Can You Ever Forgive Me? – Poderia Me Perdoar?

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As oportunidades, infelizmente, não são para todos. Gostaríamos que fossem, mas não o são. Can You Ever Forgive Me? nos apresenta uma história cheia de verdade, de pontos críticos, de angústia e de alguma suavidade e beleza espalhado aqui e ali. Por isso mesmo, esse filme é tão próximo, tão “gente como a gente”. Enquanto muitos te dizem não, as tuas contas não param de aumentar. A saída para esse cenário caótico pode ser variada. Nesse filme, temos o talento sendo usado para algo ilegal. Um belo trabalho de Marielle Heller, na direção, e de Nicole Holofcener e Jeff Whitty no roteiro, assim como dos protagonistas Melissa McCarthy e Richard E. Grant.

A HISTÓRIA: Inicia em 1991, em um dia qualquer daquele ano, às 3h30. Lee Israel (Melissa McCarthy) está trabalhando, revisando um documento, acompanhada de uma bebida, quando duas mocinhas passam perto dela e uma delas (Lucy DeVito) comenta que Lee é mais velha que a sua mãe, e que ela se mataria se fizesse o que a outra faz na idade dela. Lee responde, mais para si do que para a garota, que já passou, que ela pode matá-la naquele momento se ela pedir com educação. A cena termina com Lee sendo demitida.

Ela vai para casa, onde encontra algumas moscas mortas sobre o travesseiro. Depois de tirá-las do local, ela se deita. Após descansar, ela alimenta o gato, que não parece ter forme. Naquela noite, ela vai para uma festa na casa de Marjorie (Jane Curtin), agente literária que não parece muito animada com um novo trabalho de Lee. Escritora, Lee vive um momento complicado, no qual ela não consegue fazer a nova obra sair e, ao mesmo tempo, vê as contas acumularem.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a Can You Ever Forgive Me?): Um filme nu e cru, por assim dizer. Can You Ever Forgive Me? não doura a pílula. Muito pelo contrário. Ela nos apresenta uma protagonista ao mesmo tempo interessantíssima e tão pouco explorada pelo cinema.

A direção cuidadosa e focada no ótimo trabalho de Melissa McCarthy e de Richard E. Grant (que dá vida ao escritor Jack Hock, que se torna amigo de Lee) de Marielle Heller é um dos pontos fortes do filme. Ela conduz a trama com suavidade e esmero ao mesmo tempo em que não procura fazer uma direção cheia de “virtuose”. O que agradecemos. Porque uma das melhores qualidades do filme é o roteiro de Nicole Holofcener e de Jeff Whitty.

A dupla, certamente escrevendo um roteiro com base no livro de Lee Israel, nos apresenta uma história sensível e ao mesmo tempo ácida. Mérito da protagonista, que não procura agradar a ninguém. Ela prefere ficar sozinha em um bar e com o seu gato em casa do que ter que elogiar ou fazer média com quem ela acha que não merece. Lee também não tem muita paciência e chama de idiota quem tiver ouvidos para ouvir. Enfim, uma verdadeira peça.

Apenas a personagem, por si mesma, já valeria um filme. Mas Can You Ever Forgive Me? tem muito mais a nos apresentar que uma escritora de 51 anos de idade que não consegue mais emplacar o seu trabalho. Um dos grandes méritos do filme, me parece, é mostrar toda essa parte da sociedade, que não tem oportunidades e nem muito esperanças. Afinal, apesar do sol nascer para todos, todos os dias, nem todos tem o seu lugar ao sol. Essa é a dura realidade, mas que nem sempre o cinema – especialmente made in Hollywood – tem vontade de retratar.

Lee representa várias pessoas que, na vida real, também não tem oportunidade mais de trabalho. Tanto pela idade quanto pelo físico. A protagonista de Can You Ever Forgive Me? tem 51 anos, lançou alguns livros, mas prefere uma área que nunca tem grande sucesso – a das biografias. Além disso, ela não tem o visual de uma modelo – é baixinha e está um pouco acima do peso. Segundo a ex-agente dela, além de tudo isso, Lee não tem um comportamento amigável e nem é muito sociável. Ou seja, ela não “joga o jogo”.

Quantas pessoas por aí preferem ser assim do que se venderem para conseguirem pagar as contas? Honestamente? Elas tem o meu respeito. Admiro quem não joga o jogo porque se sente violentado(a) fazendo isso. Admiro pessoas como a Lee que vemos nesse filme, que preferem pensar por conta própria e viver a vida a sua maneira. Mas isso cobra alguns preços, claro – como já dizia Nietzsche com os seus “espíritos livres”.

