Du Forsvinder – You Disappear

O que faz sermos o que somos? Esta é uma das questões filosóficas que mais rendeu (e ainda rende) estudos em diferentes campos da Ciência. E esta pergunta está no centro da trama de Du Forsvinder, o representante da Dinamarca na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. O filme tem alguns questionamentos interessantes e algumas boas surpresas, mas sofre um bocado com a própria redundância de seus questionamentos. É bem feito, tem uma proposta interessante, mas acaba sendo um tanto cansativo e até previsível, lá pelas tantas. De qualquer forma, vale ser visto.

A HISTÓRIA: Um carro trafega por uma rodovia estreita enquanto um casal e o seu filho escutam um rádio em espanhol. Nicklas (Sofus Ronnov) pede para o pai andar um pouco mais rápido, mas Frederik (Nikolaj Lie Kaas) acelera demais. Ele quase atropela um grupo de ciclistas, mas isso e os apelos de Mia (Trine Dyrholm) para que ele vá mais devagar não fazem mudar de atitude. Até que em um curva ele se perde um pouco e bate o carro do lado da esposa. O filho pede para o pai parar, mas Frederik uiva. Eles param em um local para ver se podem pedir ajuda, Frederik reclama que a mulher só coloca limites para ele. Frederik caminha até a beira do penhasco e cai. Corta. Em seguida, vemos Frederik indo para o seu julgamento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Du Forsvinder): Este filme começa muito bem, obrigada, e tem algumas ideias muito, muito interessantes. Mais uma produção “apresentada” por uma das listas de “pré-indicados” ao Oscar 2018 – o que só comprova que sim, vale a pena ficar de olho na premiação da Academia de Arte e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

O começo de Du Forsvinder é muito potente. Aquela calma dos segundos iniciais de uma estrada tranquila que abre frente para uma sequência de loucura, caos e de rompante do protagonista é um belo cartão de visitas sobre o que veremos em seguida. Logo no início ficamos em dúvida sobre o que aconteceu com Frederik, e as dúvidas sobre este personagem serão fundamentais para esta produção. Depois daquele início potente, é interessante a “apresentação” da problemática que veremos em cena pela protagonista e narradora desta história, Mia, esposa de Frederik.

Realmente, há muito tempo nos questionamos o que nos define. E não apenas a nós, mas também as pessoas que amamos e que nos cercam. É fácil entender a perplexidade da protagonista quando o marido é acusado de fraude e de roubo. Pessoal responsável pela administração de uma escola por uma década, Frederik é acusado de desviar dinheiro da instituição e de ainda a utilizar para fazer diversos empréstimos bancários. Ao ser apresentada para esta realidade, da qual desconhecia, Mia se pergunta sobre o quanto ela conhece o marido.

Quando nos questionamos algo tão básico, começamos a questionar outros elementos tão ou mais básicos. Como Frederik também descobre que tinha um tumor no cérebro, Mia, Frederik e os demais que os cercam começam a questionar também o que pode ter sido racional ou involuntário das atitudes dele. Agora, imagine que tudo o que você viveu em muitos anos começa a ser questionado. Não apenas pelos outros, pelas pessoas que estão fora da tua casa e da tua relação pessoal, mas também questionados por você mesmo.

Du Forsvinder, assim, nos apresenta estas questões pertinentes e interessantes. De fato, é de se questionar o que somos, de verdade, além das interpretações dos outros e de nós mesmos, assim como quem são realmente as pessoas que nos rodeiam. O que é realidade e o que é interpretação da realidade? E esta interpretação, o quanto está sujeita a erros e a subjetividades? Tudo isso é explorado pelo roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen, que trabalharam tendo como base o livro de Christian Jungersen.

Sabendo que vocês vão perdoar a minha “brincadeira”, este filme é um bocado cabeça. 😉 De fato, Du Forsvinder explora bastante a mente humana, o que sabemos sobre ela e tudo aquilo que ainda desconhecemos a respeito do órgão que determina grande parte do que somos e do que fazemos. E aí que o filme se perde um pouco.

Verdade que ele traz algumas verdades interessantes sobre a mente humana – como que um tumor ou uma doença no cérebro pode mudar radicalmente o modo de agir e de pensar de uma pessoa – mas, nos demais espaços que a falta de respostas da neurologia e das demais ciências relacionadas deixa, o filme dá uma “forçada” em algumas explicações ou conjeturas.

Por exemplo, em mais de um momento da história, o advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), que Mia acaba conhecendo em um grupo de apoio de pessoas que tem familiares com problemas mentais, sugere que nós somos “comandados” pelas reações químicas do nosso cérebro. Que, por mais que acreditemos que temos escolhas, e que podemos decidir o que queremos fazer ou não, no fundo não temos escolha alguma.

