Hereditary – Hereditário

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Um filme, para ser sinistro, precisa apresentar alguns predicados. Primeiro, começar daquela forma bacana, quase pueril, e depois dar uma bela guinada na história. Depois, ter algumas atitudes bem estranhas dos seus protagonistas ou personagens secundários. Finalmente, deve ter alguns elementos sobrenaturais ou do tipo “incontroláveis”, do gênero que impede que qualquer atitude racional possa colocar um freio. Tudo isso encontramos em Hereditary, um dos filmes mais sinistros que eu assisti nos últimos tempos. Mas apesar de ter todos esses elementos e ser um bocado impactante, esse filme carece um pouco de originalidade. Vejamos o porquê.

A HISTÓRIA: Começa com um texto sobre a morte de Ellen Taper Leigh, que morreu aos 78 anos depois de passar por um longo período doente. A morte dela ocorreu na casa de sua filha, Annie, no dia 3 de abril de 2018. Amada esposa do falecido Martin Leigh, mãe devota de Annie Leigh Graham e do falecido Charles Leigh. Avó de Peter Graham e Charlie Graham. Sogra do Dr. Steven Graham. Todos sentirão sua falta. O corpo dela será velado na sexta-feira, das 10h às 12h, na Funerária Kingstone. Do funeral, o corpo seguirá no sábado, às 10h, para o enterro no Cemitério Spring Blossom.

Por uma janela, vemos a uma casa da árvore. Dentro da residência, diversas maquetes, inclusive uma que mostra um quarto simples, com cama e armário. Conforme a câmera se aproxima, vemos a jovem na cama. Entra pela porta o pai de Peter (Alex Wolff), Steve (Gabriel Byrne), que chama o jovem para o funeral da avó. Em seguida, Steve procura Charlie (Milly Shapiro) na casa da árvore, e chama a garota também para o carro, onde Annie (Toni Collette) está esperando a família para ir para o velório da mãe. Esse fato é apenas o começo de uma série de acontecimentos na vida da família Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hereditary): Cheguei até esse filme porque ele foi citado por diferentes listas de “melhores filmes de 2018 até agora” feitas por críticos americanos. Assisti a essa produção, claro, desconfiando que se tratava de um filme de suspense/terror, mas eu não tinha mais nenhuma expectativa além dessa.

No início, achei interessante aquela pegada um tanto psicológica envolvendo Annie e o seu trabalho de criar “pequenos mundos”. Ela tinha que enfrentar a perda da mãe ao mesmo tempo em que precisava lidar com uma série de problemas familiares. Primeiro, os seus filhos, que não eram exatamente muito apegados ou comunicativos com ela. Depois, por ser sonâmbula e, aparentemente, um pouco inconstante, a própria Annie sentia que o marido e os filhos pareciam não confiar muito nela.

Temos, assim, um cenário com várias possibilidades de conflitos e de problemas. A tensão e a tristeza estão no ar mas, apesar disso, Annie e sua família parecem normais. Nada demais. Quando Hereditary começa, o roteiro do diretor Ari Aster nos situa em um momento importante, que é o luto vivenciado por Annie e pelos seus filhos com a morte de Ellen. O fato de Annie viver utilizando a imagem dela e das pessoas da sua família nas maquetes é o que dá os primeiros arrepios, mas nada demais.

O primeiro sinal realmente sinistro acontece quando um pássaro morre do lado de fora da classe de Charlie e a garota vai, discretamente, até lá para cortar a cabeça do animal e a leva para casa. A questão da perda de cabeças será uma constante nesse filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Há diversas cenas um pouco “estranhas” pinceladas aqui e ali – especialmente algumas “aparições”, mas tudo caminha com certa naturalidade até que Charlie acompanha a contragosto o irmão Peter para uma festa. O acidente em que Charlie literalmente é degolada marca um “antes” e um “depois” nesta produção.

Certo que a família de Annie parecia meio disfuncional. Ela tinha uma certa dificuldade de ser próxima dos filhos – como ela própria, aparentemente, não tinha conseguido ser próxima da própria mãe. Ainda que Peter estivesse um tanto “chapado”, a reação dele de ir para casa, deitar-se na cama e não dizer nada sobre o que tinha acontecido com a irmão é mais do que fora do comum. É muito, muito estranha. Mas todos naquela casa pareciam ter reações estranhas que envolviam mentir e esconder fatos uns dos outros.

Vejamos. Annie mente para o marido dizendo que ia ao cinema quando, na verdade, ela estava procurando um grupo de apoio para pessoas que estavam em luto. Steve não disse para a esposa que o túmulo da mãe dela tinha sido violado. Peter e Charlie também pouco compartilhavam de suas vidas – eles pareciam viver fechados em si mesmos. Então as pessoas, por si mesmas, já pareciam um tanto estranhas e descoladas.

