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Solo: A Star Wars Story – Han Solo: Uma História Star Wars

 

Não é fácil contar a história de um personagem tão carismático e com tantos fãs como Han Solo. Honestamente, eu estava com a expectativa bastante baixa antes de assistir a Solo: A Star Wars Story. Primeiro, por causa do trailer do filme, que não me chamou muito a atenção. Depois, porque vi que as notas e o nível de avaliação do filme não tinham sido lá muito bons. Mesmo assim, fui conferir no cinema, e em 3D, mais essa produção com a marca Star Wars. O filme tem alguns problemas mas, no fim da contas, não é tão desastroso quanto eu esperava.

A HISTÓRIA: Começa com a frase clássica “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante…”. Mas aí a tradicional música de Star Wars não surge na nossa frente. O que vemos é uma introdução para a história. Nela, comenta-se que aquela é uma época sem lei, na qual sindicatos de ladrões disputam entre si. Em Corella, a chefe de um destes sindicatos é Lady, uma criatura implacável e cruel. Diversos jovens lutam para sobreviver naquele ambiente agreste. Um deles é Han (Alden Ehrenreich), que surge fugindo de bandidos em uma perseguição ao retornar de uma missão. Ele se encontra com Qi’ra (Emilia Clarke), o seu affair, e comenta com ela que agora eles tem o necessário para fugir. Antes, ele deve enfrentar Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e buscar uma rota de fuga que não mate o casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Solo: A Star Wars Story): Harrison Ford tem um carisma e um talento acima da média. Então comparar o ator que marcou mais de uma geração com o seu Han Solo e o trabalho de Alden Ehrenreich com o mesmo personagem não vai funcionar. Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que a comparação seja cruel por natureza. Evidentemente Harrison Ford é mais carismático e melhor ator.

Dito e superado isso, devo admitir que Alden Enrenreich até que encarna bem o personagem. Ao menos, conseguimos ver nele um Han Solo ainda mais “inocente” do que o personagem que conhecemos sob o talento de Ford. Uma das qualidades desse filme é justamente esta: conseguir transportar os fãs da saga Star Wars para o passado de alguns personagens importante da trilogia original sem que essa “viagem no tempo” pareça forçada ou descolada.

Para um filme como Solo: A Star Wars Story, que tem como objetivo introduzir o passado de um personagem importante para a saga, isso é fundamental. Então sim, os fãs não vão se sentir deslocados nesse filme dirigido por Ron Howard e com roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan. Para a história funcionar, evidentemente o protagonista mais jovem deve “dialogar” com o personagem clássico da saga. E isso acontece – para o alívio dos fãs.

O Han Solo de Alden Enrenreich apresenta algumas características que vamos encontrar, depois, no Han Solo de Harrison Ford. O estilo “bonachão” e aventureiro é um destes elementos que funciona nas duas fases do personagem. Vendo o que acontece com o protagonista neste seu “início” como mercenário, também podemos entender o lado desconfiado dele na trilogia original Star Wars.

Ele aprende bem, tanto com o mercenário e “mestre” na malandragem Beckett (Woody Harrelson em uma participação bastante interessante), quanto com a sua “apaixonite” Qi’ra, que o ideal é não confiar muito em ninguém. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beckett tem muitas qualidades mas, no final das contas, ele ensina para Han que cada um vai defender sempre “o seu” antes de ajudar alguém. Qi’ra, por sua vez, apesar de ter gestos positivos pontilhados aqui e ali, também se deixa seduzir pelo poder – algo muito comum em vários personagens da saga, aliás.

Com essas pessoas, Han Solo aprende um bocado. Entre outros pontos, aprende a desconfiar e a ser mais “esperto”. Depois, veremos estas características no personagem já na fase Harrison Ford. A origem daquele “jeitão” do Han Solo vemos em Solo: A Star Wars Story. Esta é a principal vantagem do filme e o principal “ganho” que o filme poderá dar para os fãs Star Wars. Com tanto filme ruim ou mais ou menos sendo feito por aí, agradecemos quando uma obra “derivada” do original se mostra coerente e respeitando as características dos personagens.

Dito isso, vamos falar sobre alguns pontos que não funcionam tão bem em Solo: A Star Wars Story. Para começar, me incomodou um bocado e me chamou a atenção o estilo escuro demais do início do filme. Ok que Han e Qi’ra viviam em um local com poucos recursos e aquela coisa toda, mas realmente as imagens precisavam ser tão escuras? Eu não acho que isso funcionou muito bem. E há outros trechos também mais escuros do que o desejado.

