. Um filme bem narrado e que impacta desde o primeiro minuto mas que, depois, perde um pouco da sua força. Uma produção que trata sobre a exploração de humanos por outros humanos sem filtros – seja estes humanos cruéis turistas ou governantes. Um soco no estômago que conta com elementos que são importantes para o Oscar. Filme interessante, ainda que tenha lhe faltado uma conclusão um pouco melhor acabada.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Muitos apontam I Am Not a Witch como um dos filmes com boas chances de chegar entre os finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Ainda é cedo para saber ao certo se ele chegará lá porque, afinal de contas, este é apenas o segundo filme da lista de 86 produções que estão habilitadas para conseguir uma vaga entre as finalistas.

Acho sim que I Am Not a Witch tem alguns elementos que agradam à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de ter qualidades enquanto obra de cinema, esse filme tem uma criança como protagonista. E isso é sempre um atrativo para Hollywood. Falta ver diversas outras produções, mas inicialmente eu acharia até justo o filme chegar tão longe, a uma indicação, especialmente pelas críticas que ele faz.

Mas ganhar uma estatueta dourada? Bem, para isso, acho que falta a I Am Not a Witch um roteiro um pouco melhor. Nesse sentido, eu ainda prefiro o dinamarquês Den Skyldige, recentemente comentado por aqui. Acho Den Skyldige mais inovador e com um roteiro melhor acabado que I Am Not a Witch. Assim, eu votaria em Den Skyldige para receber a estatueta dourada. Mas não seria uma surpresa o dois chegarem entre os finalistas.

Den Skyldige – The Guilty – Culpa

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Saber ouvir é algo fundamental. E nem sempre tão simples quanto parece. Não basta apenas deixar a outra pessoa falar, mas saber fazer as perguntas certas e dar o espaço necessário para o outro. Agora, imagine tudo isso em questões que podem ser limite e/ou perigosas. É sobre isso e sobre outros temas que trata Den Skyldige, o primeiro filme habilitado para concorrer ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira que assisto e comento aqui no blog. Um filme incrível, envolvente e muito interessante. Den Skyldige demonstra, na prática, como um roteiro bom faz toda a diferença.

A HISTÓRIA: Um telefone toca. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) coloca os fones de ouvido com microfone para atender. Ele diz que fala da Central de Emergência. Ele tem que repetir a informação para que a outra pessoa peça socorro. Asger pede o endereço para o homem com quem ele está falando, Nikolaj. O homem só diz que está ficando sufocado, que não consegue respirar e que ele não está em casa. Mas não sabe dizer também onde está. Asger pergunta se ele tomou alguma droga. O homem confirma. Asger segue atendendo aos chamados, até que um deles lhe chama a atenção porque parece um sequestro. A noite do policial plantonista muda radicalmente a partir deste ponto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Den Skyldige): Fiquei encantada com esse filme. Devo dizer isso logo de início. Quem me acompanha aqui no blog há algum tempo sabe o quanto eu defendo um bom roteiro. Para mim, este é sempre o elemento mais importante de uma produção.

Depois, claro, como elementos importantes de um filme, vem uma boa direção, um ótimo trabalho de atores e outros fatores que variam de estilo de produção para outro estilo de produção – como efeitos visuais e especiais, edição, figurinos, trilha sonora e etc.

Mas sem um bom roteiro, dificilmente um filme se sustenta. E o que nós temos em Den Skyldige? Essencialmente, um ótimo roteiro, mérito do diretor Gustav Möller e de Emil Nygaard Albertsen. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque o filme, convenhamos, se passa todo em um mesmo ambiente, em um andar com diversas mesas, computadores e telefones em que um grupo de pessoas atendem à chamados de emergência e dá prosseguimento para estes pedidos de ajuda.

Durante grande parte do tempo, a câmera do diretor Gustav Möller está focada no protagonista desta história, o ótimo ator Jakob Cedergren. Ele interpreta a Asger Holm, um policial que foi afastado das ruas enquanto é investigado pela morte de uma pessoa durante um de seus dias de serviço. O roteiro de Möllere de Albertsen mergulham na cabeça desse policial, que vive uma noite especialmente tensa por diversas razões.

