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Hereditary – Hereditário

Um filme, para ser sinistro, precisa apresentar alguns predicados. Primeiro, começar daquela forma bacana, quase pueril, e depois dar uma bela guinada na história. Depois, ter algumas atitudes bem estranhas dos seus protagonistas ou personagens secundários. Finalmente, deve ter alguns elementos sobrenaturais ou do tipo “incontroláveis”, do gênero que impede que qualquer atitude racional possa colocar um freio. Tudo isso encontramos em Hereditary, um dos filmes mais sinistros que eu assisti nos últimos tempos. Mas apesar de ter todos esses elementos e ser um bocado impactante, esse filme carece um pouco de originalidade. Vejamos o porquê.

A HISTÓRIA: Começa com um texto sobre a morte de Ellen Taper Leigh, que morreu aos 78 anos depois de passar por um longo período doente. A morte dela ocorreu na casa de sua filha, Annie, no dia 3 de abril de 2018. Amada esposa do falecido Martin Leigh, mãe devota de Annie Leigh Graham e do falecido Charles Leigh. Avó de Peter Graham e Charlie Graham. Sogra do Dr. Steven Graham. Todos sentirão sua falta. O corpo dela será velado na sexta-feira, das 10h às 12h, na Funerária Kingstone. Do funeral, o corpo seguirá no sábado, às 10h, para o enterro no Cemitério Spring Blossom.

Por uma janela, vemos a uma casa da árvore. Dentro da residência, diversas maquetes, inclusive uma que mostra um quarto simples, com cama e armário. Conforme a câmera se aproxima, vemos a jovem na cama. Entra pela porta o pai de Peter (Alex Wolff), Steve (Gabriel Byrne), que chama o jovem para o funeral da avó. Em seguida, Steve procura Charlie (Milly Shapiro) na casa da árvore, e chama a garota também para o carro, onde Annie (Toni Collette) está esperando a família para ir para o velório da mãe. Esse fato é apenas o começo de uma série de acontecimentos na vida da família Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hereditary): Cheguei até esse filme porque ele foi citado por diferentes listas de “melhores filmes de 2018 até agora” feitas por críticos americanos. Assisti a essa produção, claro, desconfiando que se tratava de um filme de suspense/terror, mas eu não tinha mais nenhuma expectativa além dessa.

No início, achei interessante aquela pegada um tanto psicológica envolvendo Annie e o seu trabalho de criar “pequenos mundos”. Ela tinha que enfrentar a perda da mãe ao mesmo tempo em que precisava lidar com uma série de problemas familiares. Primeiro, os seus filhos, que não eram exatamente muito apegados ou comunicativos com ela. Depois, por ser sonâmbula e, aparentemente, um pouco inconstante, a própria Annie sentia que o marido e os filhos pareciam não confiar muito nela.

Temos, assim, um cenário com várias possibilidades de conflitos e de problemas. A tensão e a tristeza estão no ar mas, apesar disso, Annie e sua família parecem normais. Nada demais. Quando Hereditary começa, o roteiro do diretor Ari Aster nos situa em um momento importante, que é o luto vivenciado por Annie e pelos seus filhos com a morte de Ellen. O fato de Annie viver utilizando a imagem dela e das pessoas da sua família nas maquetes é o que dá os primeiros arrepios, mas nada demais.

O primeiro sinal realmente sinistro acontece quando um pássaro morre do lado de fora da classe de Charlie e a garota vai, discretamente, até lá para cortar a cabeça do animal e a leva para casa. A questão da perda de cabeças será uma constante nesse filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Há diversas cenas um pouco “estranhas” pinceladas aqui e ali – especialmente algumas “aparições”, mas tudo caminha com certa naturalidade até que Charlie acompanha a contragosto o irmão Peter para uma festa. O acidente em que Charlie literalmente é degolada marca um “antes” e um “depois” nesta produção.

Certo que a família de Annie parecia meio disfuncional. Ela tinha uma certa dificuldade de ser próxima dos filhos – como ela própria, aparentemente, não tinha conseguido ser próxima da própria mãe. Ainda que Peter estivesse um tanto “chapado”, a reação dele de ir para casa, deitar-se na cama e não dizer nada sobre o que tinha acontecido com a irmão é mais do que fora do comum. É muito, muito estranha. Mas todos naquela casa pareciam ter reações estranhas que envolviam mentir e esconder fatos uns dos outros.

Vejamos. Annie mente para o marido dizendo que ia ao cinema quando, na verdade, ela estava procurando um grupo de apoio para pessoas que estavam em luto. Steve não disse para a esposa que o túmulo da mãe dela tinha sido violado. Peter e Charlie também pouco compartilhavam de suas vidas – eles pareciam viver fechados em si mesmos. Então as pessoas, por si mesmas, já pareciam um tanto estranhas e descoladas.

Mas, volto a dizer, apesar deste cenário, a reação de Peter era digna de chamar um psicólogo para trabalhar com o garoto. Só que nada disso é feito. No lugar de procurar ajuda para o filho, Annie fica amargurada e guarda uma grande raiva e indignação dentro de si. Depois da segunda perda na família, ela acaba se aproximando ainda mais de Joan (Ann Dowd), uma mulher que ela conheceu no grupo de apoio para pessoas que estão em luto.

E aí que o filme começa a ficar um tanto óbvio e, ao mesmo tempo, cada vez mais sinistro e com algumas “forçadas de barra”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A parte do lugar-comum e da obviedade é a forma com que Joan convence Annie de que ela poderá voltar a falar com a filha. Retomamos o velho jogo do copo e, em seguida, o papel e caneta para o “espírito” da garota se comunicar com a mãe.

Mas, depois, descobrimos que nada daquilo é verdadeiro. Joan não é a pessoa que diz ser e tudo faz parte de um plano elaborado de “possessão”, mas não de Annie, e sim de Peter. O que achei mais curioso dessa história é todos da família terem que morrer de forma violenta para que a tal possessão de Peter fosse concretizada no final. Então a parte de Joan convencer Annie com “sessões espíritas” é a parte óbvia do filme.

A parte um tanto “forçada” para o meu gosto, é como os adultos Steve e Annie agem frente a situações cada vez mais sinistras e um tanto macabras. Quando descobre o corpo da sogra no sótão, Steve não faz o que qualquer pessoa normal faria e chama a polícia. Não, ele confronta a esposa achando que ela fez aquilo. Antes, ele já tinha agido com certa “naturalidade” com o comportamento estranho do filho com a morte da irmão. E agora isso?

