Dom Hemingway – A Recompensa


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Um Jude Law muito diferente do que você está acostumado a ver. E este é o principal trunfo de Dom Hemingway. Além disso, o filme é uma releitura fraca e repetitiva do politicamente incorreto cinema inglês visto antes em filmes melhores. A ideia da produção é velha e tem a sorte de contar com bons atores para fazer o tempo passar. Pouco para os dias atuais, quando é mais fácil escolher um filme melhor na sala de cinema ao lado.

A HISTÓRIA: Sons de dentro de uma prisão. E começa um grande monólogo de Dom Hemingway (Jude Law) sobre as qualidades do próprio pau. Ele está segurando duas barras de ferro enquanto é chupado por um cara cabeludo na prisão. Corta. Uma frase diz que “12 anos é muito tempo”. Enquanto termina um pudim no refeitório, Dom recebe um recado de um guarda da prisão (Richard Graham). Chegou uma ordem interna. Em seguida, ele sai para a liberdade. E a primeira ação de Dom é procurar e surrar Sandy Butterfield (Nick Raggett). Em seguida, ele pretende receber o dinheiro que Mr. Fontaine (Demian Bichir) está lhe devendo e, se possível, resgatar algum contato com a filha, Evelyn (Emilia Clarke), que ele não viu crescer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dom Hemingway): Quem tem na memória ainda o Jude Law de filmes como My Blueberry Nights (comentado aqui), Sleuth (com crítica neste link), 360 (comentado aqui), Side Effects (com texto neste link), apenas para citar alguns de seus títulos mais recentes, vai ficar impactado com Dom Hemingway. O ator elimina qualquer lembrança romântica dele com o monólogo sobre as qualidades do pau de Dom Hemingway nos minutos final do filme com roteiro e direção de Richard Shepard.

Para quem não está muito acostumado ao estilo de parte do cinema inglês, a introdução de Dom Hemingway pode ser impactante. Da minha parte, que já vi vários filmes de ação, violência e sarcasmo originários da terra da Rainha, aquele monólogo e o que veio depois não foi, exatamente, uma surpresa. Na verdade, lembrei de uma série de filmes com o mesmo “espírito”. Apenas para citar alguns do diretor Guy Ritchie: Lock, Stock and Two Smoking Barrels (excelente); Snatch. (divertido); Revolver e RocknRolla (estes dois últimos, menos interessantes).

Se você já assistiu a estes filmes de Ritchie e aventurou-se também em Dom Hemingway, acredito que vai perceber que a produção de Shepard segue uma “tradição” de produções que escangalham na violência, nos palavrões e no humor politicamente incorreto. Sem contar nos monólogos quase sem fim dos protagonistas que, normalmente, estão drogados ou bêbados. Pois bem, Dom Hemingway segue a cartilha à risca.

Além disso, o filme resgata aquela velha premissa do bandido que vai preso e cumpre a condenação integralmente para proteger o chefão do crime. Ele espera avidamente pela liberdade para, quando finalmente a consegue, ir atrás do acerto de contas com quem lhe deixou naquela situação. Dom Hemingway vai nesta linha. O protagonista sai da prisão e procura resgatar o que perdeu em 12 anos de cadeia.

Primeiro, espanca o ex-colega/amigo que acaba casando com a mulher e mãe da única filha de Dom. Certo que eles se separaram quando o protagonista foi para a prisão, mas esse tipo de argumento não serve para Dom. Na sequência, ele quer o dinheiro que o chefão dele está devendo – e antes disso, recebe um presentinho: duas mulheres e muita cocaína para ele usar sem parar por três dias. Além do dinheiro que ele merece, Dom tem esperança de resgatar a relação perdida com a filha que ele deixou em casa adolescente e que, agora, é uma mãe de família e cantora de bares.

Se o roteiro é o ponto fraco do filme porque ele acaba parecendo apenas um apanhado de linhas requentadas, a atuação do elenco é o que acaba valendo o interesse por Dom Hemingway. Interessante ver Jude Law se esforçar tanto em um papel tão diferente de tudo que ele fez até então. Cheguei até a lembrar de Leonardo DiCaprio em The Wolf of Wall Street (com crítica por aqui). Mas a grande diferença é que o trabalho da dupla DiCaprio e Martin Scorsese é cheio de vitalidade, inovação, ousadia… algo muito diferente deste Dom Hemingway. Se você for escolher entre os dois filmes, não tenha dúvida em preferir The Wolf.

Mesmo tendo muito de repeteco, Dom Hemingway tem pelo menos uma reflexão interessante: que seguir uma certa “ética” no crime pode nem sempre trazer bons frutos, mas que vale a pena no final. Como Lestor (Jumayn Hunter) bem provoca o protagonista, em certo momento, ele só se deu mal seguindo as “regras”. Mas o sacrifício uma hora se reverte em recompensa, como bem explica o título na versão nacional.

