The Autopsy of Jane Doe – A Autópsia

Pensa em um filme sinistro. Agora, multiplica esse tom sinistro algumas vezes. Este é um bom termômetro de The Autopsy of Jane Doe, um filme praticamente todo ambientado em um necrotério. Os detalhes de mais de uma autópsia (mas especialmente de uma) são mostrados nesta produção, assim como alguns outros corpos que não chegam a ser “destrinchados”. Então se você não tem problema com cenas fortes e um pequeno par de sustos, este pode ser um bom filme para você.

A HISTÓRIA: Em uma casa comum na cidade de Grantham, na Virgínia, legistas e policiais examinam um cenário variado de crimes. Pouco a pouco vamos vendo cada um dos corpos. De um casal de idosos, chegamos no segundo andar ao corpo de uma mulher negra. O xerife Burke (Michael McElhatton) olha todas as vítimas e, pela janela do segundo andar, vê que uma equipe de televisão chegou. Neste momento ele é chamado para descer para o porão. Lá ele vê um outro corpo, semi enterrado. Ela é a única da casa que não tem relação com a família e nem identidade, por isso ela é chamada pela equipe como Jane Doe (nome para Desconhecida, “interpretada” por Olwen Catherine Kelly).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Autopsy of Jane Doe): Sim, eu já assisti a vários filmes de terror e de suspense. Então ver corpos sendo cortados e destrinchados não é algo totalmente novo. Ainda assim, admito que este The Autopsy of Jane Doe me impactou. Como um filme que tem como protagonistas pai e filho habituados a autópsias deve fazer, é claro.

Honestamente, gostei muito da narrativa desta produção. O diretor André Ovredal e os roteiristas Ian B. Goldberg e Richard Naing não perdem tempo. O que sempre é algo positivo para qualquer produção, especialmente para uma de terror e suspense. A narrativa é muito bem construída. Logo de cara somos apresentados a uma cena com diversas mortes. Na sequência, começamos a nos “familiarizar” com os protagonistas desta história, Tommy (Brian Cox) e o filho Austin (Emile Hirsch).

Praticamente o filme inteiro é focado nos dois e ambientado no local de trabalho deles, a funerária/necrotério da família. Tommy e Austin tem uma relação interessante e que ajuda a dar “caldo” para a produção além da trama envolvendo a tal Jane Doe. Ovredal tem que ser bom para fazer um filme com quase uma hora e meia de duração que é quase todo ambientado no sótão de uma residência.

Este é o típico filme em que você está esperando sempre levar um belo de um susto. Admito que eu levei apenas um, de verdade, e depois fiquei “gato escaldado” para me preparar para as ciladas seguinte. O susto que fez os meus batimentos cardíacos acelerarem um pouco foi quando Emma (Ophelia Lovibond) aparece pelas costas de Austin e dá um susto no namorado. Aquela “aparição” eu não estava esperando. O restante dos “sustos” até dá para ficar preparado psicologicamente e “anulá-los”, digamos assim.

Então The Autopsy of Jane Doe, ao menos para mim, não foi um filme de muitos sustos. Mas não acho que isso seja um problema. Como há muitas e muitas cenas de gente morta e, especialmente, detalhes mórbidos sobre como as pessoas morreram e/ou foram feridas, esta tensão é o que acaba contando para o espectador. Além disso, o roteiro da dupla Goldberg e Naing prende a atenção naturalmente.

Muito bem escrito, o texto deles convence pelas explicações “científicas” envolvendo a tal autópsia que dá título à produção. De forma inteligente, eles nos colocam ao lado de Tommy e Austin. Junto com os protagonistas, vamos conhecendo os detalhes da autópsia de Jane Doe e as possibilidades do que aconteceu com ela. Algo que eu achei fundamental para este filme dar certo foi a narrativa ir crescendo pouco a pouco sem que o espectador perca as cenas iniciais.

