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This Must Be The Place – Aqui é o Meu Lugar

Os passos de um rockeiro que não grava e não faz shows há 20 anos, mas que mantém a mesma “fantasia”. Ele virou um personagem e não sabe ser outra coisa. Até que… um momento importante da vida real acontece, e ele acaba fazendo uma viagem que, no final das contas, reconta a velha passagem da juventude para a vida adulta. Há tempos eu não via a um filme criativo como este This Must Be The Place. Assista, especialmente se você curte ou já curtiu a bandas de rock.

A HISTÓRIA: Um cão corre pelo jardim de uma bela mansão. Unhas do pé são pintadas de preto. Um brinco aparece antes dos lábios serem pintados de vermelho e do laquê ser colocado no cabelo negro. Os olhos azuis são cercados por lápis e sombra escuras. Com vários anéis nos dedos e jóias no peito, Cheyenne (Sean Penn) abotoa a camisa negra para preparar-se para sair para a rua mais uma vez. Ele desce lentamente as escadas e assiste a bobagens na TV antes de pegar o seu tradicional carrinho de compras e sair andando pela cidade. Acompanhamos a vida deste ídolo do rock aposentado que investe na bolsa de valores, parece entediado e decide viajar para encontrar o pai no leito de morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a This Must Be The Place): Logo no início deste filme percebemos que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino tem uma preocupação importante com o estilo. A escolha dele por deslizar a câmera após focar um belo estádio envidraçado, passando pela fachada de um prédio suburbano e da janela da mãe de Mary (a veterana, expressiva e enigmática Olwen Fouere) até a rua e a visivelmente descontente Mary (Eve Hewson) com o seu skate, já mostra que tipo de filme iremos assistir.

This Must Be The Place respeita os personagens que fazem parte de sua história. Esse respeito é visto pela levada do diretor, que escolhe uma filmagem ao mesmo dinâmica e que faz a câmera deslizar por locais e personagens e que, também, mantem a atenção nos personagens principais e seus trejeitos. Especialmente o protagonista, que é a alma deste filme.

O que mais me surpreendeu nesta produção, além da direção cuidadosa e atenciosa de Sorrentino, foi o quanto o filme foi revelando-se maior do que o que originalmente o espectador pode esperar. Por grande parte desta história, você pensa que ela é apenas uma forma interessante de explorar a vida de uma figura conhecida do rock aposentada há bastante tempo. E que, mesmo assim, é respeitada por alguns “seguidores”, como Mary, que sentem-se identificados com ele. Para outros, esses personagens são apenas pessoas excêntricas e que devem ser encaradas desta forma.

Por grande parte do filme você acha que a história é essa, um conto interessante sobre ídolos do rock que sobreviveram às loucuras de sua geração e que seguem encarnando o seu papel fora dos palcos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas eis que This Must Be The Place insere, na história, a morte do pai do personagem principal. E eles tinha aquela relação clássica distante e sem afeto. Mesmo assim, Cheyenne se sente compelido a realizar um dos últimos desejos do pai, que era encontrar um soldado nazista. E aí, nesta busca, o personagem conhece um pouco mais do pai e, consequentemente, de si mesmo. De quebra, vive uma passagem simbólica (e psicologicamente realista) da “infância” e/ou “juventude” para a vida adulta. Ele cresce. E aparece, no final, com esta nova postura, abandonando aquele personagem que não existe mais.

Fantástico, não é? Eu achei. Muito bem sacada a história. O visual interessa e, claro, a trilha sonora. Essa última, assinada por David Byrne, que faz uma participação especial no filme, e por Will Oldham. Muito boa, também, a direção de fotografia de Luca Bigazzi.

Imagino que muitas pessoas vão ficar irritadas com os trejeitos de Sean Penn. Mas é evidente que o personagem de Cheyenne é livremente inspirado em figuras lendárias do rock. Talvez a referência mais evidente seja Robert James Smith, o vocalista da banda The Cure. E há algo de Ozzy Osbourne no personagem de Cheyenne também. Mesmo que Penn chegue a irritar um pouco, achei impressionante a forma com que ele encarnou o personagem. E esse é o trabalho do ator, não é? E sim, um adulto que continua agindo como se fosse um personagem sempre é irritante. Não há maneira de evitar isso. Por isso tudo, gostei muito da atuação de Penn.

Além de tratar sobre como alguns ídolos ficam deslocados da realidade por causa da aura de “deuses” que o mainstream lhes impõe, This Must Be The Place trata de assuntos correlatos interessantes, como a importância da família e de casas estruturadas para qualquer tipo de pessoa – seja para uma figura como Cheyenne, seja para alguém como Mary ou mesmo Rachel (Kerry Condon), que vislumbra com o ídolo de rock uma possibilidade de relação cuidadosa que ela desconhecia até então.

