Little Men – Melhores Amigos

A diferença marcante entre a vida de quando somos crianças e aquela que temos que assumir na fase adulta. Little Men fala de meninos e de homens, mas poderia, perfeitamente, estar falando de meninas e de mulheres. Claro que há diferenças entre os “papéis” que a sociedade ainda espera que cada um de nós desempenhemos – homens e mulheres -, mas, no geral, as questões apontadas por este filme valem para ambos. Quando a responsabilidade e a noção de sobrevivência entram em jogo, muito do que a gente defendia quando criança pode desaparecer de cena. Infelizmente.

A HISTÓRIA: Em uma sala de aula em que todos estão brincando e jogando papéis, Jake Jardine (Theo Taplitz) é um dos poucos que está sentado e comportado. Ele está fazendo algo que ama: desenhar. Logo aparece em cena o professor Mr. Plummer (John Procaccino) da turma, que perde ordem e que critica o desenho de Jake. Ao sair do colégio, Jake é recepcionado pela empregada da família, Pilar (Ching Valdes-Aran), que recebe um abraço do garoto. Eles vão para casa, e é lá que Jake atende a um telefonema estranho, de alguém que diz ser amigo do avô do garoto. Com esta ligação Jake fica sabendo que o avô morreu, e este fato vai mudar bastante a vida dele e da família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Little Men): Este é um filme singelo e muito interessante. Justamente por não ter um excesso de texto e por não ter nenhuma grande “surpresa”, Little Men dá o espaço necessário para o espectador refletir sobre o que está assistindo e, talvez, sobre a própria vida enquanto acompanha a história apresentada pelo diretor Ira Sachs – o roteiro é dele e de Mauricio Zacharias.

Certamente muita gente vai se sentir representada nesta produção. Afinal, Little Men trata sobre a “estranheza” da adolescência/pré-adolescência, quando não faltam críticas para os jovens que estão em fase de crescimento e de autodescoberta. De forma inteligente esta produção nos apresenta um garoto mais “deslocado” das pessoas de sua idade e outro que, aparentemente, é mais popular.

E os dois acabam se aproximando e se tornando os “melhores amigos” que vemos no título para o mercado brasileiro – título bem ruim, diga-se, porque este filme trata de um tema muito mais amplo e complexo do que a amizade entre os dois garotos. Aos poucos vamos percebendo que esta é uma produção que discorre sobre como a vida vai cobrando um preço das pessoas conforme ela avança.

A exemplo do filho, Brian Jardine (Greg Kinnear) também era um garoto um tanto “isolado” quando jovem. Conforme a história vai se desenvolvendo e a tensão entre a família Jardine e a inquilina do avô de Jake, a empreendedora Leonor Calvelli (Paulina García) vai aumentando, a amiga do pai de Brian faz questão de ir soltando para ele pequenos dardos de veneno sobre como o pai do ator desaprovava as escolhas do filho.

Desta forma, muito sutil, Ira Sachs vai tratando temas que são bastante comuns nas nossas sociedades modernas. Entre outras questões, ele trata sobre os conflitos familiares, sobre as cobranças sociais dos “papéis” que homem e mulher devem desenvolver dentro de uma casa, sobre amadurecer e deixar crenças e amizades no passado. Porque não gostamos muito de pensar nisso, mas a verdade é que a vida nos faz perder várias pessoas de quem gostávamos muito pelo caminho.

Little Men também tem uma constatação que vamos demorar muito para perceber na nossa vida prática: amizades e boas relações terminam quando o dinheiro (ou a falta dele) entra em cena. E isso não quer dizer que as pessoas são mesquinhas ou “movidas à dinheiro”. Como Little Men bem apresenta, muitas vezes tudo se resume apenas à necessidade e a mais pura sobrevivência. Verdade que às vezes temos outros caminhos, possivelmente mais duros, para escolher. Mas algumas vezes eles não existem.