Can You Ever Forgive Me? mostra como, na medida em que as portas se fecham, as contas não param de se acumular. Porque a vida adulta é feita disso, de várias contas e responsabilidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No caso de Lee, mais do que o risco de ser despejada ou de não ter o que comer, o que a motiva a começar a falsificar cartas para conseguir dinheiro é a doença do seu gato. Quando ele passa a não comer direito e ela descobre que a veterinária só vai atendê-la se ela conseguir pagar ao menos metade da dívida, ela sabe que terá que arranjar dinheiro de qualquer maneira – e rápido.

Inicialmente ela vende alguns livros e uma carta que ela tinha na parede da casa e que pertenceu a Katherine Hepburn. Ao vender essa carta é que ela conhece Anna (Dolly Wells), dona de uma livraria. Esse é um dos ambientes preferidos de Lee. Em outro, no bar, ela conhece o escritor gay Jack Hock (Richard E. Grant). Ele, a exemplo dela, também não tem amigos e, por isso, os dois se aproximam. Após conseguir algum dinheiro, Lee volta a fazer pesquisas para o seu novo livro.

Em uma biblioteca, pesquisando sobre Fanny Brice, ela encontra dentro de um livro, um envelope. Dentro dele, duas cartas assinadas por Fanny Brice e direcionadas para Elaine Cohen. O correto, para qualquer pesquisadora séria, seria entregar as cartas para um museu ou para um arquivo público, mas como Lee está precisando de dinheiro, ela fica com as cartas e vende a primeira para Anna. Nesse momento, ela recebe um feedback da correspondência, de que ela era muito “branda”.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Antes de partir para o crime, Lee ainda tenta emplacar um novo projeto. Sem sucesso, ela resolve acrescentar um PS interessante na segunda carta de Fanny Brice. Intelectual e talentosa, Lee conhece muito bem o estilo, a vida e a trajetória de diversos escritores e artistas. Assim, não é difícil para ela criar correspondências que eles poderiam ter escrito. Pouco a pouco ela vai percorrendo todas as livrarias que compram e revendem essas correspondências e, com isso, ela consegue dinheiro para pagar todas as suas contas com folga.

Muitos dizem que a necessidade e a oportunidade fazem o ladrão. Isso parece se aplicar também no caso de Lee. Ela tentou ser honesta, mas não conseguiu. Poderia, claro, ter conseguido um subemprego e ter buscado, com ele, pagar as contas. Mas conhecendo o mundo dos ricos, que pagam uma boa quantia de dinheiro para ficar com um pedaço da intimidade de famosos, ela resolve explorar esse filão e tirar proveito dele com o seu talento.

Não digo que ela fez certo, claro. Mas que oportunidades realmente deram para ela? Parece justo que uma escritora com talento mas que não escreve exatamente o que é sucesso não tenha chance de ganhar dinheiro honestamente com o seu trabalho? O que fazer, no lugar dela, quando o dinheiro termina e as portas se fecham? Can You Ever Forgive Me? nos mostra com bastante propriedade e através de uma protagonista cheia de personalidade que a vida é cruel e injusta, muitas vezes e com várias pessoas.

Ainda assim, e isso eu achei realmente interessante, o filme não fica apenas no drama ou no tom pesado. Há um pouco de comédia, aqui e ali – mas algo inteligente e não forçado -, e também um pouco de romance e de amizade. Porque a vida é feita de tudo isso, não é mesmo? Temos o lado duro a vida para enfrentar, mas também temos amigos, companheirismo, amor e humor para tornar tudo um pouco mais equilibrado.

Esse filme nos apresenta tudo isso com bastante franqueza e naturalidade. Não é todo dia que vemos isso pela frente, então temos que agradecer. Roteiro inteligente, ótimos atores em cena e uma direção cuidadosa e que foca nos pontos mais importantes para que a história seja bem contada. Não precisamos mais.

Só não considero o filme perfeito porque acho que faltou um pouco de trabalho para caracterizar a atriz Melissa McCarthy como uma pessoa com 51 anos de idade – em diversos momentos vemos que ela não pode ter essa idade. Além disso, acho que algumas idas dela aqui e ali para vender as cartas poderiam ter sido poupadas, até porque elas não agregam grande informação nova para a história.

