Intouchables – Intocáveis


Sempre me interessam os filmes que viram fenômeno de bilheteria. E não me refiro àquelas bolas cantadas, às superproduções que foram forjadas para arrasarem nos cinemas. Me refiro a filmes como Intouchables, uma produção que foi conquistando o público na boa e velha propaganda boca-a-boca. E o começo desta produção não deixa por menos. É excepcional. Pena que aquelas sacadas não seguem com a mesma vitalidade até o final. Ainda assim, é um filme interessante sobre como o politicamente correto, além de chato, muitas vezes apenas prejudicada quem “precisa” ser protegido pela patrulha que gosta do excesso de forma e evita a improvisação.

A HISTÓRIA: Dois homens trafegam normalmente pelas ruas. O motorista olha para o carona, que parece um pouco entediado. Ele para atrás de um carro, mas resolve rebelar-se, ultrapassando a fila pela faixa da direita, proibida, e chegar na frente de todos quando o sinaleiro abre. O carona olha para o motorista, que sorri, e que segue andando rápido e cortando todos os carros que encontra pela frente. Depois de passar muita gente, ele vê que a polícia começa a perseguí-lo. Pede, então, para Philippe (François Cluzet) acordar e apostar com ele de como os dois vão conseguir se livrar da polícia. Philippe aceita a aposta, e o motorista, Driss (Omar Sy), de fato consegue se livrar da primeira viatura, mas cai frente a outra. Daí começamos a conhecer a história inusitada destes dois, Philippe e Driss.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Intouchables): Gosto de histórias que valorizam o imprevisto. Tudo aquilo que nos surpreende na vida e que escapa de tantas histórias que preferem seguir a fórmula do sucesso, sem ousar. Intouchables faz isso desde o princípio. Um passeio tranquilo de carro com uma dupla inusitada dentro do veículo logo se transforma em uma escapada cheia de adrenalina. E o espectador nem sabe para onde ou do que eles estão fugindo.

Grande parte da surpresa deste filme está na união daquela dupla inusitada. Dois “marginalizados” pela sociedade. De um lado, o rico, mas totalmente dependente de cuidados de outros Philippe. Do outro lado, o negro, suburbano e desempregado Driss. Em outras ocasiões, a realidade vivida por cada um deles dificilmente teria alguma concordância. Eles não se encontrariam, exceto por algum cruze em uma esquina.

Mas uma entrevista de emprego com Driss tendo uma atitude de coragem e inusitada mudou tudo. E aproximou as realidades muito diversas da sociedade francesa – mas que existem em todas as partes do mundo. Driss não enxergou em Philippe um sujeito que necesitasse de todos os cuidados. E nunca pensou em trabalhar cuidando de alguém que precisasse de tanta atenção. Mas acabou tendo aquela oportunidade de emprego e abraçou ela com ousadia.

Philippe ficou encantado justamente pela atitude de Driss. Sem meias palavras, desbocado e irreverente, ele fez Philippe sentir-se vivo novamente. Até aquele momento, todos tinham “todos os dedos” para tratar com ele. Tentavam disfarçar a pena, mas esse sentimento sempre parecia ficar no meio do caminho de qualquer relação. Até que Driss, que vinha de uma realidade difícil, resolveu encarar Philippe como um sujeito interessante de conhecer e com quem interagir.

Mas o que torna Intouchables interessante é que os dois personagens se respeitam e “desrespeitam” mutuamente. Ou seja, tanto Driss quanto Philippe acreditam que tem algo a aprender e a ensinar um para o outro. E assim, eles alimentam uma relação que ultrapassa o trabalho e chega na amizade. Uma bela história, que nos ensina muito sobre como usar o humor para romper barreiras, e ter uma postura de respeito para conseguir chegar a uma relação de reciprocidade.

Como eu disse antes, o começo foi excepcional. Depois, quando a história volta no tempo e conhecemos como Philippe e Driss se conheceram, essa retomada também funciona. A entrevista de trabalho curiosa, quase às avessas, e o mergulho na realidade de Driss que, sem casa, encara o trabalho com Philippe, mesmo ele não tendo preparação alguma para isto, como uma salvação, faz todo o sentido e propicia o mergulho adequado do espectador na realidade dos protagonistas.