Nosso cérebro interpreta os fatos alguns segundos depois deles acontecerem e sempre de forma condicionada. Assim, quando respondemos a algo, na verdade, estamos apenas repetindo padrões estabelecidos pelo nosso cérebro com base no que já vivenciamos e com foco na nossa sobrevivência. Ainda que parte de tudo isso faça sentido, no contexto desta produção estas ideias parecem um tanto “forçadas” para enquadrarem os personagens centrais e as suas ações.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Em certo momento, por exemplo, Mia se aproxima romanticamente de Bernard e ele faz um grande discurso para ela de que eles não podem evitar a traição das relação com os seus respectivos cônjuges porque esta é a Natureza “falando”. Ou seja, que a química dos seus cérebros lhes impele a traírem e que não tem como eles fugirem disso. Também durante grande parte da história, que se passa no tribunal do julgamento de Frederik, ouvimos os argumentos da defesa do ex-diretor de escola sobre como o tumor fez ele agir de forma impulsiva e roubar os recursos do educandário.

Ora, com estes argumentos, fica fácil de justificar qualquer crime, não é mesmo? Em certo momento, uma pessoa inclusive fala que grande parte das pessoas que estão presas atualmente são, na verdade, doentes, e não deveriam ser julgados por seus crimes. Ainda que eu concorde que existem casos sim de demência e de falta de capacidade de julgamento de alguns criminosos, na maioria dos casos temos sim a capacidade de decidir, de escolher. E devemos, em uma sociedade civilizada, ter leis para impedir certos atos e responsabilidade de pagarmos pelo que fazemos, não é mesmo?

Claramente o roteiro do diretor Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen tem uma preocupação de não ser enfadonho, apesar do tema espinhoso. Os realizadores conseguem isso ao intercalar a história com diversos momentos narrativos. Como Mia é a pessoa que nos conta essa história, acompanhamos a sua “forma” de narrar descontinuada, que vai e volta no tempo narrativo. Isso acontece também com a gente. Normalmente, quando contamos um “causo”, intercalamos ele com vários outros fatos e com “explicações” que vão se encaixando no meio da história.

Assim, se vermos Du Forsvinder com uma lupa, esta produção é a história de um homem que é julgado por um crime e que tenta se justificar alegando insanidade causada por um tumor no cérebro. O que vemos antes e em “pitadas” no meio desta narrativa são pensamentos de Mia, esposa do homem que está sendo julgado, que tenta nos contextualizar esta história, contando o que aconteceu antes e “ao redor” do julgamento do marido. Desta forma, nos aproximamos do casal em sua intimidade e, especialmente, das buscas por respostas de Mia.

Interessante como o filme demonstra, na prática, como tudo aquilo que acreditamos ser realidade pode ser uma ideia falsa se não estivermos nas nossas “plenas faculdades mentais”. Ou seja, que aquilo que pensamos ser verdade pode ser apenas uma “doença falando”, ou uma condição mental diferenciada que nós, por nossa conta, não conseguimos identificar. Então sim, dá um pouco de medo pensar que um dia podemos ter a nossa realidade totalmente modificada por causa de algo de “anormal” que aconteça com o nosso cérebro.

Como eu disse antes, Du Forsvinder tem algumas surpresas interessantes. Depois daquele início provocante, temos um desenvolvimento interessante de dramas envolvendo problemas com a mente humana. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até aí, esta produção é densa, “cabeça”, exige atenção do espectador, mas caminha por estradas interessantes. Agora, quando Mia começa a ter um “caso” com Bernard, a forma com que eles se aproximam e começam a trair os seus cônjuges, deixa quem assiste um tanto desconcertado.

Não apenas porque não parece justo eles traírem os seus cônjuges quando eles vivem momentos tão delicados mas, e acho que isso foi o que mais me incomodou, essa tal traição não parecia fazer muito sentido em relação à construção dos dois personagens apresentada até então. Neste momento, você já não sabe muito bem sobre o que filme está tratando. Afinal, Du Forsvinder é uma crônica sobre o autoconhecimento, sobre a descoberta de quem é a pessoa que está mais próxima da gente e sobre o que percebemos como realidade ou um filme sobre casamentos em ruína?

Até que… surge o final para dar uma nova “reviravolta” na história e para nos fazer pensar um pouco mais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aquilo que pode ter incomodado você no meio da história, como incomodou a mim, aquela falta de coerência de alguns atos de Mia e de Bernard em relação ao que estes personagens pareciam pensar e significar até então, fica claro após esta nova reviravolta na história.

No fim das contas, Du Forsvinder não é tanto sobre o quanto Frederik é capaz ou incapaz ou sobre o quanto ele fala a verdade ou mente. Du Forsvinder se revela um filme sobre Mia e a sua capacidade de nos contar uma história verdadeira. Ela parece ser a pessoa mais lúcida em cena, capaz de identificar mudanças de comportamento e de humor do marido, coerências e incoerências por todas as partes. Mas descobrimos, no final, que isso tudo não é bem assim. Ela mesma fantasiou parte do passado e do presente e, aparentemente, sem perceber.