E também de como qualquer incursão mais cuidadosa no passado dos nossos antepassados e como uma nova visita nos sentimentos que nutrimos em relação a eles desde a infância podem mudar as nossas vidas e a forma com que encaramos a realidade. Porque somos produto de tudo isso. De relações que começaram muito antes do nosso nascimento, e que vão perdurar mesmo depois da nossa morte. Por incrível que pareça, este filme trata de todos estes temas. De forma interessante, suave e sem grande pretensão. Um belo trabalho de Sorrentino e equipe.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor italiano Paolo Sorrentino pensou na história deste filme e pediu a ajuda de Umberto Contarello, também italiano, para escrever as linhas do roteiro. Antes de pensar e dirigir This Must Be The Place, Sorrentino tinha recebido alguma projeção internacional com Il Divo: la spettacolare vita di Giulio Andreotti, filme que recebeu o prêmio do júri do Festival de Cannes em 2008.

This Must Be The Place teve a sua premiere mundial no Festival de Cannes do ano passado. Depois do filme ganhar o prêmio do júri ecumênico do festival, ele passou por outros 10 festivais, incluindo os do Rio de Janeiro, Estocolmo e Sundance.

Nesta trajetória de festivais, This Must Be The Place recebeu 11 prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que recebeu, destaque para seis que foram entregues no Davi di Donatello, um dos mais conhecidos da Itália. Nesta competição, ele venceu como melhor roteiro, fotografia, maquiagem, design de cabelo, música e canção para If it Falls, it Falls, composta por David Byrne e Will Oldham.

Uma curiosidade sobre esta produção: o nome do filme era o título original da produção Away We Go, dirigida por Sam Mendes.

This Must Be The Place teria custado cerca de 25 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, pouco mais de 6 milhões de euros, assim como pouco menos de US$ 10,8 milhões no restante do mundo. Um resultado fraco, mas que pode melhorar com a chegada do filme em outros mercados. Só duvido muito que o filme consiga tornar-se um sucesso de bilheteria. Por outro lado, ele tem uma grande vocação para tornar-se cult.

Além dos atores já citados, vale destacar o ótimo trabalho da veterana Frances McDormand como Jane, a mulher do ídolo Cheyenne e uma divertida bombeira. O ator Judd Hirsch também tem uma participação interessante no filme como Mordecai Midler, o “caçador de nazistas” que acaba cruzando o caminho do protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para This Must Be The Place. Uma bela avaliação, levado em conta a dificuldade de um filme novo – que não seja um clássico – conseguir uma nota perto ou acima de 7 no site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 27 críticas positivas e 12 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 69% – e uma nota média de 6,1.

This Must Be The Place foi coproduzido pela Itália, França e Irlanda.

CONCLUSÃO: Que grande filme este aqui! Criativo e inspirado do início até o final. Por grande parte de This Must Be The Place você acredita que apenas verá como um antigo ídolo lida com o seu próprio personagem. O protagonista parece incapaz de largar a máscara. Vive ainda na sombra dos tempos áureos. Até que ele tem que encarar o sentimento relacionado com o pai, e a “herança” que ele lhe deixa. No caminho para “realizar” o último desejo de seu velho, ele aprende algumas coisinhas e, no final, como manda o figurino, se torna um adulto. A forma com que o diretor Paolo Sorrentino conta esta história é brilhante. Não apenas o roteiro é gostoso e surpreende de forma sutil, mas a escolha dos ângulos de câmera e a suavidade com que as imagens vão deslizando revelam a preocupação de Sorrentino em surpreender nos detalhes. E ele consegue isso. Grande filme. E surpreendentemente divertido e profundo ao mesmo tempo.

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The Tree of Life – A Árvore da Vida

Alguns filmes exigem do espectador uma dose extra de paciência. Pedem boa vontade. Tudo bem quando o resultado final para isso é um projeto inovador, comovente ou que, pelo menos, convença. The Tree of Life exige uma dose super extra de paciência. O problema é que ele não nos leva muito além. Seu principal mérito é a direção de fotografia. Imagens belíssimas. Mas fora toda aquela beleza, descontada a forma, sobra pouco. Quase nada. Em outras palavras, o filme exige muito do espectador, e entrega pouco como prêmio.

A HISTÓRIA: Começa com uma citação da Bíblia: “Onde estavas tu, quando Eu lançava os fundamentos da terra?… Quando as estrelas cantavam juntas pela manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?”. Em seguida, o breu dá lugar a uma luz alaranjada. Alguém pergunta pelo irmão, chama pela mãe, e diz que foram eles que o guiaram até uma determinada porta. Corta. Aparece uma menina na janela. Uma voz feminina diz que o coração de um homem tem duas formas de encarar a vida. A forma da Natureza, e a forma da Graça. A mesma voz diz que nós devemos escolher a qual delas seguir. A partir daí, o filme mergulha em um redemoinho de reflexões sobre estes dois caminhos, o que eles significam e que retorno eles nos trazem. Trata de família, de perdas e de escolhas e, todo o momento, sobre a Criação e o entendimento do homem sobre Deus.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Tree of Life): Tenho certeza que muitos de vocês vão discordar de mim. Paciência. Opiniões existem para isso mesmo, para alguns concordarem, para muitos discordarem. Mas The Tree of Life foi, para mim, uma das grandes decepções dos últimos tempos. Ele entrou naquela minha lista de “muito barulho por nada”. Achei pretensioso, maçante, enrolado.

