Kirschblüten Hanami – Cherry Blossoms – Flores de Cerejeira


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O cinema alemão vem me surpreendendo. Mais uma vez, assisti a um filme extremamente bonito e cuidadoso sobre as relações humanas, especialmente a vida de um casal e sua maneira de lidar com os filhos – e os filhos, com este casal. A exemplo de Away from Her, Kirschblüten – Hanami também trata da questão da morte e de como uma das pessoas do casal apaixonado e cúmplice há tanto tempo lida com a separação forçada (e inevitável) do outro. Bacana também assistir a uma declaração de amor ao Japão, como é o caso deste filme. Para quem gosta das culturas alemã e japonesa, terá um pouco da mescla do estilo de vida de ambas, na atualidade, nesta produção.

A HISTÓRIA: Trudi Angermeier (Hannelore Elsner) recebe uma notícia devastadora dos médicos de seu marido: ele tem uma doença grave que pode demorar um tempo para manifestar-se, mas que será fatal. Os doutores que falam com Trudi (interpretados por Gerhard Wittman e Veith von Fürstenberg) sugerem para que o casal faça uma viagem marcante ou algo inusitado, para aproveitarem o tempo. Mas Trudi conhece bem o marido, e sabe que Rudi (Elmar Wepper) quer tudo, menos fugir da vida de sempre, do ir e vir do trabalho para casa e vice-versa. Ela sempre sonhou em conhecer o Japão, ver o Monte Fuji de perto, mas sem ele, não pensa em fazer isso. No final das contas, sem falar nada para o marido sobre sua doença, ela lhe convence a visitarem dois dos três filhos, que moram em Berlim. Mas uma mudança inesperada do destino fará com que Rudi se aventure em terras muito mais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kirschblüten Hanami): As semelhanças deste filme alemão com Away from Her terminam rapidamente. Certo que ambos falam do amor incondicional e belíssimo de um casal que vive junto há muito tempo, assim como tratam de uma doença que vai separá-los. Mas isso é tudo que os une. Kirschblüten – Hanami entra de forma muito mais profunda em outras questões, como a estranheza entre pais e filhos e a falta de capacidade, da maioria das pessoas, de perceber que o que elas tem não deve ser tratado nunca como eterno – ou, em outras palavras, que elas pensem sempre que terão tempo de fazer o que mais desejam. Porque, como disse antes em outro lugar, nós somos tudo, menos senhores do tempo.

Um filme para ser belo, verdadeiramente belo, deve ter alguns elementos. Em primeiro lugar, uma fotografia cuidadosa e potente, que valorize as cores, as paisagens, os ambientes e as texturas – inclusive as expressões dos atores. Hanno Lentz faz um trabalho exemplar como o diretor de fotografia desta produção alemã. Junto com ele, merece mérito pela escolha das cenas e dos enfoques, claro, a diretora e roteirista, Doris Dörrie. Ela, sem dúvida, é responsável pelos outros dois elementos fundamentais de um belo filme: o texto que conduz a história e as falas dos atores e, claro, a dinâmica do que vemos em tela. Dörrie faz um trabalho exemplar, ainda que simplifique um pouco as coisas, em certos momentos – mas algo que pode ser compreendido, já que ela abre mão de tornar a história mais complexa para dedicar aquele tempo a torná-la mais bela. Definitivamente é uma escolha da autora.

Kirschblüten – Hanami trata, essencialmente, do “espírito alemão” ou, em outras palavras, do jeito com que a maioria dos alemães lida com seus sentimentos e com as pessoas próximas. Ainda que o filme revele uma certa paixão dos personagens pela cultura japonesa, não percebemos muito os costumes daquele povo – exceto pela personagem Yu (Aya Irizuki) que, francamente, foge um bocado do que seria o padrão moderno japonês. Ainda assim, quem sabe, a diretora e roteirista queira justamente valorizar um estilo de vida menos ligado ao “ganhar dinheiro e subir na vida”, que parece ser o lema vigente há algum tempo. Querendo ou não, Dörrie faz uma obra que valoriza a arte e um modo de vida menos acelerado e superficial – seja pela personagem de Trudi, seja pela de Yu. 