Explico. Conforme a “magia” vai acontecendo com pai e filho, não é difícil lembrar da cena dos mortos que abriu a produção. Todos estavam dentro de casa, aparentemente não houve nenhuma invasão e, ainda assim, todos estavam mortos. Ora, se todos morreram, foi porque uns mataram os outros e/ou se mataram. Como uma policial bem pondera, parece que eles estavam tentando fugir. Conforme as cenas sinistras e um tanto “sobrenaturais” vão acontecendo ao redor da autópsia de Jane Doe, lembramos daqueles fatos iniciais.

Como temos um produto de sucesso chamado The Walking Dead no imaginário, pensar em “mortos-vivos” perseguindo alguém atualmente não é mais tão assustador. Verdade que não sabemos exatamente o ano em que esta história está acontecendo, mas aparentemente matar um “morto-vivo” não é tão complicado assim.

Isso é o que muitos de nós pensamos, assim como isso parece passar pela cabeça de Tommy. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí está uma boa pegada desta produção. A grande explicação sobre Jane Doe torna tudo pior. A bruxa “enlouquece”/manipula as pessoas que ela quer destruir. Eles acabam vendo o que não está acontecendo e, sem se darem conta, acabam atacando uns aos outros. É assim que eles são mortos. Ninguém realmente está sendo perseguido por “mortos-vivos”, mas por uma magia da qual eles não tem como escapar.

Ou seja, o terror de The Autopsy of Jane Doe é o pior possível. Porque quando existe um Mal contra o qual podemos lutar ou combater, tudo certo. Mas quando esse Mal nos engana, nos ilude e nos faz errar de maneira fatal, não há como correr ou se defender. A narrativa crescente e o “grand finale” do filme são muito interessantes porque convencem. No final, faz sentido o porquê do corpo de Jane Doe estar perfeito do lado externo. Ela sempre estará perfeita, ainda que tenha “muito trabalho” para ser feito até se vingar de tudo pelo qual passou.

Aliás, essa talvez seja uma dúvida que fique para muitas pessoas. Afinal, qual é a “moral” da história ou qual é a “missão” de Jane Doe? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Tommy descobre bem na reta final da produção (e da própria vida dele), Jane Doe está “viajando” em busca de vingança. Ela foi bastante torturada e passou por agressões incríveis antes de morrer e, aparentemente, está migrando para o “Sul” para fazer as pessoas passarem pelo que ela passou. Pelo roteiro, conclui que ela está buscando os “herdeiros” de seus algozes. Pessoas como Tommy e Austin são mortas no processo, apenas, assim como tantas outras até que ela encontre a sua vingança final.

Esta é uma forma de encarar a história, mas certamente existem outras interpretações que também podem estar corretas. De qualquer forma, achei interessante como os realizadores resgataram um tipo de personagem histórico que desperta sempre tanta polêmica e interesse para torná-lo algo contemporâneo e assustador de uma forma totalmente diferente. Foram criativos e realizaram muito bem esta produção. Claro que para isso Ovredal contou com dois atores ótimos, Brian Cox e Emile Hirsch. Sem dúvida eles tem grande parte do mérito deste filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino dos filmes de terror/suspense, a trilha sonora de Danny Bensi e de Saunder Jurriaans, assim como o departamento de som com 10 profissionais são dois personagens à parte. Em cada momento de tensão e nas cenas em que o “bicho pega”, estes profissionais dão um show. Os sustos (ou tentativas de assustar) desta produção não seriam os mesmos sem a trilha sonora e os efeitos sonoros. Grande trabalho.

Da parte técnica do filme, gostei e destaco também a direção de fotografia de Roman Osin; o departamento de maquiagem que faz um trabalho difícil e fundamental (profissional, sem nada parecer fake) composto por Bella Cruickshank, Alex Harper, Jemma Harwood, Ailsa Lawson, Kristyan Mallett, Victoria Money e Lisa Pemberton; os efeitos especiais de Sophie Bramley, Neil Jenkins, Scott McIntyre e Eddy Popplewell; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais. Muito boa também a edição de Peter Gvozdas e de Patrick Larsgaard e o design de produção de Matt Gant.