O visual é maravilhoso. Não há espaço para discutir isso. A direção de fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki é o que o filme tem de melhor. O diretor Terrence Malick também acerta em muitas escolhas, em ângulos de câmera diferenciados e em várias sequências de puro lirismo. Ok, tudo isso é verdadeiro e torna este filme diferenciado. O problema dele é que Malick não se contém e exagera na dose. Parece que ele primeiro fez algumas cenas focando a Natureza espetaculares e, depois, construiu um filme para tentar justificar aquelas imagens.

Porque a história, o roteiro, é sofrível demais. The Tree of Life começa tão, mas tão bem! Adorei aquela reflexão inicial da mãe, Sra. O’Brien (a fantástica Jessica Chastain). Ela resume o filme e sua “filosofia”. As cenas iniciais também são primorosas. Depois, entra em cena o personagem vivido por Sean Penn, Jack, já adulto. Ele olha para aquele mundo cheio de aço e vidro, arranha-céus e dinheiro, e não se reconhece. Parece estar preso em um lugar que ele odeia. Que valia à pena por um tempo, mas que esse tempo já passou.

Esse começo não é fenomenal? Certamente. Uma discussão filosófica profunda – entre formas conflitantes e primárias de enxergar o mundo e a vida – que valia para quando Jack era criança, no Texas dos anos 1950, e que continua valendo agora, nos tempos “pós-modernos”. O problema é que esta boa premissa inicial se perde completamente no caminho. Passados aqueles 20 minutos iniciais, quando são lançadas aquelas ideias iniciais, mais uma boa introdução para a dor, a perda e o quase óbvio questionamento de Deus, o filme mergulha em um transe difícil de engolir.

Primeiro, me desculpe quem adorou aquela parte, mas eu achei irritante tantas cenas sobre o cosmos, o universo e diferentes ângulos da Natureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Meu queixo caiu quando The Tree of Life retornou para a origem da vida e avançou até o surgimento dos dinossauros. Não, demorei pra acreditar. Achei que estava alucinando quando vi o primeiro dinossauro na praia. Sério? Pra quê, meus amigos? Para mostrar como as dores e questionamentos humanos são pequenos, irrelevantes? Tá, disso tudo nós já sabemos. Que por maior e mais magnifíco que seja um cenário, ele um dia teve um início e, um dia, terá um fim? Tá, tá… nesta hora, devo confessar, eu entendi porque alguns cinemas “VIP” servem champanhe para os espectadores. Eu gostaria tanto de ter assistido a esse filme, especialmente a partir do minuto 20, bebendo várias taças de champanhe… teria sido menos difícil de engolí-lo.

Depois de cerca de 15 minutos desta sequência que eu achei uma verdadeira “viagem”, e sem isso ser positivo, mergulhamos novamente na rotina da infância de Jack. Na verdade, acompanhamos a vida do casal O’Brien (Brad Pitt e a já citada Jessica Chastain) desde antes, quando ela fica grávida de Jack e, depois, dos outros filhos. A partir daí, é aquela velha história das relações humanas. O primogênito que tem que lidar com o ciúme da “concorrência” do outro irmão, até que ele cresce um pouco mais e vive a clássica hostilidade/rivalidade com o pai, vendo na mãe o carinho e o afago que não encontra em outra parte. Freud já tratou muito disto, não falarei mais que o óbvio.

Lá pelas tantas, Jack começa a revoltar-se contra o pai. Até chegar naquele momento em que percebe que tudo o que ele deseja é o reconhecimento do progenitor. Enquanto isso, ele admira a mãe, mas a vê muito frágil. Indeciso sobre que caminho daqueles dois seguir, o garoto fica dividido. No futuro, essa mesma divisão vai tomar corpo novamente. É a velha ciranda da vida, com momentos de formação da personalidade, outros de confrontar as origens, depois consolidar-se na sociedade e, lá pelas tantas, questionar tudo isso novamente. Histórias cíclicas. The Tree of Life trata disso, mas de uma maneira muito arrastada e sem linhas de roteiro interessantes. As imagens sim, fazem a diferença, mas não é o suficiente para tornar o filme atrativo ou mesmo fora da curva.

Ah sim, há outros temas imersos nesta história. Todos clássicos, também – não há inovação por aqui, pelo menos não no conteúdo, apenas na forma. Por exemplo: o pai frustrado, que não conseguiu ser o músico brilhante que gostaria e que imaginava ter potencial para tornar-se, e que pega pesado com os filhos. Ele é cruel, duro, exigente. Deixa os garotos com medo. Em alguns momentos, achei que o filme sugeriu que o abuso dele pudesse ter ido além… mas nada comprovou isso, então acho que não aconteceu. De qualquer forma, o pai durão provoca dor, medo, repúdio e fascínio nos filhos. A mulher, que acredita em outra forma de atuar, que tenta ressaltar sempre a importância do amor e da amizade para os filhos, não levanta a voz ou combate o marido. Submissa, outro clássico.

