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The Curious Case of Benjamin Button – O Curioso Caso de Benjamin Button

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Uma grande história já é meio caminho andado para um filme dar certo. Com uma grande história quero dizer não apenas o enredo, a idéia inicial, mas também o roteiro. Um texto bem escrito, meus amigos e amigas, realmente é primordial. Adicione-se a isso uma direção precisa, uma fotografia de primeiríssima, atuações condizentes e demais cuidados técnicos que acompanham tudo o demais e nós temos um grande filme em mãos. E a mola propulsora e fundamental de The Curious Case of Benjamin Button (este site em português) é, sem dúvida, a sua história inusitada e, como o nome mesmo diz, super curiosa. Um dos grandes filmes do ano (2008, me refiro) e um dos fortes pré-candidatos a levar várias estatuetas do Oscar para casa – com todos os méritos.

A HISTÓRIA: Uma mulher idosa respira com dificuldade. Ela está na cama de um hospital, recebendo cada vez doses mais fortes de anestésicos. Quando acorda em seu leito hospitalar, Daisy (Cate Blanchett) pede para a filha, Caroline (Julia Ormond), ler um diário que está perto delas. Preocupada em se despedir da mãe, com quem não passou o tempo que gostaria, Caroline decide realizar a sua vontade e começa a ler as anotações do velho diário. Assim, pouco a pouco, ela conhece a história de Benjamin (Brad Pitt), um homem que nasceu velho. Ele veio ao mundo no dia em que terminou a Primeira Guerra Mundial. Abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng), depois da morte da mãe, Benjamin acaba sendo adotado por Queenie (Taraji P. Henson), zeladora de um lugar chamado Nolan House, um lar para idosos. É lá que ele acaba conhecendo Daisy quando ela vem visitar a avó, Sra. Fuller (Phyllis Somerville).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Curious Case of Benjamin Button): Um conto de F. Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores norte-americanos do século 20, foi o mote inicial do novo filme do ótimo David Fincher. Admito que eu gosto deste diretor. Desde Se7en ele me tem em seu bolso… como já aconteceu com outros diretores, que me fascinaram com algum título que tenham produzido, eu fico ali, só esperando eles sacarem outra “obra-prima” da cartola. Depois de Seven, Fincher ainda dirigiu outro dos meus filmes preferidos: Fight Club. Depois, ainda veio Zodiac, um filme bacana, mas abaixo dos demais… e agora este The Curious Case of Benjamin Button.

Falarei do Oscar e das possíveis indicações do filme sobre Benjamin Button demoradamente depois, mas quero dizer, desde já, que ficarei muito feliz em ver, finalmente, Fincher ser indicado. Espero que ele chegue lá. Que esteja entre os cinco “finalistas” da grande noite da indústria cinematográfica de Hollywood. Seria a sua primeira vez por lá, como convidado especial para a festa do Kodak Theatre.

Mas vamos falar do filme, antes de comentar suas indicações a prêmios. Benjamin Button nasce velho, com um corpo estranhamento mesclado entre o de um recém-nascido (pelo tamanho) e de um velho de mais de 80 anos (pelas condições físicas, especialmente pelas doenças que apresenta). Abandonado pelo pai, mesmo depois dele prometer para a esposa no leito da morte que cuidaria do filho, ele passa a ser criado por uma negra que trabalha em um ancionato público – mesmo contra a vontade de seu companheiro, Tizzy Weathers (Mahershalalhashbaz Ali). Com o tempo, Tizzy passa a gostar do menino branco que caiu de paraquedas na vida do casal e ajuda a criá-lo – a resistência inicial da parte dele tem ligação direta com aqueles tempos de preconceito racial e mudanças radicais na sociedades norte-americana, tenho certeza.

Quando o médico examina Benjamin, comenta com Queenie que a criança deve durar pouco tempo, especialmente porque apresenta todas as doenças de um velho. O que ninguém sabia naquela ocasião – e mesmo muito tempo depois – é que o “bebê” não iria envelhecer, como todas as pessoas normais… iria sim ficar com o corpo cada vez mais jovem. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Acompanhamos então a vida de Benjamin Button desde seu nascimento, em 1918, pequeno e velho, até sua morte, na primavera de 2003, com a aparência de um recém-nascido normal. Entre um ponto e outro da história, contudo, acompanhamos todas as descobertas de uma vida. Vemos, especialmente, a importância que os encontros tem na existência de qualquer pessoa. Porque são as histórias, do marinheiro, da bailarina, da mulher que tinha um cachorro velho e tocava piano, do empresário que herdou uma fábrica de botões, e todas as demais, que fizeram a vida de Benjamin Button ser tão cheia de ensinamentos. E o filme, tão rico em detalhes.

F. Scott Fitzgerald escreveu o conto sobre Benjamin Button em 1922. A idéia lhe surgiu depois de ler uma frase de Mark Twain: “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”. A idéia do filósofo certamente já passou pela cabeça de muita gente. Quem nunca ouviu um senhor de certa idade dizer: “Ah, se eu soubesse o que eu sei hoje quando eu tinha 18 anos…”. Inicialmente a idéia de nascer velho e ir rejuvenescendo, chegando ao auge da juventude com a sabedoria de quem viveu muito, é interessante. Mas The Curious Case of Benjamin Button nos ensina que nem tudo é tão fácil quanto parece. Aliás, nada é tão fácil. E uma curiosidade: lá pelas tantas no filme Benjamin Button está lendo as aventuras de Tom Sawyer, a obra mais famosa de Mark Twain. Uma bonita homenagem ao homem que inspirou esta história.

É verdade que Benjamin Button aprende o essencial muito “jovem” – nos primeiros anos da sua vida vivida ao contrário. Cercado de idosos e aprendendo desde cedo o que acontece no fim da vida – todas as limitações de doenças, da solidão e do abandono – até o derradeiro momento da morte, ele percebe muito cedo que é bobagem dar tanta importância para a aparência. Afinal, quando todos pensavam que ele tinha mais de 70 anos, ele sabia pouco – ou quase nada – da vida. Era uma criança em um corpo de idoso. E isso é o que Daisy percebe pouco depois de o conhecer. Vê dentro dos olhos cansados daquele homem que ele é muito mais jovem do que aparenta.

Esse conto, entre outros temas, acaba assim tocando em algo importante: de como as aparências enganam. Podem existir pessoas muitos jovens que são extremamente sábias… souberam ouvir tantas pessoas diferentes à sua volta e sacar o máximo de toda e qualquer experiência para, no fim das contas, conseguir uma carga de aprendizado muito maior do que outras pessoas de 80 anos. E, por outro lado, muitas pessoas no fim da vida acabam retrocedendo, praticamente… adquirindo medos que não tinham antes. Talvez por medo de deixar a vida. Uma experiência que certamente é sempre dura, mas que é inevitável. Se elas tivessem nascido como Benjamin Button, sabendo que suas vidas são um milagre desde o início e de que todos estão aqui para aprender o máximo que podem enquanto têm esta possibilidade, talvez tudo seria mais fácil.

É difícil falar da morte. Talvez quando ela pareça tão próxima exista algo que aperta o peito e cria angústia. Afinal, não deve ser nada fácil admitir-se que se vai deixar este aprendizado de lado. Mas acho, muitas vezes, que o medo maior da perda é das pessoas que estão próximas de quem vai partir. Como no filme, quem parece carregar um peso maior é a filha, vivida por Julia Ormond – que ótimo ver esta atriz em um bom papel novamente. Ela está preocupada e com medo de deixar a mãe partir. E quando pergunta para Daisy se ela tem medo, ela apenas diz que quer ver o que vem em seguida. Que coisa maravilhosa! Quero ter esta paz de espírito quando for minha hora. 

Bem, mas deixando um pouco o tema da morte de lado. O filme é repleto de mensagens para fazer pensar. Como de como as pessoas são idiotas quando são jovens. Tão cheias de poder, tão onipotentes, e para que? Digo isso pelo que vive a personagem de Daisy. Ela sabe o que é importante. Ela sente. Mas o sucesso e a sensação de que ela pode “conquistar o mundo” lhe fazem perder tempo. Claro que essa perda de tempo é relativa – idéia essa que lhe vai assombrar por um bom tempo para, só depois, ela descobrir que o erro também faz parte do processo. Depois, na velhice, ela percebe que não perdeu tempo enquanto se achava onipotente… ela viveu, passou por experiências únicas, e isso foi o que valeu. Ainda assim, enquanto isso, Benjamin buscava novas experiências, conhecer lugares distantes – como a Rússia -, pessoas fascinantes (como Elizabeth Abbott, vivida com maestria por Tilda Swinton), sem a pretensão de ser alguém excepcional. Afinal, para ele, continuar vivendo era um milagre.