Além disso, a história em si é um tanto “fraquinha”. Vejamos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Han é um “rato de rua”, ladrãozinho que busca sobreviver, assim como Qi’ra, com quem ele tem um romance no início da produção, e outras pessoas da mesma “classe social”. Mas o rapaz é talentoso, especialmente como piloto, e deseja sair daquela miséria para viver com mais conforto e liberdade ao lado de Qi’ra. Logo no início do filme, eles tentam escapar, mas Qi’ra é recaptura e Han consegue se livrar do mesmo fim ao se juntar ao Império.

Até aí, tudo certo. Um começo interessante e promissor. Depois, vemos como Han Solo deixa o Império e vira um “fora da lei”. Isso acontece quando ele se encontra com Beckett e a sua turma: Val (Thandie Newton em quase uma super ponta) e Rio Durant (voz de Jon Favreau). Esse grupo de mercenários acaba formando Han e lhe apresentando para este universo – que ele abraçaria para sobreviver. Novamente, até aqui, tudo bem. Mas o filme depois trilha o caminho de uma história de “mercenário que se dá mal e se enrola em uma encrenca ainda maior para consertar o primeiro problema” que já cansamos um tanto de assistir.

Outro lugar comum e caminho um bocado batido foi Han encontrar a sua Qi’ra já bastante comprometida com o vilão da história, Dryden Vos (Paul Bettany). Aí seguimos a trilha conhecida de “mocinho tenta resgatar mocinha” só que em uma versão Star Wars – mais uma versão, diga-se. As partes mais bacanas do filme, na minha opinião, tem a ver com o aprendizado que Han te com Beckett e sua equipe e com o encontro e início da amizade do protagonista com Chewbacca (Joonas Suotamo).

Ainda que os atores não tenham tooooda aquela sintonia desejada, também é interessante a dinâmica entre os personagens de Han Solo e Qi’ra. Dá para entender um pouco a “descrença” do protagonista com o “amor” por causa dessa experiência que ele tem com o seu primeiro grande amor. Da minha parte, não deixei de pensar, quase a todo momento: calma, Han, você ainda vai encontrar uma Princesa bem mais legal pela frente. Lembrei do casamento dele com a Léia e aí pensei que Qi’ra não sabia de nada – muito menos do que ela estava perdendo no futuro. 😉

No geral, o filme funciona bem. A história respeita os personagens conhecidos de Star Wars agregando a eles alguns elementos que são do interesse dos fãs da saga e, apesar de ter uma dinâmica conhecida e um tanto batida, também consegue introduzir alguns novos personagens bastante interessantes. Não é um filme que vai revolucionar a sua vida ou mudar a compreensão que você tem de Star Wars, mas é uma produção envolvente, com algumas sequências – inclusive de perseguições – interessantes e com bons personagens. Vale ser visto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme está cheio de personagens. Temos o protagonista, que é bastante coerente com o Han Solo que já conhecemos. Alden Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que lhe falte um pouco mais de carisma – a comparação com Harrison Ford, quando ele fez o primeiro Star Wars, chega a ser cruel. Depois de alguns minutos do filme, o indicado mesmo é tentar esquecer da inevitável lembrança de Ford e prestar atenção na entrega coerente de Ehrenreich.

Como esperado, outro personagem interessante deste filme é Chewbacca. Conhecemos um pouco mais também sobre a origem deste que é um dos personagens mais bacanas de Star Wars. Isso é importante. Dos personagens da trilogia original, outro sobre o qual conhecemos um pouco mais do passado é Lando Calrissian, interpretado aqui pelo talentoso Donald Glover. O ator faz um bom trabalho com o personagem de Lando. Assim, Solo: A Star Wars Story ajuda a explicar um pouco mais do “background” da amizade entre Han e Lando.

Ainda dos personagens conhecidos pelos fãs de Star Wars, vale destacar um outro com aparição relâmpago no final. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Bem nos “finalmentes” da produção, vemos a Maul (Ray Park, com voz de Sam Witwer), figurinha que ficaria conhecida na trilogia que explica a origem de Darth Vader – os filmes que viraram Star Wars I, II e III. Assim, fica subentendido que Qi’ra se tornará alguém importante para a saga de Darth Maul. Algo que poderá ser explorado em um próximo filme da saga.

