Entebbe – 7 Days in Entebbe – 7 Dias em Entebbe

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O conflito israelense e palestino já rendeu bastante pano pra manga. Não apenas histórias, contadas em livros, filmes, séries e em outras plataformas, mas, sobretudo, já rendeu muitas mortes, sofrimento, dor. Entebbe conta um dos episódios desse conflito que parece não ter fim. O filme dirigido pelo brasileiro José Padilha é bem filmado e tem bons atores, mas a narrativa é bastante cansativa e previsível. Na verdade, Entebbe dá sono. A parte mais interessante do filme é vermos a alguns personagens históricos importantes daquele cenário em ação.

A HISTÓRIA: Em um palco, várias pessoas estão dispostas em um semicírculo. A música e o ensaio começam. A introdução comenta como, em 1947, Israel consegue se estabelecer como nação, enquanto os palestinos resistem à falta de território e consegue o apoio de diversos grupos de esquerda espalhados pelo mundo. A história dessa produção, em si, começa no dia 27 de junho de 1976, considerado o primeiro dia da ação.

Wilfried Böse (Daniel Brühl) não está passando bem no banheiro, mas ele se recompõe e sai para o saguão do aeroporto para se encontrar com Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike). Quando eles saem, dois outros homens olham para eles. Todos estão juntos. Eles entram no avião da Air France que está saindo de Tel Aviv com destino a Paris. Em breve, eles vão entrar em ação e entrar para a História.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Entebbe): Dessa vez eu prometo não falar muito sobre esse filme. Até porque eu acho que Entebbe não merece uma grande avaliação. Por uma razão muito simples: esse filme deveria ter rendido um curta e não um longa. E se fosse para render um longa, que ele fosse muito, mas muito melhor contextualizado.

Da maneira com que Entebbe foi desenvolvido, não precisaríamos gastar tanto tempo no cinema. Afinal, o roteiro de Gregory Burke é simplório e previsível. Fora um breve momento de retorno na história para mostrar a preparação dos sequestradores para a operação envolvendo o avião da Air France, a narrativa é linear e com um desenvolvimento um bocado lento. Como comentei no início dessa crítica, com bastante facilidade esse filme dá sono.

Apesar de ter poucos personagens de destaque, Entebbe realmente não desenvolve bem personagem algum. Os atores principais, que podem ser considerados Daniel Brühl e Rosamund Pike, fazem um bom trabalho, mas, apesar disso, não sabemos quase nada de seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, qual era a origem de Böse e de Kuhlmann. Sabemos que Kuhlmann se responsabiliza pela prisão – e posterior morte – de Ulrike Meinhof na prisão, mas não sabemos muito mais do que isso da personagem.

Presumimos, com a cena em que Brigitte Kuhlmann fala da morte de Ulrike Meinhof na prisão, que ela fazia parte do grupo Baader Meinhof – ou RAF (Fração do Exército Vermelho) – e que planejava, com aquele sequestro do avião francês com dezenas de israelenses à bordo, resgatar parte do grupo que estava preso. O mesmo presumimos de Böse, mas tudo não passa de suposições. Afinal, Entebbe realmente nos fala pouco destes personagens. E o mesmo a respeito dos outros sequestradores.

Assim, Entebbe deixa tudo muito sugerido e pouco realmente claro. Ao menos envolvendo os sequestradores. Porque a respeito de Israel e de seus líderes, claramente Entebbe praticamente lhes rende uma homenagem. Em partes, ao menos. Claramente percebemos uma postura, por parte de Shimon Peres (Eddie Marsan), de não ceder aos sequestradores sob circunstância alguma. O primeiro ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi), por sua vez, parece ter muito mais dúvidas do que certezas.

Se algo esse filme tem de interessante, é mostrar como as preocupações políticas de algumas lideranças – ou seria de todas? – está acima de vidas humanas e de interesses maiores que não sejam os seus próprios projetos de poder. Peres parece estar sempre preocupado com o “custo político” das ações que o governo israelense pode tomar. Claramente ele é um sujeito ambicioso e combativo, que acredita piamente na filosofia “nós contra eles”.

