Das Weisse Band – The White Ribbon – A Fita Branca


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A maldade surge e se espalha no silêncio, entre cúmplices e em uma comunidade que permite a sua presença. Das Weisse Band, o premiado filme do diretor alemão-austríaco Michael Haneke, é uma das produções mais apontadas para figurar no próximo Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro. Gostei dele, mas não tanto quanto dos outros dois concorrentes que comentei anteriormente aqui no blog. Filmado em preto-e-branco, Das Weisse Band é uma alegoria. Ele revela, através de estranhos e infames acontecimentos em um pequeno povoado alemão, como uma nação pode sucumbir à maldade e, ao mesmo tempo, acreditar que determinadas pessoas merecem ser punidas – em outras palavras, explica a origem do fascismo. Religião, exploração do trabalho alheio, traições, violência contra crianças (e feita por elas também), diferentes tipos de dominação são parte do repertório deste drama celebrado pela crítica.

A HISTÓRIA: O narrador do filme comenta que irá contar uma história que não sabe, até que ponto, é verdadeira. Muito do que o espectador verá não foi presenciado pelo narrador, que apenas “ouviu falar” sobre alguns dos fatos mostrados. Ainda assim, ele acha importante contar o que ocorreuem sua pequena aldeia como forma, talvez, de revelar parte do que aconteceu com seu país. Assim, sua narrativa começa com um acidente envolvendo o médico da aldeia (Rainer Bock). Um dia, voltando para casa de um adestramento na casa do Barão (Ulrich Tukur), ele foi pêgo em uma armadilha colocada no jardim de sua residência. Um arame esticado entre uma árvore e uma cerca derrubou o cavalo do médico e o tirou de circulação por alguns meses. Mas este seria apenas o primeiro de vários eventos marcantes na aldeia, que passaria ainda por outros acidentes, atos de vingança e tortura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Wesse Band): Junto ao título original deste filme, segue a frase “Eine deutsche Kindergeschichte”, que significa “uma história do alemão para crianças”. Como eu disse no início deste texto, Das Weisse Band é uma alegoria sobre o fascismo na Alemanha. Através da história do povoado do professor/narrador (Christian Friedel), o espectador é apresentado a uma série de conceitos que permitiram que aquele país se tornasse decisivo nas 1ª e 2ª Guerra Mundiais. E que seu líder, Adolf Hitler, superasse os ensinamentos fascistas de Mussolini.

Uma das características interessantes do filme é que ele não pretende desvelar uma história, explicando com clareza o que ocorreu em determinado tempo e espaço. Não. Michael Haneke elaborou um roteiro que se baseia no testemunho de um homem bom, curioso e, por sua posição social, um dos mais preparados da aldeia mas que, ainda assim, se mostrou “cego” em relação aos problemas que ocorriam ao seu redor. Provavelmente através da figura do professor/narrador, Haneke fez a sua crítica para a “intelectualidade” alemã naquele período e na fase posterior da vida pública do país, quando eles permitiram que o fascismo crescesse e se multiplicasse – e, junto com ele, as variadas ações de “escolha dos melhores” para a sociedade alemã.

Mas voltando ao filme… não deixa de ser curioso como vamos nos enredando em histórias menos importantes até que, no final, Haneke segura nosso rosto em direção ao que deveríamos ter percebido desde o início. Algo de muito errado estava acontecendo naquele local, mas histórias como a do professor e de sua amada Eva (Leonie Benesch) nos desviam a atenção – como, certamente, boa parte da população alemã teve sua atenção desviada dos horrores das guerras em outras direções, como das conquistas nos esportes, pela propaganda nazista e pelo crescimento da economia. Sem dúvida uma das histórias mais impressionantes envolve a família do pastor (o veterano premiado Burghart Klaussner). Seus filhos, Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf) estão envolvidos no centro da trama.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pode incomodar a muita gente o fato de que Das Weisse Band não coloca um pingo final e conclusivo na história. Afinal, foram mesmo as crianças e jovens da aldeia que provocaram o acidente com o médico e a tortura do filho do Barão e de Karl (Kai-Peter Malina), filho da parteira da aldeia (Susanne Lothar)? Tudo leva a crer que sim, especialmente pela reação do grupo na primeira e na última situação, quando eles atuaram em conjunto para “silenciar” quem poderia ir contra eles. Mas e se não foram as crianças e jovens os causadores daqueles atos?

