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Man on Wire – O Equilibrista

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Tem pessoas que pensam o impossível e conseguem realizá-lo. Por mais louco que o plano possa parecer na hora da concepção, do “insight”. É sobre a história de um sujeito que conseguiu o impossível – e para muitos, o impensável – que trata Man on Wire, um dos documentários pré-concorrentes do Oscar deste ano. A produção conta a história de Philippe Petit, o homem que com a ajuda de alguns amigos – e outros colaboradores pontuais – conseguiu, em 1974, o impensável: atravessar o vão que separava as Torres Gêmeas (ou o tão conhecido e extinto World Trade Center) como um equilibrista. Além de ser uma história interessantíssima, o documentário consegue algo nem sempre fácil neste tipo de produção: adotar, como em uma sinfonia, o tom exato da mensagem em cada detalhe da narrativa. Em outras palavras, tornar igualmente artística a parte “ficcional” do filme, respeitando a “alma” do trabalho do personagem retratado em todos os detalhes da produção. Realmente interessante.

A HISTÓRIA: O filme começa como um relato de um assalto à banco. Três homens e uma mulher, inicialmente, narram seu plano ousado para burlar a segurança e entrar nas vigiadas torres do World Trade Center. Então o filme volta vários passos para trás e conta a história do personagem principal desta trama: Philippe Petit. Um garoto que cresceu tendo idéias criativas e que, aos 17 anos, ficou maravilhado com o projeto do que seriam os maiores edifícios do mundo – pelo menos durante os anos de 1972 e 1973. Na hora que ele viu no jornal a imagem dos edifícios, ele teve o “insight” de atravessá-los em um cabo de aço. O ano era 1966 – quando foi colocada a pedra fundamental do projeto. Mas Philippe Petit conseguiria a proeza, utilizando técnicas de espionagem e seguindo um plano audacioso, apenas em 1974. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Man on Wire): Os documentários, normalmente, são recheados de depoimentos e da “reconstrução dos fatos” através de narrativas. Muitas vezes são utilizadas também imagens reais – especialmente quando o documentário trata de alguma situação ou história que pode ser acompanhada do início ao fim. Na verdade, existem muitos tipos de documentários, mas a maioria deles mescla justamente depoimentos com imagens que “narram” a história, sejam elas reais ou “dramatizações” do que aconteceu.

Nem sempre um documentário, contudo, consegue carregar em cada trecho a “alma” do que está sendo contado. Não é nada incomum perceber “cortes” na narrativa quando se mesclam diferentes recursos para contar uma história. Mas não é isso que acontece com Man on Wire. O filme dirigido pelo inglês James Marsh consegue captar em cada momento o espírito do que Philippe Petit fez até 1974, quando conquistou o “topo do mundo” – como era chamado o posto de observação da Torre Sul do complexo World Trade Center.

Algo curioso do filme é que ele trata de muitos conceitos, além da história propriamente dita desta obsessão de Pettit em se aventurar pelos 43 metros que separavam as Torres Gêmeas. Do início ao fim o documentário mostra a importância da amizade, os efeitos da fama e, principalmente, a obstinação do artista por viver uma vida fora das regras, buscando a poesia no banal. O curioso é que para alguns esse sujeito podia parecer apenas um louco, um homem sedento por fama, mas para outros ele foi (e é, porque continua vivo) um visionário, um artista pós-moderno antes mesmo deste conceito ser criado e/ou virar moda. 

Independente da conclusão que cada um chegar com a vida deste homem – e com o documentário que conta a sua aventura nos Estados Unidos -, o fato é que a produção quebra um pouco o “lugar-comum” dos documentários. Para começar, o filme trata a história do trabalho do equilibrista no World Trade Center como uma verdadeira história policial. Existe suspense em grande parte dos 94 minutos do filme. Ainda que se saiba de antemão que o homem vai conseguir atravessar aqueles famosos 43 metros que separavam os edifícios, a sensação é que algo de errado pode acontecer a qualquer momento. E no final, algo que nem sempre acontece com as produções do gênero: você fica louco para querer saber o que aconteceu com aquele sujeito.

Os depoimentos são muito bons. Petit, como o artista que se vê como estrela internacional há 34 anos, faz o que sabe melhor: vender seu peixe. Falar com entusiasmo de algo que realmente lhe apaixona: o desafio e, claro, o maior feito de sua vida. Mas além dele, os demais personagens desta história acabam propiciando um filme realmente emocionante. Especialmente Jean-Louis Blondeau (aqui encontrei um texto interessante da Vanity Fair sobre uma exposição fotográfica dele), braço-direito de Pettit, escudeiro do artista e um de seus melhores amigos que, claramente, mostra o quanto sente a falta do velho companheiro – e também a maneira com que ele se sentiu traído por ele. Suas declarações, perto do final do filme, são de arrepiar. Também gostei muito do sentimento que o diretor conseguiu sacar de Annie Allix, ex-companheira de Petit, e de Jean François Heckel, outro francês que acompanhou a aventura até o final – e que tem um senso de humor realmente peculiar.

Algo bacana dos depoimentos, tanto dos franceses quanto dos estadunidenses que participaram do projeto “atravessar o vão das Torres Gêmeas sobre um cabo de aço”, é que ninguém usa meias palavras. Quem precisa admitir que fumava maconha, admite. Quem deve comentar o medo que sentiu e porque saiu correndo de uma das torres, comenta. O tom dos depoimentos é essencialmente bem-humorado. 

E as imagens? Realmente belíssimas. Claro que para isso o diretor contou com uma sorte gigantesca, já que os entrevistados certamente contribuíram com imagens originais da época, tanto em vídeo quanto em fotografias. Algumas realmente incríveis, magníficas, inspiradoras. E não apenas do desafio das Torres Gêmeas. Fiquei especialmente impressionada com as que registraram a travessia das torres da Notre Dame, em Paris. Lindíssimas. Um artista visionário, realmente.

Algo curioso do filme, para mim, é que ele deve interessar inclusive para as pessoas que normalmente fogem de documentários, já que, como eu disse antes, ele tem uma narrativa essencialmente de suspense. E, de quebra, estas e as demais pessoas que assistirem ao filme vão perceber que intervenções artísticas urbanas como a de Pettit e seus amigos, consideradas contravenções pela polícia e pela lei, exigem muita técnica, preparo e, principalmente, planejamento. Cada detalhe é estudado como um plano de assalto à banco, realmente. Quem aceitar o desafio, verá um artista realizando seu sonho e, de quebra, entender um pouco mais sobre o que move um sujeito assim, os sentimentos de seus “comparsas” a maravilha que eles provocam na vida de pessoas mundo afora.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor James Marsh consegue um resultado realmente interessante não apenas pela forma com que narra essa história, mas especialmente pelos detalhes que vai salpicando aqui e ali em sua narrativa. Desde o foco da câmera nos esboços feitos por Petit antes de concretizar seu plano, quando consegue subir nas Torres Gêmeas pela primeira vez; até a sequência magistral em que o ator que o interpreta se desnuda para sentir o fio que prendia a flecha que seu amigo Blondeau havia lançado da outra torre – parte fundamental do plano da travessia.

Falando na dramatização das cenas, vale a pena citar os nomes dos atores que interpretam os personagens reais desta história: Paul McGill (Petit), David Demato (Jean Louis), Ardis Campbell (Annie), Aaron Haskell (Jean François) e David Roland Frank (Alan). E citando todos os entrevistados do documentário: David Forman, Barry Greenhouse, Jim Moore e Alan Welner, os estadunidenses que ajudaram Petit de alguma maneira – alguns mais diretamente, outros facilitando sua entrada e de seus companheiros nos edifícios.

Algo especialmente importante neste filme é a trilha sonora. Mérito de J. Ralph, que faz um trabalho realmente maravilhoso. Sem a música que imprime diferentes tons na produção, o filme teria metade de sua levada envolvente.

Também gostei muito do trabalho do editor Jinx Godfrey e do diretor de fotografia Igor Martinovic.

Um detalhe me chamou a atenção – e posso estar sendo maldosa ao comentar isso: um certo “preconceito” e/ou resistência dos franceses a respeito dos norte-americanos que aparecem nesta história. Jean-Louis e Annie, em especial, comentam repetidamente que “aquelas pessoas” não eram nada confiáveis – se referindo aos colaboradores que Petit havia arranjado em Nova York. Senti realmente uma resistência deles – algo que virou quase uma lenda quando se falam dos franceses. Pessoalmente, viajei para a França duas vezes e percebi, realmente, que eles odeiam falar inglês e que não gostam do que vem dos Estados Unidos. Talvez isso tenha influenciado um pouco a opinião dos amigos de Petit em relação aos demais “ajudantes” estadunidenses – se bem que, sejamos honestos, nenhum deles acompanhou o projeto até o final. Eles eram, sem dúvida, menos apaixonados que os franceses nesta história.

Para mim, além de um documentário interessante sobre a arte contemporânea, sobre um artista que fazia intervenções artísticas urbanas em uma época em que isso não era nada comum, o filme se mostra ainda mais potente ao narrar um sonho e uma maneira de “ser” transgressora, questionadora. O belo pode ser provocado em quase qualquer lugar, especialmente quando se confronta a fragilidade/bravura humana com a grandiosidade do que os homens conseguiram criar. É como se a beleza surgisse justamente do local menos esperado, na antítese entre o que parece extremamente artificial/cinza com a suavidade/originalidade de um balé pelo ar. O homem desafiando a lógica consegue, realmente, inspirar.