Daí sim, Du Forsvinder mostra a que veio. Afinal, se alguém aparentemente “normal” e lúcido é capaz de deturpar tanto a realidade, no que podemos confiar? E em quem? A reviravolta no final é interessante e abre uma outra fronteira de discussão sobre o que é a realidade e sobre como a nossa mente pode nos pregar peças.

Mas algo fica mal explicado nesta história. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Sim, três anos antes do julgamento de Frederik, Mia tentou se matar. Aparentemente, porque estava deprimida com as traições e a saída de casa do marido. Até aí, tudo bem. Mas como ela apagou as pílulas que usou de forma tão profunda da memória e o que teria motivado as fantasias dela com Mia?

Talvez uma grande carga de estresse, motivada pelo julgamento de Frederik, e o trauma causado pela tentativa de suicídio, expliquem as duas situações. Mas como não há diagnóstico feito em cena e como estas questões não ficam claras, ficamos na dúvida sobre o que teria causado estas reações de Mia. Frederik tenta usar o tumor como desculpa para os seus atos, mas o que poderia ter causado tantos “desvios” da realidade por parte de Mia? E o quanto do restante que vimos em cena fazia parte da realidade ou também era fantasia da protagonista?

Enfim, acho que o filme termina com muitas perguntas sem resposta e que, o que acaba sendo pior para a narrativa, que Du Forsvinder se perde muitas vezes na repetição de alguns argumentos e nas reações um tanto forçadas dos personagens. Este é um filme denso, bastante psicológico e que apresenta alguns argumentos interessantes, mas parece que algumas vezes o diretor Peter Schonau Fog prefere abrir mão da coerência para “surpreender” o espectador. Isso joga contra qualquer filme, quando esta técnica se torna evidente.

Apesar de seus pequenos defeitos, Du Forsvinder me pareceu um filme interessante por tocar em assuntos delicados. Tanto a respeito dos fatores que explicam porque fazemos o que fazemos, pensamos o que pensamos, quanto sobre as relações humanas e as suas fragilidades. Também faz pensar, como poucos filmes que eu já assisti até hoje, sobre como somos frágeis em relação ao controle da nossa vida. De uma hora para a outra, seja por um acidente, seja por uma doença, podemos ter a nossa compreensão de nós mesmos, dos outros e do mundo totalmente modificada e deturpada. Isso é assustador, mas nos faz pensar. Enquanto somos capazes, evidentemente. 😉

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu gostei da direção de Peter Schonau Fog. Ele sabe valorizar bem o trabalho dos ótimos atores em cena, e consegue nos surpreender nos momentos exatos. É bom assistir a este filme com atenção total para não perder nenhum detalhe. Ajuda muito o diretor em seu ofício o diretor de fotografia Laust Trier-Mork e a edição feita pelo trio Morten Hojbjerg, Olivia Neergaard-Holm e Peter Winther.

O roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen é, ao mesmo tempo, um dos pontos fortes e o ponto fraco desta produção. Há algumas linhas de diálogo realmente interessantes, assim como alguns grandes momentos cuidadosamente pincelados com surpresas aqui e ali na produção, mas o roteiro também derrapa em algumas redundâncias, repetições e na falta de explicações no final. Ainda assim, por tudo que eu comentei no texto acima, Du Forsvinder é uma produção instigante.

Da parte técnica do filme, além dos elementos que eu citei antes, vale comentar a trilha sonora bastante pontual de Mikkel Maltha; o design de produção de Soren Gam e Gitte Malling; e os figurinos de Kirsten Zäschke.

Du Forsvinder foi lançado em abril de 2017 na Dinamarca. Apenas em setembro ele participou do seu primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Toronto. Em outubro, ele participou do Festival de Cinema de Hamburgo. E isso foi tudo, até agora, em termos de festivais. No festival em Hamburgo, Du Forsvinder foi indicado para o Audience Award como Melhor Filme. Ele perdeu a disputa para Es Por Tu Bien.

Vale comentar onde esta produção foi rodada. Du Forsvinder foi totalmente filmado no estúdio Trollhättan, na cidade sueca de Västra Götalands Iän.

O diretor Peter Schonau Fog tem um bocado de prêmios no currículo. Du Forsvinder é apenas o seu quarto filme como diretor, mas ele tem nada menos que 21 prêmios recebidos pela carreira – que compreende ainda o trabalho de roteirista. Du Forsvinder marca o retorno do diretor após 11 anos de ausência. O seu filme anterior foi Kunsten At Graede I Kor, de 2006. Antes, ele dirigiu a dois curtas, Lille Maensk, lançado em 1999, e Vildfarelser, de 1998. A maior parte dos prêmios que ele recebeu foi pelo longa Kunsten At Graede I Kor.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas negativas e quatro positivas para a produção, o que garante a Du Forsvinder uma aprovação de apenas 40% e uma nota média de 5,2. Ou seja, duas avaliações baixas, tanto de público quanto de crítica. Realmente o novo filme de Fog parece não ter agradado. Da minha parte, não acho este um grande filme, mas ele tem a sua força e a sua validade. Mas poderia ser melhor desenvolvido, sem dúvidas.