Mas, volto a dizer, apesar deste cenário, a reação de Peter era digna de chamar um psicólogo para trabalhar com o garoto. Só que nada disso é feito. No lugar de procurar ajuda para o filho, Annie fica amargurada e guarda uma grande raiva e indignação dentro de si. Depois da segunda perda na família, ela acaba se aproximando ainda mais de Joan (Ann Dowd), uma mulher que ela conheceu no grupo de apoio para pessoas que estão em luto.

E aí que o filme começa a ficar um tanto óbvio e, ao mesmo tempo, cada vez mais sinistro e com algumas “forçadas de barra”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A parte do lugar-comum e da obviedade é a forma com que Joan convence Annie de que ela poderá voltar a falar com a filha. Retomamos o velho jogo do copo e, em seguida, o papel e caneta para o “espírito” da garota se comunicar com a mãe.

Mas, depois, descobrimos que nada daquilo é verdadeiro. Joan não é a pessoa que diz ser e tudo faz parte de um plano elaborado de “possessão”, mas não de Annie, e sim de Peter. O que achei mais curioso dessa história é todos da família terem que morrer de forma violenta para que a tal possessão de Peter fosse concretizada no final. Então a parte de Joan convencer Annie com “sessões espíritas” é a parte óbvia do filme.

A parte um tanto “forçada” para o meu gosto, é como os adultos Steve e Annie agem frente a situações cada vez mais sinistras e um tanto macabras. Quando descobre o corpo da sogra no sótão, Steve não faz o que qualquer pessoa normal faria e chama a polícia. Não, ele confronta a esposa achando que ela fez aquilo. Antes, ele já tinha agido com certa “naturalidade” com o comportamento estranho do filho com a morte da irmão. E agora isso?

Por mais que Steve quisesse proteger as pessoas da família, acho muito estranho para um médico – ou psiquiatra? – agir daquela maneira. Além disso, ele embarca na ideia maluca da mulher de querer queimar o caderno de desenhos feitos pela filha morta. As próprias ações de Annie não fazem muito sentido. Ora, se ela quer salvar a família, a melhor saída seria realmente se “autodestruir” jogando aqueles desenhos no fogo? E se, na cabeça de Annie, essa era a melhor saída, por que pedir para que Steve presencie a cena? Não faria mais sentido ela fazer isso sozinha?

Alguém desesperado, mas com o mínimo de sanidade, não tentaria tirar a família daquela casa, chamar a polícia para denunciar o corpo da mãe e as atitudes de Joan? Certo que filmes de suspense e de terror geralmente não tem muita preocupação em parecerem lógicos, mas acho que esse Hereditary se esforça muito para ser macabro e para nos apresentar mortes estranhas e sinistras e tem pouco contato com reações que poderíamos esperar de personagens com algum pé na realidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de suspense/terror que tenham esse “fundinho” ao menos de realidade. Acho que quando tratamos de ações e reações mais realistas, mais o terror parece se aproximar do espectador. No caso de Hereditary, o filme impacta pelas cenas das morte sinistras, assim como pelo resgate de algo por si só assustador, que são os grupos de fanáticos satanistas. Mas fora esse detalhe, esse filme me pareceu forçar um pouco a barra da história com diversas cenas de “alucinações” e um bocado de descontrole da protagonista.

Os atores fazem um belo trabalho, mas achei um tanto forçada a interpretação tanto de Toni Collette, que faz uma Annie um bocado histérica, quanto de Alex Wolff, que também faz um garoto fora do “compasso” e um tanto “amedrontado” demais para um jovem da sua idade.

Na verdade, me parece, que o mais racional da família, Steve, deveria ter tido outra atitude em relação às perdas que eles tiveram. A passividade dele e a forma com que Annie ignora a história da própria família são de assustar – e acabam desencadeando boa parte da loucura que vemos em cena. Ah sim, outro ponto que me parece meio sem sentido: beleza que a mãe de Annie queria que o neto Peter fosse o novo “hospedeiro” do seu demônio do coração, mas para que, para realizar isso, ela precisava liquidar com toda a família? Outro ponto um tanto forçado.

Um filme assustador, em muitos momentos, mas que em outros nos cansa um pouco com aquele recurso de “figuras sinistras correndo a qualquer momento na frente da tela”. Hereditary tem bons atores – especialmente Toni Collette em grande momento – e uma crescente de terror que muitas vezes funciona mas que, aqui, me pareceu um bocado forçado. O final, de qualquer forma, na casa da árvore, é bastante impactante. Apenas por aquela cena, o filme merece aplausos pela coragem de Ari Aster. Mas a história em si… deixa um pouco a desejar.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curiosas diversas escolhas do roteirista e diretor Ari Aster. Ele tem um estilo muito próprio em focar a atenção nos detalhes, seja dos cenários em miniatura, seja nas interpretações dos atores. A escalada sinistra que ele faz no roteiro também é para poucos. Procurei saber mais sobre o diretor e vi que Hereditary é o primeiro longa feito por ele. Antes, Aster dirigiu a sete curtas, apenas.