Na Wikipedia existe um artigo realmente bem informativo sobre o World Trade Center. Ali é possível saber, por exemplo, que a pedra fundamental do projeto foi colocada em 6 de agosto de 1966 – mesmo mês escolhido em 1974 por Petit e sua trupe para sua “grande aventura”. Foi ali também que eu descobri que o espaço entre as duas torres era de 43 metros e que Petit atravessou este vão oito vezes a uma altura de 400 metros do solo. 

Neste outro artigo da Wikipedia descobri que as torres do World Trade Center foram consideradas as maiores do mundo no período de 1972 – quando foram concluídas – até 1974 (quando foi inaugurada a Sears Tower, em Chicago, com 442 metros de altura – 25 metros a mais que as Torres Gêmeas). Também soube que atualmente o maior edifício do mundo é o Taipei 101, com 508 metros de altura, construído em Taiwan. Mas logo ele perderá o seu posto de maior para o Burj Dubai, em fase de construção, que terá impressionantes 707 metros de altura e 158 andares.

Procurei saber o que aconteceu com Petit depois deste grande feito, quando ele deixou de ser um artista reconhecido apenas em sua França natal para ser um nome conhecido em todo o mundo. A verdade é que ele não mudou muito sua vida depois de 1974, quando tinha 24 anos. Continuou suas andanças sobre cabos de aço, passando da Avenida Amsterdam até a Catedral St. John the Divine ou pela Torre Eiffel. Em seu currículo, desde que começou suas aventuras, ele tem mais de 500 prisões e a publicação de seis livros, segundo este artigo do New York Times. Também perdeu sua filha única, Cordia Gypsy, quando ela tinha nove anos e meio. 

O escritor Paul Auster, consagrado romancista norte-americano, considera Petit um herói. 

Man on Wire têm sido um fenômeno, especialmente de críticas. Ele conseguiu a nota máxima do site Rotten Tomatoes – todos os 136 textos de críticos publicados pelo site são positivos para o filme. Uma rara, muito rara unamidade. Tanto que na eleição dos melhores filmes do ano, feito pelo site, ele é considerado o melhor documentário de 2008. Os usuários do site IMDb também deram uma boa nota para o filme: 8,2.

Até nas bilheterias o filme não foi assim tão mal. Conseguiu quase US$ 3 milhões nos Estados Unidos. Pode parecer pouco, mas se tratando de um documentário, até que não é um desastre. Se ele ganhar o Oscar, deve ter um desempenho muitíssimo melhor.

Falando em prêmios, até agora Man on Wire conseguiu 12 deles – além de ter sido indicado para outros sete. Entre os prêmios que conquistou, destaque para dois embolsados no Festival de Sundance de 2008: o Grande Prêmio do Júri e a Escolha do Público – ambos na categoria documentário. Os demais prêmios foram conferidos, na maioria, por associações de críticos. Mas ele ainda levou outro importante prêmio de festival, o de Karlovy Vary; além do Satellite Awards e do prêmio do National Board of Review

CONCLUSÃO: Um documentário que foge um pouco do padrão ao assumir a postura de um filme policial e/ou de suspense para contar a história do homem que atravessou os 43 metros que separavam as Torres Gêmeas, em Nova York, em uma corda bamba em 1974. Com um bom ritmo e uma mescla perfeita entre depoimentos, imagens de arquivo e “dramatizações” da época, Man on Wire é uma das boas surpresas do ano. Destaque também para a trilha sonora fundamental e para o estilo do diretor, cuidadoso e inspirado. Destas histórias de sujeitos que decidiram romper com o convencional e que se tornaram inspiração para gerações de artistas e de pessoas comuns.

PALPITE PARA O OSCAR: Man on Wire é um dos 15 documentários pré-selecionados para o Oscar. Ele não tem uma tarefa fácil para chegar a entrar na lista dos cinco indicados, mas há quem diga que ele tem uma vaga garantida. Eu acredito que sim – ainda que, admito, não assisti a nenhum outro concorrente ainda. Mas comento isso com base na unanimidade da crítica comentada anteriormente. Difícel falar das chances dele sem ter assistido ainda a outros fortes concorrentes, como Standard Operating Procedure, Encounters at the End of the World e Trouble the Water, mas acredito que Man on Wire tem boas chances de ser indicado e de ganhar a estatueta. Logo que tiver visto mais documentários, volto a atualizar este post.

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Üç Maymun – Three Monkeys – Os Três Macacos

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A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas divulgou, no dia 13 deste mês, a lista dos nove pré-selecionados à categoria de melhor filme estrangeiro para o próximo Oscar. No próximo dia 22 os cinco finalistas serão revelados. Mas um dos nove que estão concorrendo às disputadas vagas é este filme turco Üç Maymun. Eu esperava um pouco mais do filme, para ser franca, especialmente porque eu tinha gostado bastante de To Verdener e de Gomorra, dois filmes que ficaram de fora da lista dos nove pré-selecionados. Com isso não quero dizer que o filme não seja bom. Não, ele é bom. Só que achei ele previsível demais. O que acaba lhe salvando, realmente, é a direção de fotografia, exuberante e fundamental para a história, e as interpretações corretas dos atores.

A HISTÓRIA: O político Servet (Ercan Kesal, co-roteirista do filme) dirige sozinho em uma estrada praticamente deserta. É noite e ele está com sono. A câmera mostra suas reações ao volante e, depois, permanece imóvel enquanto seu carro desliza pela estrada, até ele fazer uma curva e desaparecer. Depois, um casal freia bruscamente ao ver um corpo caído na estrada. Com medo, eles decidem não fazer nada com a pessoa, que poderia estar morta ou viva, mas decidem anotar a placa do carro que está parado pouco depois e chamar a polícia. Servet liga para seu motorista, Eyüp (Yavuz Bingol), e lhe oferece uma grande quantia em dinheiro para que ele se entregue em seu lugar – afinal, é época de eleições. Eyüp aceita a oferta, o que acaba desencadeando uma série de fatos que vão desestabilizar a sua família para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos fundamentais do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Üç Maymun): Quando Servet faz aquela “proposta indecorosa” para Eyüp, eu sabia que as coisas não iriam acabar bem. Todos nós sentimos isso, não é mesmo? E não apenas porque se tratava de um político tentando “tirar o seu da reta”, como tantos fazem por aí, mas porque essa história de pagar o dinheiro quando o homem saísse da cadeia… (SPOILER – realmente não leia para não estragar surpresas). Ok que eu errei sobre o golpe. No final o tal político pagou o dinheiro, mas puxou o tapete da família por outro lado. Tão ou mais complicado quanto se não tivesse honrado a promessa feita.

Tem gente realmente burra. Primeiro, Eyüp por aceitar aquela proposta, possibilitando que sua mulher, Hacer (Hatice Aslan) e seu filho, Ismail (Rifat Sungar) ficassem sozinhos de seis meses a um ano (no final das contas, sua pena foi de nove meses). Uma idéia nada boa. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Pelo visto Hacer não era das mulheres mais fiéis ou recatadas do mundo. Digo isso porque parece que ninguém – especialmente Eyüp – se surpreendeu tanto com a traição dela. Depois, não era o melhor momento do pai de família deixar o filho um tanto “desregrado” sem controle. O garoto vinha de reprovações no colégio, se envolvendo com grupos um tanto perigosos e, além disso, estava desempregado. Boa coisa não poderia sair realmente de nove meses de prisão.

Mas a cobiça, ah, a cobiça!! Ok que é difícil julgar uma pessoa como Eyüp, que ganha uma miséria para ser o motorista de um político e para garantir a vida da família em um bairro suburbano turco. Aliás, que paisagem magnífica as lentes do diretor e roteirista Nuri Bilge Ceylan nos mostra! Um lugar realmente impressionante – e que serve para a história como qualquer outro dos seus personagens. A paisagem acaba transformando alguns momentos um tom mais opressores, um pouco mais angustiantes e com aspecto de catástrofe. O que só demonstra a sensibilidade de Ceylan em captar os elementos que o cercam. O diretor escreveu o roteiro de Üç Maymun ao lado da mulher, Ebru Ceylan, e do ator Ercan Kesal. 

Como disse lá no início, achei o filme bastante previsível. Ok que errei a respeito do dinheiro. (SPOILER – recomendo que você não continue a ler se você não assistiu ao filme). Achei que realmente o tal Servet não iria pagar. Mas depois, quando ele começa a ter um caso com a mulher de Eyüp… isso foi bem previsível (por todos os sinais que a mulher deu ao procurar o político em seu gabinete). Também foi previsível a descoberta do caso pelo filho – ainda que o vômito tenha sido imprevisível. 😉 E o grand finale… achei esperada a atitude de Ismail (até esperava que ele fizesse isso antes). E a mulher, hein? Hacer realmente parecia não ter noção do perigo. Mesmo depois que o marido saiu da prisão, ela se ajoelhava para que o amante continuasse o caso com ela. Isso que é contar com a sorte.

