Du Forsvinder – You Disappear

O que faz sermos o que somos? Esta é uma das questões filosóficas que mais rendeu (e ainda rende) estudos em diferentes campos da Ciência. E esta pergunta está no centro da trama de Du Forsvinder, o representante da Dinamarca na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. O filme tem alguns questionamentos interessantes e algumas boas surpresas, mas sofre um bocado com a própria redundância de seus questionamentos. É bem feito, tem uma proposta interessante, mas acaba sendo um tanto cansativo e até previsível, lá pelas tantas. De qualquer forma, vale ser visto.

A HISTÓRIA: Um carro trafega por uma rodovia estreita enquanto um casal e o seu filho escutam um rádio em espanhol. Nicklas (Sofus Ronnov) pede para o pai andar um pouco mais rápido, mas Frederik (Nikolaj Lie Kaas) acelera demais. Ele quase atropela um grupo de ciclistas, mas isso e os apelos de Mia (Trine Dyrholm) para que ele vá mais devagar não fazem mudar de atitude. Até que em um curva ele se perde um pouco e bate o carro do lado da esposa. O filho pede para o pai parar, mas Frederik uiva. Eles param em um local para ver se podem pedir ajuda, Frederik reclama que a mulher só coloca limites para ele. Frederik caminha até a beira do penhasco e cai. Corta. Em seguida, vemos Frederik indo para o seu julgamento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Du Forsvinder): Este filme começa muito bem, obrigada, e tem algumas ideias muito, muito interessantes. Mais uma produção “apresentada” por uma das listas de “pré-indicados” ao Oscar 2018 – o que só comprova que sim, vale a pena ficar de olho na premiação da Academia de Arte e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

O começo de Du Forsvinder é muito potente. Aquela calma dos segundos iniciais de uma estrada tranquila que abre frente para uma sequência de loucura, caos e de rompante do protagonista é um belo cartão de visitas sobre o que veremos em seguida. Logo no início ficamos em dúvida sobre o que aconteceu com Frederik, e as dúvidas sobre este personagem serão fundamentais para esta produção. Depois daquele início potente, é interessante a “apresentação” da problemática que veremos em cena pela protagonista e narradora desta história, Mia, esposa de Frederik.

Realmente, há muito tempo nos questionamos o que nos define. E não apenas a nós, mas também as pessoas que amamos e que nos cercam. É fácil entender a perplexidade da protagonista quando o marido é acusado de fraude e de roubo. Pessoal responsável pela administração de uma escola por uma década, Frederik é acusado de desviar dinheiro da instituição e de ainda a utilizar para fazer diversos empréstimos bancários. Ao ser apresentada para esta realidade, da qual desconhecia, Mia se pergunta sobre o quanto ela conhece o marido.

Quando nos questionamos algo tão básico, começamos a questionar outros elementos tão ou mais básicos. Como Frederik também descobre que tinha um tumor no cérebro, Mia, Frederik e os demais que os cercam começam a questionar também o que pode ter sido racional ou involuntário das atitudes dele. Agora, imagine que tudo o que você viveu em muitos anos começa a ser questionado. Não apenas pelos outros, pelas pessoas que estão fora da tua casa e da tua relação pessoal, mas também questionados por você mesmo.

Du Forsvinder, assim, nos apresenta estas questões pertinentes e interessantes. De fato, é de se questionar o que somos, de verdade, além das interpretações dos outros e de nós mesmos, assim como quem são realmente as pessoas que nos rodeiam. O que é realidade e o que é interpretação da realidade? E esta interpretação, o quanto está sujeita a erros e a subjetividades? Tudo isso é explorado pelo roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen, que trabalharam tendo como base o livro de Christian Jungersen.

Sabendo que vocês vão perdoar a minha “brincadeira”, este filme é um bocado cabeça. 😉 De fato, Du Forsvinder explora bastante a mente humana, o que sabemos sobre ela e tudo aquilo que ainda desconhecemos a respeito do órgão que determina grande parte do que somos e do que fazemos. E aí que o filme se perde um pouco.

Verdade que ele traz algumas verdades interessantes sobre a mente humana – como que um tumor ou uma doença no cérebro pode mudar radicalmente o modo de agir e de pensar de uma pessoa – mas, nos demais espaços que a falta de respostas da neurologia e das demais ciências relacionadas deixa, o filme dá uma “forçada” em algumas explicações ou conjeturas.