De qualquer forma, o importante desta história é a forma com que os habitantes da aldeia reagiram frente a estes fatos. (SPOILER – não leia… você sabe). Mesmo tendo ficado “perplexos”, desconfiados e sentindo-se ameaçados – segundo o narrador da história -, os moradores da aldeia não ousaram investigar o que havia ocorrido ou, sabendo de algo, acusar aos culpados. Como ocorreria no país pouco depois, durante as guerras, os alemães preferiram silenciar e encobrir os criminosos e seus delitos. Provavelmente porque concordavam com suas práticas, acreditavam que haviam pessoas que deveriam ser excluídas do convívio social de “pessoas superiores”. Desta forma, eles se tornaram coniventes com tudo o que ocorria ao seu redor.

Esta talvez seja a principal reflexão do filme. Outra importante é a forma com que a violência e a maldade podem ser encobertas pelos bons modos e pela educação de uma sociedade “desenvolvida”. Das Weisse Band revela como desejos sexuais reprimidos acabam sendo saciados de alguma forma – muitas vezes torta, através de adultério e pedofilia, por exemplo. E quando não são saciados, podem resultar em mais violência – como nas reações do pastor e de seu filho Martin. Das Weisse Band resume, para os que não estão familarizados com a cultura alemã, muito dos conceitos e valores que formam este povo. Achei especialmente impactante o momento em que o véu das aparências cai por terra e que o médico confronta a  parteira, dizendo para ela tudo o que tinha reprimido por anos de convívio. Haneke, neste momento, destila alguns dos diálogos mais violentos dos últimos tempos.

Vale a pena citar também a simbologia da “fita branca” que dá título a esta produção. Segundo “ensina” o pastor e pai de Klara e Martin, ela deve ser utilizada para recordar as pessoas o valor da inocência e da pureza. Conceitos estes que, claramente, estão ausentes da vida dos personagens citados e, em geral, da população daquela aldeia. Os que querem preservar esta inocência e pureza devem, a exemplo da baronesa e de seus filhos, deixar o local antes de serem contaminados. A fita branca, naquela realidade, era apenas um pedaço de pano sem um valor real – como a maioria dos símbolos adotados sob pressão.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história ficcional narrada por Michael Haneke começa um ano antes do assassinato de Francisco Ferdinando em Saravejo que, por sua vez, desencadearia a declaração de guerra da Áustria contra a Sérvia (acontecimento este que resultaria na 1ª Guerra Mundial). Quatro dias depois, a Alemanha declararia guerra contra a Rússia e, dois dias mais tarde, contra a França, mudando a história do país para sempre. Para os que não lembram os antecedentes e os fatos que cercaram este primeiro grande conflito mundial, recomendo este texto curto e bem resumido sobre o conflito que colocou em choque os dois blocos de países europeus no início do século passado. Para os que não lembram, exatamente, o que significa o termo “fascismo”, aqui é possível encontrar uma rápida definição.

A história de Das Weisse Band se passa na “aldeia” de Eichwald. De fato, existe um vilarejo com este nome, na Alemanha, localizada na região de Brandenburg. O aeroporto mais próximo da cidade fica em Dresden, distante 56 quilômetros de Eichwald.

O filme de Michael Haneke foi o grande vencedor deste ano do Festival de Cannes. A produção levou três prêmios do evento: a Palma de Ouro como melhor filme; o Prêmio FIPRESCI conferido pela imprensa internacional e o Prêmio de Cinema do Sistema Nacional de Educação Francês. Para muitos críticos que estiveram presentes no festival, a Palma de Ouro foi entregue para o diretor austríaco graças à uma campanha, nos bastidores, feita pela presidente do júri, a atriz Isabelle Huppert, uma fã declarada de Haneke e com quem trabalhou em La Pianiste e Le Temps du Loup. Das Weisse Band foi premiado ainda pela FIPRESCI do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha, como o melhor filme do ano.