Especificamente sobre a história contada nesta produção, acho que existe uma reflexão interessante a ser feita sobre um personagem ausente e ao mesmo tempo bem presente na história, o avô de Jake. Ele tinha batalhado muito na vida – pelo que os filhos dele comentam – e tinha, após ter adquirido uma propriedade, a liberdade de cobrar um aluguel muito mais baixo do que o mercado praticava para uma querida amiga – Leonor. Quando ele morre, contudo, a vontade dele é deixada de lado pelo “pragmatismo” de seus filhos, Brian e Audrey (Talia Balsam).

Como Brian mesmo explica para Leonor, tanto ele quanto Audrey tem as suas próprias famílias para sustentar e/ou zelar. O pai dele vivia uma outra condição, mais confortável, digamos assim. Mas aí reside uma questão que acho interessante nesta produção – e na vida real. Não podemos julgar Brian e Audrey, afinal, o argumento deles é válido. Mas será que eles não poderiam também procurar a independência que o pai deles tinha sem levar em conta na equação a herança que ele deixou?

Em outras palavras, se eles encarassem a vida deles como independente do que o pai poderia deixar ou não, eles teriam que se virar sem ter que penalizar Leonor e abrir mão do último desejo do amigo dela. Como o dinheiro acabou falando mais alto, Brian e Audrey abriram mão do último desejo do pai deles e, de quebra, abalaram definitivamente a amizade que Jake tinha com Antônio/Tony (Michael Barbieri).

Desta forma, Little Men reflete sobre os nossos tempos, quando o mais “normal” é “cada um por si”. Não existe mais o apreço pela generosidade e pela preservação de alguns valores importantes, como a palavra que foi dada e/ou a vontade de alguém que morreu. Ora, se o desejo do pai de Brian e Audrey era que a amiga dele, Leonor, ficasse na loja pagando menos que o mercado, mas o quanto ela podia, isso deveria valer algo, ou não? Não julgo Brian e Audrey, mas eles tem filhos e famílias por escolha própria, ninguém lhes obrigou a isso. Então eles não deveriam ser capazes de pagarem as suas próprias contas?

Faço estes comentários porque acho que às vezes buscamos a saída mais “fácil” para os nossos problemas. No caso de Brian e Audrey, claro que o mais fácil era despejar Leonor e cobrar três a quatro vezes mais de aluguel do próximo inquilino. Com isso, cada um teria um dinheiro extra no final do mês. Claro que também Leonor deveria se adequar ao mercado e, se não pode ficar no bairro em que estava, ir para um local mais adequado e/ou mudar a produção que ela tinha.

Tudo isso é verdade, mas sempre é possível se perguntar se não existiria uma saída melhor e mais humana para todos. A grande questão é que sempre temos escolhas na vida. Mas independente delas, Little Men explora muito bem o grande abismo que separa as nossas aspirações e a nossa rotina de quando somos jovens e ainda dependentes dos nossos pais e a realidade de quando temos que lidar com todas as contas e cobranças de uma vida adulta. A diferença é colossal, realmente, e o filme explora muito bem esta questão. A vida real é complicada, e ponto final.

Um filme que conta uma história graciosa, sobre família, amizade e a busca do desenvolvimento dos nossos talentos – esta última questão representada pela busca de Jake pelo desenho e de Tony pela atuação – e que, ainda por cima, nos faz pensar sobre os padrões da sociedade e as escolhas que fazemos, sem dúvida alguma, está bem acima da média. Destaco, em especial, a forma linear e de desenvolvimento “realista” da produção, com um roteiro bastante coerente e que atrai pela franqueza.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos destaques desta produção é o talento do elenco escolhido à dedo pelos realizadores. Todos estão muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho dos jovens Theo Taplitz e Michael Barbieri. Os dois fazem um trabalho maravilhoso, bastante coerente com os seus respectivos personagens, e de bastante profundidade. Eles brilham na produção. Pouco a pouco, outros atores também vão ganhando destaque, como Greg Kinnear, Paulina García e Jennifer Ehle (que interpreta Kathy, mãe de Jake). Todos estão muito bem.

O diretor Ira Sachs trabalha muito bem ao valorizar a interpretação dos atores – as relações entre eles é parte fundamental desta produção – e ao buscar uma câmera que está presente, em muitos momentos, enquanto em outros ela está um tanto “ausente” (especialmente nas sequências que envolvem mais adolescentes, como nas escolas dos dois protagonistas). Nestes momentos de “câmera mais ausente” o diretor tenta capturar as interações verdadeiras entre os jovens, o que ajuda no tom “realista” da produção.

