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This Must Be The Place – Aqui é o Meu Lugar

Os passos de um rockeiro que não grava e não faz shows há 20 anos, mas que mantém a mesma “fantasia”. Ele virou um personagem e não sabe ser outra coisa. Até que… um momento importante da vida real acontece, e ele acaba fazendo uma viagem que, no final das contas, reconta a velha passagem da juventude para a vida adulta. Há tempos eu não via a um filme criativo como este This Must Be The Place. Assista, especialmente se você curte ou já curtiu a bandas de rock.

A HISTÓRIA: Um cão corre pelo jardim de uma bela mansão. Unhas do pé são pintadas de preto. Um brinco aparece antes dos lábios serem pintados de vermelho e do laquê ser colocado no cabelo negro. Os olhos azuis são cercados por lápis e sombra escuras. Com vários anéis nos dedos e jóias no peito, Cheyenne (Sean Penn) abotoa a camisa negra para preparar-se para sair para a rua mais uma vez. Ele desce lentamente as escadas e assiste a bobagens na TV antes de pegar o seu tradicional carrinho de compras e sair andando pela cidade. Acompanhamos a vida deste ídolo do rock aposentado que investe na bolsa de valores, parece entediado e decide viajar para encontrar o pai no leito de morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a This Must Be The Place): Logo no início deste filme percebemos que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino tem uma preocupação importante com o estilo. A escolha dele por deslizar a câmera após focar um belo estádio envidraçado, passando pela fachada de um prédio suburbano e da janela da mãe de Mary (a veterana, expressiva e enigmática Olwen Fouere) até a rua e a visivelmente descontente Mary (Eve Hewson) com o seu skate, já mostra que tipo de filme iremos assistir.

This Must Be The Place respeita os personagens que fazem parte de sua história. Esse respeito é visto pela levada do diretor, que escolhe uma filmagem ao mesmo dinâmica e que faz a câmera deslizar por locais e personagens e que, também, mantem a atenção nos personagens principais e seus trejeitos. Especialmente o protagonista, que é a alma deste filme.

O que mais me surpreendeu nesta produção, além da direção cuidadosa e atenciosa de Sorrentino, foi o quanto o filme foi revelando-se maior do que o que originalmente o espectador pode esperar. Por grande parte desta história, você pensa que ela é apenas uma forma interessante de explorar a vida de uma figura conhecida do rock aposentada há bastante tempo. E que, mesmo assim, é respeitada por alguns “seguidores”, como Mary, que sentem-se identificados com ele. Para outros, esses personagens são apenas pessoas excêntricas e que devem ser encaradas desta forma.

Por grande parte do filme você acha que a história é essa, um conto interessante sobre ídolos do rock que sobreviveram às loucuras de sua geração e que seguem encarnando o seu papel fora dos palcos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas eis que This Must Be The Place insere, na história, a morte do pai do personagem principal. E eles tinha aquela relação clássica distante e sem afeto. Mesmo assim, Cheyenne se sente compelido a realizar um dos últimos desejos do pai, que era encontrar um soldado nazista. E aí, nesta busca, o personagem conhece um pouco mais do pai e, consequentemente, de si mesmo. De quebra, vive uma passagem simbólica (e psicologicamente realista) da “infância” e/ou “juventude” para a vida adulta. Ele cresce. E aparece, no final, com esta nova postura, abandonando aquele personagem que não existe mais.

Fantástico, não é? Eu achei. Muito bem sacada a história. O visual interessa e, claro, a trilha sonora. Essa última, assinada por David Byrne, que faz uma participação especial no filme, e por Will Oldham. Muito boa, também, a direção de fotografia de Luca Bigazzi.

Imagino que muitas pessoas vão ficar irritadas com os trejeitos de Sean Penn. Mas é evidente que o personagem de Cheyenne é livremente inspirado em figuras lendárias do rock. Talvez a referência mais evidente seja Robert James Smith, o vocalista da banda The Cure. E há algo de Ozzy Osbourne no personagem de Cheyenne também. Mesmo que Penn chegue a irritar um pouco, achei impressionante a forma com que ele encarnou o personagem. E esse é o trabalho do ator, não é? E sim, um adulto que continua agindo como se fosse um personagem sempre é irritante. Não há maneira de evitar isso. Por isso tudo, gostei muito da atuação de Penn.

