Wall-E


wall-e9

Eis aqui um dos poucos filmes que ganharam e/ou concorreram ao último Oscar ao qual eu ainda não tinha assistido. Isso aconteceu pela mesma razão que me faz ser uma das poucas pessoas – acredito – a não ter assistido, até agora, a The Dark Knight ou Watchmen: perco um bocado a vontade quando a “hora H” para fazer isso já passou. Ou, em outras palavras, me desinteresso em assistir a um filme quando todos parecem já ter falado dele. Só que no caso de Wall-E, a tão celebrada, elogiada e premiada animação dos estúdios Pixar e Disney, não me arrependo de ter visto ao filme, mesmo “atrasada”. Bem feito, divertido, com algumas cutucadas das boas em certas tendências da nossa “evolução humana”, Wall-E é, ainda, um belo exemplo de homenagem ao próprio cinema. Há referências para todos os gostos e idades, mas as mais óbvias são mesmo as de 2001: A Space Odyssey e a homenagem declarada para Hello, Dolly!, de 1969 – sem contar uma dinâmica que relembra aos filmes mudos.

A HISTÓRIA: Enquanto a música Put On Your Sunday Clothes reverbera pelo espaço, passeamos por arranha-céus desertos, muitos deles feitos de lixo prensado por Wall-E. Este robô, criado para auxiliar a humanidade a se livrar das montanhas de sujeira que começavam a ocupar muito espaço na Terra – e torná-la insuportável para a vida humana – passa seus dias solitário (apenas na companhia de uma barata sobrevivente). Mas a rotina destes dois seres muda quando chega à Terra Eve, uma ultramoderna criação robótica que tem como missão encontrar algum tipo de vegetação na Terra – o que possibilitaria o retorno da espécie humana para o planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wall-E): Falar deste filme, hoje, é quase o mesmo que comentar sobre qualquer clássico do cinema ou blockbuster recente. Acredito que praticamente tudo já foi dito sobre Wall-E. Então vou comentar os aspectos do filme que mais me interessaram.

Como manda o figurino das produções da Pixar, a qualidade dos detalhes desta animação são impressionantes. Um grande trabalho do diretor Andrew Stanton e da equipe de animadores dos estúdios. Merece uma menção especial o trabalho da coordenadora de produção do departamento artístico Becky Neiman. Impressionante como eles configuraram o cenário desolado da Terra, assim como a beleza sideral e a tecnologia que beira o absurdo da nave Axiom. Tecnicamente falando, o filme é perfeito.

Comentei antes que a dinâmica de Wall-E relembra muito a dos filmes mudos. E isso se explica: nosso “herói” vive solitário na Terra até que conhece Eve. Eles trocam as primeiras palavras a partir do minuto 22 do filme. Até ali, apenas os efeitos sonoros e algumas músicas do filme Hello, Dolly! E mesmo depois que os robôs começam a se comunicar, muitas cenas relembram as comunicações não-verbais de clássicos de Charles Chaplin, Buster Keaton, entre outros. Aliás, estes dois ídolos da época do cinema mudo, segundo as notas de produção de Wall-E, teriam sido fundamentais na pesquisa do diretor Andrew Stanton e da equipe do estúdio Pixar. Eles teriam assistido a todas as produções de Chaplin e Keaton durante um ano e meio para apurar a forma narrativa de Wall-E.

Então, mais que um filme divertido e que traz a mensagem da importância do amor e da esperança, Wall-E é uma bela homenagem para o próprio cinema. Além das referências conceituais ao cinema mudo, fica mais que evidente, na parte da nave Axiom, a homenagem para filmes como Star Wars e, principalmente, 2001. AUTO, o “vilão” da história, é uma interessante recriação de HAL-9000. Outra homenagem evidente do filme é feita para os musicais, para muitos o suprasumo do romantismo de Hollywood, aqui representado pelo clássico de 1969 dirigido por Gene Kelly e ganhador de três Oscar.

Além de ser um filme moderno por fazer autoreferências ao cinema, Wall-E é uma produção que brinca com uma série de conceitos aceitos abertamente neste nosso recém-iniciado século 21. Para começar, a “nova” ordem mundial do consumismo, do desperdício, assim como a tendência a um isolamento cada vez maior provocado pelas facilidades da comunicação através das novas tecnologias. Tudo isso é elevado algumas potências nesta produção, que nos mostra uma humanidade que assumiu como normal o cúmulo da imobilidade. Chegamos, junto com Wall-E e Eve, a uma nave Axiom repleta de humanos obesos que parecem ter saído todos de uma fábrica de clones. Todos praticamente iguais, habituados a enxergar a realidade com um monitor na frente de suas cadeiras flutuantes. Eis aqui uma das maiores críticas do filme – que, além de engraçado e romântico, é sim bastante ácido.