Como a história é contada sob a ótica de Lee, senti falta de saber um pouco mais sobre a investigação do FBI, que acabou levando à ela, e sobre como ela se virou para, depois de ser pega, sobreviver sem a falsificação das cartas e antes de lançar o livro sobre a sua história no crime. Esses detalhes contam alguns pontos negativos para a produção. Mas são apenas detalhes. Em geral, este é mais um belo filme apresentado pelo Oscar 2019.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A figuraça da protagonista de Can You Ever Forgive Me? prefere gatos do que pessoas. Ao menos na maioria das ocasiões. Eu não posso dizer que ela está errada. Muitas pessoas, de fato, são intratáveis e intragáveis. São boçais, preconceituosas, cruéis… para dizer o mínimo. Como gostar de pessoas assim? Alguém gosta delas, de fato? Elas gostam de alguém, verdadeiramente?

Há muito mais perguntas do que respostas, sobre isso eu não tenho dúvidas. Mas como diria os The Beatles, todos precisam de amor. Talvez se trabalharmos nisso, se expusermos mais essa ideia, não possamos, pouco a pouco, tornar as pessoas, em geral, tão bacanas quanto os gatos? 😉

Can You Ever Forgive Me? tem outro aspecto interessante. Ele nos mostrar essa coisa maluca do colecionismo de itens privados de pessoas famosas. Sim, muita gente não se importa com a origem dessas cartas e correspondências, com a ética envolvendo você comprar algo que deveria ser privado. Eles se importam só com o fato da carta ser legítima. O resto, não importa. Oras, cá entre nós, essas pessoas mereceram ser enganadas por Lee. Quem não tem ética não deveria exigir ética dos demais, não é mesmo? Mas, aparentemente, a lei protege alguns e condena outros. Então é isso que temos.

Eu não acompanho muito o trabalho da Melissa McCarthy, mas ouvi falar que, até Can You Ever Forgive Me? ela tinha feito, basicamente, comédias. Olha, acho que ela pode apostar em papéis mais sérios. Ela se saiu muito bem no papel mais complexo de Lee Israel. A atriz tem talento e consegue convencer muito bem em um papel que equilibra o humor e o drama. A parceria dela com Richard E. Grant, que está muito bem no papel de Jack Hock, é um dos trunfos desta produção.

Lee Israel começa, meio que sem querer, a sua caminhada criminosa. Mas existe um ponto realmente relevante desta trajetória. Um divisor de águas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, para valorizar uma das cartas que ela achou por acidente, ela faz um pequeno PS. Depois, utilizando todo o seu conhecimento dos famosos e o seu talento como escritora, ela ganha dinheiro às custas dos ricos que compram aquelas correspondências. Mas o divisor de águas acontece quando Jack Hock lhe dá a ideia de, na impossibilidade de seguir vendendo cartas falsas, ela começar a roubar as verdadeiras. Aí, realmente, ela vai até o fundo do poço. Afinal, ela não está ganhando dinheiro de ricos que não tem ética por comprar correspondências privadas de famosos. Ela está roubando documentos de locais que preservam essas correspondências por causa do interesse público. Algo muito mais grave, portanto.

Dos aspectos técnicos desta produção, vale comentar a direção atenta e cuidadosa de Marielle Heller, que mantêm a câmera sempre próxima dos atores; o roteiro muito bem equilibrado e sagaz de Nicole Holofcener e Jeff Whitty; a direção de fotografia de Brandon Trost; a edição de Anne McCabe; a trilha sonora de Nate Heller; o design de produção de Stephen H. Carter; a direção de arte de Marci Mudd; a decoração de set de Sarah E. McMillan e os figurinos de Arjun Bhasin.

Além do roteiro e da direção de Can You Ever Forgive Me?, os grandes méritos do filme estão no trabalho dos protagonistas, Melissa McCarthy e Richard E. Grant, que apresentam uma bela sintonia e um dueto exemplar. Além deles, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Dolly Wells, como Anna, uma das pessoas que compraram as cartas de Lee e que se aproximou dela como amiga/possível romance; Jane Curtin como Marjorie, ex-agente de Lee; Stephen Spinella como Paul, outro comprador das cartas de Lee; Christian Navarro como Kurt, um rapaz que se relaciona com Jack Hock; Marc Evan Jackson como Lloyd, advogado que defende Lee no tribunal; Shae D’lyn como Nell, outra pessoa que compra as cartas da protagonista; Anna Deavere Smith como Elaine, a ex-namorada de Lee; Joanna Adler como Arlene, mais uma pessoa enganada pelas cartas de Lee; e Mary B. McCann como a juíza que julga o caso de Lee.

