Solo: A Star Wars Story – Han Solo: Uma História Star Wars

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Não é fácil contar a história de um personagem tão carismático e com tantos fãs como Han Solo. Honestamente, eu estava com a expectativa bastante baixa antes de assistir a Solo: A Star Wars Story. Primeiro, por causa do trailer do filme, que não me chamou muito a atenção. Depois, porque vi que as notas e o nível de avaliação do filme não tinham sido lá muito bons. Mesmo assim, fui conferir no cinema, e em 3D, mais essa produção com a marca Star Wars. O filme tem alguns problemas mas, no fim da contas, não é tão desastroso quanto eu esperava.

A HISTÓRIA: Começa com a frase clássica “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante…”. Mas aí a tradicional música de Star Wars não surge na nossa frente. O que vemos é uma introdução para a história. Nela, comenta-se que aquela é uma época sem lei, na qual sindicatos de ladrões disputam entre si. Em Corella, a chefe de um destes sindicatos é Lady, uma criatura implacável e cruel. Diversos jovens lutam para sobreviver naquele ambiente agreste. Um deles é Han (Alden Ehrenreich), que surge fugindo de bandidos em uma perseguição ao retornar de uma missão. Ele se encontra com Qi’ra (Emilia Clarke), o seu affair, e comenta com ela que agora eles tem o necessário para fugir. Antes, ele deve enfrentar Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e buscar uma rota de fuga que não mate o casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Solo: A Star Wars Story): Harrison Ford tem um carisma e um talento acima da média. Então comparar o ator que marcou mais de uma geração com o seu Han Solo e o trabalho de Alden Ehrenreich com o mesmo personagem não vai funcionar. Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que a comparação seja cruel por natureza. Evidentemente Harrison Ford é mais carismático e melhor ator.

Dito e superado isso, devo admitir que Alden Enrenreich até que encarna bem o personagem. Ao menos, conseguimos ver nele um Han Solo ainda mais “inocente” do que o personagem que conhecemos sob o talento de Ford. Uma das qualidades desse filme é justamente esta: conseguir transportar os fãs da saga Star Wars para o passado de alguns personagens importante da trilogia original sem que essa “viagem no tempo” pareça forçada ou descolada.

Para um filme como Solo: A Star Wars Story, que tem como objetivo introduzir o passado de um personagem importante para a saga, isso é fundamental. Então sim, os fãs não vão se sentir deslocados nesse filme dirigido por Ron Howard e com roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan. Para a história funcionar, evidentemente o protagonista mais jovem deve “dialogar” com o personagem clássico da saga. E isso acontece – para o alívio dos fãs.

O Han Solo de Alden Enrenreich apresenta algumas características que vamos encontrar, depois, no Han Solo de Harrison Ford. O estilo “bonachão” e aventureiro é um destes elementos que funciona nas duas fases do personagem. Vendo o que acontece com o protagonista neste seu “início” como mercenário, também podemos entender o lado desconfiado dele na trilogia original Star Wars.

Ele aprende bem, tanto com o mercenário e “mestre” na malandragem Beckett (Woody Harrelson em uma participação bastante interessante), quanto com a sua “apaixonite” Qi’ra, que o ideal é não confiar muito em ninguém. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beckett tem muitas qualidades mas, no final das contas, ele ensina para Han que cada um vai defender sempre “o seu” antes de ajudar alguém. Qi’ra, por sua vez, apesar de ter gestos positivos pontilhados aqui e ali, também se deixa seduzir pelo poder – algo muito comum em vários personagens da saga, aliás.

Com essas pessoas, Han Solo aprende um bocado. Entre outros pontos, aprende a desconfiar e a ser mais “esperto”. Depois, veremos estas características no personagem já na fase Harrison Ford. A origem daquele “jeitão” do Han Solo vemos em Solo: A Star Wars Story. Esta é a principal vantagem do filme e o principal “ganho” que o filme poderá dar para os fãs Star Wars. Com tanto filme ruim ou mais ou menos sendo feito por aí, agradecemos quando uma obra “derivada” do original se mostra coerente e respeitando as características dos personagens.