Por exemplo, em mais de um momento da história, o advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), que Mia acaba conhecendo em um grupo de apoio de pessoas que tem familiares com problemas mentais, sugere que nós somos “comandados” pelas reações químicas do nosso cérebro. Que, por mais que acreditemos que temos escolhas, e que podemos decidir o que queremos fazer ou não, no fundo não temos escolha alguma.

Nosso cérebro interpreta os fatos alguns segundos depois deles acontecerem e sempre de forma condicionada. Assim, quando respondemos a algo, na verdade, estamos apenas repetindo padrões estabelecidos pelo nosso cérebro com base no que já vivenciamos e com foco na nossa sobrevivência. Ainda que parte de tudo isso faça sentido, no contexto desta produção estas ideias parecem um tanto “forçadas” para enquadrarem os personagens centrais e as suas ações.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Em certo momento, por exemplo, Mia se aproxima romanticamente de Bernard e ele faz um grande discurso para ela de que eles não podem evitar a traição das relação com os seus respectivos cônjuges porque esta é a Natureza “falando”. Ou seja, que a química dos seus cérebros lhes impele a traírem e que não tem como eles fugirem disso. Também durante grande parte da história, que se passa no tribunal do julgamento de Frederik, ouvimos os argumentos da defesa do ex-diretor de escola sobre como o tumor fez ele agir de forma impulsiva e roubar os recursos do educandário.

Ora, com estes argumentos, fica fácil de justificar qualquer crime, não é mesmo? Em certo momento, uma pessoa inclusive fala que grande parte das pessoas que estão presas atualmente são, na verdade, doentes, e não deveriam ser julgados por seus crimes. Ainda que eu concorde que existem casos sim de demência e de falta de capacidade de julgamento de alguns criminosos, na maioria dos casos temos sim a capacidade de decidir, de escolher. E devemos, em uma sociedade civilizada, ter leis para impedir certos atos e responsabilidade de pagarmos pelo que fazemos, não é mesmo?

Claramente o roteiro do diretor Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen tem uma preocupação de não ser enfadonho, apesar do tema espinhoso. Os realizadores conseguem isso ao intercalar a história com diversos momentos narrativos. Como Mia é a pessoa que nos conta essa história, acompanhamos a sua “forma” de narrar descontinuada, que vai e volta no tempo narrativo. Isso acontece também com a gente. Normalmente, quando contamos um “causo”, intercalamos ele com vários outros fatos e com “explicações” que vão se encaixando no meio da história.

Assim, se vermos Du Forsvinder com uma lupa, esta produção é a história de um homem que é julgado por um crime e que tenta se justificar alegando insanidade causada por um tumor no cérebro. O que vemos antes e em “pitadas” no meio desta narrativa são pensamentos de Mia, esposa do homem que está sendo julgado, que tenta nos contextualizar esta história, contando o que aconteceu antes e “ao redor” do julgamento do marido. Desta forma, nos aproximamos do casal em sua intimidade e, especialmente, das buscas por respostas de Mia.

Interessante como o filme demonstra, na prática, como tudo aquilo que acreditamos ser realidade pode ser uma ideia falsa se não estivermos nas nossas “plenas faculdades mentais”. Ou seja, que aquilo que pensamos ser verdade pode ser apenas uma “doença falando”, ou uma condição mental diferenciada que nós, por nossa conta, não conseguimos identificar. Então sim, dá um pouco de medo pensar que um dia podemos ter a nossa realidade totalmente modificada por causa de algo de “anormal” que aconteça com o nosso cérebro.

Como eu disse antes, Du Forsvinder tem algumas surpresas interessantes. Depois daquele início provocante, temos um desenvolvimento interessante de dramas envolvendo problemas com a mente humana. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até aí, esta produção é densa, “cabeça”, exige atenção do espectador, mas caminha por estradas interessantes. Agora, quando Mia começa a ter um “caso” com Bernard, a forma com que eles se aproximam e começam a trair os seus cônjuges, deixa quem assiste um tanto desconcertado.

Não apenas porque não parece justo eles traírem os seus cônjuges quando eles vivem momentos tão delicados mas, e acho que isso foi o que mais me incomodou, essa tal traição não parecia fazer muito sentido em relação à construção dos dois personagens apresentada até então. Neste momento, você já não sabe muito bem sobre o que filme está tratando. Afinal, Du Forsvinder é uma crônica sobre o autoconhecimento, sobre a descoberta de quem é a pessoa que está mais próxima da gente e sobre o que percebemos como realidade ou um filme sobre casamentos em ruína?