Além dos três personagens importantes da saga Star Wars original já mencionados – Han, Lando e Chewbacca -, Solo: A Star Wars Story nos apresenta alguns personagens novos interessantes. A de maior destaque, sem dúvida, é a personagem Qi’ra, interpretada com carisma pela “deusa” Emilia Clarke – sim, eu sou fã de Game os Thrones. 😉 Ela está ótima no papel. Tem muito carisma e faz a “femme fatale” na segunda parte em que aparece na trama. Pena que não tenha muita química com Alden Ehrenreich. Mas, no geral, Emilia Clarke está muito bem, obrigada.

Dos personagens secundários, destaco o trabalho de Woody Harrelson como Beckett, e de Donald Glover como Lando Calrissian. Apesar de ser ótima atriz, Thandie Newton – da ótima série Westworld – acaba sendo um tanto desperdiçada em um papel menor e com pouca contextualização, o de Val, mulher de Beckett. O personagem de Rio Durant, que também “prometia”, acaba tendo uma participação menor que o desejado também. Mas Thandie e Jon Favreau, que dá a voz para Rio Durant, estão bem.

Gostei bastante da personagem L3-37, interpretada por Phoebe Waller-Bridge. Ela é como uma tia dos androides que depois encantariam os fãs de Star Wars. Além disso, ela segue esta nova fase de valorização do “girl power” e revela-se uma androide bem feminina e revolucionária. Uma espécie até de Joana D’Arc dos androides – sem muito exagero. A personagem é interessante e tem uma mensagem que combina com os nossos tempos – tanto de liderança feminina quanto de libertação dos explorados. Uma das figuras novas mais interessantes da trama.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores: Paul Bettany como Dryden Vos, o vilão da trama; Erin Kellyman como Enfys Nest, outra figura feminina forte e revolucionária; e Linda Hunt em uma super ponta dando a voz para Lady Proxima.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e para os efeitos visuais da produção. Eles são boa parte da “graça” de Solo: A Star Wars Story. A equipe técnica responsável por estas duas áreas é gigantesca. Além deles, vale comentar a ótima edição de Pietro Scalia e a direção bem conduzida de Ron Howard. O roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan tem pontos positivos e negativos – como os já citados anteriormente. Basicamente, eles acertam ao respeitar o legado dos personagens criados por George Lucas, mas erram um pouco a mão ao optarem por uma história um bocado requentada e com desenrolar previsível. Na verdade, em momento algum, Solo: A Star Wars Story realmente te surpreende. Tudo que era previsto, é entregue – nada a mais.

A trilha sonora de John Powell achei um tanto morna. Ele acaba seguindo a cartilha de outras trilhas da saga, mas sem o brilhantismo de John Williams. Por outro lado, Bradford Young faz um bom trabalho na direção de fotografia, exceto por alguns trechos do filme que eu achei escuros demais. Vale ainda comentar o bom trabalho de Neil Lamont no design de produção; de Gary Tomkins e equipe na direção de arte; e de David Crossman e Glyn Dillon nos figurinos.

Solo: A Star Wars Story estreou em première em Los Angeles no dia 10 de maio de 2018. No dia 15 de maio, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes. Até o momento, o filme não ganhou nenhum prêmio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e 100 negativas para o filme, o que garante para a produção uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,4. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 62, resultado de 32 avaliações positivas, 21 medianas e 1 negativa.

Solo: A Star Wars Story foi bem nas bilheterias, mas não tão bem quantos outros filmes do gênero – ou mesmo da grife. Até o dia 10 de junho, segundo o site Box Office Mojo, a produção tinha feito cerca de US$ 176,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 136,1 milhões nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 312,2 milhões. Ainda que não saibamos o quanto o filme custou, certamente ele precisou de muita grana para sair do papel – e falta um bom caminho ainda para dar um bom lucro.

Agora, alguns adendos para citar curiosidades sobre esta produção. O ator Harrison Ford disse que assistiu ao filme e que achou ele “fenomenal”,  mas afirmou que não participou da première da produção junto com o elenco para não roubar as atenções que eram merecidas para Alden Ehrenreich. Isso que eu chamo de elegância.

