The Favourite – A Favorita

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Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

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Disobedience – Desobediência

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Um dos filmes mais contundentes sobre liberdade de escolha que eu já vi. Disobedience trata, com um bocado de coragem e uma boa dose de espaço para discussão, temas tão importantes e controversos quanto a liberdade individual, a religião, o senso de comunidade, a constituição familiar e a sexualidade. Bem, com todos esses elementos misturados, vocês já podem ter uma ideia da potência desta produção.

Mais um belo trabalho do diretor Sebastián Lelio, que vem se consolidando, pouco a pouco, filme a filme, como um dos nomes mais interessantes do “novo cinema” chileno – e, quem sabe, até mundial. Excelentes interpretações também dos protagonistas. Se você não tem muitas amarras ideológicas – ou uma “religiosidade” exacerbada/extremista -, assista. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Um rabino, Rav Krushka (Anton Lesser), fala para um grupo de homens sobre os seres que foram criados por Deus. Os anjos, que procuram fazer tudo o que Deus deseja; os animais, que seguem apenas os seus desejos; e os homens, que foram criados após seis dias da Criação. Segundo a Torá, comenta Krushka, Deus pegou um punhado de terra e criou o homem e a mulher, os únicos seres que são capazes de desobedecer. Como homens e mulheres tem ao mesmo tempo a clareza dos anjos e o desejo dos animais, Deus deu como um fardo e um privilégio a estes seres o livre-arbítrio, ou seja, o poder de escolher.

Depois de fazer esta pregação, Krushka cai no chão, sendo imediatamente socorrido por Dovid Kuperman (Alessandro Nivola) e por outros homens que estavam ouvindo o que ele falava. Corta. Em outra cidade, Ronit Krushka (Rachel Weisz) faz fotos de um senhor já com certa idade e cheio de tatuagens. Ela insiste nos cliques, esperando pela melhor foto. No meio da sessão, uma garota que faz parte da sua equipe lhe chama para falar com um homem. A fotógrafa para a sessão, sai dali e, na sequência, vemos a várias cenas dela que demonstram como ela parece estar um tanto “perdida”. Em breve, ela voltará para a cidade que deixou para trás para se despedir do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disobedience): Um filme que começa com a pregação e a reflexão que Disobedience apresenta não pode ser ruim. Sem delongas, o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu o roteiro desse filme ao lado de Rebecca Lenkiewicz, ambos inspirados no livro de Naomi Alderman – nos introduz o tema da liberdade de escolha (ou livre-arbítrio, como alguns gostam de chamar).

Esse tema, evidentemente, é a espinha dorsal desta produção. Mas que ninguém se engane que a narrativa que veremos depois se torna menos potente ou provocativa porque temos esta leve “introdução” nos primeiros minutos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja verdade que o cartaz de Disobedience já entregue parte do “segredo” dessa produção, aquele beijo que vemos no cartaz poderia ser explicado de muitas maneiras diferentes. Então o que veremos depois não perde a potência por causa desse “spoiler”.

Algo que gostei muito no roteiro de Lelio e de Lenkiewicz é que eles sabem, muito, mas muito bem, valorizar as palavras e o silêncio. Ah, como isso faz diferença em um filme! Disobedience tem muitos momentos de silêncio em cena, ou de poucos diálogos ditos em voz baixa. E isso tem um efeito maravilhoso na narrativa. Fora os gemidos de prazer de uma Rachel McAdams em grande momento, não temos nada que “suba o tom” nesta produção. E isso já nos diz muito sobre Disobedience.

Esse filme trata de maneira muito interessante a questão da fé, da família, do contexto em que nascemos e somos criados e das escolhas que fazemos ao longo da nossa vida. Afinal de contas, o quanto as pessoas com muita fé estão realmente dispostas a abrir mão de suas “convicções”, dos dogmas ou da “tradição” da sua religião para encontrar a parte realmente essencial da fé que elas professam – ou delas mesmas?

Isso não é simples, e nem eu e nem Disobedience temos todas as respostas para estas e outras perguntas. Como eu já disse em outras ocasiões aqui no blog, esse espaço não é destinado para discutir a religião ou a fé das pessoas. Não, não. Se você quer fazer isso por aqui, este não é o espaço. Mas por este ser um blog sobre cinema, e por eu falar sobre os filmes conforme eu os vou vendo, inevitável falar sobre estes temas quando eles fazem parte da narrativa da produção comentada.

Além disso, especificamente em Disobedience, não tem como eu falar sobre o filme sem tratar de temas nevrálgicos apresentados pelo roteiro. E as questões citadas antes fazem parte destes temas. Então vamos lá. Disobedience trata de uma comunidade judaica mas, certamente, poderia tratar de várias outras religiões – inclusive as cristãs. A maioria delas, ao menos as que professam um único Deus “criador”, tratam sobre questões essenciais envolvendo esse Deus.

Estas religiões afirmam que Deus criou tudo que existe e que Ele nos deu como maior presente a liberdade de escolha – o tal livre-arbítrio. Não foi abordado muito nesse filme, mas estas mesmas religiões também falam que Deus é misericordioso e amoroso. Essas questões centrais são abordadas em Disobedience, assim como outras leituras sobre o papel do ser humano no mundo – casar e ter filhos – e outras regras que devem ser respeitadas segundo a tradição judaica.

A grande questão levantada por Disobedience é: quais são as questões fundamentais da fé? Será, por exemplo, que a recomendação de que todas as mulheres deveriam se casar com bons homens e ter filhos não vai de encontro à questão da liberdade de escolha? Quantas regras os judeus e os cristãos seguem e que foram “impostas” com o passar do tempo e com as interpretações dos seus respectivos livros sagrados? Na essência, o que realmente importa em uma crença ou em outra?

Se Deus é misericordioso e amoroso, quem é o ser humano para julgar um semelhante? Podemos nos encher de regras e interpretar os livros sagrados como bem entendermos mas, no final, para quem tem fé, não é realmente Deus que irá nos julgar? Então por que não respeitar um de seus melhores – e maiores – presentes para o ser humano, que foi o poder de escolher o seu próprio caminho? Nesse sentido, achei esse filme muito potente.

Agora, claro, Disobedience não é apenas discurso e reflexão. O filme envolve o espectador em um jogo intenso de desejo e de dilemas vividos pelos personagens principais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como eu disse antes, o beijo entre as personagens das duas Rachel poderia ter diversas interpretações e contextos. No início, achamos sim que poderia existir algo entre elas. Mas aos poucos descobrimos que o que existe ali não é “algo”, mas muito.

Esti Kuperman quase enlouqueceu quando Ronit Krushka abandonou a comunidade deles e partiu para Nova York. E agora, que ela conseguiu que Ronit voltasse para se despedir do pai recém-falecido, o desejo pela amiga e “primeiro amor” volta a ser irrefreável. Quando elas finalmente ficam juntas, no filme, eu pensei: “Como Esti vai conseguir viver a sua vida normalmente depois disso?”.

Claro que voltar para a “vida normal” com o marido Dovid era impossível. Gostei muito do roteiro, que inicialmente deixa muitos elementos “no ar” e, depois, nos atropela com os sentimentos das duas protagonistas – especialmente da personagem Esti. As duas Rachel estão de parabéns, assim como o diretor, por nos fazer embarcar na história delas de forma tão intensa. Basta um pouco de empatia para conseguir colocar-se no lugar delas.

O que eu achei muito interessante em Disobedience é que esse filme fala, com todas as letras, que ninguém deveria ser obrigado a ser – ou fingir ser – o que não é. Se Deus realmente nos deu a liberdade da escolha, ninguém mais nos deveria obrigar a nada. Quem, afinal, criou tantas caixinhas para as pessoas entrarem dentro? Isso realmente faz sentido? No fim das contas, nada é mais potente – e difícil – do que ser um “espírito livre”, como diria Nietzsche. Mas nada também é mais prazeroso.

