Papillon

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A honra não tem a ver com seguir tradições ou regras. A honra tem a ver com fazer o que é certo, buscar a liberdade e a justiça e defender a vida do seu amigo mesmo quando esta defesa coloca a sua própria vida em risco. Papillon nos conta uma história incrível de busca incessante por liberdade e pelo lugar de uma pessoa no mundo. A história é tão incrível que nem parece que ela é baseada em fatos reais, mas Papillon realmente existiu. Um filme delicado, muito bonito e sensível, apesar de toda a dureza da história. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Começa nos contando que o que veremos é baseado em uma história real. Vemos a uma cela antiga. Do fundo da cela, caminha lentamente para a frente, Papillon (Charlie Hunnam). Ele passa a cabeça pelo buraco da porta e olha ao redor. Corta. O mesmo Papillon, mas agora bem vestido, escuta com atenção as engrenagens de um cofre. O ano é 1931, e o local, Paris. Depois de abrir o cofre, Papillon pega os diamantes e sai pelas ruas. Vai até um clube, onde encontra o chefe da quadrilha e a sua namorada, Nenette (Eve Hewson).

Ele entrega os diamantes que roubou para o chefe da quadrilha. No final da noite, do lado de fora do clube, ele presenteia a namorada com um colar e algumas pedras que pegou do roubo. Um capanga de Jean Castili (Christopher Fairbank) vê a cena. Papillon e Nenette saem dali para comemorar. Passam uma noite divertida mas, na manhã seguinte, a polícia prende Papillon sob a acusação de ter matado um desafeto do chefe. Ele é condenado à prisão perpétua e enviado para a Guinea Francesa junto com vários outros condenados. Passará por maus bocados, mas nunca desistirá de sonhar com a  liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Papillon): Assisti a esse filme há algumas semanas. Então me perdoem se eu não tenho ele tão “fresco” na memória como eu gostaria. Mas lembro do principal, disso podem ter certeza.

Fui ao cinema curiosa para ver a uma refilmagem de um clássico. Há ainda mais tempo, acredito que quando era criança ou adolescente, assisti ao Papillon original, com o grande Steve McQueen no papel principal. A história já era impressionante naquele momento. Na verdade, imagino que em qualquer época a história de Papillon e do que era feito com os presos nos anos 1930 na França impressionem.

Papillon trata de diversos pontos fundamentais sobre a busca da sociedade por regras e limites para os atos individuais e da busca incessante dos indivíduos por viver, ter liberdade e buscarem o seu lugar no mundo. Toda essa falta de compasso entre estas duas necessidades, da sociedade e do indivíduo, assistimos nessa nova versão da história que mexeu com a França e com outros países quando ela veio à tona.

Algo que chama a atenção em Papillon na versão 2017, desde o início, é a ótima fotografia da produção. O filme é lindo, com imagens incríveis e um cuidado com o visual que não pode ser negado. Além disso, logo após a introdução da cela, o mergulho na Paris de 1931 já serve como um belo cartão de visitas sobre o que veremos adiante em termos de reconstituição de época. Um trabalho primoroso também, tanto nos figurinos quanto nas locações.

Além do aspecto visual e da reconstrução de época, pontos que Papillon tem como destaque, vale comentar também o trabalho competente do elenco e falar da história, é claro. Gostei na forma com que o diretor Michael Noer tratou o roteiro de Aaron Guzikowski, que se baseou no roteiro do Papillon de 1973, escrito por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., e no livro Papillon e Banco, escritos por Henri Charrière.

Claro que o roteiro segue aquela linha clássica. Começa com uma cena do “presente” para depois retomar o “passado” para contar como Papillon chegou naquela cela. A partir do retorno para a Paris de 1931, a narrativa passa a ser linear. O principal destaque desta narrativa, a meu ver, é que o filme é bastante econômico em momentos que não são realmente relevantes para a história, como a encrenca que leva Papillon para a prisão, ao mesmo tempo em que explora com muita calma e até uma certa “lentidão” outros momentos importantes, como as fases de solitária do protagonista.

A intenção do roteiro de Guzikowki e da direção de Noer é clara. Eles querem que o espectador sinta ao menos um pouquinho a angústia, o peso do tempo e da solidão que o protagonista sentiu naquelas situações de isolamento. As regras da prisão para a qual Papillon e vários outros foram mandadas eram bastante diretas e duras. Ali, uma vida valia pouco.

Como o diretor da prisão comentou, para eles um preso morto dava menos despesa e trabalho do que um preso vivo. Nesse cenário, temos a um ladrão injustamente condenado por homicídio. Sim, Papillon não era santo, mas será que ele ou qualquer outro indivíduo mereciam aquele tipo de tratamento? Frente àquela situação, o mais incrível de Papillon é que ele nunca desistiu.

Mesmo passando fome, sendo agredido, tendo que estar constantemente atento para defender a própria vida e sendo isolado para ser “quebrado” pela solidão, pela falta de comida, atividade física e contato com outras pessoas, ele nunca desistiu de enfrentar todas as perspectivas e fugir. Qual era o seu maior objetivo? Buscar a liberdade e um lugar que ele pudesse se sentir em casa.