A personagem de Leonor é especialmente interessante. Ela sabe jogar muito bem com as pessoas em cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com inteligência, ela sabe tratar especialmente com Brian, tentando pegar nos “pontos fracos” do ator que não era respeitado pelo próprio pai. Há uma cena, em especial, intrigante nesta produção. Quando ela mostra diversas fotos dela com o pai de Brian. Nós não vemos as imagens, algo feito de forma proposital por Ira Sachs. Assim, fica apenas sugerido um possível “caso” e/ou romance entre Leonor e o pai de Brian. Da minha parte, acho sim que havia algo além de uma “bela amizade” entre os dois. O que torna o despejo dela ainda mais delicado.

Além dos atores já citados, vale comentar a super ponta de Alfred Molina como Hernan, amigo de Leonor e advogado dela; e Mauricio Bustamante dando um show como o professor de interpretação da classe de Tony e Jake. Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Óscar Durán; para a edição de Mollie Goldstein e Affonso Gonçalves; para o design de produção de Alexandra Schaller; para a direção de arte de Ramsey Scott; para a decoração de set detalhista de Emily Deason; para os figurinos coerentes de Eden Miller; e para a trilha sonora pontual de Dickon Hinchliffe.

O diretor americano Ira Sachs, que tem 52 anos e é natural da cidade de Menphis, tem 10 títulos no currículo como diretor antes de Little Men. Ele estreou em 1992 com Vaudeville, fez dois curtas (sendo um deles de documentário) e um segmento do filme Underground Zero antes de rodar Little Men. Nesta trajetória ele acumulou sete prêmios e foi indicado a outros 22. Parece um diretor humanista, que trata de temas de relevância tanto para as esferas social quanto pessoal. Não assisti a mais nenhum filme dele além deste que comentei acima.

Little Men teria custado US$ 2 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 702,5 mil. Ou seja, é um filme independente, com orçamento enxuto e com bilheteria magra até o momento. Tem agradado ao público e, especialmente, à crítica, mas ainda sem efeito positivo nas bilheterias. Realmente é uma produção mais de “nicho”.

Este filme foi totalmente rodado em Nova York, em locais como o Sunset Park, a Graham Avenue, o Bay Ridge e o Brooklyn Museum.

Agora, aquelas curiosidades tradicionais sobre cada filme. O ator Michael Barbieri foi aceito na Escola Superior de Música e Arte Fiorello H. LaGuardia depois que as filmagens de Little Men terminaram.

O jovem ator Theo Taplitz participa de curtas desde que estudava na quarta série. Ele recebeu destaque em diversos festivais de cinema que destacam o trabalho de jovens nos Estados Unidos desde então.

Mauricio Bustamante foi o professor de teatro de Michael Barbieri no tradicionalíssimo Lee Strasberg Theatre and Film Institute.

Little Men recebeu um prêmio e foi indicado a outros treze. O único prêmio que recebeu, até o momento, foi o Grande Prêmio Especial para Ira Sachs no Festival de Cinema de Deauville.

Esta é uma coprodução da Grécia, do Brasil e dos Estados Unidos. O capital brasileiro entrou na jogada por causa do roteirista brasileiro Mauricio Zacharias e dos produtores executivos Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. A lista de produtores, aliás, é bastante grande. Como estão no pacote Brasil e Estados Unidos, este filme entra na lista daqueles que atende a votações feitas aqui no blog há algum tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 119 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8. Especialmente a ótima avaliação da crítica chama a atenção. Bacana.

CONCLUSÃO: No cômputo geral, Little Men é um filme simples. Ele conta a história sobre a amizade marcante entre dois garotos e como esta amizade é ameaçada pelo conflito de adultos. Apesar desta ser a premissa básica da produção, ela ganha o espectador ao nos fazer refletir sobre questões mais profundas, como nossos valores e sonhos e como vamos mudando eles (ou os perdendo) pelo meio de muitos caminhos. A vida de adulto é muito mais complicada do que gostaríamos, e para muitos isso cobra diversos preços. Este é um filme singelo e interessante sobre o assunto. Recomendo.