E nestas bases o filme se desenvolve. A história de Jack, o narrador deste filme, mostra como um garoto vai perdendo a sua inocência. Mostra aquele momento em que ele vê os pais sem filtros. Que os julga, tira conclusões e resiste ao que vê. No futuro, ele revê aquele momento com outros olhos, e pede desculpas para o pai. Percebe que acertou em algumas ações, mas que foi infantil em outras. O que acontece com todos nós, em um ou outro momento da vida. E este é o filme. Nada novo, apenas um olhar “poético” sobre estas obviedades.

Bem, The Tree of Life também trata daquela velha discussão sobre a importância ou desimportância do ser humano para Deus. Discussão perdida, devo dizer. Porque ou as pessoas acreditam em Deus, e tem a resposta para isto, ou não acreditam e jamais vão entender a outra versão. Quer dizer, jamais talvez seja um pouco pesado. Mas dificilmente entenderiam.

Achei cansativo e desnecessário todo aquele questionamento de Deus que o filme suscinta. De qualquer forma, há um momento em que este tema chega a um argumento razoável: quando o padre comenta que as pessoas boas também sofrem perdas, e que elas não devem lembrar de Deus apenas nestes momentos, mas quando recebem algo bom também. Ainda que o filme fale muito de Deus, meus amigos, não tratarei deste tema por aqui. Especialmente por causa de outras produções que levantaram discussões similares. E este não é um espaço para isto. Aqui tratamos de cinema. E este filme, como obra cinematográfica, achei longo demais, chato, arrastado e pretensioso. Outros filmes trataram de temas similares e de forma muito mais interessante.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande parte desta produção é narrada pelo jovem Jack. Por isso, Sean Penn aparece pouco. No lugar dele, vivendo o seu personagem quando criança/pré-adolescente, está o ator Hunter McCracken. Ele faz um bom trabalho, mas algumas vezes ele parece ser incapaz de mudar a fisionomia. O que irrita um pouco.

Brad Pitt, que também é produtor de The Tree of Life, faz um pai durão. Ele fala com a boca sempre meio fechada, caminha com segurança, mesmo quando é derrotado. Está bem, mas nada fora do comum. Jessica Chastain sim, dá um show. Parte frágil da história, ela se rende tão bem aos momentos de tristeza quanto aos de alegria e suavidade. Está linda, solta, entregue à personagem. Junto com a direção de fotografia, é um ponto forte da produção.

Ao lado de Jack, brilham na produção como os irmãos do personagem os atores mirins Laramie Eppler como R.L. e Tye Sheridan como Steve.

Na parte técnica, além da direção de fotografia primorosa, vale a pena citar a trilha sonora de Alexandre Desplat e a edição feita por cinco profissionais: Hank Corwin, Jay Rabinowitz, Daniel Rezende, Billy Weber e Mark Yoshikawa.

The Tree of Life estreou em maio de 2011 no Festival de Cannes. Depois, ele participou de outros oito festivais, incluindo o Karlovy Vary e o Donostia, de San Sebastián. Em sua trajetória, o filme conquistou 58 prêmios e foi indicado a outros 40. O principal deles foi a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado. A vitória era considerada anunciada, porque o festival teria esperado dois ou três anos para que o filme ficasse pronto, segundo esta matéria. Ainda assim, metade do público vaiou o resultado.

Esta produção, com direção e roteiro de Terrence Malick, teria custado aproximadamente US$ 32 milhões. E foi mal nas bilheterias – o que não me surpreende. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de outubro do ano passado, quando ele saiu de cartaz, The Tree of Life tinha arrecadado pouco mais de US$ 13,3 milhões nas bilheterias. Mas no resto do mundo ele foi bem melhor: arrecadou pouco mais de US$ 54,3 milhões até o dia 27 de outubro. Somados, os resultados mostram que ele faturou pouco mais que o dobro do custo original. Não está mal, mas também está longe de ser um sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 201 críticas positivas e apenas 37 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 8,1. Bastante boas, pois. Eu teria me somado ao grupo minoritário. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme com alta carga simbólica e que tenta mergulhar fundo em questões filosóficas e religiosas. The Tree of Life está carregado de pretensões. Chega a fazer um retrocesso na história de todos os tempos, mas fica a maior parte do tempo centrado nas relações de uma família. As linhas iniciais, que tratam sobre a simplificação do caminho que o Homem pode escolher, poderiam resumir toda a história. Podemos, segundo o filme, escolher entre o caminho da Natureza e o da Graça. Depois de alguns momentos de imersão nos devaneios do diretor, Terrence Malick, nos debruçamos nas relações de uma família, dividida entre estas duas visões de mundo. A história é contada por um dos filhos, que cansa. Se o protagonista cansa, e se Malick devaneia demais, a experiência de The Tree of Life é arrastada, difícil de aguentar. E não porque filmes cheios de simbologia e filosofia não sejam interessantes. Não. Mas no fima destas histórias, buscamos algo além do óbvio. Não é isso o que acontece aqui. A frase “só o amor é o que importa” resumiria tudo. E, para chegar a ela, não precisaríamos de tanta firula. Não gostei.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Tree of Life está concorrendo em três categorias do Oscar deste ano. Como Melhor Filme, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Diretor. Destas, sem dúvidas, ele merece a indicação e ganhar na categoria de Melhor Fotografia. Se o filme não é um verdadeiro desperdício, muito disto se deve à fotografia. E àqueles 20 minutos iniciais – se o filme tivesse terminado ali ou se o restante tivesse sido editado em 40 minutos, talvez o resultado tivesse sido muito melhor.