Até que… surge o final para dar uma nova “reviravolta” na história e para nos fazer pensar um pouco mais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aquilo que pode ter incomodado você no meio da história, como incomodou a mim, aquela falta de coerência de alguns atos de Mia e de Bernard em relação ao que estes personagens pareciam pensar e significar até então, fica claro após esta nova reviravolta na história.

No fim das contas, Du Forsvinder não é tanto sobre o quanto Frederik é capaz ou incapaz ou sobre o quanto ele fala a verdade ou mente. Du Forsvinder se revela um filme sobre Mia e a sua capacidade de nos contar uma história verdadeira. Ela parece ser a pessoa mais lúcida em cena, capaz de identificar mudanças de comportamento e de humor do marido, coerências e incoerências por todas as partes. Mas descobrimos, no final, que isso tudo não é bem assim. Ela mesma fantasiou parte do passado e do presente e, aparentemente, sem perceber.

Daí sim, Du Forsvinder mostra a que veio. Afinal, se alguém aparentemente “normal” e lúcido é capaz de deturpar tanto a realidade, no que podemos confiar? E em quem? A reviravolta no final é interessante e abre uma outra fronteira de discussão sobre o que é a realidade e sobre como a nossa mente pode nos pregar peças.

Mas algo fica mal explicado nesta história. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Sim, três anos antes do julgamento de Frederik, Mia tentou se matar. Aparentemente, porque estava deprimida com as traições e a saída de casa do marido. Até aí, tudo bem. Mas como ela apagou as pílulas que usou de forma tão profunda da memória e o que teria motivado as fantasias dela com Mia?

Talvez uma grande carga de estresse, motivada pelo julgamento de Frederik, e o trauma causado pela tentativa de suicídio, expliquem as duas situações. Mas como não há diagnóstico feito em cena e como estas questões não ficam claras, ficamos na dúvida sobre o que teria causado estas reações de Mia. Frederik tenta usar o tumor como desculpa para os seus atos, mas o que poderia ter causado tantos “desvios” da realidade por parte de Mia? E o quanto do restante que vimos em cena fazia parte da realidade ou também era fantasia da protagonista?

Enfim, acho que o filme termina com muitas perguntas sem resposta e que, o que acaba sendo pior para a narrativa, que Du Forsvinder se perde muitas vezes na repetição de alguns argumentos e nas reações um tanto forçadas dos personagens. Este é um filme denso, bastante psicológico e que apresenta alguns argumentos interessantes, mas parece que algumas vezes o diretor Peter Schonau Fog prefere abrir mão da coerência para “surpreender” o espectador. Isso joga contra qualquer filme, quando esta técnica se torna evidente.

Apesar de seus pequenos defeitos, Du Forsvinder me pareceu um filme interessante por tocar em assuntos delicados. Tanto a respeito dos fatores que explicam porque fazemos o que fazemos, pensamos o que pensamos, quanto sobre as relações humanas e as suas fragilidades. Também faz pensar, como poucos filmes que eu já assisti até hoje, sobre como somos frágeis em relação ao controle da nossa vida. De uma hora para a outra, seja por um acidente, seja por uma doença, podemos ter a nossa compreensão de nós mesmos, dos outros e do mundo totalmente modificada e deturpada. Isso é assustador, mas nos faz pensar. Enquanto somos capazes, evidentemente. 😉

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu gostei da direção de Peter Schonau Fog. Ele sabe valorizar bem o trabalho dos ótimos atores em cena, e consegue nos surpreender nos momentos exatos. É bom assistir a este filme com atenção total para não perder nenhum detalhe. Ajuda muito o diretor em seu ofício o diretor de fotografia Laust Trier-Mork e a edição feita pelo trio Morten Hojbjerg, Olivia Neergaard-Holm e Peter Winther.

O roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen é, ao mesmo tempo, um dos pontos fortes e o ponto fraco desta produção. Há algumas linhas de diálogo realmente interessantes, assim como alguns grandes momentos cuidadosamente pincelados com surpresas aqui e ali na produção, mas o roteiro também derrapa em algumas redundâncias, repetições e na falta de explicações no final. Ainda assim, por tudo que eu comentei no texto acima, Du Forsvinder é uma produção instigante.