Agora, para não dizer que tudo no filme é previsível, realmente me surpreendeu a atitude de Eyüp. (SPOILER – não leia se você não quiser estragar o final do filme). Ele fazer a mesma oferta que corrompeu a sua família e os levou para uma crise sem precedentes a um outro sujeito, mais pé-rapado que ele… é de matar. O pobre Bayram (Cafer Köse), órfão de pai e mãe e vivendo de favores, acabou sendo tentado pelo homem que sabia onde ofertas assim vão parar. Neste momento o filme ganhou pontos, porque realmente ele acaba sendo um canto triste sobre a Humanidade e os rumos que ela está dando para si mesma. Afinal, como conta o folclore japonês que originou o conto dos três macacos, se os homens fossem alheios ao mal, viveríamos em paz e harmonia. Mas em lugar disso, sofremos com o mal e o disseminamos. E existe ainda quem reclame do que lhe acontece de ruim… ok que nem todos são assim, mas existe muita gente por aí que faz isso, se contamina e dissemina o mal.

Fora o final um pouco surpreendente – e incômodo -, eu diria que a grande vantagem do filme é sua direção de fotografia, assinada por Gökhan Tiryaki. Realmente impressionante o trabalho dele. Ok que a paisagem ajuda muito, mas a fotografia do filme se destaca especialmente pela luz captada nos abundantes closes dos personagens, assim como em um ou outra visão “distanciada” da câmera das tragédias que se prenunciam. Aliás, curioso isso… mas quando algo de ruim vai acontecer, as lentes de Ceylan parecem querer ficar longe da tragédia – vide momentos antes do acidente de carro e o momento em que Hacer discute com o amante. 

Gostei também dos atores. Este é um daqueles filmes com elenco reduzido, em que a história gira em torno de um pequeno grupo de personagens. E como é uma produção bem escrita e os atores são competentes, o elenco limitado não prejudica em nada o nosso interesse pela história. Pelo contrário. Como no teatro, acabamos nos aprofundando mais nos sentimentos e nas “vidas” destas pessoas. De todos os atores, gostei especialmente do trabalho de Yavuz Bingol. O homem diz tudo com suas expressões – o momento em que ele se esconde na penumbra desejando que a mulher se mate é um dos grandes momentos do filme, para mim. Assim como a briga dele com a mulher adúltera na cama do casal – isso porque, até então, ele apenas presumia a traição.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Realmente me desculpem os fãs deste filme e deste diretor, mas eu não consegui dar uma nota melhor para Üç Maymun. Ainda que tecnicamente o filme seja muito bom, acho que faltou um pouco mais de inovação para a história – tanta na narrativa quanto no estilo de filmagem. Gostei da sensibilidade do diretor e dele ter colocado a paisagem como um elemento a mais na narrativa, mas ainda assim achei ele pouco original.

O filme concorreu a dois importantes prêmios no último Festival de Cannes: como melhor filme e como melhor diretor. Acabou levando o segundo para casa. O primeiro ele perdeu para o francês Entre Les Murs – que outra vez está concorrendo com ele à uma vaga no Oscar.

Üç Maymun é uma produção da Turquia com a França e a Itália. Tudo “em casa” – leia-se Europa (ainda que parte do país pertença ao Oriente Médio).

A produção conquistou a nota 7,6 entre os usuários do site IMDb. Como costuma acontecer com filmes estrangeiros (especialmente os que não são falados em inglês), poucos críticos assistiram ao filme e publicaram seus textos no Rotten Tomatoes. Apenas sete fizeram isso – e todos com avaliações positivas para Üç Maymun.

Antes que eu me esqueça de comentar: outras duas cenas impressionantes do filme… quando Ismail olha pela fechadura o quarto da mãe (sem que vejamos o que ele está vendo, técnica de suspense tradicional e maravilhosa) e, especialmente, a “aparição” do irmão morto pelo corredor. Incrível a sugestão do diretor para a figura de um alienígena e, depois, a constatação ainda mais assustadora da visão de um ente querido morto. O garoto (Gürkan Aydin) ainda dá o “ar de sua graça” em outros momentos. Realmente muito bom!

Todos já ouviram falar da história dos “três macacos”… um não vê, outro não fala e o terceiro não ouve. É uma famosa analogia para as pessoas que não querem encarar a verdade – quando ela é dura demais. Mas buscando um pouco mais a origem desta história, descobri aqui que a origem dos três macacos é baseada em um trocadilho japonês. Os nomes dos macacos, neste trocadilho, são: mizaru (o que cobre os olhos), kikazaru (o que tapa os ouvidos) e iwazaru (o que tampa a boca). Seus nomes seriam traduzidos por “não ouça o mal, não fale o mal e não veja o mal”. Segundo o provérbio, a expressão “mizaru kikazaru iwazaru” é uma forma de “lembrar que se os homens não olhassem, não ouvissem e não falassem o mal alheio”, viveríamos em paz e em harmonia. 

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre o descontrole que toma conta da vida de uma família quando seu patriarca decide assumir a culpa de um crime que não cometeu em troca de dinheiro. Se destaca na produção a paisagem, tratada como mais um elemento narrativo (consequentemente a direção de fotografia do filme), o trabalho dos atores – um elenco reduzido – e do diretor. Uma história pesada e narrada em uma velocidade abaixo dos padrões de Hollywood – e tão próxima do “jeito de fazer cinema” europeu. Um bom filme, ainda que por demais previsível.

PALPITE PARA O OSCAR: Üç Maymun pode até chegar a estar entre um dos cinco finalistas na categoria melhor filme estrangeiro, mas duvido muito que ele ganhe. Não acho que ele tem méritos para isso. Francamente, gostei mais de To Verdener e de Gomorra, duas produções que acabaram ficando de fora da lista para uma vaga pelo gosto da Academia, do que dele. Não tive ainda oportunidade de assistir a Waltz With Bashir, Entre Les Murs ou The Baader Meinhof Complex, para mim três dos favoritos ao prêmio, mas posso adiantar que acho difícil Üç Maymun ganhar a estatueta dourada. 

SUGESTÃO DE LEITORES: Üç Maymun estava na minha lista de filmes estrangeiros para ser vista desde que a Academia divulgou os indicados por cada país para o Oscar deste ano. Mas ainda que ele estivesse na minha lista, queria dizer que o super participante leitor deste blog, o Mangabeira, sugeriu que eu comentaste ele por aqui e, também por causa de seu pedido, estou publicando a crítica agora. Logo mais vou tentar assistir aos outros filmes pré-indicados ao Oscar, mas este filme turco ganhou a dianteira graças à sugestão do Mangabeira. Agora é sua vez, meu bom rapaz, de falar do filme aqui. Manda ver em teu comentário, ok? Um abraço e obrigada pela sugestão. 

P.S.: Aviso aos demais leitores deste blog que eu sempre anoto os filmes indicados e que, passado este Oscar 2009, tentarei colocar em dia a minha lista de filmes sugeridos por vocês. Já consegui vários títulos comentados aqui anteriormente e, logo que sobrar um tempo, vou assistí-los e publicar as críticas por aqui. Usando um velho bordão: Aguardem e confiem!

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Changeling – A Troca

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Eu tinha adiado ver a Changeling por um bocado de tempo. Para ser franca, tinha medo de ver uma Angelina Jolie fraca em um filme de Clint Eastwood. Mas devo admitir que me surpreendi. A atriz não decepciona. Pelo contrário. Para mim ela deveria estar entre uma das cinco indicadas para o próximo Oscar. Logo se vai levar a estatueta para casa… não acho impossível, mas talvez apenas improvável. E o filme… me surpreendeu também com uma história impactante. Eu esperava algo mais água-com-açúcar, ainda que não dá para mentir, se trata de uma história bem dramática, mas com ingredientes bastante críticos no meio – o que torna o filme menos chato. A corrupção policial, especialmente, ganha bastante destaque no roteiro, mais do que eu esperava.

A HISTÓRIA: Christine Collins (Angelina Jolie) divide sua rotina entre os cuidados com o filho único, Walter (Gattlin Griffith), e o trabalho de responsabilidade como uma supervisora de uma companhia de telefonia. No dia 10 de março de 1928 ela acaba sendo chamada para substituir uma funcionária doente e adia a ida ao cinema com Walter. Quando ela se despede do filho, não sabe que esta seria a última vez que o veria. Dado como desaparecido, ele passa a ser procurado pela polícia, até que no dia 20 de julho um garoto é deixado em um bar/restaurante. Pouco depois, a polícia o apresenta como sendo Walter, mas Christine insiste que não se trata de seu filho. Começa então uma disputa entre a mãe desesperada para saber o que aconteceu com o filho desaparecido e a polícia que tenta desacreditá-la publicamente. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que existem trechos do texto à seguir que contam momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Changeling): Eu tinha ouvido um certo “burburinho” de críticas negativas para Angelina Jolie. Por isso tinha ficado um pouco reticente em assistir a este filme – mesmo sabendo que o diretor era Clint Eastwood, que adoro. Mas, como sempre, ele não me decepcionou. Realmente é um filme bem interessante, tanto por reconstruir a Los Angeles dos anos 20 e 30 quanto por contar uma história verídica um bocado forte e densa. 

Bem verdade que o filme trata, essencialmente, da luta de uma mulher para buscar o seu filho. Luta essa que provocou uma verdadeira revolução em uma realidade de corrupção e injustiça. Claro que Christine Collins não conseguiu tudo isso sozinha. A ajuda do Reverendo Gustav Briegleb (John Malkovich) foi fundamental para que ela fosse resgatada e não passasse como “mais uma louca” que difamava a polícia local. Também foi fundamental a interferência do reverendo na busca de um dos melhores advogados da época, S.S. Hahn (Geoffrey Pierson) – que se ofereceu para defender a causa de Christine de graça. Sem a ajuda deste dois, ela não teria conseguido nada.