Por mais que Steve quisesse proteger as pessoas da família, acho muito estranho para um médico – ou psiquiatra? – agir daquela maneira. Além disso, ele embarca na ideia maluca da mulher de querer queimar o caderno de desenhos feitos pela filha morta. As próprias ações de Annie não fazem muito sentido. Ora, se ela quer salvar a família, a melhor saída seria realmente se “autodestruir” jogando aqueles desenhos no fogo? E se, na cabeça de Annie, essa era a melhor saída, por que pedir para que Steve presencie a cena? Não faria mais sentido ela fazer isso sozinha?

Alguém desesperado, mas com o mínimo de sanidade, não tentaria tirar a família daquela casa, chamar a polícia para denunciar o corpo da mãe e as atitudes de Joan? Certo que filmes de suspense e de terror geralmente não tem muita preocupação em parecerem lógicos, mas acho que esse Hereditary se esforça muito para ser macabro e para nos apresentar mortes estranhas e sinistras e tem pouco contato com reações que poderíamos esperar de personagens com algum pé na realidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de suspense/terror que tenham esse “fundinho” ao menos de realidade. Acho que quando tratamos de ações e reações mais realistas, mais o terror parece se aproximar do espectador. No caso de Hereditary, o filme impacta pelas cenas das morte sinistras, assim como pelo resgate de algo por si só assustador, que são os grupos de fanáticos satanistas. Mas fora esse detalhe, esse filme me pareceu forçar um pouco a barra da história com diversas cenas de “alucinações” e um bocado de descontrole da protagonista.

Os atores fazem um belo trabalho, mas achei um tanto forçada a interpretação tanto de Toni Collette, que faz uma Annie um bocado histérica, quanto de Alex Wolff, que também faz um garoto fora do “compasso” e um tanto “amedrontado” demais para um jovem da sua idade.

Na verdade, me parece, que o mais racional da família, Steve, deveria ter tido outra atitude em relação às perdas que eles tiveram. A passividade dele e a forma com que Annie ignora a história da própria família são de assustar – e acabam desencadeando boa parte da loucura que vemos em cena. Ah sim, outro ponto que me parece meio sem sentido: beleza que a mãe de Annie queria que o neto Peter fosse o novo “hospedeiro” do seu demônio do coração, mas para que, para realizar isso, ela precisava liquidar com toda a família? Outro ponto um tanto forçado.

Um filme assustador, em muitos momentos, mas que em outros nos cansa um pouco com aquele recurso de “figuras sinistras correndo a qualquer momento na frente da tela”. Hereditary tem bons atores – especialmente Toni Collette em grande momento – e uma crescente de terror que muitas vezes funciona mas que, aqui, me pareceu um bocado forçado. O final, de qualquer forma, na casa da árvore, é bastante impactante. Apenas por aquela cena, o filme merece aplausos pela coragem de Ari Aster. Mas a história em si… deixa um pouco a desejar.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curiosas diversas escolhas do roteirista e diretor Ari Aster. Ele tem um estilo muito próprio em focar a atenção nos detalhes, seja dos cenários em miniatura, seja nas interpretações dos atores. A escalada sinistra que ele faz no roteiro também é para poucos. Procurei saber mais sobre o diretor e vi que Hereditary é o primeiro longa feito por ele. Antes, Aster dirigiu a sete curtas, apenas.

Para quem gostou do estilo de Ari Aster, a boa notícia é que ele já está filmando o seu próximo longa: Mindsommar, um outro filme de terror. Veremos o que ele nos apresenta da próxima vez. Mindsommar deve ser lançado em 2019.

O destaque desta produção, apesar de alguns rompantes histéricos, sem dúvida alguma é a atriz Toni Collette. Ela rouba a cena toda a vez em que aparece. Carismática e cheia de nuances em sua interpretação, ela é fascinante. Além dela, estão bem Alex Wolff como Peter, um garoto que parece querer a aprovação da mãe na mesma medida em que teme o que ela pode fazer; Gabriel Byrne como Steve, o estereótipo de marido calado e de bom pai; Milly Shapiro como Charlie, uma menina também um tanto “introspectiva” demais e a primeira vítima da avó; Mallory Bechtel bem em uma ponta como Bridget, a garota do colégio de quem Peter gosta; e Ann Dowd muito bem como Joan, um mulher aparentemente comum que se revela uma maluca de primeira linha.

Há diversos outros atores em cena, mas quase todos em papéis tão secundários e pouco relevantes para a história que eu nem acho que faz falta citá-los por aqui.

Entre os aspectos técnicos desta produção, o destaque vai para a direção cuidadosa e atenta para os detalhes de Ari Aster. Ele também sabe fazer a história assumir um “crescente” de tensão importante, ainda que o roteiro dele não seja tão brilhante por recorrer a diversos lugares-comuns e a um ou dois pontos um tanto “forçados”. Além do trabalho de Aster, vale destacar a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski; a edição de Lucian Johnston e Jennifer Lame; a trilha sonora feita para assustar e criar tensão assinada por Colin Stetson; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Richard T. Olson; a decoração de set de Brian Lives; os figurinos de Olga Mill; a maquiagem perfeita feita por 14 profissionais; e os efeitos visuais realizados por outros 19 profissionais.

Hereditary estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, do South by Southwest Film Festival e do Haifa Film Festival. No Brasil, o filme estreou em junho de 2018. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros nove. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Toni Collette no International Online Cinema Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: segundo Alex Wolf, Hereditary poderia ter, facilmente, três horas de duração por todas as cenas que foram rodadas para essa produção. Para ficar mais condensado, os realizadores resolveram cortar diversas cenas de diálogos familiares.

Hereditary foi rodado em 32 dias.

Muitas pessoas do elenco e da produção encaram Hereditary muito mais como um drama familiar do que como um filme de terror. Sim, até certo ponto do filme, eu concordo. Mas depois… essa produção se torna totalmente um filme de terror.

Ari Aster tem 10 roteiros já escritos que ele espera rodar ao longo de sua carreira. Isso que eu chamo de um sujeito organizado e com uma bela programação pela frente. 😉

Agora, uma curiosidade que ajudou a tirar uma dúvida que eu tinha sobre Hereditary. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O demônio invocado nesta produção seria um anjo herege que, apesar de poder tomar formas femininas é, essencialmente, masculino. Além de ocupar o corpo da mãe de Annie, antes dela morrer, ele também possuiu Charlie antes de finalmente se apoderar de Peter. Então sim, sempre que ouvimos Charlie “estralando” a língua, fazendo um som típico com a boca, é porque o demônio está por ali. Tive a impressão que a menina tinha sido “possuída” primeiro, mas tire essa dúvida ao ler essa nota da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 255 críticas positivas e 32 críticas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – elevada se levarmos em conta o padrão do site. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 87 para esta produção, fruto de 46 críticas positivas, duas medianas e uma negativa. Com esta avaliação positiva, Hereditary ganhou o selo de “você precisa ver” do Metascore.