Como eu comentei antes, o trabalho de Brian Cox e de Emile Hirsch é fundamental para o sucesso deste filme. Os dois convencem em seus respectivos papéis, especialmente em convencer a audiência sobre a intimidade e o afeto que unem os personagens principais de pai e filho. Mas, além deles, há também coadjuvantes que fazem um bom trabalho. Destaco, neste sentido, o bom trabalho de Ophelia Lovibond como Emma e o de Michael McElhatton como o sheriff Burke. Ainda tem destaque no filme o gato Sydney, que “interpreta” Stanley.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O diretor norueguês André Ovredal ficou inspirado em fazer um filme de terror depois que ele assistiu a The Conjuring (a crítica sobre ele você encontra aqui). Logo depois de assistir ao filme, Ovredal ligou para o agente dele e pediu que ele encontrasse um bom filme de terror para ele dirigir. Um mês depois desta conversa, o agente de Ovredal lhe apresentou o roteiro de The Autopsy of Jane Doe, e o diretor topou o projeto. Realmente o roteiro mereceu sair do papel.

Inicialmente, o ator Martin Sheen iria interpretar Tommy. Mas por causa de conflitos de agenda, ele teve que deixar o projeto. Não sei como ele teria se saído no papel, mas gostei muito do trabalho de Brian Cox na produção.

Achei interessante o comentário que Stephen King fez sobre o filme: “The Autopsy of Jane Doe é um terror visceral que pode rivalizar com Alien e com o Cronenberg em início de carreira. Assista, mas não sozinho”. Eu assisti ao filme sozinha, e por isso achei ele tão interessante/impactante. Realmente o filme tem “pegada” e estilo.

A música que toca em diversos momentos do filme fala sobre os Flinstones. O nome da canção é “Let the Sunshine In”, interpretada pelos Pebbles.

Duas outras curiosidades interessantes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena favorita do filme para o diretor foi a do elevador em que Brian Cox e Emile Hirsch falam sobre a morte da esposa de Tommy e mãe de Austin. “Eu apenas coloquei a câmera e nós assistimos a uma performance fantástica de Brian Cox e de Emile Hirsch”, comentou André Ovredal. E a cena que o diretor mais teve orgulho de fazer foi a da descoberta das inscrições sob a pele de Jane Doe. Realmente as duas sequências são alguns dos grandes momentos da produção.

Este é apenas o quinto filme dirigido por André Ovredal. Antes ele dirigiu a dois curtas e aos longas Future Murder, que marcou a estreia dele na direção no ano 2000, e Trolljegeren, de 2010. Foi por este segundo filme que ele foi reconhecido com 10 prêmios.

The Autopsy of Jane Doe foi totalmente rodado em Londres. O filme é uma coprodução do Reino Unido e dos Estados Unidos – por causa deste segundo país este texto entra para a lista dos que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Esta produção ganhou cinco prêmios e foi indicada a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme de Terror no Austin Fantastic Fest; para dois prêmios como Melhor Filme no Fantastic Fest; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Monster Fest; e para o Prêmio Especial do Júri no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 críticas positivas e 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 6,8. Este é um raro empate entre as opiniões de público e crítica. Só achei as notas um tanto baixas. Ou eu que fiquei entusiasmada demais com o que eu vi, não sei…

CONCLUSÃO: A história de The Autopsy of Jane Doe é simples, se pararmos para pensar. Mas isso não impede que a experiência seja bastante interessante – e assustadora. Aliás, há tempos eu não assistia a um filme que me deixasse realmente “impactada” em alguns momentos, seja pelo que vai aparecendo em cena, seja pelo que fica sugerido pela história. Com um roteiro interessante e algumas boas sacadas, The Autopsy of Jane Doe é um dos melhores filmes do gênero que eu vi nos últimos tempos. Se você gosta de filme de terror pra valer, provavelmente vai gostar desta produção.