Até perto do final, Disobedience nos fala muito bem sobre isso. Achei muito potentes as trocas entre os três atores principais – e uma das cenas mais fortes da produção é quando Esti fala com Dovid na cozinha. Falar a verdade pode ser duríssimo, mas também é muito libertador. O filme ia muito bem nestas discussões e na forma com que ele abordou a busca de liberdade e de realização de Esti até que os realizadores optaram por aquela reviravolta no final.

Francamente, eu não esperava por aquilo. Verdade que nem sempre as histórias terminam bem, mas a decisão de Esti de ficar não fez muito sentido por tudo que tínhamos visto antes. Ela era muito intensa e estava “perdidamente” apaixonada por Ronit.

Mesmo sabendo da gravidez, pediu pela liberdade para Dovid – alegando, de forma inteligente, que o filho (ou filha) deles deveria nascer em outro local, onde poderia ter a liberdade de ser quem gostaria de ser, diferente dela. E aí, na reta final, aparentemente incentivada pela questão da gravidez, ela decide não partir para ter uma vida com Ronit?

Não sei, para mim esse final foi bastante frustrante. Especialmente porque ele voltou a privilegiar a “família tradicional” e a segurança de Esti criar o seu filho (ou filha) naquela comunidade judaica e não tudo o que ela tinha defendido até então. Pela narrativa que vimos antes, nunca Esti conseguiria ser feliz realmente com Dovid – mesmo ela dormindo no sofá. Ela também não se sentiria plena vivendo naquela comunidade que não daria escolha para o filho (ou filha) dela.

Claro que eu entendo essa “reviravolta” final da produção. Com ela, os roteiristas quiseram nos dizer que o poder de escolha pode, muitas vezes, fazer a pessoa decidir pela segurança e pelo tradicional ao invés de optar pelo risco. Sim, isso é verdade. Mesmo que a gente torça pelo “final feliz”, no final das contas vai prevalecer a escolha do indivíduo – e não o que um ou outro deseja para ele. A nossa capacidade de escolher é então novamente valorizada pela produção, ainda que o desfecho aponte para uma certa frustração de expectativas.

Um outro ponto muito relevante desta produção e sobre o qual eu gostei muito é a questão da presença potente dos “pais” nesse história. Por um lado, Ronit quer honrar e demonstrar o amor que tinha pelo pai, um rabino tradicional que não aceitava que a filha fosse uma “ovelha negra”. Por outro lado, Ronit, Esti e Dovid, entre outros, vivem o dilema de fazer a vontade do “Pai”, ou seja, de fazer o que é bom para os “olhos de Deus”.

Assim, Disobedience fala sobre esses dois sentimentos que muitas vezes dividem as pessoas que tem fé: fazer as escolhas certas segundo os seus próprios critérios, valores, pensamentos e desejos, e fazer as escolhas certas segundo o “desejo de Deus” – que, muitas vezes, é tão difícil de “adivinhar”. Por termos toda esse complexidade e dualidade, que eu acho – e defendo – que deveríamos ser muito mais generosos uns com os outros. E deixar o julgamento, o senso de justiça e o “tira-teima” sobre o que é bom e verdadeiro para Deus – e mais ninguém.

Voltando para o que é, afinal de contas, essencial para qualquer religião, acredito que para os cristãos o essencial seria os dois mandamentos sobre os quais Jesus falou. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” ou o “próximo como Eu vos amei”. Se as pessoas realmente acreditassem nisso, elas até poderiam discordar uma das outras, mas jamais julgariam ou hostilizariam a um semelhante.

Porque, no final das contas, somos todos mortais, falhos, buscando o equilíbrio entre o comportamento de anjos e de animais e tendo apenas o poder de escolha como uma das nossas principais “armas” – para o bem e para o mal. Para quem tem fé, será inevitável buscar “agradar ao Pai”. Essa busca é válida mas, no fim das contas, apenas Ele poderá nos dizer o quanto acertamos ou erramos na tentativa. O que Disobedience nos mostra, por A+B, é que o amor não pode ser um erro nessa equação. Não importa o que algumas interpretações dos livros sagrados nos digam.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Francamente, eu estava muito perto de dar uma nota 10 para este filme. Sério mesmo. Só que aí aconteceu o que aconteceu… Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz resolveram dar uma reviravolta para o “tradicional” no final que eu achei um tanto “decepcionante”. Simplesmente porque eu acho que o que vemos nos últimos minutos de filme não casa com o restante da narrativa. Até entendo as razões deles fazerem isso – levar a compreensão do “livre-arbítrio” ao extremo -, mas, ainda assim, para mim, o filme perdeu um ponto por causa daquela escolha.

Disobedience tem muitas qualidades. Para começar, um roteiro quase irrepreensível. Apesar da reviravolta um tanto questionável no final, algo precisa ser dito: Lelio e Lenkiewicz souberam conduzir a história com maestria, seguindo alguns passos da cartilha do cinema com esmero.

O filme vai nos apresentando os personagens, seus gostos, valores e contexto social pouco a pouco, até que mergulhamos em uma realidade em que nem tudo pode ser dito ou demonstrado – muito pelo contrário. Esconder-se, manifestar o que se sente sem que outros possam ver, tudo isso é um belo gatilho de sensações e de angústia para os personagens e para quem assiste ao filme.

Adicionando a esse roteiro competente o belo trabalho do trio de protagonistas, como comentei antes, fica quase impossível o espectador não se colocar no lugar deles – e sempre que isso acontece o filme ganha em potência. Na direção, Sebastián Lelio demonstra, a exemplo do que vimos em Una Mujer Fantástica (comentado por aqui), pleno domínio do “jogo de cena”, uma bela e segura condução dos atores e um olhar atento para as nuances das suas interpretações. Mais um belo trabalho desse diretor que merece ser acompanhado.

Existe um momento bastante “duro” de assistir nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Ronit decide realmente ir embora. Claro que o que muitos podiam estar esperando é que ela ficasse, para ajudar Enit a se encontrar, ou que convidasse ela a ir embora junto. Mas não. Dá para entender Ronit, ainda que seja complicado, porque, afinal de contas, cada um deve ser “dono” de seus próprios caminhos. Enit tinha que decidir por conta própria o que fazer. Ainda assim, achei que Ronit foi um pouco “covarde” por simplesmente ir embora e deixar todo aquele “estrago” para Enit resolver sozinha. Quando vemos a Enit na farmácia, não é difícil imaginar que ela comprou um monte de remédio para suicidar-se em um quarto de hotel. Ainda bem que a história não foi para esse caminho – ainda que, na vida real, isso não seria difícil de acontecer naquele contexto. Infelizmente. Por isso, é preciso ter muito cuidado e zelo com aqueles que amamos e em quem despertarmos amor. Não adianta apenas virar as costas, muitas vezes, e sair de perto. É preciso encontrar outras saídas.

O nome que mais me chamou a atenção, nessa produção, inicialmente, foi o de Rachel Weisz. Ela é uma grande atriz, e sempre aprecio vê-la em cena. E ainda que seja verdade que ela está muito bem em Disobedience, quem me chamou mesmo a atenção foi Rachel McAdams. Para mim, ela faz um trabalho impecável e potente, nos apresentando uma personagem com maior complexidade do que o vivenciado por Rachel Weisz. A meu ver, o trabalho de Rachel McAdams está alguns degraus acima dos outros protagonistas desse filme. Ainda assim, é preciso tirar o chapéu para Rachel Weisz, Alessandro Nivola e Rachel McAdams da mesma forma. Eles estão excelentes nesse filme.