Dom tem sorte ao reencontrar Paolina (Madalina Diana Ghenea), mas também sabe “cavar” a própria sorte ao jogar os dados certos com Evelyn. Claro que para o último item ele conta com a interessante ajuda do neto Jawara (o simpático Jordan A. Nash). E isso acontece na vida real. A sorte é um presente, mas também pode ser conquistada. Esta é uma reflexão interessante para um filme no estilo de Dom Hemingway.

Outra ponderação da história é que mesmo as pessoas mais “nervosas” e adeptas ao exagero como Dom podem encontrar um caminho mais equilibrado – dentro de suas limitações – se tiverem uma boa motivação para guiar-lhes os passos. Os brutos também amam, Dom reforça a antiga máxima. E apostar neste cão, e não naquele que significa violência, tende a levar a recompensas.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jude Law é o sujeito que mais se esforça neste filme, não há dúvidas. Ele tem um “passado” de papéis bacanas para desmistificar com este Dom Hemingway. No geral, ele se sai bem no intento – só não gostei muito daquele “monólogo” no túmulo da ex-mulher… me pareceu um tanto exagerado e descolado do personagem apresentado até então. Mas ele não é o único a brilhar neste filme em uma interpretação convincente e interessante. Demian Bichir está muito bem como o perigoso e poderoso Mr. Fontaine, assim como Richard E. Grant faz uma parceria fundamental para Law desenvolver o seu papel.

Outras figuras interessantes aparecem em papéis menores, mas se saem bem. Um exemplo é a competentíssima Emilia Clarke, uma das estrelas da série Game of Thrones, em um papel importante mas de pouca presença como a filha do protagonista. Kerry Condon também se sai bem no papel de Melody, uma garota de programa que é salva por Dom e acaba fazendo as vezes de “vidente” na história. Fechando a lista de mulheres com destaque na produção, Madalina Diana Ghenea faz as vezes de diva da produção, equilibrando beleza e presença de espírito – rouba a cena quando aparece. Dá para acrescentar ainda o nome de Nathan Stewart-Jarrett como Hugh, marido de Evelyn e que dá uma forcinha para a reaproximação de pai e filha.

Richard Shepard faz um bom trabalho na direção, dando agilidade para a produção sem, contudo, tirar o foco do trabalho dos atores – o que é uma escolha acertada, já que o roteiro escrito por ele é o ponto fraco do filme. Da parte técnica do filme, o único elemento que merece ser citado é a trilha sonora de Rolfe Kent que, como pede filmes do gênero, tem uma presença marcante na narrativa. Os demais profissionais apenas cumprem o seu papel, sem grande destaque.

Dom Hemingway estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros três festivais, mas sem ganhar nenhum prêmio.

Não encontrei informações sobre o custo de Dom Hemingway, mas segundo o site Box Office Mojo, até o dia 2 de abril a produção teria conseguido pouco mais de US$ 523,5 mil nos Estados Unidos. Uma miséria.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Dom Hemingway teve cenas rodadas em Saint-Tropez, na França; em Londres, na Inglaterra; na cidade de Kent e nos estúdios Pinewood, em Buckinghamshire, ambos na Inglaterra também.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: Jude Law teria engordado 30 pounds (cerca de 13,64 quilos) para fazer o protagonista deste filme. E para conseguir esta “façanha” ele tomava 10 latas de Coca-Cola por dia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Dom Hemingway. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 textos positivos e 47 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 59% – e uma nota média de 5,9.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Ainda que este filme de Richard Shepard tenha um espírito bem inglês, o diretor e roteirista é natural de Nova York. Ele tem 23 títulos no currículo como diretor, sendo que a maioria deles é de séries para a TV – a mais recente delas, a série Salem. Antes de Dom Hemingway ele dirigiu a filmes como The Hunting Party e The Matador. Nada de grande expressão até agora, pois.

CONCLUSÃO: Se você tem no currículo uma boa quantidade de filmes assistidos, sem dúvida alguma vai ficar com o sentimento de deja vù ao assistir Dom Hemingway. E não, você não estará errado(a) ao ter esse gosto de obra revisitada o tempo todo na boca. Primeiro porque filmes ingleses melhores que este já exploraram características bem batidas nesta produção como o descontrole do protagonista e a sua verborragia, assim como o tom politicamente incorreto constante. Depois porque a história deste filme já foi filmada, com pequenas alterações, dezenas de vezes. Assim, Dom Hemingway é um filme que sai do forno com gosto de requentado. Os atores se esforçam, e é interessante ver Jude Law tão diferente. Este talvez seja a melhor motivação para ver esta produção. Se o roteiro é fraco, o protagonista se sai bem tentando dar algum interesse para o filme. Assista se não tiver nenhuma outra opção melhor.

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