Primeiro, porque ele está literalmente na véspera de ter a sua vida decidida. No dia seguinte, ele será julgado pela morte de uma pessoa. Esse julgamento poderá acabar com a carreira dele ou fazer com que ele volte para as ruas – essa segunda opção é evidentemente o que ele deseja. Aqui e ali, durante a narrativa, ficamos sabendo mais detalhes sobre o protagonista.

Ele ter sido afastado das ruas cobrou um preço alto de Asger. Inclusive a mulher dele saiu de casa e, aparentemente, ele se afastou de outras pessoas próximas. Ele vivencia essa pressão na noite em que a narrativa acontece. Mas o mais interessante do filme não é apenas revelar a personalidade do protagonista pouco a pouco, mas mostrar a rotina cheia de desafios de quem desempenha aquela função de atender a chamados de emergência.

Essencialmente, ouvimos a três casos de emergência atendidos por Asger naquela noite. Nos dois primeiros, ele deixa claro que tem uma postura que é típica de muitos policiais. Ou seja, eles se preocupam com as pessoas, querem ajudar, mas não deixam de “julgar” no processo. Assim, ele é um tanto irônico e crítico com o sujeito que está em perigo porque se encheu de drogas e com um outro sujeito que foi roubado por uma prostituta.

Mas a terceira ligação que ele recebe acaba mudando toda a noite de Asger e remetendo os espectadores desse filme em uma trama envolvente e angustiante. Cada linha do roteiro foi pensada de forma precisa para nos levar em uma montanha-russa de emoções e sensações. Conseguimos nos colocar facilmente no lugar de Asger, que não pode sair para as ruas para tentar ajudar a Iben (voz de Jessica Dinnage), mas está trancado naquele ambiente em que ele só tem a fala, a psicologia e o seu conhecimento prático como policial como recursos à seu favor.

Não ver os fatos acontecendo, apenas ouvir a ação e imaginá-la tem um efeito muito forte em quem assiste ao filme. É o mesmo envolvimento e a mesma emoção de quando estamos lendo a um ótimo livro. Isso diferencia Den Skyldige da maioria das produções que assistimos e que utilizam, como é típico do cinema, a imagem como um de seus principais recursos.

Assim, de forma muito inteligente, Möller subverte a própria lógica “natural” do cinema para nos apresentar uma história cheia de originalidade. Pouco a pouco, vamos nos envolvendo no sequestro de Iben e em todos os fatos que envolvem aquela situação. O filme apresenta algumas reviravoltas interessantes, sendo algumas delas um tanto previsíveis, enquanto outras são realmente impactantes.

Den Skyldige apresenta alguns questionamentos interessantes. Primeiro, que não são apenas policiais que, diante de alguns fatos, julgam aos demais sem ter detalhes sobre o que está acontecendo com estas pessoas. Nós também fazemos isso, mesmo que não notemos isso com a frequência que deveríamos.

Depois, esta produção mostra como podemos fazer leituras equivocadas dos fatos com uma certa facilidade. Mesmo bem treinado e experiente, Asger Holm também se equivoca com a história de Iben. E quais são as razões para os erros do protagonista? Primeiro, claro, o seu próprio “background” e experiência de vida e na profissão.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O mais comum, claro, é que um marido que não deseja a separação e que foi separado dos filhos acabe perdendo o controle e, ao sentir-se “proprietário” da ex-mulher, aja de forma violenta com ela e até com os filhos. Diversas histórias da vida real nos mostra essa possibilidade. Diante destes fatos, Asger Holm inicialmente acredita na versão de que Iben é a vítima e de que o ex-marido dela é o vilão da história.

Mas perto do final, ele descobre que esta interpretação dos fatos não era verdadeira. Na verdade, todos eram vítimas naquela história, inclusive Iben, que passava por uma crise – provavelmente de esquizofrenia. Ao tentar ajudar, Asger Holm ultrapassa em muito a sua função, naquela atividade que estava desempenhando e, por muito pouco, acaba não piorando ainda mais toda a situação.

Isso nos faz pensar sobre a nossa própria interpretação dos fatos e em como as nossas ações podem melhorar ou piorar os acontecimentos. Den Skyldige nos apresenta isso de forma bastante franca, direta e envolvente. Além de nos fazer refletir sobre os nossos pré-julgamentos, a interpretação que fazemos dos fatos – e que pode estar equivocada – e sobre a nossa responsabilidade sobre como influenciamos a realidade alheia, esse filme também nos faz refletir sobre o nosso próprio “background”.