Disobedience é um grande filme por causa do roteiro, da direção e do trabalho dos protagonistas. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas vale comentar também o bom trabalho de um time relativamente pequeno de coadjuvantes. Entre outros nomes, vale destacar o belo trabalho de Anton Lesser como Rav Krushka, pai de Ronit; Allan Corduner como Moshe Hartog, tio de Ronit; Bernice Stegers como Fruma Hartog, tia de Ronit; Nicholas Woodeson como Rabbi Goldfarb; e Liza Sadovy como Rebbetzin Goldfarb. Todos estão muito bem.

Esse filme tem diversas sutilezas. Por exemplo, o diálogo entre Ronit e o homem tatuado que ela está fotografando no início da produção. O homem, com o corpo cheio de tatuagens, comenta que a primeira que ele, o rosto de Jesus, ele fez quando tinha 15 anos. “Essa doeu”, ele comenta. Para quem logo vai voltar a “mergulhar” em uma comunidade judaica, essa introdução não me parece desprovida de sentido. E o filme tem muito disso. Pequenas sutilezas.

Entre os aspectos técnicos do filme, além do roteiro e da direção muito acima da média já comentados, vale destacar a direção de fotografia de Danny Cohen; a edição de Nathan Nugent; a trilha sonora de Matthew Herbert; o design de produção de Sarah Finlay; os figurinos de Odile Dicks-Mireaux; e a direção de arte de Jimena Azula e Bobbie Cousins.

Disobedience estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois desta data, o filme participou de outros 12 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme foi indicado a cinco prêmios – mas não levou nenhum para casa.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Sebastián Lelio comentou sobre como foi trabalhar com as atrizes Rachel Weisz e Rachel McAdams, que são bastante diferentes entre si. Para ele, Weisz parece uma “força da natureza”, uma atriz com “personalidade vulcânica”. Por outro lado, McAdams é meticulosa, uma espécie de “especialista disfarçada” que se esconde atrás de uma peruca e de maquiagem. Para o diretor, os estilos diferentes das duas atrizes se encaixaram perfeitamente nas personagens principais do filme, que são também diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. Faz sentido.

Segundo a história de Disobedience, as personagens de Weisz e McAdams tem a mesma idade, mas fora da tela Weisz é oito anos mais velha que McAdams.

Disobedience marca a estreia em filme falados em língua inglesa do diretor Sebastián Lelio. Para mim, foi uma bela estreia. Vejo muito futuro para ele – seja no cinema latino, seja no cinema dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 106 críticas positivas e 20 negativas para Disobedience – o que garante para o filme uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” de 74 para esta produção – fruto de 32 críticas positivas e de quatro medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Disobedience faturou cerca de US$ 3,5 milhões nos Estados Unidos e US$ 2,4 milhões nos outros mercados em que estreou. Ou seja, no total, o filme fez cerca de US$ 5,9 milhões. Pouco, para os padrões de Hollywood, mas um resultado razoável para um filme “independente”. O problema é que, segundo o site IMDb, esse filme teria custado cerca de US$ 6 milhões para ser feito. Somando a isso os custos de produção e de divulgação, esse filme não está nem conseguindo se pagar. Uma pena.

Disobedience é uma coprodução do Reino Unido, da Irlanda e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme potente. Provocativo, instigante, sensual e que nos faz refletir sobre algumas questões fundamentais. Não é todo dia que a gente pode se deparar com um filme como Disobedience. Com um roteiro bem acima da média, uma direção cuidadosa e ótimas interpretações dos atores principais, esse filme só não é perfeito porque ele “cede” no final.

Ok, a vida nem sempre tem finais felizes. Mas nesta produção, em especial, a escolha de Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz para o desfecho do filme parece um tanto estranha – se levarmos em conta o restante da trama. Ainda assim, como comentei lá no início, se você está aberto(a) à novas ideias, esta pode ser uma produção bastante instigante. Vale pelo debate e pela reflexão que levanta. Um filme porreta, por assim dizer.

The Lobster – O Lagosta

Uma alegoria sobre as relações interpessoais de uma sociedade preto no branco e com uma boa dose de nonsense. The Lobster exagera em seus argumentos e no desenvolvimento da história para nos fazer pensar sobre os padrões estabelecidos, sobre sociedades muito regradas e, de quebra, nos apresenta uma história de amor inusitada. Um filme criativo, sem dúvida, mas que não chega a mexer com o espectador. Algumas vezes o exagero faz isso. Faz pensar, mas não nos cativa.

A HISTÓRIA: Uma mulher dirige um carro na chuva. Ela está atenta à paisagem e para em determinado ponto. Ela sai do carro, caminha alguns passos em direção a um pasto e dá três tiros contra um asno. Um outro animal próximo olha tudo e se aproxima lentamente do animal abatido. A mulher volta para o carro. David (Colin Farrell) está sentado no sofá e ouve um “sinto muito” da mulher. Ele pergunta se ele usa óculos ou lentes, e ela responde que óculos. Em seguida, David e o seu cachorro/irmão são levados da casa. Ele chega no hotel e faz o seu cadastro, logo sendo apresentado para as regras do local. Esta é a primeira vez que ele fica sozinho e terá pela frente uma série de desafios por causa disso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Lobster): Pouco a pouco o espectador vai entrando no mundo “maluco” criado pelos roteiristas Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou. Se bem que, depois que o filme termina, você fica pensando que o nonsense da história não é tão nonsense assim. Vamos falar sobre isso.

Quando The Lobster começa, percebemos que o protagonista foi abandonado pela mulher (que não aparece em cena), que encontrou alguém mais “interessante” que ele. A saída para David (Colin Farrell) é ir para um “hotel” que tem regras muito claras. Aparentemente, todo mundo que fica sozinho na “cidade” é levado para aquele hotel.

Ali, a pessoa tem duas opções: ou consegue arranjar alguém compatível e dar certo com esta pessoa em um determinado período de tempo ou, no final do prazo, a pessoa escolhe um animal para se “transformar” nele e, nesta nova condição, tentar ter um futuro melhor. Para alongar o período que a pessoa tem no hotel e aumentar as chances de conhecer alguém compatível, a pessoa participa em grupo de caçadas em que para cada pessoa “solitária” abatida, o caçador ganha um dia a mais de permanência no hotel.

Lendo estas linhas e vendo o filme sem interpretação, The Lobster parece um bocado absurdo, não é mesmo? Mas como a narrativa é lenta, durante a experiência de assistir a produção já começamos a refletir sobre as mensagens que o diretor e roteirista Lanthimos quer nos passar. Primeiro, vejo que ele exagera na narrativa para fazer os espectadores se questionarem sobre a sociedade em que vivemos. Para a maioria parece realmente que só faz sentido se uma pessoa encontrar a outra em viver em “casal”. Os que decidem fugir deste padrão são considerados “párias” sociais, não é mesmo?

Claro que cada vez mais, nas nossas sociedades modernas, o solitário acaba sendo aceito porque este perfil foi aumentando com o passar do tempo. Mas o padrão das sociedades ainda é de homem e mulher que formam um casal e, preferencialmente, tem filhos. As razões para defender este padrão são tão primárias quanto aquelas mostradas pelos administradores do hotel desta produção. Além disso, Lanthimos e Filippou brincam com alguns outros conceitos sociais muito interessantes.

De várias tiradas que The Lobster apresenta, me chamaram atenção duas. A primeira é que quando um “protótipo” de casal começa a ter problemas de convivência, como discussões e desentendimentos, eles podem receber dos administradores um “filho” para amenizar os problemas. Na vida real, infelizmente, muitos casais tem esta mesma leitura. Que um filho poderá resolver o que eles não conseguem sozinhos. Ter um filho por este motivo nunca é uma boa ideia.