Anúncios

Lone Survivor – O Grande Herói

lonesurvivor3

Muitos filmes de guerra flertam com o patriotismo exagerado. Bom e protegido por Deus é aquele que defende o nosso país, e o mal está do lado do inimigo. Defender bandeiras é algo comum neste gênero. E mesmo sem escapar desta característica, que normalmente eu acho prejudicial, Lone Survivor surpreende pelo realismo, a ótima direção de Peter Berg e uma história que faz homenagens. Não apenas aos combatentes que viram “irmãos” mas, principalmente, ao senso de justiça e de honra. Baita filme, e que mereceu a bilheteria que fez nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Um soldado é retirado da água fria e lhe perguntam o quanto é seis vezes três. Ele treme. Outro soldado, também tremendo, responde 18. Em seguida, várias cenas de treinamento pesado, muitas que levam os soldados até o esgotamento físico e mental. Há quem veja ali imagens de tortura – especialmente as cenas da técnica “impossível de respirar”. Todos são ensinados a não desistir. Depois, a informação de que a trama que se segue é baseada em uma história verídica. Afeganistão. Pouco a pouco, um helicóptero se aproxima.

Dentro dele, o soldado Marcus Luttrell (Mark Wahlberg) está muito ferido e recebendo atendimento médico. Enquanto a ação se desenrola, ouvimos Luttrell falando da tempestade que cada um carrega dentro de si, sobre a necessidade de cada soldado ser empurrado até o extremo. Em seguida, a ação volta três dias no tempo, quando Luttrell e seus companheiros partem para uma missão arriscada e que vai se mostrar de grande sacrifício.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lone Survivor): As primeiras cenas deste filme me preocuparam. Isso porque elas me pareceram um preâmbulo para dizer que todos os exageros praticados na preparação dos soldados é justificado. Inclusive a polêmica técnica “impossível de respirar”, que leva os soldados a mergulharem em uma piscina totalmente imobilizados, considerada por muitos uma espécie de tortura, poderia fazer parte de um treinamento necessário segundo o filme dá a entender. Conforme a história vai passando, fica evidente que aquelas cenas reais no início da produção fazem parte do conjunto da obra para explicar o que virá. A surpresa não está na justificativa, propriamente, mas no que veremos no decorrer da história.

Como pede a técnica utilizada por muitos roteiristas, Lone Survivor gasta os primeiros minutos da produção para mostrar um pouco da “vida comum” dos Navy SEALs – a elite da Marinha dos Estados Unidos – antes de mergulhar na ação propriamente dita. O primeiro acerto deste filme é que ele não gasta muito tempo com a “introdução trivial”. Há um pouco de humor ali, um pouco de “humanização” dos personagens centrais, mas nada que comprometa muito da narrativa. Afinal, o que realmente importa é a ação.

Logo o espectador é apresentado para os detalhes da missão liderada por Michael Murphy (Taylor Kitsch). Ele vai para a missão de reconhecimento em um terreno íngrime no Afeganistão junto com Matt Axelson (conhecido como Axe, interpretado por Ben Foster), responsável por registrar os alvos; Danny Dietz (Emile Hirsch) responsável pela comunicação com abase; e Marcus Luttrell nos cuidados com os mantimentos/suprimentos.

Funciona muito bem a forma com que o diretor e roteirista Peter Berg apresenta a missão do grupo de quatro Navy SEALs. Isso porque o espectador guarda os indicativos que vão servir para aqueles soldados enviados em uma missão de reconhecimento para identificar os alvos: Ahmad Shah (Yousuf Azami), comandante sênior do Talibã, em primeiro lugar e, como segundo alvo, o braço direito dele, Taraq (Sammy Sheik). Os nomes de marcas de cervejas para marcar os diferentes estágios da missão e o nome do cantor de funk e soul norte-americano Rick James representando Shah são fáceis de lembrar e ajudam o espectador a começar a sua própria torcida.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ainda que o título original desta produção seja muito sugestivo (Lone Survivor significa, em uma tradução livre, Único Sobrevivente) e que fique subentendido que o personagem de Mark Wahlberg deve ter sido o único sobrevivente daquela missão de reconhecimento, conforme a história vai se desenrolando, o espectador é levado a torcer para aqueles homens incansáveis. E aí, quando naquela missão as coisas começam a dar errado, você aprende o significado da paciência. Afinal de contas, é preciso lutar e esperar pelo próximo golpe antes de revidar já que, não se esqueça, tudo pode piorar.