Entre os críticos, o filme é um fenômeno. Enquanto os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram para o filme 18 críticas positivas. E isto é tudo. Não há nenhum texto negativo para Das Weisse Band. Até o momento, o filme de Haneke consegue uma impressionante – e rara – unanimidade no site.

Um dos textos que exalta o trabalho de Haneke é assinado por Peter Brunette, do Hollywood Reporter (disponível aqui, em inglês). Em sua crítica, Brunette afirma que Das Weisse Band é o melhor título da filmografia do diretor alemão-austríaco. Ele destaca a diferença entre os personagens adultos e infantis da história: os primeiros, normalmente identificados por suas posições na sociedade, enquanto os segundos por seus nomes. A idéia da hierarquia predomina no filme, para Brunette, assim como um código moral que deve ser imposto para as gerações mais jovens. As crianças são constantemente punidas, “tanto física como psicologicamente” por causa da menor infração – assim como as mulheres, que também são brutalizadas.

Nesta entrevista para o jornal El País, da Espanha, Michael Haneke, 67 anos, comenta que Das Weisse Band surgiu de sua vontade por filmar uma história que mostrasse como “todo ideal se perverte”. Nascido em Munique em 1942, Haneke adquiriu a nacionalidade austríaca e, com este filme, voltou ao seu país de origem para lançar um olhar sobre a geração que, pouco depois, abraçaria o nazismo. O título do filme, segundo o cineasta, faz referência ao “distintivo de pureza” que, na prática, não deixa de ser uma peça de ficção.

Logo na primeira pergunta, o cineasta mostra toda a clareza de suas intenções com Das Weisse Band: “Naquela época, o protestantismo religioso era muito rígido e a educação muito estrita. As autoridades eclesiásticas e os progenitores incucavam às crianças um rigor moral que não eram aplicados a seus próprios atos. As crianças se converteram em justiceiros porque acreditavam ser a mão direita de Deus. Isso ocorreu na Alemanha, e esta geração, 20 anos depois, criou o nazismo. Este filme não é apenas sobre as origens deste movimento, mas também sobre todos os terrorismos ideológicos, políticos ou religiosos. Esse é um problema que afeta a toda a humanidade, porque isto pode ocorrer em qualquer lugar do planeta e em qualquer época da história”. Perfeito, não?

Na mesma entrevista, Haneke afirma que se sente obcecado pela idéia de filmar a culpabilidade. Achei especialmente curioso o fato de que o cineasta montou uma coleção de manuais de educação dos séculos 18, 19 e 20 em sua biblioteca. Esta coleção serviu de inspiração e apoio para o roteiro de Das Weisse Band, especialmente no que se refere aos diálogos do filme.

Da parte técnica do filme, merece destaque, sem dúvida, a belíssima fotografia em preto-e-branco de Christian Berger. A edição, de Monika Willi, antiga colabora de Haneke, também se revela importante para a qualidade da obra.