Talvez a “maravilha” de nascer com mais de 80 e morrer jovem seja justamente essa, a consciência de que a vida é realmente um milagre, algo muito raro e valioso. Acho que quando nascemos jovens e vivemos a “ordem natural” da vida, só nos damos conta disso muito tempo depois. Exceto em situações de risco permanente de morte, como em zonas de conflito e de guerras, onde realmente a noção de que a vida é um milagre acaba sendo percebida mais cedo – isso quando não vira algo até “banal”. 

Mas além de filosofia aqui e ali, o filme tem algumas das mensagens mais bonitas de pai para filha. O que Benjamin escreve para Caroline, a filha que abriu mão de educar, é de matar. Lindíssimo, realmente. Mérito principalmente do roteirista Eric Roth. Ele é o grande responsável pelo texto que vemos na tela. Afinal, ele escreveu todas as falas e detalhes, depois de ter trabalhado com o argumento para o cinema ao lado de Robin Swicord. Eles tiveram a idéia de Fitzgerald como norte para esta história, mas o “grosso” do que se vê realmente saiu de suas cabeças e não do texto original do escritor estadunidense.

Um filme verdadeiramente belo, feito com maestria técnica e com paixão pelos envolvidos. Percebe-se que todos estavam com “tesão” para contar esta história. Do diretor David Fincher, que pensou em cada plano de câmera, em cada detalhe para transportar para a tela a imaginação de Fitzgerald, de Swicord e de Roth; passando pela fotografia caprichada de Claudio Miranda e chegando na música encaixada como importante peça na engrenagem orquestrada pelo francês Alexandre Desplat. E o que falar dos detalhes técnicos, que fazem toda a diferença (e que dão credibilidade para a história)? Foi simplesmente perfeito o trabalho da equipe de 34 profissionais que garantiram a maquiagem dos atores – que pode ser secundária em outros filmes, mas que aqui foi importantíssimo para a história. Oscar garantido para eles, na minha opinião. Praticamente da mesma importância foi o trabalho da equipe responsável por figurino e direção de arte. Afinal, são praticamente 90 anos de mudanças visuais e de estilo mostradas como pano de fundo na tela.

NOTA: 10 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Por todos os elementos que eu comentei acima, tanto pela parte técnica do filme quanto por sua carga “filosófica”, não tenho como dar uma nota menor para este filme. Sei que assim parece que eu coloco ele no mesmo patamar de Slumdog Millionaire e Gran Torino, dois filmes recentes para os quais deu a nota máxima também. O pior é que estes três filmes são muito diferentes entre si e fica difícil de compará-los. Pessoalmente, tenho minhas preferências… Slumdog, para mim, continua tendo uma pequena vantagem em relação aos demais. Mas confesso que Benjamin Button me conquistou, assim como Gran Torino. São três grandes filmes de uma safra realmente especial.

Inicialmente eu achei que Brad Pitt havia assumido o papel de Benjamin Button desde o início. Ou seja, a partir do momento que o “garoto” envelhecido já pode sentar na mesa, achei que ele já estava lá, encarnando o personagem. Mas não. Ao olhar os créditos do filme, percebi que outros atores interpretaram Benjamin na fase “inicial” da sua vida – quando ele estava no auge da velhice corporal. São eles: Peter Donald Badalamenti II (que vive Benjamin dos anos 1928 até 1931 – quando ele passa pela igreja em que “começa a andar”); Robert Towers (dos anos 1932 a 1934) e Tom Everett (de 1935 a 1937).

A partir de 1937 o personagem de Benjamin, que então teria 19 anos na idade cronológica – e aproximadamente 60 e poucos na idade física – foi vivido por Brad Pitt. Aliás, o ator faz um trabalho soberbo, dos melhores da sua carreira. Pela primeira vez o olhar dele se tornou mais expressivo que seus trejeitos. Por boa parte do filme sua expressão sem palavras é mais importante que seu famoso sorriso. Com este papel o ator conseguiu dar um passo a mais em sua trajetória. Depois, quando o personagem rejuvenesce demais, ele passa a ser interpretado por Spencer Daniels (Benjamin aos 12 anos na idade física); Chandler Canterbury (Benjamin aos 8 anos) e Charles Henry Wyson (Benjamin aos 6 anos).

Cate Blanchett, como sempre, está maravilhosa. Mais uma vez ela comprova porque é uma das grandes atrizes de sua geração e uma das melhores da atualidade. Linda, ela interpreta todas as nuances de sua personagem complexa e cheia de dúvidas. Parece que com Daisy fica realmente comprovado que as mulheres envelhecem com mais dificuldade que os homens. 😉 Deixando a piada de lado, realmente é uma situação complicada para uma mulher ir envelhecendo enquanto o amor de sua vida vai ficando cada vez mais jovem e bonito – até um certo ponto, é claro. Porque, como nada é eterno, nem o retrocesso até a fase de bebê pode ser algo tão positivo quanto parece. Claro que essa parte foi menos explorada do que a velhice de Benjamin… até porque é difícil ver uma situação como aquela – sem contar que seria até irritante ficar acompanhando cada passo para trás daqueles pirralhos.

Além de Cate Blanchett, divina, sua personagem é vivida por outras duas atrizes muito boas. Sempre é ótimo ver a pequena Elle Fanning em cena – ela assume o papel de Daisy quando ela tinha 7 anos. Depois, Madisen Beaty encarna a personagem quando ela tinha 10 anos. A partir da adolescência a personagem passa para as mãos de Cate Blanchett.

Outros atores que valem ser citados pelo ótimo trabalho que fizeram: Jared Harris como o “artista” capitão Mike; Elias Koteas em uma “ponta” como o “Monsieur” Gateau, o homem que construiu um simbólico relógio que contava o tempo ao contrário (uma bonita analogia a história que vamos ouvir e que também nos faz pensar); Paula Gray como Sybil Wagner, uma das primeiras pessoas a ensinar Benjamin sobre a ausência que a morte provoca; e Edith Ivey como Mrs. Maple, a senhora que ensinou o personagem a tocar piano e tantas outras coisas. A verdade é que todos os atores, em papéis micro ou medianos, contribuiram para o êxito do filme.

O filme conseguiu uma boa nota pelos usuários do site IMDb: 8,5. Já os críticos que tem textos selecionados pelo Rotten Tomatoes foram menos generosos com The Curious Case of Benjamin Button do que com outros de seus concorrentes atuais: lhe dedicaram 118 críticas positivas e 46 negativas.

Mas se em notas e críticas positivas o filme está perdendo terreno para os demais, em bilheteria ele está se saindo melhor. Até o dia 2 de janeiro ele já havia arrecadado US$ 79,3 milhões nos Estados Unidos – e a produção ocupava a terceira posição na lista de filmes mais vistos. O “problema” para os produtores é que o filme custou caro – aproximadamente US$ 150 milhões – boa parte, com certeza, gasta em efeitos especiais. Vamos ver se o filme consegue se pagar e lucrar um bocado – certamente conseguirá isso se ganhar os prêmios que almeja.

Ainda não se sabe para quantas categorias do Oscar o filme será indicado, mas para o Globo de Ouro, que muitos consideram um bom termômetro para o Oscar, ele foi indicado a cinco categorias importantes. Entre elas a de melhor filme (subcategoria drama), melhor diretor, melhor ator (Brad Pitt), melhor roteiro e melhor trilha sonora. 

Achei curiosa – e acertada – uma escolha de David Fincher: por narrar uma história tão fantástica, o diretor escolheu justamente o caminho de uma narrativa realista. Pode parecer contraditório isso, mas a definição de Fincher para o seu trabalho nas notas de produção do filme nunca foi tão exata. Ao invés de enveredar para o caminho de “esta é uma história fantástica”, cheia de exageros, ele levou o filme, o seu “olhar de diretor” para o caminho do mais legítimo possível, tentando mostrar a vida daqueles personagens como ela seria na prática, cuidando do visual, da caracterização das cenas e dos personagens em cada detalhe. O resultado é que realmente a história fantástica acaba sendo crível.

Um dos momentos – de vários – que realmente me marcou foi quando Benjamin volta para casa e nota algo que eu também notei: quando uma pessoa fica um bom tempo longe de casa e finalmente volta para lá, percebe quase tudo igual, sem grandes mudanças – especialmente a respeito das pessoas -, e acaba descobrindo que quem mudou foi ele. Quem muda, não há dúvidas, é a pessoa que saiu e viveu uma série de experiências que ninguém mais sabe, que ninguém mais viveu. E sempre existe um choque entre aquele que mudou e aquele que não mudou – mas no filme o sempre sábio Benjamin parece ter passado bem pela situação, assumindo sua postura costumaz: de silêncio e observação.