The Girl in the Book – A Garota do Livro

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Há histórias que são necessárias, mas que aliviam tanto a sua “mão” que, no final, você fica pensando qual foi o propósito, afinal, de seus autores. The Girl in the Book é, para mim, um destes exemplos. O filme trata de um tema importantíssimo, vital em qualquer sociedade – e curiosamente importante no Brasil nesta semana, quando um caso de estupro coletivo abalou a sociedade. Só que qual, no fim das contas, acaba sendo o debate levantado por este filme? Ele é contundente ou interessante na medida certa? Enfim, uma longa discussão.

A HISTÓRIA: Alice Harvey (Emily VanCamp) acorda ao lado de um homem na cama. Ela não parece satisfeita. Sem acordar ele, Alice sai do quarto. Na sequência, vai para o trabalho direto usando o metrô. Ela cumprimenta a colega e vai direto para o banheiro, onde coloca uma calcinha nova e tenta disfarçar o fato de não ter tomado banho ou dormido em casa. Alice é a secretária de Jack Morgan (Jordan Lage), um editor que, na sequência, pede para ela atualizá-lo sobre a sua agenda. No fim da reunião, ele comenta que ela vai trabalhar na divulgação do relançamento de Waking Eyes, livro de Milan Daneker (Michael Nyqvist) que traz à tona um capítulo marcante da vida da garota. Acompanhamos o trabalho dela neste projeto e os efeitos que isso tem em sua vida atual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Girl in the Book): Eu fiquei bem em dúvida se deveria assistir a este filme. Francamente, inicialmente, ele não me chamou a atenção. Minha motivação inicial era partir para outra produção, mas como este filme estreou esta semana no Brasil e reparei que a crítica tinha sido relativamente positiva – mais no Rotten Tomatoes que no IMDb -, pensei: “Por que não?”. Nestas horas eu deveria ter respeitado a minha intuição inicial que não me atraia muito para conferir esta produção.

Honestamente? Serei franca logo no início: achei esse filme muito, muito fraco. E, em certo sentido, até um pouco perigoso. Ou, para dizer de outra forma, com algumas ideias equivocadas sob a minha ótica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, sobre o que The Girl in the Book trata? Sobre o abuso e/ou violência sexual sofrido por uma adolescente por um sujeito que ela admirava, em quem ela acreditava e tinha certa estima. E o pior: um sujeito que utiliza a garota apenas para se dar bem, em todos os sentidos.

Primeiro ele faz de conta que está ajudando a garota a escrever melhor para, na verdade, absorver tudo que ele pode sobre a vida dela e seu entorno e utilizar estas informações em sua nova obra. Aliás, a única obra na qual ele realmente teve sucesso na vida – mas isso vamos saber na parte “contemporânea” deste filme. Mas não termina aí a canalhice do sujeito. Além dele utilizar a filha do casal que o ajudou a aparecer como escritor como matéria-prima para a sua obra, ele aproveita qualquer brecha que tem para abusar sexualmente da garota.

E o que acontece com esse canalha? Bem, o filme vai mostrando isso aos poucos. Mas logo no início da produção, que segue aquela velha fórmula de nos mostrar “os dias atuais” da trama para, depois, volta e meia, nos mergulhar em flash backs sequenciais, percebemos que ele está muito bem, obrigada. Ao menos está livre, leve e solto e prestes a relançar novamente o seu best-seller Waking Eyes. Contrastando com esta situação de aparente tranquilidade temos a rotina de Alice Harvey, a vítima dele, que vive uma rotina permanente de busca de sentido, de vivenciar algo que seja real. Claramente ela sofre na virada dos 29 para os 30 anos de idade ainda os reflexos do abuso de 15 anos atrás.

Por esse lado o filme é interessante. Afinal, mostra o que acontece com a maioria dos abusadores da “vida real”. Os canalhas muitas vezes não são denunciados e, quando o são, acabam desmentindo tudo e a vítima é penalizada mais uma vez ao ninguém acredita nela. Certo que o escritor estivesse com uma vida “normal” depois de todo o estrago que provocou e que a vítima dele é quem sofresse continuamente pelo abuso de tempos atrás, mas o que me incomodou não foi apenas isso.