A outra tirada interessante da produção é a lógica com que vivem os “solitários”. Não vivem sob regras rígidas apenas aqueles que estão no circuito do hotel. Os “párias” que vivem refugiados na floresta também estão sob regras rígidas. Eles podem até conversar e ter uma interação básica, mas não podem ter relações sexuais ou muito próximas. Nas festas, por exemplo, cada um dança música eletrônica com o seu próprio fone de ouvido e aparelho. Piada sobre os solitários que vivem em festas e em tantas outras partes de forma realmente individualista.

Analisando o comportamento dos personagens, todos são um bocado mecânicos. Não apenas as pessoas envolvidas na dinâmica do hotel, mas também aqueles que buscam ali uma nova oportunidade de seguir sendo “humano”, agem de forma pouco natural. As conversas são estranhas, assim como as atitudes. Para um casal ter chances, ele deve ter um elemento que os “define” em comum. Se um homem manco não encontra uma mulher que também seja manca, ele forja um problema de sangramento no nariz para combinar com uma garota que tem a mesma condição.

Ainda que todos, aparentemente, lidem bem com a ideia de serem transformados em animais se não conseguirem um(a) parceiro(a) em tempo hábil, a verdade é que todos parecem um tanto desesperados ou para ganhar mais tempo através da caça de solitários ou forjando semelhanças que não existem para fazer um casal. Vale também analisar esta ideia das pessoas serem “transformadas” em animais caso elas não sejam mais “úteis” como humanos (e a utilidade só existe se você vive como casal).

A ideia de The Lobster é que se uma pessoa não pode ser útil formando um casal, ela pode ganhar nova utilidade se transformando em um animal. Nesta circunstância ela poderá procriar, ajudar a aumentar a população de uma espécie em risco de extinção ou até ter uma “serventia” para outros humanos, seja como animal doméstico, seja como comida. Daí paro para pensar no início desta produção. Aquela mulher estaria se “vingando” de um ex-marido ou de outro tipo de desafeto? Bem possível. 😉

Engraçado como o protagonista acaba fazendo o mesmo que um colega e mentindo para tentar conseguir uma parceira no hotel e, depois que o plano dá errado, ele se lança para a vida solitária sem querer, na verdade, viver aquela realidade. No início ele até aceitou bem as regras dos solitários, mas quando conheceu uma mulher que era míope como ele, eles se apaixonaram. A partir daí, eles não podiam ser mais aceitos naquele grupo. Ao invés de serem expulsos, eles foram penalizados.

Isso faz pensar como determinados grupos – e isso é algo bastante atual – tem uma grande dificuldade de aceitar pessoas que tenham um padrão diferente. A resposta deles para os “rebeldes” é, geralmente, uma penalização grave, desde o banimento até a morte. Simplesmente os que são diferentes não são aceitos – e isso vale, na viagem deste filme, tanto para os que não formam casais quanto para aqueles que formam, dependendo se falamos do povo do hotel ou da floresta.

No fim das contas, David se vê obrigado a mutilar a si mesmo para que ele e a sua nova mulher tenham uma chance na cidade, onde as pessoas só são aceitas como casais. E é regra básica de qualquer casal ter “o que define o indivíduo” em comum. Com isso, Lanthimos e Filippou nos fazem refletir sobre como qualquer radicalismo e como qualquer sociedade cheia de regras é daninha, mortal. Deveríamos todos trabalhar para a inclusão das pessoas, e não para a exclusão. Um filme interessante, com um roteiro bem inusitado para nos fazer pensar sobre conceitos importantes. Só achei ele um pouco longo e com um desenvolvimento um tanto arrastado. Poderia ser mais curto e um tanto mais direto nos pontos centrais.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fazia tempo que eu não via o ator Colin Farrell em uma interpretação tão interessante. Ele exagera nas caras e bocas e nem faz uma interpretação caricatural – o que volta e meia ele apresenta. Não. Em The Lobster Farrell está coerente e em uma interpretação sem exageros e na qual é possível acreditar no personagem. Ele humanizou uma figura bem diferente do usual. O espectador agradece.

Além de Colin Farrell, The Lobster tem alguns grandes atores em papéis secundários. Deste elenco “de apoio”, destaque para Rachel Weisz como a narradora e a nova parceira que o protagonista encontra na floresta, entre os solitários; John C. Reilly como o “homem que sibila” e que vira amigo de David no hotel; Léa Seydoux como a maluquete líder dos solitários; Michael Smiley como o braço direito da líder dos solitários; Olivia Colman como a gerente do hotel; Ashley Jensen como a mulher do “biscoito” e que se desespera por não conseguir um companheiro; Angeliki Papoulia como a “sem coração” que é a psicopata que David resolve enganar sem sucesso; Garry Mountaine como o parceiro da gerente do hotel; Ariane Labed como a camareira que é “agente dupla”; Ben Whishaw como o jovem manco que finge ter o mesmo problema de uma jovem para fazer um casal com ela; e Jessica Barden como a jovem garota que tem um problema com o nariz que sempre sangra.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Yorgos Lanthimos. Ele soube explorar bem a interpretação dos atores e também os cenários restritos em que eles se movimentam. Só achei o filme um tanto longo demais. Alguns trechos menos relevantes para a história poderiam ter sido perfeitamente cortados. Vale ainda destacar a direção de fotografia de Thimios Bakatakis; a edição de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Jacqueline Abrahams e a trilha sonora contundente e bastante pontual, quase como outro narrador do filme, e executada por seis nomes do Departamento de Música.

O nome de Yorgos Lanthimos não me parecia familiar. Buscando mais informações sobre ele, descobri que o diretor grego tem 44 anos e fez, antes de The Lobster, oito curtas e longas. Foi vendo a lista do que ele tinha dirigido antes que eu percebi que The Lobster não foi o primeiro filme que eu vi dele. Antes, assisti a Kynodontas (comentado aqui), outro filme muito, muito peculiar e forte. Pelo visto, Lanthimos tem um estilo de cinema realmente diferenciado, que tende ao exagero para fazer o espectador pensar sobre determinados padrões e realidades. Não deixa de ser interessante.

Novamente a violência é um elemento importante em um filme de Lanthimos. Parece que ao explorá-la de forma tão crua e visceral ele está querendo nos alertar sobre o fascínio que nós como indivíduos e em coletivo, nas nossas sociedades, temos com a violência. Vale questionar isso sim, com certeza.

The Lobster teria custado cerca de 4 milhões de euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 9 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele teria feito outros US$ 8,98 milhões. Ou seja, conseguiu cobrir os gastos e faturar alguma coisa.

Esta produção foi totalmente rodada na Irlanda, em locais como o Parknasilla Hotel and Resort, em Sneem; o The Eccles Hotel, em Glengariff Harbour; o Grand Canal Dock e o Blanchardstown Shopping Centre, em Dublin; e a floresta Dromore, em Coillte Teoranta.

The Lobster é uma coprodução da Grécia, da Irlanda, da Holanda, do Reino Unido e da França. São poucos os filmes com tantas produtoras e países envolvidos. Interessante a forma com que os produtores deste filme conseguiram captar tantos recursos de diferentes países.

Esta produção ganhou 22 prêmios e foi indicada a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Olivia Colman no British Independent Film Awards; para o prêmio do júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cannes – onde o filme recebeu ainda o prêmio do júri do Palm Dog para o cachorro Bob e uma menção especial no Queer Palm para Yorgos Lanthimos; o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original no Florida Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme Estrangeiro no Hellenic Film Academy Awards; o de Melhor Roteiro no International Cinephile Society Awards; o de Melhor Diretor no Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Miami; e o de Melhor Trilha Sonora Original e Design de Som para Johnnie Burn no Festival Internacional de Cinema de Ghent.