Can You Ever Forgive Me? estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou, ainda, de outros 13 festivais de cinema em diversos países – incluindo os de Toronto, Londres, Mar del Plata e Torino. Em sua trajetória, o filme conquistou 48 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo três indicações ao Oscar 2019 (Melhor Atriz para Melissa McCarthy; Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant e Melhor Roteiro Adaptado) e duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Atriz – Drama para Melissa McCarthy e Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 24 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant; para os 9 de Melhor Roteiro e para os 9 prêmios de Melhor Atriz para Melissa McCarthy. Por outro lado, o filme saiu de mãos vazias do Oscar e do Globo de Ouro. Não que os atores não mereciam, mas realmente eles tiveram pela frente, neste ano, ótimos intérpretes em grande fase.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Apesar de interpretar a um alcoólatra nessa produção, o ator Richard E. Grant é alérgico ao álcool.

Essa é a primeira vez que Melissa McCarthy interpreta a uma personagem real.

Algo que aparece no final do filme, na verdade, não aconteceu. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na verdade, Lee Israel e Jack Hock nunca mais se encontraram pessoalmente ou falaram por telefone depois que o FBI prendeu Hock por agir como cúmplice de Lee. Poucos meses antes de Hock morrer por complicações da AIDS, Lee o viu na sala de espera de uma clínica médica em Manhattan destinada a atender pessoas pobres. Segundo a autobiografia de Lee, que inspirou o filme, ela teve vontade de “tropeçar” em Hock depois que ele se levantou da cadeira, mas acabou não fazendo isso. Hock não chegou a vê-la.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 266 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 98%. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para Can You Ever Forgive Me?, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, Can You Ever Forgive Me? faturou US$ 8,77 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é uma quantia desprezível, mas acho que o filme merecia ter faturado mais.

Can You Ever Forgive Me? é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Quem sempre teve dinheiro ou oportunidades na vida “facilmente” julga aqueles que não tiveram o mesmo. Can You Ever Forgive Me? nos apresenta a história de uma mulher que tem talento e que luta para trabalhar como escritora, mas que não consegue mais oportunidades ou emprego. Como qualquer pessoa comum, independente do seu talento, ela tem contas para pagar. Então o que fazer? Ela tem uma saída engenhosa para o seu problema. Isso não a impede de ser descoberta. Um filme duro, que nos faz refletir sobre a falta de oportunidades e as injustiças das nossas sociedades desiguais. Ao mesmo tempo, ele nos mostra a graça, a alegria, a amizade e a esperança que podem surgir e serem preservadas mesmo em cenários agrestes. Um belo filme.

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Logan

Para muitos, ele pode estar velho. Para mim, ele está em sua melhor forma. Logan resgata algumas das melhores características do personagem que todos conheceram como Wolverine. O filme é bastante violento e vai direto ao ponto em muitos momentos. Mesmo sendo uma produção de ação e com um desenrolar um bocado previsível, esta produção tem alguns grandes momentos. Há uma velha parceria bem interessante em cena, mas em outro estágio. Porque o tempo passou. Logan nos fala muito sobre o tempo e sobre a passagem dele. Também trata de novas descobertas. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Música alta e a voz de um grupo de latinos falando alto. Dentro do carro, Logan (Hugh Jackman) acorda quando o veículo começa a ser levantado. Ele sai da limusine e pede para os bandidos irem embora sem prejudicarem o carro, que é alugado. Ele logo leva um tiro no peito. Quando os bandidos dão as costas para ele, Logan começa a se levantar. Cansado e um pouco bêbado, ele não tem mais o vigor que tinha quando era jovem. Apanha, mas também mata parte do grupo. Logan trabalha como motorista para conseguir juntar dinheiro e comprar um barco. Mas logo os planos dele serão interrompidos pelo pedido de socorro de uma mulher desconhecida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan): Eu não assisti a todos os filmes da Marvel e demais produções baseadas em personagens de HQ. Mas conheço o suficiente deste universo para poder comentar sobre um filme sobre o Wolverine. Antes de Hugh Jackman estrear nos cinemas com este personagem, eu já conhecia bem o Logan/Wolverine das HQs.

Soube, antes de assistir a este filme, que ele seria inspirado na série Old Logan. Li a HQ antes de assistir ao filme e, por isso, posso dizer com toda a convicção que o filme não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos. Os únicos elos de ligação são o fato de Logan estar envelhecido no filme e na HQ e das duas obras serem um tipo de “road trip”. E isso é tudo. A HQ tem uma história mais interessante e complexa que o filme, além de ter outros personagens e uma questão central: o velho Logan não quer mais usar as suas garras. Ele está “aposentado”.

Nada disso nós assistimos em Logan. Logo no início o personagem de Jackman utiliza as suas garras para matar, sem ter qualquer questionamento sobre isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Outra diferença fundamental é que no filme, ainda que esta questão não esteja totalmente clara, mas apenas “sugerida”, o culpado pela morte de parte dos X-Men foi o professor Xavier (chamado apenas de Charles no filme, interpretado pelo ótimo Patrick Stewart). Na HQ, que nem tem o professor Xavier na história, o culpado pela morte de todos os X-Men foi Logan – manipulado por um inimigo.