Enquanto isso, Rabin parece ser um sujeito muito mais ponderado e pacifista. Ele percebe, já na segunda metade dos anos 1970, que não adianta Israel sempre optar pelo combate e pelo enfrentamento. Em algum momento, o país deverá ceder e dialogar, chegar a um acordo – e, para isso, abrir mão de algo, seja de um pouco de poder, seja de um pouco do território. Naquele momento já existiam questões que seguem válidas mais de 40 anos depois – infelizmente.

Para resumir, se temos algo de interessante nesse filme, é justamente esse bastidor político e de jogo de poder. Vemos a dois personagens importantes da história – Peres e Rabin – em momentos de debate e de decisão. Essa é a parte que faz esse filme valer o tempo gasto. O restante, o sequestro e o resgate dos reféns, em si, são desenvolvidos de maneira simplória e um tanto desorganizada.

No fundo, pelo que o filme nos conta, não nos aprofundamos na história e na motivação dos sequestradores e nem nos aprofundamos na história e nas intenções dos outros envolvidos naquela situação. A parte melhor desenvolvida, digamos assim, é a dos personagens de Israel. Sobre o ditador Idi Amin (Nonso Anozie) sabemos pouco. Apenas, por exemplo, que ele é uma pessoa dúbia e com motivações não muito claras – parece que ele faz um jogo duplo.

Um problema de Entebbe, a meu ver, é que ele é uma produção muito “chapa branca”. Ou seja, basicamente, o roteiro de Gregory Burke assume a versão dos fatos de Israel. Eles são os heróis, no fim das contas – ainda que a direção do brasileiro José Padilha mostre que a operação “heroica” de resgate dos reféns foi mais atabalhoada e desastrada do que a história oficial costuma mostrar.

Enfim, aquele foi um episódio importante para Israel e para os palestinos, mas pareceu mais que o sequestro do avião teve a ver com interesses paralelos ao interesse palestino – como o dos apoiadores da RAF, por exemplo, e de outras pessoas que tem a motivação pouco clara no filme, como o líder do núcleo de terroristas e que negocia diretamente com o ditador de Uganda. Afinal, qual era a real motivação daquele cidadão? O filme não deixa isso claro.

Para resumir, Entebbe fraqueja mais por tudo que ele não mostra e não explica do que se sustenta por aquilo que apresenta. As diversas cenas que buscam apresentar a tensão do sequestro acabam sendo bastante repetitivas, e alguns personagens não dizem ao que vieram. Falta contextualização e falta um roteiro que apresente uma versão dos fatos mais crítica e um pouco menos “chapa branca”.

Um exemplo de parte do roteiro que não convence é quando Böse insisti dizendo que nem ele e nem Brigitte Kuhlmann eram nazistas (ou neonazistas). Que a motivação deles não era matar e/ou combater judeus. Certo. Nesse sentido, além de mostrar a “operação heroica” de Israel, Entebbe parece querer convencer a audiência de que a dupla alemã era inocente na história.

Aparentemente, segundo o roteiro, Böse e Brigitte estavam sequestrando um avião cheio de pessoas, inclusive judeus, achando que todos renderiam o resgate de “aliados” de seu movimento “libertário”. Ora, não sejamos inocentes. Eles sabiam que eram alemães e que no voo haveriam muitos judeus. Em que planeta o gesto de alemães ameaçando de morte judeus não faria lembrar a Segunda Guerra Mundial e o extermínio comandado por Hitler? Então o roteiro de Burke me pareceu um tanto estranho e um bocado “parcial”.

No fim das contas, achei esse filme bastante cansativo e pouco explicativo. Valeu por conferir a mais um trabalho do diretor José Padilha que, desta vez, nos entrega um resultado apenas “ok”. O ponto fraco do filme é realmente o roteiro. A ponto de mesmo os atores principais fazerem um trabalho mediano, mas sem realmente nos convencer do que eles estão fazendo.