Ah, e antes que eu termine estes comentários, vale falar sobre o elenco desta produção. Para mim, uma das grandes qualidades de Du Forsvinder. Os roteiristas acertaram em concentrar esta história em poucos personagens. Quem realmente brilha em cena são os veteranos Trine Dyrholm e Michael Nyqvist. Eles estão ótimos, muito humanos e com interpretações convincentes e interessantes. Outros atores fazem um bom trabalho, com destaque para Nikolaj Lie Kaas, que interpreta Frederik.

Além deles, fazem um bom trabalho os coadjuvantes Meike Bahnsen, como Laerke, esposa de Bernard; Mikkel Boe Folsgaard como o promotor que acusa Frederik; Lars Knutzon como Laust Saxtorph, fundador da escola na qual Frederik dá o golpe; e Sofus Ronnov como Nicklas, filho do casal problemático.

E sim, vale um comentário final antes da conclusão: fico impressionada com o egoísmo de alguns adultos. Frederik e Mia agem como querem, por impulso ou de forma racional, sem parecer se importar com o fato de que eles são pais e que tem como responsabilidade a formação de Nicklas. Que tipo de exemplo os dois dão para o filho dentro de casa? Sem julgamentos, mas eis outro ponto que vale uma reflexão, ou não?

Du Forsvinder é uma coprodução da Dinamarca e da Suécia. Mas esta produção é a representante da Dinamarca na busca por uma indicação ao Oscar 2018 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

CONCLUSÃO: Tudo o que existe, o que vemos, escutamos, sentimos… absolutamente tudo é interpretado por nós. Sobre isso, muitos já falaram, desde Platão. E este filme, por incrível que pareça, se junta a toda esta grande “escola” sobre o que é realidade e como a interpretamos. Du Forsvinder tem uma pegada interessante, especialmente no começo e no fim, mas o seu “recheio” deixa um pouco a desejar por causa de uma certa redundância de argumentos. De qualquer forma, é um filme interessante. Mais uma boa pedida do cinema dinamarquês. Mas que ninguém se engane. O filme é “cerebral” e exige extrema atenção. Faz pensar, mas poderia ser melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre pode surpreender. Quanto a isso, não há dúvidas. Prova é o quanto o Oscar, que chega em 2018 em sua 90ª edição, evoluiu ao longo de todo este tempo. Algo inevitável, eu diria, porque o cinema e as suas premiações evoluem como a própria sociedade.

Dito isso, não acho que Du Forsvinder tenha muitas chances de chegar entre os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Esta produção é, por um lado, “cabeça” demais para o Oscar e, por outro, um tanto “falha” em alguns aspectos. Acho que já citei eles todos antes, mas basicamente as principais falhas do filme são a sua redundância e o esvaziamento da história e da “novidade” que a produção parece apresentar em um primeiro momento. No fim das contas, este filme não é tão “inovador” quanto poderíamos esperar.

Além disso, não acho que ele tenha muito o perfil do Oscar. Especialmente em um ano como este, em que parece que temos grandes produções com temas importantes na disputa. Da minha parte, acho que Du Forsvinder seria uma grande zebra se ele entrasse na lista final de indicados. Veremos. O primeiro filme dos que estão concorrendo a uma vaga no Oscar 2018 nesta categoria que eu assisti foi First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, comentado por aqui. Até agora, ele é o meu favorito. A conferir se ele segue assim. 😉

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Kollektivet – The Commune – A Comunidade

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Alguns filmes tem propósitos pouco claros. A interpretação sobre o que vemos na telona é livre e depende do tipo de olhar de quem assiste. Kollektivet é um destes filmes. O diretor Thomas Vinterberg sempre tem um estilo muito próprio de fazer cinema mas, em outras produções, ele deixou mais claro o que ele queria com a história que ele estava contando. Este filme, mais uma vez, toca em temas importantes tanto sob a ótica individual quanto sob a ótica coletiva, da sociedade. Pessoalmente, fiquei um pouco incomodada com o “andar da carruagem” da história. Explico as razões logo abaixo.

A HISTÓRIA: Um corretor caminha com passos largos por uma rua residencial até encontrar Erik Moller (Ulrich Thomsen). Ele dá os pêsames para o homem que está voltando para a casa familiar após perder o pai. Residência esta que ele não via há muito tempo, já que não tinha contato com a família desde os 22 anos de idade. Erik quer se livrar logo da casa, que considera muito grande e com manutenção cara. Mas a mulher dele, Anna (Trine Dyrholm) tem outros planos para o lugar. Ela acha a casa espaçosa perfeita para que o casal e a filha Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen) possam viver em comunidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kollektivet): Este filme trata de muitos assuntos. Alguns óbvios, outros nem tanto. Um dos pontos fundamentais do filme, e não sabemos sobre isso quando as frases são ditas, estão justamente bem no início da produção com roteiro do diretor Thomas Vinterberg e de Tobias Lindholm.