Então, para resumir, o HQ é sim melhor que o filme. Especialmente porque a produção Logan tem um roteiro previsível demais. A premissa criada pelo diretor James Mangold e que acabou resultando no roteiro assinado por ele junto com Scott Frank e Michael Green deveria ser muito boa. Um envelhecido Wolverine batalha para sobreviver em um mundo sem novos mutantes e no qual ele, o professor Xavier e Caliban (Stephen Merchant) estão envelhecidos e sem grande perspectiva de viver um longo tempo.

Neste contexto, aparece em cena uma nova mutante. Logan acaba sendo impelido a ajudar ela a escapar dos bandidos que a estão caçando – a exemplo de como ele próprio já foi tantas outras vezes. A premissa é boa, não é mesmo? O problema é que o desenvolvimento do filme acaba sendo um tanto previsível demais. Quando Laura (Dafne Keen) aparece em cena junto com Gabriela (Elizabeth Rodriguez) fica evidente que teremos um tipo de “caçada sem fim” e que vai resultar com a garota sendo salva de alguma maneira.

Todas as crianças e jovens que fogem das garras da grande corporação manipuladora, uma evolução da mesma organização que injetou adamantium em Logan no passado, acabam combinando a mesma coordenada que viram em uma HQ do X-Men como ponto de encontro. Logan critica a versão dada por Gabriela e por Laura porque acha que elas estão sendo “iludida” pela HQ. Ao mesmo tempo, Mangold faz uma grande homenagem ao clássico de George Stevens de 1953, Shane, um dos grandes filmes de faroeste. Seria uma forma do diretor dizer que os filmes são mais importantes que as HQs?

Essa é uma questão menor. O importante é que Logan cumpre o seu papel de entreter. Bem diferente do recentemente comentado aqui The Great Wall, que dá sono, Logan deixa você bem acordado o tempo inteiro. Mérito do bom trabalho do diretor Mangold e, sem dúvida alguma, das ótimas interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, em especial. Quando os dois estão em cena, impossível não ficarmos com o nível de atenção no máximo. Cada detalhe da interpretação deles é preciosa.

O mesmo não pode ser dito de outros atores da produção. Achei a menina Dafne Keen esforçada, mas com um trabalho bastante raso. Boy Holbrook como Pierce, o capanga principal do Dr. Rice interpretado por Richard E. Grant também está mais ou menos. Mas o que nos “prende” a atenção é como a passagem do tempo cobra o seu preço até dos nossos heróis. Wolverine e o professor Xavier se esforçam em defender a nova geração que está chegando, mas eles são apenas “a sombra” de quem já foram.

Como acontece com os simples mortais, com os mutantes também o tempo é inexorável. Este é a parte mais interessante do filme, assim como a relação extremamente afetuosa e de respeito entre o professor e o discípulo. É muito bonita a forma com que Logan cuida do velho Xavier. É como a retribuição de um filho. Estes são os pontos fortes da produção, assim como diversas cenas de ação bem orquestradas.

Os pontos fracos estão na narrativa. Além da previsibilidade grande do desenrolar da história – ok, apenas o X-24 me pareceu surpreendente -, me incomodou um pouco algumas incongruências do filme. Certo que Logan precisava que Laura (ou X-23) sobrevivesse até o final e tudo o mais, mas qual, afinal, era a motivação do grupo liderado por Pierce? O que Dr. Rice e companhia queriam de verdade? Matar aquelas crianças mutantes que não serviam para o propósito deles, correto?

Então me parece um tanto sem sentido toda aquela perseguição sem fim de Laura e companhia se para os perseguidores bastava matá-los para resolver o “problema” que eles tinham. Ou, em outras palavras, me pareceu um pouco forçado o filme “poupar” tanto os personagens juvenis. Ninguém quer ver criança ou um jovem ser morto ou agredido, é claro, mas isso me parece ser mais condizente com a história.

Se Logan acerta no retrato sobre a personalidade do personagem-título, acho que o mesmo não pode ser dito sobre o retrato que eles fazem sobre a “nova geração” dos X-Men. Afinal, e isso fica claro para quem acompanhou os HQs dos X-Men, eles só eram realmente fortes e conseguiam vencer qualquer inimigo quando eles juntavam as suas forças e habilidades. Pois bem, na reta final do filme, eles até fazem isso na hora de combater Pierce, mas a ação não é a mesma para defender Laura ou Logan. Isso não parece um bocado sem sentido?