A verdade é que me pareceu que ele foi um homem bem solitário, mantendo em um diário diálogos que ele não conseguia manter com mais ninguém. Por mais que sua mãe adotiva fosse boa, existia um abismo de compreensão entre eles. Por mais que Daisy fosse o amor de sua vida, ela não parecia estar disposta sempre a ouví-lo ou entendê-lo. Ele teve uma vida longa, inusitada e solitária. Talvez seja a vida que todos nós tenhamos. E acho que um pouco desta idéia está em uma das conversas entre Benjamin e Ngunda Oti (Rampai Mohadi), o viajante errante que acaba levando o velho/novo Benjamin para a sua primeira grande aventura – o que ele classificou como o melhor dia de sua vida até então. Oti disse a Benjamin que as pessoas diferentes passam boa parte de suas vidas completamente sozinhas… e que as pessoas comuns também, só que elas ainda passam suas vidas com medo. Me parece uma verdade cada vez mais fácil de acreditar, porque nos momentos derradeiros ou mais inspirados as pessoas parecem realmente estar sempre sozinhas.

No material dos produtores achei especialmente interessante a parte da pesquisa da figurinista Jacqueline West. Ela comenta que todas as roupas utilizadas nas diferentes épocas do filme foram escolhidas como “trajes do momento”, ainda que estilizados. Para sua pesquisa, por exemplo, ela se inspirou em impressionistas como Caillebotte, Edouard Manet, Toulouse Lautrec, Courbet… grandes nomes, realmente, dos quais eu já tive o prazer de ver algumas obras pessoalmente. Realmente incríveis.

Achei bacana também as referências distintas radicalmente para cada personagem. A mãe adotiva de Benjamin, Queenie, teve suas roupas inspiradas no material dos fotógrafos das WPA e FSA, agências do governo americano da época da Grande Depressão criadas para criar empregos urbanos e rurais. Enquanto isso, a inspiração para a sempre moderna Daisy na época de sua emancipação foram roupas com referência a George Balanchine, coreógrafo pioneiro, e sua mulher, Tanaquil LeClercq. A linguagem corporal e os movimentos que consagraram LeClercq também inspiraram Cate Blanchett em seu trabalho de intérprete.

O vestido vermelho de Daisy, utilizado em uma das sequencias mais bonitas do filme – momento inspirado do diretor David Fincher – foi inspirado nos desenhos de Claire McCardell, uma das maiores designers dos Estados Unidos nos anos 1940/50, a quem é creditada a invenção do American Look. Já as roupas utilizadas por Benjamin tiveram como referência ícones do cinema de diferentes décadas, como Gary Cooper nos anos 1940; Marlon Brandon nos anos 1950; e Steve McQueen nos anos 1960.

The Curious Case of Benjamin Button ganhou três prêmios até agora, além de ter (ou estar sendo) indicado a outros 19 – entre eles os cinco Globos de Ouro já comentados por aqui. Os prêmios que ele já levou para casa, até agora, foram: melhor atriz coadjuvante para Taraji P. Henson conferido pela Associação de Críticos de Cinema de Austin; e melhor diretor e melhor roteiro pela National Board of Review.

Um detalhe: o filme tem quase três horas de duração e não parece arrastado. Pontos para ele.

CONCLUSÃO: Um conto fantástico sobre um homem que nasce velho e morre criança narrado da forma mais realística possível. Um grande filme tecnicamente falando e que toca em questões fundamentais da vida e da morte, passando por diferentes nuances da fragilidade e da bravura humana. Como quase todos os filmes que contam a “trajetória de uma vida”, esta produção também quer valorizar as histórias humanas encontradas no caminho, tentando exprimir em suas duas horas e 46 minutos de filme alguns dos grandes aprendizados de uma existência. O resultado é um filme bem acabado tecnicamente falando e com várias mensagens interessantes pelo caminho, chegando bem perto de se tornar “filosofia barata” e sentimental, mas sem chegar a cair neste erro. O diretor soube conduzir a história bem perto do abismo, algumas vezes, mas evitou a sua queda. O resultado é um filme de primeiro, uma fábula inspirada em Mark Twain e F. Scott Fitzgerald. Acima da média.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Acho que com The Curious Case of Benjamin Button encontrei o grande concorrente do próximo Oscar. O filme tem todos os elementos que encantam à Academia. E o melhor (para eles): o filme não faz homenagem alguma ao modo de fazer cinema que está fora do “mercado” que eles gostam de valorizar. Diferente de Slumdog Millionaire, francamente inspirado em Bollywood. Não. Benjamin Button é pura Hollywood. Algo perfeito para ser premiado pelos interesses da Academia. E o melhor: se o filme for o grande vencedor da noite, não será uma completa injustiça.

Acho que com os comentários acima os leitores deste blog já sabem minha preferência: continua achando Slumdog melhor que Benjamin Button. Mas acho que realmente David Fincher tem mais chances de ganhar as estatuetas do que Danny Boyle (ainda que eu ache que o segundo merece ganhar mais que o primeiro). Afinal, nada melhor para a Academia que valorizar a Hollywood. The Curious Case of Benjamin Button deve ser indicado na maioria das categorias. Vejo ele sendo finalistas para melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado, figurino, maquiagem e possivelmente ainda para melhor atriz, atriz coadjuvante (Tilda Swinton merecia uma indicação), direção de arte, efeito visual, direção de fotografia e trilha sonora. Se for indicado em todas as categorias que tem chance, ele contabilizará 12 indicações.

Se a Academia resolver que ele será o filme da vez, ele poderá embolsar realmente as estatuetas de melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado, figurino e maquiagem. Mas, para isso, ele terá que deixar para trás filmes importantes como Slumdog Millionaire, Gran Torino (que talvez nem chegue a ser indicado, o que será uma pena), Frost/Nixon e Milk; Brad Pitt terá que tirar a estatueta das mãos de Sean Penn e Frank Langella (considerados favoritos); David Fincher terá que derrubar nomes que são “queridinhos” pela Academia, como Ron Howard; entre outras acrobacias. Mas sim, é possível. E dos filmes que vi até agora, se Slumdog realmente for perder para alguém, que seja para Benjamin Button.

Se as profecias se concretizarem, o casal Brad Pitt e Angelina Jolie estarão concorrendo a uma estatueta cada um no próximo Oscar. Será interessante ver a badalação das câmeras com os dois. Sei que a lista é grande para as candidatas a melhor atriz, mas eu gostaria de ver a Cate Blanchett mais uma vez por lá – ainda que ela tenha praticamente chances zero de ganhar desta vez. Se ela for indicada este ano, será a sua sexta indicação ao prêmio – ela ganhou em uma das outras cinco indicações, por seu papel de coadjuvante em The Aviator.

ATUALIZAÇÃO (05/05/2009): Ai gente, vão me desculpar, mas eu fui obrigada a baixar a nota desse filme. Fiquei “de cara” com um vídeo que eu vi que demonstra, por A+B que o roteirista Eric Roth se “autoplagiou” com este Benjamin Button. Aliás, achei ótimo o título da sátira do vídeo: “The Curious Case of Forrest Gump”. As semelhanças são demais para serem apenas “um acaso”. Ok que os dois filmes são baseados em obras diferentes – Forrest Gump em um livro, Benjamin Button em um conto, mas ainda assim… o roteirista podia pelo menos ter inovado um pouquinho, não? Especialmente em Benjamin Button, já que ele tinha apenas uma “idéia” sobre a qual poderia trabalhar. O conto no qual o roteiro se baseia é muito mais “aberto” a idéia e inovações do que o livro de Forrest Gump. Fiquei de cara e não gostei. Agora, mais do que nunca, prefiro Slumdog Millionaire – já preferia antes, mas agora ainda com mais argumentos. 😉

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Frost/Nixon

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Quem é mais ambicioso: um ex-presidente do país mais poderoso do mundo ou um apresentador de TV? Se a resposta para esta pergunta é difícil de responder em um contexto sem maiores informações, tudo fica ainda mais difícil quando se sabe da identidade dos sujeitos em questão. O tal político é, nada mais, nada menos, que Richard Nixon após sua renúncia. E o apresentador de TV, David Frost, um homem que já sentiu o sucesso nos Estados Unidos e que agora se conforma em ser reconhecido pelas ruas de cidades australianas. O embate entre os dois, em uma das entrevistas mais polêmicas e famosas da História, é o que define Frost/Nixon, novo filme do diretor Ron Howard. Bem dirigido, com ótimas atuações e “redondinho” nos demais elementos, o filme funciona, mas fica abaixo dos outros concorrentes à uma vaga no badalado Oscar.

A HISTÓRIA: Os primeiros minutos do filme fazem um pequeno resumo do que foi o crepúsculo do governo de Richard Nixon (Frank Langella). Imagens da época mostram o escândalo de Watergate, a consequente investigação dos acusados de invadir os escritórios dos democratas e a inevitável renúncia do presidente – antes que ele sofresse um impeachment. Depois desta introdução, o filme passa a narrar a saga do apresentador David Frost (Michael Sheen) para conseguir uma entrevista com o ex-presidente. As histórias de ambos, contadas em paralelo e na intimidade, acabam se entrelaçando até os dias em que ocorreram as entrevistas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Frost/Nixon): A primeira pergunta que eu fiz para mim mesma lá pela metade do filme foi: por que não fizeram um documentário a respeito? Afinal, grande parte da estrutura do filme é exatamente a de um documentário, com entrevistas “encenadas” por atores no lugar das pessoas que participaram daqueles eventos, por exemplo. Mas conforme o tempo foi passando e eu fui entendendo a intenção do diretor, percebi que realmente o filme precisava ser encenado. Sem contar, é claro, que não seria possível conseguir hoje em dia o depoimento de todos os envolvidos.