Para mim, tudo muito mediano. Ou seja, um filme que está longe de ser fundamental. Há muitos outros no mercado bem mais interessantes. Agora, se você, como eu, gosta do diretor José Padilha e de alguns atores em cena, talvez vale a pena investir o seu tempo nesta produção. Mas sabendo que você não verá nada demais em cena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou curioso sobre o grupo Baader Meinhof, recomendo duas leituras e conteúdos. O primeiro é o filme Der Baader Meinhof Komplex, comentado por aqui no blog. E o segundo material que eu recomendo é esse super resumo feito pela Deutsche Welle sobre a história da RAF. Vale aprofundar-se nesse contexto para entender melhor a “motivação” da dupla de alemães que fazem parte do sequestro mostrado em Entebbe.

Falando em contexto, como Entebbe não é muito preciso ou mesmo contextualiza muito bem a história do sequestro, os seus antecedentes e desdobramentos, pode ser interessante ler a alguns textos que relembram aqueles fatos. Vale consultar desde esse artigo da Wikipédia até essa matéria curta da revista IstoÉ, essa reportagem do Acervo de O Globo e essa outra matéria da Folha de S. Paulo.

Ainda bem que muito mudou em relação à aviação civil no mundo nas últimas décadas, não é mesmo? Evoluímos muito em questão de segurança, por exemplo. Nunca hoje um grupo de terroristas entraria com tanta facilidade em um avião com armas dentro das bolsas de mão. O filme também me fez lembrar o tempo em que era permitido fumar dentro dos voos – não que isso seja mostrado em Entebbe, mas esse tipo de falta de controle e de “noção” sobre riscos para o voo veio à minha mente ao ver o sequestro “fácil” do avião que é mostrado nessa produção.

O diretor José Padilha faz um bom trabalho, valorizando as cenas de ação e o trabalho dos atores, mas ele realmente não consegue entregar uma grande produção porque falta para isso um roteiro melhor. Achei o trabalho de Gregory Burke abaixo da média. Infelizmente.

Como o roteiro não ajuda os atores, eles fazem em cena o melhor que eles podem, mas sem nenhum grande destaque. Ainda assim, vale comentar o sempre competente trabalho de Daniel Brühl como Wilfried Böse; de Rosamund Pike como Brigitte Kuhlmann; de Eddier Marsan como Shimon Peres; de Lior Ashkenazi como Yitzhak Rabin; de Ben Schnetzer como Zeev Hirsch, um dos soldados que se destaca no resgate dos reféns; de Nonso Anozie como o ditador de Uganda, Idi Amin; de Mark Ivanir como o general israelense Motta Gur; de Juan Pablo Raba como Juan Pablo, um personagem muito deslocado e mal desenvolvido mas que seria o namorado de Brigitte que pula fora da operação antes dela começar; Denis Ménochet como Jacques Le Moine, o engenheiro da aeronave que se destaca entre os representantes da tripulação do voo; e Angel Bonanni como Yonatan Netanyahu, comandante da operação de resgate.

Falando em roteiro bem mais ou menos, achei uma viagem a história de pelo menos dois personagens: Zeev Hirsch e Juan Pablo. O primeiro, a exemplo do personagem de Jacques Le Moine, “representante” da tripulação da aeronave sequestrada, parece ter sido destacado apenas para que o espectador se sinta mais “próximo” ou familiarizado com o grupo de militares israelenses. Zeev, assim como a sua namorada, aparecem um bocado na história sem ter, realmente, uma relevância grande para o que aconteceu. Eles, como tantos outros, tem a mesma “importância”, digamos assim. Então por que só eles foram destacados? O mesmo sobre o personagem de Juan Pablo, um bocado deslocado na história. Se ao invés de gastar tempo com esses personagens o roteirista tivesse contextualizado mais a situação do sequestro, certamente o filme seria melhor.