Dito isso, vamos falar sobre alguns pontos que não funcionam tão bem em Solo: A Star Wars Story. Para começar, me incomodou um bocado e me chamou a atenção o estilo escuro demais do início do filme. Ok que Han e Qi’ra viviam em um local com poucos recursos e aquela coisa toda, mas realmente as imagens precisavam ser tão escuras? Eu não acho que isso funcionou muito bem. E há outros trechos também mais escuros do que o desejado.

Além disso, a história em si é um tanto “fraquinha”. Vejamos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Han é um “rato de rua”, ladrãozinho que busca sobreviver, assim como Qi’ra, com quem ele tem um romance no início da produção, e outras pessoas da mesma “classe social”. Mas o rapaz é talentoso, especialmente como piloto, e deseja sair daquela miséria para viver com mais conforto e liberdade ao lado de Qi’ra. Logo no início do filme, eles tentam escapar, mas Qi’ra é recaptura e Han consegue se livrar do mesmo fim ao se juntar ao Império.

Até aí, tudo certo. Um começo interessante e promissor. Depois, vemos como Han Solo deixa o Império e vira um “fora da lei”. Isso acontece quando ele se encontra com Beckett e a sua turma: Val (Thandie Newton em quase uma super ponta) e Rio Durant (voz de Jon Favreau). Esse grupo de mercenários acaba formando Han e lhe apresentando para este universo – que ele abraçaria para sobreviver. Novamente, até aqui, tudo bem. Mas o filme depois trilha o caminho de uma história de “mercenário que se dá mal e se enrola em uma encrenca ainda maior para consertar o primeiro problema” que já cansamos um tanto de assistir.

Outro lugar comum e caminho um bocado batido foi Han encontrar a sua Qi’ra já bastante comprometida com o vilão da história, Dryden Vos (Paul Bettany). Aí seguimos a trilha conhecida de “mocinho tenta resgatar mocinha” só que em uma versão Star Wars – mais uma versão, diga-se. As partes mais bacanas do filme, na minha opinião, tem a ver com o aprendizado que Han te com Beckett e sua equipe e com o encontro e início da amizade do protagonista com Chewbacca (Joonas Suotamo).

Ainda que os atores não tenham tooooda aquela sintonia desejada, também é interessante a dinâmica entre os personagens de Han Solo e Qi’ra. Dá para entender um pouco a “descrença” do protagonista com o “amor” por causa dessa experiência que ele tem com o seu primeiro grande amor. Da minha parte, não deixei de pensar, quase a todo momento: calma, Han, você ainda vai encontrar uma Princesa bem mais legal pela frente. Lembrei do casamento dele com a Léia e aí pensei que Qi’ra não sabia de nada – muito menos do que ela estava perdendo no futuro. 😉

No geral, o filme funciona bem. A história respeita os personagens conhecidos de Star Wars agregando a eles alguns elementos que são do interesse dos fãs da saga e, apesar de ter uma dinâmica conhecida e um tanto batida, também consegue introduzir alguns novos personagens bastante interessantes. Não é um filme que vai revolucionar a sua vida ou mudar a compreensão que você tem de Star Wars, mas é uma produção envolvente, com algumas sequências – inclusive de perseguições – interessantes e com bons personagens. Vale ser visto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme está cheio de personagens. Temos o protagonista, que é bastante coerente com o Han Solo que já conhecemos. Alden Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que lhe falte um pouco mais de carisma – a comparação com Harrison Ford, quando ele fez o primeiro Star Wars, chega a ser cruel. Depois de alguns minutos do filme, o indicado mesmo é tentar esquecer da inevitável lembrança de Ford e prestar atenção na entrega coerente de Ehrenreich.

Como esperado, outro personagem interessante deste filme é Chewbacca. Conhecemos um pouco mais também sobre a origem deste que é um dos personagens mais bacanas de Star Wars. Isso é importante. Dos personagens da trilogia original, outro sobre o qual conhecemos um pouco mais do passado é Lando Calrissian, interpretado aqui pelo talentoso Donald Glover. O ator faz um bom trabalho com o personagem de Lando. Assim, Solo: A Star Wars Story ajuda a explicar um pouco mais do “background” da amizade entre Han e Lando.