O filme tem momentos realmente arrepiantes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A aflição de Christine na estação de trem, quando a polícia tenta convencê-la de todas as maneiras que aquele menino que ela não reconhece é seu filho; e o momento em que ela busca uma resposta do serial killer Gordon Northcott (o ótimo Jason Butler Harner) na véspera dele ser executado, são de matar. Realmente momentos impactantes e de grande tensão. 

Impressionante as manobras da polícia para tentar convencer a opinião pública de que eles estão fazendo bem o seu trabalho. Em uma época em que o trabalho deles era questionado por figuras como o Reverendo Gustav Briegleb, figuras como o capitão J.J. Jones (Jeffrey Donovan) e o seu chefe, James E. Davis (Colm Feore), correm para mostrar trabalho e resultados para a imprensa – que, aliás, cai como uma patinha na maioria das histórias vendidas por eles. O que, convenhamos, acontece até hoje – as “fontes oficiais” são pouco questionadas e, normalmente, o que elas dizem é simplesmente reproduzido por jornais, rádios e televisões.

Pois é neste cenário que tentam “plantar” na casa de Christine Collins um garoto que ela sabe que não é seu filho. Que desespero pode ser maior: o desaparecimento de um filho único ou a luta contra o trabalho de convencimento da polícia de que você está ficando louca por não aceitar uma criança que não é sua em casa? Não é de se admirar como aquela mulher conseguiu provocar o maior protesto já visto pela cidade até aquele momento. As pessoas realmente se comoveram com a sua história – e não é para menos. Exatamente 80 anos depois do desaparecimento do garoto e do início desta história, o drama de Christine continua emocionando.

Para variar, Clint Eastwood pratica uma direção mais do que correta. Ele consegue medir com colherinhas precisas cada elemento do filme, não deixando o drama tomar conta totalmente da telona – ainda que a história chegue bem perto disto uma ou outra vez. Mérito também, é claro, do texto do roteirista J. Michael Straczynski. Jornalista que trabalhou para publicações como The Times e Herald Examiner, Straczynski mergulhou fundo em arquivos históricos sobre o caso dos Collins. Para escrever o roteiro ele buscou informações em jornais da época, fitas com entrevistas e os registros públicos das audiências entre Christine Collins e a Câmara Municipal. Segundo o roteirista, em entrevista para o Los Angeles Times, ele ficou impressionado com a obstinação daquela mãe, que “lutou tão duramente por seu filho e hoje ninguém se lembra disto”. Realmente foi um belo resgate do roteirista de uma história comovente.

Ainda assim, pelo que andei lendo por aí, muitos consideraram a interpretação de Angelina Jolie histérica demais. Ao ler um artigo do Los Angeles Times sobre a verdadeira história de Christine Collins, realmente parece que a mulher merecia uma interpretação um pouco mais “séria”. Pelas fotos que vi dela neste blog e pelo que andei lendo, ela seria muito mais “dura” e obstinada do que o que Angelina Jolie nos apresenta. Ainda assim, gostei do filme, especialmente de personagens “secundários” como o assassino dos garotos e o advogado que acaba lutando contra o sistema policial.

Achei curioso também que foi realmente verdade a criação daquele grupo de policiais “justiceiros”. Eles eram chamados de “esquadrão das metralhadoras” e tinham como lema cuidar para que os bandidos fossem capturados mortes, e não vivos. Quem diria que Los Angeles já teve o seu próprio esquadrão da morte policial! E depois falam do BOPE. 😉

Também é verídico todo aquele tratamento absurdo do capitão responsável pelo caso, J.J. Jones, com a mulher. Quando ela foi levar o filho “falso” para a delegacia, apresentando provas de que ele não era o mesmo garoto que tinha desaparecido de sua casa – entre as provas o laudo do dentista do filho e depoimentos de pessoas que o haviam conhecido -, ele realmente a ridicularizou, inclusive culpando-a por não assumir as suas responsabilidades de mãe. Um verdadeiro absurdo.

E ela realmente foi enviada para um hospital psiquiátrico que era conhecido como “asilo para insanos”. Essa parte do filme, tanto o trabalho cruel da polícia em obrigá-la a aceitar um garoto que não era o seu filho – simplesmente para não admitirem que haviam errado mais uma vez – quanto o seu calvário em um manicômio condizente com os desmandos dos policiais são momentos que dão uma quebra na choradeira e mostram a força do caráter de Christine Collins. Outra mulher daquela época, em seu lugar, teria cedido à pressão da polícia e teria se calado. 

Algo que o filme mostra e que foi diferente na realidade é a maneira com que o “filho falso” de Christine revelou a verdade. Segundo o texto do Los Angeles Times, o garoto teria revelado que seu nome verdadeiro era Arthur Hutchins enquanto Christine estava no manicômio e pouco antes do serial killer de garotos ter sido encontrado. Não foi muito difícil, aliás, ele revelar que tinha 12 anos de idade e que tinha fugido de Illinois com a esperança de chegar em Los Angeles e conseguir ver o seu ídolo, o caubói Tom Mix

Quando eu assisti a Changeling achei um pouco estranha aquela história do serial killler… afinal, o homem pegava os garotos sozinhos nas ruas apenas para matá-los depois? Algo me parecia estranho. Normalmente estas histórias envolvem também abuso sexual. E não deu outra… ao ler a reportagem do Los Angeles Times a minha dúvida foi esclarecida. Realmente Gordon Stewart Northcott pegava os garotos para depois aprisioná-los, abusar sexualmente deles e, finalmente, matá-los. O número preciso de garotos com os quais ele fez isso não é preciso, mas presume-se que mais de 20. Neste artigo da Wikipedia também falam mais destes crimes – com foto do demente, inclusive -, revelando, entre outros datos, que Northcott abusou sexualmente de Sanford Clark, então com 14 anos, e que matou suas vítimas com a ajuda de sua suposta mãe, Sarah Louise Northcott. Gordon teria sido fruto de um incesto e sofrido abuso sexual de mais de uma pessoa da família. Um verdadeiro circo de horrores.

Falando em acertos do filme, gostei também da interpretação de Eddie Alderson como o adolescente Sanford Clark, coagido por Northcott para ser seu cúmplice e que, no final, foi quem revelou todo o caso para a polícia. O garoto está muito bem no se papel – o momento em que ele conta o que aconteceu para o detetive Lester Ybarra (o competente Michael Kelly) e, depois, quando ele mostra o local em que os garotos foram enterrados são, na minha opinião, dois dos melhores momentos de Changeling. 

Tecnicamente falando o filme é perfeito, como costumam ser os filmes do Sr. Clint Eastwood. A reconstrução de época é exemplar – e nada fácil, especialmente porque mostra várias cenas externas, de rua, o que muitos filmes de época evitam porque é algo muito trabalhoso. Mas com o trabalho primoroso do diretor de fotografia Tom Stern, da direção de arte de Patrick M. Sullivan Jr., da decoração de Gary Fettis, e especialmente do figurino de Deborah Hopper, o filme consegue resgatar o espírito daqueles anos difíceis – lembrando que 1929 foi o ano da quebra da bolsa de Nova York. Mas todos estes elementos não seriam suficiente sem a trilha sonora jazzística e inspirada de Clint Eastwood, um apaixonado pela música (com muito talento, diga-se).

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o segundo filme em que o desaparecimento de uma criança é tratado pelo diretor Clint Eastwood. Segundo ele, na reportagem do Los Angeles Times citada antes, os crimes contra crianças são os mais abomináveis e estariam, na lista do diretor, no topo para justificar uma punição capital. Pai de três filhos, ele disse que ao fazer um filme sobre este tema é apenas possível imaginar o que sentiria uma pessoa em uma situação como a de Christine Collins. Eastwood ainda comenta que Angelina Jolie ficou muito afetada com o tema porque ela é mãe e pôde, assim, colocar-se ainda mais na pele da mulher que interpretava. 

Durante o tempo em que eu trabalhei em um jornal impresso, fiz uma reportagem sobre crianças desaparecidas. Realmente é impossível explicar a dor e a aflição de mães e pais em uma situação como essa, de constante incerteza, dor e luta por saber o que aconteceu ou, melhor, onde estão os seus filhos. 

Segundo a reportagem do Los Angeles Times, o capitão J.J. Jones foi indiciado a pagar US$ 10,8 mil para Collins, como reparação, mas na verdade ele nunca pagou esta quantia. Depois de serem afastados do departamento de polícia, Jones e o seu chefe, James E. Davis, voltaram a atuar no mesmo local – inclusive com Davis voltando a ser chefe em 1933.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Pessoalmente, Clint Eastwood acredita que Walter Collins foi morto no rancho em que ocorreram os outros assassinatos, mas como o corpo do garoto de 9 anos nunca foi encontrado, o filme termina sem uma conclusão a respeito – mas mostrando uma verdade: que a mãe dele continua com esperanças de encontrá-lo e seguiu procurando-o até o fim da vida.