O equilíbrio entre estes elementos é o que faz desta animação algo especial. Méritos de Andrew Stanton, que também escreveu a história e o roteiro do filme. A idéia original de Wall-E partiu de Stanton e de Pete Docter. E o roteiro, escrito a partir desta idéia, foi assinado pelo diretor e por Jim Reardon. Para mim, Wall-E é o melhor trabalho de Stanton até agora – ele foi o responsável, anteriormente, pelos longas A Bug’s Life e Finding Nemo – percebe-se sua preocupação com a Natureza, não?

Mas voltando ao ponto em que eu comentava no que o filme me chamou mais a atenção… Para começar, a curiosíssima coleção que Wall-E foi acumulando com o passar do tempo. Muitos já especularam o que resumiria a nossa capacidade inventiva. Que objetos, que livros, que invenções refletiriam de forma mais honesta a humanidade. Por isso mesmo não deixa de ser engraçadíssimo que Wall-E, um robô com inteligência artificial, selecione objetos como um iPod, isqueiros, lâmpadas, duendes, talheres e uma fita de vídeo (alguém quer algo mais antigo do que uma fita de vídeo na era do Bluray e similares?), entre outros, como os mais curiosos de uma civilização que não habita mais a Terra.

Muito interessante também que Wall-E, como uma criança, aprende sobre o amor – e outros conceitos – por imitação. Assistindo a um filme, por exemplo. E como sua vida, que se resumia apenas a trabalho e uma coleção de objetos gigantesca, muda totalmente de sentido quando ele encontra uma “companhia” – ainda que ela seja tão diferente dele. Aliás, Eve chega a ser irritante, no início, por seu comportamento altamente competitivo, destrutivo e, porque não, até um bocado carregado de soberba. Mas nada, é claro, que não vá mudando com o passar do tempo – e com o aprendizado além das “diretrizes”. Aliás, isto poderia bem se aplicar a nós, humanos, tão concentrados em nossas diretrizes, objetivos, metas… e tão pouco abertos a aprender algo novo, a nos deixar surpreender e revolucionar pelas surpresas e, sim senhores, pelo amor. 😉

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou interessado em saber o que significa as siglas do filme, Wall-e e EVE tem significados específicos. WALL-E é a sigla para Waste Allocation Load Lifter – Earth Classe, algo como Localizador e Coletor de Lixo – Classe Terrestre; e EVE é a sigla para Extra-terrestrial Vegetation Evaluator, ou algo como Exploradora de Vegetação Extraterrestre (o que não deixa de ser curioso, porque a tal exploração se deu exatamente na Terra, e não fora dela… ou eles consideravam a “Terra” a tal nave Axiom? que confusão!!).

Irônico também o momento em que a descoberta de EVE chega até a nave Axiom: no aniversário de 700 anos da saída do cruzeiro espacial que deveria durar, originalmente, cinco anos. Ou seja: naquela nave nasceram gerações e gerações de humanos que foram alterando a sua estrutura óssea e comportamento por não conhecerem nada além da alta tecnologia como aliada para sobreviver. Curioso. Vale a pena assistir os desenhos que aparecem durante os créditos finais e que simulam a nova civilização que será originada na Terra, em uma utópica relação de aprendizado mútuo entre homens e máquinas.

E falando em diretrizes, não deixa de ser curioso o debate entre as idéias de “obrigação” e de “missão cumprida” levantadas pelo filme. Isso se aplica a EVE e ao robô M-O (sigla para Microbe Obliterator). Este último, que tem como “missão” a de acabar com os “contaminantes externos”, acaba acompanhando os nossos heróis por boa parte de suas aventuras na nave Axiom. Quando ele finalmente cumpre a sua missão, sente uma certa “liberdade” – encarnada no filme por Wall-E -, a ponto de ajudar os nosso heróis. Outra lição do filme é esta, a de que o trabalho deve ser encarado como uma competição por aprimoramento e por “aperfeiçoamento pessoal”, nunca como uma desculpa para tornar o cotidiano uma batalha pessoal contra outra pessoa (ou, neste caso, máquina).