Outro elemento que faz um filme ser acima da média e belo é o trabalho dos atores. E os intérpretes de Kirschblüten – Hanami nos apresentam um verdadeiro baile de competência e emoção. Especialmente o casal principal se revela. O sentimento contido – mas que acaba transbordando involuntariamente – de Trudi, que vive intensamente o que considera os últimos momentos com seu amor, só demonstram a qualidade da atriz Hannelore Elsner. Independente da frieza e estranheza dos filhos e dos netos, ela revela o seu afeto e seu amor, tentando um equilíbrio entre os diferentes “mundos” formados pelos filhos e pelo marido. Como Rudi comenta em uma certa altura, se referindo aos filhos: “Eu não os entendo. Eles não me entendem”. E essa condição que parece imutável – mas que não é – acaba definindo as relações entre eles. Algo que Trudi tenta quebrar, mas que não consegue fazer sozinha. E percebe-se que os filhos, Karolin (Birgit Minichmayr) e Klaus (Felix Eitner) se dão melhor com a mãe do que com o pai, pelo simples fato de que ela se mostra mais carinhosa e, ao mesmo tempo, mais maleável. 

Mas o que importa no roteiro de Dörrie, mais que tudo, é o amor verdadeiramente incondicional que une Trudi e Rudi. Eles chegaram ao ponto máximo do companheirismo e da cumplicidade que apenas os casais de longa data parecem serem capazes de atingir. Mais que outros filmes que rolam por aí, este é uma grande história de amor, realmente. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Mas para surpresa geral da nação, quem morre primeiro é Trudi. E com sua morte, Rudi perde totalmente o chão. Desiste de seguir sua vida tão regrada e previsível e resolve partir para a viagem dos sonhos da mulher, acreditando que, por sentí-la com ele, em sua alma e em seus poros, ela também está indo com ele. Rudi viaja para o Japão não apenas porque não consegue superar a morte da mulher (e existe algo que possa ser superado?), mas porque acredita que deve “levá-la” a realizar o que ele nunca lhe deixou fazer. 

A vida pode ser longa, mas muitas vezes o tempo é curto. Rudi é um exemplo de atitude de quem se fixa muito em suas tradições e convicções e deixa de perceber os desejos da pessoa que mais ama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que aquela pessoa se foi, alguns tentam reaver o tempo perdido – mas, obviamente, isto é impossível. Alguns certamente vão assistir a Kirschblüten – Hanami e pensar: “Mas como ele não foi capaz de superar a morte da mulher? A vida continua…”. Bem, como Rudi mesmo diz para o filho Karl (Maximilian Brückner) lá pelas tantas, tudo que ele não quer escutar é isso. Cada um lida com a perda e a dor de uma maneira, e realmente não existe uma fórmula única sobre o certo e o errado nesta questão. Rudi decide não aceitar viver sem a mulher, e alimenta, a cada minuto, mesmo depois da morte dela, a relação que eles tinham. Ele quer preservar o máximo que ele pode a sua presença, a sensação de que ela faz parte de seu mundo ainda – até porque ele parece incapaz de projetar um “outro mundo” em que ela possa estar. É uma questão de fé, mas é uma questão de apego e de amor também. Ninguém pode dizer que ele esteja certo ou errado. São maneiras de encarar o inevitável.

Então ele viaja para o Japão e se esforça, mesmo sem entender ou falar nada do idioma, em fazer roteiros que a mulher gostaria. Muitos vão achar absurdo, mas ele precisa de algo material para reforçar a idéia que a mulher lhe acompanha – sem dúvida ele é um materialista – e, por isso, veste algumas das roupas de Trudi. Algumas pessoas talvez achem as cenas engraçadas… eu apenas achei elas compreensíveis, tristes e belas ao mesmo tempo. Não deve ser nada fácil, com aquela idade e tendo vivido tanto, se sentir sozinho no mundo. Em sua caminhada, ele conhece Yu motivado pela paixão de Trudi pelo Butoh – uma dança típica japonesa que, segundo Yu, pode ser definida como a dança da sombra. Interessante o conceito de que uma pessoa morta pode estar com a dançarina enquanto ela baila – algo que acaba fascinando Rudi e explicando bastante sobre o final desta história. E com Yu, que se mostra incrivelmente fora dos padrões, simples e compreensiva, ele vai descobrir o lugar tão desejado por Trudi: o monte Fuji. Uma história belíssima e muito bem contada.