A questão essencial de Kollektivet está em um dos primeiros diálogos dos protagonistas Erik e Anna. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na visão de Erik, para duas pessoas viverem juntas, elas precisam “ver e ouvir um ao outro”. Ou seja, para ele, é fundamental que o casal e a filha sigam vivendo em um local pequeno, no qual eles mantenham proximidade e tenham intimidade. Emma, por outro lado, não está satisfeita apenas com esta realidade e rotina. Ela quer mais. Como comenta em uma sequência seguinte, ela precisa “ouvir outras vozes”, ouvir outras pessoas além de Erik para “não enlouquecer”.

No início, tudo é maravilhoso. Primeiro, o casal Erik e Emma parece muito feliz e satisfeito consigo mesmo. Freja claramente ama e admira os pais. Estão todos felizes. Especialmente Emma ao imaginar a vida que eles poderão ter naquela grande casa familiar de Erik e que ela planeja transformar em reduto de uma comunidade de amigos e conhecidos. Cada um com um estilo de vida e características para somar ao grupo.

Pouco a pouco o casal vai “entrevistando” os pretendentes a morarem naquela casa. O grupo acaba formando uma forma de se autogestionar que leva em conta como cada um está se sentindo e como cada um pode contribuir para as contas do mês. Novamente a felicidade está presente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até que em um certo dia Erik fala com Emma e simplesmente não consegue ser ouvido em meio ao falatório dos demais.

Pronto, aí está a ruptura fundamental de Kollektivet. Como se refletisse sobre a própria coletividade e sobre o sentido que cada indivíduo tem sobre a importância de suas próprias necessidades, o filme demonstra como o que acaba predominando no final das contas é mesmo a supremacia de alguns desejos particulares sobre o dos demais. A ideia de comunidade é bonita, bacana, mas simplesmente não funciona, parece que Vinterberg está nos dizendo, porque o poder econômico sempre prevalece sobre o bem estar comum.

Como eu disse lá no início, há muitas interpretações possíveis sobre Kollektivet. Mas esta foi a que “gritou” mais forte para mim. Com este filme Vinterberg parece nos dizer que o desejo utópico e que se tornou realidade por um período de tempo de Emma de ter em um mesmo espaço várias pessoas com estilos de vida e visões diferentes vivendo de forma harmoniosa e um apoiando o outro perde na queda de braço para os desejos particulares de Erik.

Quando o protagonista não consegue o que ele quer e se dá conta disso – a cena crucial é aquela em que ele não consegue ser ouvido pela mulher, Anna -, ele decide buscar o que ele deseja fora de casa. Como a maioria dos homens – e me perdoem vocês, espécimes do sexo masculino que não são assim -, Erik é um idiota inseguro que precisa se sentir importante ao ser desejado e amado por uma linda (e preferencialmente jovem) mulher. Então dane-se o casamento de 15 anos com Anna e tudo que eles passaram juntos. Dane-se o choque e o medo que a dissolução da família pode causar na filha Freja. O importante para Erik é sentir-se desejado por uma bela mulher.

Para muitos homens isso significa poder, significa massagem para o ego. E é isso que vemos em Kollektivet. Erik acaba dando corda para a bela aluna Emma (Helene Reingaard Neumann) que vai até a sala dele questioná-lo sobre o tratamento dado para um colega e os dois começam um caso. Como é dono da casa em que vive o coletivo de amigos, Erik não pensa duas vezes em levantar a amante para lá quando ele sabe que todos estão fora. Mas ao ser flagrado pela filha, ele resolve não esconder a relação da qual ele não quer abrir mão.

A partir daí e porque Erik passa a deixar claro que quer ficar com Anna, ele se distancia cada vez mais de Anna, o que deixa a vida da mulher dele cada vez mais miserável. No fim das contas, Erik acaba mergulhando no trabalho e passa a dormir fora de casa também para ficar mais com Emma, abandonando Anna na prática. A mulher dele, que parecia querer mais que o relacionamento apenas dos dois no início do filme – afinal, é ela que diz que precisa de outras pessoas e que gostaria de ter diversidade na convivência diária em casa -, não lida bem com a ausência do marido. Muito pelo contrário. Ela desmorona.

Quando o filme migra para esta realidade em que Erik é mais um marido carente de atenção e que acaba traindo a mulher para satisfazer o seu próprio vazio e que Emma vira esta mulher frágil que desmorona quando não tem a atenção do marido canalha, Kollektivet perdeu boa parte da graça para mim. Na verdade, fiquei um tanto revoltada e frustrada. Mas aí, quando o filme acabou, pensei que talvez esta tenha sido exatamente a intenção de Thomas Vinterberg. Nos mostrar “a vida como ela é” para muitas pessoas e nos fazer refletir sobre isso.