E neste quesito que Lone Survivor se revela um esplendor de cinema de guerra e de ação. Porque quando a artilharia começa, o espectador é lançado a uma eletrizante sequência de luta que fala muito sobre a persistência do ser humano em tentar sobreviver e atingir os seus objetivos. E no caso daqueles homens, com o objetivo principal tendo se esvanecido – capturar e/ou matar as lideranças do Talibã -, o que passa a ser prioridade é cuidar da vida dos companheiros de farda e tentar sobreviver, voltando para casa assim que possível.

Mas a vida daqueles soldados vira um inferno. E tudo começa porque, caramba!, a comunicação falha. Não adianta o investimento bilionário de todos os anos, há regiões ermas deste mundo em que a tecnologia existente não é capaz de solucionar as limitações provocadas por montanhas de diferentes envergaduras.

Mesmo baseado em uma história real, achei interessante como o roteiro de Berg, inspirado no livro de Marcus Luttrell e Patrick Robinson, não maquia esta “falha de recursos” dos Estados Unidos. E mesmo depois, quando a história está na reta final, Lone Survivor não esconde que o erro de estratégia do comando, ao enviar os helicópteros de apoio para outra missão antes de saber se a equipe de reconhecimento iria passar por algum aperto ou se estava segura. Houve falhas na operação, não há dúvidas, e o roteiro deste filme não as desmente ou encobre.

Para mim, o primeiro grande momento de Lone Survivor é quando Marcus Luttrell, Danny Dietz e Matt Axelson discutem o que eles devem fazer com os pastores de cabras naquela montanha do Afeganistão. A lógica pedia que a recomendação de Dietz e Axe fosse seguida, ou seja, que eles deveriam deixar eles amarrados ou eliminar a ameaça. Caso fizessem isso, a missão prosseguiria e eles estariam seguros – pelo menos, em teoria. Mas Luttrell argumenta diferente, e pede que Michael Murphy respeite as regras da guerra e dos direitos humanos, não importando o que poderia acontecer com eles na sequência. O medo dos soldados, claro, era que aqueles pastores os dedurassem para os inimigos.

Só achei a sequência da discussão um pouco longa e “politicamente correta” demais. Será mesmo que eles ficariam tanto tempo argumentando até que Murphy tomasse a decisão? Acho que uma situação como aquela pediria uma resposta mais rápida. Ainda assim, é um momento decisivo do filme – porque, entre outras coisas, mostra o sentido de honra por parte dos Navy SEALs – eles fazem o correto, apesar de saberem o preço que podem pagar na sequência.

Mesmo que este momento seja importante, para mim o filme começa a impressionar de verdade e a mostrar como ele é diferente de qualquer outro do gênero quando, acuados pela primeira vez, decidem “sair” daquela situação em queda livre. Uau! O que foi aquela sequência? Decisiva para a história e de cair o queixo. Mas ela seria apenas a primeira de muitas cenas que mostraram a bravura, coragem e determinação daqueles soldados. Para eles, não havia dor e nem sentimento de derrota. Eles iriam até o fim, até o ponto em que não pudessem aguentar mais.