Filme arrastado e um bocado longo para o meu gosto. Para ter a entrega que teve, poderia ser um curta ou ter, pelo menos, uns 20 minutos de corte. Há muitas sobras nessa produção ao mesmo tempo em que falta uma contextualização para o filme funcionar melhor.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Rodrigo Amarante; a direção de fotografia de Lula Carvalho; a edição de Daniel Rezende; o design de produção de Kave Quinn; a direção de arte de Charlo Dalli; a decoração de set de Stella Fox; e os figurinos de Bina Daigeler.

Entebbe estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou do Festival BCN. E nada mais. Em sua curta trajetória em eventos, ele não recebeu nenhum prêmio ou indicação.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e apenas 17 positivas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 22% e uma nota média de 5,2. Realmente eu não tenho como discordar dos usuários do site IMDb ou dos críticos. O filme talvez mereça mesmo estar na faixa da nota 5.

No site Metacritic o filme registrou metascore 49, resultado de 6 críticas positivas, 19 críticas medianas e 2 negativas. Acho até que o site foi “bonzinho” com essa produção – especialmente se comparamos com outros metascores. Segundo o site Box Office Mojo, Entebbe faturou US$ 3,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e quase US$ 3 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou. Ou seja, o filme teria feito quase US$ 6,2 milhões. É pouco para Hollywood, mas como não há informações sobre o custo da produção, fica difícil de saber o tamanho do “prejuízo” do filme para os produtores.

Talvez você esteja se perguntando porque eu assisti a esse filme se ele tinha tão pouca aprovação nos sites que eu sempre consulto. Olha, sou franca em dizer que eu resolvi encarar essa produção, basicamente, por duas razões. A primeira, porque eu queria ver ao novo filme do diretor José Padilha. Eu gosto do diretor brasileiro – acho um dos melhores da sua geração. Depois, porque esse filme ainda estava em cartaz no cinema no feriado de 1º de maio e eu resolvi aproveitar ao máximo a minha carteirinha do cinema – incentivo importante do Beiramar Shopping de Florianópolis para pessoas como eu, que ajudam a difundir os bons (ou nem tão bons) filmes que estão em cartaz.

Dito isso, sim, estou em uma fase no estilo “ver o que está passando nos cinemas”. Mas, em breve, quero resgatar os comentários sobre filmes clássicos e/ou históricos que estão fazendo aniversário nesse ano e também ver a outros filmes mais alternativos e que nem sempre passam nos cinemas comerciais. Em breve, meus caros, vou conseguir equilibrar esses três perfis novamente aqui no blog.

Espero que o José Padilha tenha mais sorte em sua próxima produção em Hollywood. Espero que ele conte com um roteiro melhor para trabalhar – ou que ele próprio consiga emplacar um roteiro por lá. Do contrário, ele pode apenas queimar o próprio filme ou cair na “vala comum” de tantos diretores que não emplacaram naquele super competitivo mercado de realizadores.

Entebbe é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos. Por ser tão “chapa branca”, até achei que poderia ter grana de Israel no meio. Mas não.

CONCLUSÃO: Entebbe trata de uma história real para nos ensinar como o idealismo muitas vezes sofre com o pouco contato com a realidade. Ao mesmo tempo que é verdade que não é justo o que Israel historicamente faz com os palestinos, também é verdade que não adianta atacar civis israelenses que não tem nada a ver com isso para tornar a balança “mais justa”. Atacar civis nunca pode ser considerado algo correto.

Bem filmado, mas com um roteiro bastante enfadonho, Entebbe sofre com um ritmo lento e uma história por si só pouco interessante para um longa. Poderia render um belo curta ou, talvez, ficaria melhor em um formato de até 1h30. Mais que isso, é exigir demais do espectador. Apenas mediano, e ainda sendo generosa na avaliação.