Alguns, certamente, vão achar que “as coisas são assim mesmo”, e que é natural e aceitável que Erik tenha traído a esposa e não se importado em deixá-la naquele estado lastimável porque, afinal de contas, ele tinha o “direito” de buscar o que lhe parecia melhor apenas para si mesmo. É como uma ode ao egoísmo. Outros, como eu, podem ficar indignados com isso e refletir não apenas sobre a canalhice da situação, mas também sobre o comportamento da comunidade.

O grupo formado por Ole (Lars Ranthe), Mona (Julie Agnete Vang), Steffen (Magnus Millang), Allon (Fares Fares) e Ditte (Anne Gry Henningsen) fica perplexo, claro, com a situação de conflito que eles acabam presenciando entre a diferença de desejos de Erik e Anna. Afinal, o casal é o que chamou todos para aquela convivência. Acreditando que poderia ter alguma “migalha” de atenção de Erik ao chamá-lo de volta para a casa junto com Anna, Emma faz o grupo votar pela adição da jovem amante do marido.

Aquela comunidade, a meu ver fazendo as “vezes” da sociedade em geral, acaba sendo até certo ponto “receptiva” com Anna. Não a julga, mas também, claramente, se sente constrangida em aceitá-la sem ressalvas. No fundo, o grupo quer que o “status quo” permaneça como era antes, quando todos viviam bem e harmoniosamente, aparentemente todos felizes. Erik fica surpreso quando, apesar da receptividade amistosa, o grupo vota para que Anna não seja aceita. E ele se revolta. Novamente o que deve predominar é a vontade individual de Erik e não o que é melhor para a maioria – ou mesmo para a que era, até então, a família dele.

Daí entra a crítica principal de Kollektivet, a meu ver. Como Erik é o dono da casa, ele ameaça todos de expulsão se não aceitarem a vontade dele. E o grupo, a comunidade, acaba cedendo para não perder o que eles tem. A generosidade e a preocupação com o bem estar de todos cai por terra naquele instante. Todos abrem mão da felicidade e do bem estar de Emma até o ponto em que fica impossível ignorar a miséria pela qual ela está passando. Neste momento o grupo coloca o casal contra a parede e, finalmente, a jovem Freja pede para que a mãe tome uma atitude e busque a felicidade em outro lugar.

Neste momento, em especial, o filme me incomodou. Afinal, realmente a única saída de Anna seria sentir-se tão miserável e sofrer tanto pela ruptura do casamento? Ela não poderia ter buscado ser feliz de outra forma e sem ter que ser a pessoa a sair de casa? A comunidade, assim como a sociedade, aceita o traidor e o canalha para a preservação do “bem comum”. Será mesmo o bem comum? Enquanto a sociedade machista seguir aceitando o sujeito que não se preocupa com os demais mas sim apenas em satisfazer os próprios desejos, para onde iremos?

Me incomodou, por exemplo, a filha Freja ficar do lado do pai – afinal, ela não sugere para ele, o traidor, sair de casa, e sim a mãe. Claro, o próprio Freud pode ajudar a explicar isso – classicamente as filhas ficam do lado dos pais porque se sentem “inconscientemente” atraídas por eles. Ainda assim, me incomoda pensar que Freja iria repetir velhos padrões e não pensar realmente no que estava acontecendo e em quem era a “parte frágil” do processo. Consequentemente, ao não fazer isso, ela não pensou sobre ela própria.

Agora, claro, sem dúvida alguma Emma estava certa em buscar a própria felicidade após a falência do casamento. Ela não poderia seguir sofrendo daquela forma. A protagonista assim mostra determinação e coragem – ainda que um tanto tardia. Mas ok, afinal, esta produção se passa nos anos 1960 – um tempo que ainda exigiria amadurecimento das mulheres. Mas o que virá depois daquela saída de Anna de casa? Na sequência final, Freja se declara para Peter (Rasmus Lind Rubin) que está em “outro mundo”.

Há formas diferentes de interpretar aquela sequência, assim como outras partes do filme, mas para mim aquela cena quer mostrar que a história vai seguir se repetindo. Ou seja, que Freja vai dedicar toda a sua vida, atenção e afeto para um sujeito que, a exemplo do pai dela, estará sempre mais preocupado com si mesmo do que com ela ou os demais. Um egoísta clássico, cretino e babaca que, quando não tiver todos os seus desejos atendidos, irá procurar quem poderá satisfazê-los fora de casa. E o círculo vicioso irá se repetir.