A forma com que o roteiro da diretora Marya Cohn é construído parece simplesmente “aceitar” a realidade como ela se apresenta. Ou seja, não apenas o abusador construiu uma relação de confiança com a adolescente e depois quebrou esta relação ao violentá-la, como também ninguém no entorno dela pareceu se preocupar o suficientemente com o que lhe aconteceu desde a adolescência e, o mais grave, quando a protagonista enfrenta as suas próprias cicatrizes, tudo fica como antes. A cura não acontece sem dor e sem redenção. Sem perdão ou castigo. Pelo menos é assim que eu vejo as coisas. Então será mesmo que Alice poderia simplesmente “superar” tudo com um novo amor?

Hummm… os psicólogos poderiam ajudar nesta resposta. Da minha parte, não acredito muito nisso. Primeiro, acho que Alice poderia ter encontrado a cura abrindo o coração, procurando ajuda de um profissional para tratar de toda aquela quebra de confiança e abuso que ela sofreu na adolescência. Depois, caso ela não tivesse buscado a ajuda de um profissional, acredito que ela poderia ter conseguido isso de outras duas formas: com o apoio de amigos/familiares e através da escrita ou enfrentando o próprio algoz.

O destino quis que ela trabalhasse a favor dele como funcionária do editor Jack. Ora, fica bem subentendido no filme que ela conseguiu aquele emprego por interferência/influência do pai dela (Michael Cristofer), que acabou tornando Milan Daneker famoso. Agora, quem no lugar dela teria aceito uma situação como aquela? Francamente, eu jamais teria trabalhado a favor do cara que ferrou a minha vida.

No fundo, em diversos momentos, parece que Alice confessa ter virado refém de Milan durante todos esses anos – não apenas por não encarar nenhum relacionamento sério, ter necessidade de ser sempre “desejada” pelos homens e buscar satisfação no sexo casual – mas, também, quando confessa que lei a última biografia de Milan e seguiu lendo o livro que ele escreveu “se apropriando” (para usar um termo que a própria protagonista utiliza) da vida dela.

O triste da história é que ninguém próximo dela a conheceu o suficiente – pelo menos é isso o que filme sugere – para lhe dizer o quanto estes comportamentos eram autodestrutivos e de que ela precisava de ajuda. Não. A garota parece ter sido sempre abandonada a própria sorte. O pai dela era outro cretino, destes homens que são incapazes de escutar o desejo da outra pessoa em momento algum – são bastante ilustrativos os momentos nos restaurantes – e que não pensa duas vezes em trocar de mulher.

A mãe da protagonista aparece pouquíssimo, mas em um momento decisivo – quando a filha conta para ela que sofreu abuso – ela pisa na bola de maneira fundamental, deixando de acreditar na filha e aceitando rapidamente a justificativa do “amigo escritor” que ela tinha descoberto. É verdade que muito disso acontece na vida real, que as meninas não são escutadas pelos próprios pais e não tem em casa exatamente bons exemplos, mas nem foi isso que me incomodou no filme.

O que de fato achei ruim é a forma com que The Girl in the Book trata a relação entre o escritor e a jovem que ele abusou. Enquanto os flash backs vão apresentando a parte da quebra de confiança e do abuso sofrido pela adolescente pouco a pouco, na vida adulta a forma com que o autor é tratado por todos – inclusive pela protagonista que, de fato, não o enfrenta para valer em momento algum – meio que legitima o que ele fez. Ninguém além de Alice e dele sabe o que realmente aconteceu no quarto dela nas diversas visitas que ele fez para a garota até terminar de escrever o seu livro, mas por que isso é assim?

Ainda que em um primeiro momento os pais de Alice não acreditaram nela, em nenhuma outra ocasião, especialmente no relançamento do livro, ela teve a oportunidade de confrontar aquela realidade? Eu teria visto um propósito melhor no filme se ela tivesse enfrentado aquela situação de duas formas diferentes, pelo menos: ou se recusando a trabalhar na divulgação de Milan Daneker e, daí, surgindo uma série de efeitos desta decisão, ou mesmo enfrentando ele publicamente (mesmo sabendo que ele provavelmente negaria tudo mais uma vez).