Vale citar o trabalho do ator Denis O’Hare como o Dr. Jonathan Steele, coordenador do hospício para onde a mãe de Walter é mandada; assim como o de Peter Gerety como o repugnante Dr. Earl W. Tarr (que testemunha contra Christine Collins sob pedido da polícia local). Talvez muita gente não vá reconhecer Amy Ryan como Carol Dexter, a prostituta que denuncia um policial que a perseguia e que, por isso, acaba sendo enviada para o mesmo hospício em que está Christine Collins. Eu não tinha reconhecido ela, pelo menos. Afinal, ela está muito diferente de sua caracterização como Helene McCready, de Gone Baby Gone, papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar 2007.

E falando em atores, uma curiosidade: faz uma ponta no filme a filha de Clint Eastwood, Morgan Eastwood. Ela é a garota que aparece em um triciclo quando Christine Collins começa a buscar o filho na vizinhança.

Segundo as notas de produção do filme, Los Angeles em 1928 estava “nas mãos de uma infra-estrutura política ditatorial, liderada pelo prefeito George E. Cryer (Reed Birney) e executada pelo Chefe de Polícia James E. Davis e por seu esquadrão oficial armado que aterrorizava a cidade como achava melhor”. O tal do Davis era apelidado de “Dois Revólveres”, porque sempre aparecia fotografado com duas armas… algo bem típico de bandidos, não?

Curioso também que as mesmas notas de produção comentam que foi a mãe que pagou a viagem do suposto filho de DeKalb, no Illinois, até Los Angeles. E que a polícia estava sendo cobrada pela falta de ineficiência em resolver este e outros casos de desaparecimento, assim como pela má “onda” de denúncias de corrupção. Achei que estes outros abusos da polícia poderiam ter sido mostrados no filme.

O tal “Código 12” ao que se referem algumas pessoas no filme era utilizado como referência a indivíduos – normalmente mulheres – incovenientes ou difíceis. Segundo as notas de produção do filme, Christine Collins ficou três semanas com o garoto que se passava com seu filho em casa, antes de levá-lo para a delegacia e ser enviada para a instituição psiquiátrica – onde passaria cinco dias antes de ser solta.

O garoto que se passou por Walter Collins, Arthur Hutchens, teria tido a idéia de se passar pelo menino desaparecido depois que o freguês de um café de beira de estrada em Illinois teria comentado que ele se parecia com Walter. Segundo as notas de produção do filme foi aí que Arthur bolou um plano de se entregar para a polícia local se passando por Arthur, com a esperança de ir até Los Angeles e, depois, chegar a Hollywood para se encontrar com o ídolo Tom Mix. 

Changeling têm conseguido notas razoáveis de público e de crítica. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,1 para a produção, enquanto que os críticos que têm seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 103 críticas favoráveis e 71 negativas para o filme – quase um equilíbrio, algo que os outros concorrentes a alguma vaga no Oscar não registram.

Até o dia 4 de janeiro o filme tinha acumulado uma bilheteria de pouco mais de US$ 35,7 milhões nos Estados Unidos. Não está mal, mas acredito que o número está abaixo do que os produtores esperavam.

Changeling têm se mostrado um filme bom em indicações a prêmios – mas ruim para ganhá-los. Até agora ele recebeu apenas o prêmio de melhor atriz para Angelina Jolie no Satellite Awards. A atriz foi indicada também ao Globo de Ouro, mas perdeu para Kate Winslet. Clint Eastwood foi indicado ao mesmo Globo de Ouro pela trilha sonora do filme, mas ele acabou sendo deixado para trás pela trilha sonora de A.R. Rahman por Slumdog Millionaire.

CONCLUSÃO: Um filme denso sobre o desaparecimento de um menino e a busca desesperada de sua mãe por ele em uma época dura em Los Angeles: o final dos anos 20. Baseado em uma história real, o filme faz um importante resgate de uma história esquecida nos arquivos públicos de uma das mais importantes cidades dos Estados Unidos. Bom roteiro, ótima direção e excepcional reconstrução de época, Changeling acaba tocando em vários temas importantes paralelos ao drama principal do desaparecimento de um filho. Entre eles, a produção trata da emancipação da mulher, do abuso de poder e da manipulação da mídia. Vale a pena ser visto especialmente pela história bem conduzida e pela interpretação dos atores.

PALPITE PARA O OSCAR: Angelina Jolie é um nome quase certo na lista das cinco indicadas este ano na categoria de melhor atriz. Para mim ela faz realmente um trabalho muito bom como a obstinada Christine Collins – ainda que, admito, que ela pode exagerar um pouco nas horas de “fraqueza”, algo que aparentemente não aconteceu com a mulher que inspirou esta história. Não assisti às outras interpretações, exceto a de Kate Winslet em Revolutionary Road. Por isso fica difícil saber o quanto Angelina Jolie tem chances de levar a estatueta para casa. Analisando apenas o trabalho de Jolie e Winslet, eu diria que o da segunda é mais complexo e técnico que o da primeira. Por isso, talvez, Kate Winslet realmente leve uma pequena vantagem na disputa. Mas se Angelina Jolie for premiada, não será completamente uma injustiça.

Também acho que o filme tem chances de ser indicado em outras categorias técnicas, como trilha sonora (de Clint Eastwood), direção de arte e figurino. Realmente os trabalhos dos responsáveis por cada uma destas áreas foi muito competente. Mas fora nestas categorias, dificilmente o filme conseguirá emplacar outras indicações. Ainda que eu ache que Eastwood merecia ser indicado como diretor, especialmente por ter dirigido, no mesmo ano, Changeling e Gran Torino. Ele merece!

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The Wrestler – O Lutador

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Um filme verdadeiramente rock and roll. The Wrestler faz um exame detalhado – literalmente – do universo dos homens que fazem a luta livre ser um espetáculo de terror e, de quebra, resgata a carreira de um ator desprezado (e agora, premiado): Mickey Rourke. A produção é dirigida por Darren Aronofsky, um dos meus diretores preferidos da “nova safra”, responsável por filmes como Pi e Requiem for a Dream. Desta vez ele não economiza o recurso da câmera na mão e esboça um semi-documentário sobre a vida dos lutadores que topam quase tudo por dinheiro. Potente, é um filme com um bocado de violência – não é recomendado para qualquer pessoa – e, principalmente, uma visão sem filtros da realidade de um astro decadente.

A HISTÓRIA: Randy Robinson, mais conhecido como The Ram (Mickey Rourke) é um astro decadente da luta livre. Vinte anos depois da grande luta de sua carreira, ele continua finalizando as noites de “espetáculo” em locais de segunda categoria. Ainda que esteja longe de seu grande momento, ele se mantêm como ídolo de várias gerações, distribuindo autógrafos para fãs que passaram dos 40 na mesma medida que os distribui para crianças. Mas a rotina dele se interrompe quando ele sofre uma parada cardíaca e, sob orientação médica, para de lutar. Na busca por um sentido em sua vida, The Ram tenta um relacionamento com a stripper Cassidy (Marisa Tomei) ao mesmo tempo em que procura se reaproximar da filha Stephanie (Evan Rachel Wood).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Wrestler): O filme não é para fracos. Afinal, ele mostra algumas cenas de puro barbarismo, de violência explícita. Para os que estão acostumados aos espetáculos de luta livre, ele não deve mostrar nada demais. Ou melhor, mostra os bastidores do espetáculo, o que não é muito comum. E nestes bastidores se vê toda uma encenação que, provavelmente, os espectadores não imaginam que ocorra. 

Um dos aspectos mais interessantes para mim, nesta parte de mostrar os “bastidores” do universo da luta livre, foi o de perceber que, na verdade, os lutadores se autoflagelam. Sim, porque além deles combinarem, antes de entrarem no ringue, como vão “lutar” uns com os outros, se percebe que muitas vezes são eles mesmos que se cortam ou se furam com objetos colocados sobre o local da luta. The Ram nos mostra isso em mais de uma ocasião. 

Mickey Rourke… quem diria! O homem que arrasou corações nos anos 80 e que depois só seguiu ladeira abaixo aparece agora em uma interpretação digna de prêmios e de críticas positivas praticamente unânimes. Não imagino outro ator para o papel de The Ram – que pode significar tanto “o carneiro” quanto “o batedor”, “o bate-estacas”, e por aí vai. Rourke, que estrelou filmes como Rumble Fish (um dos meus preferidos de Francis Ford Coppola, com Matt Dillon também), Angel Heart (ótimo filme de Alan Parker) e o sucesso Nine 1/2 Weeks na década de 1980, nos anos 90 decidiu virar boxeador profissional. Junto com essa decisão veio o consequente desprezo dele a sua carreira de ator e, luta após luta, ele conseguiu uma cara deformada – que depois de várias plásticas ficou ainda mais estranha. 

A idéia de um lutador decadente que não suporta a aposentadoria “precoce” caiu como uma luva para o ex-pugilista e ator decadente Mickey Rourke. É verdade que antes de The Wrestler ele já havia “ressurgido das cinzas” por seu papel em Sin City. Ainda assim, poucos filmes conseguiram mesclar tão bem ironias da vida real de um ator com a de seu personagem – da nova safra, talvez apenas Gran Torino, de Clint Eastwood, consiga algo parecido.

The Wrestler deixa para trás os planos ambiciosos e mal explicados do ótimo Aronofsky com seu The Fountain e mergulha de cabeça no atualmente badalado estilo “semi-documentário” de direção. Com isso, quase toda a narrativa é feita com a câmera na mão do diretor, que segue seus personagens para contar suas aventuras em um plano de “proximidade”. Não faltam closes na hora dos diálogos mais importantes do filme e nem na hora de mostrar os cortes e furos na carne dos “combatentes do ringue”. 