Além destes prêmios que recebeu, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Colin Farrell. No primeiro ele perdeu para Manchester by the Sea (comentado aqui) e, no segundo, para Ryan Gosling, de La La Land (com crítica neste link). Francamente, acho que nos dois casos as derrotas foram merecidas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Um filme cerebral e nada emocional. O diretor e roteirista Yorgos Lanthimos leva ao extremo alguns conceitos de padronização da sociedade dos indivíduos para nos fazer pensar sobre como o excesso de regras pode nos tornar pouco mais que robôs. Mesmo sendo um “espetáculo do absurdo”, The Lobster mexe com diversos conceitos individuais e coletivos e mostra que mesmo em sociedades hiper controladas é possível improvisar e encontrar o amor.

Com roteiro bem criativo e curioso, esta produção é para quem não se importa com histórias e enredos estranhos e inusitados. É curioso, mas não chega a mexer com o espectador. Esta mais para uma obra nonsense do que para um grande filme.

Youth – La Giovinezza – Juventude

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Você está em um local feito para o prazer, para o relaxamento, idílico e no qual é perfeitamente identificável a noção exata do peso da passagem do tempo. Youth é um filme que trata sobre isso, em especial sobre o processo de envelhecimento e sobre a constante e interminável comparação entre a juventude e a velhice. Quando pensamos nisso, refletimos sobre a vida mesma, nossas escolhas, as casualidades, o que fizemos e o que fizeram com a gente. Francamente, mais um grande filme do diretor Paolo Sorrentino. Para mim, um dos nomes mais interessantes do cinema mundial a ser acompanhado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cantora e sua banda tocando uma música pop sobre amor. A câmera está fixa na cantora, mas ela e o restante da banda giram em um cenário em que pessoas parecem se divertir. Em seguida aparecem algumas pessoas, como uma mãe caminhando de mãos dados com a filha e o diretor Mick Boyle (Harvey Keitel) olhando tudo atentamente. Corta. No dia seguinte, o maestro Fred Ballinger (Michael Caine) conversa com um dos organizadores de eventos (Alex Macqueen) e festas da rainha da Inglaterra. Eles conversam sobre as razões de Ballinger sempre passar férias naquele local, na Suíça.

O emissário da rainha convida ele para uma apresentação para o Palácio de Buckingham. Perto deles está o ator Jimmy Tree (Paul Dano), atora que está por ali pesquisando para os eu próximo papel. Ballinger diz que não vai aceitar o convite. Na sequência, começamos a ver toda a dinâmica daquela ambiente e conhecer melhor as pessoas que estão por ali movidas por diferentes razões.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Youth): O diretor italiano Paolo Sorrentino tem um jeito todo peculiar de contar uma história. A visão dele de mundo, de narrativa, do cinema e da vida é bastante diferenciada e, apenas por isso, acho o diretor e roteirista admirável. Para mim, ele é um dos grandes diretores de sua geração – ele tem 46 anos – que merece ser acompanhado.

Antes deste Youth eu assisti, do diretor, os filmes This Must Be The Place (comentado aqui) e o magnífico The Great Beauty (com crítica neste link). Parece que, a exemplo do que aconteceu com Almodóvar em uma certa fase, Sorrentino vive uma boa safra. Seus dois últimos filmes foram os melhores. E quando falo dos dois últimos, incluo este Youth.

Para quem já assistiu a um bocado de filmes, como eu, impossível ver a Youth e não se lembrar um pouco de Fellini. Ainda que o estilo de Sorrentino, claro, é mais “condizente” com o nosso tempo. Ou seja, há fantasia sim e até autorreferência nos filmes dele, mas também há uma boa valorização de assuntos que são importantes para o final dos anos 1990 e especialmente para estes anos 2000 e pouco, como a beleza das imagens e das proporções, a harmonia entre pessoas e arquitetura e a música, uma trilha sonora importante e bem presente.

Passada essa introdução, falemos propriamente de Youth. Neste filme, a reflexão maior é sobre a passagem do tempo. Sobre as características das pessoas quando elas são jovens, que tipo de olhar, percepção, sensibilidade elas tem, e o que acontece quando elas envelhecem – muda o olhar, a percepção e tudo o mais. Em mais de uma situação Sorrentino trabalha o contexto, em especial, e também os seus personagens com frieza.

Ele é irônico ao mostrar aquele “paraíso idílico” de férias na Suíça como quase um local de linha de produção, com diferentes “corpos” e pessoas de diferentes idades seguindo um mesmo fluxo para sessões de massagens, banheiras, piscinas, saunas e os demais locais feitos para todos relaxarem. Mas eles realmente encontram o que procuram? Isso seria possível? Sorrentino parece nos deixar claro, em todos os momentos, que cada pessoa em cena tem muito mais peso, gravidade, desejos e sentimentos do que seria possível resumir em um filme.

Ainda assim, ele deixa claro também outro debate importante, além da passagem do tempo: afinal, o que deixamos de legado na nossa vida? Neste sentido, não por acaso temos como protagonista um grande compositor e um grande diretor de cinema. Em diversos momentos fica sugerido que a obra que eles deixaram acaba sendo mais importante do que o que eles conseguiram fazer de suas vidas.

Isso especialmente em relação a Ballinger. Parece evidente que ele conseguiu deixar um legado de composições muito mais “feliz” e representativa para as outras pessoas do que o que ele conseguiu “acumular” e vivenciar no final de sua vida. Outro personagem central nessa história, o grande amigo de Ballinger, o diretor Boyle, também vive o seu momento “pós-glória”. Ele acredita que ainda pode fazer grandes filmes e escreve o roteiro da produção que ele acha mais importante, o seu legado, mas as outras pessoas tem uma visão bem diferente da dele.

Esse choque entre a visão que as pessoas tem de si mesmas e do que elas fizeram quando chegam na velhice e a forma com que as outras pessoas as encaram é muito representativo na vida real e bem explorado em Youth. Como o filme trata disso e da vida “como ela é”, há diversas pequenas reflexões muito interessantes.

Por exemplo, a diferença de olhar que um(a) filho(a) tem de seu pai e de sua mãe se compararmos esta leitura com a experiência que o pai e a mãe tiveram de si mesmos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente neste filme com a leitura bastante crítica que Lena Ballinger (Rachel Weisz) faz de seu pai e da relação que ele tinha com a mãe dela e o que de fato ele viveu com a esposa – e que fica claro quando ele vai visitá-la na instituição em que ela está internada. Ele comenta com a esposa coisas que só eles sabem e que os filhos nunca vão saber, porque são detalhes da convivência e da intimidade de um casal que ninguém mais fica sabendo.

Essa diferença de olhares e de leituras que as pessoas fazem está evidente também em diversos outros momentos do filme. Achei muito interessante, por exemplo, como Youth trata do preconceito que todos nós temos com algum perfil de pessoa. Por exemplo, a expectativa ruim que fazemos da garota (Emilia Jones) que faz birra com a mãe, ou a leitura que Tree faz da Miss Universo (Madalina Diana Ghenea) antes mesmo dela falar qualquer coisa, ou de todas as pessoas em relação à garota (Gabriella Belisario) que faz programas naquele local chique da Suíça ou de Lena Ballinger em relação ao professor de alpinismo Luca Moroder (Robert Seethaler).

Sorrentino mostra claramente a expectativa ruim e premeditada que as pessoas fazem destas pessoas e de que forma estas leituras estão equivocadas. Todas merecem ser respeitadas e ouvidas, merecem crédito, e não desprezo premeditado. A garota que faz birra com a mãe é a mesma que ao se encontrar com Tree lhe surpreende ao fazer uma leitura profunda de um filme que ele comenta que “ninguém assistiu”. Sim, ela não viu ao blockbuster dele que todos citam.