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360

As boas e velhas encruzilhadas. Aquelas mesmas que, muitas vezes, não nos damos conta que estamos cruzando. 360, dirigido por Fernando Meirelles, é mais um destes filmes cheios de histórias que filosofa sobre a vida. Não é o melhor deles, mas tem estilo. O diretor brasileiro pegou um grande time de atores e soube tirar proveito deles, utilizando recursos bacanas que um diretor tem para contar uma história – especialmente no que se refere a edição. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Papel de parede barato. Uma bela mulher se coloca à frente dele e arruma o cabelo. Parece um pouco nervosa. Ela olha fixo para a frente, e Rocco (Johannes Krisch) diz que está bem, e que pode dar para ela alguma bebida para que ela relaxe afinal, aquela é uma sessão de fotografias importante. Com aquelas fotos, Mirka (Lucia Siposová) vai conseguir trabalho e fazer um dinheiro impossível em sua realidade. A cidade é Viena, onde homens de negócio pagam bem para prostitutas de luxo. Ali começa a série de histórias de 360, que passa ainda pela Bratislava (Eslováquia), Paris, Londres, Colorado e Phoenix (EUA).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a 360): A sensação de “eu já vi esse filme antes” demora um pouco para acontecer. Na verdade, o espectador que já tem uma boa bagagem de filmes começa a ter essa impressão quando vamos para Londres e nos aproximamos do casal de brasileiros Rui (Juliano Cazarré) e Laura (Maria Flor) e do caso que Rui tem com Rose (Rachel Weisz). Até ali, estamos imersos na fascinante história de Mirka, que utiliza o codinome Blanka, interpretada por Lucia Siposová, um dos pontos fortes de 360.

O filme começa muito bem, obrigado. Os diálogos e a narrativa que introduzem a história de Mirka e de sua irmã Anna (Gabriela Marcinkova) são perfeitos. A forma de conduzir do diretor, também. O “problema” de Mirka/Blanka está lançado, e já é conhecido. Mulher pobre, sem muitas chances de ganhar a vida, vira prostituta de luxo. Com todos os riscos e pesos que isso pode significar. De forma curiosa, a irmã Anna, a quem Mirka parece querer proteger, lhe acompanha os passos. Vai vendo, desde cedo, um pouco de como é a vida – ainda que, ao invés de desencantar-se logo de cara, ela prefira sonhar abraçada a vários livros.

Da sofisticada Viena, passamos para a complicada Bratislava, cidade da Eslováquia que fica a 79 quilômetros – ou 50 minutos de carro da capital austríaca. Após os diálogos iniciais, a música entra em cena de forma predominante, um dos trunfos da produção. E a partir da Eslováquia, outro elemento conhecido e que já virou clássico de diretores como Steven Soderbergh (vide os filmes Ocean’s Eleven, entre outros), também embala a produção: a edição fluida que divide a tela em mais de um ambiente com acontecimentos simultâneos.

Este trecho inicial, que conta a história das irmãs eslovacas, é o melhor da produção. Isso não quer dizer que 360 não tenha bons momentos depois, mas a partir da metade do minuto 17, quando passamos para as outras histórias, começando pela obstinação de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) por Valentina (Dinara Drukarova) em Paris, é inevitável não lembrar de outros filmes com múltiplas histórias que se cruzam.

E é na comparação que 360 perde pontos. Afinal, após 1h44min desta produção, ficamos com um grande “e daí?” na cabeça. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande mensagem desta produção, deixada na reprodução da imagem que passa no painel da fachada de um prédio em Viena, é que a vida segue? De que, volta e meia, quando escolhemos um caminho de uma de várias encruzilhadas que encontramos na vida, estamos abrindo as portas para a felicidade ou para um verdadeiro desastre? Sim, isso tudo é verdade. Mas outras produções que precederam 360 já trataram estas mesmas temáticas de forma mais interessante, com histórias bacanas do início ao fim.