Das Weisse Band teria custado aproximadamente 12 milhões de euros para ser produzido.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente sobre a sociedade alemã no período pré-Primeira Guerra Mundial. O diretor e roteirista premiado Michael Haneke destila um texto potente que, de forma linear, conta a história da origem do fascismo entre os alemães. Neste seu conto, ele não poupa adultos ou crianças. Todos fazem parte de um “acordo” de “surdos, cegos e mudos” para que a maldade e a violência se criem e se disseminem. Filmado em preto-e-branco e narrado por uma testemunha ocular bastante omissa, Das Weisse Band provoca reflexão e repúdio. Mas por deixar muitas dúvidas no ar, esta produção pode incomodar uma parte do público. Da minha parte, não gostei do tom extremamente frio da história que, comparado a outras produções pré-candidatas ao Oscar de filme estrangeiro, se revela mais sombrio e com precisão cirúrgica do que o desejado. Ainda assim, Das Weisse Band toca em temas fundamentais e muito atuais, especialmente no que toca o extremismo religioso, ideológico e político, tão presente – e temido – em diferentes realidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por enquanto, é difícil dizer, com certeza, se Das Weisse Band estará entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Suas chances, contudo, são muito altas. Dos três filmes pré-candidatos que assisti até o momento, ele é o que tem a minha cotação mais baixa. Ele é bom, inteligente, bem filmado e bem escrito. Tudo isso é verdade. Mas, para o meu gosto, falta emoção nesta história. Talvez eu não aprecie histórias frias e calculistas como esta. Prefiro, por exemplo, a reflexão e o trabalho passional de Un Prophète, ou a singularidade da história de La Teta Asustada (ambos comentados aqui no blog, anteriormente). Ainda assim, não seria uma surpresa se Das Weisse Band vencesse seus concorrentes. É preciso esperar – e assistir aos demais concorrentes – para ver.

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12 comentários em “Das Weisse Band – The White Ribbon – A Fita Branca

  1. Olá Alessandra ! Confesso que estava ansioso por esta crítica, porque gostaria de entender o porque ‘Das Weisse Band’ roubou a Palma de Ouro de Inglourious Basterds que pelo menos para mim foi a grande sensação de Cannes,fiquei empolgado pra ver Das Weisse Band e esperava um filme mais emocionante,mas encontrei uma história frívola e tendenciosa sobre a origem do Nazismo.Digo tendenciosa porque parece que Michael Haneke quis justificar as atrocidades feitas pelos alemães sobretudo durante a 2ª guerra,com um pressuposto de ódio recalcado de uma sociedade educada ao modo de punição exagerada,não que esse fator não tenha influenciado o pensamento nocivo do nazismo,mas não foi determinante,existiram outros fatores politicos e economicos que somados desencadearam tudo isso.Aceitar unicamente esta visão é retirar a responsabilidade da sociedade que comete um desvio moral tão grande como este,questões que podem ser levantadas,será que só Alemanha recebeu em sua origem esta educação autoritária?Será que não é um erro condicionar toda uma sociedade em uma psicologização excessiva?E os aspectos politicos e economicos? E talvez se fossemos apontar uma nação com disposição ao Nazismo na Europa a Alemanha fosse a útima a ser cotada,porque nessa mesma epoca havia um forte sentimento discriminatório com os judeus na França e na Rússia.Parece que o conto de Haneke sobre a ótica de transferencia psicologica cheira a ‘adorno’ apesar de aparentemente convincente.´
    É um filme impactante e muito bem feito,tecnicamente excelente,uma fotografia exuberante que infelizmente peca pela mensagem que quer trazer,em todo o momento se refere a radicalismo e extremismo mas o pensamento se direciona para mesma direção, o que é pior tenta justificar o injustificavel.
    Desculpe pela empolgação Alessandra,sua crítica como sempre é 10,sempre nos dando a oportunidade de opinar também..até mais!

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  2. o trecho da entrevista para o jornal El País, que vc citou na crítica, é a síntese muito clara do roteiro e de tudo que ele vem a nos mostrar, quando vemos o filme. óbvio, não podemos esquecer que é ficcional é que é apenas um ângulo de visão no enorme leque de possibilidades que envolveriam toda a crise e consequente guerra. o roteiro é apenas uma via de manifestação. E muito competente por sinal.

    Aliás as chamadas “autoridades eclesiásticas e os progenitores” donos do saber absoluto, pregadores do rigor moral (rigor que eles não seguem), apenas se multiplicaram de lá pra cá..eles ainda existem, na alemanha, no japão, nos EUA, no Brasil, na minha cidade..essa raíz é profunda…a diferença é que agora eles estão sentados em frente a computadores, mas a cabeça..vai saber em que século está…
    (sim..isso é um desabafo..he he he )

    alê, eu repito, adoro seu blog!!!