O diretor Ron Howard foi chamado para terminar Solo: A Star Wars Story depois que Phil Lord e Christopher Miller foram demitidos devido à “diferenças criativas”. Ainda assim, Howard teria refilmado pouco mais de 80% da produção. Isso que eu chamo de praticamente começar do zero…

A data de lançamento de Solo: A Star Wars Story foi 25 de maio de 2018, o mesmo dia e mês em que Star Wars estreou em 1977.

A cena em abertura em Corellia e a cena de abertura de Rogue One acontecem exatamente 13 anos antes do primeiro Star Wars.

A cena do jogo de xadrez entre Beckett e Chewbacca é uma homenagem de Solo: A Star Wars Story a uma sequência de Star Wars (1977), quando vemos R2-D2 jogando com Chewbacca e deixando ele vencer por sugestão de Han Solo.

Algo importante nesse filme, para os fãs da saga, é descobrir como Han Solo faz o Kessel Run em apenas “12 parsecs” – quando o normal seria em 20 parsecs. Como o Kessel Run é uma rota que exige certa distância, Han Solo consegue fazer em menos tempo através de um “atalho”. Também interessante que nesse filme pela primeira vez, Chewbacca fala a sua idade: 190 anos.

Quem dá o sobrenome para Han é uma guarda em Corellia. Esse fato é uma referência do filme para The Godfather: Part II, produção na qual o personagem Vito Andolini é “rebatizado” como Vito Corleone por um guarda de Nova York em Ellis Island.

Solo: A Star Wars Story tem muitas referências a falas de filmes posteriores da saga – e objetos que também constroem essas referências. Exemplos disso são a fala de Han Solo sobre a Millennium Falcon antes de vê-la comentando que acredita que encontraria “um pedaço de lixo” – mesma expressão utilizada por Luke Skywalker ao ver a nave em Star Wars (1977), e os dados que Han dá para Qi’ra e que ela depois devolve para ele e que são vistos nos filmes de 1977 e 2017 da saga.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele atende a uma votação feita aqui no blog tempos atrás e na qual os leitores pediram filmes desse país. 😉

CONCLUSÃO: Um filme bem ao estilo de Star Wars mas que não tem o desenvolvimento de personagens e algumas das qualidades de outras produções da grife que precederam esta história. Com cenas competentes de perseguição e um roteiro que repete uma cartilha já conhecida, Solo: A Star Wars Story não surpreende, mas também não se revela uma grande decepção. O filme é morno, e falta química entre os protagonistas. Mas, individualmente – não nas trocas de bola – os atores estão bem. Esse filme não é fundamental para a saga Star Wars, mas ele ajuda a explicar o “background” de um de seus personagens mais interessante. Vale ser visto se você não for muito exigente com esse universo.

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Cowboys & Aliens

Colocar em um mesmo filme cowboys e aliens é, por si só, uma mistura inusitada. Mas um filme com Daniel Craig e Harrison Ford merece respeito e desperta interesse, é preciso dizer. Então me lancei a descobrir o que poderia acontecer, pelas leitura do diretor Jon Favreau, quando cowboys encontram aliens e vice-versa. O começo é retumbante, bem escrito e com ritmo perfeito. Mas depois… o filme cai naquele velho jogo de perseguição com um fim um bocado previsível. É divertido? Claro, Cowboys & Aliens tem algumas cenas bacanas, um começo perfeito, um punhado de bons diálogos e interpretações que não decepcionam. Mas, cá entre nós, vale a pena apenas como diversão, cinema-pílula. Nada excepcional.