Ainda que o filme seja mais visceral que filosófico, não se pode dizer que não existam várias interpretações da história menos óbvias. The Wrestler trata, além dos bastidores da luta livre (e toda a sua encenação e camaradagem), de algo que afeta muitas pessoas em diferentes profissões e/ou momentos da vida: a dificuldade em aceitar que não se pode fazer as mesmas coisas que outrora. A idade chega para todos, não adianta. E quanto antes as pessoas aceitam as suas limitações e dificuldades, em outras palavras, a sua condição humana, melhor. Mas existem sempre pessoas que simplesmente não estão preparadas para isto.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No filme, no caso de Randy Robinson, existe um agravante: ele não encontra em sua vida fora dos ringues sentido, porque ele simplesmente não consegue se relacionar com outras pessoas – e acaba desistindo rápido de tentar, na minha opinião. No fim, ele percebe que não consegue viver sem o gostinho de ser ovacionado, de se sentir querido – ainda que seja por uma multidão sem nome e sedenta por um espetáculo de violência. Sensações que ele acredita não conseguir na vida fora dos ringues. Acostumado por tanto tempo a ser ovacionado e a aproveitar todo tipo de excessos – de bebida e de drogas, especialmente -, ele parece ser incapaz de se enquadrar em uma vida que tenha família e um relacionamento sério como ingredientes. E essa é a triste realidade de muitas pessoas que parece não terem força – ou idéias – para se reinventarem.

Claro que é muito difícil, e disso não há dúvidas, de um sujeito como The Ram parar. Depois do ataque cardíaco ele passa a atender o público na seção de frios e carnes do mercado onde ele trabalhava apenas para descarregar produtos. Inicialmente ele até se diverte com a função, mas depois ele vai pirando com aquilo. Ali ele é um zé-ninguém como qualquer outro, e para ele isso é de matar – muito mais do qualquer ataque cardíaco. Para alguns é realmente muito mais difícil aceitar a aposentadoria. 

Em muitas partes do filme Mickey Rourke parece fazer uma interpretação esquemática, sem grandes rompantes de talento. Mas existe alguns momentos, aqui e ali, que valem realmente os prêmios que ele tem recebido. Destaco, por exemplo, o diálogo dele com a filha em um local que eles frequentavam quando ela era criança, e o momento em que ele corteja Cassidy – que prefere ser chamada por Pam – em um bar que toca músicas dos anos 80. Por ironia – e é impossível não fazer um paralelo entre as histórias decadentes do personagem e do ator que o interpreta -, neste momento do bar, Pam e Randy concordam que os anos 80 (quando o ator viveu seu auge) não deveriam ter acabado.

Gostei muito do roteiro de Robert D. Siegel. Acho que ele equilibrou muito bem os bastidores da luta livre e a história aprofundada de um de seus astros em vias de aposentadoria. Mesmos os momentos “feitos para chorar” foram bem escritos, sem cair no melodrama. 

Além de Mickey Rourke, estão muito bem em seus respectivos papéis Marisa Tomei (em impressionante forma e beleza aos 44 anos) e Evan Rachel Wood. Marisa Tomei, aliás, poderia perfeitamente ser indicada como atriz coadjuvante por este filme no próximo Oscar. Para mim, ela finalmente mostra porque um dia foi premiada com uma estatueta dourada.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não sabia, mas por pouco Mickey Rourke não entrou em The Wrestler. Ele não era a primeira escolha do diretor e produtor Darren Aronofsky – que agora deve estar agradecendo os caminhos tortos do destino. O primeiro nome apontado para o papel era o de Nicolas Cage, que acabou desistindo do projeto – o que permitiu a entrada de Rourke. Sem dúvida foi uma sorte para o filme.

Mickey Rourke só se ferrou ao apostar no boxe. Primeiro, sofreu nas lutas lesões graves que o fizeram passar por várias cirurgias plásticas. No Festival de Veneza, que consagrou The Wrestler, ele comentou para os jornalistas que seu lábio ficou tão prejudicado com as lutas que os cirurgiões tiveram que retirar carne de suas orelhas para reconstruí-los. Sem papéis de destaque no cinema e com o fracasso nos ringues, Rourke começou a aparecer na imprensa com escândalos envolvendo excesso de bebidas e drogas. “Perdi tudo, a minha casa, os meus amigos, o meu dinheiro, mas agora estou na estrada para recuperar tudo o que perdi”, comentou na ocasião do festival. O problema é que não restam muitos papéis ao estilo de The Ram.

Mas algo é fato: Mickey Rourke está conseguindo despontar em bons filmes graças a este seu ressurgimento. Está para estrear logo mais The Informers, um drama ambientado na Los Angeles de 1983 que conta como podem conviver em um mesmo ambiente executivos de cinema, estrelas do rock, um vampiro e outros personagens de moral discutível. Ao lado de Rourke estão atores como Billy Bob Thornton, Kim Basinger e Winona Ryder. Ele também está confirmado em produções que parecem interessantes, como 13, e as continuações Sin City 2 e Iron Man 2

The Wrestler ganhou até agora cinco prêmios – a maioria deles bem importantes, como os Globos de Ouro de melhor ator e melhor música (para a ótima canção de Bruce Springsteen) e o Leão de Ouro no Festival de Veneza como melhor filme. Além dos prêmios que ele ganhou, The Wrestler foi indicado a outros 12 – e deve chegar a outras indicações no Oscar.

A produção de Aronofsky é praticamente uma unanimidade da crítica. Dos 147 textos publicados pelo site Rotten Tomatoes, 144 deles são positivos para o filme. Praticamente um recorde. Os usuários do site IMDb também deram uma nota boa para o filme: 8,7 – o que o coloca na posição 52 dos melhores filmes de todos os tempos.

The Wrestler teria custado US$ 7 milhões, o que o coloca praticamente na categoria de filme independente. Até agora a produção acumulou pouco mais de US$ 2,8 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ele tem tudo para se tornar “cult” (cultuado), sem atingir uma marca expressiva de público.

CONCLUSÃO: No melhor estilo “uma câmera na mão”, o diretor Darren Aronofsky conta os bastidores do circuito alternativo da luta livre nos Estados Unidos, debruçando-se especialmente na vida de um de seus astros em vias de aposentadoria. Violento, com a exposição de várias cenas escatológicas e bizarras, o filme embalado pelo rock dos anos 80 traz um ritmo realista e com boas interpretações do elenco – especialmente de Mickey Rourke. Vale a pena para conferir o ressurgimento do diretor (depois do fracasso de The Fountain) e de Rourke.

PALPITE PARA O OSCAR: The Wrestler tem poucas chances no próximo Oscar. Especialmente porque se trata de uma produção muito independente e alternativa. Duvido muito que a violência do filme agrade aos membros da Academia. Uma coisa é ele ser premiado em festivais como o de Veneza ou por associações de críticos, outra bem diferente é receber o aval da mais tradicional academia cinematográfica de Hollywood. 

Ainda assim, acho bem possível que Mickey Rourke seja indicado como melhor ator. Ganhar será bem mais complicado – para não dizer impossível. Afinal, para isso, ele teria que derrubar alguns “queridinhos da América”, como Brad Pitt, e favoritos para o prêmio, como Sean Penn. Também podem ser indicados aos prêmios Marisa Tomei, como atriz coadjuvante, e Bruce Springsteen pela música título. Alguns até cogitam que o roteirista chegue a ser indicado – o que duvido muito, afinal, 2008 foi um ano de grandes roteiros. Para resumir, o filme pode ser indicado em algumas categorias, mas dificilmente ganhará algo.

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Revolutionary Road – Foi Apenas Um Sonho

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Qual é a saída para as pessoas que querem mais, que fogem dos estereótipos, que não se enquadram? Talvez ir para Paris, tentar vida nova, tentar voltar a viver. Ou…? Revolutionary Road, novo filme dirigido por Sam Mendes, o homem que impressionou a muitos com sua visão àcida sobre o “american way of life” com American Beauty, eleva a um patamar muito mais refinado e potente a crítica a mediocridade e ao “politicamente correto”, ao “socialmente desejado” ou, em outras palavras, a essa fábrica de mentiras chamada sociedade moderna. Corrosivo, contundente, não é um filme apenas sobre uma tragédia cotidiana, mas especialmente uma produção sobre o quanto angustiante pode ser a vida de uma pessoa que queria mais e que não vê saída além de mentir. Se trata de uma história dura sobre a falência de um casamento, a morte de um sonho e tudo o que pode porvenir disto.

A HISTÓRIA: Os jovens April (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) se encontram em uma festa típica dos anos 50 nos Estados Unidos, regada a música, bebida e gente interessante ao redor. Eles se encontram e se apaixonam. Vários anos depois, April estréia em uma peça de teatro duvidosa e, no retorno do casal para casa, começamos a perceber o quanto eles vivem das aparências, em um permanente conflito entre o que eles gostariam de ser e aquilo em que eles se transformaram. Neste cenário instável, o casal Wheeler é admirado por pessoas como a Sra. Helen Givings (Kathy Bates), que conseguiu uma casa para eles na rua Revolutionary; pelo casal Shep (David Harbour) e Milly Campbell (Kathryn Hahn), vizinhos de April e Frank; ao mesmo tempo em que são confrontados por John Givings (Michael Shannon), o filho de Helen que passa por tratamento psicológico e que é o único que percebe o quão podre pode estar a realidade do “casal modelo” da vizinhança.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Revolutionary Road): As máscaras um dia caem. De uma maneira ou de outra, para os que têm coragem de ver tudo de frente, um dia as máscaras caem e a realidade surge na superfície. Revolutionary Road é uma crônica potente, maravilhosamente escrita, sobre a falência do sistema em que vivemos e sobre a falência dos casamentos – e/ou relacionamentos fundados na esperança de que as pessoas podem ser “melhores juntas”. O roteiro de Justin Haythe, inspirado na obra do ótimo Richard Yates, permanentemente nos mostra o jogo de aparências da sociedade norte-americana (e a de tantos outros países) e os problemas gigantescos que ela esconde por debaixo do tapete.