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  3. Alê, mais uma vez uma elucidação genial de um filme que também achei bastante tenso, frio e calculista, como você mesma mencionou.
    No entanto achei bem pertinente. Acredito, claro, que houve fatores econômicos e sobretudo políticos, como a tentativa de impedimento da expansão socialista, que ajudaram na formação do fascismo. No entanto, a intensão do diretor Michael Haneke era exatamente nos mostrar como essa idéia de conservadorismo e de obediência a uma “força maior” foi sendo construída. E que, mais tarde, depois da Guerra, foram guiadas por Hitler e seus diversos aparatos de propaganda.
    Além disso, quer países melhores para a construção de um ideal amplamente nacionalista e preconceituoso do que Alemanha e Itália? Os dois se reunificaram relativamente perto da Guerra, um em 1870 e o outro no ano seguinte, ou seja, sustentavam ainda um progresso visível baseado na construção de uma nação. Isso, na cultura Alemã principalmente, produziu uma obediência cega ao Estado e aos preceitos morais disseminados pelo mesmo em conjunto com a Igreja e que só se intensificaram depois da humilhação a qual a Alemanha foi subordinada depois da assinatura do Tratado de Versalhes que marcou o fim da 1 Guerra.
    Portanto, acredito sim que os alemães foram os grandes protagonistas das maiores atrocidades cometidas na primeira metada do século XX e, inclusive, carregam essa culpa até hoje. Eu tenho um amigo alemão e ele comenta que por mais que essa geração pós-Guerras não tenha vivenciado todo o holocausto e perseguição a comunistas, homossexuais, negros, enfim, a qualquer pessoa que não pertencesse à raça “ariana”, ela carrega a culpa como algo hereditário.
    Ah, Alê, tô com “La Teta Asustada” e “A Prophet” aqui pra assistir, e, como essa semana ta mais light, vou tentar assisti-los e depois comentar aqui! Até mais ver! 😀

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  4. Olá André!!

    Fico feliz que tenhas encontrado por aqui uma crítica que estavas esperando… e obrigada por tua visita e por teu comentário. Aliás, pelo que escreveste, vens acompanhando o blog há algum tempinho, não? Muito obrigada por isso e, sinceramente, espero que voltes por aqui muitas vezes ainda. 😉

    Então, como você, eu também tinha grandes expectativas a respeito de Das Weisse Band. Como respeito muito os vencedores de Cannes, sempre espero que dali saia um filme muito, muito bom.

    Para ser franca, nunca pensei que Inglourious Basterds pudesse ganhar Cannes. Me explico. Normalmente os franceses gostam de premiar filmes artísticos, que fogem do comum e que se revelam mais “complexos” que a média. O Oscar, por sua vez, sempre busca premiar o melhor filme dentro de uma visão “comercial” de cinema, ou seja, entre as produções mais populares. Tarantino, infelizmente, fica no meio do caminho entre o cinema artístico e o comercial – infelizmente, eu digo, em relação a ele ser premiado. Um dia, talvez, ele até ganhe uma Palma de Ouro, mas acho que ainda falta um bom caminho para que isso aconteça. O grande concorrente de Das Weisse Band este ano era, sem dúvida, Un Prophète – que eu, pessoalmente, gostei mais.

    Feitas estas considerações, vamos comentar sobre o filme. Olha, não achei que o Haneke quis justificar o nazismo. Até porque Das Weisse Band se passa antes da 1a Guerra Mundial – e essa sim, junto com outros fatores, foi decisiva para a vitória de Hitler. A verdade é que, como outras pessoas comentaram depois de você, muitos aspectos influenciaram para que os nazistas vencessem. A questão econômica e as disputas por território, mais que nada, foram decisivas. Mesmo assim, sempre ficou aquela pergunta: Mas como as pessoas comuns, muitas boas, educadas e até intelectuais, permitiram que os absurdos praticados pelo nazismo ocorreram? Neste sentido, Haneke nos apresenta a sua visão e resposta para esta pergunta muito particulares.