Ainda dos personagens conhecidos pelos fãs de Star Wars, vale destacar um outro com aparição relâmpago no final. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Bem nos “finalmentes” da produção, vemos a Maul (Ray Park, com voz de Sam Witwer), figurinha que ficaria conhecida na trilogia que explica a origem de Darth Vader – os filmes que viraram Star Wars I, II e III. Assim, fica subentendido que Qi’ra se tornará alguém importante para a saga de Darth Maul. Algo que poderá ser explorado em um próximo filme da saga.

Além dos três personagens importantes da saga Star Wars original já mencionados – Han, Lando e Chewbacca -, Solo: A Star Wars Story nos apresenta alguns personagens novos interessantes. A de maior destaque, sem dúvida, é a personagem Qi’ra, interpretada com carisma pela “deusa” Emilia Clarke – sim, eu sou fã de Game os Thrones. 😉 Ela está ótima no papel. Tem muito carisma e faz a “femme fatale” na segunda parte em que aparece na trama. Pena que não tenha muita química com Alden Ehrenreich. Mas, no geral, Emilia Clarke está muito bem, obrigada.

Dos personagens secundários, destaco o trabalho de Woody Harrelson como Beckett, e de Donald Glover como Lando Calrissian. Apesar de ser ótima atriz, Thandie Newton – da ótima série Westworld – acaba sendo um tanto desperdiçada em um papel menor e com pouca contextualização, o de Val, mulher de Beckett. O personagem de Rio Durant, que também “prometia”, acaba tendo uma participação menor que o desejado também. Mas Thandie e Jon Favreau, que dá a voz para Rio Durant, estão bem.

Gostei bastante da personagem L3-37, interpretada por Phoebe Waller-Bridge. Ela é como uma tia dos androides que depois encantariam os fãs de Star Wars. Além disso, ela segue esta nova fase de valorização do “girl power” e revela-se uma androide bem feminina e revolucionária. Uma espécie até de Joana D’Arc dos androides – sem muito exagero. A personagem é interessante e tem uma mensagem que combina com os nossos tempos – tanto de liderança feminina quanto de libertação dos explorados. Uma das figuras novas mais interessantes da trama.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores: Paul Bettany como Dryden Vos, o vilão da trama; Erin Kellyman como Enfys Nest, outra figura feminina forte e revolucionária; e Linda Hunt em uma super ponta dando a voz para Lady Proxima.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e para os efeitos visuais da produção. Eles são boa parte da “graça” de Solo: A Star Wars Story. A equipe técnica responsável por estas duas áreas é gigantesca. Além deles, vale comentar a ótima edição de Pietro Scalia e a direção bem conduzida de Ron Howard. O roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan tem pontos positivos e negativos – como os já citados anteriormente. Basicamente, eles acertam ao respeitar o legado dos personagens criados por George Lucas, mas erram um pouco a mão ao optarem por uma história um bocado requentada e com desenrolar previsível. Na verdade, em momento algum, Solo: A Star Wars Story realmente te surpreende. Tudo que era previsto, é entregue – nada a mais.

A trilha sonora de John Powell achei um tanto morna. Ele acaba seguindo a cartilha de outras trilhas da saga, mas sem o brilhantismo de John Williams. Por outro lado, Bradford Young faz um bom trabalho na direção de fotografia, exceto por alguns trechos do filme que eu achei escuros demais. Vale ainda comentar o bom trabalho de Neil Lamont no design de produção; de Gary Tomkins e equipe na direção de arte; e de David Crossman e Glyn Dillon nos figurinos.

Solo: A Star Wars Story estreou em première em Los Angeles no dia 10 de maio de 2018. No dia 15 de maio, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes. Até o momento, o filme não ganhou nenhum prêmio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e 100 negativas para o filme, o que garante para a produção uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,4. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 62, resultado de 32 avaliações positivas, 21 medianas e 1 negativa.

Solo: A Star Wars Story foi bem nas bilheterias, mas não tão bem quantos outros filmes do gênero – ou mesmo da grife. Até o dia 10 de junho, segundo o site Box Office Mojo, a produção tinha feito cerca de US$ 176,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 136,1 milhões nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 312,2 milhões. Ainda que não saibamos o quanto o filme custou, certamente ele precisou de muita grana para sair do papel – e falta um bom caminho ainda para dar um bom lucro.