De acordo com o site Box Office Mojo, Hereditary fez US$ 44,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 35,3 milhões em outros mercados em que o filme estreou. No total, essa produção ultrapassou um pouco os US$ 79,3 milhões. Um belo resultado para uma estreia de um diretor no mercado do terror. Ainda mais que, segundo o site IMDb, Hereditary teria custado cerca de US$ 10 milhões. Ou seja, o filme deu um belo lucro. Um sinal positivo para Ari Aster seguir a sua trajetória.

Hereditary é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog – e na qual vocês pediam mais filmes made in USA. 😉

CONCLUSÃO: Se você está procurando um novo filme de terror “clássico”, essa é uma boa pedida. Hereditary resgata parte do manual do terror para nos apresentar uma história matematicamente dividida e feita para levar você da calmaria para a aflição – ou algo parecido com isso. Com belas interpretações e um enredo com alguns furos, Hereditary é forte por não ter muitos filtros sobre o que veremos na tela. Sinistro, ele apresenta um par de cenas bastante fortes. Está entre os filmes do gênero mais impactantes dos últimos tempos, ainda que ele não tenha as sacadas ou a inteligência de outras produções recentes, como Get Out (comentado por aqui). Mas Hereditary é bom, sem ser imperdível. Recomendado, realmente, para quem gosta do gênero e não tem problemas com gritos. 😉

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First Reformed – No Coração da Escuridão

As nossas escolhas nem sempre são óbvias. Ainda que seja verdade que muito do que fazemos, no dia a dia, seja previsível, tantas outras escolhas fogem do que poderia ser considerado como “evidente”. First Reformed trata sobre o que realmente nos move, e sobre motivações escondidas por trás de atos algumas vezes incompreensíveis para os demais. Nem tudo na vida tem explicação, por mais que nos agarremos na razão ou na fé. Ou até tudo tem explicação, mas ela nem sempre está ao nosso alcance. Estes são alguns dos assuntos deste filme.

A HISTÓRIA: Lentamente, a câmera vais e aproximando de uma igreja branca e simples. Em volta desta igreja, apenas algumas árvores e arbustos. Em uma placa, as informações sobre o local: Primeira Igreja Reformada de Snowbridge, Nova York. Planejada em 1767, construída em 1801 por colonos da Friesland Oeste, liderados pelo pastor Wortendyk, é a mais antiga igreja em atividade no Condado de Albany.

Atual líder dessa igreja histórica, o pastor Toller (Ethan Hawke) comenta que decidiu começar a escrever um diário. Ele escreve isso em um caderno, onde começará a relatar as suas experiências e reminiscências. Ele diz que o objetivo é registrar em palavras os pensamentos dele e os acontecimentos de seu dia a dia de forma objetiva. O pastor Toller afirma: “Quando se escreve sobre si, não se deve mostrar misericórdia”. A ideia dele é manter o diário por um ano. Mas muitos eventos vão acontecer antes desse prazo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Reformed): Enquanto poucas opções de filmes me chamam a atenção nos cinemas, eu vou seguindo com a minha lista de filmes que foram apontados por especialistas como alguns dos melhores do ano e com a minha “revisita”/redescoberta de clássicos do cinema. First Reformed faz parte da primeira categoria, é claro.

Inicialmente, achei a proposta do filme bastante interessante. Acredito que todos, independente da fé ou da falta de fé que tenham, têm uma certa curiosidade sobre como é a vida dos padres e pastores. O que eles fazem quando eles não estão em seu “grande momento” de ministrar missas e celebrações? Nem sempre lembramos, mas eles são pessoas comuns, homens que tem necessidades fisiológicas e capacidade física e mental limitada como qualquer outro homem que já viveu sobre a Terra.

Apesar de serem feitos de carne e osso, órgãos vitais e instintos, como todos nós, esses “homens da Igreja” são investidos de um grande diferencial: para quem tem fé e segue a religião cristã, eles são diferenciados porque são os “porta-vozes” de Deus. Eles se prepararam por diversos anos para entender a Palavra de Deus como ninguém e, ao dedicarem a sua vida para a sua religião, eles estão dedicando os seus dias para Deus e para as suas comunidades.

Para quem segue uma religião cristã, esses padres e pastores são conselheiros e pessoas para quem eles podem pedir ajuda quando necessário. Ainda que tudo isso seja verdade, também é verdade que estes líderes espirituais e comunitários também tem as suas necessidades, acertos e falhas, como qualquer outro ser humano. E as pessoas têm curiosidade para saber o que acontece com eles fora das situações mais “comuns” e evidentes e o que eles realmente pensam além das pregações.

Admito que eu sou uma destas pessoas. Que tem curiosidade sobre como é a vida, os sentimentos e pensamentos dos padres e pastores. First Reformed aparece para responder parte destas dúvidas. O protagonista deste filme, o pastor Toller, teve uma história complicada antes de fazer parte da Igreja. Mas, como ele comenta com Michael (Philip Ettinger), um ativista que vai ser pai e que não quer colocar uma criança nesse mundo em vias de destruição, após perder o filho único na Guerra do Iraque, ele foi chamado pelo pastor Jeffers (Cedrid the Entertainer) para atuar na First Reformed.

A igreja em que ele atua tem importância histórica e está perto de completar 250 anos de atividades quando Toller começa o seu próprio diário e começamos a acompanhá-lo nessa produção com roteiro e direção de Paul Schrader. No dia a dia como pastor, além de presidir algumas celebrações na igreja histórica, ele faz visitas guiadas explicando um pouco da história do local para interessados, apresenta “souvenirs” da igreja e participa das atividades da Abundant Life, igreja de Jeffers.

Faz parte do cotidiano do protagonista o trabalho de aconselhamento de pessoas da comunidade e o seu envolvimento com os jovens da Abundant Life. Logo no início desta produção, a jovem Mary (Amanda Seyfried) procura o pastor Toller pedindo ajuda. Ela quer que ele converse com Michael, o seu marido até há pouco desempregado, depressivo e que não deseja que o filho deles nasça. O exemplo do casal é bastante ilustrativo sobre os desafios que um pastor/padre tem que enfrentar no seu dia a dia.