Além de tratar sobre como alguns ídolos ficam deslocados da realidade por causa da aura de “deuses” que o mainstream lhes impõe, This Must Be The Place trata de assuntos correlatos interessantes, como a importância da família e de casas estruturadas para qualquer tipo de pessoa – seja para uma figura como Cheyenne, seja para alguém como Mary ou mesmo Rachel (Kerry Condon), que vislumbra com o ídolo de rock uma possibilidade de relação cuidadosa que ela desconhecia até então.

E também de como qualquer incursão mais cuidadosa no passado dos nossos antepassados e como uma nova visita nos sentimentos que nutrimos em relação a eles desde a infância podem mudar as nossas vidas e a forma com que encaramos a realidade. Porque somos produto de tudo isso. De relações que começaram muito antes do nosso nascimento, e que vão perdurar mesmo depois da nossa morte. Por incrível que pareça, este filme trata de todos estes temas. De forma interessante, suave e sem grande pretensão. Um belo trabalho de Sorrentino e equipe.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor italiano Paolo Sorrentino pensou na história deste filme e pediu a ajuda de Umberto Contarello, também italiano, para escrever as linhas do roteiro. Antes de pensar e dirigir This Must Be The Place, Sorrentino tinha recebido alguma projeção internacional com Il Divo: la spettacolare vita di Giulio Andreotti, filme que recebeu o prêmio do júri do Festival de Cannes em 2008.

This Must Be The Place teve a sua premiere mundial no Festival de Cannes do ano passado. Depois do filme ganhar o prêmio do júri ecumênico do festival, ele passou por outros 10 festivais, incluindo os do Rio de Janeiro, Estocolmo e Sundance.

Nesta trajetória de festivais, This Must Be The Place recebeu 11 prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que recebeu, destaque para seis que foram entregues no Davi di Donatello, um dos mais conhecidos da Itália. Nesta competição, ele venceu como melhor roteiro, fotografia, maquiagem, design de cabelo, música e canção para If it Falls, it Falls, composta por David Byrne e Will Oldham.

Uma curiosidade sobre esta produção: o nome do filme era o título original da produção Away We Go, dirigida por Sam Mendes.

This Must Be The Place teria custado cerca de 25 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, pouco mais de 6 milhões de euros, assim como pouco menos de US$ 10,8 milhões no restante do mundo. Um resultado fraco, mas que pode melhorar com a chegada do filme em outros mercados. Só duvido muito que o filme consiga tornar-se um sucesso de bilheteria. Por outro lado, ele tem uma grande vocação para tornar-se cult.

Além dos atores já citados, vale destacar o ótimo trabalho da veterana Frances McDormand como Jane, a mulher do ídolo Cheyenne e uma divertida bombeira. O ator Judd Hirsch também tem uma participação interessante no filme como Mordecai Midler, o “caçador de nazistas” que acaba cruzando o caminho do protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para This Must Be The Place. Uma bela avaliação, levado em conta a dificuldade de um filme novo – que não seja um clássico – conseguir uma nota perto ou acima de 7 no site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 27 críticas positivas e 12 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 69% – e uma nota média de 6,1.

This Must Be The Place foi coproduzido pela Itália, França e Irlanda.

CONCLUSÃO: Que grande filme este aqui! Criativo e inspirado do início até o final. Por grande parte de This Must Be The Place você acredita que apenas verá como um antigo ídolo lida com o seu próprio personagem. O protagonista parece incapaz de largar a máscara. Vive ainda na sombra dos tempos áureos. Até que ele tem que encarar o sentimento relacionado com o pai, e a “herança” que ele lhe deixa. No caminho para “realizar” o último desejo de seu velho, ele aprende algumas coisinhas e, no final, como manda o figurino, se torna um adulto. A forma com que o diretor Paolo Sorrentino conta esta história é brilhante. Não apenas o roteiro é gostoso e surpreende de forma sutil, mas a escolha dos ângulos de câmera e a suavidade com que as imagens vão deslizando revelam a preocupação de Sorrentino em surpreender nos detalhes. E ele consegue isso. Grande filme. E surpreendentemente divertido e profundo ao mesmo tempo.