Acho esse tipo de “sonho” e de propósito de uma potência incrível. Uma pessoa que é movida por isso, se sabe lidar com a solidão – e Papillon sabia -, não será “quebrada” ou vencida nunca. Essa é a mensagem mais incrível do filme, a meu ver. Além disso, Papillon inicialmente se aproxima do endinheirado Louis Dega (Rami Malek) por interesse, é verdade, mas depois ele vê Dega como um amigo e, aí sim, Papillon revela toda a sua grandeza.

Naquele cenário agreste de busca por sobrevivência, Papillon poderia ter sido egoísta e ter ignorado Dega em mais de uma ocasião. Teria sido mais fácil para ele. Mas não. Papillon se aproximou de Dega e o considerou o seu amigo. E aí está outra leitura fantástica desta história. A força da amizade e da honra ao defender esse princípio, assim como o da liberdade. Teria sido mais fácil para Papillon “abandonar” Dega à própria sorte em mais de uma ocasião, mas ele não fez isso.

Então esse filme, a meu ver, tem um resgate importante de valores fundamentais, apresenta um belo trabalho dos atores principais e ainda tem uma narrativa que respeita os tempos e que valoriza outros aspectos da produção, como a reconstituição de época e os locais em que os personagens passaram. Gosto da narrativa lenta da produção em alguns momentos. Acho que ela ajuda o público a entender um pouco melhor a experiência de Papillon em seus momentos de isolamento.

Para resumir, achei Papillon envolvente e bem construído. Tem muito mais qualidades do que defeitos. Talvez tenha faltado para a produção um pouco mais de contextualização sobre o que aconteceu com outros personagens importantes da história. Mas esse é apenas um detalhe.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que este pode ser o ano do ator Rami Malek. Descobri ele por causa da série Mr. Robot. Já achava o seu trabalho muito bom. Mas, neste ano, ele não apenas fez esse trabalho interessante em Papillon, como, logo mais, vamos vê-lo como protagonista em Bohemian Rhapsody. Admito que estou bem curiosa para conferir como ele se saiu como Freddie Mercury – apenas pelo trailer, estou até desconfiando que ele pode receber uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. Veremos logo mas. Mas, sem dúvida, este é um ator em ascensão.

Além de Malek, que faz um belo trabalho como Louis Dega, vale destacar o ótimo trabalho de Charlie Hunnam como Papillon. Não seria fácil, para qualquer ator, fazer o mesmo papel que, antes, foi realizado por Steve McQueen. Mas Hunnam não parece ter se intimidado com o desafio e abraçou Papillon como se este fosse o papel da sua vida. Gostei bastante da interpretação do ator. Não lembro de tê-lo visto em nenhum outro filme, mas reparei que ele também está em ascensão. Vale acompanhá-lo, pois.

Papillon tem, assim, dois atores em ascensão em papéis centrais. Isso é algo importante para um filme. Além de Malek e de Hunnam, Papillon apresenta outros bons atores em cena. Do elenco, vale destacar o trabalho de Roland Moller como Celier, um presidiário que é bom em navegação – mas que nunca foi com a cara de Dega; Michael Socha como Julot, companheiro de Papillon e de Dega e que é o primeiro a sofrer as consequências por tentar fugir e matar um guarda no intento; Christopher Fairbank em uma super ponta como o chefe da quadrilha de assaltantes Jean Castili; Joel Basman como Maturette, um preso que ajuda na fuga do grupo e que acaba tendo o gostinho da liberdade por um tempo; e Yorick van Wageningen como Warden Barrot, o chefe da prisão na Guiana Francesa. Todos estão muito bem.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque vai para a direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Um trabalho incrível e que valoriza a história. Depois da direção de fotografia de Bogdanski, vale destacar a edição de John Axelrad e Lee Haugen; o design de produção de Tom Meyer; a direção de arte de Tom Frohling e Natasha Gerasimova; a decoração de set de Jennifer M. Gentile; os figurinos de Bojana Nikitovic; e a trilha sonora de David Buckley.

Papillon estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Montclair, Edinburgh e o Biografilm Festival. Nesta trajetória, o filme não recebeu indicações ou foi premiado.

Esta produção é baseada, de fato, no livro escrito por Henri Charrière, o nome de batismo de Papillon, e lançado, originalmente, na França em 1969. Ou seja, a primeira adaptação para ao cinema de sua história chegou às telas apenas quatro anos depois do livro ser lançado. Uma prova de como a obra de Charrière foi impactante naquela época.

Papillon significa “borboleta”. Charrière recebeu este apelido por causa da tatuagem de borboleta que ele tinha no peito – e que, descobrimos no filme, tinha o significado, entre os criminosos, de que ele era um assaltante.

Segundo a história, Papillon foi condenado em 1933 e conseguiu escapar da prisão apenas em 1941.