Na verdade, a idéia de narrar uma história com atores utilizando a narrativa de documentário não foi exatamente de Ron Howard. Ele seguiu o conceito de Peter Morgan, autor da peça teatral que deu origem ao filme e, também, autor do roteiro de Frost/Nixon. Inicialmente é estranho ver os atores dando depoimentos para a câmera como se eles realmente tivessem vivido aqueles dias. Fica um sentimento de “falsidade” no ar. Mas depois a gente se acostuma. E o filme acaba tendo a força que tem justamente por detalhar os bastidores daquela entrevista histórica, na busca por humanizar ao máximo cada uma das figuras ali envolvidas – especialmente os protagonistas, Frost e Nixon.

Os dois homens que acabam duelando nesta famosa entrevista eram, realmente, dois personagens. Aparentemente sem nada em comum, eles sofriam de algumas características marcantes que os uniam. Para começar, a ambição e o desejo de poder, de sentirem-se maiores, infalíveis, importantes no meio de reles mortais. Cada um a sua maneira, eles buscavam o estrelato. Frost queria ser o único a ter uma conversa com o famoso político para, com isto, voltar a ser importante nos Estados Unidos, país que ele tinha deixado depois de ter seu programa de auditório cancelado por falta de patrocínio. Nixon buscava a redenção. Queria apresentar-se como um homem injustiçado e um político importante para, quem sabe, voltar à vida pública.

Frost tinha tudo para perder a queda de braço. Bon vivant, fascinado pelo sucesso e pelos holofotes, ele era o avesso dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, os responsáveis por investigar o caso Watergate pelo Washington Post. Tanto é verdade que ele não se preparou para nenhum dos dias em que entrevistaria ao presidente – mesmo contando com uma equipe de primeira nos bastidores. Entre eles, o produtor Bob Zelnick (Oliver Platt), o diretor televisivo John Birt (Matthew Macfadyen) e o pesquisador James Reston Jr. (Sam Rockwell).

Mas Frost não estava ocupado naqueles dias apenas em participar de festas e no lançamento de um filme do qual era um dos produtores. Ele corria para buscar alguém que financiasse a sua loucura. Afinal, apenas para o ex-presidente ele pagou US$ 600 mil pela entrevista – algo que foi duramente criticado pela imprensa na época. Sem contar todo o gasto adicional para produzir a série de entrevistas – o que teria catapultado os gastos para algo em torno de US$ 2 milhões. Um verdadeiro absurdo para o orçamento de qualquer TV naquela época, os anos 70.

Por sua vez, Nixon queria sair da sua aposentadoria forçada. Ele não se sentia nada confortável longe do poder. Afinal, para ele, suas atitudes tinham sido corretas e necessárias. O problema era a “maldita imprensa” que o perseguia e os hipócritas que acreditavam que ele era o único político a usar de técnicas questionáveis durante o governo. O tempo também contribuiu para que ele aceitasse a oferta de Frost. Afinal, o homem que tinha feito aquele famoso discurso no dia 8 de agosto de 1974, renunciando ao seu cargo na 37ª ocasião em que se dirigia ao povo estadunidense pela TV, não era o mesmo que três anos depois tentava ganhar a simpatia do entrevistador e de todas as pessoas que lhe escutavam. A solidão e a distância do poder lhe conferiram uma fragilidade impensável na época em que ele governava.

Os atores Frank Langella e Michael Sheen realmente estão perfeitos em seus papéis. Eles interpretam com naturalidade cada um dos seus complexos personagens. Mas eles tiveram uma vantagem para isso: a experiência de encenar a peça homônima nos palcos de Londres e Nova York nas temporadas de 2006 e 2007. Ron Howard não apenas resolveu utilizar o autor da peça como roteirista como, acertadamente, chamou os dois protagonistas para estrelarem o filme. O resultado se vê na tela. Não por acaso eles – especialmente Langella – estão sendo indicados a quase todos os prêmios da temporada. 

Ainda que o filme acabe sendo interessante – depois de passada aquela estranheza por não estar vendo realmente um documentário e sim uma “encenação de um documentário” -, tanto por aprofundar na intimidade dos personagens quanto por narrar com maestria a tensão dos bastidores de uma empreitada ousada como aquela, não achei ele excepcional. Ele é interessante, ok. Tem ótimas atuações, uma direção competente e uma cuidadosa ambientação de época. Mas isso é tudo. Não é um filme inventivo e nem ousado. Não surpreende, apenas agrada. Pouco, perto dos outros concorrentes deste ano no Globo de Ouro e para conquistar alguma vaga no Oscar.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vendo a Frost/Nixon eu fiquei curiosa para assistir ao material original, ou seja, às entrevistas feitas entre março e abril de 1977. Como não poderia deixar de ser, aproveitaram a ocasião do lançamento do filme de Ron Howard para relançar no mercado o DVD Frost/Nixon: The Original Watergate Interviews, o material original das entrevistas. Vi uns trechos disponíveis no Youtube e realmente parece interessante ver a Nixon ora como raposa, ora como personagem acuado.

Fazem parte do elenco ainda Kevin Bacon como Jack Brennan, o braço direito do ex-presidente; Rebecca Hall como Caroline Cushing, então namorada de David Frost; Toby Jones como Swifty Lazar, o agente para Hollywood e para a TV que negociou o cachê milionário do ex-presidente; Patty McCormack como Pat Nixon, mulher do político, entre outros.

Vale destacar o competente trabalho do figurinista Daniel Orlandi, assim como do diretor de fotografia Salvatore Totino. A trilha sonora é assinada pelo veterano Hans Zimmer

Frost/Nixon conseguiu boas notas de público e crítica. Os usários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para o filme, enquanto que os críticos do Rotten Tomatoes dedicaram 136 críticas positivas e apenas 14 negativas para a produção.

O filme teria custado US$ 35 milhões e faturado, até o início de janeiro, pouco mais de US$ 6,2 milhões. Algo me diz que é o típico filme que não chama platéias – afinal, quem está tão interessado nos bastidores da política e nas entranhas da televisão? Poucos. Ainda mais que o filme não tem nenhum “grande astro” no elenco – sendo discutível este conceito, é claro.

Frost/Nixon foi indicado em cinco categorias do Globo de Ouro, entre elas a de melhor filme – drama, diretor, roteiro adaptado, ator e trilha sonora. O único prêmio que ele ganhou até agora foi o de “melhor professional do ano” para Gregory Alpert no Prêmio “California on Location”, destinado a valorizar o trabalho dos profissionais que atuam nas locações de Hollywood.

Conta a lenda que a idéia de filmar a peça teatral de Peter Morgan surgiu no ato em que Ron Howard assistiu a encenação da mesma em Londres. Ele ficou tão impressionado com o trabalho que resolveu que queria filmá-lo. A peça foi consagrada com o Tony, um dos principais prêmios teatrais do mundo. 

Na opinião de Howard, Nixon precisava do dinheiro – e seu cachê teria sido o principal motivo dele ter aceitado dar uma entrevista para o apresentador britânico. 

David Frost vai completar 70 anos em 2009. Atualmente ele trabalha para a rede de televisão Al Jazeera International, comandada pelo Sheik Hamad bin Khalifa al-Thani, líder do grupo árabe Al Jazeera. Nesta entrevista a jornalista Deborah Solomon, do New York Times, coloca Frost no paredão ao questioná-lo sobre a troca da BBC pela emissora árabe.

O filme é uma co-produção entre Reino Unido, Estados Unidos e França.

CONCLUSÃO: Baseado na peça de teatro de mesmo nome, Frost/Nixon conta os bastidores da negociação, dos dias de preparação e da posterior gravação da entrevista do apresentador David Frost com o ex-presidente Richard Nixon três anos depois dele renunciar ao seu mandato. Utilizando o tom de documentário, o filme busca humanizar os personagens famosos e, de quebra, mostrar o duelo que eles travaram em busca da melhor posição no holofote. Ambição, sede pelo poder e fragilidade se mesclam na tela em uma narrativa de “busca pela verdade”. Um filme bem narrado e com grandes atuações, mas abaixo da média dos últimos filmes que eu vi.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Frost/Nixon pode repetir no Oscar quase todas as indicações que recebeu no Globo de Ouro. Pessoalmente, eu deixaria ele de fora. Slumdog Millionaire e Milk teriam vagas garantidas. Também achei Gran Torino melhor que Frost/Nixon. Sem contar os outros concorrentes a uma vaga – aos quais eu ainda não assisti, mas dos quais ouvi falar muito bem, como O Curioso Caso de Benjamin Button, Dúvida, Apenas Um Sonho, The Wrestler, The Reader e Defiance.