A HISTÓRIA: Cenário típico do Velho Oeste. A câmera desliza mostrando a paisagem quando um homem desperta (Daniel Craig). Ele está sujo, parece ter saído de uma guerra. Olha assustado ao redor e, ao tentar levantar, sente um ferimento do lado direito da barriga. No braço esquerdo, um estranho bracelete. Ele tenta tirá-lo, inclusive com a ajuda de uma pedra, mas não consegue. Então ele escuta um grupo chegar à cavalo. Ele levanta, enquanto é cercado. O líder pergunta sobre o vilarejo de Absolution, a que distância está dali indo para o Oeste. Sem receber uma resposta, o grupo sugere que, pelo bracelete, ele deve ser um prisioneiro. O líder comenta que talvez ele renda uma boa recompensa, desce do cavalo e pede para o homem desconhecido marchar. Rapidamente, ele acaba com os três homens e segue, à cavalo, para o vilarejo mais próximo. Lá ele é ajudado pelo pastor local (Clancy Brown) antes de se desentender com o aloprado Percy Dolarhyde (Paul Dano), filho do rico Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford). Ele ainda conhece a misteriosa Ella Swenson (Olivia Wilde) antes de ser confrontado por um ataque alienígena e começar, junto a Dolarhyde e outros companheiros inusitados, a missão de resgatar pessoas sequestradas pelos extraterrestres.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cowboys & Aliens): Quando vi o título desse filme, logo de cara lembrei do livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Daniken, que resgata vestígios antigos e afirma que recebemos visitas e contribuições de extraterrestres desde a Antiguidade. Cowboys & Aliens brinca com esses conceitos, ao mostrar a história de uma localidade no Velho Oeste dos Estados Unidos que recebe as “visitas” e a exploração de extraterrestres.

O começo do filme dirigido por Jon Favreau é perfeito. Primeiro, porque cada linha do roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Mark Fergus e Hawk Ostby (ufa, quanta gente para escrever um texto!) parece ter sido afinado com esmero. Não há sobras, mas boas sacadas, ironia e tensão. A primeira imagem do protagonista Jake Lonergan resume o contra-senso da produção: um sujeito durão, que parece ter saído de uma guerra, machucado e com um aparato de altíssima tecnologia preso no pulso.

Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor; o equilíbrio entre planos abertos, que mostram a paisagem do Velho Oeste e os closes e planos fechados, a partir das costas dos personagens; aliados com os cortes rápidos e oposição entre os atores, resgata a alma dos filmes do gênero. Cria a tensão e o ritmo adequado – e, por que não dizer, esperado pelos espectadores – para a produção. Bastante providencial também o “branco” do personagem principal, que perdeu a memória – e que abre o flanco para aqueles que assistem à produção ficarem em dúvida sobre qual é a origem daquele bracelete e o que Lonergan tem a ver, afinal, com os alienígenas.

O roteiro é assinado pelos cinco nomes que eu mencionei antes, mas o argumento da história que originou o roteiro foi criado por Mark Fergus, Hawk Ostby e Steve Oedekerk. Achei que eles acertaram em vários pontos. Para começar, na amnésia do personagem principal, o que cria tensão e suspense. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pena que esses elementos não durem muito tempo. Afinal, a “dúvida” se Lonergan poderia ter matado a Alice (Abigail Spencer) não chega a colar e, 40 minutos depois do filme ter começado, fica logo evidente que os culpados foram os alienígenas. Se essa dúvida tivesse sido melhor construída e durasse mais tempo, talvez o filme tivesse ganho um pouco mais de interesse. Sem isso, logo sabemos que o protagonista é um herói, e que os demais humanos também são bacanas e devem agir para proteger o nosso planeta contra os únicos vilões da história: os invasores alienígenas.

Quando o filme cai na simplificação maniqueísta da maioria dos filme sobre invasão alienígena, ele perde bastante da força que tinha antes. Nós ficamos com aquela sensação de “mais do mesmo”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, não existem dúvidas, ou outras possibilidades… tudo está claro após meia hora de filme: os aliens são os bandidos que devem ser combatidos. E nós, os humanos, por mais que algumas vezes exploremos uns aos outros, que passamos por cima de alguns semelhantes porque temos mais “poder” ou “dinheiro” (exemplo encarnado pelo personagem de Harrison Ford), no fim das contas somos solidários e nos unimos por uma “causa maior”. Que é combater, pelo que parece, o invasor – seja ele alienígena ou um semelhante, durante um conflito qualquer.

Mas o pior mesmo é a justificativo para termos alienígenas por aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eles estão atrás de ouro! Sim, eles são atraídos pelo metal precioso tanto quanto nós, há vários séculos atrás. E por que? O que eles fazem com o ouro? Ninguém sabe, ninguém explica e, aparentemente, isso nem faz falta. Os cinco roteiristas dão a entender que tanto faz o motivo pelo qual somos invadidos. O importante mesmo é termos alguém contra lutar para que eles possam fazer um filme de ação. Por essas e por outros é que Cowboys & Aliens receberia uma nota péssima se eu fosse analisar apenas o roteiro. Que começa bem, não canso de repetir, mas que depois vai derrapando até se converter em um clássico texto para justificar tiroteios, mortes, batalhas e cenas diversificadas de ação.