Qualquer um destes caminhos e suas possíveis variáveis teriam feito mais sentido, a meu ver. Ao menos The Girl in the Book teria mostrado que há outros caminhos de enfrentamento do tema do que simplesmente aceitar o abuso como algo que acontece. Por essas e por outras que a nossa sociedade estão tão podre e perdida. Porque a maioria das pessoas “aceitam” que é assim mesmo que as coisas são. Sabemos, verdade, que a maioria dos abusos são praticados dentro da casa das crianças e adolescentes, por familiares ou conhecidos. Até quando isso vai ser tratado como algo que “acontece”?

Para finalizar, e antes que algum idiota venha comentar que “bem, a garota realmente não mostrou que não queria nada com o escritor, pelo contrário”, quero deixar algo claro: nenhuma criança ou adolescente tem a visão maliciosa e corrupta de um adulto. Crianças e adolescentes não sabem o que é o sexo e nem tem a noção da própria sexualidade porque ainda não descobriram sobre isso.

Verdade que na adolescência os hormônios começam a aflorar e os jovens começam a ter interesse uns pelos outros, mas isso não quer dizer que um adulto deva pensar que eles estejam desenvolvidos para ter uma relação sexual como um adulto. Qualquer adulto que beija, acaricia ou faz sexo com uma criança ou adolescente está passando de qualquer limite e tirando a inocência destas pessoas sem que elas tenham noção do que isso signifique. E ponto.

Nenhuma adolescente, por mais “bonitinha” que seja, merece ser abusada, violentada, ter a inocência roubada para sempre porque um adulto não sabe se controlar. Adultos devem ser relacionar com adultos e ponto final. Acho repugnante um homem ou um mulher que olham para uma criança ou para um adolescente com desejo sexual. Isso é um absurdo e, para mim, é uma questão de valores. Também acho o fim companheiros de pessoas que fazem isso e que ignoram a verdade.

Está mais que na hora das sociedades trazerem este tema à tona mas com seriedade, sem panos quentes e sem reticências. Por isso mesmo achei este The Girl in the Book suave demais. Ainda que ele exponha bem as cicatrizes que uma vítima de abuso pode levar para o resto da vida, se não trabalhar esta questão com ajuda de terceiros, vejo que faltou um pouco mais de coragem no enfrentamento do problema.

Por outro lado, e devo admitir que este é um ponto positivo do filme, no final fica subentendido que após enfrentar a própria história e ter ido confrontar Milan em casa – ainda que eu acho que ela poderia ter sido bem mais dura com ele -, a protagonista finalmente conseguiu forças e coragem para iniciar o processo de cura escrevendo a sua própria história. Aí sim, por suas próprias forças e vontade de superação, ela começava um capítulo decisivo em sua vida.

Esta força, inclusive usada antes para tentar reconquistar Emmett, é o ponto forte e inspirador do filme. Toda garota e garoto que sofreu abuso pode dar a volta por cima e reescrever a própria história. Para isso, contudo, deve confrontar as suas dores e cicatrizes e superá-las. Acho difícil a pessoa fazer isso sozinha, como The Girl in the Book mostra – ok, o amor de Emmett a ajuda, mas indiretamente. Por este conjunto da obra que achei o filme pouco ousado e um tanto “cômodo” demais. De qualquer forma, é bom trazer o tema à tona.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vi muita gente, especialmente os críticos, elogiando muito a interpretação de Emily VanCamp. Bem, verdade que a atriz está bem em seu papel mas, ainda assim, não achei a interpretação dela fantástica. Ela é condizente, coerente, mas não achei excepcional. Praticamente divide com ela o “mérito” da personagem a atriz Ana Mulvoy-Ten, que dá vida para a Alice adolescente. A menina é muito sutil em sua interpretação e consegue, a meu ver, passar bastante verdade sobre o comportamento adolescente.