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Slumdog Millionaire – Quem Quer Ser Um Milionário?

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Acabo de assistir ao melhor filme do ano. Passado, é claro. Sei que não assisti a todos os filmes de 2008 – estou longe disto, aliás. Mas de todas as produções feitas para o cinema que eu vi até agora, Slumdog Millionaire é a melhor, não há dúvida. Bem que meu espírito já havia sido preparado… tenho visto o filme sendo eleito, seguidamente, como o melhor de 2008 pela crítica especializada. Mas, ainda assim, fui conferir. Afinal, muitas vezes eu não concordo com estes seres chamados “críticos de cinema”. 😉 Só que desta vez eles estão certos. A maior homenagem que Hollywood já fez para o cinema de Bollywood é, nada mais, nada menos, que o filme do ano – com respeito a todas as demais produções bacanérrimas de 2008.

A HISTÓRIA: Jamal Malik (Dev Patel) está a um passo de ganhar 20 milhões de rúpias indianas no programa “Quem Quer ser Milionário“. Depois de acertar seguidamente as perguntas feitas pelo apresentador Prem Kumar (o astro indiano Anil Kapoor), ele já garantiu 10 milhões de rúpias, mas ainda quer continuar. A grande final será decidida apenas na noite seguinte do programa. Enquanto isso, a polícia o interroga de maneira violenta para saber se ele está trapaceando ou não. Tentando convencê-los de que é um rapaz honesto, Jamal começa a contar a sua história, desde a infância pobre na cidade de Mumbai até as razões que o levaram a entrar no programa televisivo milionário. Uma longa história de dificuldades, injustiças, desafios, esperteza, força, malandragem e, principalmente, uma magnífica história de amor.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Slumdog Millionaire): Admito que eu sou uma ignorante a respeito do cinema de Bollywood – como se chama a indústria cinematográfica da Índia, maior produtor mundial de filmes. E talvez justamente por isto Slumdog Millionaire tenha me surpreendido tanto. Já assisti a alguns filmes indianos, mas não sou nenhuma especialista. O novo filme do inglês Danny Boyle, co-dirigido pela diretora Loveleen Tandan, é uma franca homenagem ao cinema indiano. Ele bebe diretamente da fonte e veste a camisa de alguns dos elementos que definem o cinema daquele país. Ainda assim, me pareceu mais que uma “releitura” ou o que alguns poderão chamar de cópia. Slumdog Millionaire se utiliza de alguns dos melhores recursos do cinema de Bollywood mas, ainda assim, traz um ritmo e uma ótica narrativa essencialmente “boyliana”, ou seja, com a cara do diretor inglês e do cinema que ele faz algumas vezes em Hollywood, outras no Reino Unido.

Para mim, Slumdog Millionaire é um dos melhores filmes de amor que eu já vi. Além da história ser impactante e forte, ela é moderna. Se percebe o sangue novo correndo na tela… um sangue criativo, apaixonado, vigoroso. Destes filmes em que se entende a atual velocidade do mundo porta de casa afora. E o melhor: sem uma bandeira ianque tremulante aparecendo em cena ou mesmo yuppies ou endinheirados. Não. Slumdog Millionaire conta a história de um cara mais que comum, marginalizado mesmo, que vai adiante pelo que ele quer. E não é ser milionário, o que é o mais cômico. A fortuna que ele ganha é, por incrível que isso possa parecer, um acidente de percurso. O que ele quer mesmo é encontrar a Latika (a indiana Freida Pinto). 

Para mim, Slumdog Millionaire coloca os filmes de romance em um novo patamar. Desde que eu critiquei P.S. I Love You neste blog, choveram comentários de pessoas defendendo o filme. Gostaria de saber o que estas mesmas pessoas vão achar de P.S. I Love You depois de assistirem a este Slumdog Millionaire. Bem, isso se elas conseguirem ver um pouco da crueza que o filme mostra. Porque ele não é só flores. Pelo contrário. Mostra parte de uma realidade que poucos estão dispostos a ver – da mais dura pobreza no mundo, de locais que fazem as favelas do Rio parecerem um condomínio luxuoso. Mas se as pessoas estiverem dispostas a ver crueldade, violência e um pouco da realidade de um país como Índia – e tantos outros -, vão se deparar com uma belíssima história de amor. E que coloca, vão me desculpar, P.S. I Love You mais que no chinelo.

Uma das primeiras sequências do filme, quando o grupo de garotos – incluindo os irmãos Jamal e Salim – é perseguido por seguranças de um campo de aviação próximo da periferia de Mumbai, já mostrou do que os diretores eram capazes. Aquela sequência me ganhou. A partir daí, o filme só cresce, o que é incrível. De longe a direção de Slumdog Millionaire é a melhor que eu vi entre os filmes de 2008. Realmente impressionante. Danny Boyle e Loveleen Tandan conseguem imagens impressionantes, valorizando o ritmo e o sentimento dos personagens. Algo que parece contraditório e que muitos diretores não conseguem resolver – ou privilegiam o ritmo ou os personagens -, mas que aqui se resolve perfeitamente.

Então além de uma direção perfeita, temos em cena uma edição de imagens das mais trabalhosas, assim como uma direção de fotografia que garante a qualidade das imagens – com uma luz impressionante – nas situações mais diversas. Não importa se é dia, se é noite… se estamos vendo um beco escuro ou um estúdio de televisão. Tudo se vê perfeitamente, com cores ressaltadas, ao melhor estilo Bollywood. Méritos do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle e do editor Chris Dickens

E o roteiro? Perfeitamente costurado, com vários vais-e-voltas que não fazem confusão na cabeça de ninguém. Aliás, fora o início, no qual sabemos que Jamal Malik está distante apenas uma resposta do prêmio máximo do programa televisivo, todo o restante da narrativa são duas linhas contínuas narrativas. Vejamos: enquanto Jamal explica como sabia responder cada uma das perguntas do programa para o inspetor policial (o astro indiano Irrfan Khan) vamos, em paralelo, acompanhando o seu crescimento desde a infância. Até o “grand finale” do filme, são duas linhas paralelas constantemente intercaladas correndo na nossa frente, até que passado e presente se juntam para nos contar o desenrolar desta história. O roteiro, primoroso, é de autoria do inglês Simon Beaufoy – autor do recentemente comentado por aqui Miss Pettigrew Lives for a Day. Para escrever esta história ele se baseou no romance best-seller Q & A (que recebeu o título em português de Sua História Vale Um Bilhão), de Vikas Swarup.

E o elenco? Corresponde à altura a direção e o roteiro. Todos os atores, sem exceção, estão muito bem em seus papéis. Começando pelas crianças: Ayush Makesh Khedekar (Jamal), Rubina Ali (Latika) e Azharuddin Mohammed Ismail (Salim) – especialmente os irmãos peraltas e fujões que devem enfrentar cedo o drama de estarem sozinhos no mundo. Passando pelos pré-adolescentes: Tanay Hemant Chheda (Jamal), Tanvi Ganesh Lonkar (Latika) e Ashutosh Lobo Gajiwala (Salim). Nesta segunda fase, Latika já se destaca pela beleza – e Salim lembra bastante algum personagem de Cidade de Deus. 😉 Nesse momento também se intensifica a diferença entre os irmãos: Salim busca poder e dinheiro, fascinado pelo mundo que alguns conseguiram “criar” (no crime), enquanto Jamal procura o seu amor (que já sabemos quem é). Mas os personagens na fase praticamente adulta é que dão um show, especialmente Jamal e Latika. Ainda que valha citar o trabalho competente de Madhur Mittal como o Salim pau-mandado do mafioso Javed (Mahesh Manjrekar).

Como acontece com todas as escolas e vertentes do cinema, Slumdog Millionaire fascina especialmente a pessoas como eu, nada especializadas no cinema de Bollywood. Explico: o filme deve ter o impacto que tem, pela qualidade técnica e, especialmente, pela inovação narrativa, para os que não estão acostumados aos elementos que normalmente caracterizam este tipo de filme. Quanto mais uma pessoa assisti de um mesmo gênero ou escola cinematográfica, mais exigente ela vai ficando e cada vez menos ela se surpreende com um produto do gênero. Tenho curiosidade – e faço aqui um convite aberto para essas pessoas escreverem comentários – para saber o que os especialistas em Bollywood diriam deste filmes meio inglês, meio indiano. Pessoalmente, achei uma bela homenagem.

Mas o que verdadeiramente me fascinou no filme foi a narrativa, tanto o roteiro propriamente dito – desenrolar da história, diálogos, etc. – quanto a maneira com que ele foi contado (a direção). Gostei, especialmente, da “interpretação” do roteirista e do diretor de uma das principais características do cinema de Bollywood: a música como elemento fundamental da narrativa. Ao invés de inserirem na história, volta e meia, alguma cena de dança e cantoria (curtos “musicais” narrativos que caracterizam as histórias para o cinema indiano), eles preferiram colocar a música para narrar vários momentos da história dos irmãos de Mumbai. Com isso, o filme consegue um meio termo entre o cinema indiano e o feito no Ocidente (especialmente por filmes europeus que valorizam mais a trilha sonora do que a média dos que são produzidos em Hollywood).