Esta aparente “imutabilidade” das coisas me incomodou um bocado no filme. Ainda que esta possa ser a realidade como ela se apresenta para a maioria, gosto de pensar que existe esperança além do cinismo. De que se existem história como a contada por Kollektivet, existem também histórias de quebra de ciclos de dependência e onde o egoísmo prevalece. De que há histórias de grandeza, doação e generosidade. Kollektivet me parece cheio de cinismo e de desesperança. E não é exatamente filmes assim que eu gosto de ver. Ainda que, eu admita, ele tem um propósito de ser. E talvez seja exatamente este de deixar alguns como eu incomodados.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino nos filmes de Thomas Vinterberg, o diretor escolheu o seu elenco a dedo. Todos os atores são ótimos e estão muito bem em seus respectivos papéis. Vinterberg sempre exige interpretações convincentes, fazendo com que os atores mergulhem na história de seus personagens. Nenhuma linha do roteiro é falada sem convicção. Isso fica evidente em mais este filme do diretor. Não por acaso esse tom “naturalista” dos filmes de Vinterberg faz com que realmente acreditemos em sua história. É como se víssemos um documentário na nossa frente. O envolvimento de quem assiste ao filme, desta forma, é inevitável. Mais uma vez o diretor consegue isso com Kollektivet.

Há dois protagonistas claros neste filme. Outros atores e seus respectivos personagens acabam ganhando destaque, aqui e ali, mas claramente esta produção tem na dianteira o excelente trabalho dos atores Trine Dyrholm e Ulrich Thomsen. Os dois estão perfeitos, sem tirar e nem por. Acreditamos em cada detalhe da interpretação de Trine, enquanto Ulrich dificilmente não vai despertar indignação de quem assistir a este filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lá pelas tantas eu não consigo ver a cara do ator sem ter uma certa raiva dele – especialmente quando ele “desabafa” com Anna de que ele deve se concentrar no trabalho e não em “coisas de mulher”. Uma sequência que também fez o meu queixo cair um bocado foi aquela em que a personagem de Trine diz que entende que o marido tem as suas “necessidades”. Ah, por favor! Se devemos sempre saciar as nossas necessidades e sem se importar com as consequências o que nos diferencia exatamente dos outros animais?

Duas outras atrizes tem um papel de bastante relevância na história: a jovem Martha Sofie Wallstrom Hansen e a bela e carismática Helene Reingaard Neumann. As duas fazem um belo trabalho, ainda que chame a atenção como Martha está, em muitas situações, apenas com olhar de perplexidade, enquanto Helene tenha mais espaço para demonstrar nuances diferentes de sua personalidade. Por mais que ela seja linda e a beleza sempre “ajuda” a perdoar pecados, não dá para ignorar que a personagem de Helene também está pouco se importando com os efeitos de sua “nova paixão”. A sequência em que as duas personagens se encontram pela primeira vez, em especial, achei um bocado reveladora sobre o “real espírito” da personagem de Helene.

Todos os outros atores coadjuvantes estão bem em seus papéis, mas gostei, em especial, do trabalho de Lars Ranthe como Ole. Acho que ele acaba se destacando um pouco mais que os demais. Além de todos os atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Sebastian Gronnegaard Milbrat como Vilads, garoto que sofre de uma doença e que vive repetindo que não vai viver além dos nove anos de idade.

Da parte técnica do filme, um elemento bastante presente no filme, especialmente na parte inicial, é a trilha sonora de Fons Merkies. Depois, conforme a história vai se desenrolando, curiosamente a música perde um bocado de sua importância – seria uma forma de reforçar que a “fase dourada” da história já passou? Possivelmente. Sempre que um filme começa com uma presença marcante de música, o que, para mim, significa “alegria na vida”, e depois vai perdendo esse elemento pouco a pouco, é como se a história também perdesse em graça. Acho que é o que acontece em Kollektivet, especialmente porque a frustração, a decepção e a tristeza vão ganhando corpo lá pelas tantas.

Outros elementos importantes para esta produção ter a aura que ela tem – lembrando que a história se passa nos anos 1960 – são a direção de fotografia de Jesper Toffner e os figurinos escolhidos à dedo por Ellen Lens. Características complementares a estas são o design de produção de Niels Sejer; a decoração de set de Salli Lindgreen e Didde Hojlund Olsen; e o departamento de maquiagem com oito profissionais. Os editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud também fazem um bom trabalho e merecem ser citados.

Kollektivet estreou na Dinamarca em janeiro deste ano. No mês seguinte o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passaria ainda por outros 10 festivais mundo afora – o último deles será o Festival Internacional de Cinema de Toronto que começa nesta próxima semana, no dia 8 de setembro.

Nesta trajetória, o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outro. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Trine Dyrholm no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Muito justo. A atriz está divina e perfeita nesta produção. Merecia ganhar um prêmio pelo seu desempenho. Ela e o parceiro de cena como protagonista estão impecáveis – ainda que ela consiga chegar a um grau um pouco acima dele até pela personagem que ela tem, mais humana e sem dúvida alguma mais complexa.

Agora, uma curiosidade sobre Kollektivet: o roteiro do filme é baseado em uma peça com o mesmo nome escrita por Thomas Vinterberg e que é, por sua vez, inspirada na infância que ele teve em uma comunidade acadêmica na região Norte de Copenhague.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 18 críticas positivas e seis negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média 6.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca, da Suécia e da Holanda.