O roteiro de Schrader é inteligente ao mostrar, logo no início, as diferentes situações que um líder espiritual e comunitário enfrente no seu dia a dia. Desde o início desta produção, o nosso protagonista divide os seus dias entre a burocracia de preparar as comemorações da data festiva da First Reformed e o aconselhamento do casal Michael e Mary. Enquanto interesses “mundanos”, econômicos e políticos envolvem o primeiro tema, no segundo tema temos dilemas espirituais e existenciais – inclusive uma questão de vida e morte.

Acho que o filme acerta ao humanizar a figura de um pastor, mostrando toda a sua busca por ajudar ao próximo e, ao mesmo tempo, as suas contradições. Nisso, Schrader vai muito bem. Mas em outros pontos, achei que o filme exagera na dose apenas para “chocar” o espectador. E sempre que um filme faz isso, exagera nas tintas e nas doses para criar um impacto em quem está assistindo, mas de uma forma um tanto “deslocada” em relação ao restante da narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Esse foi o caso deste First Reformed.

Para mim, foi evidente a aproximação contraditória do pastor e de Mary desde o início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, ainda que existisse certa “tensão sexual” entre eles, o pastor não faria nada se o marido dela não tivesse se matado. Isso é fato. Mas o quanto ele se sentiu responsável pela morte de Michael? Ainda que ele tivesse claro que não foi ele que apertou o gatilho, o quanto Toller não pensava se ele poderia ter evitado aquilo?

De fato, depois que Mary descobre o colete com bombas e chama Toller para dar um jeito naquilo, tanto Mary quanto o pastor não souberam lidar com o risco que a descoberta deste fato trazia para Michael. Eles não mediram bem esse risco e aconteceu o que aconteceu naquele parque para o qual o pastor é chamado.

A partir daquele momento, o que já vinha sendo ruim para Toller, apenas piora. Ele acaba questionando as questões práticas do dia a dia da igreja, como os interesses econômicos e políticos, e buscando por uma resposta para aquela pergunta cabal que Michael fez para ele: “Deus pode nos perdoar pelo que fizemos a esse mundo?”. Até aí, tudo bem. Todo esse conjunto de questionamentos e dúvidas do pastor em seu íntimo, reveladas por seu diário, são compreensíveis.

Como acontece, acredito, com tantas outras pessoas que acabam se dedicando à Igreja para ajudar os outros, muitas vezes é mais fácil ser misericordioso e generoso com os demais do que consigo mesmo. Dizem que muitos psicólogos estudam essa área porque eles próprios tem muitos dilemas e problemas para resolver/tratar. Acredito que o mesmo pode acontecer com quem vira um pastor/padre ou um voluntário contumaz na Igreja.

Para mim, esse é o caso do protagonista de First Reformed. Ele tem uma profunda dor da perda do filho para resolver – e, provavelmente, uma boa carga de culpa por causa dessa perda. Toller vivenciou a perda de um filho, e por causa de uma “tradição” familiar de servir à pátria que se provou fatal. Por causa disso, o casamento dele faliu. E o que lhe restou? Além de muitas dúvidas, a vontade de converter toda a sua força excedente em ajudar ao próximo.

Isso é bacana e digno de aplausos, mas como alguém já disse antes, para que você consiga ajudar a alguém, primeiro é necessário que você ajude a si mesmo. Apenas alguém que está bem consigo mesmo pode fazer realmente bem aos demais. E vemos isso claramente com Toller, que até é capaz de ajudar aos outros, mas por relativamente pouco tempo porque ele próprio não se ajuda. No escuro da noite, ele consome garrafas e garrafas de bebida e urina sangue. Ele está doente, mas não parece estar disposto a pedir ajuda.

Além disso, fora os momentos obrigatórios de celebrações, ele admite que tem dificuldade de rezar. Em seus escritos, ele também deixa claro uma boa dose de autocrítica e de questionamentos sobre a própria instituição igreja. Confrontado com questões polêmicas, Toller nem sempre tem uma resposta para dar para o interlocutor. Seja para aquela pergunta cabal feita por Michael, seja para responder “à altura” um jovem que o confronta em uma roda de conversa. De fato, os pastores e padres nem sempre tem a resposta para tudo – daí surge o famoso “Mistério” e a falta de respostas justificada pela nossa capacidade humana limitada de entender a realidade e os fatos.

Até aí, tudo certo. First Reformed apresenta consistência, questionamentos interessantes e uma humanização da figura de um pastor que raramente vemos em algum filme. Também interessante como essa produção toca em outro tema importante: a autodestruição da humanidade através da degradação dos recursos naturais. Um tema que a Igreja retratada nesta produção não toca, por razões de interesse econômico – vide a figura do empresário Balq (Michael Gaston) -, mas que o Papa Francisco já deixou claro em seu Laudato Si.

Enfim, por tudo isso e até esse ponto, First Reformed se revela como um filme muito interessante. Agora, lá pelas tantas, ele “descamba” para um lado de “chocar” a audiência que eu achei forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beleza que o pastor Toller era um sujeito crítico e cheio de autocrítica. Tudo bem que ele se sentisse um pouco culpado pela morte do próprio filho e pelo suicídio de Michael. Certo que ele estava buscando penalizar-se pelo desejo que começou a ter em relação à Mary. Mas tudo isso justificaria ele planejar virar um homem-bomba?

Achei esse “grande finale” que a produção quase teve um bocado forçado. Na verdade, toda aquela autoflagelação do pastor achei exagerada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela ideia dele de explodir Balq, Jeffers, Esther (Victoria Hill) e todas as demais pessoas que participariam das comemorações dos 250 anos da igreja First Reformed. Sério mesmo que, por mais que ele se cobrasse e questionasse os “interesses” da igreja, ele embarcaria na ideia de Michael de virar um “mártir” matando diversos inocentes?

Sim, ele sabia que estava doente e que iria morrer em um tempo relativamente curto. Isso poderia ser motivo para um ato desesperado, mas não acho que para um ato que significaria tanta destruição e perda de vidas. Depois, como o pastor Toller vê Mary no local – algo que ele não desejava ou estava esperando -, ele decide abortar a primeira ideia e aí o filme descamba para outra cena um bocado nonsense. Toller acaba se autoflagelando sem nenhum efeito realmente prático para aquilo – além de transformar a raiva e a frustração em dor.

No fim das contas, nada disso adianta para ele. A celebração cheia de interesses econômicos e políticos acontece de qualquer forma e ele e Mary acabam se envolvendo da mesma maneira. Com tudo isso, é como se First Reformed pregasse que não adianta ter convicções e boas intenções. No fim das contas, o mundo segue girando na sua lógica desigual e as pessoas continuam se rendendo aos seus instintos e não à sua razão.