A música continua sendo fundamental para a história, como acontece no cinema de Bollywood, mas sem interromper a narrativa para inserir “clipes” de dança e dublagem musical (os atores só “interpretam” o que verdadeiros artistas musicais apresentam) no meio. O resultado é a valorização do carácter humano dos personagens (com abundância de primeiros planos e “planos americanos”) na mesma medida em que se ressalta os acontecimentos sem grandes legendas – em outras palavras, nestes momentos se valoriza a ação e não o discurso. Exemplos do quanto este recurso funciona bem: além da sequencia inicial do filme, da fuga dos garotos de uma pista de pouso particular, destaco a fuga deles para o trem; a vida que eles passam a levar se aproveitando das viagens sem pagar nada pelos vagões do trem e a tensão de toda a audiência do programa Quem Quer Ser Milionário – inclusive Latika – para saber o que acontecerá com Jamal (sem contar as sequencias na estação de trem). Aliás, quer referência maior ao cinema clássico de Hollywood (desta vez o H no lugar do B) do que a escolha de uma estação de trem para o encontro do casal que tenta fugir para uma vida feliz?

Alguém pode dizer (SPOILER – realmente não leia daqui para a frente porque eu vou estragar algumas das surpresas do filme): apenas em filme um homem pode ter a sorte que Jamal teve, com todas as perguntas do programa saindo sobre temas que ele conhecia – aprendendo sobre eles, na maioria das vezes, de maneira trágica. Sim, o garoto realmente teve sorte. E contou também com muita sabedoria de sua parte para vencer o golpe que o apresentador do programa tentou lhe pregar – o que foi fichinha para alguém que passou pelo que passou na vida de garoto de rua. E para comprovar que, mesmo sorte e malandragem não são tudo nesta vida, a pergunta final do programa foi pura ironia. Não poderia existir ironia maior para os irmãos “mosqueteiros” e para a sempre rejeitada/desejada terceira integrante da irmandade (Latika) do que aquela pergunta. E a resposta? Esta sim, veio de pura sorte – ou não, como defende o próprio filme.

Falando nas “mensagens” do filme – ele tem muitas -, fiquei especialmente interessada em uma. (SPOILER – esse é um dos grandes). Quando Jamal pergunta para a Latika: “Por que todos amam este programa?”, se referindo a Quem Quer Ser Milionário, e ela responde “É uma chance de espacar, não é?”. Genial. Muitas vezes eu me perguntava por que as pessoas se “prestam” a se expor em programas de perguntas como aquele ou em situações piores em busca de dinheiro. Claro que a resposta óbvia seria: elas precisam. Mas não, existe algo maior do que simplesmente pagar as contas ou colocar alimento para dentro de casa. As pessoas buscam um sonho – e muitas vezes ele está justamente na fuga de uma situação que elas estão vivendo atualmente e que consideram impossível de escapar. No fundo, dinheiro significa partir para outra direção, uma ruptura possivelmente radical da vida que elas passaram a assumir sem realmente desejar. Até hoje eu não havia visto uma definição melhor do que a que aparece em Slumdog Millionaire.

E daí, nesta “corrente” de perguntas do gênero, eu fiz para mim mesma o seguinte questionamento: Por que tantas pessoas gostam de filmes assim? Ou então: Por que tantas pessoas amam filmes que contam histórias de amor? A resposta a segunda pergunta é simples: porque elas gostariam de viver uma história assim – quando, em muitos casos, elas vivem relações medíocres ou de um amor “forçado”, sem ser visceral ou “perfeito” como as histórias que aparecem nos contos de fadas ou nos filmes do gênero de Hollywood. (SPOILER – não leia o resto do parágrafo se você ainda não viu ao filme). Mas a resposta para a primeira pergunta vai um pouco além disso. As pessoas devem gostar tanto – e acho que me incluo um pouco neste grande grupo – de Slumdog Millionaire porque o filme conta a história de um “destino escrito”, irrefutável, impactante. Acho que o sonho de muita gente é que isso realmente fosse verdade… que realmente cada um de nós estivéssemos destinados a uma outra pessoa ou a uma realidade interessante independente do que aconteça. Não importa o quanto trocamos os pés pelas mãos, o quanto erramos com pessoas que não eram “o nosso destino”… uma hora chegaremos a ele e seremos felizes. Desejamos o seguro impossível. E por isso, ao vê-lo em uma história como a de Slumdog Millionaire, ficamos satisfeitos. Gostaríamos que essa história de destino fosse verdade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou curioso sobre o nome do filme, ele é, na verdade, autoexplicativo. “Slumdog” seria algo como “cachorro de rua”, e “Millionaire”, claro, “milionário”. O título faz referência a história de Jamal, um garoto de rua que acaba concorrendo a um prêmio milionário em um programa televisivo. Não imagino o título que o filme vai receber ao chegar no mercado brasileiro – provavelmente algo absurdo e bem distante da mensagem original, como costuma acontecer.

Slumdog Millionaire está faturando um prêmio seguido de outro. Até agora ele recebeu 21 prêmios e foi indicado a outros 17 – incluindo quatro indicações ao Globo de Ouro. Mas mais que números, o que interessa é a qualidade destes prêmios. A maioria deles foi ganha na categoria principal, de melhor filme do ano, e na de melhor diretor, conferidos por associações importantes. Entre elas, a do Conselho Nacional de Crítica Cinematográfica (o National Board of Review), a Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix e pelo British Independent Film Awards. No balanço geral, o filme ganhou como o melhor do ano em cinco das 11 seleções feitas por círculos de críticos norte-americanos – os outros prêmios foram divididos entre outros cinco filmes. 

Mas além da crítica especializada, Slumdog Millionaire está conquistando o público. No site IMDb o filme conquistou a nota 8,7 – colocando-o na posição 42 da lista dos 250 melhores filmes de todos os tempos. Para se ter uma idéia, ele só perde, entre os filmes lançados nos anos 2000, para outros sete filmes – sendo três deles da grife Senhor dos Anéis. Dos filmes de 2008, estão na frente de Slumdog Millionaire, nesta lista, Batman – O Cavaleiro das Trevas (o maior êxito de 2008 em todos os sentidos) e Wall-E (que aparece na 34ª. posição).

Mas são os críticos que realmente estão fazendo reverências ao filme. O site Rotten Tomatoes, especializado em agrupar os textos dos críticos que escrevem em jornais e revistas mundo afora, acumula 149 críticas positivas e apenas 10 negativas para Slumdog Millionaire. De bilheteria o filme está tendo um desempenho razoável até o momento. Considerado de baixo orçamento, Slumdog Millionaire teria custado US$ 15 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia 2 de janeiro, ele teria faturado pouco mais de US$ 28,7 milhões – muito abaixo dos US$ 79,3 milhões do seu concorrente O Curioso Caso de Benjamin Button

Produzido pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos, o filme é falado em inglês e em hindi (principal idioma falado na Índia).

A produção foi essencialmente filmada na cidade de Mumbai, na Índia. Para quem não sabia nada desta cidade, como eu, ela nada mais é que Dumbai (ou Bombaim). 😉 Ou seja: uma das principais cidades indianas, com 13 milhões de habitantes atualmente e considerada o principal portão de entrada do país. Também é considerada a capital comercial e do entretenimento do país. E ela é, adivinhem? A capital do cinema de Bollywood. 

Para quem gostou da trilha sonora – realmente um dos pontos fortes do filme, bem moderna e potente -, ela é assinada por A.R. Rahman.

Só para constar: eu vi a Slumdog Millionaire há dois dias… comecei a escrever este texto pouco depois de terminar de assistí-lo, mas apenas agora vou conseguir concluí-lo. Digo isso mais para registro próprio, para que eu saiba quando o assisti. 🙂 De qualquer forma, minha opinião sobre ele continua sendo a mesma.

Acredito que todos lembrem bem de Danny Boyle. Ele foi o homem que impressionou a todos há exatos 13 anos quando filmou a Transpotting, um dos melhores e mais inventivos filmes sobre drogas e a “vida torta” de jovens ingleses do cinema. Um filme moderno que virou clássico… o diretor demorou pouco mais de uma década para nos apresentar algo da mesma grandeza, mas em Slumdog Millionaire temos o resultado – ainda que sem comparação com Transpotting, é claro, porque são filmes com temas e abordagens extremamente diferentes.

CONCLUSÃO: Uma franca homenagem ao cinema de Bollywood (como é chamada a indústria do cinema e da TV indiana), este filme une alguns dos melhores elementos da produção cinematográfica indiana, do cinema tradicional de Hollywood e do estilo moderno do diretor inglês Danny Boyle. Tecnicamente perfeito, com uma narrativa sempre acelerada e instigante, o filme nos conta uma história de amor e de luta pela sobrevivência de primeira grandeza. Considerado por muitos o melhor filme de 2008, Slumdog Millionaire conta uma história moderna em um ambiente de desafios diários – o subúrbio indiano – de maneira primorosa.