Até chegar naquele ponto, tentariam matar ao máximo de inimigos. E fizeram muito estrago. Apesar disso, Lone Survivor não é um filme em que todos os “mocinhos” se saem bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E o protagonista mesmo, só sobrevive porque Gulab (Ali Suliman), literalmente, lhe estende a mão. E daí que aprendemos uma outra lição sobre honra. Ensinamento este que será compreendido apenas se você ficou assistindo o que veio após as cenas de ação finais. Lone Survivor mergulha na homenagem aos homens reais que viveram esta história e, só então, explica a razão de Gulab ajudar a Marcus Luttrell – para mim, um grande acerto dos realizadores. Afinal, eles mantém a dúvida dos espectadores até o último minuto, mas não deixam de dar uma explicação para o que havia acontecido.

Mas antes disso tudo acontecer, há uma outra sequência que torna este filme eletrizante e diferenciado. Praticamente derrotados, Marcus e Axe comemoram quando a “cavalaria” chega pelos ares. Eles – e nós por tabela – chegamos a pensar: ufa, a salvação será possível! E aí, meus caros, acontece mais uma surpresa no filme. Imagens realistas, sem dúvida, assim como todas as outras para as quais somos apresentados. Aliás, uma qualidade do trabalho de Berg é dirigir de uma forma com que você se sente um “companheiro” ao lado dos Navy SEALs. Forma muito eficaz de imersão do espectador – e o diretor dá uma aula neste quesito, mantendo a câmera sempre perto dos atores e se movimentando muito com eles.

Na reta final, finalmente, tive o meu temor sobre este filme ser um grande libelo ufanista sobre os combatentes dos Estados Unidos praticamente todo eliminado. Claro que grande parte da produção é para mostrar a entrega deles. Mas o final de Lone Survivor redime qualquer leitura injusta dos “inimigos” ao mostrar que, além dos extremistas, existem pessoas comuns que não querem ver as suas famílias sendo exterminadas por conflitos que eles não concordam.

E a exemplo de Murphy, que decide fazer o certo independente do preço que eles e seus companheiros iriam pagar, Gulab também decide fazer o certo, mesmo sabendo que poderia morrer e que todos em seu vilarejo poderiam ter o mesmo fim. Desta forma, com uma direção eletrizante e competente e uma história que tem algumas surpresas cruciais, Lone Survivor nos ensina um bocado sobre o senso de dever, de fazer o que é certo e justo. Em outras palavras, o senso de honra. Bacanérrimo.

Agora, apesar de todas as qualidades deste filme, ele não recebe a nota máxima porque, de fato, acho que ele justifica demais alguns absurdos na postura dos “heróis norte-americanos”. Ainda que eles busquem fazer o que é certo, dá para perceber um certo controle de “vou matar todos vocês” quase todo o tempo, não importante quem seriam, exatamente, aquele “todos vocês”. E ainda que os soldados sejam levados ao extremo nos treinamentos para estarem preparados para batalhas como aquela vivida pela equipe de Murphy, jamais eu vou achar que a tortura seja justificável. Uma coisa é a hora da batalha, quando as pessoas devem se superar, outra é a de preparação para aquele momento.

De qualquer forma, e descontados os exageros no patriotismo, Lone Survivor nos traz valiosos ensinamentos sobre honra, senso de lealdade, capacidade de superação e de ultrapassar os próprios limites do corpo, da dor e da mente. Inspirador. E faz refletir. Além de ser um ótimo entretenimento, com uma ação muito bem planejada – dando os devidos momentos para a adrenalina e para as sequências lentas e de contemplação/reflexão. Quase irretocável.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei da escolha dos realizadores deste filme por apostarem 90% da produção (ou mais) na dinâmica do grupo de reconhecimento enviado para capturar/matar as lideranças do Talibã. Concentrar a ação naqueles personagens dinamiza a história e torna mais fácil estimular o espectador para torcer pelos atores – que, aliás, fazem um grande trabalho. Ainda assim, acho que faltou um pouco mais de “conteúdo” sobre os bandidos que deviam ser combatidos.