Papillon não caiu no gosto dos críticos. O filme conseguiu 46 críticas positivas e 41 negativas entre os críticos linkados no site Rotten Tomatoes, o que dá para a produção uma aprovação de 53% e uma nota média 6. No site Metacritic o filme não foi muito melhor. Lá, a versão 2018 de Papillon recebeu o “metascore” de 52, fruto de 10 críticas positivas, 15 críticas medianas e de quatro críticas negativas.

Apenas os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos com o filme, dedicando a ele a nota 7. Para mim, é válido uma refilmagem de Papillon agora, para que as novas gerações confiram esta história. Eu não acho que toda refilmagem deve superar a anterior. Cada uma tem os seus predicados. Claro, muito difícil – ou até impossível – superar o Papillon original. Mas acho que o novo Papillon pode ser visto de forma isolada, como um belo trabalho e um esforço interessante de reapresentar uma história bacana e forte para um novo público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Papillon arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 2,2 milhões nos outros países em que o filme estreou. Esses números mostram que a produção foi praticamente ignorada pelo público. Uma pena, porque eu achei ela bem acabada e com uma temática que vale ser tratada e discutida. Mas a nova versão de Papillon realmente não conseguiu emplacar.

Papillon é uma coprodução da República Checa, da Espanha e dos Estados Unidos. Curiosa essa mistura. Não lembro de ter visto a outro filme da República Checa. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com uma fotografia incrível, um roteiro bem equilibrado, bons atores e que não tem pressa de contar uma história. Muito pelo contrário. Papillon segue o seu ritmo e a visão do diretor Michael Noer do início ao fim. Gostei do resgate desta obra tão importante sobre valores fundamentais da humanidade. Toda sociedade precisa de regras, leis, controles e segurança. Mas a busca do indivíduo por liberdade e por escolher os seus caminhos ultrapassa tudo isso. Belo filme, muito bem realizado e que nos faz pensar muitos aspectos. Se você não se incomodada com uma narrativa um pouco lenta, dê uma chance para Papillon.

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Bridge of Spies – Ponte dos Espiões

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“Não importa o que as outras pessoas pensam, você sabe o que você fez”. Esta frase de Bridge of Spies representa em boa parte o que este filme quer nos dizer. Lutar pela justiça e pelo que é certo não é algo para todos, mas quem buscou isto sempre serve de inspiração. Justamente porque, infelizmente, justiça e bondade não fazem parte da sociedade – nem antes e nem agora. Bridge of Spies nos leva para a Guerra Fria para contar uma história de espiões nos bastidores.

A HISTÓRIA: Começa em 1957, no “auge da Guerra Fria”. Os Estados Unidos e a União Soviética se estudam com muita cautela e diversos espiões. A contraespionagem está comendo solta, com espiões buscando informações de um país para o outro e sendo caçados. O texto de abertura também comenta que o filme é baseado em fatos reais. Em um quarto, Rudolf Abel (Mark Rylance) olha no espelho e confere como está se saindo com o seu auto-retrato. Toca o telefone. Ele atende, mas não fala nada. Quando ele sai de casa, é seguido por agentes da CIA. Discretamente, enquanto pinta o quadro de uma ponte, ele se abaixa e recolhe uma moeda que guarda uma mensagem. Ele é preso, não admite espionagem, e acaba sendo defendido por um grande advogado, James B. Donovan (Tom Hanks).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Bridge of Spies): Filmes de época sempre são fascinantes. Ao menos para mim. E não importa a época. Acho estas produções fascinantes por nos mostrarem momentos da história que não existem mais. Sempre acho que temos o que aprender com eles.

Dito isso, evidente que por ser ambientado no final dos anos 1950 e por ter um grande diretor como Steven Spielberg no comando, Bridge of Spies é uma produção impecável enquanto reconstrução de época. É um verdadeiro deleite, especialmente na cenas iniciais – algumas delas parecem um verdadeiro quadro -, ver como os realizadores deste filme se esmeraram em nos transportar para aquela época e estilo de vida.

Quanto ao roteiro, não deixa de ser curioso assistir a um filme de espiões que tenha pouca ação. Bridge of Spies é muito mais um filme de bastidores da espionagem, com o embate ficando mais no plano das ideias. Por isso mesmo é tão importante que cada linha escrita pelos irmãos Ethan Coen e Joel Coen, junto com Matt Charman, convença. E isso, de fato, acontece.

Para mim é impossível não assistir a este filme e, em especial, à interpretação do sempre ótimo Tom Hanks e não lembrar de grandes atores que vestiram antes as roupas de homens honrados em busca de justiça no cinema. Hanks, para mim, nesta produção, lembra tanto um pouco de James Stewart em Anatomy of a Murder quanto um pouco de Gregory Peck em To Kill a Mockingbird. Na parte inicial da produção, quando está chovendo e Donovan caminha na rua sentindo que está sendo seguido, também me lembrei da cena clássica de Singin’ in the Rain.