Da parte técnica do filme, além dos elementos que eu citei antes, vale comentar a trilha sonora bastante pontual de Mikkel Maltha; o design de produção de Soren Gam e Gitte Malling; e os figurinos de Kirsten Zäschke.

Du Forsvinder foi lançado em abril de 2017 na Dinamarca. Apenas em setembro ele participou do seu primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Toronto. Em outubro, ele participou do Festival de Cinema de Hamburgo. E isso foi tudo, até agora, em termos de festivais. No festival em Hamburgo, Du Forsvinder foi indicado para o Audience Award como Melhor Filme. Ele perdeu a disputa para Es Por Tu Bien.

Vale comentar onde esta produção foi rodada. Du Forsvinder foi totalmente filmado no estúdio Trollhättan, na cidade sueca de Västra Götalands Iän.

O diretor Peter Schonau Fog tem um bocado de prêmios no currículo. Du Forsvinder é apenas o seu quarto filme como diretor, mas ele tem nada menos que 21 prêmios recebidos pela carreira – que compreende ainda o trabalho de roteirista. Du Forsvinder marca o retorno do diretor após 11 anos de ausência. O seu filme anterior foi Kunsten At Graede I Kor, de 2006. Antes, ele dirigiu a dois curtas, Lille Maensk, lançado em 1999, e Vildfarelser, de 1998. A maior parte dos prêmios que ele recebeu foi pelo longa Kunsten At Graede I Kor.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas negativas e quatro positivas para a produção, o que garante a Du Forsvinder uma aprovação de apenas 40% e uma nota média de 5,2. Ou seja, duas avaliações baixas, tanto de público quanto de crítica. Realmente o novo filme de Fog parece não ter agradado. Da minha parte, não acho este um grande filme, mas ele tem a sua força e a sua validade. Mas poderia ser melhor desenvolvido, sem dúvidas.

Ah, e antes que eu termine estes comentários, vale falar sobre o elenco desta produção. Para mim, uma das grandes qualidades de Du Forsvinder. Os roteiristas acertaram em concentrar esta história em poucos personagens. Quem realmente brilha em cena são os veteranos Trine Dyrholm e Michael Nyqvist. Eles estão ótimos, muito humanos e com interpretações convincentes e interessantes. Outros atores fazem um bom trabalho, com destaque para Nikolaj Lie Kaas, que interpreta Frederik.

Além deles, fazem um bom trabalho os coadjuvantes Meike Bahnsen, como Laerke, esposa de Bernard; Mikkel Boe Folsgaard como o promotor que acusa Frederik; Lars Knutzon como Laust Saxtorph, fundador da escola na qual Frederik dá o golpe; e Sofus Ronnov como Nicklas, filho do casal problemático.

E sim, vale um comentário final antes da conclusão: fico impressionada com o egoísmo de alguns adultos. Frederik e Mia agem como querem, por impulso ou de forma racional, sem parecer se importar com o fato de que eles são pais e que tem como responsabilidade a formação de Nicklas. Que tipo de exemplo os dois dão para o filho dentro de casa? Sem julgamentos, mas eis outro ponto que vale uma reflexão, ou não?

Du Forsvinder é uma coprodução da Dinamarca e da Suécia. Mas esta produção é a representante da Dinamarca na busca por uma indicação ao Oscar 2018 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

CONCLUSÃO: Tudo o que existe, o que vemos, escutamos, sentimos… absolutamente tudo é interpretado por nós. Sobre isso, muitos já falaram, desde Platão. E este filme, por incrível que pareça, se junta a toda esta grande “escola” sobre o que é realidade e como a interpretamos. Du Forsvinder tem uma pegada interessante, especialmente no começo e no fim, mas o seu “recheio” deixa um pouco a desejar por causa de uma certa redundância de argumentos. De qualquer forma, é um filme interessante. Mais uma boa pedida do cinema dinamarquês. Mas que ninguém se engane. O filme é “cerebral” e exige extrema atenção. Faz pensar, mas poderia ser melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre pode surpreender. Quanto a isso, não há dúvidas. Prova é o quanto o Oscar, que chega em 2018 em sua 90ª edição, evoluiu ao longo de todo este tempo. Algo inevitável, eu diria, porque o cinema e as suas premiações evoluem como a própria sociedade.