Agora, alguns adendos para citar curiosidades sobre esta produção. O ator Harrison Ford disse que assistiu ao filme e que achou ele “fenomenal”,  mas afirmou que não participou da première da produção junto com o elenco para não roubar as atenções que eram merecidas para Alden Ehrenreich. Isso que eu chamo de elegância.

O diretor Ron Howard foi chamado para terminar Solo: A Star Wars Story depois que Phil Lord e Christopher Miller foram demitidos devido à “diferenças criativas”. Ainda assim, Howard teria refilmado pouco mais de 80% da produção. Isso que eu chamo de praticamente começar do zero…

A data de lançamento de Solo: A Star Wars Story foi 25 de maio de 2018, o mesmo dia e mês em que Star Wars estreou em 1977.

A cena em abertura em Corellia e a cena de abertura de Rogue One acontecem exatamente 13 anos antes do primeiro Star Wars.

A cena do jogo de xadrez entre Beckett e Chewbacca é uma homenagem de Solo: A Star Wars Story a uma sequência de Star Wars (1977), quando vemos R2-D2 jogando com Chewbacca e deixando ele vencer por sugestão de Han Solo.

Algo importante nesse filme, para os fãs da saga, é descobrir como Han Solo faz o Kessel Run em apenas “12 parsecs” – quando o normal seria em 20 parsecs. Como o Kessel Run é uma rota que exige certa distância, Han Solo consegue fazer em menos tempo através de um “atalho”. Também interessante que nesse filme pela primeira vez, Chewbacca fala a sua idade: 190 anos.

Quem dá o sobrenome para Han é uma guarda em Corellia. Esse fato é uma referência do filme para The Godfather: Part II, produção na qual o personagem Vito Andolini é “rebatizado” como Vito Corleone por um guarda de Nova York em Ellis Island.

Solo: A Star Wars Story tem muitas referências a falas de filmes posteriores da saga – e objetos que também constroem essas referências. Exemplos disso são a fala de Han Solo sobre a Millennium Falcon antes de vê-la comentando que acredita que encontraria “um pedaço de lixo” – mesma expressão utilizada por Luke Skywalker ao ver a nave em Star Wars (1977), e os dados que Han dá para Qi’ra e que ela depois devolve para ele e que são vistos nos filmes de 1977 e 2017 da saga.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele atende a uma votação feita aqui no blog tempos atrás e na qual os leitores pediram filmes desse país. 😉

CONCLUSÃO: Um filme bem ao estilo de Star Wars mas que não tem o desenvolvimento de personagens e algumas das qualidades de outras produções da grife que precederam esta história. Com cenas competentes de perseguição e um roteiro que repete uma cartilha já conhecida, Solo: A Star Wars Story não surpreende, mas também não se revela uma grande decepção. O filme é morno, e falta química entre os protagonistas. Mas, individualmente – não nas trocas de bola – os atores estão bem. Esse filme não é fundamental para a saga Star Wars, mas ele ajuda a explicar o “background” de um de seus personagens mais interessante. Vale ser visto se você não for muito exigente com esse universo.

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Dom Hemingway – A Recompensa

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Um Jude Law muito diferente do que você está acostumado a ver. E este é o principal trunfo de Dom Hemingway. Além disso, o filme é uma releitura fraca e repetitiva do politicamente incorreto cinema inglês visto antes em filmes melhores. A ideia da produção é velha e tem a sorte de contar com bons atores para fazer o tempo passar. Pouco para os dias atuais, quando é mais fácil escolher um filme melhor na sala de cinema ao lado.

A HISTÓRIA: Sons de dentro de uma prisão. E começa um grande monólogo de Dom Hemingway (Jude Law) sobre as qualidades do próprio pau. Ele está segurando duas barras de ferro enquanto é chupado por um cara cabeludo na prisão. Corta. Uma frase diz que “12 anos é muito tempo”. Enquanto termina um pudim no refeitório, Dom recebe um recado de um guarda da prisão (Richard Graham). Chegou uma ordem interna. Em seguida, ele sai para a liberdade. E a primeira ação de Dom é procurar e surrar Sandy Butterfield (Nick Raggett). Em seguida, ele pretende receber o dinheiro que Mr. Fontaine (Demian Bichir) está lhe devendo e, se possível, resgatar algum contato com a filha, Evelyn (Emilia Clarke), que ele não viu crescer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dom Hemingway): Quem tem na memória ainda o Jude Law de filmes como My Blueberry Nights (comentado aqui), Sleuth (com crítica neste link), 360 (comentado aqui), Side Effects (com texto neste link), apenas para citar alguns de seus títulos mais recentes, vai ficar impactado com Dom Hemingway. O ator elimina qualquer lembrança romântica dele com o monólogo sobre as qualidades do pau de Dom Hemingway nos minutos final do filme com roteiro e direção de Richard Shepard.