Passada estas reminiscências e lembranças que Bridge of Spies despertaram em mim, voltemos ao filme. Como eu disse, ele é uma bela reconstrução de época. E conta uma história ordinária mas, ao mesmo tempo, cheia de significados. Vejamos. Bridge of Spies nos lembra de um tempo em que as pessoas viviam com medo, a exemplo do filho de Donovan que pensa em guardar água e tomar outras atitudes preventivas frente à iminência de uma guerra.

Há pouco mais de 50 anos os Estados Unidos e certamente o povo da União Soviética viviam com este medo constante – alguns mais que outros, evidentemente. Naquele contexto, Donovan é retirado de seus casos normais para ajudar em uma questão muito impopular, que era a defesa de um espião russo preso nos Estados Unidos. E daí vem o primeiro grande ensinamento do filme: não importa o clamor popular ou a sede de justiça da maioria. Toda pessoa merece ter defesa e um julgamento justo.

Donovan sabe que o seu trabalho é impopular, mas ele está preocupado em dar a melhor defesa possível para Abel. Os dois tem claro que há muitas pessoas dos dois lados com a mesma função: espionagem. Se você quer que o seu espião seja bem tratado, em caso de captura, deve tratar bem o espião inimigo, não é mesmo? Esta é a lógica dos dois e, no final dos anos 1950, para a sorte de todos, parecia ser a lógica dos dois regimes em questão. Pena que estes acordos de cavalheiros tenham terminado na era do terrorismo. Agora a racionalidade perdeu todo o terreno para o terror sem argumentação ou negociação.

Inteligente, Donovan procura o juiz Byers (Dakin Matthews) para buscar, mais uma vez, a melhor saída para o seu cliente. Estava em jogo, naquele momento, a pena de morte para ele. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito acertada e coerente, Donovan argumentou que era mais inteligente para os Estados Unidos manter o possível espião russo vivo para uma possível troca futura com outro espião americano do que matá-lo e tirar essa possibilidade de negociação do país. Interessante como esta decisão do juiz é contestada pelo público que, como se faz hoje em dia, infelizmente, pediu pela cabeça do condenado – como se esse tipo de “olho por olho” levasse a algum lugar.

No fim das contas Donovan estava certo. Logo no início da produção somos apresentados aos soldados escolhidos pela CIA para voarem com os aviões U-2 e fotografarem os terrenos do inimigo. Um dos pilotos, Francis Gary Powers (Austin Stowell), é atingido enquanto voava e não consegue destruir o avião e a si mesmo antes de cair. Capturado, ele acaba sendo um alvo prioritário de troca para o governo dos Estados Unidos. E é aí que o palpite de Donovan se mostra certeiro.

O filme, claramente, tem dois momentos muito diferentes. Uma fase ambientada nos Estados Unidos, que mostra todo o contexto histórico de temor mas de segurança no país naquela época, e a outra que mostra o mesmo contexto histórico e de mudança radical na Alemanha. Bridge of Spies conta o momento exato em que o Muro de Berlim foi erguido e o que aconteceu logo depois. Donovan descobriria in loco a diferença entre o temor que teve em casa, inclusive com tiros sendo disparados em sua residência, e o que lhe acompanharia durante toda a missão de negociações em Berlim Oriental.

A trilha sonora é fundamental para dar dinâmica e emoção para o filme. Isso acontece, em especial, quando o roteiro não consegue tudo isso sozinho. É o caso de Bridge of Spies. Ainda que seja bem construído, este filme carece de um pouco mais de emoção no desenrolar da história. Sem contar que há diversos trechos do filme que são um pouco forçados – a exemplo das cenas de cativeiro de Powers e a forma com que se dá a prisão de Frederic Pryor (Will Rogers).

O roteiro funciona bem, especialmente quando foram escritas as linhas dos argumentos de Donovan. Tom Hanks e as falas dele, sempre bem construídas, sem dúvida alguma são o ponto forte do roteiro. Além disso, destaco no filme a reconstrução de época, a direção de Spielberg – correta, mas nada inovadora -, e as interpretações de Hanks e de Rylance, muito equilibradas e coerentes. Uma grande produção, sem dúvida. E ainda que valem ser contadas todas as histórias de pessoas comuns que com atos de bravura ajudaram na defesa da justiça e da paz, achei a história de Bridge of Spies um pouco ordinária demais. Ainda assim, ela é válida e tem uma boa mensagem. Vale por isso.