O quanto esse “background” nos define ou nos limita? O quanto colocamos esse background em questão quando somos confrontados com situações ou fatos novos? No caso do protagonista de Den Skyldige, o background dele é bastante determinante para as suas ações no caso de Iben. Ele se sente culpado pela morte que causou e, por causa disso, se vê especialmente envolvido por um outro caso em que ele sente que poderá fazer a diferença.

Então o que separa vilões ou bandidos de heróis? Por muito pouco, Asger Holm não coloca mais uma morte na sua consciência. E isso porque ele queria apenas ajudar. Assim, Den Skyldige nos mostra que, muitas vezes, não importa o quanto estejamos “revestidos” de boas intenções. O nosso background e os nossos julgamentos equivocados podem sim nos tornar vilões de uma história.

A vida é frágil e nós somos limitados. Podemos não admitir isso com a frequência que deveríamos, mas sim, somos bastante limitados. A nossa compreensão é limitada. A nossa capacidade de fazer o bem, também. Den Skyldige acerta em cheio ao nos fazer refletir sobre tudo isso. E sem discursos ou seguindo uma fórmula conhecida, mas nos apresentando uma narrativa muito interessante, envolvente e original.

Com esse filme, tive um belo começo nessa trajetória de buscar conferir ao máximo de filmes que estão concorrendo a uma vaga no próximo Oscar. Sim, o Oscar é uma premiação cheia de interesses da indústria do cinema dos Estados Unidos e a premiação nem sempre reconhece os melhores filmes na disputa. Mas através do Oscar, conseguimos conhecer a vários filmes interessantíssimos. Esse é o caso de Den Skyldige.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se você assistiu a esse filme e leu essa crítica, pode estar pensando: “Mas se ela gostou tanto do filme, por que não deu uma nota maior para ele?”. Admito que eu pensei em dar a nota para este filme. Pensei algum tempo em dar 10 para Den Skyldige. Mas acabei não fazendo isso por uma razão, especificamente.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A narrativa é muito bem construída, a direção é interessante e o trabalho do protagonista é fenomenal, mas eu achei um pouco “exagerado” aquele final da produção. A tomada de consciência de Iben e a perspectiva dela se matar tornam o filme mais complexo, mas também um tanto dramático além do desejado. Sem contar que ela ter se salvado, digamos assim, não seria o mais previsível. Parece que os roteiristas resolveram “aliviar” a barra do protagonista nos minutos finais. Por um lado, isso é interessante, porque é a “surpresa” final do filme. Mas, por outro lado, torna o desfecho um tanto dúbio – ele realmente é um “herói”? Para mim, Den Skyldige perde alguns décimos de ponto naquela reta final.

A grande qualidade de Den Skyldige é o seu roteiro, sem dúvida alguma. Um grande trabalho de Gustav Möller e de Emil Nygaard Albertsen. Eles cuidam de cada frase, de cada detalhe da ação. Um grande trabalho, sem dúvida. Gustav Möller também merece parabéns pela sua direção. Afinal, não é fácil tornar uma narrativa atraente tendo, basicamente, uma câmera e um ator em cena, e apenas isso. As escolhas dele de ângulo e a forma com que ele posiciona a sua câmera, variando os detalhes conforma a narrativa se desenrola, mostra todo o talento do diretor. Um grande trabalho, sem dúvida.

Esse é um filme de um homem só, praticamente. Sim, temos um ou outro personagem que aparece por poucos segundos em cena, assim como temos as vozes das pessoas com quem Asger Holm fala durante a produção mas, essencialmente, Den Skyldige tem apenas um ator em cena: Jakob Cedergren. Agora, imaginem se ele fosse um ator ruim. Não conseguiríamos assistir a esse filme até o final, mesmo que o roteiro fosse ótimo. Então sim, outra grande qualidade deste filme é o trabalho de Cedergren. Grande ator! Um prazer vê-lo em um papel como esse, que valoriza tanto o seu talento.

Além de Jakob Cedergren, aparecem em cena, com participações/”interferências” muito rápidas, os atores Morten Thunbo, Maria Gersby e Anders Brink Madsen, todos operadores da sala de emergência, assim como Asger Holm.