Ok, é válido apresentar esse contraponto um tanto cínico e sem esperança, mas achei tanto a reta final do filme, com os seus recursos “exagerados”, quanto este tom amargo da produção um tanto distante do estilo de produção que mais me interessa. Sim, nada do que é humano me é estranho. Mas há maneiras mais ou menos esperançosas de encarar o que nos rodeia. Pessoalmente, eu vou sempre optar pela esperança. Mas First Reformed opta por outro caminho. Respeito, mas isso não faz eu gostar mais desse filme.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, para mim, o essencial de um filme é o seu roteiro. O que aquela obra, específica, quis nos contar. Por isso, vocês vão me desculpar, mas escrevi tanto antes… diferente do que eu tinha me proposto a fazer há não muito tempo. Tinha comentado que iria escrever menos sobre os filmes, eu sei. Mas sobre First Reformed eu achei que precisava escrever mais. E, acima, falei essencialmente do roteiro e da história do filme. Mas agora tratarei de outros aspectos da produção.

Para começar, acho que Paul Schrader acerta ao focar em um número reduzido de personagens. Como uma das intenções deste filme é “mergulhar”, se aprofundar na vida e na visão de um pastor de igreja, achei coerente ficarmos a maior parte do tempo focados nesse personagem. Como em First Reformed temos um personagem realmente importante, os outros que aparecem em cena estão ali apenas para ajudar a explicar o protagonista. Então sim, fez muito sentido e funcionou termos poucos personagens secundários e atores em cena. Uma boa escolha.

O roteiro de Paul Schraber tem qualidades e defeitos, como já tratei na crítica acima. A sua direção é correta e bastante focada nas interpretações dos personagens, como não poderia deixar de ser em um filme que pretende aprofundar-se em um personagem – e nas pessoas que convivem com ele. Ou seja, tudo muito correto, e nada acima desta correção. A direção de Schraber é segura, mas não foge da previsibilidade.

Entre os atores em cena, sem dúvida alguma o grande destaque é para o ator Ethan Hawke. Ele está muito bem, muito seguro e faz uma interpretação convincente do início ao fim. Apenas me chamou a atenção o quanto ele envelheceu. Nesse filme, mais em qualquer outro que eu assisti com ele, percebi que o tempo chegou para Hawke. Fui procurar a idade dele, e descobri que ele está prestes a completar 48 anos – ele faz aniversário no dia 6 de novembro. Então sim, teremos que nos acostumar com um Hawke mais maduro. 😉

Ethan Hawke é o destaque deste filme. Mas o que ele faz aqui pode lhe render uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2019? Até pode ser que sim. Mas acho que Joaquin Phoenix em You Were Never Really Here, recentemente comentado aqui no blog, tem mais chances de emplacar uma indicação. Veremos.

Além do protagonista desta produção, chama a atenção, desde a sua primeira aparição na igreja, a jovem sempre talentosa Amanda Seyfried. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esse filme). Não vou mentir para vocês. Quando vi Amanda Seyfried naquele banco da igreja logo no início da produção, eu já suspeitava que ela teria um “flerte” com o pastor. Quem conhece a trajetória da atriz não deve ter ficado nada surpreso com isso. Ela está bem no filme, ainda que apareça pouco – na comparação com o protagonista, é claro. Ela faz um trabalho bem ponderado e interessante. Convence como alguém frágil e que ajuda a desestabilizar o pastor já instável.

Os outros atores que interpretam personagens que tem alguma relevância nessa história são: Cedric the Entertainer como o pastor Jeffers, líder da congregação em que Toller atua; Victoria Hill como Esther, coordenadora do coral de jovens da igreja e apaixonada por Toller; Philip Ettinger como Michael, ativista ambiental e marido de Mary; Michael Gaston como o empresário e “apoiador” da igreja de Jeffers, Balq; Bill Hoag como Elder, braço direito de Toller na igreja; Frank Rodriguez em uma ponta como o sheriff da cidade; e Gary Lee Mahmoud em uma ponta como o doutor que atende Toller quando ele finalmente resolve fazer os seus exames.

Diversos temas relevantes pipocam aqui e ali nessa produção. Entre outros, chama a atenção o diálogo de Toller com Michael. Algumas questões importantes são levantadas ali. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gostei, em especial, como Toller aborda o fato de que o desespero de tirar uma criança do mundo é maior do que a aflição de colocar uma criança no mundo. Esse é um tema interessante agora que discutimos tão abertamente o aborto no Brasil. Sem dúvida, em um mundo perfeito, não teríamos aborto. Mas temos que ser realistas. E sim, o desespero é maior que a aflição. Que ninguém perca isso de vista e que tenhamos mais conscientização das pessoas.

Interessante também como Toller afirma que a coragem é a solução para o desespero. De fato, é preciso querer, ter esperança, porque isso pode superar a questão da razão e da crítica – e toda a desesperança que isso pode trazer. Para Toller, as pessoas devem aprender a conviver com a esperança e o desespero. Só assim viver seria possível. Mesmo não tendo todas as respostas – porque ninguém conhece “a mente de Deus”, como defende Toller -, podemos escolher uma vida correta, afirma o personagem. Ele tem razão sobre isso. No fim das contas, tudo na nossa vida é uma questão de escolha e de decisões que tomamos.

Entre os aspectos técnicos desta produção, vale destacar a direção de fotografia de Alexander Dynan e a edição de Benjamin Rodriguez Jr. Além destes aspectos, vale citar a trilha sonora de Brian Williams; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Raphael Sorcio; a decoração de set de Nadya Gurevich; e os figurinos de Olga Mill.

First Reformed estreou em agosto de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. O filme participaria de 16 outros festivais de cinema em diversos Estados americanos e em outros países antes de estrear em circuito comercial nos Estados Unidos em maio de 2018. Até julho deste ano, o filme passou ainda por outros três festivais de cinema.

Nessa trajetória de festivais, First Reformed ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Diretor para Paul Schrader no FEST International Film Festival; o Narrative Feature Competition no Montclair Film Festival; e o Green Drop Award para Paul Schrader no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale parar para citar algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o diretor e roteirista Paul Schrader, esse é um filme totalmente diferente a tudo que ele já fez. Para o diretor, First Reformed segue a linha de produções de Ingmar Bergman, Robert Bresson e Andrei Tarkovsky.

A atriz Amanda Seyfried estava, de fato, grávida durante as filmagens de First Reformed – filmagens essas que duraram 20 dias, apenas.