Ah sim, e falando em “moral da história”. Além daquele ponto citado anteriormente, sem dúvida alguma uma outra mensagem deste filme é aquela que advém da frase que abre este post. Não importa a opinião pública, das massas, ou mesmo das pessoas próximas de você. Muitos não entendem o que você faz, fez ou pelo que passou. Mas se você agiu de forma honrada e correta, é isso o que importa. Aja desta forma porque é o certo, não porque alguém vai lhe dar uma medalha ou valorizar o que você fez. Como eu disse antes, o filme vale por isso. Porque não há nenhuma inovação de roteiro, de narrativa ou uma interpretação arrebatadora para tirar a produção da média.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Serei franca com vocês. Eu perdi esse filme quando ele estreou nos cinemas brasileiros e só assisti ele agora por causa do Oscar. Por si mesmo, Bridge of Spies não tinha me convencido a vê-lo até então. Gosto do Spielberg e do Hanks, é claro. Mas a história não tinha me atraído até agora. Foi bom ter conferido ele, para estar mais preparada no dia da entrega do Oscar, mas definitivamente este não é um filme que entraria para a minha lista dos melhores do ano passado.

Steven Spielberg, como todos sabem, é um sujeito que entende muito bem do seu ofício de fazer filmes. Ele sabe aonde colocar a câmera em cada segundo para conseguir o melhor efeito dramático para a história. Em Bridge of Spies ele faz isso o tempo todo e, ainda, nos presenteia com algumas cenas que são uma verdadeira pintura. Além do quadro no início do filme, quando vemos Abel caminhando pelas ruas em 1957, destaco as cenas perto do final com Donovan na ponte. Verdadeiras pinturas.

Como eu disse antes, as interpretações de Hanks e de Rylance se destacam nesta produção. Mas não dá para ignorar o elenco de apoio com grandes nomes do cinema – ainda que, serei franca, não achei que ninguém tenha um grande destaque de interpretação. Alan Alda interpreta a Thomas Watters Jr., um dos sócios majoritários da firma na qual Donovan trabalha; Amy Ryan faz a esposa do protagonista, Mary Donovan; Michael Gaston interpreta ao agente Williams, da CIA, que convoca os pilotos para a missão com os novos U-2; Jon Curry interpreta o agente Somner, encarregado da missão de troca entre Abel e Powers; Sebastian Koch interpreta ao advogado alemão Wolfgang Vogel; Jesse Plemons praticamente em uma ponta como o militar recrutado pela CIA e colega de Powers, Joe Murphy; Mikhail Gorevoy como Ivan Schischkin, apontado como diretor da KGB e que negocia na Alemanha com Donovan; e Burghart Klaussner interpreta a Harald Ott em uma ponta como o representante do governo da Alemanha Oriental. Vale citar ainda os atores que interpretam aos filhos de Donovan: Jillian Lebling, Noah Schnapp e Eve Hewson.

Quase ia me esquecendo de outra “moral da história” importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Estados Unidos e União Soviética estavam interessados apenas em seus espiões. Mas Donovan insistiu que fizesse parte da troca o jovem e um tanto estúpido estudante Frederic Pryor que estava sendo usado como argumento de pressão pelos alemães. Como Donovan disse, “toda pessoa interessa”. Ele insistiu com isso para que o jovem tivesse um futuro e pudesse voltar para o seu país. As negociações envolvendo ele é o que acabaram sendo o elemento tenso da produção. Mas aí está mais uma boa mensagem: toda pessoa interessa. Todos deveriam ter o direito de viver e de ter oportunidades na vida. Eis algo pelo qual vale batalhar.

Por ser um filme de época, Bridge of Spies tem no trabalho técnico de diversos profissionais e departamentos um ponto crucial. Desta parte técnica, vale destacar a excelente trilha sonora do veterano e premiado Thomas Newman; a direção de fotografia do grande colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski; a edição de Michael Kahn; o design de produção de Adam Stockhausen; a direção de arte de Marco Bittner Rosser, Scott Dougan, Kim Jennings e Anja Müller; a decoração de set de Rena DeAngelo e Bernhard Henrich; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o departamento de arte com nada menos que 68 profissionais envolvidos e o departamento responsável pelos efeitos visuais com outros 108 profissionais envolvidos.

Estes dois últimos números de profissionais que eu citei são impressionantes, não é mesmo? Eles mostram como Hollywood é, realmente, uma indústria. Olhando para toda a equipe envolvida nesta produção, são centenas de pessoas que trabalharam para esta história ser contada. Geração de emprego e muito dinheiro envolvido. Por isso, imagino, o filme acabou sendo reconhecido nas indicações ao Oscar. Ele deve ter sido uma das produções que mais movimentou recursos e empregou gente entre os concorrentes. Como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre valoriza a indústria do cinema, isso é mais que compreensível.

Bridge of Spies estreou no Festival de Cinema de Nova York em outubro de 2015. Depois, o filme passaria ainda pelos festivais de Hamptons e de Mill Valley, todos nos Estados Unidos. Até o momento esta produção ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 66, incluindo a indicação em seis categorias do Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter aparecido três vezes na lista dos melhores filmes do ano e por ter recebido sete prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mark Rylance.