Um ponto que me chamou bastante a atenção neste filme é a diferença de relações e de diálogo (ou da falta dele) entre pais e filhos e pessoas “desconhecidas”. É inquestionável que Trudi e Rudi se dão melhor com a nora deles, casada com a filha Karolin, do que com ela própria. Franzi (Nadja Uhl) trata muito melhor aos pais de Karolin do que ela mesma consegue “lidar” com eles. Da mesma forma, Yu é muito mais receptiva e compreensiva com Rudi, realmente interessada pelo que ele possa lhe contar, do que o “filho preferido” de Trudi e Rudi, Karl. Os filhos todos tratam com indiferença, um tanto de frieza e dificuldade os pais. Aparentemente, eles são os “vilões” da história.

A verdade é que onde existe muita intimidade e muitas “histórias” parece ser mais difícil a compreensão. Algumas vezes o trato entre estranhos, que verdadeiramente “abaixam a guarda” para se conhecerem, parece ser mais simples do que aquelas relações em que está sedimentada a idéia que se tem da outra pessoa. Acho que está é uma das grandes questões do filme, bem tratada pela diretora – ainda que achei que ela tratou os filmes demais como “vilões” quando, certamente, a idéia de “imutabilidade” das relações por parte dos pais também tornava tudo difícil como se percebe nesta história. Algumas vezes parece que para os pais é mais fácil se dar bem com desconhecidos do que com os próprios filhos. Acredito que para todos continuarem “se entendendo”, como sugere Rudi, é preciso boa vontade e, mais que tudo, a capacidade de entender que ninguém é o mesmo para sempre. As pessoas mudam, passam por situações diversas e aprendem coisas com a vida na mesma medida em que as relações entre os indivíduos também se alteram. Pensar que um adulto é uma versão crescida da criança que você gerou e criou é pura ilusão. É verdade que alguns ensinamentos permanecem da infância até a velhice, mas tudo o mais muda. Inexoravelmente.

NOTA: 9,6. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da forma com que a diretora e roteirista valorizou parte da cultura japonesa. Assim, vemos um pouco do espetáculo que é a época do Hanami – o costume de apreciar as flores, especificamente a floração das cerejeiras, que dá nome ao filme – e, também, a beleza do Butoh. Vale citar o nome do dançarino de Butoh que é visto em um espetáculo por Trudi e, no Japão, por Rudi na televisão: Tadashi Endo.

Dos atores em cena, gostei em especial de Hannelore Elsner (volto a dizer, maravilhosa, muito expresiva), Elmar Wepper (genial, bastante técnico, preciso e emocionante), Aya Irizuki (ótima dançarina e intérprete) e Nadja Uhl (linda e talentosa). Para mim, eles são o destaque do elenco. Além deles, merece menção na parte técnica do filme a trilha sonora de Claus Bantzer e a edição de Frank C. Müller e Inez Regnier

Para completar a lista dos atores, vale citar as crianças um bocado insuportáveis – e até certo ponto, bem realistas – que interpretam os netos de Trudi e Rudi: Celine Tanneberger interpreta Celine e Robert Döhlert interpreta Robert. 

O filme conseguiu uma boa avaliação dos usuários do site IMDb: 7,8. Um empate, pode se dizer, com a média das críticas publicadas no Rotten Tomatoes, onde foram divulgados 25 textos positivos e sete negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 78%.

Para quem ficou interessado pelas locações do filme, ele foi rodado na cidade de Allgäu, na Bavária; em Berlim e Ostsee, na Alemanha e, claro, em Tokyo e no Monte Fuji, em Shizuoka, no Japão. 