Não vejo nenhuma possibilidade de The Tree of Life ganhar como Melhor Filme. Para o meu gosto, ele está anos-luz distante de The Artist e, em segundo lugar, de Midnight in Paris. Mesmo The Descendants e Hugo mereciam ganhar a estatueta mais do que ele. E cá entre nós, se o Oscar não tivesse 10 candidatos, duvido muito que The Tree of Life chegasse a ser finalista entre os cinco que antes eram indicados.

O mesmo em relação a Melhor Diretor. Seria uma grande injustiça premiar Malick e deixar para trás Michel Hazanavicius (The Artist), Martin Scorsese (Hugo) ou Woody Allen (Midnight in Paris). Mesmo Alexander Payne (The Descendants) ganharia o meu voto antes de Malick.

Em melhor Direção de Fotografia The Tree of Life tem chances. Ainda que concorrem com ele, de igual para igual, The Artist e Hugo. Não assisti aos outros concorrentes, mas imagino que a fotografia do veterano Janusz Kaminski em War Horse seja de tirar o chapéu também. Ele pode ganhar nesta categoria, mas terá que, para isso, vencer a grandes concorrentes. Logo mais saberemos se ele será capaz.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu sabia! Nesta correria de muito trabalho e de concentração reforçada para o Oscar deste ano, esqueci de fazer uma menção fundamental: que The Tree of Life foi indicado aqui no blog há muito tempo pelo Lorenzo Lavati. Querido leitor, o Lorenzo pediu um comentário do filme no já distante dia 25 de setembro do ano passado. Eis aqui a crítica, Lorenzo. E aí, o que você achou do filme e do comentário acima? Abraços e obrigada por esta recomendação. Ah sim, e agora eu vi que o Mangabeira, fiel leitor do blog, também recomendou The Tree of Life, mas no início deste ano, no dia 2 de janeiro, para ser mais precisa. Mangabeira, como acabo de comentar na resposta para a tua recomendação, notei que você não gostou desta minha crítica… mas paciência. Inevitavelmente um dia isso acontecer. Afinal, impossível as pessoas concordarem sempre. Abraços e obrigada pela dica também.

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Milk – A Voz da Igualdade

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Como transformar a história de um homem que perdeu repetidas vezes na política até conseguir ganhar uma eleição em algo interessante? E não estou me referindo ao Lula, o presidente do nosso Brasil. Falo de Harvey Milk, o primeiro ativista gay dos Estados Unidos a vencer uma eleição defendendo a causa da igualdade de direitos para gays e lésbicas. Apenas um diretor como Gus Van Sant e um elenco formado pelos californianos Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsch, entre outros, para apresentar uma história que tinha tudo para ser “chata” (pela parte política) ou panfletária (pela parte da causa gay) em um filme de primeiríssima. Não é por acaso que Milk vem acumulando prêmios e é uma das produções mais cotadas para o próximo Oscar.

A HISTÓRIA: O filme conta a história de Harvey Milk (Sean Penn) do seu aniversário de 40 anos até a sua vitória nas eleições para conselheiro distrital por São Francisco, em 1977. Cronologicamente, o filme conta a história do executivo de Wall Street que abandonou tudo para viver uma vida abertamente gay em São Francisco desde que ele se muda de Nova York para a Califórnia até os acontecimentos logo posteriores ao seu aniversário de 48 anos. O filme mostra a vida de Milk desde a fase quase “hippie” até a de político “visualmente certinho”, contando no trajeto suas histórias amorosas, resumidas principalmente pelas relações com Scott Smith (James Franco) e Jack Lira (Diego Luna); e sua luta pelos direitos civis e, principalmente, da comunidade gay, com a ajuda de apoiadores e agentes fundamentais em suas campanhas como Cleve Jones (Emile Hirsch), Anne Kronenberg (Alison Pill), Dick Pabich (Joseph Cross), Jim Rivaldo (Brandon Boyce), Michael Wong (Kelvin Yu), o fotógrafo Danny Nicoletta (Lucas Grabeel), entre outros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Milk): Logo no início do filme o roteiro de Dustin Lance Black termina com qualquer suspense sobre o futuro de Harvey Milk para pessoas que, como eu, não sabiam da história deste ícone da luta pelos direitos dos gays nos Estados Unidos: sim, ele será assassinado. Como JFK. Bem, não exatamente da mesma forma, mas sim, com tiros também. Achei importante o filme logo no início deixar isso claro, porque daí termina o suspense sobre o que vai acontecer no final e, com isso, o espectador pode se concentrar em tudo o que vem no meio, ou seja, na história toda da transformação de Milk.