As vozes de Wall-E, M-O, entre outros, foram criadas por Ben Burtt, considerado um “mago” na criação de efeitos sonoros. Elissa Knight é a responsável pela voz de EVE. E uma curiosidade: a atriz Sigourney Weaver, conhecida especialmente pelo clássico Alien, empresta sua voz para o computador de bordo da nave, naquela parte em que o capitão pede definições seguidas de conceitos como Terra, mar, baile, etcétera.

A trilha sonora de Wall-E, maravilhosa – como a maioria dos filmes de animação -, leva a assinatura do veterano premiado Thomas Newman. Colaborou com o compositor para a trilha sonora do filme o indicado ao Oscar Peter Gabriel, que compôs a música Down to Earth.

Wall-E consegue aliar um roteiro inteligente com um dos personagens mais “vendáveis” dos filmes de animação dos últimos anos. Com uma expressão que muitas vezes lembra a de um cão carente, o robô Wall-E deve ter virado o sonho de consumo de muita gente. Efetivamente foram lançados brinquedos do personagem, assim como de EVE – como não? Ainda que critique a veia consumista moderna, o diretor e os demais envolvidos fazem parte de uma indústria que vive justamente deste consumismo. O que não deixa de ser bastante irônico – e um pouco hipócrita? O filme também tem uma veia bastante pegajosa, com aquela repetição infindável – e que não deixa de ser bonitinha – dos nomes de Wall-E e EVE… a voz de cada um deles chamando pelo outro ficará ecoando por seus ouvidos por um bom tempo, mesmo depois do filme acabar. Acostume-se!

Segundo as notas de produção do filme, em seus 700 anos de solidão, Wall-E desenvolveu uma “anomalia em seu sistema” que permitiu que ele desenvolvesse sua própria personalidade.

Em sua trajetória, Wall-E colecionou impressionantes 43 prêmios e outras 36 indicações. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para o Oscar de Melhor Animação de 2009; o BAFTA, o Globo de Ouro e o National Board of Review na mesma categoria.

Wall-E pode ser considerado também uma unanimidade entre o público e a crítica. Tanto que ele registra uma importante nota 8,6 na votação dos usuários do site IMDb e, ainda, coleciona 213 críticas positivas e apenas nove negativas no Rotten Tomatoes – o que garante para este filme uma aprovação impressionante de 96% dos críticos.

Nas bilheterias o filme também foi muito bem. Para uma produção que teria custado US$ 180 milhões, Wall-E saiu lucrando (ainda que relativamente baixo): arrecadou pouco mais de US$ 223,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Um de seus concorrentes diretos no ano, a animação Kung Fu Panda, conseguiu uma margem de lucro melhor: o filme que teria custado US$ 130 milhões arrecadou, apenas no país do Tio Sam, pouco mais de US$ 215,3 milhões. Mas o outro concorrente do ano, Bolt, se saiu pior: faturou menos que os US$ 150 milhões que teria gasto para ser produzido.

CONCLUSÃO: Um filme de animação inteligente e com personagens principais bastante carismáticos – especialmente o robô que dá título ao filme. Elaborado para todas as idades, deve cair no gosto de crianças e adultos por diferentes razões. Tecnicamente perfeito e elaborado de forma bastante criativa, Wall-E é um destes filmes que agrada pelas mensagens diretas e indiretas. Os pequenos devem adorar a parte da aventura e a história de amor entre Wall-E e EVE. Os adultos encontrarão outros significados no enredo, que aproveita para questionar os rumos da nossa civilização – consumista, pouco preocupada com a Natureza e a sustentabilidade da vida na Terra. Um filme bacana inclusive para inserir temas como ecologia, tecnologia, consumismo e similares entre os mais jovens – seja no ambiente escolar ou em casa. Para os fãs de cinema, Wall-E ainda nos presenteia com várias referências à Sétima Arte. Resumindo: é um destes filmes que vale a pena ser assistido, tanto pela diversão quanto pelas reflexões que ele provoca.

OSCAR 2009: Wall-E foi indicado a seis prêmios pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Destes, saiu vencedor apenas na categoria de Melhor Animação. Merecedíssimo, eu diria – ainda que não tenha assistido aos outros concorrentes, citando Bolt e Kung Fu Panda.