PALPITES PARA O OSCAR 2009: A maior premiação da indústria cinematográfica dos Estados Unidos sempre pode nos surpreender, deixando para trás alguns franco favoritos – em suas chamadas e famosas injustiças. Ainda assim, me arrisco a dizer: Slumdog Millionaire deve chegar ao Oscar 2009 como um dos maiores indicados da temporada. Vejo a produção concorrendo em várias categorias: melhor filme, diretor, edição, roteiro adaptado, som e, quem sabe, alguma música até na categoria de melhor canção. Acho difícil – ainda que ele mereça – uma indicação de Dev Patel como melhor ator. Mas além das indicações, o que o filme pode levar para casa? Acho que, francamente, praticamente tudo para o qual ele for indicado. Ele tem reais chances de vencer como melhor filme, diretor, edição e roteiro adaptado. O que já estaria muito bom. Mas isso se ele vencer fortes concorrentes – tanto no quesito qualidade quanto, e principalmente, no quesito lobby.

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Milk – A Voz da Igualdade

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Como transformar a história de um homem que perdeu repetidas vezes na política até conseguir ganhar uma eleição em algo interessante? E não estou me referindo ao Lula, o presidente do nosso Brasil. Falo de Harvey Milk, o primeiro ativista gay dos Estados Unidos a vencer uma eleição defendendo a causa da igualdade de direitos para gays e lésbicas. Apenas um diretor como Gus Van Sant e um elenco formado pelos californianos Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsch, entre outros, para apresentar uma história que tinha tudo para ser “chata” (pela parte política) ou panfletária (pela parte da causa gay) em um filme de primeiríssima. Não é por acaso que Milk vem acumulando prêmios e é uma das produções mais cotadas para o próximo Oscar.

A HISTÓRIA: O filme conta a história de Harvey Milk (Sean Penn) do seu aniversário de 40 anos até a sua vitória nas eleições para conselheiro distrital por São Francisco, em 1977. Cronologicamente, o filme conta a história do executivo de Wall Street que abandonou tudo para viver uma vida abertamente gay em São Francisco desde que ele se muda de Nova York para a Califórnia até os acontecimentos logo posteriores ao seu aniversário de 48 anos. O filme mostra a vida de Milk desde a fase quase “hippie” até a de político “visualmente certinho”, contando no trajeto suas histórias amorosas, resumidas principalmente pelas relações com Scott Smith (James Franco) e Jack Lira (Diego Luna); e sua luta pelos direitos civis e, principalmente, da comunidade gay, com a ajuda de apoiadores e agentes fundamentais em suas campanhas como Cleve Jones (Emile Hirsch), Anne Kronenberg (Alison Pill), Dick Pabich (Joseph Cross), Jim Rivaldo (Brandon Boyce), Michael Wong (Kelvin Yu), o fotógrafo Danny Nicoletta (Lucas Grabeel), entre outros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Milk): Logo no início do filme o roteiro de Dustin Lance Black termina com qualquer suspense sobre o futuro de Harvey Milk para pessoas que, como eu, não sabiam da história deste ícone da luta pelos direitos dos gays nos Estados Unidos: sim, ele será assassinado. Como JFK. Bem, não exatamente da mesma forma, mas sim, com tiros também. Achei importante o filme logo no início deixar isso claro, porque daí termina o suspense sobre o que vai acontecer no final e, com isso, o espectador pode se concentrar em tudo o que vem no meio, ou seja, na história toda da transformação de Milk.

Gus Van Sant é um dos grandes responsáveis pelo filme ter a força e a qualidade que ele tem. Realmente este é um dos grandes trabalhos do diretor, que contou com naturalidade e bastante energia a história do político que ajudou a movimentar os Estados Unidos nos anos 70. Boa parte do filme mostra os bastidores do movimento social que começou a provocar a mudança no país sobre a aceitação plena da homossexualidade. Com a história de Harvey Milk é possível entender como o movimento gay conseguiu se unir, se fortalecer e ser ouvido. Como o próprio político afirma, o importante é fazer ruído, é chegar ao poder e  ser ouvido. A vida de Milk a partir do início dos anos 70 foi buscar isso, ainda que para conseguir seu objetivo ele teve que abdicar de sua vida pessoal.

Outro grande responsável pelo êxito do filme é o roteirista Dustin Lance Black. Tudo bem que não faltou material para ele pesquisar sobre Harvey Milk – incluindo o documentário The Times of Harvey Milk, de 1984, premiado com o Oscar -, mas, ainda assim, seu roteiro mede com colherinhas pequenas as doses precisas de cada elemento: comédia, drama, um pouco de suspense e militância política. Como eu disse no início deste texto, não é nada fácil transformar a história de um político em algo realmente interessante e revigorante.

Voltando novamente a Gus Van Sant. O diretor resgatou imagens da época e as colocou no filme de maneira precisa, dando ainda mais peso a história. Palmas também para o editor Elliot Graham – o mesmo de Quebrando a Banca (21). Aliás, tecnicamente falando, o filme é perfeito. Fiquei encantada, por exemplo, com o figurino assinado por Danny Glicker – para mim, ele deveria concorrer ao Oscar. Merecem igualmente crédito por nos ambientar tão perfeitamente aos anos 70 o trabalho do diretor de arte Charley Beal e pelo cenografia de Barbara Munch. Sem falar da trilha sonora do sempre competente Danny Elfman.

Agora, sem dúvida, o trabalho do elenco é responsável pela força do filme. Sean Penn está assombroso no papel-título. Seria fácil qualquer um deslizar em algum momento em algum exagero no tom do personagem – afinal, o ator não é gay e poderia, perfeitamente, estereotipar um. Mas não. Ele realmente incorpora Harvey Milk de maneira perfeita. Assim como James Franco, para mim o segundo melhor na lista dos intérpretes. Fiquei abismada com a maneira natural com que ele interpretou Scott Smith do início até o final do filme. Os dois, aliás, fazem um casal dos mais bonitos que eu já vi em cena, com muita sintonia e carisma – e para os homófobos de plantão, além de um tratamento psicológico urgente, eu sugiro distância deste filme, já que não faltam beijos entre os casais gays e nem cenas de “quase-sexo”. 

Outra pessoa que reafirmou o seu talento foi Josh Brolin. Para mim ele está no mesmo patamar de James Franco. Os dois, ao lado de Sean Penn, dão um show de interpretações. Por outro lado, achei que Emile Hirsch ficou um pouco “abaixo” dos demais. Algumas vezes me pareceu que ele caiu no exagero. O mesmo posso falar de Diego Luna – em seu primeiro grande papel em Hollywood (depois do elogiado Mister Lonely). Certo que existem gays de diferentes “tipos” e que atuam de maneiras diversas – como “ursos”, “barbies”, etc. – mas, ainda assim, os dois não me convenceram tanto quanto os outros que aparecem em cena. Estão bem, apenas isto… não chegam a estar fantásticos.

Gostei também do ator Victor Garber como o prefeito George Moscone, que acaba apoiando Milk ao perceber a força que este supervisor por São Francisco tinha entre os eleitores. Falando na força dele, achei especialmente interessante a campanha e posterior lei defendida por Milk para que os proprietários dos cães da cidade fossem responsáveis pela “caca” dos seus animais. Um dos grandes momentos do filme, sem dúvida. Assim como a luta de Harvey e de Scott para conseguirem montar e manter a loja deles de fotografia. 

O emocionante do filme, contudo, não é apenas contar a história real destas pessoas de maneira esteticamente perfeita. O que emociona é ver os bastidores de uma causa popular, entender como o movimento gay conseguiu se unir e ser ouvido e, lembrando da mensagem final e do que isso tudo simboliza, perceber o quanto é importante lutar pela igualdade das pessoas. Ou como diz Harvey Milk no final (SPOILER: não leia se não quiser estragar a surpresa): o importante é seguir lutando para que as pessoas tenham esperança. Porque a vida só tem sentido se existe a tal esperança. E isso para todas as pessoas, não apenas para os gays – e ele cita demais extratos da sociedade que ainda são marginalizados. Admito que me emocionei com o final. E, realmente, o homem que vemos em cena era muito, mas muito bom no debate político e em seus discursos. 

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei uma nota alta para o filme porque, para mim, todos os elementos nele funcionam perfeitamente. Da direção inspirada de Gus Van Sant até as atuações do elenco, a reconstrução de época, a maneira com que a história é contada. Em nenhum momento a equipe deixa a “peteca cair”. Discursos políticos não se tornam repetitivos ou chatos. Os romances de Harvey Milk são interessantes. A luta política nos bastidores também. Será um filme cultuado entre os gays e, possivelmente, visto com certa ojeiriza pelos que “não gostam muito” do tema. Aliás, sugiro que os preconceituosos fiquem longe do filme – não irão gostar, realmente. 