Gus Van Sant é um dos grandes responsáveis pelo filme ter a força e a qualidade que ele tem. Realmente este é um dos grandes trabalhos do diretor, que contou com naturalidade e bastante energia a história do político que ajudou a movimentar os Estados Unidos nos anos 70. Boa parte do filme mostra os bastidores do movimento social que começou a provocar a mudança no país sobre a aceitação plena da homossexualidade. Com a história de Harvey Milk é possível entender como o movimento gay conseguiu se unir, se fortalecer e ser ouvido. Como o próprio político afirma, o importante é fazer ruído, é chegar ao poder e  ser ouvido. A vida de Milk a partir do início dos anos 70 foi buscar isso, ainda que para conseguir seu objetivo ele teve que abdicar de sua vida pessoal.

Outro grande responsável pelo êxito do filme é o roteirista Dustin Lance Black. Tudo bem que não faltou material para ele pesquisar sobre Harvey Milk – incluindo o documentário The Times of Harvey Milk, de 1984, premiado com o Oscar -, mas, ainda assim, seu roteiro mede com colherinhas pequenas as doses precisas de cada elemento: comédia, drama, um pouco de suspense e militância política. Como eu disse no início deste texto, não é nada fácil transformar a história de um político em algo realmente interessante e revigorante.

Voltando novamente a Gus Van Sant. O diretor resgatou imagens da época e as colocou no filme de maneira precisa, dando ainda mais peso a história. Palmas também para o editor Elliot Graham – o mesmo de Quebrando a Banca (21). Aliás, tecnicamente falando, o filme é perfeito. Fiquei encantada, por exemplo, com o figurino assinado por Danny Glicker – para mim, ele deveria concorrer ao Oscar. Merecem igualmente crédito por nos ambientar tão perfeitamente aos anos 70 o trabalho do diretor de arte Charley Beal e pelo cenografia de Barbara Munch. Sem falar da trilha sonora do sempre competente Danny Elfman.

Agora, sem dúvida, o trabalho do elenco é responsável pela força do filme. Sean Penn está assombroso no papel-título. Seria fácil qualquer um deslizar em algum momento em algum exagero no tom do personagem – afinal, o ator não é gay e poderia, perfeitamente, estereotipar um. Mas não. Ele realmente incorpora Harvey Milk de maneira perfeita. Assim como James Franco, para mim o segundo melhor na lista dos intérpretes. Fiquei abismada com a maneira natural com que ele interpretou Scott Smith do início até o final do filme. Os dois, aliás, fazem um casal dos mais bonitos que eu já vi em cena, com muita sintonia e carisma – e para os homófobos de plantão, além de um tratamento psicológico urgente, eu sugiro distância deste filme, já que não faltam beijos entre os casais gays e nem cenas de “quase-sexo”. 

Outra pessoa que reafirmou o seu talento foi Josh Brolin. Para mim ele está no mesmo patamar de James Franco. Os dois, ao lado de Sean Penn, dão um show de interpretações. Por outro lado, achei que Emile Hirsch ficou um pouco “abaixo” dos demais. Algumas vezes me pareceu que ele caiu no exagero. O mesmo posso falar de Diego Luna – em seu primeiro grande papel em Hollywood (depois do elogiado Mister Lonely). Certo que existem gays de diferentes “tipos” e que atuam de maneiras diversas – como “ursos”, “barbies”, etc. – mas, ainda assim, os dois não me convenceram tanto quanto os outros que aparecem em cena. Estão bem, apenas isto… não chegam a estar fantásticos.

Gostei também do ator Victor Garber como o prefeito George Moscone, que acaba apoiando Milk ao perceber a força que este supervisor por São Francisco tinha entre os eleitores. Falando na força dele, achei especialmente interessante a campanha e posterior lei defendida por Milk para que os proprietários dos cães da cidade fossem responsáveis pela “caca” dos seus animais. Um dos grandes momentos do filme, sem dúvida. Assim como a luta de Harvey e de Scott para conseguirem montar e manter a loja deles de fotografia. 

O emocionante do filme, contudo, não é apenas contar a história real destas pessoas de maneira esteticamente perfeita. O que emociona é ver os bastidores de uma causa popular, entender como o movimento gay conseguiu se unir e ser ouvido e, lembrando da mensagem final e do que isso tudo simboliza, perceber o quanto é importante lutar pela igualdade das pessoas. Ou como diz Harvey Milk no final (SPOILER: não leia se não quiser estragar a surpresa): o importante é seguir lutando para que as pessoas tenham esperança. Porque a vida só tem sentido se existe a tal esperança. E isso para todas as pessoas, não apenas para os gays – e ele cita demais extratos da sociedade que ainda são marginalizados. Admito que me emocionei com o final. E, realmente, o homem que vemos em cena era muito, mas muito bom no debate político e em seus discursos. 