Esta produção, mesmo cheia de tantos detalhes e com tanta gente envolvida, gastou cerca de US$ 40 milhões – menos de um terço do orçamento de The Revenant, que teria custado US$ 135 milhões. Apenas nos Estados Unidos Bridge of Spies fez pouco mais de US$ 70,8 milhões nas bilheterias. Nos outros mercados em que ele estreou ele fez outros US$ 83,5 milhões. Ou seja, ele se pagou tranquilamente.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Bridge of Spies foi filmado na Polônia, na Alemanha e nos Estados Unidos, em cidades como Wroclaw, Berlim, Potsdam, Marysville e Nova York.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Bridge of Spies dá a entender que Donovan era um advogado de seguros e que ele se sente um tanto deslocado da função de negociador e de advogado de defesa. Mas o Donovan real tinha atuado como Conselheiro Geral para o OSS (Escritório de Serviços Estratégicos) dos Estados Unidos, órgão que depois originou a CIA. Ou seja, ele era bem conhecido da comunidade de inteligência e entendia do assunto.

O FBI investigava Rudolph Abel desde 1953, quando ele utilizou uma de suas moedas falsas que escondia mensagens criptografadas para comprar um jornal. O vendedor achou a moeda muito leve e, quando a derrubou no chão, descobriu do que se tratava. Na época, contudo, o FBI não conseguiu desvendar a criptografia da mensagem, o que acabou acontecendo apenas em 1957, quando Reino Häyhänen, um desertor do FBI, entregou a chave para decifrar o código. Em resumo: sim, era certo que Abel era um espião – e ele foi acompanhado por bastante tempo antes de ser preso. Essa história do “nickel oco” foi apresentada antes no filme The FBI Story, estrelado por James Stewart.

De acordo com Steven Spielberg, este filme poderia ter sido feito em 1965. Na época, estava certo que Gregory Peck interpretaria Donovan, Alec Guiness faria Abel e que o roteiro seria escrito por Stirling Silliphant. Mas como o mundo ainda vivia a Guerra Fria, a MGM acabou engavetando o projeto.

Muitas das cenas do filme foram rodadas nos lugares reais em que a história se passou. Mas as cenas em que o Muro de Berlim foi mostrado foram rodadas em Wroclaw, na Polônia, que hoje lembra muito mais a Berlim da época do que a atual cidade alemã.

O pai do diretor Steven Spielberg fez parte de uma missão de engenheiros que foi para a Rússia durante a Guerra Fria, logo após o avião de Powers ter sido abatido. Na época ele pode ver de perto o medo que as duas nações tinham uma da outra, com pessoas apontando para ele e para os outros engenheiros e dizendo “olha o que o seu país está fazendo para nós”, ao se referirem aos destroços do avião abatido.

Este é o primeiro filme de Spielberg desde The Color Purple que não tem a trilha sonora assinada por John Williams. O compositor ficou fora do projeto porque ficou doente em março de 2015 e, por isso, acabou sendo substituído por Thomas Newman.

Como eu imaginava, a banda U2 se inspirou nos aviões mostrados no filme, os U-2, para nomear-se. A filha de Bono Vox, líder da banda, está no elenco – Eve Hewson interpreta a filha mais velha de Donovan.

Mesmo não aparecendo nos créditos do filme, Bridge of Spies foi inspirado nos eventos contados no livro Abel, de Vin Arthey.

A ponte Glienicke, em Berlim, foi realmente usada na troca entre Abel e Powers e em várias outras trocas de espiões durante a Guerra Fria.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha e a Índia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e outras 21 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,8. Uma coincidência rara de avaliações e notas.

CONCLUSÃO: Como todo filme dirigido por Steven Spielberg, Bridge of Spies é um filme bem acabado, com uma trilha sonora perfeita e com uma condução impecável. Além disso, esta produção parece lembrar alguns grandes filmes da história. Mas ela não vai além disso. É um bom filme, mas um tanto “ordinário”. Com isso quero dizer que chega a ser surpreendente o quanto ele foi indicado ao Oscar – isso se não soubéssemos que esta premiação leva muito em conta, além de outros fatores, o lobby de produtores e figurões por trás dos filmes. Apesar de ter uma boa história e uma mensagem bacana, não é um filme para ficar na memória por muito tempo. Achei mediano apenas.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Bridge of Spies foi indicado em nada menos que seis categorias do Oscar. Ele concorre como Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Melhor Roteiro Original, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora e Melhor Mixagem de Som.

Eleito como um dos melhores filmes do ano passado em importantes listas como da AFI e do National Board of Review, entendo porque ele chegou com esse peso no Oscar. Ainda que, volto a dizer, me dou ao direito de discordar que ele seja um dos melhores filmes de 2015. Bridge of Spies é uma bela produção, muito bem realizado e conduzido, mas não é arrebatador e nem ficará para a história.

Dito isso, voltemos ao Oscar. Não vejo chances dele ganhar como Melhor Filme e nem como Melhor Mixagem de Som. Estão na frente na concorrência pela primeira categoria The Revenant (comentado aqui) e Spotlight (com crítica neste link) e, na segunda, vejo grandes chances para Mad Max: Fury Road (com crítica aqui), Star Wars: The Force Awakens ou The Revenant.