    Outros filmes recentemente comentados aqui no blog tratam do mesmo assunto. Gosto muito, por exemplo, de Die Welle, um filme que trata sobre o fascismo e que aborda as questões do nazismo de uma forma atualizada. Recomendo. Outra produção que trata sobre o tema “como-as-pessoas-permitiram-que-o-nazismo-ocorresse” é Good, um filme muito interessante dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim. Ambas mostram como os alemães comuns, no fim das contas, foram cúmplices de Hitler. Das Weisse Band, neste sentido, dá a sua contribuição para a reflexão ao mostrar como os conceitos do fascismo podem surgir e se propagar em uma sociedade. Não acho que refletir sobre isso seja uma forma de justificar o que aconteceu (ou acontece) mas, pelo contrário, evidenciar os sinais do perigo e, com isso, ajudar a sociedade a se manter “alerta”.

    Também acredito, André, que o principal problema da comunidade enfocada por Das Weisse Band não seja, apenas, o alto nível de exigência na educação… não. O principal problema daquela comunidade é a hipocrisia desta educação. Os valores repassados e cobrados das crianças não eram vividos pelos adultos. Além disso, quando você ensina que seu grupo é “abençoado por Deus” e que os demais não são, sendo passíveis (e merecedores) de punições por isso, estás nada mais que incentivando o preconceito e a exclusão. Isto acaba sendo mais importante para a história do que a questão da educação rígida pura e simples – que, convenhamos, se fundamentada em princípios corretos, sempre será bem-vinda.

    Dificilmente um filme conseguirá resumir, em duas horas – ou pouco mais – todos os aspectos que fizeram o nazismo e, por consequencia, a 2ª Guerra Mundial eclodirem. Por isso mesmo, acho importante que vários filmes tratem do assunto, cada um dando a sua contribuição para o debate. Não concordas?

    Outros países, como deves lembrar, seguiam o fascismo na época de Hitler – a Itália, talvez, seja o maior exemplo. Mas nem todos, como a Alemanha, se sentiam “menosprezados” e “injustiçados” pelo mundo e pelas outras nações. Este sentimento de superioridade não satisfeita, os problemas econômicos e tudo o mais é que fizeram o nazismo vencer. E o país só partiu para a guerra, convenhamos, porque havia um “louco” chamado Hitler no comando do partido vencedor. Já pensaste se, em lugar de Hitler, o partido nazista tivesse outro líder? Provavelmente a história teria sido bem diferente.

    Enfim, todos esses comentários para dizer que não acho, realmente, que Haneke tenta “justificar o injustificável”. Acho que ninguém, hoje em dia, teria coragem de defender Hitler ou as ações do nazismo através de um filme.

    Mas entendo a tua leitura, André. E respeito a tua opinião. Concordo contigo, por exemplo, de que havia filme melhor para vencer em Cannes.

    E não precisa se desculpar por ter se empolgado. Que isso!! Pessoas empolgadas como você são, por aqui, super mega bem-vindas.

    Aliás, volte mais vezes, inclusive para falar de outros filmes.

    Um grande abraço!

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  5. Olá Mangabeira!!

    Muito boa, realmente, toda a entrevista do Haneke para o El País. Recomendo a leitura dela inteira.

    Estou contigo de que Das Weisse Band é apenas uma pequena parte da realidade que antecedeu a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais. Também vejo desta forma.

    O roteiro é muito bom, e pouco óbvio. Uma alegoria muito interessante. Ainda assim, talvez porque eu tivesse uma grande expectativa a respeito do filme – ou porque prefira histórias mais “passionais” -, não achei a produção tão boa quanto eu esperava. Mas é provável que isso seja um problema meu mais do que do filme. 😉

    Pois é, sem comentários sobre os “donos da verdade”, sejam eles autoridades eclesiásticas, progenitores ou mesmo os jovens universitários capazes das ações mais absurdas – vide o caso recente da Uniban. Eu sempre fico assustada, francamente, com situações do tipo, em que uma massa de pessoas é capaz dos atos mais infames. Agora, estou contigo de que estes “modernos” seres estão com suas mentes em outra era. Infelizmente.