Quando um filme abre a mão de fazer sentido apenas para que a história tenha o fim que o realizador imaginou, todos os espectadores perdem. Afinal, podemos nos divertir com uma boa ação. Podemos achar bacana ver Hugh Jackman dando um fim digno para o seu personagem, assim como ver um pouco mais da relação “derradeira” dele com o professor Xavier, mas tudo isso acaba sendo insuficiente quando pensamos em todas as pequenas mancadas da história.

Por tudo isso, Logan é um bom filme. Não é uma produção excepcional. Provavelmente não é melhor filme baseado em um personagem de HQ que eu já vi. E, certamente, ficou aquém do que se poderia esperar de uma produção “inspirada” (será? acho que não) em Old Logan. No dia em que adaptarem o velho Batman de Cavaleiro das Trevas e fizerem isso bem, quem sabe eu não me sinta redimida? Agora, nos resta esperar o que mais vão nos contar dos X-Men. Esperamos que venha história boa por aí.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A direção de James Mangold é um dos pontos fortes do filme. Também merece menção a competente direção de fotografia de John Mathieson; a ótima e difícil edição de Michael McCusker e de Dirk Westervelt; o design de produção de François Audouy; a direção de arte de Chris Farmer, Jordan Ferrer, Luke Freeborn e Scott Plauche; a decoração de set de Peter Lando; o ótimo trabalho dos 27 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; e, claro, os 18 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os 145 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem dúvida algumas os efeitos do filme são também pontos fortes da produção.

Em termos de atuação, os nomes fortes desta produção são mesmo Hugh Jackman e Patrick Stewart. Jackman está bem, só me incomodou um pouco ele ficar mancando a produção inteira sem uma explicação aparente para isso. Stewart, por outro lado, está de arrepiar a cada aparição. Dos outros atores, gostei do esforço de Stephen Merchant como Caliban; de Eriq La Salle como o fazendeiro Will Munson; e de Richard E. Grant em quase uma ponta como Dr. Rice.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Elise Neal como Kathryn Munson, mulher do fazendeiro; e de Quincy Fouse como o filho do casal, Nate. A atriz Dafne Keen não faz um trabalho ruim, mas achei ela parecida com todas essas novas atrizes que emplacaram com o papel de “esquisitonas”. Também preferi a parte do filme em que ela não abre a boca. Porque com aquela voz estridente que ela solta quando começa a falar em espanhol e, depois, em inglês, chegou a me dar “um nervoso”. Calada ela era menos irritante.

Logan teria custado cerca de US$ 97 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até ontem, dia 9 de março, pouco mais de US$ 114,8 milhões. Essa é a terceira melhor bilheteria no país em 2017 – atrás apenas de The Lego Batman Movie, com US$ 151,2 milhões, e de Split, com US$ 134,6 milhões. Como Logan estreou há menos tempo, tem tudo para ultrapassar estes dois concorrentes. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase outros US$ 190,8 milhões. Ou seja, a bilheteria acumulado do filme chega a quase US$ 305,6 milhões. Sucesso completo e que não deve parar de faturar tão cedo.

Infelizmente eu não pude assistir a Logan em 3D porque o filme não estreou nesta versão na minha cidade. Esperei uma semana para assisti-lo por causa disso, mas eu não iria esperar mais tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 243 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,8. Para os padrões dos dois sites, especialmente do IMDb, a nota do filme está muito boa.

Logan é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: A passagem do tempo traz pontos positivos e negativos. Para qualquer pessoa e, segundo esta produção, também para qualquer mutante. Logan nos apresenta um filme que trata sobre este assunto da mesma forma com que ele revela a importância da renovação. Novas gerações surgem enquanto outras se despedem. É assim a vida. Gostei do tom algumas vezes amargo, muitas vezes violento e em certos momentos afetivo desta produção.

É um belo filme, apesar dele ser bastante previsível. Até demais, se pararmos para pensar. Mas você até esquece disso enquanto assiste a produção, que é bastante envolvente. Uma bela despedida de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato e com o qual ele está eternizado no cinema. O filme, contudo, não tem nada a ver com o HQ Old Logan. O que não deixa de ser uma pena. Apesar de ser bom, Logan acaba falhando em algumas escolhas do roteiro. Ainda assim, é um bom entretenimento.

Jackie

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Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.

Dom Hemingway – A Recompensa

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Um Jude Law muito diferente do que você está acostumado a ver. E este é o principal trunfo de Dom Hemingway. Além disso, o filme é uma releitura fraca e repetitiva do politicamente incorreto cinema inglês visto antes em filmes melhores. A ideia da produção é velha e tem a sorte de contar com bons atores para fazer o tempo passar. Pouco para os dias atuais, quando é mais fácil escolher um filme melhor na sala de cinema ao lado.