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei uma nota alta para o filme porque, para mim, todos os elementos nele funcionam perfeitamente. Da direção inspirada de Gus Van Sant até as atuações do elenco, a reconstrução de época, a maneira com que a história é contada. Em nenhum momento a equipe deixa a “peteca cair”. Discursos políticos não se tornam repetitivos ou chatos. Os romances de Harvey Milk são interessantes. A luta política nos bastidores também. Será um filme cultuado entre os gays e, possivelmente, visto com certa ojeiriza pelos que “não gostam muito” do tema. Aliás, sugiro que os preconceituosos fiquem longe do filme – não irão gostar, realmente. 

O filme foi todo rodado em São Francisco – com uma direção de fotografia muito competente e precisa nos tons pastéis de Harris Savides, colaborador antigo de Gus Van Sant. Os dois trabalharam juntos em cinco produções – e Savides ainda foi o responsável pelas ótimas fotografias de American Gangster e Zodiac, entre outros.

Algo curioso do filme é como Harvey Milk conseguiu superar o preconceito ainda dominante na época e uniu, com sua atuação política, a grupos tão diferentes quanto a terceira idade e os sindicalistas. Ele lutava pelos gays, mas não apenas para eles. Milk buscou sempre agregar as pessoas, lutar pelas causas justas e ouvir, mais que a média dos políticos, o que as ruas lhe diziam. Não sei até que ponto a história contada por Black e Van Sant “santifica” o homem, mas se a sua história for realmente parecida com o que se vê na tela, ele foi um grande visionário.

Milk enfrentou “peixes grandes”, incluindo o senador pela Califórnia John Briggs (Denis O’Hare) e a “estrela da TV”, cantora e política de projeção nacional Anita Bryant. Incentivando nos bastidores o ativismo nas ruas e através de seu carisma, ele conseguiu derrubar na Califórnia a Proposição número 6, que defendia que os professores gays fossem demitidos das escolas públicas. 

Apenas me pareceu um pouco confuso o espaço que Milk e White desempenhavam no governo. Só lendo as notas de produção do filme é que entendi que Harvey Milk foi eleito conselheiro distrital pela zona número 5, que compreendia o bairro Castro e alguns outros próximos a ele; e que Dan White (Josh Brolin) foi eleito conselheiro pela zona 8 – ou seja, eles não teriam que “lutar” pelos mesmos eleitores, necessariamente.

Também descobri que Milk foi ganhando populariedade por leis como a que atendia a terceira idade – a da “caca dos cachorros” – e a que exigia um desenho mais prático para as máquinas de votação (um que pudesse ser compreensível para todos os cidadãos). Com a ajuda da defensora dos direitos da mulher e também conselheira distrital Carol Ruth Silver (Wendy Tremont King) ele consegue aprovar quase por unanimidade – exceto pelo voto negativo de White – uma lei que garantia os direitos dos gays em São Francisco. Justamente em uma época em que Anita Bryant fazia campanha pelos meios de comunicação pelo país contra os gays – e apelando para a “moral, os bons costumes e a tradição familiar”. Ou seja: Milk literalmente nadou contra a corrente e venceu. Não é por acaso que ele seja cultuado pelos gays norte-americanos.

Também não achei que ficou claro no filme a reação de Dan White, mas lendo as notas de produção entendi o que ocorreu. Vendo o sucesso de Milk em São Francisco, White resolveu pedir demissão de seu cargo de conselheiro distrital. Ok, até aí o filme explica bem. O que a produção não deixa claro depois – pelo menos para mim – é que ele decide voltar atrás e pedir o cargo para o prefeito de volta. Depois que teve o pedido recusado é que ele se revoltou e partiu para a ignorância. Um maníaco descontrolado, em resumo. 

Aliás, os bastidores da política, com negociações e lutas pelo poder são tratados de forma interessante no filme. Outro ponto à favor de Milk. 

Também ficou mais clara a alegação de inocência por parte de White quando ele foi julgado, em janeiro de 1979. Ele alegou descontrole mental provocado pelo isolamento, a “falta de intimidade” com sua esposa (interpretada por Hope Tuck) e por uma dieta que consistia em uma ingestão exagerada de doces – o que tornou a sua defesa conhecida como “defesa Twinkie“, um popular doce recheado bastante consumido no país.

Achei curioso também que o documentário The Times of Harvey Milk foi lançado justamente no ano em que Dan White conseguiu a liberdade condicional – e o filme ganhou o Oscar pouco menos de sete meses antes dele se suicidar

Em 1999 a revista Time, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, inclui Harvey Milk na sua lista dos “100 heróis e ícones” do século 20. Em 2008 foi aprovada a criação do Dia Harvey Milk, que poderá ser celebrado na data de nascimento do político, dia 22 de maio – isso se o governador Arnold Schwarzenegger aprovar a lei.