    Fico muito feliz, você sabe, em saber que gostas do blog e que continuas por aqui, sempre me visitando. Gosto muito da tua “presença”.

    Um grande abraço e um ótimo findi!

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  6. Olá Caio!!

    Um dos meus leitores “fiéis” mais queridos. 😉

    Estou contigo em tua avaliação do “contexto” social retratado por Haneke. Perfeita a tua análise – eu não escreveria nada melhor. Realmente, Alemanha e Itália, por todo o seu ambiente político, econômico e social eram os terrenos perfeitos para o crescimento do fascismo. E a Itália, atualmente, continua sendo, não é mesmo? Realmente me preocupo com aquele país e seu povo. Eu e uma amiga italiana tivemos grandes conversas a respeito – ela, ainda bem, não concorda com o que acontece em seu país atualmente.

    Estado e Igreja, que dupla, não? Basta dar uma olhada para trás, na História da humanidade, para vermos como estas duas forças atuaram juntas, geralmente, de forma daninha – e contra os ideais que hoje temos como adequados. Bem, cada civilização com o seu desenvolvimento, não é mesmo?

    Tens razão que muitos alemães (infelizmente, nem todos) das novas gerações, mesmo não tendo vivido o tempo dos “horrores” da guerra, se preocupam muito com esse assunto e o mantêm vivo em seus cotidianos. Como eu disse em outras críticas – acredito que na do filme Die Welle -, admiro a Alemanha por ela manter tão viva estes “pecados” históricos e, volta e meia, lançar uma nova reflexão a respeito. Acho que é uma forma de evitar que novos erros aconteçam. Algo que, infelizmente, outros países não fazem – como o nosso, por exemplo.

    Bem, espero teus comentários sobre os outros filmes…

    Um grande abraço e inté!

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  7. Oi Mangabeira!!

    Olha, Mary and Max estava na minha mira para assistir – afinal, ele é um dos pré-candidatos para o Oscar de Melhor Animação – mas, francamente, ele não seria o primeiro da lista. Mas ontem, depois que não consegui assistir ao candidato da Argentina ao Melhor Filme Estrangeiro, me joguei na experiência de assistí-lo (bastante motivada por tua indicação).

    E que maravilha de filme. Delicioso, irônico, tocante. Uma maravilha. Logo mais, escrevo o comentário dele aqui no blog.

    Obrigadíssimo por mais esta dica, Mangabeira!

    Beijos grandes!

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  8. Oi Alessandra,
    Assisti ao filme ontem e confesso que achei a tua nota muito baixa (comparando com notas de outros filmes).
    Eu gostei muito do filme e especialmente de como ele mostra a rigidez dos alemães.
    Dentre os prováveis indicados ao Oscar ainda falta O Profeta e La Nana, que pretendo assistir esta semana.
    Por enquanto o meu preferido é este, A Fita Branca.
    bjs (e continuo viciada no teu blog!!)

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  9. Oi Cláudia!!

    Pois é, talvez eu tenha sido muito “dura” com Das Weisse Band. É que não sei, estava esperando muito deste filme e não achei ele tão incrível quanto eu gostaria. Problema meu, é claro. 😉 De qualquer forma, acho que vou voltar a registrar a minha nota inicial para o filme, que era um 9 (no lugar do posterior 8,7).

    Meu voto ainda é de Un Prophète, mas tudo leva a crer que o filme do Haneke vai levar a melhor. Será merecido, de qualquer forma. Gostaria de ter assistido a Ajami, mas ainda não consegui a oportunidade de vê-lo… gostaria de tirar a dúvida sobre as razões dele ter conseguido uma vaga no lugar de outras produções muito boas.

    Fico feliz que continuas viciada no meu blog. Assim eu gosto! 😉

    Beijos grandes e inté!

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