Ela comenta sobre outro filme e a respeito de uma cena envolvendo um pai e o seu filho e que traz uma de diversas leituras interessantes deste Youth: de que ninguém se sente realmente capaz para fazer grandes coisas, inclusive para ser pai ou mãe. Todos, parece, estão em permanente aprendizado, em uma escola sem fim. E, mesmo assim, não devemos nos acovardar de fazer o que achamos que faz sentido.

O mesmo Tree é surpreendido com a Miss Universo. Ela, diferente da garota que gritou com a mãe, cita o filme blockbuster do ator. No primeiro encontro entre eles, a Miss Universo comenta que quer ser atriz, e Tree claramente despreza os comentários dela. Até que ela surpreende a todos matando a charada sobre ele. A ironia que ele destilou contra ela estava, na verdade, carregada de frustração. Ela acaba com ele em um comentário. Mais um sinal de que não devemos desprezar as outras pessoas sem ao menos darmos a chance de conhecer melhor as suas vastas e complexas histórias.

Lena inicialmente acha Luca um tanto estranho, talvez um tanto “bruto”, sem refinamento, como parecia ser o caso de seu ex-marido Julian (Ed Stoppard). Quando eles se encontram, Lena não parece ter nenhuma atração por Luca. Mas quando ela deixa ele se aproximar, acaba conhecendo a sensibilidade e a forma dele de encarar o mundo que ela não poderia imaginar no primeiro contato. E, finalmente, todos desprezam a garota de programa – ou olham para ela apenas como um “pedaço de carne”. Mas Boyle não pensa assim e resolve sair com ela de braços dados para mostrar que ela merece ser vista com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa.

Além destes pontos, Youth tem outras reflexões, como a importância da amizade – talvez a única riqueza que alguém leve consigo até a velhice -; da família, e de se fazer o que se ama até o final (seja um filme, seja pensar nos sons da vida como uma trilha sonora). Também percebemos a limitação que todos temos – ou teremos – com a passagem do tempo, como o esquecimento (ou a dificuldade de manter as próprias memórias), as limitações físicas e de oportunidades. Poucos acreditam que “um velho” ou “uma velha” podem ainda produzir algo útil ou incrível – como um ótimo filme. Pena que a nossa pense assim.

Ah, e claro, como o nome da produção mesmo sugere, este filme é uma grande reflexão sobre a força da juventude. De como todos e a sociedade em geral valoriza a beleza dos jovens, e de como parece que esta época da vida sempre é vista como a melhor pela maioria – tanto que os protagonistas deste filme estão sempre lembrando de suas próprias juventudes e de uma garota pela qual os dois eram apaixonados. Mas será que a juventude é tudo isso mesmo ou ela é idealizada? Esta é uma das questões apontadas por Youth – francamente, acho que a juventude é fantástica, mas que nada melhor do que amadurecer e envelhecer bem.

Tive muitas dúvidas sobre que nota dar para esse filme. Enquanto eu o assistia, pensei na nota abaixo. Mas admito que o final me fez ficar em dúvida se eu deveria realmente dar a nota máxima para Youth. Além disso, claro, não dá para negar que Sorrentino tem grandes pretensões com este filme. Isso também seria um motivo para, talvez, não dar a nota 10 para Youth.

Mas a verdade é que eu achei o filme envolvente, muito bem feito, tecnicamente falando, e com um roteiro incrível. Além de grandes atores em interpretações irretocáveis. Então, por que não dar a nota máxima? Sim, apesar do filme ser um tanto pretensioso, acho que ele consegue fazer uma entrega excepcional. Especialmente pelos temas que ele levanta, pelo olhar crítico que ele lança para a compreensão da sociedade sobre a velhice e sobre a passagem do tempo. Gosto também da forma com que ele homenageia as artes e as amizades, assim como o respeito que ele tem com cada um dos personagens em cena. Isso é algo raro no cinema e, por isso mesmo, tão belo.

Também as mensagens que o filme deixa são muito significativas. Primeiro, de que para fazer arte – e acho que bem qualquer coisa – é preciso vivenciar, ter experiências. Depois, que o importante da vida e o que levamos conosco é justamente aquilo que vivemos – e não o que acumulamos de bens, por exemplo. Finalmente, conforme nos comenta Tree quando está “submerso” no personagem de Hitler, de que sempre é preciso fazer uma escolha entre o terror e o desejo – e que ele, após observar os outros, resolve não dar atenção para a “insignificância do terror”, mas para o valor do desejo que acaba movendo a todas as pessoas.

Agora, falemos um pouco do final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Youth). Francamente, questiono a escolha de Sorrentino por um final impactante. Realmente era necessário o suicídio de Boyle? Ok, o diretor quis deixar claro que no ambiente do cinema não existe gratidão e que pessoas sensíveis acabam sofrendo com a falta de oportunidades e o desprezo de pessoas que elas ajudaram antes. Mas me pareceu que a morte de Boyle foi mais uma forma de “impactar” perto do final e de dar uma “reviravolta” na história do que algo realmente necessário. Claro que situações assim acontecem, mas Boyle parecia amar demais a vida e a arte para simplesmente desistir assim de tudo.

Depois daquele momento, para mim, o final pode ser entendido de duas formas. Que a partir da morte de Boyle tudo o que vemos depois é real ou é como ele gostaria que fosse. Afinal, Ballinger realmente foi visitar a esposa e depois aceitou fazer o concerto para a rainha da Inglaterra ou tudo isso seria o final do filme que Boyle imaginaria? Acho que esta questão é levantada pelo final, quando Boyle aparece enquadrando a “última cena”.

Se encararmos o final como algo real, acho um contrassenso Ballinger ter cedido e feito a regência de algo que ele prometeu que não faria. Não faz sentido algum. Quer dizer, até faria sentido, se o que Sorrentino quer nos dizer com esses fatos finais – morte de Boyle e conserto de Ballinger – é que a vida é imprevisível e que sempre podemos mudar de opinião e de direção. Algo considerado imutável pode sim ser mudado se assim decidirmos.

Mas francamente eu prefiro a outra forma de encarar o final. Desta forma, fica mais fácil de dar a nota abaixo. Neste caso, encarando o final como a imaginação de Boyle. Por esta ótica, a história terminou, de fato, quando o diretor se joga da sacada. O restante seria, de fato, o legado dele. Desta forma, Sorrentino faz uma autorreferência ao cinema marcante. Prefiro encarar o filme desta forma. Ainda que não deixe de ser interessante que Youth nos possibilite pelo menos duas visões diferentes e interessantes do final – a escolha do espectador.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sorrentino, especialmente com os dois últimos filmes que eu vi dele, entrou na minha lista de diretores que eu quero sempre acompanhar. Acho bacana fazer isso, especialmente com realizadores que tem uma proposta bem clara do que eles enxergam como cinema. Sorrentino é um destes.

Para mim, o filme funciona bem em todos os seus elementos. A direção de Sorrentino é cuidadosa, atenta aos detalhes e em busca permanente da beleza das situações e das pessoas. O roteiro dele é uma colcha de retalhos de histórias e de personagens que ajudam a refletirmos sobre a vida.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Luca Bigazzi, da maravilhosa trilha sonora de David Lang, da edição precisa e importante de Cristiano Travaglioli, do design de produção de Ludovica Ferrario, dos figurinos de Carlo Poggioli, e da direção de arte de Daniel Newton e de Marion Schramm. Tudo funciona muito bem e forma um conjunto interessante mas, sem dúvida, eu destaco a trilha sonora e a direção de fotografia.