Ainda bem que, para a sorte do espectador, um filme não é apenas um roteiro. Mesmo quando o texto se mostra bem escrito no início e depois derrapa em lugares-comum, sequencias previsíveis e justificativas idiotas, como acontece com Cowboys & Aliens, nos resta agradecer por estarmos assistindo a um filme, e não lendo um livro. Como o cinema é muito mais que apenas bom textos e boas linhas de diálogo, temos na direção bem conduzida de Jon Favreau; nas interpretações dedicadas de Daniel Craig, Harrison Ford e Sam Rockwell, principalmente; na ótima edição de Dan Lebental e Jim May; na direção de fotografia inspirada de Matthew Libatique e na trilha sonora envolvente de Harry Gregson-Williams uma boa compensação para o roteiro que vai ficando fraquinho com o passar do tempo. Por tudo isso, Cowboys & Aliens se mostra um filme bem produzido, bem acabado na técnica e, principalmente, um passatempo que diverte – descontadas as falhas citadas anteriormente.

No fim das contas, o que motivava os alienígenas? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lembrando um pouco a District 9, Cowboys & Aliens explora a ideia de aliens inteligentes, com aparatos tecnológicos muito desenvolvidos, mas com aspecto que nos parece repulsivo. E ao mesmo tempo que eles tem máquinas impressionantes, seu comportamento é brutal, algumas vezes sem sentido. Para que eles utilizam o ouro que extraíam da Terra? Para que fulminavam pessoas em uma mesa de operações? Não sabemos o uso que eles davam para estas coisas. Mas o filme sugere que nem todos são assim, e que se há aliens exterminadores, há também alienígenas vingadores e “preocupados” com outras civilizações, como é o caso da personagem de de Ella Swenson – uma alienígena que pode tomar a forma humana e que se assemelha a uma fênix.

O maior pecado de Cowboys & Aliens, contudo, não está na falta de explicação para a invasão alienígena. Mas sim na simplificação da história, que tinha começado irônica e bem escrita. Lá pelas tantas, o filme se converte apenas em uma caça dos cowboys contra os alienígenas e em um tipo de “operação de resgate” deles para reaver os seus familiares. A ação se resume a encontrar o inimigo, atacá-lo e vencê-lo. O final, é previsível. Uma boa desculpa para gastar vários milhões de dólares, colocar atores ótimos em cena e seduzir os aficionados por efeitos especiais. Mas por trás desta cortina de fumaça, sobra pouco roteiro bem escrito e emoção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os produtores de Cowboys & Aliens acertaram na escolha do elenco. O primeiro gol foi conseguirem reunir dois veteranos dos filmes de ação para encabeçar a lista de protagonistas: Daniel Craig e Harrison Ford. Craig lembra, algumas vezes, seus personagens de ação anteriores, especialmente nas cenas em que cai no braço com os adversários. Ford faz o estilo paizão-durão. E com ele em cena, é inevitável não lembrar de algumas cenas do Indiana Jones – especialmente quando o personagem de Jake Lonergan está tentando chegar no núcleo da nave e escapar de lá.

Inicialmente, para o papel de Jake Lonergan, tinha sido convocado o ator Robert Downey Jr. Tenho certeza que ele teria se saído muito bem também, mas admito que gostei muito do trabalho do Craig. Sem ele, sem dúvidas, esse filme teria se mostrado ainda mais fraquinho. Os produtores acabaram chamando Craig devido à semelhança dele com Steve McQueen, que estrelou um dos épicos do gênero, The Magnificent Seven.

Falando em troca de astros para os papéis principais, Craig havia indicado a atriz Eva Green para o papel de Ella, mas ela acabou desistindo da personagem, o que abriu espaço para Olivia Wilde. Gostei, francamente, de ver a atriz mais conhecida por House M.D. ganhar este papel de destaque. Quem sabe ela não deslancha? Ainda que, até agora, tenham sobrado para ela, sempre, papéis menos complicados – onde a beleza da atriz é o principal argumento, mas ela não tem a interpretação como o ponto mais forte.