Ainda que não apareçam em cena, vale comentar o bom trabalho de outros atores que interagem com o protagonista, mas que “aparecem” no filme apenas com as suas vozes: Jessica Dinnage como Iben; Omar Shargawi como Rashid, ex-colega de farda do protagonista; Johan Olsen como Michael, ex-marido de Iben; Jacob Lohmann como Bo, que era chefe de Asger; Katinka Evers-Jahnsen como Mathilde, filha de Iben e Michael; e Jeanette Lindbaek como a atendente de Nordsjaelland. Eles são importantes para a evolução da história, ainda que conferimos as suas interpretações apenas por suas vozes.

Entre os aspectos técnicos deste filme, destaque para a edição de Carla Luffe Heintzelmann e para a direção de fotografia de Jasper Spanning. Também merece ser mencionado o trabalho de Gustav Pontoppidan no design de produção.

Den Skyldige estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 27 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme conquistou 14 prêmios e foi indicado a outros 14. Desta lista de prêmios, vale comentar o prêmio de World Cinema – Dramatic dado pelo público do Festival de Cinema de Sundance para Gustav Möller; o Critic’s Choice Award para Gustav Möller no Festival de Cinema de Zurique; e o Golden Blogos Award para Gustav Möller e o prêmio de Melhor Roteiro dados no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

Fiquei curiosa para saber mais sobre o roteirista e diretor Gustav Möller. Pesquisando sobre ele, vi que Den Skyldige é o seu primeiro longa-metragem. Olhem só! Antes, ele tinha apenas dirigido a um curta e a dois episódios de uma série de TV. Ou seja, eis um nome que merece ser acompanhado. Acho que ele pode nos surpreender bastante ainda.

Com Den Skyldige eu abro a série de críticas que procuram antecipar alguns dos principais concorrentes ao Oscar 2019. Den Skyldige é o representante da Dinamarca no prêmio da Academia da Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de Den Skyldige, outros 85 filmes de diferentes países procuram uma vaga entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Bóra lá conferir ao máximo de filmes possíveis que tem alguma chance no Oscar a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 74 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que garante para Den Skyldige uma aprovação de 99% e uma nota média 8. No site Metacritic, Den Skyldige apresenta um “metascore” de 83, fruto de 23 críticas positivas. Além disso, o filme apresenta o selo “Metacritic Must-see”. Notas muito boas e acima de média dos sites.

Den Skyldige é uma produção 100% da Dinamarca.

CONCLUSÃO: Um filme que consiste, basicamente, em um ator falando com pessoas por telefone. Aparentemente, esse filme pode se enfadonho, mas isso é tudo que Den Skyldige não é. Mais uma vez o cinema dinamarquês nos apresenta uma ótima história, com um roteiro exemplar e um excelente trabalho do protagonista. Um filme envolvente, angustiante e que mexe com qualquer pessoa que consiga se colocar no lugar das pessoas que fazem parte desta história. Criativo, realista e bastante humano, nos apresenta uma história diferenciada e que merece ser conferida.

PALPITE PARA O OSCAR 2019: Claro que é cedo para ter uma aposta mais certeira na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeria. Afinal, Den Skyldige é o primeiro filme de uma lista com 86 títulos que buscam uma vaga no Oscar 2019 que eu assisto. Mas desde já eu posso dizer que vejo esse filme com um grande potencial para chegar até os cinco finalistas nessa categoria que costuma ser uma das melhores e uma das mais concorridas do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Para o meu gosto, mesmo sem ter assistido a nenhum outro filme na disputa ainda, posso dizer que Den Skyldige merecia estar entre os indicados e que não seria injusto se ele levasse a estatueta para casa. Por todas as razões que eu comentei antes, esse filme é muito bem acabado e surpreendente. Ele funciona muito bem, apresenta uma narrativa realmente original e tem uma duração perfeita. Depois de assisti-lo, terei uma régua alta de comparação com os próximos filmes que eu iriei assistir.

Então sim, acho que Den Skyldige pode chegar entre os cinco finalistas em Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019 e que pode até vencer nesta categoria. Veremos o que eu vou achar sobre estes aspectos depois de ter assistido aos concorrentes dele.