A HISTÓRIA: Sons de dentro de uma prisão. E começa um grande monólogo de Dom Hemingway (Jude Law) sobre as qualidades do próprio pau. Ele está segurando duas barras de ferro enquanto é chupado por um cara cabeludo na prisão. Corta. Uma frase diz que “12 anos é muito tempo”. Enquanto termina um pudim no refeitório, Dom recebe um recado de um guarda da prisão (Richard Graham). Chegou uma ordem interna. Em seguida, ele sai para a liberdade. E a primeira ação de Dom é procurar e surrar Sandy Butterfield (Nick Raggett). Em seguida, ele pretende receber o dinheiro que Mr. Fontaine (Demian Bichir) está lhe devendo e, se possível, resgatar algum contato com a filha, Evelyn (Emilia Clarke), que ele não viu crescer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dom Hemingway): Quem tem na memória ainda o Jude Law de filmes como My Blueberry Nights (comentado aqui), Sleuth (com crítica neste link), 360 (comentado aqui), Side Effects (com texto neste link), apenas para citar alguns de seus títulos mais recentes, vai ficar impactado com Dom Hemingway. O ator elimina qualquer lembrança romântica dele com o monólogo sobre as qualidades do pau de Dom Hemingway nos minutos final do filme com roteiro e direção de Richard Shepard.

Para quem não está muito acostumado ao estilo de parte do cinema inglês, a introdução de Dom Hemingway pode ser impactante. Da minha parte, que já vi vários filmes de ação, violência e sarcasmo originários da terra da Rainha, aquele monólogo e o que veio depois não foi, exatamente, uma surpresa. Na verdade, lembrei de uma série de filmes com o mesmo “espírito”. Apenas para citar alguns do diretor Guy Ritchie: Lock, Stock and Two Smoking Barrels (excelente); Snatch. (divertido); Revolver e RocknRolla (estes dois últimos, menos interessantes).

Se você já assistiu a estes filmes de Ritchie e aventurou-se também em Dom Hemingway, acredito que vai perceber que a produção de Shepard segue uma “tradição” de produções que escangalham na violência, nos palavrões e no humor politicamente incorreto. Sem contar nos monólogos quase sem fim dos protagonistas que, normalmente, estão drogados ou bêbados. Pois bem, Dom Hemingway segue a cartilha à risca.

Além disso, o filme resgata aquela velha premissa do bandido que vai preso e cumpre a condenação integralmente para proteger o chefão do crime. Ele espera avidamente pela liberdade para, quando finalmente a consegue, ir atrás do acerto de contas com quem lhe deixou naquela situação. Dom Hemingway vai nesta linha. O protagonista sai da prisão e procura resgatar o que perdeu em 12 anos de cadeia.

Primeiro, espanca o ex-colega/amigo que acaba casando com a mulher e mãe da única filha de Dom. Certo que eles se separaram quando o protagonista foi para a prisão, mas esse tipo de argumento não serve para Dom. Na sequência, ele quer o dinheiro que o chefão dele está devendo – e antes disso, recebe um presentinho: duas mulheres e muita cocaína para ele usar sem parar por três dias. Além do dinheiro que ele merece, Dom tem esperança de resgatar a relação perdida com a filha que ele deixou em casa adolescente e que, agora, é uma mãe de família e cantora de bares.

Se o roteiro é o ponto fraco do filme porque ele acaba parecendo apenas um apanhado de linhas requentadas, a atuação do elenco é o que acaba valendo o interesse por Dom Hemingway. Interessante ver Jude Law se esforçar tanto em um papel tão diferente de tudo que ele fez até então. Cheguei até a lembrar de Leonardo DiCaprio em The Wolf of Wall Street (com crítica por aqui). Mas a grande diferença é que o trabalho da dupla DiCaprio e Martin Scorsese é cheio de vitalidade, inovação, ousadia… algo muito diferente deste Dom Hemingway. Se você for escolher entre os dois filmes, não tenha dúvida em preferir The Wolf.

Mesmo tendo muito de repeteco, Dom Hemingway tem pelo menos uma reflexão interessante: que seguir uma certa “ética” no crime pode nem sempre trazer bons frutos, mas que vale a pena no final. Como Lestor (Jumayn Hunter) bem provoca o protagonista, em certo momento, ele só se deu mal seguindo as “regras”. Mas o sacrifício uma hora se reverte em recompensa, como bem explica o título na versão nacional.