Esta produção me surpreendeu por ter elementos que podem interessar tanto ao público masculino quanto ao feminino. O primeiro é fisgado não apenas pelas ótimas cenas de combate e de ação, mas também pelas piadinhas feitas com o novato Shane Patton (Alexander Ludwig). O segundo público vai gostar das sequências iniciais, quando o belo elenco ainda não está detonado, achará interessante a dancinha de Shane e seguirá com atenção os bonitões em cena – mesmo quando eles estiverem bem destruídos. Como eu gosto de todos os estilos de filme, gostei de Lone Survivor por todos estes quesitos e todos os demais que eu comentei anteriormente. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho do diretor Peter Berg. Ele dá um show na forma de conduzir a história, dando não apenas realismo para ela, mas também cuidando para não fazer de Lone Survivor apenas mais um filme de guerra cheio de tiroteio. Ainda que haja muitas sequências deste gênero, o diretor também valoriza o trabalho dos atores, da equipe de maquiagem e do diretor de fotografia, adicionando cenas de pura contemplação em diversos momentos.

Por falar na equipe técnica do filme, além do trabalho de Berg, merece uma longa reverência o trabalho do editor Colby Parker Jr., a direção de fotografia de Tobias A. Schliessler e a maquiagem feita pela equipe de nove profissionais liderados por Howard Berger e Geordie Sheffer. Outro ponto importante da produção e que funciona muito bem é a trilha sonora de Explosions in the Sky e Steve Jablonsky. Ainda que o forte do filme seja o som e a edição de som dos momentos de batalha, a trilha sonora entra em situações pontuais e que ajudam a alimentar a tensão/expectativa/torcida.

Lone Survivor estreou no Festival de Cinema da AFI em novembro de 2013. Esta foi a única participação do filme em eventos do gênero. Mesmo assim, a produção recebeu cinco prêmios e foi indicada a outros 12 – incluindo a indicação para dois prêmios no Oscar. Entre os principais estão o de Performance de Ação Marcante de Elenco no Screen Actors Guild Awards; e os de Melhor Filme de Ação e Melhor Ator em Filme de Ação para Mark Wahlberg entregues no Broadcast Film Critics Association Awards.

Para quem gosta de saber sobre o local de gravações dos filmes, Lone Survivor foi totalmente rodado no Novo México – com cenas externas e em estúdio na cidade de Albuquerque.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lone Survivor teria custado aproximadamente US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 124,6 milhões. Um belo resultado, e que deve ficar ainda melhor quando a produção estrear em outros mercados no mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Lone Survivor. Uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 textos positivos e 48 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,6.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos – sendo assim, ele entra para a lista de títulos que foram comentados aqui no site, daquele país, após uma votação feita com vocês, meus bons leitores.

Termino o texto inicial por aqui. Assim que possível, vou acrescentar algumas curiosidades sobre esta produção. Até logo!

ATUALIZAÇÃO (10/06): Colocando os links neste texto, algo que não fiz quando o publiquei, é que notei um esquecimento imperdoável. Não citei o bom trabalho do ator Eric Bana como o comandante Erik Kristensen. Falha minha! Mas corrigida agora. Bana está bem no papel, ainda que Kristensen não tenha grande relevância para a história – comparado com os quatro protagonistas.

CONCLUSÃO: Não fique surpreso se, mesmo tendo assistido a diversos filmes sobre guerras e ações promovidas pelos Estados Unidos, você ficar boquiaberto com Lone Survivor. Da minha parte, posso dizer: nunca vi a um filme como este. E isso não apenas porque esta produção é baseada em fatos reais – uma característica marcante dos indicados no último Oscar. Mas principalmente pela honestidade na narrativa. O roteiro é eletrizante, e a direção, exemplar. O filme envolve e surpreende e, apesar do patriotismo ianque – que, cá entre nós, acho cada vez mais justificável e compreensível -, rende a devida “homenagem” ao outro lado. Porque, afinal de contas, nem todos são inimigos no território inimigo. Se você gosta de filmes do gênero, não deve perder este.