Os grandes Michael Caine e Harvey Keitel fazem grandes trabalhos neste filme. Os dois são de tirar o chapéu. Rachel Weisz também está ótima, roubando a cena sempre que aparece – ela ganha protagonismo quase sempre, não apenas no excelente monólogo a respeito do pai. Além deles, o elenco de apoio faz um bom trabalho. Além dos nomes já citados, vale comentar os outros com maior relevância que fazem parte do filme: Roly Serrano em uma estranha versão e paródia de Diego Maradonna; Nate Dern, Alex Beckett, Mark Gessner, Tom Lipinski e Chloe Pirrie como o time de roteiristas que ajuda Mick Boyle a fazer o roteiro de seu “filme legado”; Luna Zimic Mijovic como a jovem massagista que aparece em diversos momentos do filme além daqueles de seu ofício propriamente dito; e, claro, uma super ponta de Jane Fonda como Brenda Morel, a estrela preferida de Boyle.

Das apresentações musicais, um destaque especial para a que abre o filme, feita pela banda The Retrosettes, e para a apresentação final, com a fantástica Sumi Jo.

Youth estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Depois o filme passou por outros 19 festivais em diversas partes do mundo. Nesta trajetória o filme conseguiu 12 prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação para o Oscar (de Melhor Canção Original por Simple Song #3, justamente a música que fecha o filme) e duas indicações no Globo de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante para Jane Fonda e Melhor Canção para Simple Song #3). Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Europeu, Melhor Diretor Europeu e Melhor Ator Europeu no European Film Awards; para o Prêmio da Audiência do Festival Internacional de Cinema Karlovy Vary para Paolo Sorrentino; e para o de Melhor Atriz do Ano para Jane Fonda no Hollyood Film Awards.

Esta produção teria custado 12,3 milhões de euros e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,7 milhões; e na Itália, quase 6 milhões de euros. Ou seja, talvez o filme tenha dificuldade de cobrir os seus gastos.

Youth foi filmado em três países: Suíça (Davos, Flims, Kandersteg e Wiesen), Itália (Veneza e Roma) e na Inglaterra (Londres).

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Jane Fonda se interessou pelo papel de Brenda depois que Al Pacino, que é amigo dela, comentou que o papel tinha sido escrito para ela – ou seja, que se encaixava como uma luva para a atriz veterana. Uma outra atriz tinha sido escalada para o papel, mas com a desistência dela Jane Fonda conseguiu fazer Brenda. Ela realmente está ótima em sua super ponta.

Michael Caine improvisou na cena em que o maestro pede para a filha parar de chorar. Paolo Sorrentino escreveu Youth tendo Caine em mente – sem dúvida alguma o ator é uma bela inspiração para qualquer roteirista/diretor.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena final em que Ballinger conduz uma orquestra lembra muito, segundo os críticos, a cena de Federico Fellini em Orchestra Rehearsal, de 1978. Fellini é uma grande influência sobre Sorrentino.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 119 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média 7. Entendo as críticas. Não apenas porque não é um filme para todo mundo, mas porque os que encaram este filme como pretensioso tem a sua razão. Ainda assim, vi Youth com melhores olhos. 😉

Este filme é uma coprodução entre a Itália, França, Reino Unido e Suíça.

CONCLUSÃO: Um filme quase perfeito e cheio de detalhes sobre diversos aspectos da vida, com ênfase especial para a passagem do tempo. Não existe apenas um tema central em Youth. Além da óbvia comparação entre juventude e velhice, temos tudo que está relacionado entre estes dois tópicos, como as relações humanas, os sonhos, as expectativas e as frustrações, a incapacidade de manter as potencialidades por muito tempo, a fama e o anonimato, a família e os amigos. Tudo faz parte da reflexão do diretor. Mais um grande trabalho de Sorrentino. Um filme que merece ser visto com atenção e tempo, porque é uma obra para ser apreciada. Francamente, achei uma das grandes produções que eu assisti ultimamente.

360

As boas e velhas encruzilhadas. Aquelas mesmas que, muitas vezes, não nos damos conta que estamos cruzando. 360, dirigido por Fernando Meirelles, é mais um destes filmes cheios de histórias que filosofa sobre a vida. Não é o melhor deles, mas tem estilo. O diretor brasileiro pegou um grande time de atores e soube tirar proveito deles, utilizando recursos bacanas que um diretor tem para contar uma história – especialmente no que se refere a edição. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Papel de parede barato. Uma bela mulher se coloca à frente dele e arruma o cabelo. Parece um pouco nervosa. Ela olha fixo para a frente, e Rocco (Johannes Krisch) diz que está bem, e que pode dar para ela alguma bebida para que ela relaxe afinal, aquela é uma sessão de fotografias importante. Com aquelas fotos, Mirka (Lucia Siposová) vai conseguir trabalho e fazer um dinheiro impossível em sua realidade. A cidade é Viena, onde homens de negócio pagam bem para prostitutas de luxo. Ali começa a série de histórias de 360, que passa ainda pela Bratislava (Eslováquia), Paris, Londres, Colorado e Phoenix (EUA).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a 360): A sensação de “eu já vi esse filme antes” demora um pouco para acontecer. Na verdade, o espectador que já tem uma boa bagagem de filmes começa a ter essa impressão quando vamos para Londres e nos aproximamos do casal de brasileiros Rui (Juliano Cazarré) e Laura (Maria Flor) e do caso que Rui tem com Rose (Rachel Weisz). Até ali, estamos imersos na fascinante história de Mirka, que utiliza o codinome Blanka, interpretada por Lucia Siposová, um dos pontos fortes de 360.

O filme começa muito bem, obrigado. Os diálogos e a narrativa que introduzem a história de Mirka e de sua irmã Anna (Gabriela Marcinkova) são perfeitos. A forma de conduzir do diretor, também. O “problema” de Mirka/Blanka está lançado, e já é conhecido. Mulher pobre, sem muitas chances de ganhar a vida, vira prostituta de luxo. Com todos os riscos e pesos que isso pode significar. De forma curiosa, a irmã Anna, a quem Mirka parece querer proteger, lhe acompanha os passos. Vai vendo, desde cedo, um pouco de como é a vida – ainda que, ao invés de desencantar-se logo de cara, ela prefira sonhar abraçada a vários livros.

Da sofisticada Viena, passamos para a complicada Bratislava, cidade da Eslováquia que fica a 79 quilômetros – ou 50 minutos de carro da capital austríaca. Após os diálogos iniciais, a música entra em cena de forma predominante, um dos trunfos da produção. E a partir da Eslováquia, outro elemento conhecido e que já virou clássico de diretores como Steven Soderbergh (vide os filmes Ocean’s Eleven, entre outros), também embala a produção: a edição fluida que divide a tela em mais de um ambiente com acontecimentos simultâneos.

Este trecho inicial, que conta a história das irmãs eslovacas, é o melhor da produção. Isso não quer dizer que 360 não tenha bons momentos depois, mas a partir da metade do minuto 17, quando passamos para as outras histórias, começando pela obstinação de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) por Valentina (Dinara Drukarova) em Paris, é inevitável não lembrar de outros filmes com múltiplas histórias que se cruzam.

E é na comparação que 360 perde pontos. Afinal, após 1h44min desta produção, ficamos com um grande “e daí?” na cabeça. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande mensagem desta produção, deixada na reprodução da imagem que passa no painel da fachada de um prédio em Viena, é que a vida segue? De que, volta e meia, quando escolhemos um caminho de uma de várias encruzilhadas que encontramos na vida, estamos abrindo as portas para a felicidade ou para um verdadeiro desastre? Sim, isso tudo é verdade. Mas outras produções que precederam 360 já trataram estas mesmas temáticas de forma mais interessante, com histórias bacanas do início ao fim.