Em sua trajetória, Kirschblüten – Hanami ganhou seis prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que levou para casa estão o de Melhor Filme no “Golden Space Needle Award” do Festival Internacional de Cinema de Seattle; os prêmios de melhor ator para Elmar Wepper no German Film Awards e no Bavarian Film Awards, entre outros.  

Para os interessados em um dia curtir o Hanami no Japão, a temporada de floração das cerejeiras, segundo este site, é o início de março, nas regiões mais quentes do país, como o sul de Kyushu; em abril em Tokyo e maio na região de Hokkaido.

A diretora Doris Dörrie tem uma bela trajetória anterior a este filme. Ela começou sua carreira em 1976 com o documentário Ob’s stürmt oder Schneit e, de lá para cá, ela sempre intercalou projetos para o cinema com trabalho para a TV. Em sua carreira, ela recebeu sete prêmios e foi indicado a outros seis. 

Algo que achei curioso: o filme mostra o segundo casal de mulheres que eu vi recentemente. Sei que é apenas uma coincidência, mas achei interessante a forma com que o cinema alemão trata de maneira bacana a vida em comum entre mulheres, revelando suas relações de forma sensível e sem partidarismos.

CONCLUSÃO: Um filme bastante sensível sobre a morte de uma pessoa que é considerada fundamental e sobre as relações entre pais, filhos e “desconhecidos”, sobre a capacidade das pessoas aprenderem e se surpreenderem mesmo tendo vivido bastante e, além disso, sobre a escolha de caminhos diferentes do que socialmente é “estabelecido”. De quebra, uma produção que se debruça sobre alguns costumes do povo alemão – como o de valorizar o trabalho, os costumes, a tradição e as aparências familiares – e do povo japonês (como a contemplação da natureza e a loucura moderna embalada por sexo e tecnologia). Mas mais que tudo, é um filme belíssimo, pela fotografia e pela condução desta história de amor e de fidelidade. 

SUGESTÃO DE LEITORES: Este é o terceiro filme da leva do cinema alemão que estou assistindo como resposta a enquete que fiz antes do Oscar. Os leitores deste blog escolheram o cinema feito na Alemanha como meu próximo foco e, só pelos três filmes que vi até agora, devo agradecer por esta sugestão. Grandes filmes, realmente, da “nova safra” do cinema alemão. Filmes que merecem ser vistos. Logo mais vou partir para alguns clássicos… Inté.

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6 comentários em “Kirschblüten Hanami – Cherry Blossoms – Flores de Cerejeira

  1. Olá, tudo bem? descobri a página por acaso, procurando informações deste filme… Quando vi o cartaz, soube que tina de ver, e não me enganei, o filme é fantástico. Parrabéns pelo site.

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  2. Oi Mangabeira!!

    Realmente, acho que você resumiu muito bem este filme ao comentar que ele é uma “overdose de beleza e emoção”. Kirschblüten – Hanami é deste filmes que fazem a gente levitar e viajar para longe (e para dentro, ao mesmo tempo).

    Que bom que você gostou… agora, fiquei na dúvida se você “descobriu” ele através do blog…

    Um abração”

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  3. Olá hexadecimal!

    Primeiramente, seja muito bem-vindo por aqui.

    Ficaste fascinado com o cartaz do filme, então? Idem. Como você, eu também escolho muitos filmes pelo cartaz deles. Não sei se és assim, mas eu odeio ler muito das produções antes de assistí-las. Então, exceto em uma ocasião como essa, em que enfrento um “desafio” de escolher filmes de uma certa nacionalidade ou corrente, eu acabo selecionando os filmes que vou assistir pelo cartaz, pelo diretor, elenco, prêmios ou por outro fator.

    Fico feliz que tenhas gostado do filme. Realmente é uma obra muito bonita e sensível.

    Um grande abraço e volte mais vezes. Inclusive para comentar de outros filmes que possas ter assistido. Inté!

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  4. Oi Gustavo!

    E aí, assistiu?

    Demorei tanto para conseguir te responder que, algo me diz, que já tiveste a oportunidade de vê-lo. Gostaria de saber o que achaste dele…

    No mais, obrigada por tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes.

    Abraços!

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