Até escrever estas observações extras eu não sabia que este filme é uma adaptação de um quadrinho. Não conheço a HQ de Cowboys & Aliens, então não posso dizer se o filme segue ou não a linha do original. Só vi que os quadrinhos originais foram criados por Scott Michael Rosenberg, da editora Platinum, com as histórias escritas por Andrew Foley e Fred Van Lente, e arte assinada por Luciano Lima e Dennis Calero. Alguém sabe me dizer se o filme respeita bastante o original ou faz um trabalho diferenciado?

Jon Favreau cita os clássicos Alien e Predator como influências para Cowboys & Aliens. Evidente, não? Qualquer filme sobre alienígenas, obrigatoriamente, acabam lembrando esses ícones – normalmente bem acima da média das outras produções que vieram depois – do cinema. Exceto por District 9, que traz alguma ideia nova para o gênero, depois de muitos anos de marasmo criativo.

Cowboys & Aliens custou, aproximadamente, a fortuna de US$ 163 milhões. E mesmo com grandes astros no elenco, até o último dia 11 de setembro, o filme conseguiu pouco mais de US$ 98 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção teve pré-estreia no dia 29 de julho e estreou definitivamente no dia 31 de julho em 3.750 cinemas daquele país. Certamente, juntando com o que a produção vai arrecadar no restante do mundo, ela terá lucro. Mas dificilmente será um fenômeno de bilheterias.

Além dos Estados Unidos, Cowboys & Aliens teve pré-estreia na Índia e no Canadá no dia 29 de julho. Depois, passou pelo festival de Locarno e estreou em outros mercados espalhados pelo mundo.

O trabalho dos atores mais significativo já foi comentado. Mas nunca é demais citar outros profissionais que acabam sendo importantes para a história e que fazem um trabalho razoável: Adam Beach como Nat Colorado, índio que virou o filho adotivo do durão Woodrow Dolarhyde; Chris Browning como Jed Parker; Ana de la Reguera como Maria; Noah Ringer como Emmett Taggart, filho do sheriff; Keith Carradine como o sheriff John Taggart; e Raoul Trujillo como o chefe apache Black Knife.

Eu sei que a maioria das pessoas que gostam de filmes de ação não se importam muito com o roteiro. Mas não consigo me conter sobre um comentário. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os aliens deste filme são muito, mas muito burros, realmente. Afinal, eles não precisavam sequestrar um monte de gente e ficar atirando pra cima e pra baixo. Bastava atacarem ao personagem central, direcionar todos os tiros para Jake Lonergan. Ele era o único que tinha uma arma roubada e que realmente tinha efeito contra eles. Sem aquele bracelete, nenhum ataque terráqueo teria feito realmente efeito. No fim das contas, os homens e mulheres do Velho Oeste eram a inteligência superior. 🙂

Cowboys & Aliens não conseguiu convencer os espectadores e os críticos. Os primeiros deram a nota 6,5 para a produção no site IMDb. Os segundos, foram ainda menos generosos: eles tem 122 textos negativos e 98 positivos para a produção linkados no Rotten Tomatoes, o que garante uma aprovação de 44% – e uma nota média de 5,6. Olhando para estas avaliações, acho que eu fui beeeeem generosa com o 8 que eu dei. Mas é que eu gostei muito do começo do filme, da atuação do Daniel Craig e do estilo do diretor – ainda que a produção tenha caído tanto de qualidade depois dos primeiros 40 minutos. Mas é isso aí mesmo, gostos são gostos – e quando estamos dispostos a assistir a um filme-pipoca, como esse, até a nota melhora. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme que mistura dois gêneros clássicos do cinema: o western e a ficção científica, para gerar uma produção cheia de ação, alguma ironia e bastante previsibilidade. Cowboys & Aliens brinca com a ideia lançada por Erich von Daniken no livro Eram os Deuses Astronautas? para abordar o encontro inusitado entre civilizações em níveis de desenvolvimento muito diferente. Só que esta relação não se mostra amistosa ou complementar, mas apenas conflitante. Jon Favreau acerta na direção, mas o roteiro escrito a cinco mãos não evita que a história seja o elo fraco da produção. Tecnicamente bem feito, Cowboys & Aliens peca por uma história fraca, que perde interesse conforme o filme vai se desenvolvendo. Mas para quem não se importa muito com um roteiro previsível e está mais interessado em efeitos especiais e atuações bacanas, esse pode ser um bom passatempo e uma ótima alternativa de entretenimento. Para o meu gosto, esta produção saiu previsível demais e um bocado morna, sem emoção. Poderia ter sido melhor.