Durante uma entrevista no Festival de Cinema de Roterdã, Paul Schrader comentou que só quando foi editar o filme ele notou as semelhanças de First Reformed com Taxi Driver, que também teve roteiro escrito por ele. Faz muito, mas muito tempo que eu assisti a Taxi Driver. Então tenho que rever ao filme mas, inicialmente, não vejo muitas semelhanças entre eles não… Alguém me ajuda com essa dúvida? Eles têm ou não algo a ver?

As filmagens externas e internas na igreja foram rodadas na Igreja Episcopal de Zion, na cidade de Douglaston, no Queens. O filme inteiro foi rodado no Queens e no Brooklyn, bairros famosos de Nova York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para First Reformed, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 163 críticas positivas e 12 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,3. As notas para esta produção estão bem acima da média. Só eu que realmente não me emocionei com a produção, pelo visto. 😉

First Reformed ostenta o metascore 85 no site Metacritic, além do selo “Metacritic Must-See” – selo de recomendação do site. Realmente o filme caiu no gosto dos críticos. De acordo com o site Box Office Mojo, First Reformed arrecadou US$ 3,45 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ou seja, um filme elogiado e recomendado mas pouco visto nos cinemas até agora.

First Reformed é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

CONCLUSÃO: Algumas vezes é mais fácil ajudar do que ser ajudado. Fazer algo por alguém que precisa do que ajudar a si mesmo. First Reformed parece nos falar claramente sobre isso. E sobre como nem tudo que é aparente realmente é importante. Muitas vezes as pessoas tem uma determinada motivação escondida para fazerem o que fazem. E nem sempre a ajuda chega a tempo. Esse é um filme com atuações competentes e que levanta alguns temas interessantes, mas que me pareceu exagerar em algumas doses para “chocar” o espectador. Para mim, faltou um pouco mais de conteúdo para a história.

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You Were Never Really Here – Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Conhecemos os “monstros” apenas pelo que falam sobre eles. Mas dificilmente conhecemos as suas histórias, famílias, sacrifícios e “preparativos” para que eles consigam fazer o que fazem. You Were Never Really Here fala de mais de um tipo de monstro, mas sempre aproximando as câmeras (e, por consequência, os espectadores) por uma ótica com a qual não estamos acostumados. É um filme que faz pensar, inclusive sobre o que achamos dessa história, no final das contas. Eu gostei, mas é inevitável ficar com um certo “gosto amargo” no final.

A HISTÓRIA: Contagem regressiva e palavras de repressão. A necessidade de fazer melhor. Escuro e algumas pequenas luzes aqui e ali. Alguém respira com esforço com um saco plástico na cabeça. A lembrança de um garoto que diz que precisa fazer melhor. A foto de uma garota e a voz em um rádio. A foto é queimada e jogada em uma lata de lixo. Em seguida, ela é acompanhada por uma Bíblia.

Diversos preparativos, como o plástico no detector de fumaça, a limpeza do martelo ensanguentado e o papel com o sangue jogado no vaso sanitário. O quarto é limpo, e só depois Joe (Joaquin Phoenix) sai do local cuidando para não ser visto. Ele está envolvido com histórias de violência, mas só com o tempo vamos descobrir qual é o papel dele nesse contexto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a You Were Never Really Here): Não sei para vocês, mas para mim este ano está passando de forma extremamente rápida. Eu não consegui ver a todos os filmes que eu queria, nem no cinema, nem em casa. Não consegui, por exemplo, voltar no tempo para ver os clássicos – mas pretendo fazer isso em breve.

Refletindo sobre os filmes que eu perdi em 2018, até o momento, resolvi dar uma olhada nas listas que diversos sites especializados – especialmente os estrangeiros – fazem sobre os melhores filme do ano “até aqui”. Cruzando essas listas, cheguei a alguns títulos que “me escaparam”. E foi aí que eu cheguei nesse You Were Never Really Here.

Não vou mentir para vocês. Esse filme é diferenciado. Pela forma, com uma narrativa pouco afeita à explicações e mais centrada em mostrar os fatos e os sentimentos dos personagens – assim como as suas lembranças -, e pelo conteúdo. O nosso protagonista não é nenhum herói. Não é um justiceiro. É um sujeito que está mais para sobrevivente do que para herói.

No final das contas, quem é o Joe que vemos em cena? (SPOILER – não leia esse trecho se você ainda não assistiu ao filme). Ele é o filho único (parece, ao menos) de uma senhora idosa, matador de aluguel especializado em localizar e resgatar garotas sequestradas e/ou desaparecidas e que, por tudo que é sugerido nessa história, também passou por abusos na infância. Ou seja, temos em cena um personagem complexo e que, geralmente, é encarado como um “monstro” pela frieza com que ele mata as pessoas.

Para fazer o que ele faz, Joe se prepara de forma constante. Treina para enfrentar a dor e a asfixia. Parece, mesmo nos momentos mais “calmos” e em casa, ter um certo “instinto” violento. Vide como ele lida com a mãe idosa e que tem as suas próprias dificuldades e dilemas para enfrentar. Achei muito interessante como a diretora e roteirista Lynne Ramsay encara esse personagem controverso.

Começamos a acompanhá-lo sem saber exatamente quem temos na nossa frente. O espectador de You Were Never Really Here fica um bom tempo perdido, apenas observando, até que a história se desenrola o suficiente para sabermos um pouco mais sobre aquele sujeito. E algo importante desse filme: Lynne Ramsay nos mostra apenas o necessário sobre o personagem. Ele não é dissecado ou explicado. E isso é uma das razões que fazem esse filme provocar um certo “desconforto”. Falarei mais sobre isso adiante.

No início da produção, cheguei a pensar que ele poderia ser um estuprador, pedófilo e/ou assassino comum. Um cara violento que tem “vida dupla”: cuida da mãe idosa, quando está em casa, mas viaja para dar vasão para os seus instintos sexuais e violentos. Essa foi a dúvida inicial desta produção. Mas, conforme a história avança, entendemos qual é o papel verdadeiro do personagem.

No final das contas, ele é apenas o “peão” de John McCleary (John Doman), um sujeito que é procurado pelas pessoas que tem dinheiro – muito delas, poderosas – e que precisam de alguém que as ajude a recuperar as suas filhas ou filhos sequestrados, fujões e toda a diversidade de variáveis entre esses dois extremos. Joe se especializou em procurar essas pessoas e em acabar com os envolvidos nesses “desvios” dos filhos de alguém que pode pagar pelo resgate.