Dom tem sorte ao reencontrar Paolina (Madalina Diana Ghenea), mas também sabe “cavar” a própria sorte ao jogar os dados certos com Evelyn. Claro que para o último item ele conta com a interessante ajuda do neto Jawara (o simpático Jordan A. Nash). E isso acontece na vida real. A sorte é um presente, mas também pode ser conquistada. Esta é uma reflexão interessante para um filme no estilo de Dom Hemingway.

Outra ponderação da história é que mesmo as pessoas mais “nervosas” e adeptas ao exagero como Dom podem encontrar um caminho mais equilibrado – dentro de suas limitações – se tiverem uma boa motivação para guiar-lhes os passos. Os brutos também amam, Dom reforça a antiga máxima. E apostar neste cão, e não naquele que significa violência, tende a levar a recompensas.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jude Law é o sujeito que mais se esforça neste filme, não há dúvidas. Ele tem um “passado” de papéis bacanas para desmistificar com este Dom Hemingway. No geral, ele se sai bem no intento – só não gostei muito daquele “monólogo” no túmulo da ex-mulher… me pareceu um tanto exagerado e descolado do personagem apresentado até então. Mas ele não é o único a brilhar neste filme em uma interpretação convincente e interessante. Demian Bichir está muito bem como o perigoso e poderoso Mr. Fontaine, assim como Richard E. Grant faz uma parceria fundamental para Law desenvolver o seu papel.

Outras figuras interessantes aparecem em papéis menores, mas se saem bem. Um exemplo é a competentíssima Emilia Clarke, uma das estrelas da série Game of Thrones, em um papel importante mas de pouca presença como a filha do protagonista. Kerry Condon também se sai bem no papel de Melody, uma garota de programa que é salva por Dom e acaba fazendo as vezes de “vidente” na história. Fechando a lista de mulheres com destaque na produção, Madalina Diana Ghenea faz as vezes de diva da produção, equilibrando beleza e presença de espírito – rouba a cena quando aparece. Dá para acrescentar ainda o nome de Nathan Stewart-Jarrett como Hugh, marido de Evelyn e que dá uma forcinha para a reaproximação de pai e filha.

Richard Shepard faz um bom trabalho na direção, dando agilidade para a produção sem, contudo, tirar o foco do trabalho dos atores – o que é uma escolha acertada, já que o roteiro escrito por ele é o ponto fraco do filme. Da parte técnica do filme, o único elemento que merece ser citado é a trilha sonora de Rolfe Kent que, como pede filmes do gênero, tem uma presença marcante na narrativa. Os demais profissionais apenas cumprem o seu papel, sem grande destaque.

Dom Hemingway estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros três festivais, mas sem ganhar nenhum prêmio.

Não encontrei informações sobre o custo de Dom Hemingway, mas segundo o site Box Office Mojo, até o dia 2 de abril a produção teria conseguido pouco mais de US$ 523,5 mil nos Estados Unidos. Uma miséria.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Dom Hemingway teve cenas rodadas em Saint-Tropez, na França; em Londres, na Inglaterra; na cidade de Kent e nos estúdios Pinewood, em Buckinghamshire, ambos na Inglaterra também.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: Jude Law teria engordado 30 pounds (cerca de 13,64 quilos) para fazer o protagonista deste filme. E para conseguir esta “façanha” ele tomava 10 latas de Coca-Cola por dia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Dom Hemingway. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 textos positivos e 47 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 59% – e uma nota média de 5,9.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Ainda que este filme de Richard Shepard tenha um espírito bem inglês, o diretor e roteirista é natural de Nova York. Ele tem 23 títulos no currículo como diretor, sendo que a maioria deles é de séries para a TV – a mais recente delas, a série Salem. Antes de Dom Hemingway ele dirigiu a filmes como The Hunting Party e The Matador. Nada de grande expressão até agora, pois.

CONCLUSÃO: Se você tem no currículo uma boa quantidade de filmes assistidos, sem dúvida alguma vai ficar com o sentimento de deja vù ao assistir Dom Hemingway. E não, você não estará errado(a) ao ter esse gosto de obra revisitada o tempo todo na boca. Primeiro porque filmes ingleses melhores que este já exploraram características bem batidas nesta produção como o descontrole do protagonista e a sua verborragia, assim como o tom politicamente incorreto constante. Depois porque a história deste filme já foi filmada, com pequenas alterações, dezenas de vezes. Assim, Dom Hemingway é um filme que sai do forno com gosto de requentado. Os atores se esforçam, e é interessante ver Jude Law tão diferente. Este talvez seja a melhor motivação para ver esta produção. Se o roteiro é fraco, o protagonista se sai bem tentando dar algum interesse para o filme. Assista se não tiver nenhuma outra opção melhor.