Apesar deste filme ser conduzido pela personagem de Alice que, sem dúvida, é quem dá ritmo para a trama, alguns outros atores tem papel importante no filme. Michael Nyqvist está muito bem como o canalha Milan Daneker. Ele faz uma interpretação coerente e sem tintas carregadas, o que se agradece em um filme como este. Ana Mulvoy-Ten, como eu disse, faz um bom trabalho como a adolescente Alice. Também merecem destaque David Call como Emmett Grant, que acaba sendo a tábua de salvação da protagonista, e Ali Ahn como Sadie, a melhor amiga de Alice.

Outros coadjuvantes que valem ser citados: Mason Yam como Tyler, filho de Sadie; Talia Balsam como a mãe de Alice; Michael Cristofer como o pai da protagonista – possivelmente o personagem que mais mereceria um soco na cara depois de Milan Daneker (ainda que, eu admita, sou contra a violência, rs); e Josh Green como Keith, o filho do vizinho que cuida esporadicamente de Tyler e que vira a grande falha de Alice na produção.

Sobre a parte técnica do filme, Marya Cohn faz um trabalho correto na direção, mas sem nenhum grande achado além de conduzir bem os atores e de valorizar a atuação deles. Acabam sendo elementos importantes para a produção a bem presente trilha sonora de Will Bates; a direção de fotografia competente e com escolhas acertadas de Trevor Forrest; e a edição bem realizada de Jessica Brunetto.

The Girl in the Book estreou no Festival de Cinema de Los Angeles em junho de 2015. Depois o filme participaria de apenas um outro festival de cinema, o de Mill Valley. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Agora, duas pequenas considerações sobre o filme que eu não fiz antes. (SPOILER – realmente não leia este parágrafo se você não assistiu ainda ao filme). A cena do abuso da protagonista quando ela é adolescente é de arrepiar. Não tem como não ficar indignado(a) com aquilo. Neste sentido Marya Cohn soube construir bem a narrativa do flash back até nos levar aquele ponto extremo – se bem que, depois, teremos novo ponto de violência contra a protagonista e ultrajante que é quando o canalha lê pela primeira vez a sua própria obra. Se este é um acerto na narrativa e que ajuda o filme a provocar debate, há um outro ponto que achei um tanto forçado demais. Ainda que seja verdade que muitas pessoas que foram abusadas sexualmente também se tornem abusadoras no futuro, a forma com que Alice abusa de Keith parece forçada e um tanto sem pé nem cabeça. Ela até poderia ter abusado de algum jovem que ela conhecesse, mas pegar um garoto desconhecido como o filme mostra é meio forçado demais.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Girl in the Book foi todo filmado em Nova York – a cidade aparece bem, em alguns momentos, especialmente após uma crise ou “caída de ficha” da protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para o filme. Uma avaliação bem condizente, eu diria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 10 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,3. A nota eu até acho realista e condizente, mas o nível de aprovação é que me “enganou”, digamos assim. Achei que o filme poderia ser melhor do que realmente foi.

Este é apenas o segundo trabalho na direção de Marya Cohn. Em 1994 ela fez o curta Developing e, agora, estreou com um longa com este The Girl in the Book.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ele contempla uma votação de enquete feita há um bom tempo e na qual vocês pediam filmes deste país.

CONCLUSÃO: Francamente, acho que este filme é muito menos do que poderia ser. Como disse lá no início, o tema levantado por The Girl in the Book é fundamental, mas o desenrolar da história é que me incomoda. Não apenas o canalha e algoz da protagonista não tem o fim que mereceria – ok, o mundo é injusto, muitas vezes – como o entorno da garota parece não realmente se preocupar com ela.

Desenvolvi melhor as reflexões sobre isso no corpo da crítica, mas quero reforçar aqui que eu esperava um pouco mais de ação, de atitude, e um pouco menos de simples narrativa dos fatos. Enfim, o filme me pareceu flertar perigosamente demais com a literatura e com o “mergulho necessário” de qualquer escritor na realidade para então criar e menos na denúncia de um crime. Me incomodou essa displicência com a protagonista. O filme é importante ao levantar alguns temas, mas achei o desenvolvimento dele precário. Para mim, há produções bem melhores em cartaz.