Dito isso, não acho que Du Forsvinder tenha muitas chances de chegar entre os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Esta produção é, por um lado, “cabeça” demais para o Oscar e, por outro, um tanto “falha” em alguns aspectos. Acho que já citei eles todos antes, mas basicamente as principais falhas do filme são a sua redundância e o esvaziamento da história e da “novidade” que a produção parece apresentar em um primeiro momento. No fim das contas, este filme não é tão “inovador” quanto poderíamos esperar.

Além disso, não acho que ele tenha muito o perfil do Oscar. Especialmente em um ano como este, em que parece que temos grandes produções com temas importantes na disputa. Da minha parte, acho que Du Forsvinder seria uma grande zebra se ele entrasse na lista final de indicados. Veremos. O primeiro filme dos que estão concorrendo a uma vaga no Oscar 2018 nesta categoria que eu assisti foi First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, comentado por aqui. Até agora, ele é o meu favorito. A conferir se ele segue assim. 😉

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The Girl in the Book – A Garota do Livro

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Há histórias que são necessárias, mas que aliviam tanto a sua “mão” que, no final, você fica pensando qual foi o propósito, afinal, de seus autores. The Girl in the Book é, para mim, um destes exemplos. O filme trata de um tema importantíssimo, vital em qualquer sociedade – e curiosamente importante no Brasil nesta semana, quando um caso de estupro coletivo abalou a sociedade. Só que qual, no fim das contas, acaba sendo o debate levantado por este filme? Ele é contundente ou interessante na medida certa? Enfim, uma longa discussão.

A HISTÓRIA: Alice Harvey (Emily VanCamp) acorda ao lado de um homem na cama. Ela não parece satisfeita. Sem acordar ele, Alice sai do quarto. Na sequência, vai para o trabalho direto usando o metrô. Ela cumprimenta a colega e vai direto para o banheiro, onde coloca uma calcinha nova e tenta disfarçar o fato de não ter tomado banho ou dormido em casa. Alice é a secretária de Jack Morgan (Jordan Lage), um editor que, na sequência, pede para ela atualizá-lo sobre a sua agenda. No fim da reunião, ele comenta que ela vai trabalhar na divulgação do relançamento de Waking Eyes, livro de Milan Daneker (Michael Nyqvist) que traz à tona um capítulo marcante da vida da garota. Acompanhamos o trabalho dela neste projeto e os efeitos que isso tem em sua vida atual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Girl in the Book): Eu fiquei bem em dúvida se deveria assistir a este filme. Francamente, inicialmente, ele não me chamou a atenção. Minha motivação inicial era partir para outra produção, mas como este filme estreou esta semana no Brasil e reparei que a crítica tinha sido relativamente positiva – mais no Rotten Tomatoes que no IMDb -, pensei: “Por que não?”. Nestas horas eu deveria ter respeitado a minha intuição inicial que não me atraia muito para conferir esta produção.

Honestamente? Serei franca logo no início: achei esse filme muito, muito fraco. E, em certo sentido, até um pouco perigoso. Ou, para dizer de outra forma, com algumas ideias equivocadas sob a minha ótica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, sobre o que The Girl in the Book trata? Sobre o abuso e/ou violência sexual sofrido por uma adolescente por um sujeito que ela admirava, em quem ela acreditava e tinha certa estima. E o pior: um sujeito que utiliza a garota apenas para se dar bem, em todos os sentidos.

Primeiro ele faz de conta que está ajudando a garota a escrever melhor para, na verdade, absorver tudo que ele pode sobre a vida dela e seu entorno e utilizar estas informações em sua nova obra. Aliás, a única obra na qual ele realmente teve sucesso na vida – mas isso vamos saber na parte “contemporânea” deste filme. Mas não termina aí a canalhice do sujeito. Além dele utilizar a filha do casal que o ajudou a aparecer como escritor como matéria-prima para a sua obra, ele aproveita qualquer brecha que tem para abusar sexualmente da garota.

E o que acontece com esse canalha? Bem, o filme vai mostrando isso aos poucos. Mas logo no início da produção, que segue aquela velha fórmula de nos mostrar “os dias atuais” da trama para, depois, volta e meia, nos mergulhar em flash backs sequenciais, percebemos que ele está muito bem, obrigada. Ao menos está livre, leve e solto e prestes a relançar novamente o seu best-seller Waking Eyes. Contrastando com esta situação de aparente tranquilidade temos a rotina de Alice Harvey, a vítima dele, que vive uma rotina permanente de busca de sentido, de vivenciar algo que seja real. Claramente ela sofre na virada dos 29 para os 30 anos de idade ainda os reflexos do abuso de 15 anos atrás.