Tudo isso funciona bem. O que faz o filme perder pontos é quando ele sucumbe para o humor pastelão. Quando, por exemplo, Driss brinca em jogar com a insensibilidade do corpo do “patrão”, erra a boca dele ao tentar alimentá-lo e ficar encarando a bunda de sua secretária, ou quando faz piadas repetitivas sobre ele não poder sair do lugar. Uma brincadeira, uma vez, funciona. Repetidas vezes, se torna apenas um recurso previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência mais pastelão e desnecessária acontece na parte final do filme, quando Driss brinca com Philippe ao fazer a sua barba – tirando sarro, inclusive, de Hitler. Típica piada boba e que achei desnecessária.

Dá para entender a escolha dos diretores e roteiristas Olivier Nakache e Eric Toledano sobre este último ponto. Ao acrescentarem piadas repetitivas e algumas que podem ser consideradas de humor pastelão, eles conquistam o grande público. O humor, certamente, assim como a sensibilidade da história e a grande atuação dos atores principais, são os fatores principais do sucesso desta produção. E por mais que algumas piadas cansem, e pareçam meio bobas demais, elas não desmerecem o restante do conjunto.

Falando em conjunto, todos os elementos funcionam muito bem em Intouchables. Do roteiro ágil e cheio de diálogos interessantes até a direção que foca a interpretação dos atores, em primeiro plano, sem esquecer de mostrar os detalhes de seus ambientes. Uma forma importante de contextualizar as suas histórias, meios culturais e referências. Como estamos falando em dois mundos distintos em diálogo, esses elementos acabam jogando um papel importante. Muito boa, também, a trilha sonora de Ludovico Einaudi.

E os atores fazem o filme ter o sucesso que tem. Tudo indica, apenas ao assistir a esta produção, sem ler as notas dos bastidores, que eles tiveram muito espaço para improvisar. Tanto que é perceptível, algumas vezes, reparar em François Cluzet realmente dando risadas por causa de tiradas surpreendentes de Omar Sy. A sintonia entre estes dois faz o ingresso valer.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, devo pedir desculpas para vocês. Assisti a Intouchables há mais de um mês. Ainda em agosto, ou no início de setembro, segundo as minhas contas. Daí comecei a escrever sobre ele, mas acabei deixando para finalizar depois e… só agora, quase no meio de outubro, consigo me “livrar” da crítica sobre o filme. Claro que, com isso, perdi algumas das sensações de quando deixei de assistí-lo. Por isso, esta é uma crítica que fala a essência do meu pensamento sobre Intouchables mas, certamente, não é a crítica integral que eu poderia ter escrito sobre ele se tivesse logo parado para fazer isso. Me perdoem por demorar tanto para escrever.

Impressionante o efeito de Intouchables. Quando eu assisti a este filme, foi pouco antes dele estrear no Brasil. A partir daí, muita gente começou a vê-lo e todos, absolutamente todos os comentários que chegaram até mim foram de aprovação. Até o momento, não conheci uma pessoa que não tenha gostado desta produção. De fato, ela parece ser uma unanimidade.

François Cluzet demonstra, mais uma vez, o grande ator que ele é. Para mim, um dos grandes nomes do cinema francês. Ele tem carisma, técnica e sempre desenvolve uma sintonia interessante com seus parceiros de cena. A exemplo do argentino Ricardo Darín, é um nome que merece ser “perseguido”.

Gostei da dupla de roteiristas e diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Até aqui, nunca tinha assistido a uma produção deles. Mas fui atrás para saber mais sobre estes dois. Nakache e Toledano praticamente fizeram todos os seus trabalhos juntos. Eles têm, no currículo, três curtas, uma série de TV e quatro longas, incluindo Intouchables. Apenas Nakache tem, em sua filmografia, um curta a mais que Toledano. O restante dos trabalhos foram desenvolvido em parceria entre os dois. O primeiro longa deles foi Je Préfère qu’on Reste Amis, de 2005, que tem Gérard Depardieu, Jean-Paul Rouve e Annie Girardot, entre outros, no elenco. Fiquei com vontade de assistir a mais trabalhos deles.

Além dos atores principais, que dão um banho, Intouchables tem atores coadjuvantes que ganham relevância na história. E que também fazem um bom trabalho. Merecem ser mencionadas Audrey Fleurot, que interpreta a Magalie, secretária de Philippe e a quem Driss sempre quer tirar uma “casquinha” e a quem ele chama de “estímulo”; e Anne Le Ny como Yvonne, a governanta da casa do protagonista. As duas estão muito bem, emprestando legitimidade e carisma para suas respectivas personagens.