Achei curiosa a influência de Barcelona na história. Afinal, foi a imagem impressionante das passeatas gays na cidade espanhola que inspiraram Cleve Jones a “importar” a mesma coragem e trabalho pelas ruas para São Francisco. 

As notas de produção do filme contam que o roteirista se interessou pela história de Milk ao assistir ao documentário oscarizado que narrava a trajetória do político assassinado. Como gay, ele achou importante resgatar a história do “Martin Luther King” do grupo. Para isso, Dustin Lance Black foi atrás das pessoas que conviveram com Milk e que continuam vivas, começando a série de entrevistas com Cleve Jones. Uma das grandes contribuições para o projeto foi a de Michael Wong, que deixou para o roteirista uma cópia de um diário pessoal que tinha da época das campanhas políticas de Milk.

Black comenta que uma de suas principais metas era a de se centrar nas relações que foram importantes em sua trajetória política, relações pessoais que se cruzavam com as relações políticas, segundo o roteirista. Curioso que ele afirma que Harvey Milk se “meteu na política por amor”, ao afirmar que a vontade dele em fazer com que Scott Smith fosse aceito e de que eles tivessem uma relação aberta em uma época em que era ilegal manter relações homossexuais é o que lhe motivou a seguir a carreira política. 

Um dos produtores, Bruce Cohen – que ganhou o Oscar por American Beauty ao lado do produtor Dan Jinks – disse que o roteiro consegue a proeza de fazer o filme ser “íntimo e épico” ao mesmo tempo. Boa definição. 

Milk tem impressionado a crítica, em especial. O público também, mas em uma medida menor. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,3 para o filme, mas os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos: dedicaram 149 textos positivos para o filme e apenas 12 negativos.

Além da opinião de público e crítica, Milk tem acumulado prêmios e indicações. Sean Penn ganhou seis vezes como melhor ator por sua interpretação como Harvey Milk, e Josh Brolin ganhou duas vezes por seu papel como Dan White. Penn também foi indicado ao Globo de Ouro por sua interpretação. O Círculo de Críticos de Cinema de Nova York e a Southeastern Film Critics Association ainda consideraram Milk o melhor filme do ano – a segunda ainda premiou o roteiro de Dustin Lance Black. 

A produção teria custado US$ 15 milhões e faturado, em três semanas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,5 milhões. Pouco. Parece que ele não vai chegar ao grande público.

Outro ponto interessante da história é o de valorizar a idade com a qual Milk “despertou” para a vida. Até os 40 anos, como ele mesmo disse, ele não tinha feito nada… só a partir daí, e muito realmente impulsionado pelo amor, ele começou a fazer história. Ou seja: nunca é tarde para fazer a sua parte em mudar injustiças – e transformar a realidade, ainda que a local, para melhor.

CONCLUSÃO: Um filme bem escrito e, principalmente, bem dirigido sobre o “nascimento político” de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a vencer uma eleição nos Estados Unidos. Seguindo a sua natureza como diretor, Gus Van Sant se aprofunda em todos os aspectos da vida do político, mostrando com detalhes seus romances, os bastidores do movimento gay em São Francisco, na Califórnia, a quebra-de-braço dele nas entranhas do poder e muito mais. Um filme completo e bastante direto. Recomendado para todos que se interessam pela luta pela igualdade entre as pessoas e pela bandeira dos direitos civis – assim como para os interessados em saber como o movimento gay conseguiu tanta força e voz nos Estados Unidos.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Milk tem grandes possibilidades de ser indicado em várias categorias do Oscar. Muitos acreditam – e eu devo segui-los – que Sean Penn é um nome garantido entre os cinco indicados na categoria melhor ator. Também acho que o filme tem boas chances de ter alguma indicação na categoria de ator coadjuvante – possivelmente Josh Brolin, ainda que eu ache que James Franco merecia ser reconhecido também -, como roteiro original, figurino e diretor (eu gostaria de ver Gus Van Sant entre os finalistas). Mas eu acho, mesmo sem assistir aos outros concorrentes – ainda, porque logo poderei comentar praticamente todos por aqui -, que dificilmente Milk sairá como vencedor em muitas categorias. Ainda que o filme seja um manifesto de coragem e uma produção humanista, acho que ele não sairá vencedor como melhor filme, por exemplo. Talvez Sean Penn consiga levar a estatueta para casa – ainda que a disputa seja dura. Pessoalmente, não sei se ele merece ganhar mais do que Clint Eastwood, por exemplo. Ou que outro dos atores bem cotados para a disputa – como Frank Langella. Penn está melhor que Eastwood, é claro, mas fica difícil escolher entre os dois. 😉 Resumindo: acredito sim que Milk tem grandes chances de ser indicado em muitas categorias, mas acho difícil ele ganhar de outros fortes concorrentes neste ano.