Para quem não está muito acostumado ao estilo de parte do cinema inglês, a introdução de Dom Hemingway pode ser impactante. Da minha parte, que já vi vários filmes de ação, violência e sarcasmo originários da terra da Rainha, aquele monólogo e o que veio depois não foi, exatamente, uma surpresa. Na verdade, lembrei de uma série de filmes com o mesmo “espírito”. Apenas para citar alguns do diretor Guy Ritchie: Lock, Stock and Two Smoking Barrels (excelente); Snatch. (divertido); Revolver e RocknRolla (estes dois últimos, menos interessantes).

Se você já assistiu a estes filmes de Ritchie e aventurou-se também em Dom Hemingway, acredito que vai perceber que a produção de Shepard segue uma “tradição” de produções que escangalham na violência, nos palavrões e no humor politicamente incorreto. Sem contar nos monólogos quase sem fim dos protagonistas que, normalmente, estão drogados ou bêbados. Pois bem, Dom Hemingway segue a cartilha à risca.

Além disso, o filme resgata aquela velha premissa do bandido que vai preso e cumpre a condenação integralmente para proteger o chefão do crime. Ele espera avidamente pela liberdade para, quando finalmente a consegue, ir atrás do acerto de contas com quem lhe deixou naquela situação. Dom Hemingway vai nesta linha. O protagonista sai da prisão e procura resgatar o que perdeu em 12 anos de cadeia.

Primeiro, espanca o ex-colega/amigo que acaba casando com a mulher e mãe da única filha de Dom. Certo que eles se separaram quando o protagonista foi para a prisão, mas esse tipo de argumento não serve para Dom. Na sequência, ele quer o dinheiro que o chefão dele está devendo – e antes disso, recebe um presentinho: duas mulheres e muita cocaína para ele usar sem parar por três dias. Além do dinheiro que ele merece, Dom tem esperança de resgatar a relação perdida com a filha que ele deixou em casa adolescente e que, agora, é uma mãe de família e cantora de bares.

Se o roteiro é o ponto fraco do filme porque ele acaba parecendo apenas um apanhado de linhas requentadas, a atuação do elenco é o que acaba valendo o interesse por Dom Hemingway. Interessante ver Jude Law se esforçar tanto em um papel tão diferente de tudo que ele fez até então. Cheguei até a lembrar de Leonardo DiCaprio em The Wolf of Wall Street (com crítica por aqui). Mas a grande diferença é que o trabalho da dupla DiCaprio e Martin Scorsese é cheio de vitalidade, inovação, ousadia… algo muito diferente deste Dom Hemingway. Se você for escolher entre os dois filmes, não tenha dúvida em preferir The Wolf.

Mesmo tendo muito de repeteco, Dom Hemingway tem pelo menos uma reflexão interessante: que seguir uma certa “ética” no crime pode nem sempre trazer bons frutos, mas que vale a pena no final. Como Lestor (Jumayn Hunter) bem provoca o protagonista, em certo momento, ele só se deu mal seguindo as “regras”. Mas o sacrifício uma hora se reverte em recompensa, como bem explica o título na versão nacional.

Dom tem sorte ao reencontrar Paolina (Madalina Diana Ghenea), mas também sabe “cavar” a própria sorte ao jogar os dados certos com Evelyn. Claro que para o último item ele conta com a interessante ajuda do neto Jawara (o simpático Jordan A. Nash). E isso acontece na vida real. A sorte é um presente, mas também pode ser conquistada. Esta é uma reflexão interessante para um filme no estilo de Dom Hemingway.