Para quem gostou do estilo de Ari Aster, a boa notícia é que ele já está filmando o seu próximo longa: Mindsommar, um outro filme de terror. Veremos o que ele nos apresenta da próxima vez. Mindsommar deve ser lançado em 2019.

O destaque desta produção, apesar de alguns rompantes histéricos, sem dúvida alguma é a atriz Toni Collette. Ela rouba a cena toda a vez em que aparece. Carismática e cheia de nuances em sua interpretação, ela é fascinante. Além dela, estão bem Alex Wolff como Peter, um garoto que parece querer a aprovação da mãe na mesma medida em que teme o que ela pode fazer; Gabriel Byrne como Steve, o estereótipo de marido calado e de bom pai; Milly Shapiro como Charlie, uma menina também um tanto “introspectiva” demais e a primeira vítima da avó; Mallory Bechtel bem em uma ponta como Bridget, a garota do colégio de quem Peter gosta; e Ann Dowd muito bem como Joan, um mulher aparentemente comum que se revela uma maluca de primeira linha.

Há diversos outros atores em cena, mas quase todos em papéis tão secundários e pouco relevantes para a história que eu nem acho que faz falta citá-los por aqui.

Entre os aspectos técnicos desta produção, o destaque vai para a direção cuidadosa e atenta para os detalhes de Ari Aster. Ele também sabe fazer a história assumir um “crescente” de tensão importante, ainda que o roteiro dele não seja tão brilhante por recorrer a diversos lugares-comuns e a um ou dois pontos um tanto “forçados”. Além do trabalho de Aster, vale destacar a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski; a edição de Lucian Johnston e Jennifer Lame; a trilha sonora feita para assustar e criar tensão assinada por Colin Stetson; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Richard T. Olson; a decoração de set de Brian Lives; os figurinos de Olga Mill; a maquiagem perfeita feita por 14 profissionais; e os efeitos visuais realizados por outros 19 profissionais.

Hereditary estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, do South by Southwest Film Festival e do Haifa Film Festival. No Brasil, o filme estreou em junho de 2018. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros nove. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Toni Collette no International Online Cinema Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: segundo Alex Wolf, Hereditary poderia ter, facilmente, três horas de duração por todas as cenas que foram rodadas para essa produção. Para ficar mais condensado, os realizadores resolveram cortar diversas cenas de diálogos familiares.

Hereditary foi rodado em 32 dias.

Muitas pessoas do elenco e da produção encaram Hereditary muito mais como um drama familiar do que como um filme de terror. Sim, até certo ponto do filme, eu concordo. Mas depois… essa produção se torna totalmente um filme de terror.

Ari Aster tem 10 roteiros já escritos que ele espera rodar ao longo de sua carreira. Isso que eu chamo de um sujeito organizado e com uma bela programação pela frente. 😉

Agora, uma curiosidade que ajudou a tirar uma dúvida que eu tinha sobre Hereditary. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O demônio invocado nesta produção seria um anjo herege que, apesar de poder tomar formas femininas é, essencialmente, masculino. Além de ocupar o corpo da mãe de Annie, antes dela morrer, ele também possuiu Charlie antes de finalmente se apoderar de Peter. Então sim, sempre que ouvimos Charlie “estralando” a língua, fazendo um som típico com a boca, é porque o demônio está por ali. Tive a impressão que a menina tinha sido “possuída” primeiro, mas tire essa dúvida ao ler essa nota da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 255 críticas positivas e 32 críticas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – elevada se levarmos em conta o padrão do site. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 87 para esta produção, fruto de 46 críticas positivas, duas medianas e uma negativa. Com esta avaliação positiva, Hereditary ganhou o selo de “você precisa ver” do Metascore.

De acordo com o site Box Office Mojo, Hereditary fez US$ 44,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 35,3 milhões em outros mercados em que o filme estreou. No total, essa produção ultrapassou um pouco os US$ 79,3 milhões. Um belo resultado para uma estreia de um diretor no mercado do terror. Ainda mais que, segundo o site IMDb, Hereditary teria custado cerca de US$ 10 milhões. Ou seja, o filme deu um belo lucro. Um sinal positivo para Ari Aster seguir a sua trajetória.

Hereditary é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog – e na qual vocês pediam mais filmes made in USA. 😉

CONCLUSÃO: Se você está procurando um novo filme de terror “clássico”, essa é uma boa pedida. Hereditary resgata parte do manual do terror para nos apresentar uma história matematicamente dividida e feita para levar você da calmaria para a aflição – ou algo parecido com isso. Com belas interpretações e um enredo com alguns furos, Hereditary é forte por não ter muitos filtros sobre o que veremos na tela. Sinistro, ele apresenta um par de cenas bastante fortes. Está entre os filmes do gênero mais impactantes dos últimos tempos, ainda que ele não tenha as sacadas ou a inteligência de outras produções recentes, como Get Out (comentado por aqui). Mas Hereditary é bom, sem ser imperdível. Recomendado, realmente, para quem gosta do gênero e não tem problemas com gritos. 😉

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