Ele próprio é filho, e viu a mãe sofrer nas mãos do pai. Agora, ele procura os filhos de outras pessoas para resgatá-los. Ele mesmo, talvez, precisasse ter sido resgatado. Mas ninguém fez isso por ele. You Were Never Really Here cria angústia porque nos mostra o dia a dia desse “monstro”. Acompanhamos as suas angústias, a sua forma de encarar o cotidiano e, dentro disso, os seus preparativos para enfrentar a dor – como passar por sessões de asfixia. Também acompanhamos as suas lembranças fragmentadas. Nada ali é simples, ou fácil. Existe dor e existe angústia.

Por tudo isso, não vou mentir para vocês: fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu tinha achado sobre esse filme. You Were Never Really Here não é uma produção simples. Por ser complexa e por nos fazer pensar em muitos pontos e sentir um bocado de angústia, essa produção não é simples de analisar. Mas, talvez por tudo isso, ela seja tão interessante. Inicialmente, eu não a colocaria entre as melhores do ano. Mas pela proposta diferenciada que ela apresenta, talvez ela até esteja nessa lista, realmente.

Por jogar luzes nos tipos de personagens diferenciados focados nessa produção, pela narrativa fragmentada – que mistura linearidade e também fragmentos de memória e sentimentos -, pela ótima atuação de Joaquin Phoenix e por detalhes como a excelente trilha sonora, You Were Never Really Here revela-se uma produção diferenciada. Não é nada comum encontrar um filme que foca pela perspectiva do personagem um sujeito “maldito” como Joe.

Como eu disse lá no princípio, sabemos que pessoas extremamente machucadas e violentas como o protagonista deste filme existem, mas poucas vezes paramos para pensar em como é o dia a dia dessas pessoas. You Were Never Really Here também ajuda a desmontar um pouco a ideia que temos do “monstro” – afinal, pelo que ele passou para chegar até ali? Que elementos fizeram ele se moldar e construir daquela forma? A que “propósito” ele serve e que tipo de papéis ele desempenha? Ele é apenas um monstro ou também alguém capaz de bons gestos?

Tudo isso é muito complexo, e essa complexidade vemos em cena nesse filme. Tanto é verdade que o caso central dessa história, o resgate da filha do senador Albert Votto (Alex Manette), também se revela mais complexo do que inicialmente ele parecia ser. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nada fica totalmente explicitado, mas tudo indica, pela narrativa de Lynne Ramsay, que o pai “concordou” – até um certo momento – na garota ser explorada sexualmente por diversas pessoas poderosas (do governador Williams, interpretado por Alessandro Nivola, até outros homens).

O quanto o pai da garota estava envolvido nos abusos que ela sofreu, nunca saberemos – o filme sugere muitos elementos, mas não deixa todos os pormenores claros. Mas algo é fato: o senador não era um pai apenas “preocupado” com a filha e inocente na história. Existiam muitos interesses envolvidos no “sequestro” de Nina Votto (Ekaterina Samsonov).

Tanto é verdade que Joe passa a ser perseguido, inclusive por agentes corruptos. Ele consegue, por todo o preparo que tinha, escapar vivo, e ainda manter Nina a salvo mesmo não tendo mais o “compromisso” – ao menos do contratante – para fazer isso. Para ele, a resolução daquele caso passa a ser uma questão de honra porque ele reconhece a si mesmo na garota. Ambos passaram por abusos e por violência ainda muito jovens. São inocentes que nunca mais serão os mesmos porque tiveram essa inocência roubada.

Claro, alguém vai dizer: “Mas nada justifica o que Joe faz. Matar tantas pessoas com sangue frio e violência”. Não estou justificando o que ele faz, mas apenas observando o que a narrativa de You Were Never Really Here nos apresenta. Pessoas submetidas a determinadas situações na vida não podem sair incólumes de tudo aquilo. Marcas, cicatrizes, feridas que nunca cicatrizam… tudo isso cobrará um preço e terá as suas consequências. Apesar disso, as pessoas não são apenas um personagem. Ninguém é liso como uma tábua. Somos mais complexos do que gostaríamos de admitir, muitas vezes.

A beleza desse filme é justamente essa. Nos mostrar que a vida é mais complexa do que parece. Até procuramos simplificá-la, muitas vezes. Mas sim, a complexidade faz parte do dia a dia. Esse filme é duro. Mostra pessoas e cenários que nem sempre estamos dispostos a encarar. Mas, justamente por focar isso de forma tão franca, You Were Never Really Here se revela diferenciado e interessante. Não é fácil, não é simples, e cria um bocado de desconforto. Mas é uma experiência interessante de cinema.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que eu não estou bem certa, ainda, sobre o que eu penso sobre esse filme e sobre tudo o que eu escrevi por aqui. E esse indicador já mostra como You Were Never Really Here é interessante. Normalmente, um filme me faz pensar de forma clara depois que ele termina e/ou me faz experimentar determinados sentimentos enquanto eu o estou assistindo. Mas nada disso se revela tão complexo, no final das contas.

Não foi isso que aconteceu com esta produção. Ela é complexa sim, e bem acima da média nesse quesito. O que é interessante e exige mais do espectador. Exigiu mais de mim. Até agora estou na dúvida sobre o que eu vi, senti e pensei. Poucos filmes me provocaram isso.

Com You Were Never Really Here eu começo a focar na lista de produções que muitos críticos e publicações relacionaram como as melhores do ano até julho. Esse filme apareceu em várias listas, por isso comecei com ele. Mas vou focar em outros também – e vou sinalizando sempre quais são essas produções bem elogiadas pelos especialistas na área.

Algo que me chamou a atenção nesse filme logo no início: a excelente e importantíssima trilha sonora de Jonny Greenwood. O trabalho dele é um dos diferenciais e um dos personagens de You Were Never Really Here. A trilha sonora do filme, bastante pontual, ajuda a criar os sentimentos e o incômodo que esse filme desperta.

Além da trilha sonora, merece aplausos a direção de fotografia de Thomas Townend. Outro elemento feito com esmero e que casa muito bem com as exigências da detalhista diretora Lynne Ramsay. O roteiro dela, bastante focado no protagonista, suas ideias, sentimentos e cotidiano, também merece aplausos. Algo que You Were Never Really Here apresenta é uma narrativa diferenciada, nada preocupada com a expectativa do público acostumado com narrativas simplistas dos “blockbusters”.

Lynne Ramsay nos apresenta um filme com uma marca própria e com muita personalidade. Apesar de muito violento, You Were Never Really Here também é belo. Mais uma “contradição” que reforça como este filme aborda a complexidade da vida, dos fatos e do ser humano. Vale lembrar que Lynne Ramsay escreveu esse roteiro baseada no livro de Jonatham Ames – fiquei curiosa, aliás, para ler essa obra. Deve ser muito interessante.