O filme é sobre um casal, basicamente. Mas não apenas sobre eles. Tudo o que está ao seu redor – do emprego “padrão” do pai de família até as suas amizades superficiais – acaba entrando no foco de Sam Mendes e sua equipe. Os atores principais dão um verdadeiro show, especialmente Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. Nossa, quanto eles amadureceram desde o seu último filme juntos, Titanic, há exatos 11 anos… Agora sim, eles podem ser considerados verdadeiros atores. 

Como muitos filmes desta nova safra, Revolutionary Road tem muitas camadas de interpretação. Ele pode ser visto tal qual nos é apresentado, como uma crônica sobre as aparências, ou pode ser visto como crítica a uma época e a um sistema. Porque o “american way of life” – ou o capitalismo, propriamente dito – não mudou muitos dos anos 1950 para cá. As pessoas continuam sendo empurradas a fazerem o que for preciso para “darem certo”, para ganharem dinheiro e sustentarem suas famílias – com filhos sempre sendo “bem-vindos” ou, melhor dizendo, socialmente desejáveis -, sacrificando a maioria das vezes neste caminho os seus desejos e, principalmente, seus talentos e vocações. Não importa se a pessoa realmente se sente realizada, o importante é que ela forme uma família e que crie seus filhos.

Quando fica clara a insatisfação de April com a vida que eles estão levando, para mim foi inevitável lembrar de Laura Brown, a personagem vivida por Julianne Moore no filme The Hours. O mesmo desespero, a mesma aflição vivida por uma, se repete na vida da outra. Fiquei esperando, a qualquer momento, o quarto de April ser invadido por uma inundação simbólica de água. 😉

Mas falando sério, April me lembrou muito a Laura Brown. Aquela mesma angústia em viver uma “personagem” com a qual elas não se identificam, vestir a cada dia a fantasia de “mãe-de-família-perfeita” que não suporta mais esse papel. Mas, claro, o personagem de April acaba sendo muito mais denso e completo – até porque Kate Winslet não tem que dividir o tempo do filme com outras duas personagens femininas protagonistas, como em The Hours.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, uma das maiores angústias do filme acontece quando April divaga sobre o quanto ela se achava especial – e achava especial ao futuro marido, Frank – e que, depois, ela percebeu que eles não tinham nada de especiais, que eram apenas mais “uns”, eram apenas “uns qualquer”. Uma ironia corrosiva, especialmente porque eles são sempre vistos como “casal dos sonhos”, em um matrimônio aparentemente perfeito. O contraste entre o que April sonhava para eles e da imagem que ela via no espelho antigamente (e que continua “colando” para as pessoas de fora da casa) com a que ela vê na atualidade é de matar. Eles acabaram se transformando em tudo o que eles odiavam – e não existe nada mais brochante do que isso.

Quando April insiste na idéia da família se mudar para Paris, onde ela acredita que o marido finalmente poderia encontrar a sua vocação, ficou claro para mim que esta era uma medida desesperada para que ela conseguisse salvar o casamento. Mas o que é bacana no roteiro e no filme é que esta “bomba” cai no nosso colo, de espectadores, sem conhecermos (ainda) todo o contexto. Sendo assim, inicialmente, não sabemos as reais intenções de April – assim como, inicialmente, a atitude de Frank parece do marido amoroso, atencioso, muito diferente da realidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Talvez eu esteja mal acostumada a esperar o pior das pessoas… mas juro que quando ela insistiu tanto em eles irem para Paris e, pouco depois, ela revelou estar grávida, eu pensei que a idéia de se mudar com a família era uma maneira de acobertar e/ou fugir de um relacionamento extra-conjugal. Podia apostar que ela mantinha um caso com o vizinho Shep. Ledo engano. O buraco era muito mais embaixo – e interessante.

Não é fácil olhar francamente para o espelho e se descobrir medíocre. Ou melhor, é muito duro pensar sobre a própria vida e ver como tudo o que a pessoa sonhava e planejava para si não se concretizou. Tudo bem se um sonho dos bons foi trocado por outro da mesma grandeza. O problema é quando um sonho destes foi simplesmente substituído pela “ordem da manada”, ou seja, pelos padrões que todos seguem. Para alguns, tudo bem seguir a manada e não pensar muito sobre a própria vida – para isso não falta varidade de entorpecentes para nos “iludir”. Mas para outros, os “desajustados sociais”, como April e John Givings, não é possível fechar os olhos para tudo o que está errado à sua volta. Não por acaso tantas pessoas sofrem mundo afora, no exato momento em que estou escrevendo este texto (e que você o está lendo). Para alguns é mais difícil (ou até insuportável) mentir tanto. Pois Revolutionary Road fala justamente sobre estas pessoas, as que aceitam e as que se rebelam.

Algo que achei muito interessante no filme é sobre como ele trata sobre a questão de como as aparências enganam. Afinal, até boa parte do filme você vê a Frank Wheeler como um marido amoroso, preocupado em estar sempre discutindo a relação e em saber o que a mulher pensa ou está sentindo. Até o roteirista (e nós com ele) pegar a lente de aumento e mostrar o quanto Frank é um controlador egoísta, parece que ele é o “homem perfeito”, preocupado com sua família e amoroso.

(SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). Claro que ele trai a mulher com a secretária Maureen Grube (Zoe Kazan), mas até aí… muitos acreditam que a traição faz parte do casamento e, especialmente em uma sociedade como a nossa (a brasileira), este elemento está quase socialmente aceito pela maioria. Então a traição dele não o transformar em crápula, o que acontece somente quando percebemos o quanto ele sufoca a mulher, controlando cada um dos seus movimentos e, principalmente, quando ele finge se importar – e, na verdade, apenas “discute a relação” para reafirmar seus pontos de vista e deixar claro quem está certo na relação. Frank é um louco sufocador, o que torna a vida de April insuportável – além dela ter que lidar com a frustração da realidade deles, ainda tem que conviver com um homem que está sempre querendo lhe dizer como agir ou pensar, ainda que “sutilmente”. Ele nunca, realmente nunca escuta a mulher.

Interessante também a máquina das traições neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Como acredito que ocorra em muitos casos do tipo, tanto Frank quanto April traem um ao outro em busca de sentirem algo… eles querem sair do estado letárgico e anêmico de suas vidas/relação para alcançar algum sentimento verdadeiro fora – ainda que seja um fugaz êxtase. O problema ocorre quando eles percebem que nem assim eles se sentem satisfeitos. A traição acaba sendo praticamente mecânica. Poderia ou não ter acontecido… porque no final, tudo acaba sendo igualmente sem sabor. Eles parecem incapazes de sentir paixão novamente. Frank diz amar April, ela revela odiá-lo. Mas nem um, nem outro, parecem realmente serem capazes de sentir.

Outra ironia do filme – e entramos, então, em outra camada de leitura do roteiro/da obra – é de que apenas os “desajustados” são capazes de dizer a verdade. Tanto April, que está desesperada, quanto John Givings, considerado louco, são vistos como desequilibrados. Ela, que ainda controla suas opiniões para o “grande público”, é vista como louca pelo marido. Ele, tachado como tal por todos – dos pais até os médicos. E justamente John Givings, em uma interpretação magistral de Michael Shannon, é o responsável por alguns dos momentos mais tensos e mais interessantes do filme. Os loucos realmente salvam as nossas sociedades. 😉 E, no fundo, eles são deixados de lado porque ninguém está disposto a ouvir, em todo momento, verdades que ninguém quer confrontar. É mais fácil sufocar as vozes dissonantes do que tentar agregá-las – e, com isso, mudar algo em uma situação “cômoda”.

O roteiro – e certamente a obra de Yates – é muito bem escrito. Existem frases, aqui e ali, realmente geniais. Como a que fala sobre a verdade – que é inesquecível, mesmo para os que estão acostumados a viver na mentira. Um texto realmente muito bom. Assim como as interpretações – porque não adianta de nada ter um ótimo texto e os atores encarnarem mal seus papéis. Além da dupla protagonista, chamou a atenção mais uma vez o trabalho de Michael Shannon, que se “revelou” para mim com Bug; assim como David Harbour como o vizinho apaixonado por April.

Os Wheeler têm dois filhos, que acabam aparecendo pouco (ou quase nada) na história. Eles são interpretados pelos irmãos Ryan Simpkins (Jennifer) e Ty Simpkins (Michael). Gostei também da “ponta” do ator Richard Easton, que interpreta o Sr. Howard Givings. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme). O final do filme, em que ele prefere tirar todo o volume de seu aparelho auditivo ao invés de escutar as críticas hipócritas da mulher a respeito do até há pouco “casal modelo” Wheeler, foi simplesmente genial. Não imagino um final melhor para o filme. Afinal, não existe melhor crítica do que o desprezo às pessoas como a Sra. Helen Givings, que tratam os demais como seres descartáveis: ora modelos, ora alvos a serem atacados e vilipendiados. 