Mas não é isso que acontece com 360. Por mais que eu goste do Anthony Hopkins e que tenha achado boas as participações dos brasileiros Juliano Cazarré e Maria Flor, achei muito fraca a história dos três. A parte mais interssante do trio envolve o contato de Laura com Tyler (Ben Foster). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mais uma vez Foster mostrou porque é um dos grandes nomes de sua geração. Ele exprime com precisão toda a tensão e esforço de seu personagem para controlar a si mesmo e não cometer mais uma loucura. A interpretação dele, junto com Maria Flor, é a mais tensa da produção, e a que deixa melhor a mensagem de “enquanto você se lança em uma direção, é preciso estar preparado para os riscos”.

Porque nesta busca que todos os personagens de 360 parecem fazer para viverem melhor, para serem felizes, há “muitos riscos na esquina”. E estes riscos são muito, muito reais. Quem garante que a pessoa que você conhecer neste noite, em um bar ou clube, não é um psicopata ou uma louca? O que pode acontecer com você se parar na esquina errada na volta da “balada”? Ou quando está abrindo o portão de casa? Essa tensão mostrada no contato entre Laura e Tyler – e até antes, quando ela se aproxima de Anthony Hopkins, para quem não consigo olhar sem imaginar o Dr. Hannibal – e, posteriormente, no encontro entre “Blanka” e o patrão (Mark Ivanir) de Sergei (Vladimir Vdovichenkov), é um dos acertos desta produção.

Algo para contrabalancear com as histórias fracas entre casais em crise, como Rui e Laura e, principalmente – e eis o grande desperdício desta produção – Michael Day (Jude Law) e Rose. Muito espaço para eles, que não demonstraram química alguma. Ainda assim, claro, há uma razão para o roteirista Peter Morgan, que se inspirou na peça Reigen, do mestre Arthur Schnitzler, ter colocado eles ali.

Faz parte da reflexão deste filme as escolhas que Laura, Michael e Rose tomaram. Romper uma relação ou manter um casamento são escolhas fundamentais, que ajudam a definir o resto das nossas vidas. Decidir permanecer ou partir altera tudo. Mesmo que estas sejam verdades universais, perto do perigo de aproximações como as que Laura e Anna fazem, assim como as histórias delas e mesmo da pouco explorada relação entre o dentista e Valentina, ou mesmo da história de Sergei, estas decisões de casais que seguem ou que se rompem revela-se menos interessante.

Além de certas escolhas serem fundamentais, e de muitos perigosos rondarem estes momentos – sem que percebamos algo -, 360 trata de algo fundamental: de como alguns contatos imprevistos podem tornar-se fundamentais na nossa vida. Como uma frase, um bilhete, um abraço colocado na hora certa, podem ser os elementos que nos faltavam para que tudo se encaixe. Para que a vida faça sentido, e para que fique claro o passo que deve ser dado em seguida. São encontros como entre os personagens de Hopkins e Maria Flor, entre outros, que mudam tudo. Algumas vezes para melhor, porque fazem todo o sentido. Outras vezes para pior, porque nos “estraga a vida”. E a beleza de 360, e da vida mesma, é que nunca conseguimos prever ou evitar esses contatos. Eles simplesmente acontecem.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fernando Meirelles mostra, mais uma vez, que pode fazer qualquer projeto muito bem. Seja um “encomendado”, como é o caso deste, seja um que ele assuma desde o princípio, incluído o roteiro. Junto com Walter Salles, sem dúvida, é o grande diretor brasileiro da atualidade.

360 tem um elenco primoroso. Todos fazem bem os seus papéis, mas alguns se destacam mais que os outros. Tiro o chapéu para Lucia Siposová, que rouba a cena toda vez que aparece e, mesmo com papéis menores, para Gabriela Marcinkova e Vladimir Vdovichenkov. Sem dúvida alguma, o melhor núcleo da produção. Também merecem uma reverência os sempre competentes Jamel Debbouze e Ben Foster.

Da série, “que desperdício”, destaque para o ótimo ator alemão Moritz Bleibtreu que, aqui, faz quase uma ponta. Poucas cenas e alguns diálogos – além do troféu de personagem mais sacana da produção. Jude Law e Rachel Weisz cumprem os seus papéis, sem destaque. E o melhor momento de Anthony Hopkins é seu “desabafo” em um grupo de apoio. Não é o seu melhor desempenho.

Mesmo em papéis micro, os geniais Johannes Krisch e Dinara Drukarova brilham. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela, em especial, na sequência em que sua vontade é totalmente aniquilada pelo dentista. Ah, se as pessoas soubessem ler os sinais… e se fossem mais valentes, corajosas… Tantas histórias de amor não se perderiam no vazio, causando sofrimentos desnecessários.

Merece uma menção, também, a ponta de Marianne Jean-Baptiste como Fran, a profissional que ajuda Tyler a ficar na linha.

A trilha sonora de 360 é um dos pontos fortes do filme. Belo trabalho que carece de crédito – não encontrei o responsável pela seleção musical e nem a lista completa de canções que faz parte da histórias. Apenas que uma delas, Helium Reprise, é interpretada por Mike Patton e Mark Orton.

360 estreou em setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros dois festivais, o de Londres e o de Munique. Nesta trajetória, foi indicado a apenas um prêmio, o de melhor filme em Londres. Mas, até o momento, não recebeu a nenhum prêmio.

Segundo o site Box Office Mojo, 360 teria arrecadado, nas bilheterias dos EUA, quase US$ 70 mil. Sim, mil dólares e não milhões… é que o filme estreou em poucas salas – começou com duas, passou para 11 no dia 12 de agosto e, na semana seguinte, já baixou para oito salas nos Estados Unidos. Por mais que tenha um grande elenco em cartaz, assim o filme não vai conseguir ter um bom desempenho.

360 não se saiu bem nas avaliações de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para a produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 49 críticas negativas e apenas 12 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 20% e uma nota média de 4,4.

Esta é uma produção entre Reino Unido, Áustria, França e Brasil.

Caros leitores, quem leu este texto logo depois que eu o publiquei, na tarde do domingo dia 26/08, deve ter estranhado que eu não citei aspectos técnicos da produção. Por puro esquecimento. Mas lá vai a correção: além dos nomes citados, quero destacar a ótima direção de fotografia de Adriano Goldman e, principalmente, a edição precisa e que deixa o filme bastante fluente de Daniel Rezende.

CONCLUSÃO: Determinadas escolhas definem uma vida. E, muitas vezes quando elas são tomadas, a pessoa que decidiu um caminho entre dois ou vários não se dá conta da importância daquela escolha. Por um lado, isso é triste. Porque seria importante sabermos quando uma decisão é fundamental. Depois dificilmente dá para voltar atrás. Por outro lado, talvez essa falta de clareza sobre as bifurcações dos caminhos da vida seja a graça própria que ela tem. Esta incerteza e falta de sinais sobre os momentos fundamentais seja o que torna a vida imprevista – e surpreendente. 360 dá um giro em diversas cidades de alguns países para focar as escolhas de gente muito diferente. Todas, incrivelmente, de certa forma ligadas. A premissa não é nova, e outros filmes (como Magnolia, em um universo menor) fizeram essa reflexão melhor. Mas o filme de Meirelles tem um elenco muito bom, e o mérito de contar as histórias de forma interessante. Não é um filme que pesa, ainda que algumas histórias sejam menos interessantes. A sorte do espectador é que as que começam e terminam o filme são as melhores da produção. Daí que os gostinhos de “e daí?” e “eu já vi esse filme antes” se tornam mesmo intensos. Esta não é uma produção que vai marcar a sua vida. Mas pode fazer você pensar sobre caminhos escolhidos. O que comprova que, mesmo requentada, ela não é de todo descartável.