Mas não é isso que acontece com 360. Por mais que eu goste do Anthony Hopkins e que tenha achado boas as participações dos brasileiros Juliano Cazarré e Maria Flor, achei muito fraca a história dos três. A parte mais interssante do trio envolve o contato de Laura com Tyler (Ben Foster). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mais uma vez Foster mostrou porque é um dos grandes nomes de sua geração. Ele exprime com precisão toda a tensão e esforço de seu personagem para controlar a si mesmo e não cometer mais uma loucura. A interpretação dele, junto com Maria Flor, é a mais tensa da produção, e a que deixa melhor a mensagem de “enquanto você se lança em uma direção, é preciso estar preparado para os riscos”.

Porque nesta busca que todos os personagens de 360 parecem fazer para viverem melhor, para serem felizes, há “muitos riscos na esquina”. E estes riscos são muito, muito reais. Quem garante que a pessoa que você conhecer neste noite, em um bar ou clube, não é um psicopata ou uma louca? O que pode acontecer com você se parar na esquina errada na volta da “balada”? Ou quando está abrindo o portão de casa? Essa tensão mostrada no contato entre Laura e Tyler – e até antes, quando ela se aproxima de Anthony Hopkins, para quem não consigo olhar sem imaginar o Dr. Hannibal – e, posteriormente, no encontro entre “Blanka” e o patrão (Mark Ivanir) de Sergei (Vladimir Vdovichenkov), é um dos acertos desta produção.

Algo para contrabalancear com as histórias fracas entre casais em crise, como Rui e Laura e, principalmente – e eis o grande desperdício desta produção – Michael Day (Jude Law) e Rose. Muito espaço para eles, que não demonstraram química alguma. Ainda assim, claro, há uma razão para o roteirista Peter Morgan, que se inspirou na peça Reigen, do mestre Arthur Schnitzler, ter colocado eles ali.

Faz parte da reflexão deste filme as escolhas que Laura, Michael e Rose tomaram. Romper uma relação ou manter um casamento são escolhas fundamentais, que ajudam a definir o resto das nossas vidas. Decidir permanecer ou partir altera tudo. Mesmo que estas sejam verdades universais, perto do perigo de aproximações como as que Laura e Anna fazem, assim como as histórias delas e mesmo da pouco explorada relação entre o dentista e Valentina, ou mesmo da história de Sergei, estas decisões de casais que seguem ou que se rompem revela-se menos interessante.

Além de certas escolhas serem fundamentais, e de muitos perigosos rondarem estes momentos – sem que percebamos algo -, 360 trata de algo fundamental: de como alguns contatos imprevistos podem tornar-se fundamentais na nossa vida. Como uma frase, um bilhete, um abraço colocado na hora certa, podem ser os elementos que nos faltavam para que tudo se encaixe. Para que a vida faça sentido, e para que fique claro o passo que deve ser dado em seguida. São encontros como entre os personagens de Hopkins e Maria Flor, entre outros, que mudam tudo. Algumas vezes para melhor, porque fazem todo o sentido. Outras vezes para pior, porque nos “estraga a vida”. E a beleza de 360, e da vida mesma, é que nunca conseguimos prever ou evitar esses contatos. Eles simplesmente acontecem.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fernando Meirelles mostra, mais uma vez, que pode fazer qualquer projeto muito bem. Seja um “encomendado”, como é o caso deste, seja um que ele assuma desde o princípio, incluído o roteiro. Junto com Walter Salles, sem dúvida, é o grande diretor brasileiro da atualidade.

360 tem um elenco primoroso. Todos fazem bem os seus papéis, mas alguns se destacam mais que os outros. Tiro o chapéu para Lucia Siposová, que rouba a cena toda vez que aparece e, mesmo com papéis menores, para Gabriela Marcinkova e Vladimir Vdovichenkov. Sem dúvida alguma, o melhor núcleo da produção. Também merecem uma reverência os sempre competentes Jamel Debbouze e Ben Foster.