A direção de fotografia vívida de Mathieu Vadepied também merece ser mencionada. Ele fez um trabalho interessante, ressaltando as cores naturais dos ambientes e valorizando bastante a luz do dia. Como o filme celebra a vida, nada melhor do que deixar as cores naturais se sobressairem.

Uma curiosidade sobre esta produção: nove semanas depois dela estrear, Intouchables tornou-se o segundo filme francês de maior sucesso da história. Ele perde apenas para Bienvenue chez les Ch’tis, comédia de 2008.

Intouchables é o candidato da França para o Oscar 2013. Minha dúvida é se ele não é “comercial demais” para entrar. Mas caso conseguir chegar na lista de finalistas, acho que ele pode surpreender. Veremos no próximo ano.

Este filme estreou em setembro de 2011 no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, na Espanha. Depois, no mês seguinte, ele esteve em festivais em Namur e em Tokyo. De lá para cá, participou ainda de outros seis festivais. Nesta trajetória, abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os que recebeu, destaque para o César (equivalente ao Oscar na França) de melhor ator para Omar Sy; e para o grande prêmio como melhor filme e o prêmio de melhor ator compartilhado por Sy e François Cluzet ganhos no Festival de Tokyo.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, como a história desta produção mesmo sugere, Intouchables foi rodado em Paris e na cidade de Cabourg, na França.

Intouchables é, realmente, fenômeno de público e de crítica. Mais de público, devo dizer. Apenas nos Estados Unidos, onde os filmes franceses costumam ter um êxito apenas mediano, ele conseguiu, até o dia 7 de outubro, pouco mais de US$ 12,6 milhões. No restante do mundo, até o dia 30 de junho, ele havia abocanhado US$ 351 milhões. Uau! Para uma produção sem grandes pretensões, sem dúvida alguma é um grande feito.

Falando em aprovação do público, interessante a nota que os usuários do site IMDb deram para Intouchables até o momento: um expressivo 8,6. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também gostaram do que viram, mas sem tanta ênfase: eles publicaram 81 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

Agora, algo que me chamou a atenção nas cenas finais da produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como todos sabem, esta história é baseada em fatos reais. Narra, com liberdades artísticas, a amizade que surgiu entre Philippe Pozzo Di Borgo e o angelino Abdel Sellou. O que eu achei interessante é que aparecem imagens reais dos dois, no final, e Abdel é branco. Claro que foi uma escolha dos diretores preferir que o personagem, no filme fosse negro. E alguns podem se perguntar o porquê da mudança. Não li uma justificativa dos diretores em parte alguma, mas acredito que foi pensada a escolha para reforçar o desejo deles em fazer o público francês repensar os seus valores e atitudes. Já que a questão racial por ali tem sido, cada vez mais, uma questão de agitação social. Outra explicação pode estar nesta entrevista dos diretores: este é o quarto filme deles com o ator Omar Sy, comediante que vem crescendo na carreira junto com os realizadores. A escolha dele, independente da cor, mas pela história dos três juntos e pelo talento, faz sentido também. E algo me surpreendeu  na entrevista: eles escreveram e reescreveram o roteiro muitas vezes, deixando pouco espaço para o improviso. E eu achando que Omar Sy, em especial, tinha improvisado muito… interessante.

Falando na entrevista, algo interessante e que merece destaque nela: os diretores disseram fazer parte de uma leva nova de diretores que querem não querem produzir filmes apenas para o mercado francês, mas para o mundo. Essa visão ambiciosa e de diálogo com o público, sem dúvida, é o que está fazendo diferença no cinema daquele país. Postura adotada por alguns cineastas brasileiros, de Walter Salles a Fernando Meirelles. Pena que esta visão não seja da maioria.

Para quem quer conhecer mais a história que inspirou este filme, descobri que há dois livros que narram, um sob a ótica de Abdel, outro sob o olhar de Di Borgo, esta história. Vale dar uma olhada nestas obras, ambas publicadas no Brasil.