SUGESTÕES DE LEITORES: Assistir Wall-E agora faz parte da minha meta de ir colocando, pouco a pouco, a minha lista de filmes “pendentes” em dia. Lista essa que sempre tem como prioridade as sugestões de filmes feitas pelos leitores deste blog. Pois bem, Wall-E surgiu nesta lista graças a um comentário do Vander há bastante tempo… mais precisamente, em 11 de agosto de 2008. Na época, o Vander comentava que tinha assistido a Wall-E com seus sobrinhos pequenos e que eles não tinham gostado do filme. Nem ele, o Vander, tinha curtido muito… e ele me perguntava a minha opinião sobre isso. Olha Vander, eu também acho que ouvi comentários um pouco “exagerados” sobre Wall-E. Alguns, afirmando que este seria o melhor filme do ano – não apenas a melhor animação. Acho que não é para tanto. Wall-E é um filme bacana e tudo o mais, mas admito que assisti a outras animações e filmes que me impressionaram mais.

Agora, por que este filme talvez não agrade tanto aos mais pequenos? É fato que ele não segue a cartilha mais comum das animações. Só pelo fato dele ter poucos diálogos, de lembrar em muitas partes filmes do cinema mudo… bem, atualmente, tenho certeza, o cinema mudo é para poucos. Nem todo mundo tem a paciência de assistir a algo sem som, não é verdade? Acredito que vivemos em uma era muito, talvez demasiado sonora – vide a poluição deste tipo da qual é difícil escapar. Enfim… as pessoas caminham pelas ruas habituadas a escutar seus iPod’s e similares. Neste cenário, filmes com poucos diálogos são quase uma ousadia. Talvez isso, ou  talvez o fato de que Wall-E tenha uma história um tanto “crítica demais” e nem tão óbvia pode não agradar aos mais pequenos… não sei. Infelizmente não tenho ninguém nesta idade para comparar. Mas estas são algumas hipóteses. De qualquer forma, acho que o restante do texto demonstra a minha opinião sobre o filme – que não é a melhor animação de todos os tempos mas que, nem por isso, deixa de ser bacana e recomendável.

Anúncios

7 thoughts on “Wall-E

  1. Gosto muito de seus comentários e procuro assistir a diversos filmes que você sugere aqui.
    Sugiro que assista ao filme A CULPA É DO FIDEL.
    Um dos excelentes filmes que assisti neste ano.

    Curtir

  2. até agora vi wall-e duas vezes. A Pixar já era incostetavelmente eficiente em matéria de qualidade técnica em seus filmes de animação e dessa vez, mostrou-se melhor ainda em um dos seus melhores roteiros até hoje. Um filme majestoso e cheio de referências como vc citou. Tenho certeza que nomes como Kubrick e Arthur C. Clarke fizeram parte dessa inspiração.

    abração ale, seu blog continua show!!!

    Curtir

  3. Oi Claudia!!

    Puxa, muito obrigada. Fico feliz que você gosta do que encontra por aqui. Aliás, seja muito bem-vinda por estas bandas. Espero que tuas visitas se repitam muitas vezes ainda.

    Anotadíssima essa tua sugestão de filme. Se você gostou dele, provavelmente eu vou gostar também. 😉 Tinha ouvido falar algo de A Culpa é do Fidel, mas ainda não tive oportunidade de assistí-lo. Agora, vou atrás. Obrigada pela dica.

    Um grande abraço e volte mais vezes, inclusive para comentar sobre outros filmes. Inté!

    Curtir

  4. Oi Alexandre!!

    Obrigada. Fico feliz que tenhas gostado do texto.

    Agora, sabes que isto de múltiplas interpretações de sentido é sempre complicado, não é? Então, antes de achar que sei o que você quis dizer com “escrever sem preconceitos e verdadeiramente”, prefiro perguntar para ti o que quiseste dizer com isso. hehehehehehe

    Qual parte do texto ou que aspecto dele fez você afirmar isso? Acreditas que a maioria das pessoas escreveu críticas sobre Wall-E sem escrever desta forma? Fiquei curiosa…

    Sempre é muito bom receber tuas visitas e comentários. Volte mais vezes! Um grande abraço.

    Curtir

  5. Olá Mangabeira!!

    Ahá! Quer dizer que além de um consumidor voraz de novos filmes você ainda consegue tempo de rever a alguns deles? Uau! Quero ser como você quando eu crescer… 😉

    Sim, a Pixar é um dos grandes estúdios de animação do mundo. Com todos os méritos, diga-se. E sim, Kubrick foi usado como referência direta em Wall-E (e imagino que Arthur C. Clarke também, de forma conceitual).

    Um grande, grande abraço, Mangabeira… e até a próxima!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s