Mas um dos temas principais do filme é realmente o medo (ou a covardia, para alguns) que acaba paralisando a tantas pessoas. Um medo de ousar, de arriscar e acabar perdendo. Esse medo leva Frank a preferir um emprego do qual ele não gosta, e para o qual acaba dedicando grande parte da sua vida, do que a aposta em algo incerto, na busca do caminho no qual ele se sentiria realmente desafiado e motivado. Como bem definem em certa hora do filme, ele prefere não ousar e, com isso, não fracassar. Para alguns isso é aceitável e suficiente, para outros, não.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme talvez merecesse até uma nota um pouco maior, mas resolvi dar a classificação acima porque me incomodou um pouco a neurose cíclica da histórial. Afinal, realmente eram necessários 119 minutos para contar essa relação de poder entre quatro paredes – e alguma vez extendida até o jardim, a casa do vizinho e um pouco além? Acho que o filme poderia ter ou menos tempo (uma hora e meia, talvez) ou explorar um pouco mais outras facetas desta sociedade que vive e incentiva as aparências.

Nas notas de produção do filme, comenta-se que a obra de Richard Yates lançou uma pergunta até hoje em aberto: “Podem duas pessoas romperem com a rotina sem, com isso, romper com a relação que elas têm?”. Boa pergunta. Alguns acho que conseguem romper com a rotina sem se quebrar junto com isso – individualmente e como casal -, mas, para conseguir algo assim, é preciso que individualmente as pessoas se sintam estimadas, valorizadas e, principalmente, desafiadas. Sem tesão a vida realmente não tem solução – resgatei esta do fundo do baú, hein?

Achei curioso um comentário do autor de Revolutionary Road em uma entrevista para Ploughshares em 1992. Ele diz que ele ficava decepcionado porque o seu livro era, geralmente, considerado uma obra antiburguesia. Ele dizia que a considerava mais uma denúncia contra o que classificava como o “fervor nacional pelo conformismo que existe em todo o país”, e não apenas nas zonas residenciais, ele ressaltava, mas como uma “forma de aferrarse cega e desesperadamente à segurança e a tranquilidade a qualquer preço”. Maravilhoso, não? Ele acrescentava, ainda, na mesma entrevista, que a intenção dele com a obra era “sugerir que a via revolucionária de 1776 (quando foi declarada a Independência) tinha chegado a algo muito parecido a uma gaveta sem saída nos anos 50”. 

Revolutionary Road, a obra de Richard Yates, foi lançada em 1961 e caiu como uma bomba de crítica realista na sociedade da época. Algo que se comenta e que realmente é verdadeiro: o casal caminhava “bem” até o momento em que April resgata o plano Paris… a partir daí tudo fica ainda mais conflitivo na vida deles. Por que? Simples: nesta hora fica evidente o universo que separa April e Frank. Ela quer resgatar o sonho, seus ideias e a vontade de “ser maior”. Ele, com receio de perder o que já tem, encarna o conformismo e a resistência às mudanças, preferindo agarrar-se ao que já tem ao invés de arriscar-se. Os universos de ambos colidem de forma inevitável.

Um tema que eu ia deixando de lado (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): como o aborto é tratado de maneira quase “natural” no filme. A história mostra como as mulheres da classe média na época falavam a respeito deste tema e sabiam como fazer um aborto “se ele fosse necessário” e, claro, no “aconchego de seus lares”. Ainda que o tema vire ponto de ruptura no casal – ela querendo mudanças, ele procurando ainda mais elementos para que a família ficasse “conformada” -, ele não deixa de ser tratado como um assunto a mais para falar no café da manhã (no mesmo patamar, quase, que uma decisão sobre as compras ou a contratação de um jardineiro. Mais acidez nesta história.

Curioso saber que Revolutionary Road foi a primeira obra de Yates, quando ele tinha 35 anos. E saber que ele vendeu os direitos da obra pela módica quantia de US$ 15,5 mil. Ao perceber que a versão para o cinema não se concretizava, ele tentou comprar os direitos de volta para escrever o roteiro e garantir que a adaptação ocorria, mas Yates acabou morrendo em 1992 sem conseguir isso – e nem ver a sua obra ser adaptada.

Fiquei sabendo também pelas notas de produção que o autor morreu de enfisema aos 66 anos, depois de lutar contra o alcoolismo, a depressão e a sua dificuldade de relacionar-se com as pessoas. Para muitos críticos e autores literários, Revolutionary Road é uma das obras emblemáticas do século 20. Como comentou Blake Bailey, o primeiro a escrever uma biografia de Yates, Revolutionary Road trata dos temas fundamentais do ser humano.

Devo ser a última pessoa a saber disso, mas tudo bem: Sam Mendes, o diretor do filme, é casado com Kate Winslet, a protagonista. Juro que não sabia. E um detalhe importante: depois dela receber o roteiro de Revolutionary Road é que ela sugeriu para que ele entrasse no projeto. O caminho inverso da maioria das histórias em que o diretor acaba tendo a mulher como protagonista. 

Algo muito acertado nesta produção foi a escolha de Leonardo DiCaprio como protagonista ao lado de Kate Winslet. Afinal, outro ator em seu lugar não conseguiria este “plus” na nossa cabeça no quesito ironia. Todos lembram do casal apaixonado e romanticamente idealizado de Titanic. Vê-los agora, nesta forma madura e cínica de um matrimônio, é a melhor maneira de confrontar aquela lembrança de Titanic. Mais uma forma de questionar a ilusão dos amores românticos e irreais.

Vale comentar o trabalho tecnicamente perfeito do diretor de fotografia veterano Roger Deakins e a trilha sonora do experiente (oito vezes indicado ao Oscar) Thomas Newman

Revolutionary Road têm recebido notas menores que os seus atuais concorrentes à prêmios. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,9 para o filme (achei muito baixa, ele merecia pelo menos um 9). Os críticos que têm textos divulgados pelo Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 81 críticas positivas e 39 negativas para o filme – um número considerável de textos ruins, comparado aos demais filmes da temporada.

Comercialmente falando o filme ainda não estreou para o grande público. Em cartaz apenas em um circuito estrito ele alcançou pouco mais de US$ 3,1 milhões até o momento.

Até o momento, Revolutionary Road ganhou dois prêmios – incluindo o Globo de Ouro para Kate Winslet como melhor atriz – e foi indicado a outros 13. Além do Globo de Ouro, ele recebeu o prêmio de melhor elenco no Festival Internacional de Palm Springs.

CONCLUSÃO: Adaptação da potente obra de Richard Yates que faz uma radiografia do casamento, da sociedade estadunidense pós-Segunda Guerra Mundial – em ascensão e conformista – e do conflito entre os ideais da juventude e a realidade de quem se deixa entusiasmar com as possibilidades que o dinheiro abre em uma vida dentro dos padrões estabelecidos. Conta com interpretações de tirar o chapéu, especialmente dos protagonistas, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, que mostram ter amadurecido em seus ofícios. O diretor Sam Mendes, por sua vez, consegue um tom acima em sua sinfonia por criticar os “valores” da sociedade moderna – ainda que o filme seja ambientado nos anos 50. Denso, cheio de nuances e de questionamentos, é um filme para ser visto e analisado. Afinal, ele tem no DNA a densidade de um dos grandes autores norte-americanos do século passado.

PALPITE PARA O OSCAR: Revolutionary Road certamente receberá alguma – ou algumas – indicações ao próximo Oscar. Certamente Kate Winslet será indicada. Sam Mendes e Leonardo DiCaprio também podem chegar lá – assim como o roteiro de Justin Haythe. Mas para isso, eles terão que deixar outros nomes de peso para trás. DiCaprio, por exemplo, teria que deixar de fora de uma das cinco vagas algum dos “favoritos” da disputa deste ano: Sean Penn, Frank Langella (que, para mim, poderia ficar de fora da disputa), Brad Pitt, Clint Eastwood (que deveria estar entre os finalistas) e Mickey Rourke (que levou o Globo de Ouro como melhor ator). Sem contar o jovem talento de Dev Patel, que perfeitamente poderia estar entre os cinco finalistas. A tarefa de DiCaprio não é impossível… tudo vai depender do humor dos votantes da Academia.

O fato é que Revolutionary Road está concorrendo em um ano de filmes potentes. Não será fácil, ainda que o roteiro de Haythe seja muito bom, colocar o filme entre os cinco finalistas em diversas categorias. Se a Academia resolver ser “boazinha” com esta produção, ela até pode ser indicada a uns seis prêmios – além dos já citados, ela poderia entrar perfeitamente ainda nas categorias de melhor trinha sonora e direção de arte. Mas acho, sinceramente, que ele deve ser indicado a poucos prêmios. O ano realmente está sendo bem disputado. Adoro a Kate Winslet, mas acho difícil ela levar o Oscar para casa. Afinal, para isso, ela teria que derrubar as favoritas Meryl Streep (por Doubt) e Anne Hathaway (de Rachel Getting Married). Feito que conseguiu no Globo de Ouro, mas que será difícil de repetir no Oscar. Exceto por Kate Winslet, acredito que o filme não tenha chance nas demais categorias.