Por esse lado o filme é interessante. Afinal, mostra o que acontece com a maioria dos abusadores da “vida real”. Os canalhas muitas vezes não são denunciados e, quando o são, acabam desmentindo tudo e a vítima é penalizada mais uma vez ao ninguém acredita nela. Certo que o escritor estivesse com uma vida “normal” depois de todo o estrago que provocou e que a vítima dele é quem sofresse continuamente pelo abuso de tempos atrás, mas o que me incomodou não foi apenas isso.

A forma com que o roteiro da diretora Marya Cohn é construído parece simplesmente “aceitar” a realidade como ela se apresenta. Ou seja, não apenas o abusador construiu uma relação de confiança com a adolescente e depois quebrou esta relação ao violentá-la, como também ninguém no entorno dela pareceu se preocupar o suficientemente com o que lhe aconteceu desde a adolescência e, o mais grave, quando a protagonista enfrenta as suas próprias cicatrizes, tudo fica como antes. A cura não acontece sem dor e sem redenção. Sem perdão ou castigo. Pelo menos é assim que eu vejo as coisas. Então será mesmo que Alice poderia simplesmente “superar” tudo com um novo amor?

Hummm… os psicólogos poderiam ajudar nesta resposta. Da minha parte, não acredito muito nisso. Primeiro, acho que Alice poderia ter encontrado a cura abrindo o coração, procurando ajuda de um profissional para tratar de toda aquela quebra de confiança e abuso que ela sofreu na adolescência. Depois, caso ela não tivesse buscado a ajuda de um profissional, acredito que ela poderia ter conseguido isso de outras duas formas: com o apoio de amigos/familiares e através da escrita ou enfrentando o próprio algoz.

O destino quis que ela trabalhasse a favor dele como funcionária do editor Jack. Ora, fica bem subentendido no filme que ela conseguiu aquele emprego por interferência/influência do pai dela (Michael Cristofer), que acabou tornando Milan Daneker famoso. Agora, quem no lugar dela teria aceito uma situação como aquela? Francamente, eu jamais teria trabalhado a favor do cara que ferrou a minha vida.

No fundo, em diversos momentos, parece que Alice confessa ter virado refém de Milan durante todos esses anos – não apenas por não encarar nenhum relacionamento sério, ter necessidade de ser sempre “desejada” pelos homens e buscar satisfação no sexo casual – mas, também, quando confessa que lei a última biografia de Milan e seguiu lendo o livro que ele escreveu “se apropriando” (para usar um termo que a própria protagonista utiliza) da vida dela.

O triste da história é que ninguém próximo dela a conheceu o suficiente – pelo menos é isso o que filme sugere – para lhe dizer o quanto estes comportamentos eram autodestrutivos e de que ela precisava de ajuda. Não. A garota parece ter sido sempre abandonada a própria sorte. O pai dela era outro cretino, destes homens que são incapazes de escutar o desejo da outra pessoa em momento algum – são bastante ilustrativos os momentos nos restaurantes – e que não pensa duas vezes em trocar de mulher.

A mãe da protagonista aparece pouquíssimo, mas em um momento decisivo – quando a filha conta para ela que sofreu abuso – ela pisa na bola de maneira fundamental, deixando de acreditar na filha e aceitando rapidamente a justificativa do “amigo escritor” que ela tinha descoberto. É verdade que muito disso acontece na vida real, que as meninas não são escutadas pelos próprios pais e não tem em casa exatamente bons exemplos, mas nem foi isso que me incomodou no filme.

O que de fato achei ruim é a forma com que The Girl in the Book trata a relação entre o escritor e a jovem que ele abusou. Enquanto os flash backs vão apresentando a parte da quebra de confiança e do abuso sofrido pela adolescente pouco a pouco, na vida adulta a forma com que o autor é tratado por todos – inclusive pela protagonista que, de fato, não o enfrenta para valer em momento algum – meio que legitima o que ele fez. Ninguém além de Alice e dele sabe o que realmente aconteceu no quarto dela nas diversas visitas que ele fez para a garota até terminar de escrever o seu livro, mas por que isso é assim?