O filme foi todo rodado em São Francisco – com uma direção de fotografia muito competente e precisa nos tons pastéis de Harris Savides, colaborador antigo de Gus Van Sant. Os dois trabalharam juntos em cinco produções – e Savides ainda foi o responsável pelas ótimas fotografias de American Gangster e Zodiac, entre outros.

Algo curioso do filme é como Harvey Milk conseguiu superar o preconceito ainda dominante na época e uniu, com sua atuação política, a grupos tão diferentes quanto a terceira idade e os sindicalistas. Ele lutava pelos gays, mas não apenas para eles. Milk buscou sempre agregar as pessoas, lutar pelas causas justas e ouvir, mais que a média dos políticos, o que as ruas lhe diziam. Não sei até que ponto a história contada por Black e Van Sant “santifica” o homem, mas se a sua história for realmente parecida com o que se vê na tela, ele foi um grande visionário.

Milk enfrentou “peixes grandes”, incluindo o senador pela Califórnia John Briggs (Denis O’Hare) e a “estrela da TV”, cantora e política de projeção nacional Anita Bryant. Incentivando nos bastidores o ativismo nas ruas e através de seu carisma, ele conseguiu derrubar na Califórnia a Proposição número 6, que defendia que os professores gays fossem demitidos das escolas públicas. 

Apenas me pareceu um pouco confuso o espaço que Milk e White desempenhavam no governo. Só lendo as notas de produção do filme é que entendi que Harvey Milk foi eleito conselheiro distrital pela zona número 5, que compreendia o bairro Castro e alguns outros próximos a ele; e que Dan White (Josh Brolin) foi eleito conselheiro pela zona 8 – ou seja, eles não teriam que “lutar” pelos mesmos eleitores, necessariamente.

Também descobri que Milk foi ganhando populariedade por leis como a que atendia a terceira idade – a da “caca dos cachorros” – e a que exigia um desenho mais prático para as máquinas de votação (um que pudesse ser compreensível para todos os cidadãos). Com a ajuda da defensora dos direitos da mulher e também conselheira distrital Carol Ruth Silver (Wendy Tremont King) ele consegue aprovar quase por unanimidade – exceto pelo voto negativo de White – uma lei que garantia os direitos dos gays em São Francisco. Justamente em uma época em que Anita Bryant fazia campanha pelos meios de comunicação pelo país contra os gays – e apelando para a “moral, os bons costumes e a tradição familiar”. Ou seja: Milk literalmente nadou contra a corrente e venceu. Não é por acaso que ele seja cultuado pelos gays norte-americanos.

Também não achei que ficou claro no filme a reação de Dan White, mas lendo as notas de produção entendi o que ocorreu. Vendo o sucesso de Milk em São Francisco, White resolveu pedir demissão de seu cargo de conselheiro distrital. Ok, até aí o filme explica bem. O que a produção não deixa claro depois – pelo menos para mim – é que ele decide voltar atrás e pedir o cargo para o prefeito de volta. Depois que teve o pedido recusado é que ele se revoltou e partiu para a ignorância. Um maníaco descontrolado, em resumo. 

Aliás, os bastidores da política, com negociações e lutas pelo poder são tratados de forma interessante no filme. Outro ponto à favor de Milk. 

Também ficou mais clara a alegação de inocência por parte de White quando ele foi julgado, em janeiro de 1979. Ele alegou descontrole mental provocado pelo isolamento, a “falta de intimidade” com sua esposa (interpretada por Hope Tuck) e por uma dieta que consistia em uma ingestão exagerada de doces – o que tornou a sua defesa conhecida como “defesa Twinkie“, um popular doce recheado bastante consumido no país.

Achei curioso também que o documentário The Times of Harvey Milk foi lançado justamente no ano em que Dan White conseguiu a liberdade condicional – e o filme ganhou o Oscar pouco menos de sete meses antes dele se suicidar

Em 1999 a revista Time, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, inclui Harvey Milk na sua lista dos “100 heróis e ícones” do século 20. Em 2008 foi aprovada a criação do Dia Harvey Milk, que poderá ser celebrado na data de nascimento do político, dia 22 de maio – isso se o governador Arnold Schwarzenegger aprovar a lei.

Achei curiosa a influência de Barcelona na história. Afinal, foi a imagem impressionante das passeatas gays na cidade espanhola que inspiraram Cleve Jones a “importar” a mesma coragem e trabalho pelas ruas para São Francisco. 

As notas de produção do filme contam que o roteirista se interessou pela história de Milk ao assistir ao documentário oscarizado que narrava a trajetória do político assassinado. Como gay, ele achou importante resgatar a história do “Martin Luther King” do grupo. Para isso, Dustin Lance Black foi atrás das pessoas que conviveram com Milk e que continuam vivas, começando a série de entrevistas com Cleve Jones. Uma das grandes contribuições para o projeto foi a de Michael Wong, que deixou para o roteirista uma cópia de um diário pessoal que tinha da época das campanhas políticas de Milk.

Black comenta que uma de suas principais metas era a de se centrar nas relações que foram importantes em sua trajetória política, relações pessoais que se cruzavam com as relações políticas, segundo o roteirista. Curioso que ele afirma que Harvey Milk se “meteu na política por amor”, ao afirmar que a vontade dele em fazer com que Scott Smith fosse aceito e de que eles tivessem uma relação aberta em uma época em que era ilegal manter relações homossexuais é o que lhe motivou a seguir a carreira política. 

Um dos produtores, Bruce Cohen – que ganhou o Oscar por American Beauty ao lado do produtor Dan Jinks – disse que o roteiro consegue a proeza de fazer o filme ser “íntimo e épico” ao mesmo tempo. Boa definição. 

Milk tem impressionado a crítica, em especial. O público também, mas em uma medida menor. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,3 para o filme, mas os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos: dedicaram 149 textos positivos para o filme e apenas 12 negativos.

Além da opinião de público e crítica, Milk tem acumulado prêmios e indicações. Sean Penn ganhou seis vezes como melhor ator por sua interpretação como Harvey Milk, e Josh Brolin ganhou duas vezes por seu papel como Dan White. Penn também foi indicado ao Globo de Ouro por sua interpretação. O Círculo de Críticos de Cinema de Nova York e a Southeastern Film Critics Association ainda consideraram Milk o melhor filme do ano – a segunda ainda premiou o roteiro de Dustin Lance Black. 

A produção teria custado US$ 15 milhões e faturado, em três semanas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,5 milhões. Pouco. Parece que ele não vai chegar ao grande público.

Outro ponto interessante da história é o de valorizar a idade com a qual Milk “despertou” para a vida. Até os 40 anos, como ele mesmo disse, ele não tinha feito nada… só a partir daí, e muito realmente impulsionado pelo amor, ele começou a fazer história. Ou seja: nunca é tarde para fazer a sua parte em mudar injustiças – e transformar a realidade, ainda que a local, para melhor.

CONCLUSÃO: Um filme bem escrito e, principalmente, bem dirigido sobre o “nascimento político” de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a vencer uma eleição nos Estados Unidos. Seguindo a sua natureza como diretor, Gus Van Sant se aprofunda em todos os aspectos da vida do político, mostrando com detalhes seus romances, os bastidores do movimento gay em São Francisco, na Califórnia, a quebra-de-braço dele nas entranhas do poder e muito mais. Um filme completo e bastante direto. Recomendado para todos que se interessam pela luta pela igualdade entre as pessoas e pela bandeira dos direitos civis – assim como para os interessados em saber como o movimento gay conseguiu tanta força e voz nos Estados Unidos.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Milk tem grandes possibilidades de ser indicado em várias categorias do Oscar. Muitos acreditam – e eu devo segui-los – que Sean Penn é um nome garantido entre os cinco indicados na categoria melhor ator. Também acho que o filme tem boas chances de ter alguma indicação na categoria de ator coadjuvante – possivelmente Josh Brolin, ainda que eu ache que James Franco merecia ser reconhecido também -, como roteiro original, figurino e diretor (eu gostaria de ver Gus Van Sant entre os finalistas). Mas eu acho, mesmo sem assistir aos outros concorrentes – ainda, porque logo poderei comentar praticamente todos por aqui -, que dificilmente Milk sairá como vencedor em muitas categorias. Ainda que o filme seja um manifesto de coragem e uma produção humanista, acho que ele não sairá vencedor como melhor filme, por exemplo. Talvez Sean Penn consiga levar a estatueta para casa – ainda que a disputa seja dura. Pessoalmente, não sei se ele merece ganhar mais do que Clint Eastwood, por exemplo. Ou que outro dos atores bem cotados para a disputa – como Frank Langella. Penn está melhor que Eastwood, é claro, mas fica difícil escolher entre os dois. 😉 Resumindo: acredito sim que Milk tem grandes chances de ser indicado em muitas categorias, mas acho difícil ele ganhar de outros fortes concorrentes neste ano.