Outra ponderação da história é que mesmo as pessoas mais “nervosas” e adeptas ao exagero como Dom podem encontrar um caminho mais equilibrado – dentro de suas limitações – se tiverem uma boa motivação para guiar-lhes os passos. Os brutos também amam, Dom reforça a antiga máxima. E apostar neste cão, e não naquele que significa violência, tende a levar a recompensas.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jude Law é o sujeito que mais se esforça neste filme, não há dúvidas. Ele tem um “passado” de papéis bacanas para desmistificar com este Dom Hemingway. No geral, ele se sai bem no intento – só não gostei muito daquele “monólogo” no túmulo da ex-mulher… me pareceu um tanto exagerado e descolado do personagem apresentado até então. Mas ele não é o único a brilhar neste filme em uma interpretação convincente e interessante. Demian Bichir está muito bem como o perigoso e poderoso Mr. Fontaine, assim como Richard E. Grant faz uma parceria fundamental para Law desenvolver o seu papel.

Outras figuras interessantes aparecem em papéis menores, mas se saem bem. Um exemplo é a competentíssima Emilia Clarke, uma das estrelas da série Game of Thrones, em um papel importante mas de pouca presença como a filha do protagonista. Kerry Condon também se sai bem no papel de Melody, uma garota de programa que é salva por Dom e acaba fazendo as vezes de “vidente” na história. Fechando a lista de mulheres com destaque na produção, Madalina Diana Ghenea faz as vezes de diva da produção, equilibrando beleza e presença de espírito – rouba a cena quando aparece. Dá para acrescentar ainda o nome de Nathan Stewart-Jarrett como Hugh, marido de Evelyn e que dá uma forcinha para a reaproximação de pai e filha.

Richard Shepard faz um bom trabalho na direção, dando agilidade para a produção sem, contudo, tirar o foco do trabalho dos atores – o que é uma escolha acertada, já que o roteiro escrito por ele é o ponto fraco do filme. Da parte técnica do filme, o único elemento que merece ser citado é a trilha sonora de Rolfe Kent que, como pede filmes do gênero, tem uma presença marcante na narrativa. Os demais profissionais apenas cumprem o seu papel, sem grande destaque.

Dom Hemingway estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros três festivais, mas sem ganhar nenhum prêmio.

Não encontrei informações sobre o custo de Dom Hemingway, mas segundo o site Box Office Mojo, até o dia 2 de abril a produção teria conseguido pouco mais de US$ 523,5 mil nos Estados Unidos. Uma miséria.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Dom Hemingway teve cenas rodadas em Saint-Tropez, na França; em Londres, na Inglaterra; na cidade de Kent e nos estúdios Pinewood, em Buckinghamshire, ambos na Inglaterra também.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: Jude Law teria engordado 30 pounds (cerca de 13,64 quilos) para fazer o protagonista deste filme. E para conseguir esta “façanha” ele tomava 10 latas de Coca-Cola por dia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Dom Hemingway. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 textos positivos e 47 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 59% – e uma nota média de 5,9.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Ainda que este filme de Richard Shepard tenha um espírito bem inglês, o diretor e roteirista é natural de Nova York. Ele tem 23 títulos no currículo como diretor, sendo que a maioria deles é de séries para a TV – a mais recente delas, a série Salem. Antes de Dom Hemingway ele dirigiu a filmes como The Hunting Party e The Matador. Nada de grande expressão até agora, pois.

CONCLUSÃO: Se você tem no currículo uma boa quantidade de filmes assistidos, sem dúvida alguma vai ficar com o sentimento de deja vù ao assistir Dom Hemingway. E não, você não estará errado(a) ao ter esse gosto de obra revisitada o tempo todo na boca. Primeiro porque filmes ingleses melhores que este já exploraram características bem batidas nesta produção como o descontrole do protagonista e a sua verborragia, assim como o tom politicamente incorreto constante. Depois porque a história deste filme já foi filmada, com pequenas alterações, dezenas de vezes. Assim, Dom Hemingway é um filme que sai do forno com gosto de requentado. Os atores se esforçam, e é interessante ver Jude Law tão diferente. Este talvez seja a melhor motivação para ver esta produção. Se o roteiro é fraco, o protagonista se sai bem tentando dar algum interesse para o filme. Assista se não tiver nenhuma outra opção melhor.