Como diretora, Lynne Ramsay tem apenas oito trabalhos, sendo três deles curtas. Ela estrou na direção de longas em 1999, com Ratcatcher. Depois, lembro dela ter ficado conhecida por We Need to Talk About Kevin, de 2011. Muitos falaram daquele filme, mas eu acabei “perdendo” ele em meio às outras produções lançadas naquele ano. Depois de We Need to Talk About Kevin, You Were Never Really Here é o primeiro longa da diretora. Gostei do que eu vi aqui, ainda que eu achei o filme um tanto “hermético” demais para o meu gosto. Mas ele é bom.

Os grandes destaques técnicos desta produção são a trilha sonora, a direção e a direção de fotografia, todas já mencionadas. Mas vale destacar, ainda, o ótimo trabalho feito pelos 23 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – outro elemento bastante importante para o filme; a ótima edição de Joe Bini; e o design de produção de Tim Grimes; a direção de arte de Eric Dean e a decoração de set de Kendall Anderson.

You Were Never Really Here estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, o filme participou de outros 18 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros nove. You Were Never Really Here ganhou os prêmios de Melhor Ator para Joaquim Phoenix e de Melhor Roteiro para Lynne Ramsay no Festival de Cinema de Cannes; o de Melhor Ator para Joaquim Phoenix no Film Club’s The Lost Weekend; o de Melhor Filme não lançado em 2017 e o de Melhor Diretora para Lynne Ramsay no International Cinephile Society Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. You Were Never Really Here foi inscrito no Festival de Cannes quando ainda não estava finalizado. A produção foi concluída apenas alguns dias antes do festival estrear, e a diretora Lynne Ramsay disse que ele foi exibido no evento em uma versão inacabada. Mesmo assim, ele venceu em duas categorias. Interessante.

Em uma entrevista para a Rolling Stone, Joaquim Phoenix disse que a diretora Lynne Ramsay deu para ele ouvir um áudio que misturava fogos de artifício com tiros para exemplificar para o ator o que se passava na cabeça de Joe.

Na obra que originou esse filme, o personagem Joe utiliza muitos “adereços”, como luvas de látex e gadgets. A diretora Lynne Ramsay revelou que foi o ator Joaquim Phoenix quem sugeriu que eles se livrassem desses “adereços” para que o personagem parecesse mais autêntico.

Na estreia em Cannes, You Were Never Really Here chegou a ser aplaudido durante sete minutos após a sua exibição.

O título do filme é explicado no livro original pelas habilidades de Joe. Ele emprega as habilidades adquiridas em sua experiência anterior no FBI e como militar para nunca deixar vestígios nas suas “novas missões”. Entre outras estratégias, ele utiliza identidades falsas, luvas cirúrgicas e esconde o rosto das câmeras para simular essa ideia de que ele “nunca esteve” em um determinado local.

Falando no personagem de Joaquim Phoenix, sem dúvida alguma o ator é o centro das atenções e um dos destaques desta produção. E não poderia ser para menos, já que toda a história orbita em torno de seu personagem. Phoenix faz um trabalho excepcional – quem sabe, digno de uma indicação ao Oscar? Ainda é cedo para saber, porque falta assistir a muita gente ainda. Mas ele está, de fato, muito bem nesse filme.

Além dele, vale contar outros trabalhos secundários, como Ekaterina Samsonov como Nina Votto; John Doman como John McCleary; Frank Pando como Angel, um dos pontos de “pagamento” dos trabalhos de Joe; Judith Roberts ótima como a mãe de Joe; Vinicius Damasceno em uma super ponta como Moises, o filho de Angel que acaba vendo Joe em um local em que ele não deveria e que coloca fim na “parceria” de Joe com Angel; Dante Pereira-Olson como Joe quando criança; Alex Manette em uma ponta também como o senador Albert Votto; Scott Price como o matador de aluguel que morre na cozinha de Joe; e Alessandro Nivola em uma super ponta como o senador Williams – ele literalmente entra mudo e sai calado do filme.

Mudou um pouco a minha leitura sobre esse filme depois que escrevi a crítica acima e fui procurar mais informações sobre You Were Never Really Here. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como eu não li a obra que deu origem a esse filme, só lendo a respeito da produção é que fiquei sabendo que Joe era um veterano de guerra – a cena que vemos de um garoto sendo morto foi no Afeganistão – e que ele chegou a trabalhar no FBI. Ou seja, possivelmente fatos traumáticos dele como veterano pesaram mais para a formação da personalidade dele do que o pai abusivo. Também fiquei na dúvida a respeito dele ter sido abusado sexualmente – talvez as cicatrizes dele tivessem mais a ver com torturas, preparativos para a guerra e tudo o mais do que para a questão de abuso sexual. Isso realmente dá uma outra perspectiva para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 25 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 8,1. Especialmente a opinião dos críticos chama a atenção – não é fácil um filme receber uma nota tão alta no Rotten Tomatoes.

O mesmo podemos falar sobre a avaliação de You Were Never Really Here no site Metacritic. O filme apresenta o “metascore” 84 e o selo de “Must-see”, ou seja, a recomendação de que ele deve ser visto. Esse metascore é fruto de 38 críticas positivas e de três medianas. Alguns críticos de sites conhecidos, como Variety, RogerEbert.com e Time deram a nota máxima para o filme.

De acordo com o site Box Office Mojo, You Were Never Really Here faturou US$ 2,53 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, o que demonstra como esse filme repercutiu mais nos festivais e entre os críticos do que entre o público. É um filme alternativo e de “nicho”, certamente.

You Were Never Really Here é uma coprodução do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Difícil pensar nessa produção e não lembrar do título “Os Brutos Também Amam”. Nem tanto pelas produções serem próximas, mas porque este You Were Never Really Here tem um protagonista que pode ser considerado “bruto”, mas não insensível. Pessoas machucadas, feridas e traumatizadas podem se encontrar e se ajudar nas mais diferentes (e inusitadas) situações.

A beleza desse filme talvez seja colocar luz sobre essas histórias e mostrar, mesmo em meio à tanta violência e dor, que há sim uma saída para todos. Um filme com uma narrativa diferenciada e bons atores, que só peca um pouco por nos “requentar” uma história conhecida. A novidade está realmente na ótica da narrativa, que passa para o lado de um personagem um tanto “maldito” e pouco retratado no cinema. Interessante, provocador e um tanto incômodo. Nem tanto pela forma, neste caso, mas mais pelo conteúdo mesmo. Vale ser visto, mas eu não o colocaria na lista dos grandes filmes deste ano.