Parece que Sylvester Stallone tem vantagem na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas, honestamente, meu voto iria para Christian Bale. Ainda assim, não seria uma zebra completa Mark Rylance ganhar, apesar de que vejo que ele corre por fora apesar dos prêmios que já recebeu por este papel em Bridge of Spies. A trilha sonora do filme é ótima, mas ele tem pela frente The Hateful Eight, premiado no Globo de Ouro, e o excelente trabalho de Carol. Preciso ainda ver aos outros filmes, mas entre Carol (comentado aqui) e Bridge of Spies, prefiro ainda a trilha sonora do primeiro.

Agora, analisemos Melhor Design de Produção. Parada dura aqui. Bridge of Spies, que tem um excelente design de produção, concorre com trabalhos bem diferentes como Mad Max: Fury Road e The Revenant. Pessoalmente, apesar de um filme de época exigir muito neste quesito, eu votaria na ousadia de Mad Max: Fury Road. Acho que a categoria será decidida entre ele e The Revenant. E, finalmente, temos a categoria Melhor Roteiro Original. Preciso assistir ainda aos outros concorrentes, mas sem dúvida alguma acho que Spotlight leva vantagem aqui.

Para resumir, não será nenhuma surpresa se Bridge of Spies sair da noite de entrega do Oscar de mãos abanando. Se for para receber alguma estatueta, eu diria que ele tem alguma chance em Melhor Ator Coadjuvante ou em Melhor Design de Produção. Ainda que, francamente, acho que estas chances são muito, muito pequenas.

This Must Be The Place – Aqui é o Meu Lugar

Os passos de um rockeiro que não grava e não faz shows há 20 anos, mas que mantém a mesma “fantasia”. Ele virou um personagem e não sabe ser outra coisa. Até que… um momento importante da vida real acontece, e ele acaba fazendo uma viagem que, no final das contas, reconta a velha passagem da juventude para a vida adulta. Há tempos eu não via a um filme criativo como este This Must Be The Place. Assista, especialmente se você curte ou já curtiu a bandas de rock.

A HISTÓRIA: Um cão corre pelo jardim de uma bela mansão. Unhas do pé são pintadas de preto. Um brinco aparece antes dos lábios serem pintados de vermelho e do laquê ser colocado no cabelo negro. Os olhos azuis são cercados por lápis e sombra escuras. Com vários anéis nos dedos e jóias no peito, Cheyenne (Sean Penn) abotoa a camisa negra para preparar-se para sair para a rua mais uma vez. Ele desce lentamente as escadas e assiste a bobagens na TV antes de pegar o seu tradicional carrinho de compras e sair andando pela cidade. Acompanhamos a vida deste ídolo do rock aposentado que investe na bolsa de valores, parece entediado e decide viajar para encontrar o pai no leito de morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a This Must Be The Place): Logo no início deste filme percebemos que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino tem uma preocupação importante com o estilo. A escolha dele por deslizar a câmera após focar um belo estádio envidraçado, passando pela fachada de um prédio suburbano e da janela da mãe de Mary (a veterana, expressiva e enigmática Olwen Fouere) até a rua e a visivelmente descontente Mary (Eve Hewson) com o seu skate, já mostra que tipo de filme iremos assistir.

This Must Be The Place respeita os personagens que fazem parte de sua história. Esse respeito é visto pela levada do diretor, que escolhe uma filmagem ao mesmo dinâmica e que faz a câmera deslizar por locais e personagens e que, também, mantem a atenção nos personagens principais e seus trejeitos. Especialmente o protagonista, que é a alma deste filme.

O que mais me surpreendeu nesta produção, além da direção cuidadosa e atenciosa de Sorrentino, foi o quanto o filme foi revelando-se maior do que o que originalmente o espectador pode esperar. Por grande parte desta história, você pensa que ela é apenas uma forma interessante de explorar a vida de uma figura conhecida do rock aposentada há bastante tempo. E que, mesmo assim, é respeitada por alguns “seguidores”, como Mary, que sentem-se identificados com ele. Para outros, esses personagens são apenas pessoas excêntricas e que devem ser encaradas desta forma.

Por grande parte do filme você acha que a história é essa, um conto interessante sobre ídolos do rock que sobreviveram às loucuras de sua geração e que seguem encarnando o seu papel fora dos palcos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas eis que This Must Be The Place insere, na história, a morte do pai do personagem principal. E eles tinha aquela relação clássica distante e sem afeto. Mesmo assim, Cheyenne se sente compelido a realizar um dos últimos desejos do pai, que era encontrar um soldado nazista. E aí, nesta busca, o personagem conhece um pouco mais do pai e, consequentemente, de si mesmo. De quebra, vive uma passagem simbólica (e psicologicamente realista) da “infância” e/ou “juventude” para a vida adulta. Ele cresce. E aparece, no final, com esta nova postura, abandonando aquele personagem que não existe mais.