Da série, “que desperdício”, destaque para o ótimo ator alemão Moritz Bleibtreu que, aqui, faz quase uma ponta. Poucas cenas e alguns diálogos – além do troféu de personagem mais sacana da produção. Jude Law e Rachel Weisz cumprem os seus papéis, sem destaque. E o melhor momento de Anthony Hopkins é seu “desabafo” em um grupo de apoio. Não é o seu melhor desempenho.

Mesmo em papéis micro, os geniais Johannes Krisch e Dinara Drukarova brilham. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela, em especial, na sequência em que sua vontade é totalmente aniquilada pelo dentista. Ah, se as pessoas soubessem ler os sinais… e se fossem mais valentes, corajosas… Tantas histórias de amor não se perderiam no vazio, causando sofrimentos desnecessários.

Merece uma menção, também, a ponta de Marianne Jean-Baptiste como Fran, a profissional que ajuda Tyler a ficar na linha.

A trilha sonora de 360 é um dos pontos fortes do filme. Belo trabalho que carece de crédito – não encontrei o responsável pela seleção musical e nem a lista completa de canções que faz parte da histórias. Apenas que uma delas, Helium Reprise, é interpretada por Mike Patton e Mark Orton.

360 estreou em setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros dois festivais, o de Londres e o de Munique. Nesta trajetória, foi indicado a apenas um prêmio, o de melhor filme em Londres. Mas, até o momento, não recebeu a nenhum prêmio.

Segundo o site Box Office Mojo, 360 teria arrecadado, nas bilheterias dos EUA, quase US$ 70 mil. Sim, mil dólares e não milhões… é que o filme estreou em poucas salas – começou com duas, passou para 11 no dia 12 de agosto e, na semana seguinte, já baixou para oito salas nos Estados Unidos. Por mais que tenha um grande elenco em cartaz, assim o filme não vai conseguir ter um bom desempenho.

360 não se saiu bem nas avaliações de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para a produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 49 críticas negativas e apenas 12 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 20% e uma nota média de 4,4.

Esta é uma produção entre Reino Unido, Áustria, França e Brasil.

Caros leitores, quem leu este texto logo depois que eu o publiquei, na tarde do domingo dia 26/08, deve ter estranhado que eu não citei aspectos técnicos da produção. Por puro esquecimento. Mas lá vai a correção: além dos nomes citados, quero destacar a ótima direção de fotografia de Adriano Goldman e, principalmente, a edição precisa e que deixa o filme bastante fluente de Daniel Rezende.

CONCLUSÃO: Determinadas escolhas definem uma vida. E, muitas vezes quando elas são tomadas, a pessoa que decidiu um caminho entre dois ou vários não se dá conta da importância daquela escolha. Por um lado, isso é triste. Porque seria importante sabermos quando uma decisão é fundamental. Depois dificilmente dá para voltar atrás. Por outro lado, talvez essa falta de clareza sobre as bifurcações dos caminhos da vida seja a graça própria que ela tem. Esta incerteza e falta de sinais sobre os momentos fundamentais seja o que torna a vida imprevista – e surpreendente. 360 dá um giro em diversas cidades de alguns países para focar as escolhas de gente muito diferente. Todas, incrivelmente, de certa forma ligadas. A premissa não é nova, e outros filmes (como Magnolia, em um universo menor) fizeram essa reflexão melhor. Mas o filme de Meirelles tem um elenco muito bom, e o mérito de contar as histórias de forma interessante. Não é um filme que pesa, ainda que algumas histórias sejam menos interessantes. A sorte do espectador é que as que começam e terminam o filme são as melhores da produção. Daí que os gostinhos de “e daí?” e “eu já vi esse filme antes” se tornam mesmo intensos. Esta não é uma produção que vai marcar a sua vida. Mas pode fazer você pensar sobre caminhos escolhidos. O que comprova que, mesmo requentada, ela não é de todo descartável.