Ainda que em um primeiro momento os pais de Alice não acreditaram nela, em nenhuma outra ocasião, especialmente no relançamento do livro, ela teve a oportunidade de confrontar aquela realidade? Eu teria visto um propósito melhor no filme se ela tivesse enfrentado aquela situação de duas formas diferentes, pelo menos: ou se recusando a trabalhar na divulgação de Milan Daneker e, daí, surgindo uma série de efeitos desta decisão, ou mesmo enfrentando ele publicamente (mesmo sabendo que ele provavelmente negaria tudo mais uma vez).

Qualquer um destes caminhos e suas possíveis variáveis teriam feito mais sentido, a meu ver. Ao menos The Girl in the Book teria mostrado que há outros caminhos de enfrentamento do tema do que simplesmente aceitar o abuso como algo que acontece. Por essas e por outras que a nossa sociedade estão tão podre e perdida. Porque a maioria das pessoas “aceitam” que é assim mesmo que as coisas são. Sabemos, verdade, que a maioria dos abusos são praticados dentro da casa das crianças e adolescentes, por familiares ou conhecidos. Até quando isso vai ser tratado como algo que “acontece”?

Para finalizar, e antes que algum idiota venha comentar que “bem, a garota realmente não mostrou que não queria nada com o escritor, pelo contrário”, quero deixar algo claro: nenhuma criança ou adolescente tem a visão maliciosa e corrupta de um adulto. Crianças e adolescentes não sabem o que é o sexo e nem tem a noção da própria sexualidade porque ainda não descobriram sobre isso.

Verdade que na adolescência os hormônios começam a aflorar e os jovens começam a ter interesse uns pelos outros, mas isso não quer dizer que um adulto deva pensar que eles estejam desenvolvidos para ter uma relação sexual como um adulto. Qualquer adulto que beija, acaricia ou faz sexo com uma criança ou adolescente está passando de qualquer limite e tirando a inocência destas pessoas sem que elas tenham noção do que isso signifique. E ponto.

Nenhuma adolescente, por mais “bonitinha” que seja, merece ser abusada, violentada, ter a inocência roubada para sempre porque um adulto não sabe se controlar. Adultos devem ser relacionar com adultos e ponto final. Acho repugnante um homem ou um mulher que olham para uma criança ou para um adolescente com desejo sexual. Isso é um absurdo e, para mim, é uma questão de valores. Também acho o fim companheiros de pessoas que fazem isso e que ignoram a verdade.

Está mais que na hora das sociedades trazerem este tema à tona mas com seriedade, sem panos quentes e sem reticências. Por isso mesmo achei este The Girl in the Book suave demais. Ainda que ele exponha bem as cicatrizes que uma vítima de abuso pode levar para o resto da vida, se não trabalhar esta questão com ajuda de terceiros, vejo que faltou um pouco mais de coragem no enfrentamento do problema.

Por outro lado, e devo admitir que este é um ponto positivo do filme, no final fica subentendido que após enfrentar a própria história e ter ido confrontar Milan em casa – ainda que eu acho que ela poderia ter sido bem mais dura com ele -, a protagonista finalmente conseguiu forças e coragem para iniciar o processo de cura escrevendo a sua própria história. Aí sim, por suas próprias forças e vontade de superação, ela começava um capítulo decisivo em sua vida.

Esta força, inclusive usada antes para tentar reconquistar Emmett, é o ponto forte e inspirador do filme. Toda garota e garoto que sofreu abuso pode dar a volta por cima e reescrever a própria história. Para isso, contudo, deve confrontar as suas dores e cicatrizes e superá-las. Acho difícil a pessoa fazer isso sozinha, como The Girl in the Book mostra – ok, o amor de Emmett a ajuda, mas indiretamente. Por este conjunto da obra que achei o filme pouco ousado e um tanto “cômodo” demais. De qualquer forma, é bom trazer o tema à tona.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vi muita gente, especialmente os críticos, elogiando muito a interpretação de Emily VanCamp. Bem, verdade que a atriz está bem em seu papel mas, ainda assim, não achei a interpretação dela fantástica. Ela é condizente, coerente, mas não achei excepcional. Praticamente divide com ela o “mérito” da personagem a atriz Ana Mulvoy-Ten, que dá vida para a Alice adolescente. A menina é muito sutil em sua interpretação e consegue, a meu ver, passar bastante verdade sobre o comportamento adolescente.