Fantástico, não é? Eu achei. Muito bem sacada a história. O visual interessa e, claro, a trilha sonora. Essa última, assinada por David Byrne, que faz uma participação especial no filme, e por Will Oldham. Muito boa, também, a direção de fotografia de Luca Bigazzi.

Imagino que muitas pessoas vão ficar irritadas com os trejeitos de Sean Penn. Mas é evidente que o personagem de Cheyenne é livremente inspirado em figuras lendárias do rock. Talvez a referência mais evidente seja Robert James Smith, o vocalista da banda The Cure. E há algo de Ozzy Osbourne no personagem de Cheyenne também. Mesmo que Penn chegue a irritar um pouco, achei impressionante a forma com que ele encarnou o personagem. E esse é o trabalho do ator, não é? E sim, um adulto que continua agindo como se fosse um personagem sempre é irritante. Não há maneira de evitar isso. Por isso tudo, gostei muito da atuação de Penn.

Além de tratar sobre como alguns ídolos ficam deslocados da realidade por causa da aura de “deuses” que o mainstream lhes impõe, This Must Be The Place trata de assuntos correlatos interessantes, como a importância da família e de casas estruturadas para qualquer tipo de pessoa – seja para uma figura como Cheyenne, seja para alguém como Mary ou mesmo Rachel (Kerry Condon), que vislumbra com o ídolo de rock uma possibilidade de relação cuidadosa que ela desconhecia até então.

E também de como qualquer incursão mais cuidadosa no passado dos nossos antepassados e como uma nova visita nos sentimentos que nutrimos em relação a eles desde a infância podem mudar as nossas vidas e a forma com que encaramos a realidade. Porque somos produto de tudo isso. De relações que começaram muito antes do nosso nascimento, e que vão perdurar mesmo depois da nossa morte. Por incrível que pareça, este filme trata de todos estes temas. De forma interessante, suave e sem grande pretensão. Um belo trabalho de Sorrentino e equipe.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor italiano Paolo Sorrentino pensou na história deste filme e pediu a ajuda de Umberto Contarello, também italiano, para escrever as linhas do roteiro. Antes de pensar e dirigir This Must Be The Place, Sorrentino tinha recebido alguma projeção internacional com Il Divo: la spettacolare vita di Giulio Andreotti, filme que recebeu o prêmio do júri do Festival de Cannes em 2008.

This Must Be The Place teve a sua premiere mundial no Festival de Cannes do ano passado. Depois do filme ganhar o prêmio do júri ecumênico do festival, ele passou por outros 10 festivais, incluindo os do Rio de Janeiro, Estocolmo e Sundance.

Nesta trajetória de festivais, This Must Be The Place recebeu 11 prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que recebeu, destaque para seis que foram entregues no Davi di Donatello, um dos mais conhecidos da Itália. Nesta competição, ele venceu como melhor roteiro, fotografia, maquiagem, design de cabelo, música e canção para If it Falls, it Falls, composta por David Byrne e Will Oldham.

Uma curiosidade sobre esta produção: o nome do filme era o título original da produção Away We Go, dirigida por Sam Mendes.

This Must Be The Place teria custado cerca de 25 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, pouco mais de 6 milhões de euros, assim como pouco menos de US$ 10,8 milhões no restante do mundo. Um resultado fraco, mas que pode melhorar com a chegada do filme em outros mercados. Só duvido muito que o filme consiga tornar-se um sucesso de bilheteria. Por outro lado, ele tem uma grande vocação para tornar-se cult.

Além dos atores já citados, vale destacar o ótimo trabalho da veterana Frances McDormand como Jane, a mulher do ídolo Cheyenne e uma divertida bombeira. O ator Judd Hirsch também tem uma participação interessante no filme como Mordecai Midler, o “caçador de nazistas” que acaba cruzando o caminho do protagonista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para This Must Be The Place. Uma bela avaliação, levado em conta a dificuldade de um filme novo – que não seja um clássico – conseguir uma nota perto ou acima de 7 no site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 27 críticas positivas e 12 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 69% – e uma nota média de 6,1.

This Must Be The Place foi coproduzido pela Itália, França e Irlanda.

CONCLUSÃO: Que grande filme este aqui! Criativo e inspirado do início até o final. Por grande parte de This Must Be The Place você acredita que apenas verá como um antigo ídolo lida com o seu próprio personagem. O protagonista parece incapaz de largar a máscara. Vive ainda na sombra dos tempos áureos. Até que ele tem que encarar o sentimento relacionado com o pai, e a “herança” que ele lhe deixa. No caminho para “realizar” o último desejo de seu velho, ele aprende algumas coisinhas e, no final, como manda o figurino, se torna um adulto. A forma com que o diretor Paolo Sorrentino conta esta história é brilhante. Não apenas o roteiro é gostoso e surpreende de forma sutil, mas a escolha dos ângulos de câmera e a suavidade com que as imagens vão deslizando revelam a preocupação de Sorrentino em surpreender nos detalhes. E ele consegue isso. Grande filme. E surpreendentemente divertido e profundo ao mesmo tempo.