Eu gosto do diretor Thomas Vinterberg. Assisti a boa parte da filmografia dele – ainda que nem todos os filmes estejam comentados aqui no blog. Este dinamarquês de 47 anos estreou na direção com Sneblind, em 1990. O primeiro filme que eu assisti dele foi Festen, uma obra-prima que não está comentada aqui porque eu não tinha começado o blog ainda – o filme foi lançado em 1998. Depois viria Dear Wendy, filme de 2004 do qual eu gostei muito e que merece ser visto. Depois do blog já ter sido criado, assisti e comentei por aqui Submarino (com crítica neste link) e o ótimo Jagten (comentado aqui). Se Kollektivet é o seu primeiro filme do Vinterberg, recomendo que você volte alguns anos e assista Jagten, Dear Wendy e Festen, principalmente. Ele é um diretor interessante e que merece ser assistido – até por integrar o grupo do Dogma 95 que pedia um cinema mais “original” e visceral.

Procurei alguma entrevista com o diretor para ver se ele “aclarava” um pouco mais para mim as suas intenções com Kollektivet. Pois bem, encontrei esta entrevista interessante. Para começar, na introdução à conversa eu fiquei sabendo que o filme se passa no final dos anos 1970 e não nos anos 1960 como eu imaginava. Depois, fiquei sabendo que a atriz que interpreta Emma, a bela Helene Reingaard Neumann, é a mulher de Vinterberg e estudante de Teologia. Segundo o texto, Kollektivet é uma homenagem à comunidade em que ele próprio viveu entre os sete e os 19 anos de idade.

De acordo com Vinterberg, ele viveu em uma comunidade formada por 12 pessoas em 1975 e que começou com cada um pagando o que podia para o aluguel. Todos faziam tudo, e “todos abraçavam as suas diferenças”. Depois, no final, em 1985, tinham restado três famílias e o “amor havia acabado”. Isso também teria acontecido com a sociedade que, segundo o diretor, “foi de Anker para Schlüter e de Carter a Reagan”.

E o diretor segue (vou citar o trecho inteiro porque achei muito interessante): “Hoje estamos mais individualistas do que nunca. E também está mais difícil dizer eu te amo. O amor é algo que está acontecendo por telefone e online. As pessoas estão se transportando o tempo todo, e eu vejo muitas pessoas que estão pensando sobre o trabalho quando estão com a família, e eles estão no trabalho no mundo inteiro sem tempo para perder com suas famílias. Acho que as pessoas não estão tão presentes hoje. E isso vale para mim. As pessoas vivem mais em trânsito. Estamos constantemente na estrada para novos lugares e, portanto, nunca realmente presentes. E isso dá condições precárias tanto para o amor quanto para o sexo. Acho que as pessoas terão muito menos sexo do que eles fizeram nos anos 1970, assim como eles festejaram, dançaram e beberam mais naquela época”.

Ainda segundo o diretor, “As comunidades físicas são substituídas pelo Facebook, onde vamos construir pequenas versões ideais de nós mesmos”. E ele segue argumentando na entrevista que vale ser conferida. Vinterberg também defende que poderíamos aprender algo com os anos 1970. Não há dúvidas. Vinterberg defende a ideia de que deveríamos viver cada dia como se fosse o último porque, afinal, “tudo é perecível, mesmo amizades, parcerias e casamentos. O coletivo em que eu cresci, de fato, também foi”.

O diretor também defende na entrevista que o “público deve pensar por si mesmo”, que ele, como diretor, deve dar espaço para as pessoas interpretarem a sua própria história. Vinterberg afirma que se perdemos a coesão presente nos anos 1980, ganhamos em “liberdade e individualismo”. “Eu acho que é claro que o amor ainda existe, ele é imortal, mas ele tem condições mais apertadas (de existir). E o risco de continuamente estar ocupado faz com que você se esqueça de viver a vida”. Belas ponderações, devo admitir. Pena que elas não ficaram tãoooo evidentes no filme. Quem sabe em um próximo filme o diretor consiga deixar as suas ideias mais claras?

CONCLUSÃO: Até um certo ponto de Kollektivet eu tinha gostado da proposta do filme. Afinal, é sempre interessante ver a uma pessoa, um casal e um grupo que resolvem quebrar “as regras” e a normalidade e buscar formas diferentes de convivência pacífica e harmoniosa. Mas aquela coletividade acaba perdendo terreno para uma questão muito particular e individual e que acaba caindo no lugar-comum de uma disputa particular entre homem e mulher. Claro que há outras nuances nesta história e personagens complementares, mas no fim das contas Kollektivet acaba girando muito sobre a falência do casamento. Quando isso acontece, o filme perde boa parte da sua graça. Uma pena. Poderia ser melhor e mais ousado. Ainda assim, vale por algumas reflexões que sucinta.