CONCLUSÃO: As pessoas não sabem muito bem como lidar com o que elas não estão familiarizadas. Em outras palavras, com o diferente. Ainda mais quando este “diferente” é uma pessoa com uma limitação grave e/ou que parece estar em desvantagem com alguém “perfeitamente saudável” (isso existe?). Intouchables junta dois “marginalizados” para debater o politicamente correto, e o quanto o excesso de “zelo” e “cuidado” com aqueles que são diferentes de outras pessoas podem, no fim das contas, apenas prejudicá-las, ao invés de ajudá-las. O sujeito desempregado para quem ninguém daria trabalho, desbocado, irreverente, mas com um coração generoso, acaba mudando a vida do cara rico, erudito e tratado como alguém sem muitas possibilidades na vida. Porque sempre é possível romper preconceitos de forma natural. Para isso, basta deixar esse “excesso de educação” forçada de lado e tratar a vida como ela é, excercitando o saudável hábito de provocar as pessoas a fazerem mais do que elas estão acostumadas a fazer. O filme tem esse espírito, o que é muito bacana, mas acaba exagerando nas piadas, que se tornam repetitivas e bobas, em vários momentos. E o final… mesmo que bacana, acabou ficando previsível demais. Mas no conjunto da obra, é uma produção bacana e que merece ser conferida.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Bueno, Intouchables chegou lá. Depois de virar fenômeno nas bilheterias mundo afora, ele foi indicado como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro. Consequentemente, ele me faz falar a respeito de suas chances no Oscar do próximo ano. Francamente, ainda não assisti aos seus quatro concorrentes no Globo de Ouro. Mas só de dar uma geral nos indicados, eu diria que ele concorre diretamente com Amour e De Rouille et D’os. No Oscar, a concorrência pode ser muito diferentes. Especialmente porque alguns candidatos, indicados por seus respectivos países, podem mudar. De qualquer forma, acho Intouchables com mais chances no Globo de Ouro do que no Oscar. Até porque a premiação da Academia, por mais que tenha se renovado nos últimos anos, continua um pouco distante do popular. E este filme é pop.

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2 comentários em “Intouchables – Intocáveis

  1. Adorei Intocáveis e recomendei para um monte de gente, e as pessoas tem gostado dele. Vejo Intocáveis como uma grande porta para o aumento do gosto por filmes franceses aqui no Brasil, como o foi O Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Você já deve ter percebido como a inserção de produções francesas vem aumentando a cada ano, mas ainda assim me parece que as pessoas não sabem se tratar de um filme não americano. Particularmente gosto muito e tem entrado em minhas listas mensais com mais frequência.
    Intocáveis é um filme legal de se ver. Divertido e tocante, mesmo quando em momentos de riso. Driss parece não fazer esforço para agradar Philippe, mas ele o quer feliz, dar a aportunidade a ele de aproveitar um passeio numa noite fria pelas ruas de Paris, sentir aquele frio na barriga do primeiro encontro. Um ajuda o outro, e isso é muito tocante.
    Gostei muito do seu texto e achei bem completo.
    Gostaria apenas de acrescentar meu ponto de vista em relação às piadas que você achou desnecessárias. Vejo-as como contraponto ao humor e a vida refinada que Philippe tem. Ela reflete a origem suburbana de Driss. Não tem como não estarem lá. Faz parte do jeito dele, e esse lance de determinar bem quem são as personagens é bem significativo no filme. É só lembrar da cena do aniversário de Philippe, que ele havia reclamado sobre anteriormente com Driss. Assim que acaba a banda clássica tocando músicas da “Agência de Emprego”, Driss começa a dançar ao som de Earth, WInd and Fire, olha o contraponto novamente.

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    1. Olá Eduardo!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Muito bacana o teu comentário. Bem ponderado e sensível.

      Concordo contigo que Intouchables teve um papel importante de ajudar a popularizar o cinema francês entre o grande público. Foi um filme com grande apelo popular e que chegou a uma massa que talvez não tivesse assistido a muitos filmes da França. Só por isso ele merece ser aplaudido.

      Da minha parte, adoro o cinema francês. Dificilmente ele nos apresenta filme ruins – e isso é muito raro em uma filmografia de um país. Aqui no site, inclusive, existe a categoria “Cinema francês” que, até o momento, conta com 28 títulos – número que vai crescer, certamente.

      Concordo contigo que Intouchables é divertido e tocante. Quando o assisti, algumas piadas me pareceram feitas para cair no “gosto popular”, talvez um pouco forçadas, mas admito que revi o meu conceito com o teu comentário. De fato elas ajudam a marcar a diferença entre os dois personagens e a revelar o estilo de vida e a origem de Driss. Bem ponderado.

      Fico também feliz que tenhas gostado da crítica.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário tão construtivo. E espero que voltes por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes franceses (ou de outras latitudes) que tenhas gostado.

      Abraços e inté!

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