Apesar deste filme ser conduzido pela personagem de Alice que, sem dúvida, é quem dá ritmo para a trama, alguns outros atores tem papel importante no filme. Michael Nyqvist está muito bem como o canalha Milan Daneker. Ele faz uma interpretação coerente e sem tintas carregadas, o que se agradece em um filme como este. Ana Mulvoy-Ten, como eu disse, faz um bom trabalho como a adolescente Alice. Também merecem destaque David Call como Emmett Grant, que acaba sendo a tábua de salvação da protagonista, e Ali Ahn como Sadie, a melhor amiga de Alice.

Outros coadjuvantes que valem ser citados: Mason Yam como Tyler, filho de Sadie; Talia Balsam como a mãe de Alice; Michael Cristofer como o pai da protagonista – possivelmente o personagem que mais mereceria um soco na cara depois de Milan Daneker (ainda que, eu admita, sou contra a violência, rs); e Josh Green como Keith, o filho do vizinho que cuida esporadicamente de Tyler e que vira a grande falha de Alice na produção.

Sobre a parte técnica do filme, Marya Cohn faz um trabalho correto na direção, mas sem nenhum grande achado além de conduzir bem os atores e de valorizar a atuação deles. Acabam sendo elementos importantes para a produção a bem presente trilha sonora de Will Bates; a direção de fotografia competente e com escolhas acertadas de Trevor Forrest; e a edição bem realizada de Jessica Brunetto.

The Girl in the Book estreou no Festival de Cinema de Los Angeles em junho de 2015. Depois o filme participaria de apenas um outro festival de cinema, o de Mill Valley. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Agora, duas pequenas considerações sobre o filme que eu não fiz antes. (SPOILER – realmente não leia este parágrafo se você não assistiu ainda ao filme). A cena do abuso da protagonista quando ela é adolescente é de arrepiar. Não tem como não ficar indignado(a) com aquilo. Neste sentido Marya Cohn soube construir bem a narrativa do flash back até nos levar aquele ponto extremo – se bem que, depois, teremos novo ponto de violência contra a protagonista e ultrajante que é quando o canalha lê pela primeira vez a sua própria obra. Se este é um acerto na narrativa e que ajuda o filme a provocar debate, há um outro ponto que achei um tanto forçado demais. Ainda que seja verdade que muitas pessoas que foram abusadas sexualmente também se tornem abusadoras no futuro, a forma com que Alice abusa de Keith parece forçada e um tanto sem pé nem cabeça. Ela até poderia ter abusado de algum jovem que ela conhecesse, mas pegar um garoto desconhecido como o filme mostra é meio forçado demais.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Girl in the Book foi todo filmado em Nova York – a cidade aparece bem, em alguns momentos, especialmente após uma crise ou “caída de ficha” da protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para o filme. Uma avaliação bem condizente, eu diria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 10 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,3. A nota eu até acho realista e condizente, mas o nível de aprovação é que me “enganou”, digamos assim. Achei que o filme poderia ser melhor do que realmente foi.

Este é apenas o segundo trabalho na direção de Marya Cohn. Em 1994 ela fez o curta Developing e, agora, estreou com um longa com este The Girl in the Book.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ele contempla uma votação de enquete feita há um bom tempo e na qual vocês pediam filmes deste país.

CONCLUSÃO: Francamente, acho que este filme é muito menos do que poderia ser. Como disse lá no início, o tema levantado por The Girl in the Book é fundamental, mas o desenrolar da história é que me incomoda. Não apenas o canalha e algoz da protagonista não tem o fim que mereceria – ok, o mundo é injusto, muitas vezes – como o entorno da garota parece não realmente se preocupar com ela.

Desenvolvi melhor as reflexões sobre isso no corpo da crítica, mas quero reforçar aqui que eu esperava um pouco mais de ação, de atitude, e um pouco menos de simples narrativa dos fatos. Enfim, o filme me pareceu flertar perigosamente demais com a literatura e com o “mergulho necessário” de qualquer escritor na realidade para então criar e menos na denúncia de um crime. Me incomodou essa displicência com a protagonista. O filme é importante ao levantar alguns temas, mas achei o desenvolvimento dele precário. Para mim, há produções bem melhores em cartaz.